terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu consigo ver a Morte

A primeira vez que a gente se encontrou eu estava no segundo ano. A escola que eu estudava tinha dividido o refeitório em duas salas extras, então todo mundo almoçava nas salas de aula mesmo. Eu estava sentado numa mesinha redonda pequena com dois dos meus amigos, trocando salgadinhos e combinando qual brincadeira a gente ia fazer no recreio no parquinho. Eu estava prestes a morder um dos meus salgadinhos quando outro garoto veio correndo.

“Esses são biscoitos de pasta de amendoim?!”

Eu pisquei uma vez de surpresa e dei um aceno pequeno com a cabeça.

“Quer trocar? Eu tenho Starburst!”

Esse moleque não fazia ideia do que estava fazendo. Starburst por uns biscoitinhos de pasta de amendoim? Era tipo trocar um diamante por um pedaço de carvão. Sendo o esperto do segundo ano que eu era, enfiei o pacotinho na mão dele todo animado enquanto ele jogava quatro Starburst na minha lancheira. Fiquei sorrindo praquela pilhadinha colorida enquanto ele saía saltitando pra mesa dele. Desembrulhei um rosa — o meu favorito — e enfiei na boca. Mal tinha dado duas mastigadas quando um grito explodiu pela sala inteira. As crianças da mesa do canto estavam de pé, todas amontoadas em volta de um menino que tinha caído no chão.

O garoto que tinha trocado comigo.

Ele estava estirado no chão se contorcendo igual minhoca que acabou de ser jogada no sol. As mãozinhas arranhavam a garganta vermelha enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas que já estavam inchando. A professora atravessou a sala correndo e se ajoelhou do lado dele enquanto todo mundo se aproximava formando um círculo.

“James!” ela gritou, envolvendo ele com as mãos pra tentar levantar. “O que aconteceu? O que você comeu?”

Um gemido sufocado saiu da garganta do James enquanto uma mãozinha tremendo apontava na direção da mesa. A professora olhou por cima do ombro, segurando ele no colo com uma mão enquanto a outra pegava o pacotinho de biscoitos que ele estava comendo. Leu o rótulo e a cara dela ficou branca que nem papel.

“Meu Deus do céu”, ela sussurrou, levantando o James contra o peito enquanto se colocava de pé. “Ele é alérgico a amendoim!”

E saiu voando dali; correu porta afora com o menino nos braços gritando pela enfermeira. A sala ficou em silêncio, só com alguns soluços de crianças chorando. Exatos dois minutos depois outra professora entrou e começou a mandar todo mundo de volta pras salas. Eu fiquei no fundão da fila só pra olhar mais um pouco pra mesa. Pra olhar pro pacotinho de biscoitos que eu tinha dado pro James.

Eu me virei. Ia me esconder atrás da minha mochila no escaninho. Eles não iam chamar a polícia por causa de uma criança do segundo ano, mas na hora eu não sabia disso. Eu só sabia que o James podia estar morrendo e que a culpa era toda minha. Parei no meio do caminho quando minha mão já estava empurrando a mochila pro lado.

Tinha outra pessoa ali.

Cabelo preto igual tinta arrastava devagar pelo piso de linóleo. Pele branca que parecia quase transparente debaixo das luzes fluorescentes. Ela usava um terno todo preto, exceto pela camisa cinza-escura por baixo e a gravata vermelho-sangue. Formal. Séria. Sapatos sociais brilhantes batiam ritmadamente no chão enquanto ela dava a volta na mesa do canto. Uma mão pálida pegou um dos biscoitos, levantando pra inspecionar a mordida que tinha sido dada. A mordida que o James tinha dado. A mordida do biscoito que eu dei pra ele.

Em pânico, eu corri e puxei a barra da calça dela.

“Eu… eu sinto muito!” eu engasguei, a voz saindo chorosa e entrecortada enquanto minha mão apertava mais o tecido. “Eu… eu não sabia!”

Ela não olhou pra mim de imediato. Estava concentrada na mordida do biscoito, o polegar traçando devagar a borda da marca. Não fez nenhum som.

Finalmente, depois de um minuto inteiro de eu chorando e fungando no tecido da calça dela, ela colocou o biscoito de volta na mesa e se agachou pra colocar as mãos nos meus ombros. Levantei a cabeça e dei um pulo pra trás com o que vi.

Ela não tinha boca. Nem nariz. O rosto era só um par de olhos escuros. Não estou falando só das pupilas — os olhos inteiros eram pretos. Não tinha nem pupila! Eram buracos negros sem alma, sem emoção. Só… coisas. Espaços vazios. Como se fosse uma boneca que ainda não tinha recebido pintura.

Nenhum de nós falou nada por um tempo longo. Ela me segurava firme pelos ombros e eu era obrigado a encarar. Só quando comecei a me remexer querendo soltar que ela me soltou e se levantou. Os “olhos” dela varreram a sala uma vez, como um predador procurando presa, antes de ela se dirigir pra porta aberta. Ela abaixou a cabeça e curvou o corpo pra passar pela porta. Quando conseguiu ficar de pé lá fora, seguiu pelo corredor.

Eu fui atrás.

Encontrei ela parada na porta da enfermaria. Estava olhando pela janelinha pequena, os olhos acompanhando os movimentos das pessoas lá dentro. Eu conseguia ouvir a professora chorando do outro lado da porta, se culpando por não ter prestado mais atenção. Mas não era culpa dela. Os pais do James nunca tinham falado da alergia; ninguém tinha como saber que isso ia acontecer.

Eu me escondi embaixo de um banco quando a porta abriu.

“Vou fazer mais uma ligação pros pais.” A professora fungou, secando os olhos com um lenço. “A ambulância deve chegar logo pra buscar ele.”

Um murmúrio veio de dentro, provavelmente a enfermeira, antes dela sair pelo corredor com o telefone na mão. A mulher entrou no quarto bem na hora que a porta ia fechar e eu saí rastejando debaixo do banco pra correr atrás. A porta fechou com um clique suave. Encontrei a mulher parada ao lado do leito onde o James estava sentado com as costas encostadas na parede.

A respiração dele estava pesada, mas mais calma do que antes. Uma das mãos descansava numa parte da coxa, o polegar esfregando o lugar. Os olhos dele estavam grudados na mulher. Ele também conseguia vê-la.

James tentou se afastar quando ela chegou mais perto; uma mão com unhas afiadas tocou de leve a bochecha inchada dele. A outra mão foi pro cabelo, enroscando nos fios num carinho lento. Pra minha surpresa, ele relaxou e se encostou no toque carinhoso. Uma lágrima rolou pela bochecha enquanto ele piscava.

“Eu quero”, uma pausa. Ele lutou pra falar. “minha mamãe.”

Ela respondeu se inclinando. A parte onde a boca deveria estar encostou de leve no meio da testa dele. Um beijo. O peito dele subiu e desceu num suspiro longo.

Eu fiquei ali, olhando enquanto ela acariciava o cabelo dele e o mantinha calmo até os paramédicos chegarem. Vi quando levaram ele embora pela sala e pelo corredor. Vi quando ela entrou na ambulância junto e sentou perto dele.

O James nunca voltou.

A segunda vez foi no quinto ano. Eu estava no meio de um círculo de crianças em cima do trepa-trepa onde duas irmãs estavam discutindo quem era a mais corajosa. As duas viviam se desafiando. Na semana passada tinha sido quem aguentava comer a mistura mais nojenta que o Tyler conseguia inventar. Teve muito vômito naquele dia.

Agora uma das irmãs, Tanya, estava de mãos na cintura com um sorrisinho convencido na cara.

“Eu consigo ficar em pé no topo das barras!”

“Prova!” a irmã dela, Marjorie, gritou.

Tanya, fiel à palavra, subiu a escadinha das barras e se arrastou até o topo. Depois de andar até o meio, ela parou na barra central com as pernas tremendo. Todo mundo começou a bater palma, impressionado com o equilíbrio dela naquela barra escorregadia. O pé da Marjorie bateu com força nas aparas de madeira do chão, braços cruzados enquanto Tanya descia.

“É?! Pois então”, ela olhou em volta, os olhos varrendo o campo até que de repente brilharam. “Eu consigo subir a fera!”

Um “ooooh” coletivo passou pela galera. A “fera” era um carvalho gigante de uns doze metros lá no canto mais afastado do campo. O tronco era grosso e impossível de escalar. Quem tentava geralmente escorregava, mas se a Marjorie conseguisse ao menos alcançar o primeiro galho, ela entraria pra história da escola.

Tanya deu uma risadinha debochada. “Aposto que não consegue!”

“Aposto que sim!”

E com isso Marjorie saiu correndo morro abaixo em direção à árvore. Demorou um segundo pra galera entender e todo mundo correu atrás. Ninguém queria perder isso!

Todo mundo se juntou em volta do tronco. Algumas meninas torciam pela Marjorie enquanto ela se preparava pra subir, alguns meninos gritavam que ela não ia conseguir. O pé esquerdo dela testou o tronco duas vezes. Quando achou um ponto de apoio, ela amarrou o cabelo num coque e pulou na árvore. A gente ficou olhando enquanto ela subia devagar, sapatos e mãos cravando na casca toda vez que começava a escorregar. Quando ela estava na metade do tronco, um arrepio subiu pela minha nuca. Olhei por cima do ombro.

A mulher estava parada no fundo da multidão, braços cruzados atrás das costas, olhos fixos na Marjorie. Engoli em seco, olhei rápido pra árvore e abri caminho pela multidão. Quando cheguei na frente dela, fiz um barulho de pigarro pra chamar atenção. Não funcionou. Tentei de novo. Nada. Estiquei a mão e puxei de leve a barra do paletó.

“Oi.”

A cabeça dela abaixou e eu tremi quando aqueles buracos pretos encontraram meus olhos. Minha mão caiu e ficou batendo desajeitada na minha própria coxa.

“Gostei da sua… gravata.”

Nada; nem um leve movimento de cabeça. Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, decidi virar de volta pra árvore bem na hora que a Marjorie estava esticando o braço pro primeiro galho. As pontas dos dedos dela roçaram a parte de baixo. Um suspiro coletivo passou pela galera. Ela bufou e se jogou pra frente. As duas mãos agarraram o galho e ela ficou pendurada ali por exatos dez segundos antes de se puxar pra cima e sentar no galho. Outro suspiro. Todo mundo começou a gritar, pular e comemorar que ela tinha conseguido. Marjorie era a primeira criança a subir a fera.

Com uma risada cheia de orgulho, ela olhou feio pra Tanya, que estava fervendo de raiva.

“Eu disse que conseguia. Na verdade…”

Ela se ajeitou pra ficar de pé e a mulher do meu lado deu um passo à frente. Eu olhei de canto pra ela enquanto Marjorie pegava o próximo galho, depois o próximo. Tanya ficou mais brava ainda, gritando pra ela descer. Ela estava gritando tão alto que um professor finalmente percebeu pra onde todo mundo tinha ido e parou no topo do morrinho.

“O que vocês estão fazendo aí embaixo? Subam aqui agora mesmo, faltam cinco minutos pro recreio acabar!”

Alguns tentaram argumentar, mas o professor balançou a cabeça.

“Eu disse pra sair de perto da árvore!”

Algumas crianças resmungaram e reclamaram, mas como ninguém queria levar bronca, todo mundo começou a subir o morro devagar. Eu mantive os olhos na mulher que ainda estava olhando a Marjorie subir cada vez mais alto.

Algo estava errado.

“Marjorie!” eu gritei, jogando a cabeça pra trás pra ver ela alcançar outro galho. “Você tem que descer!”

“De jeito nenhum!” ela se puxou com um grunhido. “Vou chegar no topo!”

Pensei em subir na árvore pra buscar ela, mas não sabia se eu ia me machucar ou pior no processo. Se eu gritasse pro professor, ia demorar muito pra ele descer e impedir antes que acontecesse alguma coisa. Então, num impulso desesperado, agarrei o braço da mulher e puxei.

“Você tem que parar ela, por favor!”

Ela olhou pra mim.

“Você… você tem que fazer alguma coisa!”

O outro braço dela subiu, a palma virada na minha direção. Os dedos pálidos foram se fechando devagar. Cinco, quatro, três, dois…

Marjorie bateu no chão com um baque nauseante.

Uma série de gritos explodiu do grupo no morro enquanto eu virava a cabeça pra olhar o corpo. Uma das pernas estava torcida pro lado errado e um osso do antebraço esquerdo tinha furado a pele rasgada. Sangue escorria devagar de uma das orelhas e uma folha parecia grudada num dos olhos ainda abertos.

Minhas mãos caíram ao lado do corpo. A mulher ao meu lado se moveu, agachou do lado do corpo da Marjorie e deixou a mão deslizar pela bochecha ainda quente. Ficou ali um tempo enquanto a cabeça dela baixava e os olhos escuros se fechavam. Era como se estivesse dando um momento de paz pra morte dela. Uma aceitação. E parecia que o tempo tinha desacelerado pra não permitir interrupções.

Depois do que pareceu uma eternidade (mas provavelmente não passou de um minuto inteiro), os olhos dela se abriram devagar e ela se levantou completamente. A cabeça virou na minha direção. Minha respiração travou quando ela abaixou só um pouquinho antes de voltar a subir. Um aceno. Reconhecimento. Quis falar alguma coisa, fazer alguma coisa. Mas fiquei pregado no lugar e só consegui olhar enquanto ela passava por trás da árvore grande e desaparecia.

Fecharam a escola por duas semanas pra cortar a árvore. Não queriam arriscar outro acidente.

A gente continuou se encontrando ao longo dos anos enquanto eu ia ficando mais velho. O quarterback estrela morreu num acidente de carro bêbado na noite do baile de formatura. Presenciei um acidente de carro no caminho pra faculdade. Alguém foi desafiado a pular do telhado da fraternidade numa festa; ainda lembro do som do crânio batendo na borda da piscina.

Uma noite, poucos dias antes da formatura, meu pai me ligou. Minha avó estava doente e internada há algumas semanas. Ele disse que ela estava piorando. Mais pálida, mais fraca, uma casca da mulher vibrante que ela já tinha sido. Ele não precisou falar muito; eu já estava arrumando uma mala.

Fiquei de lado enquanto meus pais conversavam com o médico, pegando pedaços da conversa. “Ela não está melhorando.” “Não falta muito.” “Não criem muita expectativa.” Eu sempre soube que esse dia ia chegar. Minha avó tinha 92 anos, o sistema imunológico era frágil e a força quase não existia mais. Ela simplesmente não aguentava. Minha mãe começou a chorar. Saiu correndo pelo corredor com meu pai gritando pra ela voltar enquanto ia atrás. Eu entrei no quarto. A porta fechou com um rangido suave enquanto meus olhos encontravam o leito.

Ela já estava lá.

A mulher, sentada numa cadeira ao lado da cama da minha avó, observava o rosto adormecido dela. Os polegares batiam um no outro no mesmo ritmo das respirações lentas do corpo. Parei do outro lado da cama, ombros tensos.

“Ela tem que ir mesmo?”

Os polegares pararam por uma fração de segundo antes de continuarem.

“Quanto… tempo ainda?”

Não tive resposta; embora eu já esperasse isso. Era raro ela responder minhas perguntas ou sequer dar um oi de volta. Normalmente minhas palavras só recebiam um olhar fixo.

Ao longo dos anos eu tinha criado várias teorias sobre quem ela poderia ser. Talvez fosse um fantasma preso na Terra que escolhia passar o tempo observando quem estava morrendo. Uma vez eu até pensei que podia ser uma alucinação. Um truque da minha mente pra tentar se confortar toda vez que eu via uma morte. Parecia a teoria mais óbvia já que eu era o único que conseguia vê-la, mas sempre voltava pro primeiro encontro.

O James tinha visto ela. Tinha falado com ela. Ela era real.

Minha avó começou a tossir. A mulher ao lado dela foi rápida, levantou da cadeira e pegou a ponta do cobertor fino que cobria as pernas dela. Puxou até os ombros, ajeitando os lados pra manter ela aquecida. Uma mão limpou o suor da testa enquanto a outra alisava o cabelo grisalho pra trás. Cada gesto era feito com um cuidado extremo, como se a pessoa sendo cuidada fosse feita da porcelana mais frágil do mundo.

A mão esquerda dela desceu e parou em cima do coração da minha avó. Os ombros dela caíram por um instante antes de voltarem pra postura séria de sempre. Eu já tinha visto aquela expressão antes. Era a única vez rara que eu via qualquer emoção nela, um vislumbre de como humana ela podia ser.

Agora eu estava vendo de novo. Agora eu via a percepção de que o tempo estava acabando.

A cabeça da mulher baixou, a parte de baixo do rosto roçando a testa da minha avó naquele beijo silencioso de sempre. O queixo subiu e desceu; quase como se estivesse falando. Mas não tinha som. Só o bipe ocasional do monitor cardíaco. A respiração da minha avó começou a falhar. Os dedos da mão direita se fecharam apertando o tecido do cobertor. O peito se expandiu com uma inspiração funda antes de desabar devagar enquanto o último suspiro escapava pelos lábios entreabertos. Ela ficou imóvel. Silenciosa.

O bipe contínuo do monitor foi ensurdecedor.

Abaisei a cabeça pra acompanhar o breve momento de silêncio que a mulher sempre fazia depois de cada morte. Quando finalmente levantei os olhos, ela estava de pé me encarando. Meu lábio inferior tremeu.

“Obrigado.”

Saí do quarto, mas não fui longe. Sentei na guia da entrada do hospital com um cigarro entre os lábios. Acendi o isqueiro bem na hora que a mulher sentou do meu lado. Minha mão congelou no ar, os olhos indo dela pra chama. Baixei o isqueiro.

“Obrigado”, tirei o cigarro da boca e fiquei girando ele entre os dedos, “de novo.”

As mãos dela se dobraram direitinho sobre um dos joelhos, os polegares batendo três vezes antes de formarem um “x”. Foquei no rosto dela; no jeito que os olhos estavam fixos nas estrelas lá em cima. Ela não tinha envelhecido um dia desde a primeira vez que nos vimos. O cabelo ainda era longo, saudável. Até o terno estava impecável. Sem uma dobra sequer; nunca. Era quase impossível imaginá-la desarrumada. Meu polegar passou pelo isqueiro que agora estava na guia.

“Por que eu consigo te ver?”

O queixo dela abaixou. As mãos se apertaram uma vez antes de relaxarem.

“Você… tem um nome?”

Bat. Bat. Bat.

Meu Deus como eu odiava quando ela me ignorava.

“Por favor?”

Os dedos dela se soltaram. Uma mão flexionou, os ossos do pulso estalando enquanto dobrava pra trás demais, depois apontou um dedo longo pra cima. Levantei a cabeça pra olhar o céu. Estava escuro como breu, só com poucas estrelas; tipo espinhas na pele.

“Lua?” Olhei de canto pra ela. A mão dela desceu e eu sorri. “Gostei desse nome.”

Silêncio conhecido. Não tentei preencher. Na verdade eu tinha começado a gostar desses momentos breves que a gente dividia. Momentos que não eram cobertos por morte e sangue; mas uma paz calma.

Mas eu tenho a boca grande e tinha que estragar tudo.

“Então… quantos anos eu vou tirar da minha vida se fumar um cigarro?” Dei uma risadinha com a piada horrível.

Ela não riu. A mão subiu de novo mostrando três dedos. Meu sorriso caiu.

“Entendi.” Olhei pro estacionamento. “Vou morrer por causa de cigarro?”

Os olhos dela se estreitaram na minha direção. Dei de ombros. “Só perguntando.”

Fiquei em silêncio por exatos um minuto.

“E acidente de carro?”
“Assassinato?”
“Incêndio em casa?”

Parei. “Combustão espontânea?”

Ela apertou a pele entre os olhos e eu ri. “Que foi? É uma possibilidade real.”

Deixei os ombros relaxarem enquanto a burrice das minhas perguntas se dissipava no ar. Não era como se eu estivesse esperando respostas de verdade; ela nunca falava. Nem podia, na real; não tinha boca. Mas era bom conseguir algum tipo de emoção da mulher que basicamente me assombrava desde o primário. Ela virou pra mim de novo com um olhar que não era exatamente irritação. Era mais… diversão. Me fez sentir um calorzinho gostoso por dentro; como se tivesse ganhado um tapinha de aprovação nas costas. Ela estava se acostumando comigo, dava pra sentir.

Por isso eu não entendi essa sensação estranha de pavor que começou a coçar a nuca. Era insistente, tentando forçar caminho até a frente da minha mente. Era algo que já tinha acontecido várias vezes antes. Todo mundo tem aquela vozinha na cabeça que faz a gente pensar no pior. Era só precaução. Não era nada.

Então por que doeu tanto quando eu perguntei—

“Eu vou me matar?”

O silêncio que veio depois foi diferente. Ensurdecedor. A mulher ficou completamente imóvel. Nem os dedos estavam batendo do jeito que costumavam quando eu esperava resposta. Era quase um código Morse particular dela; a linguagem dela. Era o jeito dela falar comigo sem usar palavras. Mas agora não tinha nenhum som.

As sobrancelhas dela se juntaram no meio da testa. A cabeça inclinou só um centímetro pro lado esquerdo e o corpo se curvou pra frente o suficiente pra ser perceptível. Era o olhar que se dá pra uma criança que caiu de repente no chão e está procurando consolo. Como se a pessoa estivesse esperando um sinal pra se aproximar, pra fazer “psiu” e acolher.

E isso, por si só, já foi toda a resposta que eu precisava.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sem Rastro

Abro os olhos com a luz que se infiltra pelas minhas cortinas. Não importa quanto tempo fiquei deitado ali, nem quanto tempo passei bebendo — eu estava com medo demais de dormir e descobrir que pesadelos minha mente poderia conjurar. Todos os meus pensamentos estavam nele. No meu filho. Parei de me afundar na própria miséria, me arrastei para fora da cama e me preparei para voltar lá fora.

Naquela manhã, quando ele foi embora, eu não fazia a menor ideia de que poderia ser a última vez que eu o veria. Ele estava tão animado — tinha planejado aquela viagem com os amigos durante meses, se dedicou nos estudos, arrumou um emprego de meio período pra ajudar com as contas. Ele era, é, um bom garoto. E eu sou um pai horrível por ter deixado ele ir lá fora. Para dentro da floresta.

Ele só tinha sumido por uma noite quando aquele aperto no estômago começou. Tentei me convencer de que era só o nervosismo falando mais alto. Eu devia ter ouvido esse instinto. Se tivesse ouvido, talvez eu não estivesse parado aqui no corredor agora, engolindo seco, olhando pras fotos dele na parede. Todas elas parecem diferentes agora. Manchadas. Quando olho nos olhos dele em cada foto, sinto julgamento, culpa, tristeza — tudo misturado numa bola enorme de ódio por mim mesmo. Se eu não voltar lá fora, não terei como me chamar de pai. Muito menos de homem. Mas antes de ir, preciso deixar alguma coisa registrada. Por precaução.

Meu filho saiu numa viagem de acampamento com os amigos depois de terminar o ensino médio. Era o assunto de semanas. Acampamos juntos quando ele era pequeno, e depois que pegou gosto pelo ar livre, eu mal conseguia botar o pé em casa quando a gente voltava — ele já estava perguntando: "Quando a gente vai de novo, pai?" Mas com o tempo, fui ficando sem tempo livre pra passar com ele. Isso nunca foi cobrado de mim. Eu nem o culparia se fosse, mas depois de trabalhar a madrugada toda, ele já estava saindo pra escola quando eu desabava na cama. Ainda assim, me esforcei pra todo aniversário a gente ir lá pra fora juntos — só pra ver ele sorrir.

Naquela manhã, antes de ele ir, eu dei um presente pra ele. Não era grande coisa, mas tinha mais valor sentimental do que qualquer outra coisa. Era um relógio que meu pai me deu há muito tempo, mais ou menos na idade dele — estava deteriorado pelos anos, mas depois de gastar um dinheiro, fui lá e mandei consertar, fazendo ele brilhar pela primeira vez em décadas. Então, justo antes de ele sair, eu o surpreendi com o relógio, e a expressão no rosto dele não tinha preço. Ele me abraçou, agradecendo pelo presente, enquanto eu passava as regras com ele mais uma vez. "Lembra de—" ele me cortou com a lista mental que eu tinha preparado com ele: "Acampar num lugar seguro com sinal, deixar o celular ligado e te ligar pelo menos uma vez por dia." "Isso. E tenta não beber muito, tá? Não quero você voltando aqui fedendo o lugar todo." "Não vai ter bebida, pai", ele disse com uma cara meio convincente. "É, é isso mesmo. Vai com calma, tá bom?" Ele deu aquele meio sorriso. "Pode deixar, pai." Passei a mão no cabelo dele e o mandei embora pela porta.

Eu não contei pra ele.

Eu devia ter contado.

Quando o sol começou a se pôr naquele sábado ensolarado, meu celular tocou."E aí, filho, tudo bem?" Eu conseguia sentir o entusiasmo dele irradiando pelo telefone. "Tá ótimo, pai, só ligando pra avisar que cheguei bem e as barracas tão montadas. Você tinha que ver isso aqui — a floresta tá incrível, fez fresco o dia todo." Ele devia ter achado um lugarzinho e tanto lá no meio das árvores. "Apostei. Toda essa sombra deve ser ótima — eu tava suando os colhões aqui o dia inteiro!" Ouvi ele dar uma risada. "Bom, obrigado pelo aviso. Olha, amanhã eu chego no fim da tarde. Tava pensando em pedir comida?" "Ótimo. Pode ir se divertir. Se diverte muito, filho." "Tchau, pai."

Tchau, filho.

Na manhã seguinte, levantei e comecei a resolver tudo que tinha deixado de lado no dia anterior, enquanto ficava pensando no que pedir pra jantar mais tarde — cogitei passar na pizzaria quando ele chegasse. Horas se passaram enquanto eu esperava o celular tocar, alguma atualização sobre quando exatamente ele estaria de volta. Mas quando aquele fim de tarde foi avançando e virando o início da noite, aquele nó no estômago foi apertando até que eu cedi ao sentimento e liguei pra ele.

Existe um ponto entre quando algo terrível já aconteceu e um ponto quando você ainda está vivendo na ignorância. Se eu soubesse que fiquei nessa ignorância por horas, teria ido lá antes. Talvez eu pudesse ter… O sinal chamou, pedindo pra eu deixar uma mensagem. Deixei uma dizendo pra me avisar quando ele chegasse. Uma hora se passou. "Por favor, deixe uma mensagem." Vinte minutos se passaram. "Por favor, deixe uma mensagem." Os segundos pareciam dias. "Por favor, deixe uma mensagem."

Liguei para os outros pais cujos filhos também estavam lá, perguntando se tinham recebido algum contato. Cada um com quem falei tinha a mesma situação que a minha. "Por favor, deixe uma mensagem." Os outros pais tentavam me tranquilizar tanto quanto tentavam se tranquilizar. "Eles tão bem, são bons garotos — provavelmente pararam pra jantar em algum lugar no caminho de volta." Mas o tom, algo escapava quando falavam — eu conseguia ouvir a fachada que estavam erguendo. A mesma que eu estava erguendo, com piadas e sorrisos sobre como eles provavelmente não queriam ser incomodados pelos pais velhos nem por uma vez. Mas todos nós sentíamos. Algo estava errado.

Liguei pra polícia pra registrar pessoas desaparecidas à meia-noite.

Por que a gente faz isso — esperar até o último momento possível pra tentar resolver alguma coisa? Até a polícia da minha cidade tem aquela regra idiota. "Sinto muito, senhor, só podemos registrar um desaparecimento depois de quarenta e oito horas." Tentaram me dar as mesmas garantias — que ele é um adolescente, acabou de fazer dezoito anos, deixa ele se divertir um pouco, ele vai ficar bem.

Entrei no carro, sentindo o nó no estômago apertar. Ignorando a dor, saí na madrugada em direção ao acampamento, tentando afastar da cabeça os piores cenários. Mas no final, não adiantou nada.

Minha mente nem chegou perto.

Ao chegar na beira da floresta, parei num espaço ao lado de um carro que reconheci muito bem. Ele só tinha carteira há alguns meses, mas estava cheio de confiança desde que passou no teste. Então, ao olhar pro carro que comprei pra ele, minha armadura de confiança, minha fachada de que tudo ia ficar bem, foi se despedaçando — rasgando como um tecido gasto. Eu estava me desfazendo só de olhar pro carro dele.

Saí do carro de um salto com minha lanterna, me arrastando como um bicho pela trilha, chamando por ele repetidamente na mata, ligando pra ele sem parar no celular. Não sei quanto tempo se passou antes de ouvir. Fraco, mas ainda lá. O som de um celular tocando. Corri em direção ao barulho, me permitindo deixar a esperança entrar um pouco. Mas quando atravessei as árvores, aquela fração de esperança de que meu filho estava bem explodiu em pó — me deixando aqui, na chuva, encarando o celular do meu filho. "Por favor, deixe uma mensagem."

Fiquei lá por horas, gritando o nome dele, procurando por ele. Implorando a algum poder maior que o trouxesse de volta pra mim. Procurando um sinal.

Sem rastro.

Os dois policiais de plantão praticamente deram um salto quando eu chutei a porta, exigindo uma equipe de busca — assim como todos os outros pais que liguei no caminho de volta. Estávamos todos com raiva, apavorados e exigindo tudo o que podíamos. Pela manhã, a história estourou nos noticiários. Se espalhou rapidamente pelo país, e nos dias seguintes, a pequena equipe de busca cresceu para centenas de pessoas vasculhando a floresta atrás de qualquer vestígio dos rapazes e do meu filho.

Sem rastro.

Com o passar das semanas, a história parecia "sem mais o que explorar" — esse foi o termo que ouvi um repórter usar de passagem. Precisou de dois homens pra me arrancar dele. Sem mais o que explorar. Como se não houvesse mais nada a retirar da história do meu filho — nada sobrando além dos ossos dele. Parasitas, todos eles — sugando nossa dor e desespero. Menos gente foi aparecendo nas buscas por causa disso. Outros perderam a esperança conforme as semanas viraram meses. E assim que a última família me disse que era "hora de enterrar meu filho", me virei e fui embora, deixando-os de luto.

Eu não conseguia fazer isso. Enterrar o quê? Uma caixa vazia? Não. Vesti minha capa de chuva e voltei a entrar.

Onde eu finalmente encontraria um rastro do meu filho.

O acampamento estava completamente pisoteado — a essa altura os policiais tinham parado de se preocupar com a cena do crime, o caso tinha esfriado oficialmente na semana passada, e a estação também esfriara. Uma névoa fria e fantasmagórica começou a rastejar enquanto eu entrava hoje, tornando a busca ainda mais difícil, afastando as últimas famílias e esmagando os restos de esperança que ainda tinham — me deixando exatamente de onde eu havia partido. Na floresta. Sozinho.

Examino os mesmos lugares que já examinei mil vezes antes. Só que dessa vez, eu me sentia diferente. Os pelos da nuca estavam arrepiados.

Algo estava me observando.

Eu não era estranho a essa sensação — ela tinha me acompanhado em cada busca. A sensação de ser zoado à distância, como se alguém soubesse algo que você não sabia, uma piada doentia da qual você não fazia parte. Mas agora que eu estava de volta aqui sozinho, aquela sensação de escárnio se transformou em algo mais sombrio. Maligno. Algo fundo no meu cérebro que estava lá há milhões de anos de evolução — aquele instinto de luta ou fuga, a sensação de ser caçado.

Estalo.

Me virei de supetão e vi uma sombra disparar de volta pelas árvores. "Ei!" foi tudo que consegui gritar antes de sair no encalço. Correndo pelas árvores da melhor forma que conseguia, vi a figura lá na frente parar de vez. Ao me aproximar, comecei a entender o que estava vendo. Meus ombros baixaram quando a realidade bateu. Um veado. Era só um veado. Eu provavelmente assustei o bicho pra caralho quando fui atrás dele. Me aproximei devagar, pensando em como, quando eu era criança, meu pai me levava pra caçar. Pensei em ensinar meu filho também, mas dava pra ver claramente que ele não conseguia machucar nem uma mosca, e eu não ia forçar. Em vez disso, pegamos uma abordagem diferente — trouxemos binóculos pra observar a floresta ao invés de fazer mal a ela.

Tirei os binóculos, já que estava tão perto, só pra sentir algo diferente daquele nó por um momento. Olhei por eles, com zoom no veado, e ele ainda estava na mesma posição. Estava tão perto que conseguia ver nos olhos dele. Aqueles olhos pobres e inocentes. As pupilas estavam dilatadas — ele estava apavorado. Abaixei os binóculos bem na hora de ver os longos fios escuros de cabelo descendo pela névoa com um pescoço se estendendo junto. Um rosto mais comprido que o de um cavalo atravessou o cabelo negro, olhos brancos e pequenos no alto do crânio, focando sua intenção assassina pura e horripilante numa das coisas mais inocentes que já vi.

Devagar, a mandíbula desencaixou com um estalo, e o queixo inferior saltou pra frente, engolindo o veado inteiro como uma cobra, em menos de um segundo. Os gritos que o bicho soltou foram uma paulada no estômago. Nenhum osso estalando, nenhum sangue — era como se o veado nunca tivesse existido. E assim que ela fechou a boca, os gritos do veado cessaram também.

Minhas mãos estavam tremendo. Ver algo que não cabe na sua realidade é suficiente pra mandar qualquer homem pro limite. Sem tirar os olhos dela, dei pequenos passos pra trás — mas no meu tropeco desajeitado, senti minhas costas empurrarem um galho fraco, estalando-o, fazendo o menor barulho do mundo soar como uma bomba explodindo. Encolhi com o barulho, vendo que agora os olhos brancos dela tinham caído sobre mim. Só de encarar de frente, dava pra ver que a linha reta da boca tinha puxado levemente pra cima, dando a ela um ar de prazer. Num piscar de olhos, o rosto comprido se recolheu, subindo de volta pras copas das árvores, onde eu o perdi de vista. Mas logo acima, ouvi galhos quebrando — era quase ensurdecedor conforme os sons avançavam rapidamente em minha direção. Virei e corri.

Com o medo e a confusão, eu mal conseguia distinguir onde estava ao correr pela névoa densa — tinha apenas as poucas marcas de trilha espalhadas pra me guiar. Minhas pernas bombeavam como pistões, gritando de dor, mas tudo o que eu conseguia ouvir eram os barulhos lá em cima e o sangue trovejando nos meus ouvidos — e tudo isso veio a um brusco fim quando colidi com um galho atravessado na trilha, me jogando de costas no chão. Foi então que eu vi. Vi tudo.

Primeiro vi os braços de preguiça que ela usava pra se mover pela floresta — suas garras longas envolviam cada árvore grande com facilidade, se mantendo suspensa acima do chão. O corpo era mais uma bolsa de fluidos do que qualquer outra coisa, com a barriga transparente, me deixando ver seus conteúdos repugnantes. Conseguia ver o veado lá dentro, flutuando inerte, sufocado nos sucos do estômago dela, sendo absorvido lentamente. Toda essa informação horrorosa foi sendo gravada na minha mente enquanto olhei pra ela por apenas alguns segundos — antes de rolar pro lado e desviar da boca em forma de cobra que desceu pra me pegar e me mergulhar naquele saco escuro. Depois de rolar, me empurrei do chão e dei uma última corrida desesperada em direção à beira da floresta, que agora estava à vista, enquanto tentava expulsar da cabeça aquele último detalhe condenatório.

Mas eu vi.

Atravessei a beira da floresta e me joguei contra o carro, mãos tremendo com as chaves, lágrimas escorrendo pelos olhos. Mas agora não importava mais — o monstro tinha ficado sem espaço pra se mover. Tudo o que restava era ir embora. Mas fiquei parado ali ao perceber que não estava em perigo. Me virei pra encarar a floresta de novo e olhei alto pras copas das árvores. Conseguia ver ela, mal e mal. Dois olhos brancos me olhando lá de cima. Senti a raiva fervendo no peito. O último clarão que vi quando olhei pra dentro dela. Meu último presente pro meu filho.

O relógio que dei a ele estava flutuando na bile dela.

Gritei.

Gritei e chorei o caminho todo pra casa, socando o volante — mãos roxas, nós dos dedos sangrando. Minha mente fica repetindo todas aquelas viagens lá fora com todo mundo. Todo esse tempo.

Por que eu não olhei pra cima?

Escrevo isso agora porque planejo voltar lá fora, e quero que as pessoas saibam o que aconteceu com aqueles rapazes, com o meu filho. Toda vez que fecho os olhos, vejo aquele sorriso maligno da coisa. Ela sabe quem eu sou. Essa criatura não mata só pra sobreviver — ela sente prazer nisso, e leva seu tempo porque consegue digerir a comida devagar. Ela é paciente. Mas eu não sou. Vou atualizar quando voltar, mas por enquanto, estou pegando meu rifle de caça e voltando pra recuperar a última coisa que ainda consigo tirar dela.

Um pedaço do meu filho.

Um rastro.

domingo, 17 de maio de 2026

Eu Saí em Busca da Mina de Ouro do Holandês Perdido. Queria Nunca Tê-la Encontrado...

Eu fui criado ouvindo a lenda da Mina de Ouro do Holandês Perdido a vida inteira. Meu pai era obcecado. Ele lia todas as histórias, fazia trilha em cada caminho, e encontrava todo mapa que conseguia. Ele acreditava de verdade que seria ele quem encontraria o ouro. Eu duvidava que alguém um dia encontrasse. Agora eu queria nunca ter encontrado.

Mesmo depois que meu pai se foi, eu voltava para as Superstition Mountains todo ano para procurar o ouro. Chame de hábito, chame de loucura, chame do que você quiser. Eu fazia isso por ele. Pra honrar a memória dele. Sempre que eu estava lá fora, sozinho no deserto, olhando pro céu noturno, eu quase conseguia sentir que ele estava bem ali do meu lado e talvez, só talvez, uma partezinha de mim acreditasse que eu ia encontrar o ouro e ficar rico além dos meus sonhos mais malucos.

Tudo começou num outono, quando eu estava me preparando pra fazer minha viagem anual. Eu tinha conseguido uma pista sobre uma cópia de um mapa usado por um garimpeiro que tinha desaparecido procurando o ouro. Eu já tinha participado de dezenas de buscas, e meu pai, de umas cem antes de mim.

Eu tinha me afastado muito de qualquer trilha, até ficar bem perdido. O sol estava começando a se pôr e eu estava quase sem água. Eu não percebi o desnível na escuridão até ser tarde demais. De repente, eu estava despencando de um penhasco, rolando por entre arbustos e cactos. Eu nem tinha entendido o que tinha acontecido até recobrar a consciência no fundo de um barranco. Milagrosamente, eu sobrevivi, mas fiquei todo ralado e minha cabeça doía pra caralho. O sol já tinha sumido completamente e a temperatura tinha caído rápido. Minhas únicas companhias eram as estrelas lá em cima.

Eu tentei me levantar, só que meu tornozelo cedeu. Tinha torcido feio — talvez até quebrado. Eu puxei minha lanterna e consegui achar um dos meus bastões de caminhada que tinha rolado lá pra baixo comigo. Apoiei todo o peso nele. E consegui começar a andar. Em que direção? Eu não tinha como ter certeza.

Ao longe, entre as silhuetas dos cactos e das árvores de ironwood, eu vi uma forma humana e assumi na hora que era outro trilheiro — ou talvez busca e salvamento vindo me procurar. Tentei gritar, mas minha voz saiu surpreendentemente rouca e a pessoa não pareceu me ouvir. Ela começou a se afastar e, desesperado por qualquer saída daquele barranco, eu fui atrás.

Quando cheguei mais perto, percebi que era uma mulher — e bem jovem, inclusive. Ela usava um short velho de trilha e uma camisa de flanela. Parecia vestida leve demais pra aquele horário da noite, mas não tremia. Eu tentei chamar de novo, mas ela ainda não respondeu. Só que, pra mim, ela parecia saber pra onde estava indo e, no meu delírio de concussão, eu decidi continuar seguindo.

Ela me guiou pra fora do barranco e pra dentro de um leito seco de enxurrada. Nós seguimos por ele por um bom tempo. Eu esperava encontrar água — talvez um riacho que, por algum milagre, ainda estivesse correndo — mas não tinha nada. Minha guia era tão silenciosa quanto a noite, e eu comecei a sentir que tinha algo errado. Ela nunca virava a cabeça pra olhar pra mim, nunca falava, nunca sequer diminuía o passo. E a luz da minha lanterna nunca parecia bater nela. Eu comecei a ter medo de que ela estivesse me levando ainda mais pra longe da civilização — pra onde eu queria voltar desesperadamente.

Justo quando eu estava prestes a dar meia-volta e tentar achar meu próprio caminho pra sair, minha luz passou por cima de algo no leito seco que chamou minha atenção. Era mais circular e mais achatado do que qualquer pedra natural. Eu me aproximei e peguei. Levantei na luz e meus olhos quase não acreditaram no que viram: um velho dobrão espanhol de ouro, ali sabe-se lá há quanto tempo. Algumas lendas diziam que, antes mesmo do Holandês encontrar a mina, mineradores espanhóis já tinham trabalhado aqueles veios.

Todo o medo e a suspeita foram jogados fora ao pensar em encontrar a mina do Holandês, e eu continuei atrás da mulher, tentando alcançá-la. Não importava o quão rápido eu corresse, ela sempre parecia, de algum jeito, ficar à minha frente. Apesar do quão estranha aquela mulher era, nada conseguia me incomodar enquanto eu sentia a moeda na mão. Ela estava fria, mas parecia muito mais leve do que eu tinha imaginado. Tinha que haver mais.

Ela continuou seguindo por um tempo, sem nunca olhar pra trás. Por fim, saímos do leito seco e chegamos a um afloramento de rochas na base de uma colina. O ar estava pesado. Nenhum grilo cantava, nenhum animal chamava. Eu senti como se olhos estivessem sobre mim. Olhei em volta tentando achar a origem, mas não vi nada. Quando olhei de novo na direção da mulher, ela tinha sumido. Eu examinei as rochas tentando entender pra onde ela foi, até encontrar uma entrada estreita de caverna.

Eu presumi que ela tinha entrado na caverna e que talvez o ouro estivesse lá dentro, então eu fui atrás. A entrada era apertada e eu tive que me espremer de lado pra passar, mas, uma vez lá dentro, eu consegui ficar em pé normalmente sem problema. Era surpreendentemente quente e úmido lá dentro, depois do frio do deserto. Ainda assim, eu percebi que, na mesma hora, eu sentia falta do frio. Eu passei a luz ao redor. A caverna era enganadoramente comprida, curvando e entrando fundo na montanha. O quanto ela ia longe eu não fazia a menor ideia.

No chão, havia fragmentos antigos de equipamento de trilha e de mineração. Uma lanterna velha, estilo anos 50, a cabeça de uma picareta enferrujada e uma bota de trilha mais nova — mas nada de ouro. Ainda não, pelo menos. Meu coração disparou só de pensar.

Ainda não havia sinal da garota, mas não parecia que ela estava me esperando. Eu ainda não fazia ideia do que ela estava fazendo lá fora nem por que tinha me levado até ali. Eu achei que conseguia ouvir o arrastar de passos mais pra dentro da caverna. Presumi que fosse ela, então eu andei mais fundo.

Eu caminhei por um tempo, ouvindo aquele arrastar e seguindo os artefatos ocasionais de viajantes de outros tempos. O arrastar parecia estar só um pouco mais adiante quando eu tropecei em alguma coisa. Apontei a lanterna pra baixo e congelei. Era um esqueleto humano, quase todo reduzido a osso. Pedacinhos de carne cinzenta, seca, ainda se agarravam aos membros, e havia cabelo na cabeça. Aí eu reparei nas roupas. Velhas e apodrecendo também — mas eu reconheci. Era a mesma flanela e o mesmo short que a garota estava usando.

A compreensão veio de uma vez, imediata. Era ela. Ou o corpo dela. Podia existir outra explicação, mas eu não conseguia pensar em nenhuma. Ela estava morta, mas alguma coisa dela ainda permanecia naquele escuro.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram, e eu já estava praticamente pronto pra ir embora quando minha luz bateu em algo refletivo logo à frente. Eu precisava ver o que era. Entrei numa câmara grande. Minha boca caiu. Espalhados por todo o chão, havia pepitas de ouro e moedas. Na parede da caverna, havia um veio de ouro tão grosso quanto a minha coxa, e ele seguia pra além do alcance do brilho da minha lanterna. Tinha ouro mais do que suficiente pra deixar um homem rico e confortável pelo resto da vida.

Então eu ouvi o arrastar.

Eu esperava ver a garota — ou o fantasma dela — mas eu só ouvi uma respiração no escuro. Funda e áspera.

Eu congelei.

Devagar, eu ergui a lanterna e apontei pra origem. Eu mal consegui ver antes de recuar num salto. Era mais pálido que a lua, não tinha olhos, e tinha orelhas enormes. Eu me encostei na parede da caverna e, quando apontei a luz de novo pra onde aquilo estava, não havia nada ali. Aí eu senti uma gota cair em cima de mim e ouvi um rosnado cruel.

Eu mirei a luz rápido e vi aquela coisa no teto da caverna, bem acima de mim. Ela escalava como uma aranha e, assim que minhas botas rasparam no chão, ela se lançou direto em mim. Eu atingi a criatura com a parte pesada da lanterna e derrubei no chão. Saí correndo, mais fundo na caverna.

Eu conseguia ouvir aquela coisa me perseguindo. Ela se movia aos pulos, raspando pela parede. E então, de repente, eu parei.

Eu ouvi mais respirações ásperas e mais arranhões, mais fundo. Tinha mais deles. Eu não tive coragem de ir adiante. Eu ouvi um raspar no teto acima de mim. Aquele de trás tinha alcançado. Eu fiquei completamente imóvel, sem nem respirar. Apontei a luz pra ele e vi a criatura inclinar a cabeça como se estivesse escutando. Eu tateei os bolsos atrás de qualquer coisa que eu pudesse jogar. Senti algo frio e redondo no bolso.

O dobrão de ouro.

Eu arremessei o mais longe que consegui e ouvi ele rolando caverna adentro. A criatura acima de mim correu atrás do som, e eu corri na direção oposta, de volta, rumo à saída. Eu quase atravessei a câmara do ouro em disparada quando ouvi uma voz baixa:

— Espera.

Eu parei na hora. A voz vinha logo além da câmara. Havia um brilho suave.

Eu me aproximei e, de pé bem na frente dos ossos, estava a mulher que eu tinha visto antes. Pela primeira vez eu conseguia ver o rosto dela. Ela era linda, mas parecia tão cansada.

Ela disse: — Este não pode ser meu descanso final. — A voz dela era pouco mais que um sussurro. — Por favor, tira meus ossos daqui. Eu quero dormir onde eu possa ficar ao sol.

Lá do fundo da caverna eu ouvia o arrastar se aproximando. Parecia que eram dezenas. Meus olhos correram pro ouro e depois pros ossos. Eu só tinha tempo de pegar uma coisa ou a outra. Eu hesitei só por um instante, então me ajoelhei diante dos ossos. Esvaziei minha mochila e enchi com os ossos da mulher. Eu ouvi quando eles entraram na câmara do ouro, bem na hora em que eu me virei pra disparar.

Eu me espremei pra fora pela entrada e continuei correndo. Eu corri e corri até não sobrar ar nos meus pulmões. Minha garganta estava seca e eu não conseguia recuperar o fôlego. Enquanto eu puxava o ar chiando, olhei pra trás com a lanterna. Eu não vi nenhuma daquelas coisas, mas eu não ia ficar esperando elas me encontrarem.

Eu caminhei a noite inteira, ignorando o frio. Ignorando o cansaço. Ignorando a sede. Existiam coisas piores na noite.

Por fim, uma luz surgiu no horizonte e eu encontrei um riacho ainda correndo, mesmo tão tarde no ano. Eu caí de joelhos, fiz concha com as mãos, levei a água até a boca e bebi. Bebi até me satisfazer.

Depois disso, eu achei meu caminho até a estrada e peguei carona de volta pro meu carro. Os ossos chacoalharam na mochila o caminho todo. Eu dirigi pra longe da escuridão daquela caverna, onde aquelas coisas viviam entre riquezas sem fim.

Às vezes eu ainda penso no ouro. Mesmo agora, eu quase consigo sentir aquela moeda na minha mão — mas eu não conseguiria achar aquela caverna de novo nem se tentasse. Eu sei que é melhor que o ouro do Holandês continue perdido. Eu escrevo isso pra me lembrar de que alguns segredos são melhores quando ficam guardados no escuro.

Naquela noite, eu dirigi até um lugar que eu conhecia. Uma colina tranquila com um único pé de mesquite, de frente pra um campo de algodão. Ali, ela poderia ver o sol nascer.

Sob a cobertura da escuridão, eu cavei uma cova e deitei os ossos dela lá dentro. Quando terminei de cobrir com terra, o céu já cintilava dourado, enquanto o sol começava a subir. Eu me afastei e encarei o túmulo. Por um breve momento, eu vi o semblante dela. A escuridão que eu tinha visto no rosto tinha desaparecido, e eu achei que conseguia ver um sorriso. Então ela se foi.

Tem algo errado com a nova amiga da minha esposa

É difícil colocar em palavras quando e como esse pesadelo começou.

Me mudei com minha esposa, Sarah, para o outro lado do país, o que acabou com a nossa vida social e com o nosso casamento.

Porra, eu queria não ter aceitado esse emprego desde o início.

Nós éramos do tipo sociável. Ela trabalhava num escritório de advocacia e eu era soldador. Do nada, recebi uma proposta para me mudar e me estabelecer em outro local por três vezes o meu salário. Depois de conversar com a Sarah, decidimos que eu aceitaria o emprego e ela encontraria qualquer trabalho que conseguisse por aqui.

Tudo estava bem nos primeiros meses, mas a vida começou a ficar monótona. Esse lugar é meio pequeno e não tem muita coisa para fazer por aqui que não fique chata depois de um tempo. A falta de novidade acabou com o nosso casamento. Eu comecei a odiar voltar do trabalho e fazia horas extras só para atrasar o máximo possível a volta para casa.

Todo dia, eu ficava sentado por uma hora na minha caminhonete numa parte isolada da estrada, só fumando e pensando. Quando eu chegava em casa, rezava para que ela estivesse dormindo, para não ter que lidar com o seu tratamento frio e seus comentários sarcásticos.

E eu achava que aquilo era ruim.

Alguns meses atrás, conversamos e ela decidiu entrar num clube artístico que uma das amigas do trabalho frequentava. Fiquei feliz que isso finalmente a tiraria de casa e talvez a acalmasse por enquanto. Como eu queria que as coisas fossem como antes. Como eu queria que nunca tivéssemos vindo para cá.

Então ela entrou nesse "clube".

No começo, ela parecia genuinamente feliz e eu fiquei contente que ela tinha conseguido fazer algumas amigas. Ela ficava cada vez mais feliz, até que começou a ficar mais desdenhosa e secretista sobre o que estavam fazendo.

Uma vez, perguntei: "Ei, o que vocês realmente fazem?" e ela só me deu um olhar zangado e amargo, antes de mudar subitamente de humor e dizer: "Eu vou te inscrever e você vai ver."

Isso me pegou de surpresa.

A partir daquele ponto, ela voltou a ser alegre e calorosa. Pelo menos, foi o que pensei. Ela me ligava no trabalho e perguntava como tinha sido o meu dia, o que ela não fazia há anos. Eu chegava em casa e encontrava jantares grandes e bem-feitos. Meus filmes favoritos estavam passando na TV. Eu pensava num presente para o meu aniversário e ela me dava exatamente o que eu tinha imaginado, sem eu nunca ter contado a ela.

De repente, minha vida virou de um inferno para um paraíso, aparentemente sem motivo. Eu ainda parava na estrada deserta, só para chorar de alegria e me perguntar que porra tinha acontecido. Não que eu estivesse ofendido ou com raiva por ter acontecido.

A intimidade dela também virou algo de outro mundo.

Eu aceitei um corte enorme no meu salário para poder passar mais tempo com ela. Eu juro, cada dia que eu chegava em casa, ela estava cada vez mais bonita. E essas não eram mudanças sutis. Num dia, o cabelo dela de repente crescia e ficava exuberante e forte. No outro, eu podia jurar que ela estava mais magra e mais musculosa.

Ela passava muito tempo no escritório fazendo estatuetas estranhas para o clube de arte dela. Elas pareciam sombrias, com runas estranhas entalhadas nelas. Supostamente, era para algum mundo de arte que estavam construindo. Pelo menos, esse era o cerne do projeto.

Não sei com que material ela fazia aquelas estatuetas, mas minha cabeça começava a ficar estranha sempre que eu passava tempo em casa. Eu tinha essa sensação esquisita de que elas estavam me olhando. Às vezes eu ouvia sussurros fracos. Às vezes elas de alguma forma se moviam de um lugar para outro, mesmo eu estando sozinho em casa e nunca tendo tocado nelas.

Meu mundo ficou perfeito até desabar há uma semana.

Um dia, eu segurei a mão dela e perguntei o que tinha acontecido. Eu ficava dizendo a ela o quanto eu estava feliz e o quanto a nossa vida tinha melhorado. Ela só sorriu e disse: "Talvez seja hora de você conhecer a minha amiga Thilia."

O nome soou de alguma forma estranho.

Eu concordei e sugeri sairmos para algum lugar, mas a Sarah insistiu que ela viesse até a nossa casa para jantar, já que ela supostamente era uma pessoa extremamente reservada. Na época, não achei estranho. Que idiota eu fui.

Então marcamos o jantar para a noite de sexta-feira à meia-noite, o que, por algum motivo, não me pareceu estranho. Alguém vindo até a nossa casa no meio da noite para jantar deveria ter me alarmado, mas eu estava tão investido na minha felicidade que tinha perdido todo o senso.

Sexta-feira chegou e a Sarah não me deixava chegar perto da cozinha. Quero dizer, nem perto. Passei o dia inteiro fora de casa. Eu tinha tirado o dia de folga, nada menos, e a Sarah só me deu esse sorriso perturbador e disse: "Eu vou preparar tudo. Você vai para a cidade e se diverte."

Não importava o quanto eu insistisse, ela queria que eu saísse de casa. De novo, eu fui burro demais para perceber.

Fui para bares e me diverti como uma criança com dinheiro quase infinito. Cheguei em casa pouco antes da meia-noite e a Sarah abriu a porta para mim.

Meu queixo caiu.

Ela parecia pelo menos vinte anos mais jovem. Não quero dizer que ela estava bem vestida ou usando uma boa maquiagem. Não, parecia que o envelhecimento dela de alguma forma tinha se revertido. Algo me fez estremecer de desconforto.

"Entra, ela está quase chegando!" ela gritou quase histérica de excitação.

A casa estava arranjada como se estivéssemos tendo uma festa romântica. Ela mandou entregar flores. Incensos estavam acesos por toda parte e a mesa de jantar estava transbordando de comida.

Um pequeno detalhe me chamou a atenção entre toda essa anormalidade. A Sarah tinha um dente faltando que de repente estava lá de novo.

Antes que eu pudesse pressioná-la por respostas, alguém bateu suavemente na porta da frente. Não havia carro lá fora e moramos longe de qualquer transporte público.

"Ela chegou!" Sarah pulou de excitação e me arrastou até a porta.

No momento em que ela abriu aquela porta, eu me senti mal. Aquela sensação de náusea no estômago quando tudo parece normal, mas no fundo você sabe que algo está muito, muito errado.

"Thilia, bem-vinda!" Sarah disse com um sorriso largo.

A mulher parecia linda. Anormalmente linda. Eu não conseguia imaginar alguém mais atraente aos olhos.

"Olá, Sarah," ela disse enquanto me encarava.

Agora eu sei que os olhos dela eram azul-claros quando ela entrou.

"Posso entrar?" ela perguntou numa voz charmosa e feminina.

Eu murmurei: "Claro," e notei o seu sorriso largo enquanto ela entrava. Naquele momento, tudo ao meu redor pareceu ficar sem brilho, como se eu estivesse severamente intoxicado.

Nos sentamos à mesa de jantar e a Sarah, por algum motivo, sentou ao lado dela em vez de ao meu lado. Meus joelhos tremiam. Havia algo muito vil e repulsivo sobre essa mulher. Ela usava um vestido vermelho estranho e ornamentado, com joias pretas cravejadas com o que pareciam gemas de valor inestimável. O cabelo dela era o mais escuro que eu já tinha visto, perfeitamente arrumado.

Ela mal prestava atenção na Sarah, focando-se em vez disso em mim, o que me deixou desconfortável.

A Sarah colocou a comida na nossa frente em bandejas de servir cobertas que não tínhamos antes. Ela levantou as tampas de metal, revelando um prato requintado feito de algum tipo de carne e cogumelos raros.

Meus olhos se arregalaram. A Sarah nunca cozinhava carne vermelha e isso estava muito além das habilidades dela. Parecia algo preparado pelos melhores chefs do mundo. O aroma forte, doce e terroso me atingiu imediatamente.

Sarah e Thilia encararam a carne com expressões quase famintas antes de devorá-la. Elas comiam como se não comessem há dias.

Minhas mãos tremiam enquanto eu colocava um pedaço de carne na boca. A textura era incrível, o sabor diferente de tudo que eu já tinha experimentado.

"Como está, querido?" Sarah perguntou, quase zombeteiramente.

"Está... adorável," eu murmurei, e ambas riram.

Embora tivesse um gosto incrível, eu não conseguia engolir uma única mordida. Era como se meu corpo se recusasse a deixar. Eu mastigava e mastigava, depois cuspiria discretamente sempre que elas não estavam olhando. Parecia errado.

Elas comiam como animais. As porções delas faziam a minha parecer minúscula. Elas eram como leões famintos, não seres humanos.

Eu me sentia ansioso e fora de lugar. Cada parte de mim estava me dizendo para correr, mesmo que estivéssemos supostamente nos divertindo.

Depois que terminaram, Sarah disse: "Deveríamos pegar mais carne da próxima vez."

Isso soou errado. Ela mal tocava em carne há anos.

Thilia produziu uma garrafa de vinho, que Sarah abriu e serviu. Ela gesticulou para nos movermos para a sala de estar e sentarmos perto da lareira.

Para minha surpresa, as poltronas tinham sumido, sobrando apenas o sofá.

Ela serviu três copos de um vinho tinto denso, quase oleoso. Agora eu juro que os olhos da Thilia eram verde-escuros. As pupilas dela não reagiam à luz, como se fossem decorativas.

Elas beberam rapidamente e me pressionaram a fazer o mesmo.

O vinho não tinha gosto de vinho. Era extremamente doce, diferente de tudo que eu já tinha provado.

Depois disso, eu fui entrando e saindo de consciência. Não me lembro de mais nada daquela noite, exceto que Thilia me deu um dos seus anéis pretos, que não consigo tirar de jeito nenhum.

Acordei na manhã seguinte com uma dor lancinante. Meu corpo inteiro parecia estar cheio de brasas ardentes. Eu mal conseguia chegar ao banheiro.

Não importava o quanto eu exigisse respostas, a Sarah não me contava o que tinha acontecido.

Eu nunca me recuperei totalmente. Fico mais fraco a cada dia. Tenho pesadelos constantes e sempre vejo aquela mulher no canto da minha visão. Ouço vozes na minha cabeça me provocando, me dizendo que vou para o inferno, perguntando se eu aproveitei o meu jantar.

Eu tinha marcas de mordidas por todo o corpo. Elas eram profundas e ensanguentadas, mas a Sarah as ignorou.

Toda noite, sofro de paralisia do sono.

Finalmente, a Sarah saiu de novo. Custou toda a minha força chegar ao ponto de táxi e ir a um hospital particular em outra cidade.

A coisa mais estranha é que os médicos não encontraram vestígios de drogas, álcool ou qualquer lesão grave. Disseram que nunca tinham visto um caso como o meu. Tentei mostrar a eles as marcas de mordidas, mas eles não conseguiam vê-las.

Meu exame de sangue mostrou que estou tão saudável quanto um homem de noventa anos. E pareço estar envelhecendo rapidamente.

Essa porra desse anel não sai. Três lâminas quebraram quando tentaram cortá-lo.

Os médicos acham que eu sou esquizofrênico e estou lutando para convencê-los do contrário.

Eu juro que algumas das enfermeiras são ela. Eu reconheço aqueles olhos, mesmo atrás das máscaras. Uma delas sorriu para mim hoje. Os olhos dela não eram da mesma cor de ontem.

E eu sei que o anel estava na minha outra mão quando eu dormi da última vez.

A Sarah não me ligou nem uma vez.

Talvez ela consiga outra chance de desfazer a vida desperdiçada dela, como ela a chamava.

Ela negou ter sido casada comigo quando o hospital a ligou.
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