terça-feira, 16 de junho de 2026

Eu Não Compartilhei uma Corrente Quando Era Criança

Você se lembra das correntes da internet?

Não estou falando das atuais, que são obviamente falsas e acabam virando memes. Estou falando das antigas, do tipo que entreteiam e aterrorizavam muita gente ao mesmo tempo, e que permitiram que creepypastas como "Smile.jpg" fizessem sucesso ao combinar o medo daquelas correntes enviadas por e-mails ou comentários em sites com a ideia de "e se eu receber aquele e-mail?", ou "e se eu me deparar com aquele comentário?". Estou falando das que apareciam em páginas lotadas de anúncios, jogos em Flash e janelas pop-up que se abriam toda vez que você clicava em qualquer coisa. Estou falando do tipo que apareceu na minha infância.

Faz tipo 11 anos. Eu tinha 9 anos, e era uma criança bem ingênua, tão ingênua que ainda não sabia copiar e colar, tão ingênua que anos depois eu descobriria o que "Alt + F4" fazia. Naquele dia eu estava procurando jogos quando encontrei um daqueles sites que eu descrevi, e enquanto tentava jogar algum jogo que achei que tinha encontrado de graça, virando vítima de abas pop-up toda vez que apertava o botão que dizia "Jogar", eu rolei a página até uma seção de comentários, uma daquelas que exigia que você fizesse login com o Facebook para deixar um comentário.

Havia um comentário longo enterrado entre vários comentários sem sentido e mal escritos de, provavelmente, outras crianças irritadas como eu. Não lembro o texto exato, mas lembro dos detalhes: dizia que um garoto chamado Nick tinha tirado a própria vida em 1993, quando tinha 7 anos, e o motivo eram problemas familiares. Aí veio o aviso:

"Se você não compartilhar esta mensagem em cinco jogos diferentes, Nick virá à sua casa à meia-noite e matará seus pais".

Hoje me parece ridículo, mas aos 9 anos não parecia ridículo de jeito nenhum. Pelo contrário, parecia absolutamente real.

O problema era que eu nem sabia como compartilhar aquilo, e tentei entender o que isso significava. Eu tinha que escrever isso em outros jogos? Copiar? Mandar pra alguém? Não fazia a menor ideia, então passei a tarde inteira convencido de que tinha acabado de assinar uma sentença de morte.

Não contei nada pros meus pais nem pros meus amigos... não contei pra ninguém. Só esperei, e quanto mais a noite chegava, pior eu me sentia. Um medo lancinante ia crescendo exponencialmente.

A noite chegou, e eu tentei dormir enquanto minha televisão ficava ligada, mas não conseguia, e quando chegou a hora de desligar o aparelho, senti que ficava sozinho contra algo que não entendia.

A escuridão parecia diferente. Era mais profunda, mais pesada, e os sons da rodovia próxima não soavam mais como um monte de rodas se movendo em alta velocidade, mas pareciam criar um grito que anunciava desgraça. Lembro de ter medo até de fechar os olhos, especialmente porque meu quarto ficava na frente da casa. Mais perto do portão, mais perto da rua, e mais perto de onde, segundo a minha imaginação infantil, Nick podia aparecer.

Eu não conseguia dormir.

Ouvia cada barulho, cada rangido, cada som do vento. O portão de metal costumava fazer barulho em algumas noites; era normal, mas aquela noite cada som parecia um aviso.

Não tinha relógio nem celular no meu quarto, não tinha nenhuma forma de saber a hora, mas sabia que já devia ser meia-noite... e aí aconteceu.

O portão soou mais alto do que antes. Não foi um estrondo, nem foi o vento, e lembro exatamente do que pensei: "O Nick chegou".

Posso rir disso agora, mas naquela noite eu estava convencido, completamente convencido, e o medo era tão intenso que ainda consigo lembrar fisicamente.

Meu coração batendo contra o peito, minha garganta apertando, a vontade de chorar, de gritar, e a incapacidade absoluta de me mover. Eu podia ter levantado, podia ter ido até a janela, podia ter olhado. Queria confirmar que era o Nick que estava vindo, mas não fiz.

Não consegui.

Ouvi mais barulhos lá fora, e aí ouvi algo vindo do quarto dos meus pais, que ficava do lado do meu, uma voz, talvez duas.

Meu medo transformou as palavras em algo parecido com um zumbido profundo, como ouvir uma conversa debaixo d'água, minha batida do coração me ensurdeceu, o suor parecia me grudar na cama, não conseguia perceber nada além do barulho, e virei rápido pra parede contra a qual minha cama estava encostada, apertando as pernas em posição fetal, arrepiando todo, virando as costas pra janela, virando as costas pro Nick.

Aí ouvi uma janela abrir, a janela dos meus pais. Medo. Horror. Meu coração não me deixava ouvir mais nada.

E depois disso...

Não lembro de nada.

Talvez eu tenha dormido, talvez eu tenha desmaiado, não sei.

A próxima coisa que lembro é acordar com luz do sol entrando pela janela, e uma imagem horrível perfurando minha mente: Minha mãe morta. Meu pai morto. Sangue por toda parte. O Nick tinha vindo, e eu não o impedi.

Fiquei aterrorizado por vários minutos até a porta abrir e minha mãe aparecer. Viva, e um pouco irritada porque eu estava dormindo além do horário habitual de levantar.

Nunca tinha sentido tanto alívio naqueles 9 anos de vida.

Depois, ouvi meus pais conversando sobre algo que aconteceu durante a noite, claro, eu tentei fingir que não me importava, como se tivesse estado dormindo.

Alguém tinha tentado entrar na casa. Meu pai disse que era um homem, de baixa estatura. Aparentemente, um ladrão tinha tentado escalar o portão. Eles viram ele pela janela, gritaram com ele, e ele fugiu.

Lembro de sentir uma mistura estranha de alívio e vergonha. Não era o Nick, nunca foi, era só um ladrão.

Por anos aquela explicação me pareceu suficiente, e se tivesse sido só isso, talvez eu não tivesse escrito isso...

Agora estou com quase 21 anos, e esta manhã minha mãe lembrou daquela noite durante uma conversa entre nós dois no café da manhã.

Ela nunca soube da minha situação patética.

Quando ela mencionou o quão estranha aquela noite tinha sido, perguntei:

"Era verdade que era um ladrão? Porque sempre me pareceu meio estranho."

Ela olhou pra mim, confusa.

"Que ladrão?"

"O homem que tentou entrar."

Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu:

"Eu nunca disse que era um homem."

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

"Meu pai disse isso."

"Não lembro dele ter dito isso, eu teria dito a ele que estava enganado."

"Então... o que você viu?"

Ela ficou pensando por alguns segundos e finalmente sorriu de forma estranha, daquele jeito que alguém sorri quando lembra de algo que preferiria esquecer.

"Realmente era meio estranho."

"O que era?"

"Parecia uma criança."

Senti algo apertar no meu estômago.

"Uma criança?"

"É."

Silêncio.

"E o que ele estava fazendo?"

"Escalando o portão, obviamente."

"E depois?"

Minha mãe desviou o olhar.

"Quando abrimos a janela pra gritar com ele ou perguntar o que estava acontecendo, ele já estava quase no topo, e de alguma forma estava se segurando nos espinhos do portão. Eu estava aterrorizada porque não sabia o que fazer se ele fosse realmente uma criança, ou apenas um homem que parecia uma."

"E?"

"Ele riu." Eu não respondi. "Ele tinha algo estranho no rosto."

"Estranho como?"

"Não sei explicar. Parecia esquisito, deformado... como eu disse, ele sorriu, riu, e aí fugiu."

Minha mãe continuou a conversa como se nada tivesse acontecido, mas eu não conseguia mais ouvir porque enquanto ela falava, eu lembrei de algo.

Algo que tinha esquecido por 11 ou 12 anos.

O comentário original, ou melhor, a última linha, depois do aviso.

Não lembrava de mais nada da mensagem. Nenhum outro detalhe. Não quem compartilhou. Nem mesmo a página onde encontrei, ou o jogo que tentei jogar naquele dia. Só aquela frase.

E agora eu queria não ter lembrado:

"Feche portas e janelas. Se você não o fizer e o Nick sorrir pra você, é porque ele nunca vai esquecer seu rosto".

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Sombra Vermelha - Eu fiz minha fortuna sacrificando vidas inocentes para um monstro. A culpa está me esmagando

É estranho estar escrevendo sobre isso, mas acho que a culpa leva uma pessoa a fazer coisas estranhas que ela pode se arrepender no futuro. Já faz uma década desde a noite em que minha vida mudou para sempre, e nesse tempo eu tive grandes sucessos, mas também inúmeros fracassos. Fracassos desastrosos. Sou uma pessoa muito rica, muito influente. Não vou dizer quem, porque talvez esse mínimo de anonimidade salve minha alma.

Nada do que eu conquistei, nenhum dos meus sucessos ou meu poder é merecido.

O que é merecido? O luto, a luta, a dor e o escândalo que me perseguiram nesses últimos dez anos. Tudo porque eu disse sim. Tudo por causa da primeira vida que eu tirei.

Tudo por causa da Sombra Vermelha.

Eu era um homem comum. Morava num apartamento sozinho, mal me virando e desesperadamente buscando mais. Eu era o trabalhador comum de baixa renda. Trabalhava num emprego braçal que pagava as contas e não tinha tempo para muito mais.

Eu me esforçava e sofria e me esgotava só para conseguir ver um novo dia, e eu odiava isso. Acho que mais vezes do que não eu até fantasiava sobre o que eu faria se eu apenas tivesse dinheiro suficiente para viver confortavelmente. Sem preocupação ou dor.

Era, eu pensava, uma oração silenciosa a um universo indiferente que não acreditava que essas coisas importavam. Alguém ouviu. Algo ouviu.

Uma noite, depois de um longo dia de trabalho enquanto eu estava sentado no ônibus, uma mulher entrou. Deve ter uns quarenta e poucos anos, rica, cabelo castanho-claro e olhos castanhos-esverdeados vibrantes. A roupa que ela usava não sugeria alguém que precisasse usar transporte público. Ela me encarou ao entrar, seus olhos nunca deixando minha figura enquanto ela se aproximava e sentava na minha frente.

"Essa é a vida que você quer?" as primeiras palavras que saíram da boca dela vieram num sotaque que eu não conseguia identificar direito, mas acho que era do Oriente Médio.

Eu pisquei, encarando-a curiosamente. "O que...você quer dizer, exatamente? Claro que essa não é a vida que eu quero. Tenho certeza de que qualquer um nesse ônibus diria que não está feliz com a sua sorte na vida."

"Eu não falo com ninguém. Eu falo com você. Eu pergunto a você se essa é a vida que você quer. Talvez você busque mais? Talvez você acredite que merece mais?" o tom dela era desdenhoso em relação aos outros no ônibus, e ela nunca tirou os olhos de mim.

"Eu já disse que não é. Eu já disse que se eu pudesse encontrar uma maneira de mudar minha vida, eu mudaria." Eu respondi, minha voz mais irritada do que eu tinha pretendido.

"Eu vou te dar dois dias. Nesses dois dias eu quero que você pense em algo. Eu quero que você considere o que você sacrificaria para se tirar da lama e colocar nos mais altos escalões da sociedade. O que você realmente daria...realmente ofereceria por uma chance de luxo?" Ela enfiou a mão no casaco e retirou um cartão, não com um nome, mas com um endereço. "Se você estiver realmente disposto a dar qualquer coisa, a oferecer tudo em troca de uma vida bem vivida, venha a esse endereço quando os dois dias tiverem passado."

Ela saiu na próxima parada. Nunca disse o nome dela, ou qualquer coisa sobre si mesma, só para ir até aquele endereço.

Eu passei muito tempo pensando na oferta daquela mulher. Tanto que meu trabalho estava sofrendo. Depois do primeiro dia era tudo o que eu conseguia pensar. O que eu daria por uma chance de ser rico?

No terceiro dia eu estava parado na frente do endereço, debatendo se eu deveria entrar. Era um prédio de tijolos vermelhos sem graça, sem janelas nos dois primeiros andares. Havia apenas uma porta, perfeitamente centralizada no meio. Algo nela parecia estranho, sinistro e hostil. Tudo na minha mente, todo instinto primal que eu tinha me dizia que eu deveria ir embora, eu deveria correr embora.

Eu não fui.

Eu atravessei aquela porta e entrei no prédio.

Por dentro era impecável. Pisos de mármore preto, luminárias com hastes douradas, tapetes caros e móveis de couro. Eu senti como se tivesse entrado num hotel cinco estrelas. Meu primeiro gosto da boa vida.

Fui recebido por uma mulher jovem sentada atrás de uma mesa no centro da sala. Ela sorriu calorosamente, "Você deve ser nosso mais novo chegado." ela disse com uma jovialidade que traía o que estava prestes a acontecer. "Suba até o terceiro andar, eles já estão esperando para recebê-lo. Estamos felizes em tê-lo conosco. Lembre-se, você merece isso." as palavras finais da recepcionista ficaram estranhas no fundo da minha cabeça. Parte de mim realmente acreditava nisso. Eu mereço isso.

Eu entrei no elevador, silenciosamente cantarolando junto com a música animada lá dentro, mas quando eu fiz isso algo me fez parar. O prédio tinha três andares para cima. Mas para baixo? Havia 30 andares. 30 andares subterrâneos. Eu fui perturbado por isso, mas a parte de mim que queria o que essas pessoas estavam oferecendo era muito poderosa para me afastar.

O terceiro andar era mal iluminado. Tudo estava banhado num tom vermelho quando eu entrei. Uma figura encapuzada grande se aproximou e me escoltou pelos corredores até um salão de entrada grandioso. Deve ter havido centenas de pessoas nessa sala, mas todas usavam capas e máscaras vermelhas sem rosto. Todas menos uma.

A mulher que eu tinha conhecido no ônibus deu um passo à frente e me conduziu para dentro. Ela passou por uma mesa coberta enquanto se aproximava e gesticulou para o grupo. "Bem-vindo, noviço." ela murmurou. "Bem-vindo ao que pode muito bem ser o início de uma vida maravilhosa para você." ela fez uma pausa, olhando para mim. "Você pensou no que eu te perguntei? O que você está disposto a oferecer em troca de tudo ao seu alcance?"

Eu respirei fundo, fechei os olhos devagar e assenti. "Eu estaria disposto...a oferecer tudo. Qualquer coisa."

"Assim seja." Eu a ouvi dizer enquanto eu abria os olhos e ela dava a volta na mesa coberta. Ela puxou o pano, revelando um homem, não mais velho que 20 anos, amarrado na mesa. Ele parecia estar sedado. Não havia luta nem súplica. Eu olhei para a mulher bem quando ela me ofereceu o cabo de uma faca de combate K-Bar. "Para que sua vida conheça riqueza além da medida, e sucesso eterno, você deve primeiro oferecer a vida de outro. Nós decidimos coletar sua oferta para você. Um presente para sua iniciação."

Eu recuei, olhando para a mulhor em horror. Ela queria que eu matasse alguém? "E-eu não posso...e quanto à polícia e essas coisas?"

"Os mais poderosos do mundo estão nesta sala. Chefes de Polícia, Políticos, Estrelas de Cinema, Magnatas da Tecnologia. Todos fizeram a oferta. Agora, é a sua vez. Tire uma vida, para viver uma vida grandiosa." ela ofereceu a faca novamente.

Os mais poderosos do mundo. Os maiores nomes da história. De acordo com ela todos tinham feito essa oferta, e eu estava sendo dada uma chance de ficar entre eles.

Eu queria isso. Eu queria isso mais do que qualquer coisa. Eu peguei a faca e me aproximei do jovem, apertando a lâmina até meus nós dos dedos ficarem brancos. Suor acumulou na minha testa, minha respiração falhou no meu peito. Eu precisava disso. Eu precisava tirar essa vida. Era minha passagem para fora de tudo. Meu pulso e minha respiração aceleraram, eu soltei um grito gutural e enfiei aquela faca no peito dele. Eu senti ela afundar além do osso, eu senti ela rasgar músculo...e eu senti ela perfurar o coração dele.

O jovem jazia morto naquela mesa, seu sangue formando uma poça no chão abaixo. Eu observei ele coagular, se espalhar, e então coalescer. Uma forma humanoide tomou forma, erguendo-se do escarlate. Não tinha rosto, e seu corpo era estranhamente andrógino. Era como olhar para uma reprodução de uma pessoa. Como olhar para uma sombra. A criatura cambaleou em minha direção, eu dei um passo instintivo para trás. O passo da entidade permaneceu o mesmo. Ela continuou a andar para frente.

Eu estava aterrorizado com aquela coisa, mas eu senti a mão da mulher no meu ombro, como se me tranquilizasse. A criatura continuou seu lento avanço até me alcançar. Eu esperava ser estrangulado, espancado até quase morrer.

Ela me abraçou. O sangue pegajoso e quente grudando nas minhas roupas. O cheiro doce e enjoativo da morte assombrando minhas narinas enquanto ela simplesmente...me segurava. Enquanto se afastava, ela desenhou algo na minha testa. Algum tipo de símbolo. Então? Ela derreteu no chão, uma poça de sangue mais uma vez.

Eu desabei de joelhos, uma paz avassaladora me abraçou. Mesmo assim, eu vomitei.

"Você está marcado agora. Você não conhecerá nada além de sucesso e alegria. Riqueza ilimitada e eterna. Você só precisa continuar a fazer oferendas." A mulher estranha disse.

"Continuar?" Eu perguntei em horror. "Eu tenho que matar...mais?"

"A primeira morte é a única oferenda que você deve fazer você mesmo. O resto, você deve simplesmente participar. A Sombra Vermelha sempre recompensará o sacrifício, mas...se você falhar. Se você falhar em entregar o que é devido. Você será atingido por horror, dor e luto até que o faça. Bem-vindo, Irmão, à Sociedade da Sombra Vermelha."

Eu devo ter desmaiado depois disso, porque eu acordei em casa, na cama. Eu estava limpo, bem vestido, e até bem barbeado. Eu estava bem. Atraente até. Pela primeira vez, eu realmente tive uma estranha sensação de satisfação pessoal. Eu estava...feliz.

O dinheiro não demorou a vir, e quando veio não parou. Eles não tinham mentido. Não demorou muito para eu conhecer riqueza além dos meus sonhos mais loucos. O sucesso simplesmente parecia me seguir. Era uma sensação incrível.

Então, no início do mês seguinte eu recebi uma carta me pedindo para comparecer a um baile.

Um baile destinado apenas aos membros da Casa da Sombra Vermelha. Eu sabia o que isso significava. Eu temia o momento em que teria que fazer isso de novo. Ainda assim, eu fui. Eu tinha uma obrigação a cumprir, afinal.

Era um evento grandioso, belo, cheio de algumas das pessoas mais influentes da sociedade. Nós bebemos, brincamos, jantamos e nos divertimos até as primeiras horas da manhã. Quando chegou a hora, todos nos reunimos num salão de baile grandioso e fomos testemunhas da morte.

Ela não tinha mais que vinte e cinco anos. Diferente do jovem, ela estava consciente...e implorando. O homem que fez isso parecia se deleitar com a chacina dela. Não foi rápido da mesma forma que eu tinha feito. Foi prolongado, arrastado, e ela gritou e implorou por sua vida o tempo todo.

Eu fui consumido pela culpa enquanto assistia esse homem massacrar aquela garota. Quando eu saí daquele Baile, eu fui consumido pela náusea. Eu me odiei pelo que eu tinha permitido que acontecesse. Em um ponto eu só queria arrancar a faca dele e acabar com aquela pobre garota...mas eu era um covarde.

Por cinco anos eu escolhi participar do pior que a alta sociedade tinha a oferecer. Eu abracei o culto durante esse tempo, usando drogas e álcool para limpar minha consciência, mas eventualmente...eventualmente eu não aguentei mais. Então eu me recusei a comparecer à nossa oferenda mensal. Eu me recusei a permitir que eu sofresse aquela dor novamente.

No mês seguinte eu fui acometido por doença, investimentos que eu tinha feito sofreram quedas quase arruinadoras. Toda a minha vida foi ameaçada num instante, tudo porque eu escolhi não participar de assassinato ritual.

Eu senti como se fosse um aviso da Sombra Vermelha. Me mostrando que tudo o que eu tinha recebido poderia facilmente ser tirado num piscar de olhos. Então, eu continuei a comparecer. A assistir pessoas morrerem uma e outra vez.

Por 10 anos, eu sofri. Faltando ao ritual ocasional em tentativa de escapar, só para ser lembrado de como facilmente minhas fortunas poderiam mudar se eu recusasse.

Então agora eu escrevo isso. Por medo. O mundo dos ricos é um culto de assassinato e sofrimento. Guerras perpetuadas para alimentar a Sombra Vermelha, Prescrições negadas, Famílias famintas, morte simplesmente bem-vinda ou ignorada, tudo para manter nós ricos. Para manter nós felizes e no poder. Cada grama de ruína que eu experimento é minha própria culpa, retribuição divina pelas coisas horríveis que eu fiz. Mas cada único dólar ao meu nome é imerecido. Eu não mereço nada, mas sou covarde demais para aceitar isso.

Eu mantive todos os nomes anônimos, rezando para que esse simples ato mantenha olhos de pousarem sobre mim. Mas eu sei, que no fim, a Sombra Vermelha sabe o que eu fiz, e eu vivo em terror do que ela fará para retribuir.

Está vindo esta noite

Tudo começou há algumas semanas. Eu estava em um jantar em família agradável e todos estávamos conversando sobre algumas memórias do passado. Todo mundo ficou falando sem parar sobre como eu era fofo quando criança e como era triste eu lembrar tão pouco da minha infância. Isso, naturalmente, me deixou bastante curioso, e eu decidi levar o antigo álbum de fotos da minha mãe para casa para ver se eu conseguia recuperar algumas memórias antigas.

Passei o resto da noite vasculhando centenas, talvez até milhares de fotos antigas. Sinceramente, me surpreendeu o quanto isso ajudou a restaurar minha memória antiga; depois de apenas algumas horas, eu tinha uma visão muito mais clara da minha infância. Eu até recuperei algumas memórias muito antigas, onde eu não poderia ter mais do que 5 ou 6 anos. Mas, conforme eu continuava cavando mais fundo na minha memória cada vez mais vaga, eu de repente vi aquilo.

Aquilo estava se movendo muito claramente, apesar da memória ser apenas um único momento. Uma única imagem vaga de eu aproveitando meu bolo no meu aniversário de 6 anos com minha família ao meu redor. Nada nessa memória estava se movendo, exceto essa coisa. Eu conseguia distinguir claramente como ela se movia de forma errática pelo cômodo. Também era óbvio que aquilo não fazia parte da memória. Eu tentei fazer ela parar de se mover, mas não consegui. Quando eu pensei em outra memória, ela tinha ido embora.

Eu supus que eu estava apenas ficando muito cansado, então eu simplesmente fui para a cama e dormi. Quando eu acordei e pensei na mesma memória, ela estava de volta ao normal. Eu não pensei muito mais sobre isso e simplesmente continuei com minha vida.

Tudo estava bem por cerca de duas semanas, até eu encontrar com alguns amigos para conversar sobre planos de férias de verão. Depois de fazer os planos, eu naturalmente comecei a pensar em algumas férias anteriores. Quando eu pensei em uma viagem legal em 2018, lá estava aquilo de novo.

Essa memória era muito mais clara do que as da minha infância, então eu conseguia distinguir sua aparência muito mais claramente. Era uma criatura humanoide, composta por várias cores, que eu supus serem sua pele e suas roupas. A memória era muito vaga para distinguir alguns detalhes mais finos, mas isso não era realmente o que me preocupava.

Eu notei que depois de algum tempo ela desaparecia da memória, mas quando eu pensava no dia seguinte, ela estava lá. Eu conseguia literalmente vê-la se movendo pela minha linha do tempo de memórias. Agora ela também estava alterando a própria memória. O movimento dela empurrava as pessoas para fora de suas posições, fazendo com que elas flutuassem no ar. Não importava o quanto eu tentasse, eu não conseguia fazer a memória voltar ao normal. A única coisa que eu podia fazer era imaginar uma nova memória como se ela fosse normal.

Quando ela chegou ao fim da viagem de duas semanas, ela desapareceu, já que eu não tinha nenhuma memória clara além daquele ponto para segui-la. Nos dias seguintes, eu tentei "pegar" ela de novo ao passar ativamente pelas minhas memórias mais recentes. Eu não consegui realmente, mas eu conseguia definitivamente ver sua influência.

Apesar de não lembrar da memória original, era óbvio que elas estavam completamente bagunçadas. As pessoas estavam em lugares inteiramente impossíveis, como no ar ou dentro das paredes. A própria paisagem também estava igualmente bagunçada. Quaisquer emoções felizes que eu tinha naquela memória em particular estavam distorcidas ou completamente eliminadas. Quando eu cheguei às minhas memórias claras por volta de 2023-2024, eu comecei a ver pessoas e animais de estimação claramente rasgados em pedaços em detalhes muito macabros.

Eu finalmente a peguei de novo em uma memória de uma festa que eu tive em 2025. Eu percebi que era eu, exceto tão horrivelmente desfigurado que eu mal conseguia me reconhecer. Ela estava devastando a tenda da festa, destruindo basicamente tudo em seu caminho. Às vezes eu conseguia pegar um vislumbre dela encarando nos meus "olhos". Eu me pergunto se aquilo era mesmo uma tenda de festa, porque a memória está tão bagunçada que eu sinceramente não consigo mais ter certeza.

Enquanto eu deito aqui digitando isso, ela está atualmente rasgando a memória do jantar em família. Todos os meus momentos mais felizes estão completamente arruinados e esta noite ela alcançará minhas memórias dela mesma e, então, o presente. Eu não faço ideia do que vai acontecer então, e eu não sei se eu quero descobrir. Eu tenho uma arma na mão apontada para minha cabeça para quando eu não aguentar mais.

Eu nem sei se isso é real ou se eu estou simplesmente louco, mas talvez minha história possa de alguma forma salvar alguém desse destino horrível.

domingo, 14 de junho de 2026

Meu avô passou uma noite preso numa igreja em 1910. Ele nunca mais rezou

Na minha casa, o silêncio não era paz; era uma regra de ferro. Às quatro da tarde, quando a sombra da cordilheira começava a se estender pelas planícies como uma mão negra, eu já sabia o que estava por vir sem que ninguém precisasse dizer uma única palavra. Bastava eu ouvir o rangido das botas de couro rústico do meu pai e o farfalhar pesado das saias de pano preto da minha mãe para me pôr em movimento.

Eu mal tinha dez anos, e sempre andava três passos atrás, como se fosse uma sombra forçada a seguir os calcanhares deles. Dessa distância, as costas do meu pai pareciam um muro inabalável, uma silhueta imensa que bloqueava meu horizonte. Eu sabia perfeitamente bem que a curiosidade na minha boca era um pecado pago caro, com a ferroada do chicote e o jejum, então eu tinha aprendido a engolir minhas perguntas antes que elas pudessem queimar minha língua. Naqueles tempos, nós, crianças, éramos os mudos do mundo, nada mais.

A estrada para a cidade era um caminho de terra solta na montanha, cavado à força pelos cascos de gado e pelas rodas de carroças. Àquela hora, o ar ficava cortante e mordia meu rosto; trazia um cheiro espesso de névoa, eucalipto triturado e da terra úmida que começava a congelar. O único lembrete de que o mundo ainda estava vivo era o rugido do rio, lá embaixo, esperando sob a ponte de madeira.

Atravessar aquela ponte sempre me dava arrepios. A madeira velha gemia sob as minhas alpargatas, e pelas frestas entre os troncos mal encaixados, eu conseguia ver a água negra passando com velocidade violenta, como se quisesse arrastar os segredos da montanha em direção às planícies. Atravessar o rio significava deixar para trás a segurança do pequeno povoado rural para entrar no território dos homens: a cidade.

Chegamos à praça bem quando os sinos da igreja começaram a badalar, chamando para a missa das seis. Para os meus olhos de criança, que não entendiam nada de culpa, milagres e muito menos de pecado, o templo parecia uma fera cinza com a boca aberta. Lá dentro, respirar exigia esforço: era uma mistura pesada de incenso barato, suor de ruanas de lã encharcadas pela névoa e o cheiro rançoso de velas de sebo gotejando no chão. Eu me ajoelhei onde me mandaram, entorpecido de frio, observando as bocas dos adultos se moverem num murmúrio uníssono, rezando por coisas que eu nem conseguia começar a imaginar.

Meu erro aconteceu na saída. No campo, a noite não cai devagar; ela despenca de uma vez, como se alguém apagasse a última vela no céu. Às sete, quando atravessamos o limiar da igreja, a praça já era um poço de sombras, mal quebrado pelo brilho trêmulo de um lampião a óleo. A maré de chapéus escuros e ruanas se dispersou tão rápido que me deixou tonto.

Eu parei por um segundo. Talvez fosse o reflexo da lua numa poça de lama, ou as formas distorcidas que as gárgulas da igreja projetavam contra os paredões de taipa. Eu me distraí. Uma piscada longa.

Quando olhei para cima, a praça estava vazia. As costas dos meus pais não estavam mais à minha frente. Acostumados a que eu os seguisse por pura inércia, eles tinham começado a subida da montanha sem olhar para trás. Eu corri em direção à trilha, mas a boca da mata já estava completamente escura. Sem vela ou lampião a querosene, tentar subir a montanha no escuro era uma sentença de morte entre os penhascos e o rio furioso.

Sozinho, tremendo, e com o medo devorando meu estômago, eu olhei para trás. A praça era um deserto de cinzas. A única estrutura que mantinha uma luz moribunda, filtrando-se pelos vitrais sujos, era a igreja. A casa de Deus. O lugar mais seguro do mundo — ou assim eu sempre ouvia os mais velhos dizerem. Então, com os pés congelados e o coração pulando no peito, eu empurrei a pesada porta de madeira, que cedeu com um gemido longo, e voltei para dentro.

O ar não era mais o mesmo de durante a missa; o calor dos corpos tinha desaparecido, deixando uma friaca de cripta que penetrava nos meus ossos. Sem o murmúrio das orações, o eco das minhas próprias alpargatas contra a pedra soava como um tiro. Os santos em seus nichos, mal iluminados pelos tocos de vela afogando-se em seu próprio sebo no altar, pareciam me observar com olhos de vidro fixos, mudos e severos, esticando suas sombras deformadas pelas paredes altas. Um som gelou meu sangue: passos pesados e o tilintar de um enorme molho de chaves de ferro vinham da sacristia. Alguém ia trancar. O pânico de ser encontrado ali, de ser arrastado diante do padre ou de a notícia chegar aos ouvidos do meu pai, era mais forte que qualquer outro medo. Eu tinha que me esconder.

Meus olhos varreram a nave central na penumbra e travaram numa estrutura de madeira escura erguendo-se de um dos lados: o confessionário. Parecia uma pequena fortaleza de carvalho, um armário sagrado onde os homens esvaziavam suas almas. Eu pensei, com a inocência dos meus dez anos, que se a igreja era a casa de Deus, então aquela caixa tinha que ser o canto mais seguro do mundo. Corri até ela, abri a cortina grossa de pano desfiado que cheirava a hálito velho e me enfiei lá dentro, puxando as pernas bem contra o peito.

Quando a cortina se fechou, o espaço encolheu até o meu próprio tamanho. Através do tecido denso, ouvi os passos arrastados do sacristão se aproximando da entrada. Depois veio o som do fim do mundo: o gemido violento das portas principais se fechando, o baque surdo da pesada barra de madeira atravessando o portal e o rangido metálico do trinco de ferro girando.

Um momento depois, uma corrente de ar frio varreu o templo; o homem tinha apagado as últimas velas. A luz fraca que filtrava pelos vitrais sujos se extinguiu de uma vez, e a escuridão ficou tão densa que doía. Fiquei cego num segundo. Dizem que quando você perde a visão, seus outros sentidos se aguçam para te salvar, mas eu teria preferido mil vezes ter ficado surdo naquela noite. Porque naquele vazio negro, quando o silêncio do templo trancado deveria ser absoluto, a madeira do confessionário começou a vibrar.

No início, era um rangido sutil, uma pulsação que subia pela minha espinha através do encosto. Mas logo, a madeira não foi a única coisa a despertar. Do lado de fora da cortina de pano, a nave central da igreja se transformou num ninho de ruídos inexplicáveis. Eu ouvi o arrastar pesado de pés descalços sobre a pedra fria; passos rápidos, como os de grandes vermes, correndo de uma ponta do altar à outra. Os bancos de carvalho, densos e pesados, gemiam violentamente, reclamando sob o peso de corpos invisíveis sentando-se e levantando-se numa massa frenética e oculta. Alguém estava chorando perto do sacrário — um choro seco, de uma garganta velha, que de repente se retorceu numa risada abafada e zombeteira que subia pelos pilares até o teto.

Eu levei as mãos à boca e mordi os nós dos dedos até sentir o gosto de sangue. Eu sabia, com a certeza absoluta da sobrevivência, que se eu soltasse um único soluço, o que quer que estivesse correndo lá fora arrancaria a cortina e me arrastaria para o vazio.

Mas o verdadeiro inferno não estava lá fora.

Bem quando eu pensava que a estrutura era minha única proteção contra as coisas que vagavam pela igreja, o ar dentro do cubículo ficou espesso e fétido, gelado como o hálito de um morto. A veia da madeira velha começou a emitir um zumbido. Não vinha da nave; vinha de dentro do carvalho, bem atrás das minhas orelhas, pressionadas contra a nuca. Eram sussurros. Centenas de vozes sobrepostas, presas no móvel que por décadas tinha engolido a podridão da cidade.

Eram os segredos que homens e mulheres não ousavam confessar à luz do sol. Minha mente não entendia o sentido das palavras de adulto naquela época, mas as imagens atingiam meu peito como estilhaços. Eu ouvi a voz trêmula de uma mulher confessando ter afogado um recém-nascido no rio antes que ele pudesse chorar; o sussurro rouco de um homem amaldiçoando o irmão enquanto planejava envenenar seu gado. Orações invertidas, gotejando ódio, implorando pelas mortes de crianças da minha idade, e línguas bifurcadas suplicando o perdão de Deus apenas para ter permissão de pecar de novo ao amanhecer.

O confessionário inteiro vibrava com culpa humana, luxúria e crueldade. Mas no meio da maré de lamentos deformados, havia uma voz que congelava os batimentos no meu peito. Não era o sussurro de um velho consumido pelos anos, nem o choro seco de uma mulher. Era a voz de uma criança. O choro não vinha da maré lá fora, mas do outro lado da tela, como se o eco de sua confissão tivesse permanecido suspenso no ar, preso no tempo.

"Dói, Monsenhor..." o menino dizia entre soluços e lágrimas, buscando um conforto que nunca chegou. "...Ele me disse que era um segredo de Deus. Que se eu contasse para minha mãe, as almas do purgatório viriam buscar ela. Eu tentei rezar, mas ele... ele apagou a vela e segurou minhas mãos na sacristia. Por que Deus deixa ele fazer isso comigo se ele também usa a batina?"

Eu não conseguia dar um nome ao que estava ouvindo, mas sentia um frio nauseante no estômago. Era o som da inocência sendo devorada pelo próprio altar que deveria protegê-la. A pior parte não era o sofrimento da vítima, mas a resposta que vibrou logo em seguida, dita na voz calma e profunda do padre principal da cidade — o mesmo homem que horas antes nos tinha abençoado com a mão erguida.

"Vá para casa, menino, e guarde silêncio. Isto é uma prova de fé. O Irmão Luís está apenas purificando seus pecados. Reze dez Ave-Marias e não fale mais nisso. Deus vê tudo, e Ele castiga crianças mentirosas."

A memória de outra conversa se infiltrou no carvalho, uma que não aconteceu na confissão, mas entre as paredes desse mesmo cubículo minúsculo. Era o padre principal, repreendendo o outro homem, mas seu tom carecia da ira santa de um Deus que pune o pecado:

"Você tem que ter mais cuidado. O menino Martínez já está começando a fazer perguntas, e a cidade não pode descobrir. Mantenha ele longe do altar por algumas semanas. Se os dízimos caírem ou o bispo descobrir, todos nós afundamos. Deus proverá outro caminho, mas tenha cuidado."

Naquele instante, no meio da escuridão sufocante do confessionário, as peças da minha infância se encaixaram com a força de um chute. Eu lembrei dos domingos anteriores. Lembrei do jeito que o padre me olhava do púlpito, a fixidez dos olhos de ave de rapina nas minhas bermudas. Lembrei do domingo em que ele me chamou depois da aula de catecismo, me oferecendo um doce enquanto acariciava a minha nuca com uma mão muito macia, muito quente, insistindo que eu o acompanhasse até a sacristia para mover os cálices de prata. Eu tinha escapulido por pura timidez, impelido por aquele instinto desajeitado dos bichinhos que sentem a armadilha antes de vê-la.

O ar falhou nos meus pulmões. Minha cabeça doía de tanto pressionar as mãos sobre as orelhas com toda a força. Eu estava na barriga do monstro. As paredes que as pessoas comuns beijavam e reverenciavam eram construídas sobre o silêncio de crianças quebradas. As piores pessoas que eu encontraria na minha vida não tinham garras; elas usavam uma cruz no peito e usavam o nome de Deus para camuflar suas atrocidades.

Quando os primeiros raios de sol filtraram-se pelos vitrais sujos, manchando o chão de pedra de uma cor tão vermelha quanto sangue, eu ouvi os ferrolhos da entrada deslizarem. Esperei até que os passos do sacristão se afastassem em direção ao altar e, com o corpo dormente e a alma congelada, eu saí do confessionário. Não olhei para os santos. Não olhei para o altar. Corri para a porta, e meus pés descalços me levaram de volta para a montanha, atravessando a ponte de madeira sem olhar para a água negra.

Cheguei em casa com o caminho inundado de luz, mas minha mente estava mergulhada na noite mais profunda. Meu pai me puniu por ter me perdido, e eu não soltei uma única queixa enquanto o chicote cortava minhas costas.

Os anos passaram, eu me tornei um homem e formei minha própria família. Cresci num homem profundamente respeitoso com a igreja e a religião. Mas não porque eu acredite na salvação; pelo contrário, porque eu sei perfeitamente bem que os piores demônios não chacoalham correntes no inferno — eles sentam-se para confessar em templos.

Minha mulher, como todos nós, foi criada com a palavra de Deus na boca, e foi assim que ela criou nossos filhos. Eu nunca interfiro nesse aspecto da nossa vida, mas sempre estive de olho nos sinais. Meus filhos nunca usaram bermudas, e minhas filhas nunca usaram saias. Éramos estranhos na cidade que nos viu crescer, e eu entendia isso, mas não me importava. Eu nunca forcei meus filhos a irem à missa, e quando nos mudamos para a cidade e eles pararam de ir à igreja, eu nunca os questionei. Eu não sabia que consequências isso teria lá na frente ou quando todos nós morrêssemos, mas pelo menos me garantia que nenhum dos meus terminaria suplicando a um padre para não machucá-los.
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