quinta-feira, 24 de julho de 2025

O Glitch na Escuridão

Era 2012. Eu era apenas um adolescente comum, viciado em energéticos — latas de Monster e Red Bull sempre empilhadas ao lado do meu teclado. Barras de chocolate eram meu lanche favorito durante longas sessões de jogos. A escola era chata, mas, ao chegar em casa, eu podia me perder nos jogos por horas, às vezes a noite inteira.

Uma noite, tropecei em um jogo indie novo em um fórum que eu frequentava. Chamava-se O Vazio, anunciado como um jogo de terror psicológico com uma história e atmosfera fora do comum. Curioso, fiz o download na hora. Os gráficos eram simples, um pouco pixelados, mas a atmosfera era pesada — como se alguém tivesse colocado a alma em cada pixel.

Sentei-me com um Monster na mão e uma barra de chocolate meio comida ao lado do teclado. Quando o jogo começou, eu estava em uma floresta densa e escura. Uma névoa espessa pairava no ar, e eu sentia como se estivesse sendo observado. O caminho estreito que eu seguia se contorcia, mas algo parecia errado. As árvores mudavam de forma. De repente, eu estava em um lugar que não tinha visto antes, mesmo tendo seguido uma trilha reta.

Sombras se moviam no canto da minha visão. Claro, podia ser só o design do jogo, mas às vezes eu ouvia sussurros — suaves, quase inaudíveis — que não faziam parte do roteiro ou dos sons do jogo. Parecia que algo tentava falar comigo.

Quando desviava o olhar da tela, meu quarto parecia diferente. A escuridão no canto perto do computador parecia densa, como se engolisse a luz.

Continuei jogando. As latas de Monster se acumulavam, e o chocolate sumia mais rápido que o normal. Meus dias viraram um borrão. Na escola, eu cochilava nas aulas, mas, ao chegar em casa e sentar na frente do PC, ficava alerta de novo.

Quanto mais eu jogava, mais estranhas as coisas ficavam. A tela piscava às vezes, e, quando eu olhava para o lado, via de relance coisas que não deveriam estar lá — uma sombra parada no fundo, uma porta se abrindo sem eu clicar, uma figura sumindo quando eu piscava.

Mostrei aos meus amigos, mas eles nunca viam nada de estranho. “São só glitches”, diziam. Mas eu sabia que era outra coisa.

Uma noite, após um Red Bull e mais chocolate, o jogo começou a mostrar mensagens estranhas nas caixas de texto. Meu nome apareceu. Ouvi vozes pelos fones de ouvido — sussurros repetindo meu nome.

Tentei fechar o jogo, mas o computador não respondia. Era como se ele se recusasse a me obedecer.

Aos poucos, minha realidade e o mundo do jogo começaram a se misturar. Vi coisas no meu quarto que lembravam a floresta do jogo. Sombras se moviam de forma anormal. Sentia uma presença me seguindo, mesmo com a tela desligada.

Acordei uma manhã com arranhões no braço — como se algo tivesse tentado me agarrar. Não fazia ideia de como apareceram.

Queria parar de jogar. Mas o jogo ainda estava lá, no meu disco rígido, esperando. Quando o abri novamente, tudo piorou. Uma nova mensagem apareceu na tela:

“Nos deixe sair.”

Cliquei em “Não.”

Meu computador morreu.

Uma névoa fria tomou o quarto.

As vozes se aproximaram.

Agora estou preso em algum lugar entre o jogo e a realidade. Não sei quanto tempo passou, mas ouço eles — as sombras, os sussurros — todas as noites.

Eles estão esperando.

E um dia, eles vão se libertar.

Quando esse dia chegar, acho que não serei o único a ser puxado para dentro.

Alguém mais já baixou um jogo que não deveria? Porque não sei se vou conseguir sair dessa.

Eu organizei meu banheiro e agora acho que joguei fora o verdadeiro eu

Passei a maior parte de ontem rearrumando meu banheiro. Não era o plano. Só entrei pra pegar um fio dental e acabei no chão, afundada em caixas plásticas e produtos vencidos. Acho que todo mundo tem aquela gaveta ou armário. Aquele onde as coisas vão pra morrer. O meu, por acaso, é onde guardei quase uma década de reservas de produtos de cuidados com a pele, acessórios pra cabelo e itens de higiene pessoal pela metade.

Não era acumulação. Juro. Eu só gosto do que gosto. Quando encontro um shampoo que funciona, compro cinco. Se um desodorante tem um cheiro bom e passa suave, fico com ele até o fim dos tempos. Pode chamar de hábito, de lealdade à marca, de consumismo exagerado. Eu sempre vi como estar preparada. Até ontem.

No começo, foi estranhamente satisfatório. Jogar fora máscaras faciais ressecadas. Agrupar lâminas de barbear numa bandejinha. Alinhar meus hidratantes reserva como soldadinhos. Senti que estava recuperando espaço. Fazendo um inventário da minha vida.

Aí comecei a notar padrões.

Três escovas de cabelo iguais, todas abertas, mas quase não usadas. Quatro tubos de pasta de dente, do mesmo tipo, mesmo tamanho, comprados em anos diferentes, mas todos abertos pela mesma ponta. Cinco bastões de desodorante. Mesma marca, mesmo cheiro, em diferentes estágios de uso. Eu não lembrava de ter usado mais de um.

Tudo bem. Talvez eu tenha uma mania estranha de abrir algo, esquecer e abrir outro. Tentei ignorar.

Mas havia um peso em tudo. Como se meus pertences estivessem me observando. Esperando que eu tomasse uma decisão. Cada vez que pegava algo, sentia como se estivesse descolando uma parte de mim. Como uma camada de mim mesma que tinha endurecido.

Esfreguei rótulos até a tinta sair. Abri frascos só pra confirmar que estavam vazios. Fui implacável. Chega de estocar. Chega de guardar coisas “só por garantia”. Disse a mim mesma que não traria nada novo pra esse lugar até criar espaço pra isso. Espaço de verdade.

Não só nas gavetas. Em mim.

Acho que foi quando começou.

Comecei a sentir que estava reduzindo mais do que meu banheiro. Cada cotonete, cada tampa encrostada, cada máscara facial esfarelada — eu jogava fora como se estivesse podando uma parte do meu corpo. Não era metáfora. Era físico. Como se estivesse lixando minhas próprias bordas pra me fazer menor.

E não era só lixo. Eram minhas células de pele. Meus cabelos. Saliva seca no fio dental. Meu cheiro, preservado em loções. Minhas digitais, marcadas em tampas, potes e tubos por anos.

Percebi que nosso DNA está em tudo.

Cada vez que uso algo, deixo um rastro. Um resíduo. Um registro. E acho que nunca tinha entendido o quanto de mim deixei neste apartamento. O quanto selei em gavetas, tampas e latas de lixo. Não memórias. Pedaços.

Estava limpando uma caixinha branca organizadora quando encontrei um fio do meu cabelo enrolado num canto. Velho, quebradiço, quase transparente. Peguei sem pensar e joguei no lixo. Mas parei.

Eu tinha cortado meu cabelo há dois meses. Curto. Aquele fio era longo.

Muito mais longo do que deveria ser.

E estava amarrado numa ponta.

Olhei pro saco de lixo. Eu o enchi com pedaços de mim. Não só tranqueira, não só bagunça, mas versões descartadas. Eus passados que, aos poucos, foram sendo apagados com o tempo, deixados pra trás em embalagens, resíduos e fiapos.

Continuei. Não conseguia parar.

Aí encontrei uma caixa.

Estava enfiada no canto mais fundo do armário embaixo da pia. Pequena, branca, sem identificação. Não lembro de tê-la colocado lá. Não lembro de tê-la visto na última vez que limpei.

Dentro da caixa, havia um saco selado. Dentro do saco, lixo. Fios dentais usados. Discos de algodão encharcados de água micelar. Cotonetes com manchas pretas nas pontas. Fios de cabelo. Uma lente de contato. Um curativo.

Tudo meu.

Mas eu nunca guardei isso. Nunca coloquei num saco. Nunca escondi.

Fiquei sentada no chão por muito tempo. Não me mexi. Só olhei pro saco e comecei a respirar mais devagar. Algo não estava certo.

Olhei pra cima e vi meu reflexo no espelho. Nada de errado. Só eu. Mas quando inclinei a cabeça, o reflexo não se moveu na hora. Como se houvesse um atraso. Uma demora no vidro.

Não dormi ontem à noite.

Deixei a luz acesa. Fiquei deitada na cama, pensando em cada item que já joguei fora. Cada toalha que doei. Cada frasco vazio que joguei na lixeira. Quantos pedaços de mim foram replicados. Preservados. Arquivados.

Voltei ao banheiro hoje de manhã e o lixo que ensaquei ontem sumiu.

Não foi levado pra calçada. Não foi colocado no corredor. Apenas... sumiu.

A única coisa embaixo da pia era a caixa de novo. Mesmo tamanho. Mesmo lugar. Mas agora estava cheia de itens que eu ainda não tinha jogado fora. Coisas que eu ia descartar hoje. Uma escova de dentes que não abri. Um sérum que ainda estava usando. Uma lixa de unha que eu juro que estava na gaveta.

Abri o armário de remédios. Todos os produtos estavam cheios. Novos. Alinhados direitinho.

Não lembro de ter feito isso.

Não sei o que joguei fora.

Não sei qual versão de mim eu sou.

E quando sorri pro meu reflexo, ele sorriu de volta cedo demais.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Meu novo bairro tem apenas uma regra: Nunca, sob nenhuma circunstância, ajude um animal perdido

A casa foi uma pechincha. Esse deveria ter sido o primeiro sinal de alerta. Uma casa de três quartos no estilo artesanal, com uma varanda que a contornava, por menos que o custo do meu apertado apartamento de dois quartos. Ficava em um condomínio tranquilo e isolado chamado "Córrego do Bordo", onde todos os gramados eram de um verde impossível e os vizinhos acenavam com todos os cinco dedos.

A presidente da associação de moradores, uma mulher chamada Carol com um sorriso brilhante e duro como o de uma boneca de porcelana, me recebeu no primeiro dia. Ela me entregou uma cesta de boas-vindas com uma garrafa de vinho branco barato e uma única folha plastificada.

"Estamos muito felizes em tê-lo aqui, Marcos", disse ela, com os olhos franzindo de um jeito que não parecia genuíno. "Somos bem tranquilos aqui no Córrego do Bordo. Não temos regras sobre a altura do gramado ou as cores das cercas. Só temos uma."

Ela bateu uma unha perfeitamente manicure na folha plastificada. Nela, em uma fonte grande e amigável, estavam as palavras:

Regra #1: Se você vir um animal que pareça perdido ou em perigo, não se aproxime. Não o alimente. Não o deixe entrar em sua casa. Entre, tranque as portas e ignore-o até que ele vá embora.

Eu ri, achando que era uma piada. "O quê, os guaxinins aqui são do crime organizado?"

O sorriso de Carol não vacilou. "Não é uma sugestão, Marcos. É a única coisa que exigimos de você. É para a segurança e harmonia da comunidade." O tom dela era leve, mas seus olhos eram mortalmente sérios. Foi a primeira vez que senti um calafrio no ar quente da tarde.

No primeiro mês, tudo foi perfeito. Silencioso. Pacífico. Quase esqueci da regra estranha. Via pessoas passeando com seus cachorros na coleira, gatos tomando sol nas varandas. Eles claramente tinham donos, estavam claramente onde deveriam estar. A regra parecia uma peculiaridade estranha de uma era passada.

Então veio a tempestade na noite passada.

Foi uma tempestade daquelas, com trovões que faziam as janelas tremerem e uma chuva que caía em cortinas. Era por volta da meia-noite quando ouvi, um som que cortou o barulho da tempestade. Um ganido agudo e patético.

Olhei pela janela da sala. Encolhido sob o beiral da minha varanda, tremendo e encharcado, estava um golden retriever. Era lindo, com olhos grandes e tristes e uma coleira de couro, mas sem identificação. A cada trovão, ele se pressionava contra a minha porta e choramingava.

Meu coração partiu. A folha plastificada estava na minha bancada, e as palavras de Carol ecoavam na minha cabeça. Entre, tranque as portas e ignore-o.

Mas como eu poderia? Era só um cachorro. Um animal assustado e perdido. Qual seria o pior que poderia acontecer? Eu estaria quebrando uma regra estúpida e arbitrária de uma presidente de associação com mania de controle.

Então, fiz isso. Abri a porta.

O cachorro praticamente caiu para dentro, deixando uma poça no meu piso de madeira. Ele me olhou com tanta gratidão, esfregando a cabeça molhada na minha mão. Peguei uma toalha e uma tigela de água, e ele imediatamente se acomodou no meu tapete, soltando um suspiro de alívio. Senti uma onda de tranquilidade. Viu? Só um cachorro.

Adormeci no sofá assistindo TV. Fui acordado algumas horas depois por um som que não era da tempestade.

Toc. Toc. Toc.

Uma batida lenta e deliberada na minha porta da frente. A chuva tinha parado. O cachorro no chão levantou a cabeça, soltou um rosnado baixo e, estranhamente, trotou até a porta, abanando o rabo uma única vez, preguiçosamente.

Olhei pelo olho mágico. Na minha varanda estava um homem. Ele era alto, impossivelmente alto, vestido com um terno antiquado e impecável, como um vendedor de porta em porta dos anos 1950. Ele sorria, um sorriso largo e amigável que mostrava dentes demais, todos perfeitamente alinhados e brancos.

Abri a porta uma fresta, ainda com a corrente. 

"Posso ajudar?"

"Boa noite", disse o homem, com uma voz suave e agradável. "Peço desculpas pelo horário. Acredito que você encontrou meu cachorro?" Ele apontou com a cabeça para o retriever, que agora estava sentado pacientemente aos seus pés, olhando para ele.

"Ah, sim, ele estava lá fora na tempestade", falei, meu alívio me fazendo sentir tolo por ter sentido medo. "Que bom que você o encontrou."

O sorriso do homem alto se alargou, esticando seu rosto de uma forma que parecia antinatural. "Ele tem o hábito de fugir. É um pouco travesso." Ele se inclinou para a frente, seus olhos escuros e sem piscar fixos nos meus. "Mas ele é muito bom no que faz."

Meu sangue gelou. "No que... faz?"

O homem riu, um som seco e farfalhante. Ele se abaixou e acariciou a cabeça do cachorro.

"Claro", disse ele, sem desviar o olhar de mim. "O trabalho dele é encontrar a pessoa mais gentil do bairro."

Ele se endireitou, sua figura imponente parecendo bloquear toda a luz da varanda.

"Muito obrigado pela sua hospitalidade", disse o homem, seu sorriso finalmente alcançando os olhos, que agora brilhavam com uma luz aterrorizante e faminta. "Ele gostou muito de você. Decidiu que quer que você conheça o resto da família."

Minha mente gritava para eu bater a porta. Bater, trancar, correr! Mas meu corpo não obedecia. Eu era uma estátua, minha mão congelada na porta. O sorriso do homem não vacilava enquanto ele dava um leve empurrão na porta. A corrente de segurança de latão não quebrou nem se partiu. Ela esticou, se alongando como bala mole com um gemido metálico suave antes de cair, frouxa e inútil.

"Assim está melhor", disse ele, agradavelmente.

Ele não entrou. Apenas deu um passo para trás e fez um gesto com a palma aberta em direção à rua. Não era uma ordem. Era um convite. E, por razões que não consigo explicar, me vi saindo para a varanda. O golden retriever trotava à nossa frente, com o rabo erguido.

O ar lá fora era diferente. A tempestade tinha lavado tudo, mas o mundo parecia abafado, como se eu o estivesse vendo através de um vidro fumê. Os postes de luz projetavam sombras longas e distorcidas que pareciam se contorcer e girar nas bordas da minha visão. Enquanto caminhávamos, notei outras coisas.

Um gato preto e lustroso emergiu de baixo de uma cerca viva, seus olhos brilhando com um leve fosforescência. Ele se juntou ao retriever. Algumas casas adiante, um papagaio estava pousado em uma caixa de correio. Ele não grasnou nem falou; apenas girou a cabeça, acompanhando nosso progresso em silêncio perfeito. Todos eles se moviam conosco. Uma guarda de honra de animais silenciosos e vigilantes.

Olhei para as casas por onde passávamos. Pelas grandes janelas, eu podia ver meus vizinhos. Eles estavam congelados no lugar, como manequins em dioramas elaborados. Uma família estava sentada ao redor de uma mesa de jantar, com os garfos levantados a meio caminho da boca. Em outra casa, um homem estava parado no meio de um passo, com um pé pairando sobre o chão. Todos estavam voltados para a nossa direção, com rostos inexpressivos, olhos arregalados e vazios.

"Não se preocupe com eles", disse o homem alto, notando meu olhar. "Eles são muito bons em seguir as regras."

Estávamos indo para o final da rua sem saída, para a casa mais antiga do quarteirão, uma grande colonial que esteve escura e aparentemente vazia desde que me mudei. Conforme nos aproximávamos, senti uma vibração baixa através das solas dos meus sapatos, um zumbido profundo que parecia emanar da própria casa.

O golden retriever liderou a procissão pelo caminho e sentou pacientemente diante da pesada porta de carvalho. Os outros animais formaram um semicírculo silencioso atrás de nós, todos os olhos fixos em mim.

O homem alto caminhou até a porta. Ela se abriu antes que ele a tocasse, revelando nada além de uma escuridão profunda e impenetrável lá dentro. O zumbido baixo ficou mais alto, ressoando nos meus ossos. Parecia um ronronar. Um ronronar gigantesco e faminto.

O homem se virou para mim, seu sorriso tão largo e aterrorizante como sempre. Ele gesticulou para a escuridão.

"Depois de você", disse ele. "Eles estão muito ansiosos por isso."

Mudança

Não sei exatamente o que aconteceu, e meu namorado também não. Estamos ambos assustados e procurando respostas que provavelmente nunca encontraremos. Para contexto, Tim e eu moramos juntos há dois anos e, honestamente, nunca tivemos brigas sérias.

Alguns detalhes importantes:

Ele é careca. No último ano, ele decidiu raspar a cabeça, achando que ficaria melhor do que manter o cabelo ralo. Isso nunca foi um problema para minha atração por ele, e ele sabe disso.

Ele trabalha em um emprego que, às vezes, exige que ele viaje por curtos períodos. Normalmente, são apenas algumas noites fora, e ele me avisa se os planos mudarem, se vai ficar mais tempo ou voltar mais cedo.

E, por fim, ele é incrivelmente gentil. Nossas discussões nunca terminam em gritos e, definitivamente, não envolvem xingamentos ou abusos. Já fui humilhada e verbalmente agredida por parceiros no passado, então sei reconhecer um homem ruim quando vejo um. Tim não é assim.

No final da semana passada, Tim saiu para uma de suas viagens de trabalho e disse que voltaria na terça-feira de manhã. Eu o deixei no aeroporto na sexta-feira à noite e comecei meu fim de semana sozinha com nossos dois gatos.

Ele não me ligou nenhuma vez enquanto estava fora. Isso foi incomum, mas achei que ele deveria estar ocupado e deixei pra lá. Ele tinha me enviado uma mensagem dizendo “acabei de pousar” na sexta-feira, o que já era suficiente para mim.

Na segunda-feira de manhã, acordei em uma casa congelante. Onde moro, está fazendo entre 27 e 32 graus Celsius todos os dias, e eu nunca deixo o ar-condicionado muito frio para meu conforto. Quando verifiquei o termostato, ele mostrava a mesma temperatura de sempre, apesar do ar ao meu redor parecer gelado. Os gatos estavam encolhidos juntos no sofá, debaixo da nossa manta.

Enquanto decidia se deveria simplesmente aumentar a temperatura do ambiente, a porta da frente se abriu, e meu namorado entrou arrastando os pés. “Oi!” eu o cumprimentei, confusa, mas animada por vê-lo. Eu tinha certeza de que não havia recebido uma mensagem dizendo que ele voltaria hoje, mas poderia ter perdido.

Por mais surpresa que eu estivesse com seu retorno antecipado, fiquei ainda mais intrigada com o gorro na cabeça dele. Quem usa gorro em julho? E por que eu nunca tinha visto aquele gorro azul-escuro antes?

Tim não disse nada, jogou a bolsa de viagem com força aos meus pés e foi arrastando os pés pelo corredor até nosso quarto. Eu o segui e perguntei como tinha sido a viagem. Ele apenas grunhiu em resposta e bateu a porta do quarto.

Imediatamente, os piores pensamentos passaram pela minha cabeça. Talvez ele tivesse perdido o emprego. Talvez, por algum motivo repentino, ele achasse que eu tinha feito algo para trair sua confiança enquanto ele estava fora. Bati na porta do quarto. “Podemos conversar?” perguntei, tímida. Tim abriu a porta e ficou ali, me encarando com um olhar ameaçador. “Você deveria ter me ligado, e não ligou,” ele disse com uma frieza na voz que eu nunca tinha ouvido antes.

Ele não tinha me pedido para ligar. E, como já mencionei, normalmente é ele quem me liga durante essas viagens. “Quer dizer… Desculpa-me, mas—” comecei a responder. Tim passou por mim, foi até o sofá da sala, jogou o gorro do outro lado da sala e se sentou, cruzando os braços sobre o peito.

Foi então que notei que ele tinha cabelo novamente. Não apenas um pouco de cabelo, como se estivesse na hora de se barbear e ele não tivesse feito isso. Ele tinha exatamente a mesma quantidade de cabelo que tinha antes de decidir ficar careca, com o mesmo padrão de calvície. A casa inteira ainda estava muito fria, mas o ar ao redor de Tim parecia especialmente gelado. “Por que você não me ligou, sua vadia?!” ele exigiu saber quando finalmente falou novamente. Sua voz estava tão alta que assustou os gatos, que saíram correndo da sala.

Eu não respondi. Não conseguia formar uma resposta. Com lágrimas nos olhos, me virei e fui para a cozinha. Enquanto preparava ovos mexidos às pressas, tentando me acalmar, olhei para trás e vi Tim me encarando da porta. Seus braços estavam soltos ao lado do corpo, e seus olhos pareciam vazios e sem vida. O ar na cozinha começou a ficar mais frio. Ele ficou ali, exatamente assim, durante todo o tempo em que cozinhei.

Não era só o fato de Tim estar sendo duro comigo sem motivo aparente. Toda a aura ao redor dele parecia errada. Era o Tim, mas estava tudo errado.

Ofereci a ele um prato de ovos, mas ele não respondeu nem se sentou à mesa comigo. Enquanto eu comia, ele voltou para o quarto e ficou me observando por trás da porta entreaberta. Passou o resto da manhã em silêncio total no quarto. Saí para o trabalho depois de uma hora, esperando que as coisas talvez ficassem menos estranhas depois de um tempo separados.

Voltei para casa tarde naquela noite, e a casa estava extremamente fria. Cada cômodo parecia uma câmara frigorífica. A luz do nosso quarto estava acesa, mas Tim ainda estava trancado lá dentro. Decidi dormir no sofá, embora a presença de Tim ainda me deixasse arrepiada, mesmo estando atrás daquela porta fechada.

Mas, quando acordei na manhã seguinte, a luz do quarto estava apagada, e Tim não estava mais lá. Normalmente, ele tiraria um dia de folga após uma viagem, então não esperava que ele estivesse no trabalho naquela manhã. A temperatura da casa parecia normal novamente. Peguei meu celular e vi uma mensagem de Tim. “Acabei de pousar,” dizia. A mensagem tinha sido enviada uma hora antes.

Então, percebi que tinha várias chamadas perdidas de Tim dos últimos dias. Chamadas que não tinham chegado de forma alguma. Ele deixou um correio de voz naquela manhã. Enquanto eu ouvia, a porta da frente se abriu, e Tim entrou.

“Olááá!” ele exclamou, no seu jeito alegre de sempre. Colocou a bolsa de viagem cuidadosamente junto à parede e me puxou para um abraço. O cabelo dele tinha sumido. “Desculpe-me por te surpreender,” ele disse. “Decidi pegar um carro por aplicativo em vez de te ligar tão cedo para me buscar.”

Contei a Tim o que tinha acontecido no dia anterior. Falei tudo sobre como ele estava agindo de forma assustadora e cruel e como eu não tinha recebido nenhuma ligação dele.

E agora, nós dois estamos tentando entender quem — ou o quê — esteve na nossa casa comigo.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon