sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Tom Voyeur

Cara, a cadeia é uma merda mesmo. Acabei de sair, me soltaram, mas ainda tenho que ir a julgamento, e aquilo na corte foi só a audiência de acusação. Eu nem sabia o que isso significava até estar lá de pé, mãos geladas, tentando não olhar pra ninguém. O promotor leu a acusação: "Voyeurismo em Primeiro Grau".

Soou pior do que eu imaginava. Tipo, como se eu fosse um predador de verdade. Queria explicar, dizer que não era nada disso, mas meu advogado me mandou ficar na minha.

O juiz perguntou se eu entendia a acusação. Eu disse: "Sim."

Aí eles falaram de fiança, e meu advogado defendeu pra me soltarem sob palavra. Disse que eu não era fugitivo, que morava no mesmo prédio há doze anos, que não tinha ficha criminal. Ele não mencionou que eu era o dono do prédio. Acho que foi pra me proteger.

O promotor mencionou, sim. Disse que a vítima morava no meu prédio, que eu tinha acesso. Que eu tinha violado a confiança. Meu estômago revirou. Não olhei pra ela. Não olhei pra ninguém.

O juiz topou me soltar, mas com condições. Não posso chegar a cinquenta pés do apartamento dela. Tive que entregar todas as chaves. Fiquei proibido de entrar na escada leste, na lavanderia, no porão ou em qualquer lugar onde ela possa estar. Agora uso uma tornozeleira eletrônica. Ela apita se eu cruzar as linhas invisíveis que eles traçaram em volta do espaço dela.

Tenho que pagar vinte dólares por dia pra usar essa porcaria, e vou ter que usar até o julgamento. Meu advogado diz que, dadas as circunstâncias, provavelmente vou pegar uma pena reduzida, se é que vão me condenar por alguma coisa.

Essa é a minha chance de me explicar, de limpar meu bom nome.

Acabei de reler o que escrevi aí embaixo, e parece loucura, mas juro que é tudo verdade. Aquela coisa existe mesmo, e ainda tá solta por aí.

Meu primeiro encontro com o entupimento de cabelo foi, bem, como um entupimento mesmo, tipo, no ralo.

Eu tirei ele pra Sra. Peachtree, e lá estava. Fiquei olhando por um segundo, sentindo de algum jeito que ele tava me olhando de volta. Eu tremi, sentindo o quão errado aquilo era.

O entupimento balançava na ponta do gancho do arame, parecendo quase uma peruca de cabelo escuro e comprido. Tinha bolotas de gosma, fiapos brancos, emaranhados torcidos, e pingava um líquido cor de chá. O cheiro era horrível, e eu engasguei com ele e o troço escorregou do gancho. Eu vomitei no vaso ao lado enquanto a massa embolada caía de volta na banheira.

Lá se foi, deslizando – não, rastejando, sim, ele rastejou – pro ralo e sumiu fácil. Eu fiquei pasmo, e despejei mais desentupidor. Tentei pescar de novo com o arame, tateando atrás dele, mas parecia que tinha ido pro ralo mesmo.

"Tudo bem aí, Sr. Thomas?" a Sra. Peachtree perguntou. Eu estremeci, sentindo o primeiro frio na espinha daquele primeiro encontro. Acenei que sim, mas me senti esquisito. Nunca tinha visto nada igual, e eu nem curto essas paradas sobrenaturais.

Mais tarde naquele dia, a filha dela, Ruth, veio visitar a mãe. Já conhecia a Ruth; ela costumava passar o verão com a mãe. Agora ela tá toda crescida – na real, acho que não devia comentar nada sobre a aparência dela, considerando essa fama injusta de pervertido que me colaram. Eu te juro, não sou assim, de verdade, não sou.

Ruth veio correndo pelo corredor, gritando em pânico total. Quando eu a peguei, ela me acertou e, com os olhos arregalados, berrou, histérica: "Ela morreu!"

Tinha um jeito estranho de dizer "morreu", como se fosse a primeira vez na vida que ela usava a palavra. Não que ela nunca tivesse dito antes, mas assim.

Eu fui ver, depois de passar a Ruth pra Caroline (a mesma suposta vítima do meu voyeurismo). Ela abriu a porta de toalha, e sim, eu dei uma olhada e ela fez cara feia pra mim, mas não foi de propósito. A toalha tava pequena demais, e quando eu virei, ela tava ali parada. Não fiquei olhando de propósito.

Mesmo assim, pelo olhar dela, dava pra ver que ela ficou ofendida com o meu, porque eu levantei a cabeça e cruzei os olhos dela. Depois que ela pegou a Ruth, que tava soluçando e tremendo, eu fui checar a Sra. Peachtree.

A professora aposentada de ensino fundamental tava morta, esparramada do lado de fora do chuveiro, onde tinha caído de cara. Achei que era acidente, então cobri ela antes que mais alguém visse daquele jeito, jogando umas toalhas em cima da bunda. Eu tinha desviado o olhar até conseguir cobrir, e aí olhei melhor, me abaixei pra checar o pulso no pescoço.

Foi aí que notei a marca funda na garganta, tipo se alguém tivesse enforcado ela e tirado a corda, deixando só as marcas. Meus dedos saíram do pescoço dela com um fio comprido de muco viscoso, e cheirava a Drano e aquele fedor horrível do entupimento que eu tinha tirado.

Por um instante, eu só fiquei ali sentado, em choque e pavor. Aí senti aquilo, o pavor total de uma coisa maligna te observando. Virei e olhei, o rosto e os olhos varrendo tudo até que olhei pro alto, no canto do chuveiro, atrás de mim. Lá tava ela.

Parecia uma teia de aranha suja e enegrecida. Tinha tentáculos de cabelo espalhados pra todo lado, se segurando no lugar pela tensão e pela viscosidade. Eu fiquei apavorado, porque o que diabos era aquilo? O que era? Aí ela caiu na banheira com um som molhado nojento e se contorceu pro ralo.

Eu gritei em pânico, tentando me afastar e caindo em cima da Sra. Peachtree. Enquanto me debatia pra sair de cima dela, todas as toalhas caíram e minhas mãos escorregavam na pele molhada dela enquanto eu tentava me levantar pra fugir daquela merda.

Naquele exato momento, a Caroline entrou, e ela só me viu todo em cima da Sra. Peachtree, me arrastando pra ficar de pé.

"Você viu isso?" eu perguntei, o rosto vermelho e suado.

"Sai de cima dela, seu doente nojento!" a Caroline rosnou pra mim.

"Ela morreu", eu implorei, como se a morte tivesse prioridade sobre o que tava deixando ela louca. Ela recuou de mim, agora de roupão.

"Você é nojento." Ela cuspiu.

Alguém no corredor chamou os paramédicos, mas eu tenho certeza que ela já tava bem morta. Levaram ela embora numa maca, e a Ruth ficou destruída. Eu me senti péssimo pela coitada, eu tinha visto ela crescer, conhecia ela e a mãe. Ver ela assim partiu meu coração.

No dia seguinte, a Caroline me ligou porque o ralo dela tava entupido. Fui pro apartamento dela, e ela tava me fuzilando com o olhar, mas disse: "Eu não quis gritar com você. Eu tava em choque."

"Tá tudo bem. Eu entendi que você deve ter me visto rolando em cima dela. Eu levei um susto quando percebi que ela tava morta." Eu ficava dizendo "percebi", mas por algum motivo escorreguei duas vezes e falei "olhos reais". A Caroline piscou, e acho que foi um lapso freudiano, porque eu realmente sentia que o olhar dela era sincero. Naquele momento, ela tava me vendo como eu sou, e não como o tarado que ela acha que eu sou agora.

Comecei mergulhando o ralo da banheira dela, porque tava totalmente bloqueado. Senti um frio na barriga, porque eu tava com medo que aquela coisa ainda estivesse se mexendo pelos canos, caçando outra vítima pra enforcar.

Por um tempão agonizante, eu fiquei ansioso, achando que ela ia explodir do ralo e me envolver o rosto. Continuei trabalhando, mas o medo era real pra caralho.

Consegui desentupir o ralo dela, e ela disse que era bom porque senão ia se atrasar pro banho e pra sair.

Ela não me levou até a porta, e como eu tava morrendo de medo do que poderia acontecer com ela, na real eu não saí do apartamento. Não tinha plano nenhum, tava tão abalado e paranoico que ela podia pegar ela, que eu só bati a porta como se tivesse ido embora. Aí rastejei de volta pro banheiro.

Quando a água começou a correr e eu ouvi alguém entrando na banheira, o rangido da cortina do chuveiro fechando, eu entreabri a porta. Olhei, só um pouquinho, a menor frestinha possível. De onde eu tava, dava pra ver quase o buraco do ralo, mas ela tava escondida atrás do resto da porta. Nem me deu vontade; eu tava lá pra garantir que nada pegasse ela.

De repente, ela começou a gritar em pânico total. Eu arrombei a porta, mas não tinha monstro de cabelo atacando ela. Em vez disso, ela tava completamente nua e apontando pra mim, gritando uma mistura de terror e raiva.

Eu recuei, e a porta do banheiro fechou e trancou. Ela berrava pra eu sair do apartamento dela, e eu saí. Fui pro meu canto.

Lá sentei e esperei. Não demorou pro polícia chegar. Agora eu não sei o que fazer, não dá pra proteger ninguém com esse monitoramento. Ouvi que nos prédios vizinhos teve mais duas mortes, enforcamentos ou assassinatos. A polícia não tem pista nenhuma.

Mais seis semanas e eu fico livre da tornozeleira e do julgamento. Eu estoquei desentupidores, serpentina de encanador, fura-ralos e uma roto-rooter motorizada. Vou caçar essa porra, limpar meu nome e vingar a Sra. Peachtree.

Eu ainda tô apavorado com essa coisa, mas vou pegar esse terror todo e lutar de volta, pra reconquistar minha liberdade.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

O silêncio vem antes que ele me encontre

Desde pequeno, eu tenho esses pesadelos que começam como dias normais. Eu estaria escovando os dentes, olhando no espelho, e então vinha o silêncio, como um aviso. Eu me preparava. Sentia que algo estava vindo atrás de mim. Às vezes, eu soltava um grito primal ou corria. Em algumas, conseguia escapar; em outras, acordava suado, com o coração na boca.  

Pois é, ontem à noite, no meu sonho, *ele* me matou. E hoje, senti aquele silêncio de aviso, só que na vida real.  

Eu estava no trabalho, revisando umas faturas, quando a sensação me pegou. Um silêncio ensurdecedor tomou conta do escritório. Era como se alguém perigoso tivesse entrado e estivesse me encarando. Mas eu não vi nada, só senti. Olhei ao redor, como faço nos meus sonhos, mas nada aconteceu. Isso era a vida real. Eu me lembrava de ter dirigido até ali, de ter acordado. Belisquei meu braço e senti a dor. Eu estava acordado. Que porra estava acontecendo?  

Tentei seguir o dia, ignorando aquilo como um ataque de ansiedade, mas, ao longo do tempo, as sensações ficaram mais frequentes, mais intensas.  

Por volta do meio-dia, meu colega me chamou pelo interfone. Disse que tinha alguém no balcão perguntando se eu estava no escritório hoje. Achei estranho. Eu não lido com clientes. Sou o cara dos bastidores. Quem diabos estaria perguntando por mim?  

Chequei a câmera.  

Lá estava um homem alto, peitudo, de camisa vermelha, parado na sala do balcão, olhando direto pra câmera. Eu podia sentir o olhar dele através da tela, como se ele soubesse que eu o via. Meu monitor devia estar com defeito. Parecia que tinha algo errado com os olhos dele. As pupilas estavam esticadas, dilatadas, ocupando quase todo o olho.  

— O cara com as lentes de contato esquisitas? — perguntei ao meu colega.  

— Não vi se ele estava com lentes ou não, o cara de camisa vermelha — respondeu ele.  

Como ele não notou aqueles olhos?  

— Diz que já desço — falei, com a voz tremendo.  

Minha boca estava tão seca que mal consegui falar direito. O único som mais alto que as batidas do meu coração era o silêncio da sala.  

Ele ainda estava lá, encarando a câmera, sem se mexer.  

Corri pro fundo e saí pela porta dos fundos. Sem plano, só instinto de sobrevivência.  

Corri até ver um ônibus da Pace se aproximando de uma parada. Não me importei pra onde ele ia. Entrei, mas só tinha uma nota de 20. Deixei meu celular e carteira no escritório. Minha vida vale mais que 20 pratas.  

Deixei os solavancos do ônibus me distraírem do que aconteceu no trabalho. Por enquanto, eu estava seguro.  

Essa sensação de segurança durou menos de um minuto. Quando passamos por baixo de um viaduto, meu coração disparou, um frio tomou conta de mim. Mas como?  

— Moça, por favor, sente-se até pararmos! — ouvi o motorista gritar lá do fundo.  

Olhei pro espelho gigante do motorista e vi uma senhorinha de pé no assento dela. Virei pra trás e fiquei preso nos olhos dela, dilatados.  

Ela estava apontando direto pra mim, como se dissesse “Foi ele!”. Aqueles olhos esquisitos não piscavam. Eu não conseguia desviar o olhar até o ônibus começar a frear, me tirando do transe. Estávamos parando.  

Saí correndo daquele ônibus ainda mais rápido que do escritório.  

O ônibus foi embora com todos os outros a bordo, incluindo... *ela*.  

Continuei correndo.  

Lembrei que minha tia morava a pouco mais de um quilômetro dali. Não corria tanto desde o ensino médio. Depois do que pareceu uma hora, cheguei em segurança.  

A casa branca dela me levou de volta às memórias de quando eu a visitava no fundamental. Ela sempre tinha biscoitos prontos pra mim até minha mãe vir me buscar, e a gente conversava até a hora de ir embora.  

A porta estava destrancada. Será que ela estava em casa? Seria mais seguro se ela *não* estivesse?  

— Oi!  

— Tia Gigi?  

— Tive um dia muito estranho, preciso ligar pro trabalho e avisar...  

Ela estava parada no fim de um corredor escuro. Imóvel.  

— Tá acontecendo umas coisas esquisitas ultimamente. Tá tudo bem por aqui? — perguntei.  

Sem resposta.  

Apertei os olhos, tentando enxergar os dela. Pareciam normais, mas por que ela não dizia nada?  

Ela deu um pequeno passo à frente. Eu recuei, sentindo uma pontada de culpa por estar com medo.  

Ela deu outro passo... e então correu pelo corredor. Nunca vi uma mulher de 70 anos se mover tão rápido. O som dos passinhos dela, tão rápidos, ainda me dá arrepios. Ela parou na minha frente. Perto demais.  

Ela se inclinou e sussurrou no meu ouvido esquerdo:  
— Ele tá aqui.  

Dei um passo pra trás, finalmente conseguindo me mexer, e outro, até minhas costas baterem no que achei que era a porta. Uma mão pesada caiu no meu ombro direito. Um braço me envolveu pela esquerda. A mão no meu ombro me apertou pela direita, me prendendo, como se eu estivesse numa camisa de força. Cada vez mais apertado.  

Era quente. Doía. Fico ansioso só de pensar nisso. Tudo o que eu podia fazer era fechar os olhos e torcer pra parar.  

Eventualmente, parou. Acordei na minha própria cama. Exausto. Sem emoções.  

Fiquei pensando o quanto daquilo foi real. Não sentia nenhuma dor do aperto. Não sentia quase nada. Demorei pra juntar as peças. Essa foi só a minha primeira experiência. Isso tá acontecendo há pouco mais de um ano. Cada vez que acontece, sinto minha vida sendo sugada, minha animação, meus interesses, hobbies, paixões. Tudo some quando essa coisa me encontra. Entro num piloto automático. Semanas, meses, sem sentir nada. Eventualmente, volto a me sentir eu mesmo. Até o silêncio voltar, e eu sei que ele me encontrou.  

Isso tá acontecendo há mais de um ano. E enquanto escrevo isso, já sinto o silêncio voltando, rastejando pra cima de mim.  

A mulher que abri tinha algo estranho no abdômen

Vinte e quatro horas no plantão, e eu estava exausto. Morto de cansaço. Minhas pálpebras pesavam, fechando sozinhas, e cada vez que se cerravam, padrões estranhos rastejavam na escuridão atrás delas, contorcendo-se como se estivessem vivos. "Só mais uma anotação", eu dizia pra mim mesmo, e então poderia ir pra casa.  

Terminei de registrar os sinais vitais, fechei o laptop e pensei se deveria comer antes de desabar na cama. Meu corpo implorava por comida, mas a ideia de engolir qualquer coisa me embrulhava o estômago. Mesmo assim, me levantei e comecei a descer as escadas lentamente, rumo à cafeteria.  

O hospital ao amanhecer é diferente de qualquer outro lugar. As luzes zumbem como insetos presos atrás das placas do teto, as sombras se espalham pelos pisos estéreis, e cada tosse, cada arrastar de pés, ecoa alto demais pelos corredores.  

Foi quando eu a vi.  

No saguão, uma mulher estava largada numa cadeira de rodas. A pele dela era pálida como cera, o cabelo grudado nas têmporas com suor. Seus olhos, semicerrados e desfocados, não refletiam nada, como se a própria luz se recusasse a tocá-los. Um homem estava atrás dela, alternando olhares entre o rosto dela e a recepcionista indiferente no balcão.  

Eu poderia ter passado direto. Queria ter feito isso. Meu estômago roncava de fome, meus ossos doíam de cansaço, mas algo nela tornava impossível desviar o olhar.  

Me aproximei. Meu coração acelerava a cada passo.  

O homem me notou primeiro. “Doutor, por favor. Minha esposa, Amanda, estava com náuseas hoje cedo. O médico dela deu uma ordem de internação, mas enquanto esperávamos, ela piorou. Deram essa cadeira de rodas, mas…”  

As palavras dele se misturavam. Minha atenção estava fixa em Amanda. Os lábios dela se moviam, soltando sons quebrados, quase animais. Toquei o pulso dela, procurando o pulsar reconfortante da vida.  

O que encontrei não era nada reconfortante.  

O pulso dela vacilava sob meus dedos… trinta batidas por minuto, irregular, como o tique-taque fraco de um relógio prestes a parar. A respiração dela chiava, a pele úmida e pegajosa. Os olhos dela tremiam, depois rolaram levemente para cima.  

Choque.  

No meio do saguão, cercada de pessoas Swift como uma faca, ninguém percebeu que ela estava morrendo.  

Olhei para a recepcionista, que mal levantou os olhos da tela, com uma cara de irritação. Uma raiva que não parecia minha, como se fosse emprestada, explodiu dentro de mim. Sem pensar, ordenei que o homem me seguisse e empurrei a cadeira de rodas da esposa dele em direção ao pronto-socorro.  

Não corremos. Correr teria transformado o momento em caos. Em vez disso, caminhamos lentamente, como se estivéssemos numa procissão.  

Fiz perguntas sobre doenças, medicamentos, histórico, mas minha voz tremia. “Sou só um interno”, pensei. “Se ela entrar em parada agora, vou ter que…” Parei o pensamento. Não queria imaginar uma reanimação naquele corredor comprido, sob as luzes zumbindo.  

Chegamos às portas do pronto-socorro. Cortei a explicação do homem para a recepcionista: “Código vermelho, Brenda. Abre as portas. Agora.”  

Ela obedeceu, e as portas se abriram como uma boca escancarada.  

Lá dentro, o médico responsável acordou de um meio-sono, e em instantes o quarto se encheu de enfermeiros, monitores e vozes. Deitamos Amanda, fios serpenteando pelo corpo dela, telas piscando com números que desenhavam sua morte em tempo real.  

Frequência cardíaca: 30. Pressão arterial: 60/30. Respirações: rasas, irregulares.  

O marido falou de náuseas, de vômito com sangue mais cedo naquela manhã. Abri a boca dela e vi uma crosta preta de sangue seco na língua e nos dentes. O cheiro que saiu não era só de ferro e bile; era antigo, fétido, como algo que se espera escapar de catacumbas seladas há séculos.  

O abdômen dela estava inchado, rígido, silencioso como pedra. Encostei o estetoscópio na pele dela e, por um momento, imaginei ouvir algo — não o som suave da peristalse, mas um murmúrio baixo, como se o corpo dela guardasse não órgãos, mas vozes.  

O monitor apitou: 29 bpm. “Atropina, agora!” gritou o médico responsável.  

A enfermeira obedeceu. Os números subiram, relutantes, como uma criatura despertada do sono. 30. 31. 37. 40. Amanda gemeu, cada som saindo dela num ritmo preciso demais, ritualístico, como uma prece a algum deus esquecido.  

Me inclinei para o médico responsável. “Pode ser uma úlcera perfurada.”  

Ele pediu um ultrassom. A imagem em preto e branco revelou líquido livre por todo o abdômen. Ela estava sangrando, afogando-se em si mesma. Precisaria de cirurgia.  

“Vai chamar o chefe”, ele me disse.  

Obedeci.  

O chefe chegou, olhou uma vez para o monitor e fez uma ligação. “Assim que ela estiver estável, vamos estancar o sangramento.”  

Trinta minutos depois, Amanda foi considerada estável o suficiente para a sala de cirurgia. Enquanto a levávamos pelo corredor, senti as paredes se aproximando, as luzes fluorescentes piscando como se fossem apagadas pela presença dela.  

Na sala de cirurgia, me apresentei ao Dr. Roberts, que liderava o caso. Ele assentiu. “Vamos precisar das suas mãos. O Dr. Brown será o segundo cirurgião.”  

Nos esfregamos, vestimos os aventais e começamos.  

Quando a primeira incisão foi feita, um cheiro explodiu, não o odor acre de carne cauterizada, mas um fedor mais antigo, mais pesado. Ele invadiu nossas narinas, fez nossos olhos lacrimejarem. Cheirava a terra, a túmulos, a algo abandonado para apodrecer em silêncio por séculos.  

Abrimos o abdômen dela. A escuridão jorrou. Sangue preto como piche escorreu de dentro, mas não era apenas líquido. Estava vivo em sua quietude, engolindo a luz, distorcendo as bordas da sala.  

Fomos mais fundo. A cavidade se estendia de forma não natural, como se o corpo dela contivesse mais espaço do que deveria. Dr. Roberts e Dr. Brown levantaram os intestinos e os colocaram nas minhas mãos.  

Eu deveria ter sentido o ritmo suave da peristalse. Em vez disso, as alças se contorciam em espasmos violentos, como se algo dentro delas lutasse para escapar.  

O suor encharcou minha máscara. Meu coração gaguejava. Segurei a massa com dedos trêmulos, desesperado para não deixá-la cair.  

Então, explodiu.  

Intestinos, sangue, fezes jorraram para fora, não com o caos de um acidente, mas com a inevitabilidade de um nascimento. A sala ficou encharcada. Meus óculos protegeram meus olhos, mas quando os limpei, o campo estéril havia desaparecido, afogado em imundície.  

Os outros ficaram paralisados, os rostos contorcidos em horror. Eles não tinham proteção para os olhos. Seus olhos estavam arregalados, encarando, refletindo a visão impossível diante de nós.  

O abdômen de Amanda virou uma boca. Ele se alargou, se esticou, e dele jorrou não órgãos, mas algo mais, algo que distorcia a sala. As luzes se curvaram em direção a ele, o chão parecia ondular sob ele, e as paredes se inclinaram para dentro.  

Não era uma forma, mas muitas: rostos derretidos juntos, bocas abrindo e fechando, tentáculos se contorcendo e se dividindo em anatomias inimagináveis. Era intestino, e não era. Era carne, e era algo mais antigo que carne.  

A coisa tocou os cirurgiões, e eles não gritaram. Não piscaram. Apenas congelaram, suas pupilas engolidas pelo preto.  

A porta se abriu. Alguém entrou, atraído pelo barulho. Esse som quebrou minha paralisia.  

Eu fugi. Corri até meus pulmões arderem, até a bile subir pela minha garganta, até desabar, ofegante, no corredor.  

Agora, os cirurgiões estão na UTI. Em coma. Seus rostos ainda estão retorcidos nas mesmas formas grotescas que vi na sala de cirurgia, como se congelados no meio do horror. Seus ventres incham. Às vezes, eles se contorcem em uníssono, em ritmos que não reconheço, mas que sinto nos ossos.  

Eles me perguntam o que aconteceu. Os chefes, os médicos, os enfermeiros. Mas mesmo que eu falasse, eles não acreditariam.  

Eu sei disso: Amanda nunca foi a paciente. Ela era o recipiente.  

E o que liberamos aquela noite não foi feito para ser visto por olhos humanos.  

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Lamento

Dizem que o primeiro erro é sempre o mais barato. Você aprende com ele, segue em frente, a dor vai sumindo. Eu descobri que isso não é verdade. Meu primeiro erro, aquele que abriu a porta e convidou as coisas erradas pra entrar, me custou um pedaço da minha sanidade. É uma dívida que eu ainda pago, toda santa noite.

Tudo começou há cinco anos. Eu herdei a casa antiga do meu avô, uma casa térrea de dois andares no fim de uma rua sem saída, bem onde os limites da cidade se misturavam com uma floresta de pinheiros desleixada. Era grande demais, cheia de memórias demais pra mim, então decidi alugá-la. Coloquei um anúncio no jornalzinho local Pennysaver numa quinta-feira de manhã. Não é brincadeira: em menos de dez minutos, meu telefone tocou.

O cara do outro lado da linha se apresentou como Mark. A voz dele era quente, amigável. Disse que estava rodando por aí procurando um lugar pra família e que tinha acabado de ver o anúncio. Parecia coisa do destino. Ele, a esposa e os três filhos — dois meninos e uma menina — eram novos na cidade, precisavam de um lugar urgente e podiam pagar o primeiro e o último mês de aluguel em dinheiro vivo. Encontrei eles naquela tarde. Eram… agradáveis. Normais. Mark era todo aperto de mão firme e sorrisos fáceis. A esposa, Sarah, era quieta, de olhos baixos, mas deu um sorrisinho tímido. As crianças ficaram alinhadas em silêncio atrás deles, comportadas. Pareciam o sonho de qualquer proprietário de primeira viagem.

Esse sonho azedou rápido.

No primeiro mês, o dinheiro veio direitinho, deixado na caixa de correio num envelope branco impecável, como combinado. No segundo mês, o silêncio começou. Nenhuma ligação retornada. Minhas batidas na porta não eram atendidas. Eu via as cortinas se mexendo, mas ninguém aparecia. Levei uma semana tentando até que finalmente peguei o Mark voltando do trabalho. O cara que encontrei era um estranho. O calor nos olhos dele tinha sumido, substituído por uma impaciência fria e vazia. Ele me entregou um bolo de notas amassadas sem dizer uma palavra, o aperto de mão forte demais.

“Tá tudo bem, Mark?” perguntei.

“Tá ótimo,” ele retrucou, seco, e entrou na casa, batendo a porta antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. O terceiro mês foi um pesadelo de esquivas. Eu tava desesperado. Decidi que ia aparecer numa noite depois do trabalho e botar um ponto final nisso. Íamos mudar pra depósito bancário. Eu não ia mais jogar esse jogo.

Era por volta das oito da noite, o céu num roxo escuro, machucado, quando parei em frente à casa. O lugar tava escuro, sem carro na entrada. Achei que tinham saído pra alguma coisa. Resolvi esperar. A floresta no fim da rua parecia respirar, uma muralha de escuridão engolindo o restinho de luz. Uma hora depois, faróis cortaram o crepúsculo. Uma SUV preta que eu não conhecia estacionou na entrada.

Fui abrir a porta do meu carro, a mão no puxador, mas travei. A porta do passageiro abriu e uma mulher desceu. Só que não era a Sarah. Não a Sarah que eu conhecia. Ela tava coberta por um robe longo com capuz, tipo aqueles que monges usam em filme. O tecido preto e áspero engolia ela inteira; eu não conseguia ver o rosto, as mãos, nada. Aí a porta do motorista abriu, e o Mark saiu, vestido igual. As três crianças desceram do banco de trás, três sombras pequenas e silenciosas com versões em miniatura da mesma roupa sombria.

Eles andaram em fila única até a porta da frente, uma procissão de silhuetas contra a casa mal iluminada. Ninguém disse uma palavra. O único som era o roçar dos robes no cascalho e o baque frenético do meu próprio coração. Fechei a porta do carro devagar, bem quieto, o clique da tranca soando como um tiro na noite calma. Me abaixei no banco até eles sumirem dentro da casa. A casa continuou escura.

O que raios eu tinha acabado de ver? Alguma coisa religiosa? Um culto? As palavras pareciam exageradas, mas o frio que descia pela minha espinha era real. Dirigi pra casa, os nós dos dedos brancos no volante, decidindo que ia lidar com isso na luz clara e racional do dia.

Na noite seguinte, voltei, preparado pra um confronto. Mas dessa vez, a rua sem saída tava entupida de carros. Tive que estacionar a uns cem metros de distância. Um fluxo de pessoas, todas com aqueles mesmos robes pretos, entrava e saía da casa do meu avô. O ar parecia denso, pesado, como antes de uma tempestade. Um canto baixo e rítmico, mais uma vibração do que um som, parecia vir das próprias paredes. Senti uma onda de repulsa pura, sem filtro. Eles estavam usando a casa da minha família, onde eu passei Natais, pra essa… essa reunião. Tava com raiva demais e, vou admitir, assustado demais pra confrontar eles. Fui embora, jurando que voltaria no dia seguinte e os despejaria na hora.

Quando voltei, o silêncio era total. O portão tava aberto, balançando nas dobradiças. A porta da frente tava entreaberta. Empurrei e chamei: “Mark? Sarah?”

Minha voz ecoou no vazio. A casa tava deserta. Não só vazia de pessoas, mas estéril. O chão tava pelado, as paredes limpas. Não tinha móveis, nenhum sinal de que alguém tinha morado ali. Era como se a reunião barulhenta da noite anterior, a ocupação inteira da família, tivesse sido um sonho febril. Revirei cada cômodo, em cima e embaixo. Nada. Nem um pedaço de papel, nem um brinquedo esquecido.

Fui falar com os vizinhos. O velho Sr. Henderson, que morava duas casas pra baixo, atendeu a porta com um olhar nervoso por cima do meu ombro.

“A família que tava alugando a casa,” comecei. “Você sabe pra onde eles foram?”

Os olhos dele desviaram. “Não vi nada, rapaz. Fico na minha.”

“Mas ontem à noite, os carros, as pessoas…”

“Desculpa. Não posso ajudar.” Ele começou a fechar a porta, mas não antes que eu visse o medo genuíno nos olhos dele. Ele tava mentindo. Todos estavam.

Um ano passou. Minha vida desmoronou de outras formas, mais convencionais. Meu casamento acabou. Precisando de um lugar pra morar e sem grana pra escolher, me mudei pra casa antiga. Minha casa. Na primeira noite, o silêncio parecia opressivo. Deitei no meu antigo quarto, que já foi da minha mãe, e tentei dormir.

Começou por volta das duas e meia da madrugada.

Risos. Altos, estridentes, debochadamente alegres, vindo da sala lá embaixo. Meu sangue gelou. Alguém tinha invadido a casa. Peguei uma lanterna pesada e fui pro corredor, o coração batendo contra as costelas. Quando meu pé tocou o degrau de cima da escada que descia, os risos pararam. E então começaram de novo, bem atrás de mim, no quarto que eu tinha acabado de sair.

Virei rápido. O corredor tava vazio. Os risos ecoavam do quarto vazio, depois pararam de repente. Um medo sufocante me envolveu. Não consegui me obrigar a subir aqueles degraus de novo. Passei o resto da noite no chão empoeirado da sala, encolhido, todos os sentidos em alerta.

Nunca dormi de verdade. Naquele espaço entre estar acordado e sonhar, senti puxões fortes e insistentes no meu cabelo, como se alguém quisesse arrancá-lo pela raiz. Ouvi uma mulher chorando, um som engasgado e gutural. Acordava sobressaltado, girando a lanterna loucamente, iluminando nada além de espaço vazio. O ar ficou gelado, e senti uma presença atrás de mim, tão perto que dava pra sentir o roçar de unhas longas e frias descendo suavemente pela minha coluna.

Na manhã seguinte, com olheiras e tremendo, tava correndo pro carro quando o Sr. Henderson me chamou. Ele parecia mais velho, mais cansado.

“Ouvi dizer que você se mudou,” ele disse, a voz baixa. “Posso passar aí mais tarde? A gente precisa… conversar.”

Concordei, atordoado demais pra ligar.

Naquela noite, sentei na varanda com umas cervejas. Henderson apareceu na hora certa, como se tivesse esperando. Ele ficou mexendo na cerveja por um tempo antes de falar.

“Eu… te devo um pedido de desculpas,” ele disse finalmente, sem me olhar nos olhos. “Eles pagaram a gente. Todos nós da rua. O cara, o Mark. Ele me deu dinheiro pra dividir, disse pra gente ficar de bico calado e olhos fechados.”

“Por quê?” perguntei, a garganta seca.

Ele respirou trêmulo. “Teve uma noite, perto do fim. O… cântico… tava mais alto que o normal. Aí ouvimos um grito. Meu Deus, nunca vou esquecer. Não era um grito de medo. Era um… som final. Como se algo tivesse sido rasgado.” Ele engoliu em seco. “Todos nós saímos pras varandas. O Mark me viu. Veio até mim, calmo como se nada tivesse acontecido, e colocou um maço de notas de cem na minha mão. Disse: ‘Nossos rituais são só representações. A gente só se empolgou um pouco hoje.’ Disse pra garantir que os vizinhos fossem compensados pela… discrição.”

“O que ele quis dizer com ‘se empolgou’?” sussurrei.

Henderson me olhou, os olhos cheios de um terror profundo e cansado. “Acho que eles mataram alguém lá dentro. Ou fizeram algo tão ruim que a morte teria sido uma benção. Não perguntamos. Não queríamos saber.”

Depois que ele foi embora, a confissão dele pesou no meu estômago como uma pedra. Naquela noite, os sons voltaram com tudo. Os soluços estavam mais agudos, os risos mais histéricos. E então, quando finalmente caí num sono exausto pouco antes do amanhecer, abri os olhos. A silhueta de uma mulher tava no fim do corredor, no topo da escada. Era alta, esguia, a cabeça inclinada num ângulo esquisito. Ela deu um passo, descendo, e eu pulei da cama pra seguir, mas o corredor tava vazio.

O horror final veio na manhã seguinte. Meu carro não pegava. Lembrei de um pequeno galpão de ferramentas nos fundos, que eu nunca tinha checado. Talvez tivesse cabos de chupeta lá. O cadeado tava enferrujado, mas quebrou fácil com um puxão forte.

O cheiro me atingiu primeiro. Era um odor doce, enjoativo, metálico, de sangue velho e terra úmida e rica. Engasguei, puxando a camisa sobre o nariz. O galpão tava escuro, cheio de teias de aranha e carcaças de insetos mortos. Num canto, tinha uma caixa plástica grande, daquelas que se usa pra guardar enfeites de Natal.

O pavor era um peso físico no meu peito. Levantei a tampa.

Dentro, uma massa de cabelo escuro e emaranhado. Fios grossos, longos, embolados com uma substância preta e pegajosa que eu sabia que era sangue seco. Parecia que tinha sido arrancado de um couro cabeludo. Debaixo do cabelo, havia roupas — uma blusa feminina, jeans — tudo manchado com o mesmo resíduo escuro e descascado. E, dobrados com cuidado no fundo, três robes pretos infantis, também marcados com sangue.

Cambaleei pra fora do galpão, vomitando na grama amarelada. Liguei pra polícia, a voz tremendo tanto que mal conseguia falar. Disse que tinha encontrado algo perturbador, possivelmente prova de um crime.

Eles nunca vieram. Liguei três vezes na semana seguinte. Anotaram minhas informações, mas nenhuma viatura apareceu na minha rua.

Acabei arrastando a caixa pra dentro do mato eu mesmo, jogando ela num barranco. Não aguentava ter aquilo na propriedade.

Mas me livrar das provas físicas não me livrou deles. Os risos ainda vêm algumas noites. Os soluços. A sensação de dedos frios na minha coluna. A silhueta da mulher no topo da escada.

Os vizinhos dizem que eu deveria cavar o quintal. Sussurram que talvez eu encontre um corpo, que dar um descanso a ele pode calar os sons. Mas o chão tá intacto. Acho que a verdade é que alguns horrores não precisam de um corpo pra ficar enterrados. Eles tão vivos, apodrecendo no próprio ar, nas memórias das paredes. Tão no cabelo que foi arrancado, no sangue que foi derramado, nos robes que foram usados.

Eles ainda tão aqui. E acho que uma parte de mim vai estar também, muito depois que eu me for.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon