domingo, 12 de outubro de 2025

Menina Esperta

Sou de uma cidadezinha no Reino Unido, pequena o suficiente pra me dar um sotaque engraçado e pra maioria das pessoas ficar com cara de interrogação quando digo o nome. É uma cidade litorânea que era point nos tempos vitorianos como destino de férias, mas que caiu em desgraça nos dias de hoje, graças à invasão de lojas de vape.

Isso aconteceu lá no comecinho dos anos 2000, quando ainda se podia fumar em pubs, e meu pai me levava pras noites de quiz locais às sextas, quando minha mãe trabalhava no turno da noite e não podia ficar comigo. Minha memória tá meio embaçada, então posso esquecer alguns detalhes, mas ainda sinto o gostinho do cordial de limão com água com gás que meu pai me comprava enquanto eu rabiscava a folha do quiz.

O cara que apresentava o quiz era o Capitão Rhod. Ele só respondia se o chamassem pelo título, e toda noite, quando ele comandava o evento, os clientes bêbados gritavam um animado “Sim, sim, Capitão!”.

O Capitão Rhod tinha se aposentado na minha cidade depois de anos na marinha. Ele recebeu uma grana preta depois de navegar num navio da HMS com fiação defeituosa. Ele sempre contava a história de como pisou numa poça durante uma ronda e levou um choque (palavras dele, não minhas), o que deixou cicatrizes intricadas subindo pela perna. Se você o deixasse bêbado o suficiente, ele abaixava as calças rapidinho pra mostrar as marcas.

Eu gostava do Capitão. Ele me passava um pacotinho de batatinhas quando meu pai não tava olhando, e ele fazia uma imitação incrível do Pato Donald.

Todo mundo gostava do Capitão.

Acho que ele cansou depois de anos apresentando o quiz e ficando de bobeira na cidade. Depois de tanto tempo navegando pelos mares, a terra firme deve ter ficado chata pra ele. Ele teve a brilhante ideia de comprar um barquinho e zarpar de novo, contando pra todo mundo como ia passar o resto da aposentadoria no oceano, e que, quando finalmente batesse as botas, esperava que o barco continuasse navegando sem fim.

Ele ancorou o barco no porto, transformando-o aos poucos com o passar dos dias. Lembro da minha mãe perguntando por que ele não comprou um barco novo com toda aquela grana, e ele só deu uma risada de desdém.

*Anas platyrhynchos domesticus*: Pato de Chamado. A escolha de design pra Mallory, selecionada por um aluno do ensino fundamental como mascote pra acompanhar o Capitão Rhod na sua missão solo, construída pelos estudantes de engenharia da universidade local. Suas patas palmadas eram de aço pintado de laranja, no formato de triângulos robustos pra sustentar seu corpo gordinho de alumínio. A traseira tinha uma junta rotativa especial pra permitir que ela balançasse o rabo quando acionada. O Capitão escolheu um comando de voz especial, “menina esperta”, pra ativar esse movimento. Ele até batizou seu barquinho com o mesmo nome, pintando orgulhosamente “Menina Esperta” na lateral do casco.

O aluno pediu especificamente que a Mallory piscasse de vez em quando, dizendo que achava horrível robôs não fazerem isso naturalmente, com medo de que os olhos dela “ressecassem”. Então, a cada 30 segundos, finas chapas de metal se fechavam sobre os olhos da Mallory e se abriam rapidinho.

O Capitão amava o design da Mallory, levantando-a nos braços e chamando-a de “menina esperta” toda vez que ela entrava bamboleando na sala. Construíram uma rampa especial pra ela, pra que pudesse sentar na cadeira ao lado dele no barco. A rampa parecia uma versão em miniatura de um tobogã, porque uma inclinação muito íngreme fazia a Mallory tombar de lado sem chance de se equilibrar, e o Capitão tinha que correr pra resgatá-la.

De tanto que adorava sua companheira, o Capitão mexeu no design dela pra que pudesse dançar ao som de música. Nas palavras dele: “Bom, a gente vai tá lá pelo resto da vida, sabe? Não dá pra ficar os dois em silêncio, e eu não vou dançar sozinho.”

A dança em questão fazia a Mallory balançar o rabo e dobrar os joelhos pra cima e pra baixo. O Capitão dizia que a música favorita da Mallory era “Celebration” do Kool & The Gang, e ele garantiu que a faixa fosse gravada duas vezes no CD que levou pra viagem.

O Capitão ia zarpar no dia 11 daquele mês e espalhou a notícia pela cidade.

“Estejam lá às nove e meia da manhã, quero me despedir de todo mundo antes de ir. E tragam cerveja suficiente pra me manter animado.”

E aí chegou o dia 11, e meus pais seguraram minhas mãozinhas pegajosas enquanto íamos pro porto. Meu pai levou um pacotinho de batatinhas pro Capitão, querendo zoar ele por todas as vezes que ele me dava batatinhas escondido. E a gente esperou no porto. E esperou.

Nove e meia veio e passou, e dava pra ver o barquinho do Capitão subindo e descendo na água, mas nenhum sinal dele. Meu pai e alguns outros caras começaram a rir entre si, achando que ele tinha dormido demais por causa de uma ressaca. Depois de uns vinte minutos, eles decidiram subir no Menina Esperta pra ver como ele tava. Eu já tava ficando chata, com os pés doendo de tanto andar, e não tava quieta sobre minha dor. Acho que eles teriam esperado mais se eu não estivesse a ponto de ter um chilique. Meu pai me passou as batatinhas pra “segurar com cuidado” enquanto ele ia com os outros caras dar uma olhada.

Meu pai ficou só alguns minutos no barco antes de voltar rápido pra mim e pra minha mãe, segurando nossas mãos. Ele tava pálido como um fantasma e murmurava algo pra minha mãe. Eu, claro, tava mais preocupada em encarar as batatinhas e tentar abrir o pacote com minhas mãos pequenas.

Desculpa dizer, mas é aqui que minha memória falha, com minha mãe me pegando no colo e me levando pra casa, mas eu lembro que nunca mais vi o Capitão. Durante todos esses anos, achei que ele tinha zarpado e morrido em paz no mar, ainda navegando mesmo depois da morte.

Falei dele pro meu pai na última vez que fui pra casa, sugerindo que a gente devia ir a um quiz de pub de novo, como antigamente. Vi meu pai estremecer com a ideia, então insisti:

“Como a gente fazia, com aquele cara, o Capitão.”

“Meu Deus, não fala dele. Pobre coitado.”

“Como assim? Pensei que ele tivesse zarpado.”

“Tá brincando? O barco nunca saiu do porto. A gente encontrou ele sentado na cadeira, na frente do leme.”

Aí meu pai contou os detalhes que eu era jovem demais pra entender na época.

Os homens encontraram o Capitão na cadeira, como ele disse. Bom, mais ou menos. O queixo dele parecia que tinha sido puxado pra baixo com força, ficando escancarado, com uma mistura de sangue e baba pingando. Meu pai disse que a barriga do homem tinha sido rasgada, como uma criança abrindo presentes no aniversário com aquela ganância toda. Meu pai só olhou por um instante, horrorizado, mas jurou que parecia que faltava algo nas entranhas dele, seja lá o que isso signifique. Pelo que disseram, não havia sinal de invasão, nada além do Capitão no barco. A única pista era uma pequena inundação no deque inferior, causada por um rasgo na parte interna do casco.

Mas a Mallory foi encontrada no colo do Capitão. A bateria dela tinha queimado em algum momento da noite, e as chapas de metal tavam fechadas sobre os olhos dela. Uma inspeção mais detalhada das peças do robô, depois que os estudantes da universidade a desmontaram, mostrou que a junta rotativa dela tinha se desgastado tanto que tava fininha, quase a ponto de quebrar.

Quem os encontrou disse que a Mallory tava aninhada no colo do Capitão, com o corpo e o rosto virados pra janela na frente do barco. A rampa tipo tobogã dela tava encostada na cadeira do Capitão, e havia arranhões no chão de metal do barco, saindo da cadeira do co-capitão.

sábado, 11 de outubro de 2025

Minha Reunião com os Sentinelese da Ilha Sentinel do Norte

Sempre fui atraído por lugares onde ninguém quer pisar. Não pela adrenalina, mas pelo mistério. Pelo desconhecido. Enquanto a maioria dos aventureiros se contenta com montanhas ou ruínas, eu buscava o que os mapas alertavam para evitar.

Minhas primeiras aventuras me levaram por cavernas esquecidas, zonas centrais de parques nacionais protegidos e vilarejos abandonados onde o silêncio gritava histórias. Cada lugar sussurrava segredos, mas eu queria vozes mais altas vindas do desconhecido.

Foi então que a África me chamou. O Saara. Um deserto que se estende além da imaginação. Não era só o calor ou o vazio que me fascinavam — era a solidão das pessoas que viviam ali, isoladas e indiferentes ao barulho do mundo moderno.

De lá, o chamado mudou para a Amazônia. Os pulmões da Terra, como dizem. Mas, pra mim, era um coração — pulsante, antigo e vivo. Contratei um guia local, um cara quieto que dizia que sua vila tinha laços com uma tribo isolada no fundo da floresta. Milagrosamente, fomos bem recebidos — nada de flechas, nada de medo. Suspeito que dinheiro trocou de mãos nos bastidores, mas não perguntei. Só observei, escutei, aprendi.

A cultura deles era intocada por telas e concreto. As ferramentas eram de ossos e cipós. Até os jogos pareciam ecos de um tempo que esquecemos. Lembro de sentar perto da fogueira deles, vendo as crianças rirem com nada além de pedras pintadas nas mãos. Isso fez a cidade parecer uma simulação.

E foi aí que caiu a ficha — eu precisava de mais. Não só de mais tribos, mas de mais verdade. Algo mais profundo, algo escondido. Algo... de outro mundo.

Comecei a ler sobre os Sentinelese. Uma tribo que vive na Ilha Sentinel do Norte, na Baía de Bengala, ferozmente protegida e intocada por forasteiros. Ninguém sabia de verdade a língua deles, suas crenças — ou mesmo como eles eram de perto. Toda tentativa de contato terminava em violência. O governo indiano declarou a ilha proibida. Até os satélites pareciam manter uma distância respeitosa.

Isso, pra mim, só significava uma coisa: eu tinha que ir até lá.

Entrei em contato com alguns pescadores que trabalhavam na região, mas a maioria recusou. Aumentei a grana que ofereceria pra quem me ajudasse a furar os patrulhas navais do governo. Por sorte, um cara topou. Ele tinha olhos meio verdes, cabelo bagunçado, barba e bigode crescidos — e um cheiro constante de peixe grudado nele.

Pra minha surpresa, o inglês dele era fluente, e ele falava com turistas e locais nas línguas nativas deles. Um francês. Uma garota espanhola. Até uma mulher mexicana. Isso, pra mim, era estranhamente perturbador.

Antes que eu pudesse perguntar, ele murmurou: “Tá querendo saber como eu falo todas essas línguas, né?”

Ele perguntou como se tivesse lido minha mente.

Ainda curioso, respondi: “Sim.”

“Depois de anos pescando e negociando sem parar, guiando estrangeiros por essas trilhas, eu não só aprendi as línguas — eu vivi elas. Dinheiro fala, sabe. Não sou eu falando. É o dinheiro.”

“Ah! Beleza... Faz sentido,” respondi, ainda meio desconfiado.

Ele me levou até a ilha isolada num barco a motor todo detonado, com a superfície rachada. Quando chegamos, já passava das 23h no horário da Índia — exatamente como planejamos. Queria chegar à noite porque as chances de topar com os Sentinelese eram menores. Ele conhecia bem as rotas e me avisou sobre possíveis intervenções navais. Quando perguntei “Como você dribla eles?”, ele respondeu com um sorrisinho: “Dinheiro fala,” e deu uma gargalhada de doido.

Por sorte, não fomos pegos. Tudo graças ao conhecimento absurdo dele da área. Antes de me deixar, ele me entregou um revólver. Não pedi, mas ele disse: “Por via das dúvidas,” e exigiu mais 15 mil rúpias indianas. Depois, ele sumiu — não só do barco, mas completamente. Vi ele caminhando em direção ao mar, e então... puff, sumiu.

Não pensei muito nisso. Continuei avançando pela ilha.

Era noite. Não, eu não fui idiota de vir à noite — se viesse de dia, a tribo podia me fazer em pedaços.

Com cuidado, segui em frente, arma numa mão, celular na outra. Sem sinal, claro.

Minha única fonte de luz era a lanterna do celular. Olhando pra cima, notei as estrelas — brilhantes, piscando em perfeita sincronia, como se fossem programadas.

Enquanto caminhava pela mata, meu pé direito bateu em algo metálico. A curiosidade falou mais alto, e apontei a lanterna pro chão. Era uma caixa estranha com um mecanismo esquisito. Pequena, mas gravada com símbolos esquisitos. Coloquei no bolso e segui em frente.

Quando cheguei no que achei que era a colônia deles, tomei um susto. Não tinha ninguém — só silêncio, e um zumbido esquisito, com o canto dos insetos quebrando o vazio. Esperava cabanas de palha, talvez alguém dormindo do lado de fora, mas nada.

Sentei na areia branca e macia, pensando se o pescador tinha me enganado. Talvez nem fosse a ilha certa. O “dinheiro fala” dele ainda ecoava na minha cabeça.

Aí ouvi um barulho. A areia a poucos metros começou a se mexer, subindo lentamente, como se estivesse explodindo. Prendi a respiração. Meu primeiro pensamento? Um monstro. Algum bicho nativo da ilha. Me escondi atrás de duas palmeiras gigantes.

E então... eles surgiram.

Um após o outro, eles emergiram — esticando as mãos, girando o pescoço e... levitando. Não só levitando — nadando pelo ar. Como sereias sinistras que flutuavam em vez de nadar.

Vi as caixas pequenas de novo — dezenas delas. Alguns dos seres se transformavam nessas caixas. Assustado, joguei fora a que tinha pegado antes.

Meu coração disparou. Eu não conseguia processar o que via. Momentos depois, desmaiei.

Quando abri os olhos, eles estavam me cercando. Falavam em tons abafados, vozes que arrepiavam até a espinha.

Enquanto cochichavam, notei mais dessas caixas ao redor, brilhando, emitindo lasers afiados de onde mais deles saíam.

Implorei. Eles riram, os olhos deslizando pra fora das órbitas. Uma luz verde brilhante preenchia os espaços vazios. Até hoje não sei como sobrevivi ao que veio depois.

Eles me amarraram a um poste de metal que surgiu da areia — frio, quase sobrenaturalmente frio. Depois, me atacaram com cristais que saíam dos olhos deles. Os cristais batiam como agulhas. Ainda carrego as cicatrizes. A dor era aguda, como mil picadas de formiga de uma vez. Eventualmente, desmaiei de novo.

Quando acordei, o pescador estava do meu lado — segurando um coco rachado.

“Bebe.”

Pulei no coco e engoli cada gota.

Ele tinha chegado num barquinho. Eu ainda estava em choque. Sabia que ninguém ia acreditar em mim. As picadas ainda doíam, mas tentei esconder — até dele.

Mais tarde, enquanto estava perto do corrimão do barco, olhando pra água turquesa — ainda tremendo, ainda olhando pra trás pra garantir que ninguém me seguia — notei meu reflexo.

Meus olhos brilhavam em verde.

Ao lado do meu reflexo, vi o dele.

“Bem-vindo ao clube,” ele disse, gargalhando como louco de novo.

Ainda carrego esses olhos. As feridas. As memórias.

Não saio mais sem óculos de proteção. E mudo de lugar em lugar... pra que eles não me encontrem.

É meia-noite, e escrevi tudo isso “levitando”.

Há Algo no Milharal

É clichê, não é? O clássico tropo de terror do meio-oeste americano, com assassinos, monstros e todo tipo de mal indizível à espreita entre os talos de milho que balançam ao vento. Mas, quando você viveu a vida toda num lugar assim, o charme desse tipo de horror perde muito do seu efeito. As únicas coisas que se mexem no milharal são guaxinins famintos e...

Bem, era isso que eu sempre acreditei. Eu sempre fui a prática da família – “uma cabeça no lugar”, como meu avô dizia – e me orgulhava de não me deixar levar por fantasias e teorias da conspiração como minha mãe, minha avó... e minha tia Carol, e todas as outras mulheres da família. A loucura sempre vem atrás das mulheres, segundo meu avô, e eu estava determinada a não acabar assim. Sempre há uma explicação lógica. Era nisso que eu acreditava – ou melhor, acreditava.

Para ser honesta, hesitei muito antes de decidir revisitar essas memórias, muito menos escrevê-las e publicá-las em algum lugar para milhares, talvez milhões, de estranhos lerem. Só mais uma maluca de chapéu de papel-alumínio pulando nas sombras e lendo nas entrelinhas que nem sequer foram escritas. Mas passei os últimos dias olhando posts nesse site. É aqui que as pessoas vêm quando veem coisas – coisas que não podem ser explicadas, ou cujas explicações vão contra o que a sociedade considera “aceitável”.

Eu vi coisas. E agora estou pronta para falar sobre elas.

Tudo começou quando meu marido, Eliott, e eu nos mudamos de volta para a fazenda da minha família para cuidar do meu pai depois que ele sofreu um derrame que o deixou incapaz de se cuidar por alguns meses. Minha mãe tinha sido internada num hospital psiquiátrico dois anos antes – as teorias da conspiração sobre alienígenas finalmente a fizeram surtar – então, meu pai estava sozinho em cinquenta acres de terra no meio do mais puro, velho e bom interiorzão do meio-oeste.

Eu chamo isso de fazenda, mas se você está imaginando celeiros gigantescos, tipo industrial, cheios de vacas, e equipamentos brilhantes cuidando de campos infinitos de plantações e feno... para com isso. Noventa por cento da terra era mata, com apenas um pedaço aberto para uma casa de fazenda de dois andares, um pequeno celeiro para algumas galinhas, um par de cabras e um cavalo velho e curvado, e o milharal que ocupava mais espaço que a casa e o celeiro juntos. Milho era a única coisa que meu pai vendia – isca para cervos para os caçadores – e, quando minha mãe ainda estava por aqui, eles transformavam o campo num labirinto para as crianças do bairro.

No começo, tudo correu bem. Eu tinha um trabalho que me permitia trabalhar remotamente, e Eliott conseguiu um emprego de meio período na livraria local. Meu pai estava se recuperando bem, e eu tinha acabado de ver duas linhas rosa no teste de gravidez depois de um ano tentando.

Estava sentada na varanda da frente, me sentindo um pouco enjoada e um pouco tonta, pensando na melhor forma de contar para o Eliott, quando não percebi o quão tarde tinha ficado. A noite cai rápido e pesado no interior, um crepúsculo curto é o único aviso antes de você ser engolido por uma escuridão que você não consegue imaginar se nunca viveu isso.

Nada de dramático aconteceu antes. A mata não ficou subitamente silenciosa, eu não senti um arrepio inexplicável na espinha. Só vi um brilho pequeno entre os talos de milho enquanto eles balançavam na brisa noturna. Pequeno, rente ao chão – provavelmente uma raposa – querendo roubar uma galinha. Algo comum num lugar como esse, tanto que mal registrei.

O que eu registrei, porém, foi o farfalhar no milharal à esquerda dos olhos brilhantes. Provavelmente um cervo, outra visão comum no milharal.

Vi um minuto depois, seu pelo castanho iluminado pelo fraco brilho da luz da varanda, mas algo não estava certo no jeito que ele se movia. Estava agachado, quase rastejando, as patas dobradas de um jeito que cervos simplesmente não fazem. Imagine um gato espreitando um rato, e você terá uma ideia decente do que esse cervo estava fazendo. Parece bobo e cartunesco de imaginar, mas era assustador ver isso acontecendo bem na minha frente. Não me mexi da varanda, hipnotizada por esse cervo esquisito rastejando pelo milharal até sair do círculo de luz da varanda e eu não conseguir mais vê-lo.

Estava prestes a me levantar para contar ao Eliott e ao meu pai quando ouvi o grito. Se você nunca ouviu uma raposa gritar, a melhor forma de descrever é o grito de uma mulher morrendo. As pessoas já relataram ouvir uma mulher gritando na mata quando, na verdade, era uma raposa. Não importa quantas vezes você ouça, vai te assustar, e essa não foi exceção. O grito de um animal sendo torturado.

Sangue. Agonia. Rasgando. Puxando. Devorando.

Pulei de pé, e algo no milharal se ergueu comigo, a cabeça aparecendo acima dos talos. Mais alto do que qualquer animal de quatro patas deveria ser. O cervo. O brilho da luz da varanda dificultava enxergar, mas eu sei o que vi. Vi seus olhos enormes, brilhando laranja na luz, olhando diretamente para mim, e soube que eu tinha sido Vista. Vista do jeito que uma presa é vista por um predador caçando. Imobilizada como uma mariposa em exposição.

Algo pendia da sua boca. Rasgado, despedaçado, pingando sangue preto e grosso no milharal.

Não me lembro de gritar, mas quando Eliott apareceu correndo na varanda perguntando o que estava errado, minha garganta estava em carne viva.

O cervo tinha sumido, e quando arrastei Eliott para o campo para procurar no local, não havia nada. Nem sangue no chão, nem tufos de pelo laranja de raposa, nem mesmo pegadas.

“Tem certeza que você não cochilou na varanda e sonhou com tudo isso?” Eliott sugeriu gentilmente enquanto eu contava tudo na mesa de jantar.

“Eu...” Queria dizer que tinha certeza – que sabia o que tinha visto – mas será que tinha? Estava cansada aquele último mês cuidando do meu pai. O que era mais provável: que eu tinha visto um cervo caçar e matar uma raposa, ou que tinha caído no sono e tido um pesadelo? Além disso, cervos comem carne às vezes. Tem vídeos por aí de cervos comendo cobras ou filhotes de pássaros que encontram no chão. Talvez eu estivesse meio dormindo e vi um cervo doente comendo algo já morto?

“Você parece sua mãe,” meu pai resmungou do outro lado da mesa. Isso calou qualquer protesto que eu pudesse ter. O derrame pode ter tirado o uso de um lado do corpo dele, mas a mente ainda estava intacta, e isso era o jeito do meu pai de dizer: “você parece louca”. Igual à sua mãe, à sua avó, à sua tia Carol, e a todas as outras mulheres desse lado da família.

A loucura sempre vem atrás das mulheres.

No fim, murmurei que provavelmente tinha caído no sono, e a atmosfera na mesa ficou leve o suficiente para a conversa mudar para tópicos mais alegres. Pelo menos para o meu pai. Fiquei mexendo na comida distraidamente enquanto Eliott apertava minha mão por baixo da mesa e lançava olhares preocupados.

Mais dois meses se passaram sem incidentes. Não tive mais sonhos ou pesadelos sobre cervos carnívoros espreitando no milharal. Pelo menos, nenhum que eu lembrasse. Meu pai melhorou o suficiente para que provavelmente pudéssemos voltar para casa no próximo mês. Voltar para nossas vidas. Começar a planejar para um bebê, montar um quartinho, comprar roupas e fraldas.

As coisas estavam indo bem. O que, pela minha experiência, geralmente significa que estão prestes a piorar de novo.

Estava sentada na varanda outra vez. Era outubro agora, e o ar da noite estava fresco e cortante. Os talos de milho tinham ficado secos e marrons, farfalhando alto na brisa.

A essa altura, eu quase tinha esquecido do cervo esquisito no milharal. Só um sonho estranho de uma mente sobrecarregada. Mas isso não impediu meu coração de pular na garganta quando vi o pelo castanho de outro cervo no halo amarelo e oleoso da luz da varanda.

Uma corça grande, caminhando com calma determinação em direção ao milharal, segurando algo firme na boca.

Algo que pingava.

Então, outro – um cervo jovem com seus primeiros chifres pontiagudos – seguiu a poucos passos da corça. Ele também segurava algo na boca. Algo que se contorcia. Um após o outro, uma dúzia ou mais de cervos marcharam solenemente para os talos secos de milho, cada um carregando algo morto – ou quase morto – com eles.

Observei toda a procissão do meu lugar na varanda; minha boca seca e as palmas das mãos suadas. Eu não estava sonhando. Sei, com tudo de são e lúcido em mim, que estava bem acordada e completamente sóbria.

Um último cervo, um atrasado, ainda com manchas de filhote, correu para alcançar os outros, lutando para segurar o que carregava na boca.

Algo que se contorcia e se debatia. Algo que pingava sangue preto-avermelhado no chão. Algo que chorava com uma voz humana demais.

Levantei-me então. Minhas pernas me levaram atrás dos cervos antes que meu cérebro pudesse processar o que eu estava fazendo. Os talos de milho batiam contra meus braços enquanto eu corria pelo campo. Não conseguia mais ver os cervos, mas ouvia o choro. Fraco, agudo, e puxando um instinto que vinha crescendo no meu corpo nos últimos dois meses e meio.

Mal consegui parar quando o milharal deu lugar a uma clareira, perfeitamente redonda, os talos pisoteados por incontáveis cascos por sabe-se lá quanto tempo.

Os cervos estavam todos reunidos, parados em silêncio dentro do círculo, suas presas deitadas aos seus pés como oferendas para a besta que estava no centro.

Fui a um museu quando criança e vi os restos de um cervo pré-histórico – não lembro o nome – e me lembro de ficar impressionada com o tamanho dele. Como o pescoço dele devia ser forte para sustentar chifres tão grandes, cada um maior que um homem.

Esse era maior.

Era branco. Mais alto que qualquer alce, pescoço grosso como um tronco de árvore. Chifres dourados tão altos e largos que cercavam a lua que nascia acima da sua cabeça, criando a ilusão (acho) de que ele a usava. A única joia digna de uma coroa tão majestosa. De uma criatura tão majestosa.

Observei enquanto ele inspecionava as oferendas diante dele com um desinteresse frio até chegar ao bebê – ainda chorando, ainda se contorcendo no próprio sangue no chão duro e pontiagudo de talos de milho quebrados.

As orelhas da besta se moveram para frente por um breve momento de interesse, e ele abaixou a cabeça enorme para cheirar a coisinha patética.

Deve não ter gostado do que cheirou, porque ergueu o casco gigante acima do montinho que se debatia e o baixou.

Com força.

Pensei que faria um estalo; como pisar num ovo, mas não fez. Só um baque surdo, e o choro parou.

Fiz um som então – um suspiro ou um grito, não lembro qual – e duas dúzias de cabeças viraram na minha direção. Duas dúzias de pares de olhos pretos e vazios, brilhando ao luar e me congelando no lugar. Os cervos não se mexeram, nem mesmo um movimento de orelha, apenas encararam.

O monstro branco bufou alto pelo nariz e puxou os lábios para trás num rosnado que desafiava o corpo de cervo que vestia. Seus dentes eram dentes de lobo, pingando cordas grossas de saliva. Ele deu um passo à frente, os cervos reunidos se afastando silenciosamente para abrir espaço, e se aproximou de onde eu estava na borda da clareira.

Eu não conseguia me mexer, não conseguia respirar, mal conseguia pensar. Sentia o chão tremendo a cada passo que a besta dava, mais e mais perto, até bloquear o mundo com uma parede de branco. Doía olhar diretamente para seu rosto, mas algo me dizia que eu não ousasse desviar o olhar. Ele queria que eu visse, queria que eu sentisse toda a força da sua presença.

Ele abaixou a cabeça e me cheirou como tinha feito com o bebê.

E algo mudou.

Suas orelhas se ergueram para frente. Sua boca relaxou. Os cervos na clareira bufaram e se mexeram em antecipação.

A besta branca abriu a boca, e eu tive uma visão da sua língua preta e da sua garganta cavernosa. Ele ia me comer. Me engolir inteira. Eu era o sacrifício que ele queria. A oferenda no altar.

Em vez disso, ele falou. Lento, rouco, forçando palavras por uma garganta não feita para elas.

“Filha... das es...trelas...”

Não tive tempo de pensar no que essas palavras significavam. A besta tocou o focinho no meu ventre, e de repente eu não era mais eu mesma.

Eu era algo antigo, algo com medo, algo fugindo. Estava voando pelas estrelas mais rápido do que uma mente humana poderia compreender.

Estava queimando na atmosfera.

Estava atravessando árvores e rolando na grama.

Estava sendo esmagada pelo peso de uma gravidade que nunca senti antes.

Estava vendo uma criatura. Com galhos na cabeça que alcançavam o céu.

Estava me transformando nela.

Estava aprendendo seu corpo, sangue, ossos, músculos, células.

Estava vendo uma criatura diferente. Pequena, macia, olhando com terror e fascínio enquanto eu me fazia.

Estava fazendo uma conexão.

Estava fazendo uma conexão.

Estava fazendo uma con̷ex̷ã̶o̶.

Acordei num hospital psiquiátrico. A enfermeira gritou quando perguntei onde estava. Minha barriga tinha se transformado numa barriga de grávida de verdade.

Eu estava lá há três meses; silenciosa, sem reação, catatônica.

Meu marido me encontrou sentada no meio do milharal, com lágrimas de sangue seco no rosto, encarando a lua.

Exatamente como meu pai encontrou minha mãe dois anos antes. E como meu avô encontrou minha avó.

Os médicos me fizeram todo tipo de pergunta sobre o que tinha acontecido para causar o que chamaram de “surto psicótico”. Enfermeiras, sem tato, perguntaram se meu marido me batia, se o estresse de cuidar do meu pai poderia ter causado um colapso nervoso.

Não contei a verdade, claro. Histórias sobre cervos alienígenas monstruosos não inspirariam muita confiança no meu estado mental. Contei o que queriam ouvir, fiz todos os passos certos para uma recuperação normal e fui liberada do hospital como uma mulher mentalmente sã. Tudo o que eu queria era esquecer.

Mas não consigo.

Chorei quando minha bebê nasceu. Não pelos motivos normais, embora eu fingisse que era por isso, pelo bem do Eliott.

Chorei porque era uma menina. E continuei chorando por ela pelos últimos três anos. Porque eu posso ver. 

Eu posso ver, assim como tenho certeza que minha mãe viu em mim. Nos seus grandes olhos azuis que encaram a lua com uma seriedade que nenhuma criança pequena deveria ter.

A loucura sempre vem atrás das mulheres na minha família.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

A Sala Atrás do Necrotério

Quando eu tinha vinte e seis anos, me mudei da casa da minha família para Nova York. Nunca fui muito próximo deles, então a mudança não me abalou tanto assim. Minha avó materna era o elo que nos mantinha unidos, e, quando ela faleceu, a dinâmica familiar se desfez. Só nos reuníamos em grandes eventos, como casamentos e funerais, ambos ocasiões meio deprimentes.

Você pode achar minha atitude meio fria. Sobre isso, te digo com sinceridade: eu entendo. A maioria das pessoas acha. Mas peço que preste mais atenção ao que conto na história, e não à minha disposição meio melancólica.

Então, quando meu primo ficou noivo, meus pais praticamente me imploraram para voltar a Connecticut para a festa de noivado. Eu já conseguia imaginar como seria: conversas longas e tediosas sobre onde eu estive, lembranças dos velhos tempos antes da morte da minha avó, quando ainda parecíamos uma família de verdade.

Com relutância, arrumei uma bolsa pra passar a noite e peguei o trem Metro-North até New Haven. Há algo de decadente naquela viagem de trem, vendo o concreto se transformar em muros de pedra. Passei o tempo arrumando o cabelo no reflexo da janela. Meus pais me pegaram na estação pra irmos juntos à festa. No caminho, me atualizaram com as novidades: esse tio desenvolveu demência, aquele outro finalmente sucumbiu ao alcoolismo. Me disseram o que eu deveria mencionar, o que evitar porque ainda eram assuntos delicados. Decidi que o melhor seria dar meus parabéns e ficar calado, já que eu tinha o péssimo hábito de meter os pés pelas mãos.

A festa de noivado estava sendo organizada na casa da minha tia, e a rua sem saída já estava lotada de carros. Olhando pelo alambrado pro quintal, vi que todos estavam vestidos com cores vibrantes. Aparentemente, não prestei muita atenção na roupa que escolhi, porque eu estava todo de preto. De novo, uma ocasião meio deprimente. Na hora, senti aquele velho desconforto, a sensação de não pertencer que sempre me acompanhou desde criança. Pra ser honesto, fiquei meio inquieto, passando a maior parte da festa coçando o cotovelo de um jeito meio desajeitado.

Fui dar os parabéns pra minha prima, que sempre foi uma garota doce. Éramos bons amigos quando crianças, mas família é sempre complicada assim. Não tenho nada contra ela – claro, sempre desejo o melhor pra ela –, mas já tínhamos seguido caminhos diferentes há muito tempo, e estar com ela só me fazia lembrar da morte da nossa avó. Tinha um motivo pra eu ter decidido me mudar. Mesmo assim, conversamos um pouco, e admirei o anel brilhante no dedo dela, embora fiz comentários meio secos pra não parecer superficial. Eventualmente, uma amiga dela se aproximou e a puxou pra outra conversa. Meu peito aliviou com isso.

Olhei ao redor da festa no quintal e fui direto pra uma mesinha com algumas garrafas de bebida. Escolhi um uísque com gelo.

Havia mesas dobráveis baratas cobertas com toalhas brancas, rodeadas de cadeiras de plástico. Escolhi uma mesa vazia e me sentei, tomando meu uísque devagar, tentando evitar contato visual. A maioria das pessoas estava em grupinhos com quem já conhecia – festas com gente misturada são sempre tão constrangedoras. Desviei minha atenção pro quintal e pros cachorros. Era um dia de outubro quente pra estação, e o sol brilhava suave na grama rala, então não me importei de ficar ali fora.

Enquanto dava outro gole no uísque, já na metade do copo, cruzei o olhar com minha tia. Ela sorriu, acenando com o queixo e vindo na minha direção. Sempre gostei dela. É uma das poucas almas verdadeiramente puras neste mundo, e acredito de coração que, se existe um céu, ela vai pra lá. Me endireitei um pouco, não avesso à companhia.

Tivemos a conversa de sempre, um abraço meio desajeitado de um braço só enquanto ela lamentava como fazia tempo que não me via. Ela cheirava a xampu tropical e café.

“E aí, o que você tá fazendo da vida?”

“Ah, sabe, continuo trabalhando no hospital.”

“Sério? Igual a mim. Como enfermeira?”

Balancei a cabeça. “Não, não como enfermeira, só técnico de laboratório. Tá de boa, eu gosto de trabalho repetitivo.”

“Sério?” Ela perguntou. “Eu não curto o repetitivo, mas é por isso que amo trabalhar na emergência. Todo dia é diferente!”

Sorri. “Eu gosto do conforto da rotina. Quando você me ajudou a entrar naquele programa de voluntariado no seu hospital, eu fazia todas aquelas tarefas repetitivas que ninguém queria, porque eu adorava.”

“Ah, sim, o programa pra adolescentes!” Ela assentiu, entrelaçando os dedos e apoiando as mãos na toalha de plástico. “Pois é, eles ainda têm esse programa. É ótimo.”

“Aposto que agora eles têm regras mais rígidas,” falei enquanto tomava outro gole. Sentia o álcool começando a soltar minha língua. Era uma sensação boa. “Provavelmente não escapariam impunes com algumas coisas que faziam antes.”

O rosto da minha tia ficou meio sombrio, com uma expressão confusa. “Como assim?”

Girei o gelo no copo, vendo ele rodar. “Sabe, tipo me deixarem sozinho na sala atrás do necrotério pra organizar os slides de tecido arquivados. Eles me mandavam jogar fora os mais antigos, com mais de dez anos, aqueles que não precisavam mais guardar.”

Minha tia ficou parada, só me encarando. “Que sala atrás do necrotério?”

Notei a expressão dela, confusa e meio alarmada. Mudei o peso de lado, pigarreei. “É, sabe, você entrava no necrotério, na parte principal onde fazem as autópsias, depois passava pelo espaço dos fundos onde guardam os corpos, e aí tinha uma porta e uma sala com um monte de arquivos, até o teto. Era uma salinha pequena, mais um armário.”

Minha tia não disse nada, só ficou me olhando, com a boca entreaberta.

Tomei outro gole de uísque, sentindo um desconforto crescer no estômago. “Talvez não quisessem mesmo que ninguém soubesse disso, por isso só me levavam lá, e aposto que não fazem mais isso porque nenhum outro adolescente aceitaria ficar no necrotério com corpos guardados lá. Quer dizer, com certeza não permitem mais isso. Desculpa se te deixei chateada, falando que faziam umas coisas meio escrotas.” Não quis xingar, mas a palavra escapou na minha enxurrada de nervosismo.

Minha tia balançou a cabeça, levantando a mão. “Não, não é isso.”

Engoli em seco. A luz do sol sumiu na minha visão periférica. “Então o que é?”

Ela fez um estalo com a língua. “É que… eu trabalho naquele hospital há trinta anos. Comecei lá logo depois da escola. Já estive em praticamente todas as salas de lá e…”

“O quê?” Minhas mãos se agarraram à cadeira de plástico.

Ela balançou a cabeça, me olhando com uma expressão confusa. “Não existe nenhuma sala atrás do necrotério.”

De repente, fui tomado por uma onda de frustração. “Quê? Isso não faz sentido. A porta ficava no canto, onde o chão começava a subir um pouco porque as tábuas estavam empenadas.”

Minha tia não respondeu ao que eu disse. Ela olhava pra algum ponto atrás de mim, perdida em pensamentos. “Quem te levava lá pra baixo?” Ela perguntou.

“Era uma mulher mais velha que trabalhava no laboratório.” Eu lembrava claramente. “Cindy, era o nome dela.”

Minha tia mordeu o polegar e não disse nada. “Hã.”

Eventualmente, alguém tocou no ombro dela e a chamou. Ninguém conseguia organizar a festa sozinho, precisavam dela pra tudo, então ela mal tinha um momento de paz. Acenei um tchau, mas saí da conversa me sentindo pequeno e idiota. Como eu podia ter lembrado errado um detalhe tão importante? Talvez a sala não fosse atrás do necrotério, mas perto, e eu estava confuso? Não, eu lembrava dos detalhes claramente. Os corpos nas macas, cobertos por lençóis brancos, com os pés apontando pra cima, retos e rígidos. Lembrava do cheiro de aço inoxidável, desinfetante e formol. Eu saía daquele armário com cortes nos dedos, porque às vezes os slides eram afiados, e uma vez o corte infeccionou porque os slides estavam sujos. E, acima de tudo, lembrava da Cindy. Pequena, meio curvada, e que falava pouco. Ela usava aqueles óculos fúcsia pendurados no pescoço.

Levantei e fui rápido pra mesa de bebidas, servindo mais uísque.

Minha tia não tocou mais no assunto durante a festa, e, quando nos despedimos, ela só me olhou com uma expressão meio séria e disse que esperava que eu ficasse bem. Pensei que talvez ela estivesse perturbada por terem levado voluntários adolescentes pro necrotério e deixado lá sem ninguém saber. Imaginei que provavelmente coloquei a pobre da Cindy em apuros, se é que ela ainda trabalhava lá e não estava morta.

Na segunda-feira, peguei o trem de volta pra cidade, e minha vida voltou ao normal. Trabalho, correria, e a memória da festa do sábado anterior foi se misturando às outras.

Alguns dias depois, cheguei em casa após o trabalho, recebido pelo apartamento escuro, e deixei minhas coisas. Meu celular vibrou no bolso, então o peguei pra ver.

Era uma mensagem longa da minha tia.

Tia G: Oi, Lil, espero que você esteja bem e tenha voltado pra casa em segurança. Fiz uma investigação sobre o que você me contou depois da nossa conversa. A ideia de uma sala secreta, onde levavam crianças e as deixavam sem meu conhecimento, pra ser honesta, me perturbou. Então, fui checar o necrotério, até procurei por paredes falsas e portas escondidas, sem sucesso.

Abaixo do parágrafo, ela mandou uma foto do espaço na parede que eu mencionei. Era liso, sem nenhum sinal de uma porta de armário. Meus dedos dos pés gelaram.

Continuei: Fui até o gerente do prédio e pedi uma planta do hospital. As plantas também não mostram nenhuma sala no lugar que você mencionou. Além disso, não temos registro de nenhuma funcionária no laboratório chamada Cindy, não nos últimos cinquenta anos. Estamos preocupados com você, querida. Mantenha contato.

Fechei a mensagem. Essa estranheza me incomodou pela noite e ainda me incomoda até hoje. Sei que alguns de vocês vão dizer que talvez eu seja delirante, que talvez seja só uma consequência do meu temperamento sombrio e uma imaginação fértil. Talvez eu tenha lembrado errado, embora o fúcsia neon dos óculos dela ainda esteja grudado na minha memória. Eu era uma criança quieta, sem muitos amigos, então talvez tenha inventado uma. Talvez eu fosse uma alma solitária o suficiente pra que essa entidade me encontrasse e se apegasse a mim. Talvez eu também flutue nos espaços liminares entre a vida e a morte. Pra mim, é mais uma curiosidade do que uma preocupação. Cindy era uma mulher agradável, embora meio estranha, e nunca pareceu querer me fazer mal. Ainda assim, fico pensando na natureza desses encontros, e comparo isso a um mundo paralelo e sobrenatural. Sei que muitos não vão acreditar em mim.

Mas eu nunca fui de precisar de validação. E, nesse caso, da Sala Atrás do Necrotério, eu sei o que vi.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon