sábado, 1 de novembro de 2025

Minha Esposa Não Podia Ter Filhos. Mas no Dia em que Ela Morreu, Ela Deu à Luz..

Mia foi minha esposa por cinco anos. Eu nunca imaginei que encontraria o amor fazendo trilha, mas foi exatamente assim que aconteceu. Ainda consigo lembrar o momento: ela estava sentada num banco numa área de descanso, mexendo no cadarço puído das botas de caminhada já bem gastas. Eu me ofereci pra ajudar, e depois disso a gente continuou andando junto. Nem sei direito como as coisas rolaram depois, mas a gente se apaixonou, e três anos mais tarde nos casamos. Foi uma alegria pros dois, e até tivemos lua de mel. Eu nunca tinha me sentido tão feliz na vida.

Pelo menos, não até a gente decidir ter um filho. Foi aí que descobrimos que Mia não podia ter filhos. Os médicos diagnosticaram algum tipo de condição, ela era infértil, e seria impossível a gente ter um filho juntos. No começo, isso jogou uma sombra no nosso casamento, mas depois de mais três anos a gente concluiu que existia vida além de ter filhos. Decidimos simplesmente curtir a companhia um do outro, como sempre tínhamos feito.

Tudo finalmente voltou pro ritmo familiar que a gente tinha quando se conheceu. Até a primeira doença dela.

As coisas entre a gente tinham acabado de voltar ao normal, e tudo estava melhor do que em anos. A gente estava feliz e cheio de vida de novo. Aí Mia ficou doente. Não sei o que aconteceu com ela, mas ela ficava sempre fraca, cansada, sem energia. O humor dela virou monótono, sem graça. Era como se nuvens escuras tivessem se juntado em cima dela e não deixassem o sol passar.

A partir daí, era como se Mia não estivesse mais ali comigo de verdade. Ela foi ficando cada vez mais magra, e eu via cada vez menos consciência nos olhos dela. O corpo dela tinha ficado tão fraco que ela só andava com ajuda de bengala. Na maior parte do tempo, ela só ficava sentada ou deitada, como se a vida em si tivesse abandonado ela... ou como se a alma dela estivesse escapando devagar.

Ninguém conseguia nos dizer o que ela tinha. A gente foi em incontáveis médicos, passou por tratamentos sem fim, mas nada. Ou não encontravam nada, ou só chutavam o que poderia ser o problema. Mia mal falava comigo agora — não porque não conseguisse, mas como se não quisesse.

Eu até fui falar com os pais da Mia, torcendo pra que eles soubessem de algo, talvez ela tivesse tido problemas parecidos quando criança, ou quem sabe fosse alguma doença hereditária. Mas aí descobri que Mia tinha sido adotada. Os pais dela nunca contaram pra ninguém, nem pra ela. O acordo de adoção proibia explicitamente. Essa pista também foi um beco sem saída. Eu teria feito qualquer coisa pra melhorar ela, mas nada ajudava.

Por semanas eu cuidei dela, testando todo remédio, pomada e tratamento que os médicos sugeriam, mas nada funcionava. Na verdade, o estado da Mia só piorava. Ela virou tipo um esqueleto ambulante — o corpo inteiro reduzido a pele e osso. Eu tentava alimentar ela, até levei pra fazer soro na veia pra nutrir o corpo, mas era como se ela só emagrecesse mais. Ela mal conseguia arrastar os pés agora, e só dentro de casa; subir uns poucos degraus já a deixava exausta.

O que mais me preocupava era a queda de cabelo. Saía em tufos, descascando do couro cabeludo como se nunca tivesse crescido ali de verdade. Em poucos dias, o cabelo loiro lindo dela ficou marcado por placas carecas do tamanho da palma da mão.

Por mais que eu amasse a Mia, e por mais disposto que eu estivesse a cuidar dela pro resto da vida, eu estava começando a quebrar.

A gente ainda rodava de médico em médico. Devo ter ligado pra todos os cantos dos Estados Unidos, perguntando se alguém podia me dar uma dica, um tratamento, qualquer coisa, pra melhorar a Mia. A gente viajava de um lugar pro outro, e eu pagava — muitas vezes caro — por certos tratamentos. Mas nada dava resultado. Alguns tratamentos pareciam tortura pra Mia; outras vezes, não tinha nem o menor sinal de melhora. Eu estava completamente perdido sobre o que mais podia fazer.

O tempo passou assim até uma manhã em que eu acordei com Mia tossindo violentamente. Eu pulei da cama na hora, correndo pro lado dela. Eu temia o que podia ter dado errado de novo, e eu tinha razão de ter medo. Os dentes da Mia tinham começado a cair. Não todos de uma vez, mas um por um. Às vezes a gente acordava de manhã e encontrava um faltando; outras vezes ela perdia um durante o dia. Era uma visão horrível.

Nessa altura, o cabelo dela já tinha caído completamente. Comprei uma peruca pra ela pra que as pessoas não ficassem encarando se a gente saísse, e pra que ela se sentisse ainda bonita aos meus olhos. Mas na maior parte do tempo ela só ficava sentada ou em pé, sem graça, com a peruca escorregando pros olhos ou torta na cabeça. Ela estava careca agora, e quase sem dentes. O peso dela tinha caído pra uns trinta e poucos quilos, e os músculos tinham atrofiado tanto que ela mal conseguia se segurar em pé.

Ela parecia uma velhinha. Aos trinta e um anos, a minha Mia parecia uma bruxa encarquilhada de setenta. Mal dava pra reconhecer ela.

Um dia, porém, a doença da Mia deu outra virada. Feridas começaram a aparecer no corpo dela, de vários tipos, a maioria parecendo como se furúnculos tivessem estourado. Elas simplesmente surgiam do nada.

Foi aí que decidi que a gente ia tentar absolutamente tudo. Fomos em mais médicos, curandeiros, healers espirituais... Até levei um padre pra abençoar ela. Mas nada fazia diferença. O estado dela era terrível: feridas ulceradas cobriam ela da cabeça aos pés, ela mal andava, e até se mexer parecia sugar tudo que restava dela. Não tinha mais dentes, e todo o cabelo tinha ido embora.

Os médicos estavam de mãos atadas, ninguém conseguia me dizer o que era. Às vezes internavam ela por uns dias, mas nunca ajudava. Não tinha mudança.

Aí me disseram a coisa que eu mais temia: Mia não ia durar muito se as coisas continuassem assim. Mandaram eu passar o máximo de tempo possível com ela. Eu fiz tudo que pude, mas Mia estava além de salvação. O corpo dela estava sendo destruído.

E aí, numa manhã, chegou o momento que eu esperava, mas não do jeito que eu imaginava. Eu estava lá embaixo tomando café; Mia geralmente ficava na cama nessa hora. Um pouco depois, subi com comida pra ela, torcendo pra conseguir fazer ela comer algo. Tinha preparado um pratinho de legumes e batido no liquidificador pra virar um smoothie, achando que talvez ela conseguisse beber.

Mas quando abri a porta do quarto, o horror me recebeu. A cama estava encharcada de sangue. As pernas da Mia estavam cobertas dele, assim como o cobertor. Gritando, arranquei as cobertas dela, exigindo saber o que estava acontecendo agora.

O que eu não esperava era o bebezinho minúsculo deitado entre as pernas dela. Uma criança. Uma menininha. Mia tinha dado à luz uma bebê.

Não sei como processei tudo aquilo. Talvez nem tenha processado, talvez só tenha me convencido que sim. Mas a vida seguiu. Mia se foi. Ela sangrou até a morte ali na nossa cama. Fizeram autópsia, rodaram incontáveis testes e experimentos nela, ou Deus sabe o quê. Os médicos me disseram que ela não podia estar grávida. Não tinha um único sinal no corpo dela de que tinha carregado uma criança. E mesmo assim, o bebê estava perfeitamente saudável. Era como se Mia não tivesse dado à luz num estado horrível e agonizante.

Ninguém conseguia me explicar. Mas uma coisa era certa: essa criança era minha filha. Quando Mia e eu ainda planejávamos um filho, ela tinha dito que, se fosse menina, queria chamar de Elizabeth. Então, a partir daquele dia, ela era Elizabeth pra mim.

Criar uma criança foi brutalmente difícil. Sozinho, com o peso e o vazio que Mia deixou, acho que eu não teria conseguido sem ajuda profissional. Consultei um psicólogo; precisava falar com alguém sobre o que tinha acontecido com Mia. O começo foi incrivelmente duro, e os anos seguintes foram, se possível, ainda piores. Mas eu amava Elizabeth. Ela era nossa filha. E eu sabia que Mia ia querer que eu a criasse.

Eu nunca imaginei que criar um filho pudesse ser tão “fácil”. Elizabeth era o anjinho perfeito. Claro, eu tinha ajuda dos pais adotivos da Mia e da minha própria família. Mas Elizabeth era o tipo de criança que todo pai sonha. Dormia a noite toda, quase nunca chorava, só quando realmente tinha algo errado. Raramente ficava doente, comia tudo que eu dava, e birras eram completamente desconhecidas pra ela.

Os anos passaram. Eu não tinha muito tempo pra ficar remoendo o que aconteceu. Entre trabalho, casa e criar Elizabeth, meus dias eram cheios.

Quando Elizabeth fez oito anos, decidi arrumar um tempinho pra mim, ou melhor, pra minha vida amorosa. Comecei a namorar uma mulher chamada Linda. O filho dela era da turma da Elizabeth, e Linda também era mãe solteira. Ela se mostrou uma ótima companhia. Eu gostava dela.

Mas foi aí que as coisas começaram a mudar com Elizabeth. Naquelas poucas semanas em que eu via Linda, ela mal parecia ela mesma. Nos dias em que eu tinha encontros, ela fazia de tudo pra me impedir de sair ou pra me fazer ficar com ela em vez de ir com Linda. Continuou assim até que, um dia, ela cruzou a linha.

Uma noite, Linda e eu saímos, deixando Elizabeth e o filho da Linda com uma babá. Eles eram da mesma turma, pelo menos podiam passar o tempo brincando juntos. Mas Elizabeth não levou bem. Depois soube que ela passou a noite humilhando o filho da Linda, dizendo coisas horríveis sobre o que ia acontecer com ele e com a mãe dele.

O que acabou de vez com Linda, e fez Elizabeth não poder mais ficar na escola dela, foi um ato de violência brutal. Naquela noite, enquanto Linda e eu estávamos num restaurante chique, a babá me ligou, desesperada e gritando. Elizabeth tinha mutilado o filho da Linda. Ainda não sei exatamente como aconteceu, mas ela cortou três dedos dele com uma faca de cozinha.

Linda nunca mais quis me ver. E eu fiquei furioso com Elizabeth.

A partir daí, levei Elizabeth pra uma psicóloga infantil. Muita coisa foi diagnosticada. A especialista disse que o comportamento extremo da Elizabeth provavelmente vinha da ausência da mãe, e porque ela queria me ter só pra ela. Digamos que, a partir daí, tanto a psicóloga quanto eu trabalhamos pra ajudar Elizabeth a virar uma menininha comum. Mudei ela de escola, onde ninguém sabia do passado dela. E desisti de procurar um novo relacionamento.

Elizabeth sempre agia de forma estranha sempre que eu mencionava alguém que tinha conhecido ou estava conhecendo. Era como se ela não fosse ela mesma nesses momentos. Então deixei pra lá. Nos anos seguintes, éramos só nós dois de novo.

Quando Elizabeth fez doze anos, as coisas começaram a ficar ainda mais estranhas. A semelhança entre ela e Mia virou quase assustadora. Eu sei — ela era filha dela, afinal. Mas não era só a aparência. A personalidade tinha ficado quase idêntica. Ela ria do mesmo jeito, corava do mesmo jeito quando eu provocava. Usava o cabelo do jeito que Mia usava, e a cor parecia ficar cada vez mais loira.

Num dia de final de verão, tudo ficou claro. Estávamos comemorando o aniversário de treze anos da Elizabeth. Organizei uma festinha pequena pra ela e as amigas. Assei hambúrgueres pra elas no quintal, e elas nadaram na piscina. Depois da festa, eu estava na cozinha lavando louça quando Elizabeth veio por trás e me abraçou. Aí ela disse que ia tomar banho.

Quando ela se virou, juntando o cabelo castanho-claro na mão, eu vi a nuca dela. Tinha uma marca ali, tipo uma cicatriz antiga de cirurgia. Elizabeth nunca tinha operado nada. Mas Mia tinha. Ela me contou que ganhou numa acidente de bicicleta aos treze anos, um tombo que quase a deixou paralisada depois de cair no pescoço.

Como uma cicatriz idêntica estava na nuca da Elizabeth? Dias atrás não tinha nada ali. Como tinha aparecido?

Meus pensamentos dispararam. Fiquei paralisado na cozinha enquanto Elizabeth se afastava devagar. A ficha caiu como gelo: Elizabeth não era minha filha. E talvez... nem da Mia.

“Mia!”, gritei atrás dela quando ela chegou na escada. “O que é tudo isso, afinal esses anos?”

Elizabeth parou devagar. Não virou pra mim. Só ficou ali, uma mão no corrimão, um pé já no primeiro degrau.

“Não me chama assim, Jack”, disse ela, com tom de repreensão. “Eu sou Elizabeth agora.”

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Fui parte de uma equipe de busca e resgate que encontrou um excursionista desaparecido. Queria que não tivéssemos salvado ele

Primeiro — todos os nomes nesta história foram alterados. Não vou revelar o meu, e mudei os nomes de todos os envolvidos para proteger suas famílias de assédio, especulações ou qualquer coisa que possa surgir se isso vazar.

Segundo — e isso é importante — não venha me procurar.  
Não estou perdido. Não preciso ser encontrado. Falo sério. Não importa quem você seja — polícia, equipe de resgate, excursionista curioso, jornalista — fique longe dessas florestas. Considere isso um aviso, não uma trilha de migalhas.

Sou voluntário na equipe de busca e resgate há uns cinco anos. Nesse tempo, tive a honra de encontrar quatro pessoas perdidas — a maioria apenas gente que saiu da trilha e se perdeu no mato. Mas esse caso foi diferente.

O desaparecido, Kevin, tinha 14 anos. Ele saiu para uma caminhada de quatro dias com o pai, há três semanas, no interior da floresta. Quando não voltaram após seis dias, a mãe dele os deu como desaparecidos.

Levamos só dois dias para encontrar o acampamento deles — ou o que sobrou dele. A barraca estava destruída, sangue por todo lado, pedaços de cabelo e osso espalhados entre as folhas. Encontramos o pai não muito longe dali, sem os dois braços, uma perna e o rosto, como se tivessem sido mastigados. O estômago estava rasgado, com enxames de larvas brancas se alimentando de suas entranhas. Mas não havia sinal do garoto.

Desde então, estávamos vasculhando essas florestas, e cada dia que passava tornava mais difícil acreditar que encontraríamos algum deles vivo.

Hoje não foi diferente. Caminhávamos desde as 7 da manhã, pernas ardendo, olhos varrendo cada canto por um sinal de movimento. Meu parceiro, Charles, mastigava uma barra de proteína distraidamente, migalhas caindo no mato. Quando o sol começou a descer além da linha das árvores, já passava das 3 da tarde, e ainda nada do garoto.

“Não acho que vamos encontrar esse moleque,” murmurou Charles, a voz abafada pela barra ainda na boca. “E se encontrarmos, vai ser um cadáver.”

“Então trazemos o cadáver,” retruquei, irritado. “Ou talvez você prefira dizer pra mãe dele, que acabou de perder o marido, que tá muito cansado pra continuar procurando o filho?”

Charles me lançou um olhar furioso, mas não respondeu.

“Você se voluntariou pra isso, porra,” acrescentei, encerrando a discussão.

“Eu sei,” ele murmurou depois de um momento. “Tô só cansado, cara.”

“É,” suspirei. “Eu também.”

Por um tempo, os únicos sons eram nossas botas esmagando o mato e o estalo ocasional de um galho. Então, um bipe eletrônico cortou o silêncio — o telefone via satélite de Charles. Ele o tirou do bolso do colete, abriu e engoliu o resto da barra antes de falar.

“Charles, Equipe de Busca Três, pode falar… É… não, ainda nenhum sinal dele… Estamos a umas seis horas dos veículos… Entendido.”

Ele desligou e guardou o telefone no bolso com um gemido, balançando a cabeça.

“As outras equipes também não encontraram nada,” resmungou Charles. “Mais um dia perdido.”

“Vamos procurar por mais uma hora, depois voltamos,” eu disse. “Quem sabe a gente dá sorte.”

Eu gostava do Charles — não me entenda mal — mas as reclamações constantes dele estavam começando a me irritar. Ele era um cara grande, uns 1,90m, ombros largos, braços grossos. Útil pra caramba se topássemos com um urso. Ainda assim, mesmo eu tendo três anos a mais de experiência em busca e resgate, por algum motivo, ele era o encarregado do telefone via satélite.

A hora seguinte passou em silêncio tenso, com apenas o canto suave dos pássaros lá em cima, o som das botas nas folhas secas e o ocasional sussurro do vento na floresta. De vez em quando, Charles checava a bússola ou o GPS, mas o sinal ficava falhando.

“Vamos parar um pouco,” ele disse finalmente, baixando a mochila num tronco caído. “Minhas pernas tão pedindo arrego.”

Não discuti. Joguei minha mochila ao lado dele e me sentei, esticando os joelhos doloridos. A floresta ao nosso redor estava estranhamente silenciosa — aquele tipo de silêncio pesado que quase faz você sentir algo te observando.

Charles remexeu na mochila, afastando um monte de tralha até pegar uma garrafa d’água. Entre a bagunça, uma coisa chamou minha atenção — o cano laranja brilhante de uma pistola de sinalização.

“Desde quando você tem uma pistola de sinalização?” perguntei.

“Desde a semana passada,” ele disse, com um sorriso que não chegou aos olhos. “Achei que podia ser útil.”

Ele me passou a garrafa, e tomei um gole longo. Ficamos ali por uns minutos, recarregando as energias. Charles comeu outra barra de proteína, enquanto eu afiava um graveto com meu canivete, sem pensar muito. De repente, percebi que a floresta ficou completamente silenciosa. O zumbido usual do vento e dos insetos sumiu, deixando apenas o som do Charles mastigando. Se não fosse por isso, eu acharia que tinha ficado surdo. Foi quando ouvi um farfalhar fraco vindo de trás de nós.

Congelei no meio do movimento. Charles também percebeu. Viramos para o som, escaneando a linha das árvores, olhos pulando entre os troncos finos. O silêncio se esticava, cada segundo parecendo mais longo que o anterior. Então, das sombras entre os pinheiros, alguém cambaleou para a luz.

Era um garoto — imundo, roupas rasgadas, rosto pálido e manchado de terra. Ele ficou lá, piscando pra gente, balançando levemente nos pés.

“Meu Deus,” Charles sussurrou, já se levantando. “Kevin?”

Os lábios do garoto se moveram, mas nenhum som saiu. Ele só nos encarava, os olhos arregalados e vidrados, como se estivesse meio dormindo — ou meio morto.

Corremos até ele, mas desaceleramos assim que o vimos de perto.  
Pensei na foto que nos deram — estudei ela por horas, memorizando cada detalhe até gravar na mente. Kevin deveria ser um pouco gordinho, com cabelo castanho na altura dos ombros e olhos castanhos grandes e gentis.

O que estava na nossa frente mal parecia com ele.

Ele estava magro como um esqueleto, a pele esticada sobre os ossos, as roupas penduradas como se pertencessem a outra pessoa. A cabeça era completamente careca, sem sobrancelhas, sem barba — só uma pele pálida e áspera. Mas aqueles olhos… aqueles olhos castanhos eram inconfundíveis.

“Por favor,” ele murmurou, a voz fraca, quase inaudível. “Tô perdido.”

“Calma, calma, pequeno,” disse Charles, largando a mochila e procurando algo dentro dela. “Você tá seguro agora. Tamo te procurando há semanas, você deve tá morrendo de fome.”

Kevin assentiu, estendendo as mãos trêmulas para pegar o biscoito e a garrafa de Gatorade que Charles ofereceu. Ele abriu o pacote desajeitadamente, partiu um pedaço pequeno e jogou na boca.

Quase imediatamente, começou a tossir — um som grave e rouco que sacudiu o corpo todo. Ele se curvou, tossindo e chiando, os ombros magros tremendo violentamente.

“Ei, ei, calma,” eu disse, me aproximando. “Tá bem, garoto?”

Kevin cuspiu na terra. Quando olhou pra cima, lágrimas brilhavam nos olhos castanhos arregalados.  
“Queima,” ele murmurou, a voz falhando.

“O quê?” perguntou Charles. “O biscoito?”

Kevin assentiu fracamente. “Tudo que eu como dói,” sussurrou, a voz entrecortada. “Mas tô com tanta fome.”

Ele olhou pro biscoito meio comido na mão, como se lutasse contra um impulso invisível. O estômago dele roncou alto, e antes que pudéssemos impedir, ele enfiou o resto do biscoito na boca e engoliu com força, tremendo enquanto fazia isso.

Charles e eu trocamos um olhar — algo estava muito errado ali.

Enquanto Charles ligava para a base pra contar a boa notícia, sentei com Kevin e fiz algumas perguntas.

“O que aconteceu com você no acampamento?”

O garoto olhava pro vazio, os olhos desfocados.

“Não sei, aconteceu… tava escuro, e tudo foi muito rápido. Algo me puxou da barraca à noite e me mordeu.”

“Mordeu?” perguntei, sobrancelhas erguidas. “Onde?”

Kevin puxou a camisa, revelando a ferida. A mordida era enorme, a carne no ombro rasgada num crescente irregular. A pele ao redor estava roxa, as bordas inchadas e sujas de sangue seco. Dava pra ver claramente onde as mandíbulas superior e inferior haviam se fechado — perfurações espaçadas, cada uma grande o suficiente pra caber um polegar, e cheirava levemente a podre e ferro. Apesar da brutalidade horrível, a mordida parecia antiga, como se tivesse anos.

“Caramba,” murmurei, a voz pouco mais que um sussurro. “Isso… isso é uma mordida brutal. Um urso?”

Kevin deu de ombros, os ombros pequenos tremendo. “Não vi. Meu pai afastou ele de mim… mandou eu correr… então corri. Corri… e corri… até tropeçar em algo. Aí fiquei sozinho.” A voz dele falhou, e vi lágrimas riscando a sujeira no rosto.

Coloquei a mão nas costas dele, tentando acalmá-lo. “Tá bem, Kevin. Vamos te levar pra casa.”

“Vocês encontraram meu pai?”

Hesitei por um momento, sem saber se deveria contar sobre o corpo mutilado e parcialmente devorado encontrado perto do acampamento. Não queria colocá-lo em choque; isso poderia matá-lo.

“Não,” menti, “mas vamos encontrá-lo também,” disse com um sorriso nervoso e inquieto.

Hesitante, querendo mudar de assunto, perguntei: “O que aconteceu com seu cabelo?”

“Caíram,” ele disse, sem emoção, como se nem percebesse o quão estranho soava. “Como meus dentes.”

Ele abriu a boca, e eu congelei. Só restavam seis dentes irregulares, espalhados numa gengiva pálida e sangrenta. O crânio parecia fino demais sob a pele, os olhos arregalados e fundos, e o que deveria ser o rosto de um garoto parecia mais um fragmento de algo morto-vivo. Uma tosse gutural sacudiu seu corpo pequeno enquanto ele fechava a boca. Charles voltou, com uma expressão preocupada.

“Temos um problema,” disse Charles, coçando o pescoço. “Não vamos conseguir um helicóptero até amanhã de manhã. Parece que tão todos ocupados com outros resgates.”

“Claro,” resmunguei, revirando os olhos. “E qual é o plano, então?”

Charles olhou pro GPS. “Tem uma cabana antiga a uns vinte minutos a pé daqui. Podemos passar a noite lá e esperar até amanhã.”

Concordei com um aceno, depois me virei pra Kevin. “Tá a fim de caminhar mais um pouco?”

O garoto conseguiu um sorriso fraco e sem dentes, e dava pra ver o cansaço nos olhos dele — mas também um brilho de determinação.

Enquanto avançávamos pela floresta, não pude deixar de notar algo perturbador: o silêncio total. Normalmente, as trilhas eram cheias de canto de pássaros e o farfalhar de bichos no mato, mas com Kevin junto, o mundo parecia prender a respiração — silencioso, vigilante, como se a própria floresta tivesse medo dele.

Depois do que pareceu uma eternidade pisando em lama e raízes emaranhadas, chegamos a uma pequena clareira e avistamos a cabana. A madeira era cinza e apodrecida, deformada por anos de abandono, o telhado torto e irregular. Musgo subia pelas paredes, e trepadeiras se infiltravam nas rachaduras da madeira. As janelas eram imundas, deixando passar finas faixas de luz que iluminavam o interior.

O alpendre rangeu sob nosso peso ao pisarmos, as tábuas soltas ameaçando quebrar. Um leve cheiro de madeira úmida e mofo nos recebeu quando abrimos a porta, e o interior era pouco mais que uma sala única. Partículas de poeira dançavam no ar, teias de aranha pendiam do teto baixo. Uma mesa bamba se equilibrava num canto, e um fogão velho e frio encostava numa parede, com um atiçador de lareira ao lado, ambos enferrujados e intocados há décadas. Não era grande coisa, mas serviria por uma noite — se não desabasse em cima da gente.

Puxamos uns bancos velhos e sentamos na mesa instável, abrindo algumas latas de feijão pra um jantar modesto. Kevin comia devagar, cada colherada um esforço, o corpo tremendo a cada mordida. De vez em quando, uma colherada desencadeava uma crise de tosse que o fazia se dobrar, tossindo e cuspindo, mas ele continuava.

Depois do jantar, tentamos nos distrair com um jogo de cartas. A cabana rangia ao nosso redor, o vento chacoalhando as janelas, mas dentro, por um momento, parecia calmo — quase normal. Os olhos de Kevin ainda carregavam o peso das últimas semanas, mas, por um instante, rimos baixo de uma jogada errada ou uma carta de sorte. O mundo lá fora, com seus perigos e horrores, parecia sumir, substituído pela luz das nossas lanternas e pelo leve cheiro de madeira úmida.

“Bom, isso foi divertido,” disse Charles, então pegou a pistola de sinalização da mochila. Ele a girou brincando na mão, sorrindo. “Beleza, senhores — quem tá a fim de uma rodada de roleta russa?”

Todos rimos. A tensão do dia se dissipou por um momento, substituída pela leveza absurda do cansaço e de piadas ruins.

Lá fora, a lua cheia brilhava alta, sua luz pálida cortando a janela suja e se espalhando pelas costas de Kevin. De repente, ele parou de rir no meio da risada, o sorriso derretendo numa expressão vazia. Seus olhos ficaram vidrados, desfocados — aquele tipo de olhar que atravessa você. Então, ele caiu pra frente, vomitando violentamente.

O primeiro jorro acertou o chão com um splash molhado, espalhando-se pelas cartas e nas tábuas gastas da cabana. O fedor azedo de feijão meio digerido encheu o espaço pequeno quase instantaneamente.  
“Merda!” gritei, afastando a cadeira pra escapar do respingo.  
“Tá bem, cara?” perguntou Charles, a voz entre preocupação e nojo, se afastando comigo.  
“Acho… acho que sim,” Kevin ofegou, limpando a boca com as costas da mão. “Não sei por que isso—”

Ele não terminou. O peito dele convulsionou, e outra onda violenta sacudiu seu corpo. O segundo jorro foi pior que o primeiro — os dentes que restavam voaram da boca com o vômito, quicando e se espalhando pelo chão da cabana como dados jogados.

Kevin engasgou, então se curvou novamente. Dessa vez, não era feijão, mas um jato vermelho escuro que saiu em um arco pulsante, espalhando-se pelas cartas, formando poças no chão já escorregadio até o lugar inteiro feder a ferro e bile.

E então vieram as convulsões. Os braços dele se contraíram contra o peito, depois se abriram, as pernas chutando espasmodicamente como se fosse uma marionete puxada por cordas emaranhadas. O corpo magro se curvou de forma não natural, o som das juntas estalando audível mesmo acima do engasgo molhado da garganta.

O vômito parou, mas os sons não. Agora era um engasgo seco horrível, cada um como se o corpo estivesse tentando se rasgar por dentro. Uma tosse áspera e seca acompanhava, arranhando o ar enquanto o corpo dele se contorcia e tremia no chão ensanguentado.

Com cada engasgo seco, algo se projetava mais para fora da boca sem dentes de Kevin, forçando seu caminho. Então, com uma onda de pavor, percebi o que estava vendo: o focinho e a mandíbula de um lobo. Ele engasgava e vomitava, o peito convulsionando enquanto mais daquilo deslizava para fora, molhado de sangue e muco, brilhando sob a luz da lanterna em flashes pretos e úmidos.

Ao mesmo tempo, o corpo frágil dele começou a inchar. As roupas encharcadas de vômito se seguraram por um momento antes de as costuras rasgarem, o som agudo e molhado enquanto o corpo em expansão de Kevin se libertava. O ar se encheu com o trovão de ossos quebrando, estalos ecoando pela sala. Pelos grossos e eriçados brotavam em manchas pelo corpo antes careca, formando tufos grossos até que o corpo antes esquelético fosse coberto por uma pelagem áspera.

A pele dele passou de pálida para um tom roxo manchado, as veias inchando como cordas pretas sob a superfície. Os dedos se contorceram, curvando e esticando enquanto os ossos se alongavam, as unhas rachando, engrossando e endurecendo em garras curvas que arranhavam sulcos na madeira sob ele.

Charles gritou algo, mas o som mal registrou. O corpo do garoto não parecia mais frágil, nem humano — cada convulsão o tornava mais algo que pertencia às florestas silenciosas que atravessávamos.

O corpo de Kevin tremeu mais uma vez, o peito arfando com respirações irregulares e não naturais, cada uma rangendo como vento em vidro quebrado. A coisa que saíra de sua boca — o focinho úmido e rosnante de uma fera — pendia ali, tremendo como se provasse o ar. Suas mandíbulas humanas originais permaneciam abertas de forma não natural, os ângulos impossíveis para qualquer pessoa, a carne ao redor dos lábios esticada e rachando. Ele me olhou por um momento, com um horror confuso e suplicante nos olhos castanhos.

Saliva e sangue pingavam da nova boca canina, que se estendia uns 15 centímetros da humana, a testa da coisa começando a ficar visível. A mandíbula da fera rosnava enquanto emergia a cada engasgo. Todo o corpo dele convulsionava a cada inspiração, as costelas se esforçando.

Charles e eu nos pressionamos contra a parede da cabana, encolhidos como coelhos acuados por um predador. Eu segurava meu canivete com mãos trêmulas, Charles empunhava o atiçador com uma mão e a pistola de sinalização com a outra — ambos com olhos arregalados de horror. Kevin bloqueava a única saída. Estávamos presos.

Eu não conseguia me mover, as pernas pregadas no chão. Os olhos de Kevin rolaram para trás, mostrando apenas o branco leitoso, e ainda assim lágrimas escorriam pelas bochechas, pingando no sangue abaixo.

A coisa estendeu as novas mãos e agarrou as mandíbulas superior e inferior humanas de Kevin. O som foi pior que a visão: um estalo seco enquanto o crânio de Kevin se partia sob a pressão das garras monstruosas, revelando orelhas de lobo. Pedaços de osso e carne se soltaram, caindo no chão ensanguentado com um tapa nojento. A coisa sacudiu a cabeça, como um cão faria.

Ela ficou ali, com a cabeça baixa, apoiada nos nós dos dedos como um primata, respirando lentamente. Fundo e firme.

Charles e eu nos colamos na parede oposta, cada músculo congelado, o terror gravado em nossos rostos. Rezei, desesperadamente, para que ela saísse pela porta, sumisse na escuridão da floresta, juntando-se a quaisquer outros horrores vagassem pela noite.

Então ela virou para nós, e o tempo virou um melaço.

A criatura diante de mim era uma fusão grotesca de humano e predador, cada detalhe distorcido em algo de pesadelo. O rosto era alongado e lupino, presas irregulares cobertas de sangue coagulado escuro. Olhos âmbar ferozes repousavam fundos no crânio, irradiando uma consciência fria e calculista. Pelos pretos e ásperos brotavam irregularmente pelo couro cabeludo e rosto, emoldurando a mandíbula escancarada com tufos emaranhados, e a pele fina, rachada e roxa se esticava sobre maçãs do rosto salientes. O nariz era de lobo, narinas dilatando enquanto farejava o ar, uma língua vermelha brilhante saindo para umedecê-lo.

O torso era esquelético, mas musculoso de forma não natural, tendões flexionando sob a pele roxa-acinzentada e machucada. Pelos escuros e ásperos corriam pela espinha, enrolando-se nos ombros e braços. Os braços eram grotescamente longos, com mãos terminando em dedos alongados com garras pretas e curvas, os nós dos dedos saltando como pequenas pedras sob a pele fina.

As pernas espelhavam os braços na distorção monstruosa: finas, mas fortes. Os pés eram híbridos de pesadelo — arcos altos, solas grossas e coriáceas, dedos alongados, cada um com garras curvas e afiadas que haviam arranhado o chão. Veias pulsavam sob a pele quase reptiliana, e tufos de pelos ásperos brotavam nos tornozelos e canelas, conectando-se às coxas poderosas e retorcidas, prontas para saltar a qualquer momento.

Olhos amarelos nos fixaram, narinas dilatando enquanto farejava o ar parado da cabana, cada movimento assustadoramente predatório. Meu coração batia forte, cada batida ensurdecedora no silêncio tenso. O lábio superior da criatura se curvou, expondo dentes amarelos e irregulares que brilhavam na luz fraca das lanternas. Um rosnado grave e gutural veio do fundo da garganta, um som ao mesmo tempo animal e perturbadoramente humano.

Então ela avançou.

Focou em Charles primeiro, provavelmente vendo o homem maior como a maior ameaça. Charles girou o atiçador com toda a força, mas a criatura se esquivou. Antes que ele pudesse se recuperar, Kevin o acertou como um jogador de futebol americano, jogando Charles contra a parede com um baque doentio, a pistola de sinalização voando de suas mãos pelo espaço da cabana.

Reagi imediatamente, golpeando com o canivete com tudo que tinha, acertando a criatura nas costas. Ela soltou um grunhido de dor gutural, cambaleando por um momento — mas então revidou. Suas garras enormes dispararam como lâminas irregulares, rasgando meu peito com força brutal. O impacto me jogou para trás, meu corpo batendo no chão com um estalo que sacudiu os ossos enquanto a dor me queimava. A fera avançou em Charles novamente, seu corpo enorme o prendendo no chão. Suas mandíbulas se fecharam no ombro esquerdo dele com um crunch doentio. Charles gritou, debatendo-se loucamente, e golpeou com o atiçador, acertando Kevin nas costelas. Um grito agudo e dolorido ecoou da criatura enquanto ela cambaleava — mas só por um instante.

Antes que ele pudesse se recuperar, a fera atacou com velocidade relâmpago. Uma de suas garras enormes desceu, afundando fundo no estômago de Charles. Então, com uma facilidade horrível, ela arrastou as garras para si, rasgando o abdômen de Charles como se abrisse um zíper. Sangue jorrou pelo chão enquanto Charles gritava. A coisa ergueu a cabeça para o teto, soltando um grito ensurdecedor. Não era o uivo de um lobo — não, era algo muito mais sombrio, como uma pessoa tentando imitar um lobo, retorcido e gutural, com um grave que fazia os ossos tremerem. Então, sem aviso, ela mergulhou o focinho no estômago aberto de Charles, sorvendo e rasgando suas entranhas com avidez.

Me forcei a ficar de pé, cada movimento enviando uma dor aguda pelas costelas — sem dúvida, algumas estavam quebradas. Meus olhos travaram num objeto próximo: a pistola de sinalização, a menos de um metro. Minha salvação, minha única chance. Lentamente, com agonia, rastejei até ela.

Pelo canto do olho, vi a criatura se virar na minha direção, atraída pelo movimento, a respiração úmida ecoando pela cabana enquanto me fixava. Minhas mãos fecharam em torno da pistola de sinalização no momento em que ela saltou. Suas mandíbulas avançaram para meu pescoço, pingando sangue. O instinto tomou conta — levantei o braço para proteger a garganta.

Os dentes da criatura se fecharam no meu antebraço com uma força que esmagou os ossos. Senti um estalo agudo ecoar pelo braço enquanto a dor explodia até o ombro. O pânico cresceu, mas não havia tempo para pensar — apenas para agir.

Uma onda de adrenalina me atravessou. Com o braço livre, apontei a pistola de sinalização para o rosto da criatura e puxei o gatilho. Uma luz vermelha cegante irrompeu do cano, o sinalizador acertando diretamente seu olho.

Ela guinchou, soltando meu braço, e arranhou desesperadamente o olho, tentando arrancar o projétil em chamas. As chamas se espalharam rápido, lambendo o rosto peludo, transformando a cabeça da criatura numa bola de fogo. Gritos de dor ecoaram pela cabana enquanto ela se debatia violentamente, as garras enormes cortando as paredes e o chão enquanto as chamas consumiam sua cabeça. Fumaça encheu o espaço pequeno, ardendo nos meus olhos e dificultando a respiração. Cambaleei para trás, segurando a pistola de sinalização com mais força, as costelas gritando de dor a cada movimento.

Seus gritos ficaram mais altos, uma mistura doentia de humano e fera, ecoando nas paredes de madeira. Faíscas caíam ao meu redor enquanto o fogo se espalhava, incendiando as cortinas e pedaços de madeira. A porta aberta estava à frente — era agora ou nunca. Cambaleei para frente, cada passo um esforço, e alcancei o batente. Segurei a moldura da porta e me forcei a olhar para trás uma última vez.

A cabana era um inferno. Charles estava de costas, morto. Um buraco enorme no estômago, o rosto contorcido em agonia, o olhar fixo no teto agora em chamas. A coisa-lobo se contorcia no chão, debatendo-se desesperadamente, tentando em vão apagar o fogo que a consumia por completo. Seus uivos angustiados ecoavam pela floresta escura, uma sinfonia aterrorizante de fúria e dor.

Fumaça subia para o ar da noite enquanto eu saía, ofegando por ar fresco, o cheiro de cabelo queimado, carne carbonizada e gordura estalando pairando no ar. Só consegui dar alguns passos para fora da cabana antes de cair de lado. Grunhi de dor ao colapsar, rolando de costas. O céu noturno se estendia infinito acima de mim, a lua cheia pesada e ameaçadora, lançando uma luz pálida sobre a estrutura em chamas.

Minha visão embaçou, a dor irradiando pelo corpo, e lentamente senti que estava apagando. Tudo o que restava era o rugido opressivo das chamas e o silêncio assustador da floresta ao redor, pressionando de todos os lados enquanto eu caía na inconsciência.

Era manhã quando acordei. Por um momento, a desorientação nublou minha mente — eu não sabia onde estava. Então a realidade me atingiu como uma onda.

Me movi lentamente, esperando dor, mas, para minha surpresa, não havia nenhuma. Meu braço, onde a fera me mordeu, tinha uma cicatriz considerável de mordida, parecida com a de um cão, mas quase completamente curada, como se meses tivessem passado. Hesitante, levantei a camisa rasgada e examinei as marcas profundas de garras no peito. Até essas feridas, que eu lembrava como cruas e agonizantes, pareciam ter meses.

Uma fome voraz me dominava, mais aguda e insistente do que qualquer coisa que já senti. Meu estômago revirava, doendo, exigindo satisfação. Não tinha percebido o quão faminto eu estava até agora. Me forcei a ficar de pé e examinei a cabana. O telhado havia desabado em partes, as paredes reduzidas a vigas fumegantes, a estrutura inteira uma ruína enegrecida. Incrivelmente, o fogo não se espalhou para a floresta ao redor; as chamas haviam se consumido e apagado, deixando um silêncio estranho.

Me aproximei cautelosamente dos restos queimados, procurando qualquer sinal de vida. Meu olhar caiu sobre algo grande espalhado entre as brasas. Mandíbulas caninas, agora totalmente enegrecidas, projetavam-se grotescamente de um corpo retorcido na agonia da morte. Fumaça subia ao redor, carregando o fedor acre de carne queimada, fazendo meu estômago roncar de fome. Continuei examinando as ruínas quando meus olhos caíram sobre outra figura. Charles ainda estava de costas, o rosto completamente queimado, os braços caídos ao lado do corpo. Queria me ajoelhar, enterrá-lo direito, lamentar meu amigo, mas a fome do meu corpo desviava minha atenção. A sobrevivência exigia que eu procurasse comida antes de chorar pelos mortos.

Revirei os escombros, desesperado por qualquer coisa para devorar — um pedaço, uma migalha, qualquer coisa. Levantei uma viga carbonizada, e sob ela, vi uma mochila. A de Charles. Ao levantá-la, o saco rasgou, espalhando o conteúdo pelo chão enegrecido. GPS, telefone via satélite e uma barra de granola. Movido pela fome, rasguei a embalagem da comida e a enfiei na boca. Uma dor aguda atravessou minha mandíbula. Puxei a barra e olhei, chocado: dois dos meus dentes estavam cravados nela. Levei a mão à boca, sentindo o vazio onde dois dentes superiores estavam. Meus olhos se arregalaram, e meu pulso disparou. Passei os dedos pelo cabelo, tentando me acalmar — e, para meu horror, um grande tufo se soltou na minha mão, caindo no chão queimado.

O que quer que tivesse afetado Kevin — doença, maldição, eu não sabia — agora corria por mim. Eu ia me transformar num monstro. Meu mundo girou. Náusea arranhou meu estômago, e me curvei, cabeça entre os joelhos, esperando vomitar. Avaliei minha situação: eu estava infectado. Iria me transformar. Se fosse resgatado, mataria — qualquer um, todos. Kevin não nos reconheceu quando se transformou, duvido que eu seria diferente. Não conseguiria me controlar. Não podia viver com a ideia de machucar alguém. Pressionei as palmas no rosto, tentando afastar o inevitável. Tinha que haver uma escolha, uma brecha, algo que eu pudesse fazer para sobreviver sem condenar todos ao meu redor. Mas não havia. Não mais.

Eu tinha que morrer.

Tentei resolver com as próprias mãos. Encontrei meu canivete nos escombros da cabana. Segurei-o sobre os pulsos, ordenando a mim mesmo que os cortasse, mas meu corpo simplesmente não obedecia. Pensei em enforcamento como opção, mas não sabia como fazer um laço.

Ao longe, ouvi o som constante de hélices de helicóptero cortando o ar da manhã — um som que fez meu coração disparar de pavor. Deviam ter seguido a fumaça da cabana. Eu não podia ser encontrado. Não seria encontrado.

Segurando o telefone via satélite com força, virei e corri, atravessando o mato o mais rápido que minhas pernas permitiam, mais fundo na floresta. Galhos arranhavam meus braços e rosto, raízes prendiam minhas botas, mas não parei. O som do helicóptero foi sumindo, ficando mais fraco a cada passo até ser engolido pelo silêncio vasto da floresta.

Depois do que pareceu uma eternidade — trinta minutos, talvez mais — finalmente parei. Meu peito arfava, a respiração rasgando a garganta, o suor escorrendo pela pele. Ainda sentia o zumbido fraco do telefone na mão. Eles rastreariam o sinal eventualmente, mas aqui, no fundo da floresta, nunca conseguiriam pousar.

Foi quando decidi escrever isso no telefone via satélite. A conexão é péssima, e digitar letra por letra é agonizantemente lento, mas não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer.

Não tenho dúvida de que haverá outra lua cheia hoje à noite. E quando ela subir, vou mudar — assim como Kevin mudou.

O que me corrói não é o “se”, mas o “como”. Será que ainda estarei aqui dentro, aproveitando o caos que causar? Ou serei jogado no escuro, preso no banco do passageiro, forçado a assistir pelos olhos de outra pessoa enquanto me torno nada além de fome, dentes e garras?

A espera é pior que a morte.

O sol está se pondo atrás das montanhas agora, levando a luz com ele. Sombras rastejam pelas árvores, e com elas vem o pavor do inevitável. A noite está chegando. E com ela — a transformação.

Acho que não estarei aqui pela manhã. A fera não vai ficar; ela vai caçar, vai vagar, farejando presas novas. Quando acordar de novo — se acordar — estarei em algum lugar no meio da selva, coberto de sangue que não é meu.

Talvez, se eu tiver sorte, ela me leve pra longe de qualquer um. Longe de cidades, de casas, de famílias. Talvez a única coisa que ela mate hoje seja eu, mas duvido que terei essa sorte.

De novo, quero enfatizar — não venham me procurar. Sou perigoso demais agora. Não quero machucar ninguém, e não quero ser encontrado. Escrevo isso pra deixar um registro do que aconteceu e como um aviso pra quem pensar em me procurar. Fiquem longe. Por favor. Se você estiver na floresta à noite e ouvir uivos, corra.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

O que deixei na colina

Nunca pensei que voltaria aqui. A cidade está menor do que eu lembrava, e olha que ela nunca foi grande coisa. Tudo está mais quieto agora, como se alguém tivesse abaixado o volume uns graus.

É outono, então a praia não foi limpa pra receber nadadores ou famílias. Montes de algas vermelhas e enegrecidas, misturadas com conchas vazias, emolduram a linha d’água, trazendo o mesmo cheiro de sal, peixe e podridão. Pelo menos isso não mudou.

Voltei porque quis ver tudo de novo. Meus filhos já cresceram e saíram de casa, e meu marido faleceu há algumas semanas — câncer de próstata, quem diria — e eu só precisava de um pouco de conforto. Estava me sentindo tão sozinha.

Tive um sonho com ela, também. Ela estava sentada debaixo da macieira, a maior de todas, com o cabelo grudado no rosto. Aquele sorriso brincalhão estampado, como se tivesse acabado de me vencer em algum jogo que ela mesma inventou. A gente sabia que ela tinha trapaceado.

Encontrei um aluguel bem legal. É fácil achar um, especialmente na baixa temporada. Da janela do meu quarto, dá pra ver as telhas vermelhas da casa amarela. Não são as mesmas, claro. Reconstruíram depois do incêndio. Ninguém diria que uma criança morreu ali.

Também consigo ver minha antiga casa. Parece a mesma, só que renovada. Mais nova do que era. Tem um trampolim no quintal da frente e um balanço pra crianças pequenas. É reconfortante imaginar que uma criança pode estar dormindo no meu antigo quarto, com as paredes recém-pintadas, pôsteres grudados com tachinhas e livros numa prateleira. Eu teria adorado isso. Quando era meu, o teto vazava quando chovia; cheirava a mofo, não a tinta fresca ou produto de limpeza. Eu não podia guardar livros ali.

Naquela época, e acho que agora também, a cidade ficava morta por nove meses do ano. Os adultos brincavam que a gente só acordava quando os turistas começavam a chegar, lá pela metade de junho, pouco antes do solstício de verão. Era quando os restaurantes ficavam abertos mais de dois dias por semana, quando as lojinhas de souvenirs no píer paravam de parecer abandonadas. O mercadinho local ficava bem abastecido com frutas e legumes que não eram só maçãs da região, repolho ou batatas.

Meu pai ficava fora a maior parte do ano, trabalhando na Noruega, mas voltava pros verões. Tinha uma barraquinha no píer onde vendia lanches e balões, e sempre chegava em casa cheirando a pipoca, algodão-doce quente e fumaça de charuto. Acho que ele era mais gentil com os filhos dos turistas do que com os próprios.

Não acho que minha mãe queria ter filhos, mas acabou com três. Ela e meu pai mal se falavam, e aquele verão não foi diferente. Ele estava ocupado demais com o trabalho e, suponho, com outras mulheres. Ela, por sua vez, estava atarefada com meu irmãozinho e minha irmã. Havia sete anos de diferença entre mim e minha irmã, que tinha três anos, e dez entre mim e meu irmão. Naquele verão, eles não eram boa companhia pra brincar. Nem depois, mas por outros motivos.

Eu nunca fui uma criança popular. Não que sofresse bullying, ou que as outras crianças fossem cruéis comigo: eu participava das brincadeiras, como pega-pega ou esconde-esconde, mas nunca era escolhida primeiro. Tinha que lembrar aos outros que eu estava ali. No geral, me sentia meio invisível.

Não me importava tanto, ou pelo menos gosto de fingir que não.

Entre nossa casa e a amarela ao lado havia um pedaço de terreno que, no verão, virava um matagal de ervas altas e flores silvestres, com um pequeno círculo de árvores, meio cercado e inútil pra qualquer construtora. Não era grande o suficiente pra construir nada, e o lote tinha um formato esquisito. Ficava ali, esquecido, zumbindo com abelhas no verão e ficando cinza e duro no inverno. Eu passava muito tempo lá.

Costumava levar um cobertor e um livro da biblioteca, às vezes uma maçã, e sentava debaixo da maior bétula. Era o único lugar que parecia meu. Minha mãe não se importava onde eu estava ou o que fazia, desde que voltasse antes do jantar, e não tenho certeza se meu pai lembrava da minha existência.

Ninguém mais se incomodava com aquele lugar, nem as outras crianças. O capim era alto o suficiente pra se esconder. Eu me lembro de deitar ali, olhando o céu por entre os talos, sentindo que o mundo fora do meu santuário estava pausado. Que nada importava além das nuvens e de mim, que éramos as coisas mais importantes — as únicas — no universo.

Um dia, encontrei um ninho. Estava mais baixo que o normal, no espaço onde um galho quebrado se encontrava com o tronco. Era lindamente trançado com gravetos e palha, com um fio de plástico vermelho entrelaçado nas formas complexas. Dentro, três ovos: pequenos, azuis com pintas escuras, cada um único. As coisas mais lindas que eu já tinha visto. Me lembro de prender a respiração enquanto me aproximava, com medo de que até isso pudesse quebrá-los. Parecia que tudo aquilo era pra mim, e tornava minha clareira ainda mais mágica.

Eu os visitava todo dia. Nunca toquei neles, nem ousava encostar no galho pra ver melhor. Só ficava na ponta dos pés, contava-os e sussurrava pra eles. Contava o que comi, o livro que estava lendo, como odiava ouvir os choros do meu irmão através da parede. Como me sentia sozinha. Que estava torcendo por eles. Era o melhor tipo de segredo.

Depois, eu sempre ia pra casa amarela. O jardim, cheio de banheiras pra pássaros, macieiras e pedras gastas, parecia uma extensão da magia. Eu caminhava por ali, tocando as árvores, fingindo que era filha de uma família rica que me amava, e que um dia aquela casa seria minha. Viveria ali com meu marido, comendo bolinhos frescos com geleia na varanda branca, vendo minhas filhas subirem na velha macieira.

A rotina era quase sempre a mesma, e eu geralmente terminava o dia sentada na pequena colina atrás da casa amarela, onde ela encontrava a floresta. Era cheia de morangos silvestres e cheirava a pinho e bétula, abafando o fedor do mar. Era perfeita pra rolar morro abaixo, se você não se importasse com as manchas de grama.

Um dia, eu estava deitada de bruços na grama no topo da colina. O sol estava se pondo, e eu observava uma fileira de formigas pretas cruzando meu braço. Era uma cócega. Tinha acabado de decidir parar de enfiar morangos silvestres em talos secos quando ouvi o zumbido. Um som suave carregado pelo vento, mas suficiente pra quebrar minha rotina e me assustar.

Havia uma garota debaixo da velha macieira, olhando pros galhos. Seu zumbido parecia distraído, como se estivesse pensando muito em algo.

Ela usava um vestido branco com detalhes azul-claros, do tipo bonito demais pra correr ou subir em árvores, e seus sapatos tinham fivelas prateadas. Fiquei imediatamente com ciúmes, mas também intrigada. Suas mãos estavam cruzadas nas costas, educadamente, e eu me lembro de pensar que ela não pertencia àquele lugar, no meio do matagal.

Ela virou a cabeça quando me viu, e eu congelei. Ninguém vinha aqui, e parecia que eu tinha sido pega fazendo algo secreto e errado. Então, ela sorriu e acenou, animada. Pulando, ela veio em direção à colina, com a mão ainda nas costas.

“Oi!” disse ela, sem um pingo de timidez. “Não sabia que alguém brincava aqui.”

Não respondi de imediato. Sentei, tentei limpar a grama e as manchas de morango das calças, cruzei os braços.

“Não é bem um lugar pra brincar,” falei com cuidado, as bochechas ardendo. “Só gosto de sentar aqui.”

“Ah, é onde eu sento também!”

Quase disse que não era, mas desviei o olhar.

“Meu nome é Clara,” disse ela, soltando as mãos e colocando-as na cintura. “Você mora por aqui?”

Assenti, e ela começou a subir a colina, sem se importar que o vestido ia ficar verde e vermelho. Não falei nada.

Ela se jogou ao meu lado e suspirou.

“É o único lugar que parece meu,” disse ela.

A partir daquele dia, ela ficou. Foi gradual: não me lembro de termos dito que éramos amigas, mas foi o que aconteceu.

Alguns dias, ela estava sentada debaixo da macieira de manhã quando eu chegava, com os joelhos dobrados, o cabelo brilhando ao sol. Outros dias, ela vinha pulando da casa amarela até a clareira, chamando meu nome.

Os dias ganharam um novo padrão. Nos encontrávamos de manhã, explorávamos os jardins, subíamos a colina, fazíamos coroas de margaridas e deitávamos na grama até cheirarmos a verde. Ela falava sem parar: sobre a cidade, a escola, os pais que a deixavam ter um toca-discos próprio. Eu ouvia, na maior parte. Ela gostava de decidir o que faríamos, e eu ficava feliz em seguir. Ela era ótima em inventar jogos, e igualmente boa em mudar ou ignorar as regras pra vencer. Não me incomodava. Eu gostava de ser escolhida.

Às vezes, eu a pegava me olhando com uma pequena ruga no canto da boca, como se estivesse tentando entender algo. Outras vezes, ela ficava quieta no meio de uma história, distraída, e então ria de novo como se nada tivesse acontecido. Era um pouco estranha, assim, mas eu não ligava. Finalmente tinha uma amiga.

Eventualmente, levei ela pra clareira. Foi quando tudo começou a dar errado.

O ar naquele dia estava quente e pesado. O céu parecia desbotado e manchado. Passamos a manhã correndo ao redor da macieira, olhando flores e rolando a colina até meu cabelo ficar cheio de sementes e o vestido dela não estar mais branco. Ela riu o tempo todo. Eu me lembro de pensar que não era possível rir tanto de algo tão comum. Será que ela não fazia coisas mais emocionantes do que rolar uma colina na beira da floresta?

Quando deitamos na grama, depois, contei sobre a clareira. Sobre como era mágica pra mim, como ninguém mais ia lá. Sobre o ninho, com os ovinhos azuis, e como eu tinha certeza que logo iam chocar. Como me sentia quase uma mãe, de um jeito mágico: que sussurrava meus segredos pros ovos, e inventei uma história sobre desejos se tornarem realidade se contasse pros ovos antes de chocarem. Não sei por quê. Acho que, naquele momento, queria algo que fosse meu. Tentar ser quem guiava, pra equilibrar nossa amizade. Talvez eu devesse algo a ela.

Ela se apoiou num cotovelo, me olhou com os olhos arregalados.

“Você vai me mostrar?” perguntou.

Assenti, sentindo um misto de orgulho e nervosismo. Fomos juntas, dedinhos mindinhos entrelaçados. Meu coração estava cheio, e havia uma excitação no ar.

Fui tão cuidadosa, afastando os galhos pra mostrar o ninho no berço, garantindo que ela visse como eu era delicada.

Os ovos estavam iguais. Três ovais azuis perfeitos, aninhados entre a palha e o fio vermelho. Então, o ar pareceu esvaziar.

“Só isso?” disse ela, com uma sobrancelha erguida.

Senti um frio repentino. Desviei o olhar, dei de ombros. Não sabia o que dizer.

Clara olhou pros ovos, depois pra mim. Sentia seus olhos queimando na lateral do meu rosto. Ela ficou na ponta dos pés, levantou um dedo pros ovos.

“Não!” falei, segurando seu braço. Puxei de leve, mas ela continuou o movimento. O dedo roçou a palha, deu um empurrãozinho. Os ovos balançaram.

“São só ovos,” disse ela, suspirando. “Quem liga? Vamos nadar.”

Ela puxou a mão, deixando os galhos voltarem. Eles bateram no ninho. Então, ela saiu pulando da clareira.

Eu a segui. O que mais podia fazer?

Naquela noite, não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via os passarinhos: rosados e indefesos, sem asas, logo abaixo das cascas. Vivos e esperando, alheios. Um dedo grande, a ponta manchada de suco de morango, bem ali do lado. Eles não sabiam.

Na manhã seguinte, estava tudo errado.

O galho estava quebrado na base. O ninho pendia por um fio de palha, o cordão vermelho partido ao meio por alguma força. Dois ovos caíram na terra, um deles rachado. Nas frestas da casca, dava pra ver a membrana fina como papel molhado. Dentro, algo que deveria ficar escondido — rosado e malformado, inacabado, ossinhos brancos brilhando onde as formigas começaram. O outro estava esmagado, cacos azuis com pintas numa bagunça de vermelho, amarelo e viscoso que revirou meu estômago.

O último ovo ainda estava no ninho, mal se segurando. A casca tinha uma rachadura no meio, um buraco do tamanho de um polegar. O conteúdo coagulou no ar da noite, e uma única pena estava grudada na meleca, tremendo ao vento. Eu tinha certeza de ouvir a mãe pássaro lá em cima, chorando.

Fiquei lá, tremendo. Meu estômago parecia vazio, mas não chorei. Não de imediato. A clareira estava quieta e parada, exceto pelo zumbido das moscas perto do meu ouvido.

Naquela tarde, encontrei Clara sentada nos degraus da casa amarela, balançando as pernas e comendo uma maçã. Era do mesmo tom de vermelho dos restos dos meus pássaros.

“Cadê você?” perguntou, com um tom mais ríspido que o normal. Dava pra ver que estava irritada comigo.

Dei de ombros, não olhei pra ela. Sentei ao seu lado nos degraus, as mãos cruzadas no colo.

“Aconteceu algo com os pássaros?” continuou, com simpatia.

Estremeci, meus olhos fixos no rosto dela.

“Como você sabe?” engasguei. As lágrimas vieram, então. Via os pássaros toda vez que piscava, e era triste demais.

“Bem, você não devia ficar contando sobre essas coisas por aí. Sabe como são os meninos.”

“Eu não contei pra ninguém—”

“Contou, sim! Quando brincamos de esconde-esconde com os meninos ontem. Te falei que era má ideia.”

Não discuti com ela, nunca discutia. Mas naquela noite, pensei nas palavras dela, revirando-as até fazerem ainda menos sentido.

Eu não tinha contado pra ninguém. Sabia que não. Mesmo assim, no dia seguinte, na praia, os meninos sorriram estranho pra mim. Um deles imitou o bater de asas com os braços, depois fez um gesto de esmagar algo entre as palmas.

Quando contei pra Clara, ela só deu de ombros.

“Viu? Te falei que eles descobririam. Meninos estragam tudo.”

Algo dentro de mim rachou, então. Pequeno, mas permanente.

Depois disso, ela começou a querer passar mais tempo com as outras crianças. Eu a via correndo descalça pela areia, gritando, rindo e brincando de luta, com o vestido levantado até que, mais tarde, trocou por um short e uma camiseta amarrada na cintura, como as turistas mais velhas. Ela não olhava mais pra mim com frequência, e eventualmente parou de me chamar de manhã. Nunca estava em casa quando eu chegava, e, com o tempo, parei de ir também.

Quando ela finalmente apareceu de novo, uma semana depois, já era agosto. Não chovia há um tempo, e tudo estava amarelo e seco. A grama estalava sob seus pés quando ela correu até mim aquela manhã. O sol já estava alto: precisei semicerrar os olhos pra vê-la.

Ela falou rápido, como sempre fazia quando queria dominar o ar entre nós, e me puxou junto. Segui, mais por hábito, deixando ela me arrastar pro jardim. Ela garantiu que mantivéssemos uma boa distância da clareira, e nenhuma de nós olhou pra lá ao passar.

Enquanto subíamos a colina, senti esperança. As últimas semanas foram como antes de Clara, e eu não estava mais acostumada com a solidão. Era bom ouvir a voz dela de novo. Talvez tudo pudesse voltar ao que era antes.

Mas, em vez disso, ela tirou uma caixinha de lata do bolso do short. Era azul, com iniciais gravadas na tampa. A caixa de fósforos do meu pai, que ele usava pros charutos.

“Tô entediada,” começou, sorrindo com expectativa. “Vamos brincar de algo novo. Só pra nós.”

Uma inquietação me acertou como um tijolo, mas sentei ao lado dela mesmo assim. Bem no topo da colina, onde as raízes das árvores apareciam e o chão era pelado. Íamos levar bronca por sujar a roupa.

Clara abriu a caixinha, derramou os fósforos na palma da mão. Rolou-os entre os dedos, o sorriso nunca deixando o canto dos lábios. Ela não me olhou diretamente.

“Olha,” disse, e riscou um. A faísca pulou, e uma pequena chama nasceu na ponta; laranja, depois azul na base. Ela a trouxe perto, muito perto do rosto, os olhos brilhando de deleite.

Mal conseguia respirar. “Clara, para. Você vai se queimar.”

Ela riu, aquela risada fácil que parecia feita pra me fazer sentir menor. “Tá tudo bem. Olha? É só um pouco de fogo.”

Ela começou a falar sobre homens das cavernas, mas eu não ouvia. O fósforo queimava rápido, e meus olhos estavam grudados nele. Cada músculo do meu corpo estava tenso.

Quando chegou na ponta dos dedos, ela gritou e soltou o fósforo. Caiu sem som na grama seca. Uma fumaça começou a subir, serpenteando entre as lâminas. Ela pisou com o pé descalço, o sorriso crescendo. “Viu? Nada.”

Mas ela não parou. Outro risco, outra chama. Um leve cheiro de enxofre, misturando-se ao aroma seco do campo e da floresta. Cada fósforo ela jogava mais rápido, mais brilhante, mais perto da parte mais seca do mato.

“Clara, para,” implorei. “Só criança acha que brincar com fósforos é legal.”

Ela me ignorou, agachando, observando enquanto o vento empurrava as brasas pro lado.

Foi quando disse que ela ia pra casa, que estava sendo idiota. Que eu ia me meter em encrenca, e eu não queria isso.

Ela nem olhou pra mim. Só riu, e riscou outro fósforo.

Virei e comecei a descer a colina, em direção a casa. Não corri, embora quisesse. Sentia o sol queimando minha nuca, e minha garganta estava apertada. Ouvi o fósforo riscar de novo, e o cheiro de fumaça. O leve chiado que veio depois, e então, nada. Eu já estava muito longe.

Não vi o que aconteceu depois.

Não vi.

Mas, às vezes, quando penso nisso, consigo imaginar como deve ter sido. Ela agachada, acendendo outro fósforo, o cabelo caindo pra frente, a fita azul um pouco perto demais da chama no chão. A grama seca finalmente pegando fogo, primeiro baixo, depois rápido demais. Ela pensaria que era só um fio de fumaça, mas estava muito, muito seco. A chama se inclinando, pegando num cardo seco, a fita dela encostada ali. Então, puff. A camiseta branca grudada nas costas com o suor, ela se levantando rápido, em pânico, derrubando a caixinha. O vento fazendo o resto.

A próxima coisa que me lembro é o cheiro de madeira queimando, e minha mãe gritando meu nome da varanda. O céu, lá no horizonte, estava laranja: uma fumaça preta e densa subia da colina numa linha bagunçada, como um tornado desenhado no papel.

As pessoas corriam e gritavam, apontando.

Nunca mais subi aquela colina.

Também não fui pra casa. Fui pra clareira, sentei ao lado da árvore onde estavam meus passarinhos. Onde ainda via pedaços de casca azul com pintas espalhados pela grama. Peguei o maior que encontrei e guardei no bolso.

Depois, chamaram de acidente. O chão estava muito seco, que azar. Não era incomum, crianças brincando com fogo. Estúpido, mas não incomum.

O funeral foi de caixão fechado, e os adultos decidiram que era melhor eu não ir. A mãe dela me deu uma mecha do cabelo dela, amarrada com uma fita azul. Ainda a tenho.

Trouxe a caixa de memórias pra cá. Acho que sei por quê. Minha infância não foi feliz, mas teve pedaços que me fizeram quem sou hoje. Aquela Barbie que eu tinha, o cabelo todo embaraçado de tanto brincar; o pedaço de casca de ovo, ainda azul com pintas; alguns gizes de cera, a mecha de cabelo; coisas aleatórias que guardei.

Hoje de manhã, quando voltei de um passeio na praia, a caixa estava na bancada da cozinha. A caixinha azul de fósforos. Tenho certeza que não a tirei de lá.

A luz do sol batia nela, perfeita. Refletindo no esmalte azul gasto. A tampa estava meio aberta, e eu podia ver as pontas vermelhas dos fósforos que sobraram.

Agora, no escuro, meus olhos ficam voltando pra casa amarela, aquela que não estava vazia naquele verão. As macieiras cresceram tortas e cheias de galhos, curvadas sob o peso, as copas cheias de maçãs vermelhas, prontas pra colher. Parecem crocantes.

De vez em quando, a vejo ali, debaixo da maior delas. Uma figura pequena, de branco, com fitas azuis no cabelo loiro que brilha na luz. Quando pisco, ela some.

Acho que amanhã levo a caixinha de fósforos pra colina. Só pra devolver ao lugar certo. Parece que ela está se aproximando, e isso me assusta.

Sempre que fecho os olhos, sinto o cheiro do mar — e da fumaça.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Encontrei um culto de fantasmas

Recentemente, perdi meu pai para o câncer. 
Passamos anos enfrentando quimioterapia e radioterapia, que o deixaram em um estado tão irreconhecível que meus filhos tinham medo de visitá-lo. Não era pela aparência dele, eles não ligavam para isso. Era a mudança de humor.

Às vezes, ele ficava irritado e descontava em quem estivesse por perto, não importava quem fosse. Era algo imprevisível, vinha em surtos depois de momentos em que ele parecia até alegre. Depois, ele esquecia que tinha agido assim e voltava a ser carinhoso com as pessoas que havia maltratado.

A visão dele piorou muito, ele desenvolveu cataratas grossas, então frequentemente confundia as pessoas, achando que você era outra pessoa, alguém que ele detestava, talvez de quando era mais jovem, porque eu não fazia ideia de quem ele estava falando. Talvez fossem só as enfermeiras que tinham que aguentá-lo dia após dia. Não sei ao certo. Ele sempre demorava muito para entender o que os médicos queriam que ele fizesse.

Tenho quase certeza de que ele esqueceu que tinha câncer e passou a acreditar que as pessoas que tentavam ajudá-lo o estavam mantendo refém. Não sei quanto disso era por causa dos tratamentos ou da demência, mas os dois juntos tornavam difícil para mim estar lá, mesmo sem as crianças.

Ele finalmente faleceu aos 84 anos. Tristemente, isso acabou sendo um alívio para mim. Sei que meus filhos também sentiram esse alívio, mesmo que indiretamente, por verem o peso saindo dos meus ombros. Ouvi um deles dizer: “Ele está voltando a ser nosso pai de novo.”

Isso me abalou por um tempo danado. Será que eu não estive presente o suficiente para eles enquanto ele estava no hospital?

Depois que ele morreu, recebi uma carta pelo correio que dizia: “Você pode falar com eles novamente, nem que seja para encontrar um fechamento.”

A carta mencionava meu pai: nome, sobrenome e nome do meio, a idade com que ele morreu e o hospital onde foi internado.

Eu mal sabia de todas essas informações, como é que eles sabiam?

A carta também trazia um endereço. Pesquisei na internet e não encontrei nada de especial. Parecia apenas um prédio qualquer que você passaria sem notar na estrada. Estava bem cuidado. O gramado era impecável. Havia arbustos bem podados, árvores decorativas e um jardim cheio de flores silvestres locais misturadas com orquídeas e rosas. Coisas assim.

Fui instruído a levar apenas a carta para ser admitido, e seria recebido no saguão.

A dor do funeral dele ainda ecoa na minha cabeça. A família e os amigos apareceram com memórias lindas de antes do diagnóstico, mas eles nunca vivenciaram o fim dele como eu vivi. Não tornamos pública a deterioração mental dele. Eles não precisavam saber disso. Não escondi minhas lágrimas. Acho que é bom que as crianças vejam esse lado seu. Que saibam que está tudo bem ficar triste e chorar. Quero que elas entendam que as emoções que sentem são reais e devem ser enfrentadas, não escondidas. Abraçei meus filhos enquanto a família estendida compartilhava histórias do vovô. Eles também tinham algumas memórias dele e, com suas vozinhas, falaram coisas que tornaram tudo ainda mais devastador.

Durante o funeral, a carta não saía da minha cabeça, junto com todas aquelas memórias. Uma pergunta ficou martelando no fundo da minha mente: “Será que posso ter essa versão dele de volta?”

Foram semanas me questionando antes de tomar uma decisão. Guardei a carta na minha cômoda, mas nunca contei às crianças o que era. Não que elas se interessassem, era só um pedaço de papel. Nunca escondi a carta delas, mas também nunca toquei no assunto. Era um lembrete constante do meu pai. Da memória dele. Pensei nisso o tempo todo, a ponto de meus filhos ficarem preocupados comigo.

As perguntas deles acabaram decidindo por mim. Perguntei à minha irmã se ela poderia cuidar das crianças por algumas semanas, dizendo que precisava de um tempo. Nossos filhos se dão super bem, e eu fui o principal cuidador do nosso pai antes de ele falecer. Ela estava lá, mas, como irmão mais velho, quis proteger ela dessa memória dele. Acho que ela ficou grata por isso, mas nunca toquei no assunto, e ela também não. Mantive a carta escondida dela, no entanto. Não sei por quê.

Os mapas não mentiram sobre a aparência do lugar. Era tão bonito quanto parecia na internet. Um doce aroma floral flutuava no ar enquanto borboletas pousavam nas flores silvestres por perto. Sentei em um banco perto da entrada por uns trinta minutos, encarando a carta enquanto pessoas entravam e saíam. Pessoas normais. Pareciam até felizes, ou pelo menos fingindo estar. Isso me fez questionar se a carta era real. Será que as pessoas agiriam assim por algo que a carta prometia? Estavam vestidas de forma casual, como se fossem ao mercado.

No fim, empurrei a porta e fui recebido por uma recepcionista com um sorriso gentil. Ela perguntou como poderia me ajudar, e eu, em silêncio, entreguei a carta. O sorriso dela se abriu ainda mais, e ela me deu as boas-vindas com uma gratidão genuína. Pediu para fazer uma cópia do meu documento de identidade para entradas futuras e um número de telefone para contato. Hesitei por um segundo, mas forneci ambos. Ela disse que eu poderia usar qualquer um dos dois para entrar a qualquer momento. Nem mencionou horários.

Depois que assinei a cópia com meu documento e telefone, ela apontou para uma porta atrás dela. As luzes da sala eram de um laranja suave, e havia um leve aroma das mesmas flores que tínhamos no funeral dele. Quase saí correndo. Um homem estava sentado em uma poltrona de couro diante de uma biblioteca cheia de livros antigos e plantas exuberantes. Ele vestia um estilo casual de negócios e tinha um sorriso tranquilo. Ele apontou para um sofá confortável e disse: “Olá, meu nome é Mike. Sou o conselheiro de luto deste lugar. Por favor, sente-se.”

Respondi: “Oi, Mike. Eu sou o Paul.”

“Olá, Paul. Prazer em conhecê-lo. Posso perguntar quem você perdeu?”

“Perdi meu pai há pouco tempo. Ele faleceu de câncer e demência. O final foi difícil, ele...”

“Por favor, vamos lembrar dos bons momentos”, ele interrompeu. “Ajuda a longo prazo. Vai tornar tudo mais fácil para você e seu pai.”

“Então é verdade? O que a carta dizia?”

“Claro, Paul. Nosso objetivo é aliviar as dores dos vivos, dando a eles acesso àqueles que nos deixaram.”

“Como vocês fazem isso?”

“Seria mais fácil mostrar a você”, ele respondeu. “Por favor, deite-se.”

Fiz o que ele disse.

“Agora, pense no seu pai. Na sua memória favorita dele. Isso será o gatilho.”

A memória que escolhi foi dele assinando a guarda das crianças, que vieram da minha outra irmã, viciada em drogas. Eu as vejo como minhas, embora sejam minha sobrinha e meu sobrinho. O pai biológico deles morreu de overdose, e minha irmã está na prisão por assalto à mão armada. Ela roubou a pistola do meu pai e usou para assaltar um posto de gasolina para sustentar o vício. Meus filhos eram muito pequenos para lembrar de qualquer coisa, então me veem como o pai deles.

“Tá bem. Mantenha essa memória na cabeça. Veja o sorriso orgulhoso dele. Sinta o perfume amadeirado enquanto ele assina a guarda da Kelly e do Cameron.”

“Pai?” Ele estava diante de mim, com sua jaqueta jeans e calça cáqui. Sorrindo para mim com o braço estendido para que eu o segurasse. Estava exatamente como naquela época. Tão cheio de vida. Tão grato por eu ter assumido as crianças.

“Vamos buscar o Cameron e a Kelly. Eles estão te esperando no hospital”, ele disse.

Então ele sumiu no ar. O toque dele ainda ficou na minha mão. Parecia tão real. Dormi profundamente em um hotel, sem coragem de voltar para casa. Não sei por que peguei um quarto. Pela primeira vez em anos, senti paz.

Liguei para meus filhos para saber como estavam. Eles contaram que foram à praia com a tia Carol. Brincaram nas ondas e fizeram o maior castelo de areia de todos, depois o destruíram com toda a força. Pensei: “Será que o pai poderia levá-los à praia?” Mas também: “Será que isso os confundiria?” Eu poderia tentar explicar.

Depois da ligação, agradeci ao meu pai por eles.

No dia seguinte, voltei. Tinha que voltar.

A mesma recepcionista me cumprimentou com o mesmo sorriso gentil. Ela disse, no entanto: “O Mike não está aqui hoje, mas você pode entrar na sala principal.” Ela apontou para outra porta por onde outras pessoas entravam e saíam livremente. Ela não pediu meu documento, o que achei estranho. Mas também não pediu o dos outros. Então, fui junto.

A sala era confortável, com poltronas, janelas grandes que deixavam entrar a luz quente da manhã, uma mesa farta de café da manhã contra a parede e pessoas desaparecendo em quartos no fundo da sala. Um homem me cumprimentou, dizendo que eu poderia usar os quartos no final para as pessoas que perdi. Peguei um prato e comida, pois não tinha comido, e refleti sobre o que ele disse. Pessoas. Enquanto comia, pensei: “Será que posso chamar mais do que só meu pai?”

Um cartaz chamou minha atenção. Dizia: “Menos sofrimento para todos. Abriremos 24 novas instalações pelo país e nove internacionalmente. Conte para sua família agora!”

Depois de comer, me preparei e entrei em um quarto vazio.

O quarto era tão bonito quanto o escritório do Mike, mas sem janela. Fiz como me lembrava, guiado por instruções visuais pintadas na parede.

“Oi, pai”, disse, admirando a presença dele. Estava com as mesmas calças cáqui de antes.

“Oi, filho”, ele sorriu. “Você é bem-vindo para se juntar a nós quando quiser. Pode trazer a Kelly e o Cameron também. Eles gostariam do além tanto quanto eu. Voltar é maravilhoso.”

Rememoramos os velhos tempos. Tempos de paz. Fiquei com ele por três horas antes de ir embora. Tirei uma foto do cartaz, mas ela sumiu depois que saí do prédio.

Acho que realmente era meu pai. Parecia mesmo ele, embora eu mesmo o tenha enterrado. Joguei terra sobre o caixão enquanto o baixavam na sepultura. Coloquei flores ao lado da lápide.

Pesquisei e algumas das novas instalações já estão abertas. Acho que ninguém deveria entrar nesses lugares, mas, ao mesmo tempo, ainda quero vê-lo de novo. Isso faz meu coração disparar. Ele quer ver as crianças de novo, e estou tentado a levá-las. Estou preocupado que, se as vir, vou acabar levando-as lá. 

Não sei mais o que fazer.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon