domingo, 9 de novembro de 2025

Eu morava lá no norte, e é por isso que eu me mudei

Eu morava numa cidadezinha lá no norte – tipo, norte mesmo, onde neva metade do ano. Nasci lá e fiquei até os treze anos. Meu pai era pescador, saía pro mar por semanas seguidas, e minha mãe ficava em casa cuidando de mim. Não foi a melhor infância, mas eu tinha pais que se importavam comigo.

O motivo de a gente ter saído quando eu tava no sétimo ano foi um dia que eu tava voltando da escola no inverno. Quando você mora no subártico, as noites ficam mais longas. Eu fiquei um pouquinho mais na escola pra ver a aurora boreal. Sempre ficava olhando pela janela da sala, tanto que às vezes o professor precisava me mandar prestar atenção na aula.

Eu tava olhando as luzes no céu na praia perto da escola, mas aí vi um par de olhos mais perto da areia. Eles tavam me encarando direto. Minha mãe e o professor, o Sr. Lacroix, às vezes me falavam que os ursos polares apareciam naquela época do ano, mas eu achei que cinco minutos depois da aula não ia dar nada.

Eu não corri. Não de cara. Fiquei olhando pros olhos dele e fui recuando devagar. Meu coração já tava disparado, meus olhos vasculhando tudo em volta atrás de uma saída.

Era assim na minha cidade: o pessoal deixava o carro destrancado caso alguém topasse com um urso. Eu vi uma caminhonete; uma picape preta com rodas grandes, e quando cheguei perto o suficiente, finalmente disparei pra dentro e bati a porta com força. Travei as duas portas assim que entrei, e o urso tava a uns três metros quando eu consegui; arranhando a porta.

Comecei a chorar, encolhido no banco de trás dessa caminhonete com esse urso polar rondando do lado de fora. Só pensava: “Quero ir pra casa. Quero ir pra casa. Não quero morrer. Por que esse urso não vai embora?”

O urso branco tava com fome, e quando não tava batendo na porta, ficava me encarando pela janela. Os olhos dele refletiam a aurora boreal e jogavam a luz de volta pra mim. Meu pai tava no mar pescando e minha mãe em casa, sem conseguir chegar lá; a neve tava alta e mais ainda caindo naquela noite.

Eu sabia que não ia conseguir correr mais que o urso. Tive sorte de achar a caminhonete e de ter tido o bom senso de recuar devagar pra não fazer ele disparar na minha direção. Não sabia de quem era a caminhonete, mas fiquei feliz que tava ali. Devia ser de algum professor, seja lá qual fosse.

Então fiquei preso ali, trancado numa caminhonete com um urso polar me encarando e esperando eu sair. Ele era paciente. E eu sabia que não podia esperar tanto quanto ele.

Parecia uma eternidade dentro daquela caminhonete por horas, só vendo o urso me encarar do lado de fora. Ele sentava ali, esperando. Era isso que mais me apavorava: ele sentava e esperava, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Ele fez um barulho, podia ser um bocejo ou um rosnado, mas eu ouvi o que parecia bem com:

“Sai… daí…”

Eu tava com muito frio, com muita fome, dentro daquela caminhonete. Tentei girar a chave, mas o motor só engasgou. A caminhonete tava congelada dura. Tentei me aquecer com as camadas de roupa e ficava olhando pela janela pro urso.

Um dos professores, o Sr. Lacroix, saiu por uma porta lateral da escola. Mas ele congelou ao ver o urso. Correu de volta pra dentro, mas o urso disparou atrás dele, arrombando a porta.

Forcei as pernas pela neve que batia no joelho. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, mas eu não podia parar. Me obriguei a correr até chegar em casa e entrar. Minha mãe me agarrou e, claro, perguntou onde eu tava.

Tudo que consegui dizer pra ela foi: “Urso.”

Na manhã seguinte, minha mãe não me deixou ir pra escola por causa da neve e depois de ouvir no rádio local que o Sr. Lacroix tinha morrido no ataque do urso. Uma parte de mim se sente culpada por ter ficado lá fora, porque ele teria chegado na caminhonete dele em segurança e eu estaria em casa.

Todo mundo teve que esperar até a polícia espantar os ursos da escola, e os que conseguiam capturar eram levados pra um centro até poderem ser soltos. Mesmo depois que os ursos foram embora, as estradas ainda precisavam ser limpas. Tudo levou meses, e só em junho as pessoas voltaram a circular nas ruas e estradas. Fiquei aliviado, mas também assustado porque eles podiam voltar no inverno de novo.

Fico feliz de estar vivo, e pouca gente teria sobrevivido no meu lugar. Quando chegou o verão, meus pais e eu decidimos nos mudar. Meu pai virou operário de armazém na cidade grande, e minha mãe trabalhava no shopping. Mesmo sentindo falta dos amigos do fundamental, fiz novos amigos no ensino médio e na faculdade.

Não acho que eu conseguiria ter ficado naquela cidade com ursos aparecendo todo inverno. Sempre que neva, eu me lembro da minha casa antiga. Mas em algumas noites de neve, penso na aurora boreal e naquela noite que vi o urso me encarando.

Não acho que o urso era mau. Ele só tava fazendo o que precisava pra sobreviver. Isso não quer dizer que eu queira chegar perto de um de novo. Não tem muito mais o que eu dizer, a não ser uma coisa que ouvi sobre como lidar com ursos:

Se for preto, lute.

Se for marrom, deite no chão.

Se for branco, diga boa noite.

sábado, 8 de novembro de 2025

Os passageiros começaram a chorar de repente ao olhar para o mar

Desci do ônibus de turismo e senti o cheiro do mar. As risadas dos outros passageiros se misturavam à brisa fresca enquanto eu olhava para o navio de cruzeiro que se erguia imponente sobre o cais. A excursão ao centro histórico tinha sido perfeita — comida local, lembrancinhas e dezenas de fotos, a maioria de gatos de rua. Eu mal podia esperar pelo jantar a bordo, quando o navio zarparia do porto e começaria uma viagem de sete dias pelo Atlântico em direção ao Caribe.

Depois de trocar de roupa e me refrescar na cabine, fui para o salão de jantar principal. Um anúncio informou que a saída estava atrasada uns dez minutos porque um casal de passageiros tinha se atrasado. Putz, a segunda vez no cruzeiro que isso acontecia. Passei por passageiros com cara de irritados e cheguei ao salão. Era um restaurante lindo, que se estendia por toda a largura do navio e tinha três andares de altura. Decorado com painéis brancos, completados por enfeites azuis nas mesas e nos lustres. A maioria dos passageiros já estava sentada, enquanto eu fui levado a uma mesinha para dois no fundo do salão. Não dava pra ver nenhuma janela, mas isso não me incomodava porque a comida era ótima. As outras pessoas conversavam, riam e curtiam as férias.

Terminei o prato principal e estava ansioso pela sobremesa quando notei, pela primeira vez, um casal sentado perto de uma janela. A janela estava um pouco suja e tinha cantos arredondados, mas o que chamou minha atenção foi que eles estavam chorando. Não pareciam particularmente tristes, mas lágrimas escorriam pelo rosto deles. Sem dizer uma palavra, os dois se levantaram ao mesmo tempo e saíram. Logo depois, ouvi gritos e barulhos altos do lado de fora do salão, mas não dei muita bola e terminei minha sobremesa.

Não vi o casal depois disso e fui para uma salinha de biblioteca num dos conveses inferiores. No caminho, vi vários membros da tripulação conversando baixinho, com cara de nervosos. Depois de me sentar com meu livro — um romance policial dos anos 30 —, senti um leve arrepio. Tinha certeza de que vinha de uma sensação geral de desconforto dos tripulantes por perto. Quando notei dois deles conversando, comecei a andar devagar na direção deles, fingindo olhar as prateleiras de livros. “Levaram eles pra sala de resfriamento no convés 3!”, ouvi um deles dizer, seguido de “Ouvi dizer que foi uma bagunça! Ainda bem que a gente não tava lá.” Depois eles saíram, me deixando curioso pra caralho sobre o que estavam falando. Perdi a vontade de ler e subi pros conveses abertos pra tomar um ar.

Subi as escadas, convés por convés, pensando nos dois tripulantes. Que tipo de bagunça era aquela? Por que a sala de resfriamento? Quando cheguei no topo da escada, indo pra porta que dava pro convés superior, uma mulher jovem abriu a porta e voltou pra dentro. Ou melhor, ela simplesmente atravessou a porta sem nem levantar a mão; o corpo dela bateu nas portas e as empurrou enquanto andava devagar pra frente, como um objeto imparável. Ela olhava fixo à frente, sem notar ninguém ao redor, mas eu vi logo as lágrimas. Não eram lágrimas pequenas, mas um rio escorrendo pelo rosto. Ela nem tentava enxugar, só continuava andando em direção à escada, olhando pra frente. Passou devagar por mim. Achei que ia voltar pra cabine, mas de repente ela parou no meio da escada.

Ela virou devagar com um sorriso — não um sorriso feliz, mas daquele tipo que você dá pra uma criança chorando, cheio de compaixão e pena. De repente, ela se curvou e bateu a cabeça com uma força enorme contra a borda de um degrau. Sangue cobriu a escada, e o som do crânio dela se partindo ecoou pelas paredes de aço do poço da escada. Eu corri. Deveria ter chamado um tripulante ou tentado fazer primeiros socorros, mas o medo era tão grande que saí correndo pro convés aberto, mas o que vi lá me fez parar na hora. Uns cinco passageiros estavam do lado de fora, mais uns dez jaziam no chão cobertos de sangue. Os cinco sorriam com lágrimas escorrendo pelo rosto. Um deles segurava uma barra de aço fina e quebrada, mas antes que eu visse o que ele pretendia fazer com aquilo, gritei e corri de volta pra dentro, passando pela mulher no chão e indo direto pra minha cabine.

Bati a porta com força e me sentei, enterrando o rosto nas mãos e soluçando. Examinei a cabine: tudo limpo e arrumado. Queria ter uma varanda ou pelo menos uma janela, mas só encarei a parede. O balanço lento do navio era reconfortante, e eu me acalmei um pouco. Fiquei sentado no chão por o que pareceram horas até criar coragem pra espiar do lado de fora da cabine de novo.

Abri a porta e olhei pelo corredor. Silêncio. O corrimão na lateral do corredor tinha manchas vermelhas num ponto, das quais desviei o olhar rapidinho. Fui pro convés dos botes salva-vidas procurar um tripulante. Subi um convés e, logo antes da porta que dava pros botes, parei. Letras escritas com sangue seco cobriam a janela de vidro da porta. “Não olhe pra baixo”, era tudo o que dizia.

Hesitei e não empurrei a porta. Virei e vi uma mulher me olhando a poucos metros. Olhei direto pros olhos dela e, graças a Deus, não tinha lágrimas, só um olhar assustado. Percebi na hora que o olhar dela também foi direto pros meus olhos pra checar se tinha lágrimas. “Você olhou?”, ela gritou pra mim. Disse que não. Quando ela se aproximou, perguntei se sabia o que tinha acontecido. “Passageiros por todo o navio começaram a chorar e se machucar! Não sei o que dá neles. Notei primeiro quando tava conversando com um cara no átrio principal, aí ele olhou pela janela e começou a chorar como se alguém tivesse dito que a família dele morreu. Mas ele não parecia triste por ele, parecia triste por outra pessoa. Cheio de compaixão. Aí ele… ele foi e…” Ela começou a soluçar, mas não precisou continuar. A gente sabia o que acontecia com todo mundo que olhava.

Depois que ela se apresentou como Sarah, decidimos ir mais pra proa do navio atrás de tripulantes que talvez conseguissem chamar ajuda. Já era estranho ninguém ter aparecido; ainda estávamos perto o suficiente da costa pra helicópteros ou guarda costeira nos alcançarem. Tentamos usar os celulares, mas sem sinal. O Wi-Fi do navio, que a companhia anunciava como um dos mais rápidos do mar, tinha sumido. Enquanto andávamos, passageiros com lágrimas escorrendo entravam do convés dos botes, mas a gente nunca olhava pra eles por muito tempo.

Logo antes de chegar na proa, vimos um tripulante em pânico indo pros botes. Ele nos viu e fez sinal pra gente ir. Mesmo que os passageiros chorando nunca prestassem atenção na gente, ele sussurrava: “Eles olharam! Todos os oficiais na ponte olharam!”. O medo apertou mais. Se não tem mais ninguém na ponte, não dá pra falar com o mundo lá fora nem pra dar meia-volta. O tripulante, que se apresentou como Jim, disse que ia tentar descer um bote salva-vidas pra fugir usando uma venda nos olhos.

Com um aceno de aprovação, nos preparamos pra sair pro convés dos botes, amarrando uma manga rasgada na cabeça como venda. Jim foi na frente e empurrou a porta. Ar gelado bateu no nosso rosto como mil agulhas. Andamos devagar pra frente e depois pra esquerda. Depois de uns sete metros, chegamos num guindaste de bote. Jim puxou uma alavanca, e o bote começou a descer do alto das nossas cabeças até o nível do convés pra gente entrar. Logo antes de tocar o chão, uma parte do braço do guindaste que descia do teto bateu na minha cabeça e arrancou minha venda. O impacto me jogou no chão e me deixou zonzo. Ouvi os outros gritarem algo pra mim, mas eu tava tonto e só ouvia as vozes como um trovão distante. Abri os olhos.

Vi as ondas lá embaixo. Uma visão linda, com o luar refletindo nas ondas. Primeiro não vi nada, depois notei movimento debaixo d’água. Achei que eram tubarões ou golfinhos pelo tamanho, mas quando meus olhos se ajustaram ao escuro, percebi. Corpos humanos, se movendo junto com o navio. Um dos corpos esticou a mão pro casco e começou a escalar, de algum jeito se agarrando na superfície perfeitamente lisa do navio. O corpo parecia afogado há muito tempo, mas subia com a boca escancarada num sorriso largo.

Coitadinho, pensei. Deve estar com tanto frio e fome. Senti pena dele, como se tivesse encontrado um bicho morrendo na estrada. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu sentia que ele tava com tanta fome, passando fome havia anos. Se ao menos eu pudesse dar algo pra ele comer. As lágrimas não paravam. Ele chegou no topo e sorriu pra mim. Se ao menos eu tivesse comida comigo. Talvez eu pudesse dar algo meu? Ele precisa do meu corpo mais do que eu. Tá tão fraco e desesperado por comida. Sorrindo tão amigável. A borda afiada do corrimão chamou minha atenção. Se ao menos eu pudesse dar algo pra ele comer. Eu tava na frente do corrimão, erguendo devagar a cabeça. Queria rachar meu crânio pra dar comida pra criatura. Me encheu de alegria saber que ele finalmente ia poder comer. Quando os músculos do meu pescoço se prepararam pra bater pra baixo, uma mão tentou agarrar a parte de trás da minha camisa. Não me incomodou, eu tava concentrado no corrimão.

De repente, a mão me agarrou e me puxou com força pra trás; era a Sarah, me arrastando pro bote. O sorriso da criatura sumiu, e ela abriu a boca escancarada revelando fileiras de dentes afiados. O olhar dela de repente se encheu de uma raiva incompreensível. Ela deu um salto pra frente, mas o bote já tinha descido. Pareceu uma eternidade até chegar na linha d’água, mas assim que tocamos a água, parei de chorar. Confusos e apavorados, remamos em direção à costa enquanto o navio sumia devagar no horizonte.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Tenho encontrado pedaços de uma estátua perto do meu carro

Não sou o melhor motorista do mundo. Pelo menos consigo admitir isso. Conheço um monte de gente que dirige tão mal quanto eu, e a maioria jura de pé junto que é acima da média. Sempre é culpa de outro os amassados no para-choque e os arranhões nas laterais do carro. Sempre tem uma historinha pra explicar por que não foram eles que erraram.

Eu, por outro lado, aprendi há muito tempo a assumir a responsabilidade pelos meus vacilos e a trabalhar pra não repeti-los. Estaciono bem longe dos outros carros. Deixo um espaço extra no trânsito. E se ouço ou sinto o carro bater na guia ou em qualquer coisa, desço na hora pra ver como ficou. Não fico achando que “tá tudo bem” e saio acelerando. Já perdi calotas assim, e coisa pior.

Há mais ou menos um mês, estava saindo de um estacionamento fazendo uma curva à direita quando subi na guia. Não tinha visto, nem imaginava que estava tão perto, até que de repente senti o carro dar um pulo pra cima e descer do lado do passageiro. Suspirei, dei meia-volta pro primeiro espaço vazio e saí pra inspecionar o estrago.

O carro estava de boa. Tinha uns arranhões leves na lateral do pneu, mas nada sério. Sem bolhas suspeitas, sem furos. Nada que precisasse consertar.

Parecia que eu tinha arrancado um pedação da guia, porém. Pelo menos foi o que pensei de cara. Tinha um bloco de pedra quebrado, do tamanho dos meus dois punhos juntos, jogado na sarjeta, mas eu não conseguia ver de onde na guia ele tinha saído. Quando me aproximei, percebi que nem era o mesmo material. A guia era de cimento, mas a pedra parecia algo mais natural, talvez granito. E estava estranhamente lisa do lado de fora, como se tivesse sido moldada. Claramente não tinha vindo da guia.

Peguei pra examinar. Era pedra trabalhada mesmo. Não dava pra identificar direito o que tinha sido. Tinha uma parte que parecia um sapato, e era possível que o pedaço que eu segurava fosse uma perna inferior. Se fosse isso, a escultura não era lá grande coisa. Os detalhes eram corridos e vagos. O escultor claramente não tinha prestado muita atenção.

Não quis deixar ali pra alguém bater, então joguei no porta-malas do carro. Pensei em jogar fora na próxima vez que passasse perto de uma caçamba.

Claro que esqueci na hora. Só lembrei uns sete dias depois. Pisei no freio com força pra parar num sinal que não tinha visto, e ouvi o bloco de pedra rolando no porta-malas. Quase me matou do coração, porque de primeira não saquei o que era e pensei que tinha atropelado algo que não vi. Fiquei olhando todos os retrovisores em pânico e teria descido pra checar a rua se o cara atrás não tivesse buzinado pra avisar que eu estava travando tudo.

Enquanto acelerava pelo cruzamento, ouvi a pedra quebrada rolar de novo e de repente entendi o que era. Dei uma risada meio nervosa e anotei mentalmente tirar aquilo do porta-malas o quanto antes.

Tinha uma caçamba do lado de fora do condomínio pra onde eu ia, então estacionei na frente, abri o porta-malas. Fiquei surpreso de ver dois pedaços de pedra em vez de um. Primeiro pensei que tinha rolado com força suficiente pra quebrar ao meio, mas quando tirei os pedaços ficou ainda mais confuso.

O pedaço que eu tinha achado outro dia, aquele que parecia uma perna, estava intacto, igual quando encontrei. O segundo pedaço era totalmente novo. Não fazia ideia de como tinha ido parar no porta-malas.

Igual ao primeiro, era granito liso que tinha sido quebrado de forma bruta. Nenhuma das bordas dos pedaços encaixava uma na outra, mas dava pra ver que eram da mesma peça. Onde o primeiro lembrava uma perna rabiscada às pressas, esse dava a impressão de um braço. A mão era clara, cinco dedos abertos. O resto se misturava numa massa vaga.

Obviamente eu tinha pegado dois pedaços naquele dia e esquecido. Era a única explicação que fazia sentido. Nem lembrava que tinha algo no porta-malas até agora. Parecia razoável que também tivesse esquecido que eram dois pedaços.

Talvez eu tivesse conseguido me convencer disso se não fosse pelo terceiro pedaço. Ele não estava no meu carro. Estava encostado na lateral da caçamba.

Era maior que os outros dois e bem menos claro quanto ao que pretendia ser. Sozinho, eu nem teria percebido que era parte de uma estátua. Era um cilindro de granito disforme, quebrado de todos os lados. Quem olhasse de relance acharia que era entulho de obra.

Mas tinha partes alisadas, e a mesma cor dos pedaços de estátua que eu segurava. Encostei a perna nele, girando até achar onde as quebras batiam. O braço também encaixava.

O pedaço jogado fora era três quartos de um tronco, uma imagem borrada, meio vista, esculpida na pedra. Era em escala de metade, supondo que fosse um adulto. Podia ser uma estátua em tamanho real de uma criança.

Não me importei. Joguei os três pedaços na caçamba e estacionei o mais longe possível dela. Quando saí da casa do meu amigo naquela noite, chequei o porta-malas antes de ir pra casa. Estava vazio, ainda bem.

Duas semanas depois, a coisa toda já começava a parecer besteira. Sim, era esquisito, mas um monte de coisa é. Coincidências estranhas acontecem o tempo todo. A maioria nunca é explicada. É assim que o mundo gira. Eu tinha outras coisas pra me preocupar.

Estava pensando em algumas dessas outras coisas enquanto dava ré pra sair da minha vaga no trabalho. Tinha sido um dia longo no fim de uma semana longa. Fui o último a sair do escritório. O sol ainda não tinha nascido quando cheguei de manhã, e já tinha se posto quando saí. Meu escritório não tem janelas. Não vi o sol aquele dia inteiro. Tentava lembrar se tinha visto durante a semana toda.

Estava distraído, é o que quero dizer. Não tinha ninguém no estacionamento. Não tinha motivo especial pra prestar atenção. Até que um estalo alto quebrou meus pensamentos e me trouxe de volta à realidade.

Não tinha nada no retrovisor. Não tinha outros carros no estacionamento. Eu não estava perto de nenhum canteiro. Joguei o carro em ponto morto e pulei pra fora pra ver o que rolou.

A estátua estava quebrada no asfalto, os pedaços exatamente como eu tinha visto antes. A perna esquerda estava embaixo da roda traseira. O braço com os dedos abertos estava a uns metros de distância. O tronco danificado balançava de leve ali perto. Nenhum pedaço do lado direito estava lá, mas a cabeça…

A cabeça estava em mil pedacinhos de granito, espalhados pelo asfalto preto numa constelação horrível. Era tão impressionista quanto o resto da estátua, mas eu conseguia ver um triângulo vago de nariz, um pedaço que parecia ligar um olho e uma orelha, e dezenas de outros pedaços reconhecíveis entre os cascalhos.

Era só uma estátua, só um pedaço de pedra sem vida. Eu podia ter varrido pro lado. Podia ter seguido em frente. Talvez devesse ter feito isso.

Em vez disso, agachei ali no frio da noite, pegando pedaços de granito quebrado até minhas mãos ficarem dormentes. Empilhei os pedaços grandes no porta-malas e joguei todos os menores numa sacola. Quando terminei, o estacionamento estava limpo. Nenhum pedaço da estátua sobrou.

Tenho remontado tudo em casa, colando os pedaços com epóxi. Tem sido surpreendentemente fácil. Eu sei como deve ficar. Já vi antes.

Talvez eu não seja o melhor motorista. Mas assumo a responsabilidade pelos meus erros.

Era uma vez por ano...

Sinceramente, nem sei direito por que tô escrevendo isso, nem pra quem. Talvez só pra avisar o pessoal. Do quê, eu nem sei. Ou quem sabe pra tentar achar alguém que tenha passado por coisa parecida.

Eu cresci numa cidadezinha minúscula. Nem sei se dá pra chamar de cidade, na real; era mais uma vila, um lugarejo. Daqueles que parecem presos nos anos 50, onde todo mundo se conhece e tem mais igreja do que casa. Parece charmoso, né? Mas quem mora num lugar desses sabe que, na melhor das hipóteses, é um tédio do caralho, e na pior, uma tortura.

Tinha só uma escola, pra todas as crianças nascidas ali, desde que saíam das fraldas até se formarem e, se dessem sorte, darem o fora daquele fim de mundo. No máximo, uns 30 alunos no colégio inteiro, e mesmo nessa comunidade tão unida, eu era o excluído.

Não que eu ligasse, na verdade. Também não curtia aquelas crianças. Meu único amigo de verdade era a vizinha do lado, a Molly. Nossos pais eram bem próximos, e a gente jantava junto com frequência, o que acho que explica por que ficamos tão grudados.

Mas não é por isso que você tá lendo. Duvido que você queira saber de um menininho magrelo, solitário e sem amigos numa vila chata pra cacete.

Minha casa não era chata, na verdade. A gente tinha uns rituais esquisitos. Parte disso você podia culpar pela cultura do Cinturão da Bíblia: se você faltasse à missa de domingo, era praticamente excomungado; as esposas ficavam em casa cozinhando enquanto os maridos iam trabalhar na mina ali perto; se você não tivesse pelo menos três Bíblias transcritas à mão pela nossa igreja, nem podia entrar no culto, essas coisas. Mas tinha outra parada que eu achava estranha pra caralho.

O festival acontecia uma vez por ano. Se você tá se perguntando o que era o festival, a gente também se perguntava. Ninguém sabia o que era, nem por que a gente fazia. Puta merda, ninguém nem sabia o que acontecia se a gente não fizesse. Um dos nossos muitos pastores, o Padre Sinclair, geralmente comandava tudo.

De fora, parecia um festival de igreja normal. Durante o dia, era mais ou menos isso. Uma oração em grupo, os pais na churrasqueira fazendo salsicha ou hambúrguer, as crianças correndo e jogando bola enquanto as mães traziam biscoitos e fofocavam. Talvez até uma musiquinha se o Padre Sinclair tivesse arrecadado grana suficiente.

Mas à noite, as coisas mudavam. Todo mundo tinha que entrar em casa, menos o Padre Sinclair e uns voluntários da escola. Depois que eles garantiam que todo mundo tava mesmo dentro de casa, eles faziam “aquilo”. Crianças curiosas que queriam saber o que rolava podiam colar o ouvido na janela do quarto, mas não ouviam nada além de silêncio. Bom, até as 3:33 da manhã. Todo ano, sem falhar, às 3:33, vinha um som estridente, seguido de um cântico sobrenatural, e depois silêncio de novo. Eu sei disso porque era uma dessas crianças curiosas. Eu e a Molly, os dois.

A história que eu tô contando aconteceu no nosso décimo segundo festival. Nessa época, já fazia uns anos que a Molly e eu teorizávamos sobre o que era aquele festival. Faltava mais ou menos uma semana pro próximo, e nesse ano a gente tava decidido a descobrir o que era. Talvez a gente pudesse dar um jeito de sair escondido na parte noturna do festival? Bom, isso era só daqui a uma semana. Decidimos fuçar o escritório do Padre Sinclair, pra tentar achar algum podre dele.

Depois do culto de domingo de sempre, a Molly e eu aproveitamos que todo mundo tava distraído com a venda de bolos pra invadir o andar de cima da igreja. Não sei se a gente tava fazendo isso por curiosidade de verdade ou se era só pela adrenalina de fazer algo proibido, mas de qualquer jeito, eu lembro que meu coração tava na boca enquanto a gente se esgueirava pro escritório do padre.

“Sem tranca”, a Molly sussurrou, enquanto a gente segurava o riso. “Sabe, se ele é tão paranoico com o escritório, devia fazer um trabalho melhor pra manter o povo do lado de fora.” Os dois prenderam a respiração enquanto abriam a porta devagar, tomando cuidado com qualquer rangido.

Foi meio decepcionante. Talvez a gente esperasse algo tipo a caverna do Satanás, com tapeçarias de demônios e câmaras de tortura, mas parecia só um escritório normal.

Eu revirei todas as gavetas da mesa enquanto a Molly fuçava o armário de arquivos. Nada. Já távamos quase desistindo quando eu tropecei no tapete. Uma parte virou, e aí a gente viu.

Bem no meio do chão, tinha um símbolo esquisito. Parecia uma estrela. Nenhum de nós reconhecia.

“…tá, talvez seja só um desenho. Talvez ele seja um artista secreto”, a Molly disse, tentando me fazer rir, já que eu devia tá com cara de quem viu fantasma.

Eu, ainda o menininho religioso que fui criado pra ser, agarrei uma Bíblia que achei na mesa do Padre Sinclair. Sem pensar, comecei a folhear as páginas.

“Ei, Molly?”, eu disse. “Essas páginas são estranhas.”

Ela pegou a Bíblia das minhas mãos, franzindo a testa. “Não reconheço nenhum desses versículos. Eu li a Bíblia tipo um milhão de vezes. Isso não tá certo.”

“Oi, crianças.” A gente ouviu, e os dois deram um pulo pra trás. Era o Padre Sinclair.

“Ora, ora, se não são a pequena Molly e o Robert. Que curiosos. Bom, não tão pequenos assim. Devem ter uns doze anos agora, né?”, ele disse, andando na nossa direção de um jeito ameaçador.

“S-sim, padre”, a Molly disse enquanto eu tremia que nem vara verde, sem conseguir falar nada. “Desculpa a gente ter invadido seu escritório.”

“Bobagem! Não tem nada de errado com um pouco de curiosidade”, o padre disse, pisando no símbolo que a gente tinha acabado de descobrir. Ele nos olhou com um olhar afiado, de quem sabe das coisas. “Eu podia usar umas crianças curiosas como vocês no festival da semana que vem. Que tal, crianças? Querem ser meus voluntários?”

Eu comecei a balançar a cabeça dizendo não, mas ele pôs uma mão gelada no meu ombro. Um gesto que eu conhecia, ele fazia com todo mundo na cidade como se fosse um conforto, mas agora era completamente diferente. Ele apertou com força, o suficiente pra deixar um hematoma. “Robert, você e eu sabemos que você não tem muita escolha aqui”, ele disse, piscando.

“Não é nada pra se preocupar, de verdade”, ele disse, nos empurrando pra fora do escritório. “Agora vão pra casa. Abracem suas mães.”

Naquela noite, a Molly e eu ficamos no quarto dela, sem falar nada. A gente tava abalado demais. Em silêncio, ela pegou uma das cinco Bíblias da família dela, as que o Padre Sinclair tinha dado pra gente. Aí ela fuçou a mochila que levou pra igreja naquele dia. Tirou a Bíblia que a gente achou no escritório.

“Molly! Você pegou isso? Ele vai matar a gente!”, eu avisei.

“Acho que ele ia fazer isso de qualquer jeito”, ela disse, seca, enquanto abria as duas Bíblias lado a lado.

Eu vi ela ficando cada vez mais confusa. “Não faz sentido, Rob”, ela disse, virando as páginas dos dois livros. “Esses livros dizem o oposto um do outro. Não sei em qual acreditar.”

“Olha, esse versículo não tá na nossa Bíblia. O que diz?”

Eu apontei pra um, e a Molly começou a ler em voz alta. “Estejam alertas e de sobriedade. O inimigo de vocês, o diabo, prowla como leão rugindo, à procura de alguém para devorar.”

Todo ano, sem falhar, às 3:33, vinha um som estridente,

Os voluntários da escola.

“Molly?”, eu disse, hesitante. “O que acontece com os voluntários todo ano?”

“Bom, normalmente eles se mudam. Vão pra faculdade ou algo assim”, ela disse, mas não parecia convencida.

“Molly?”, eu disse de novo, hesitante. “A gente tá orando pro Deus errado?”

No fim, o festival chegou, e a Molly e eu, como deveríamos estar, passamos a semana inteira apavorados. Quando o dia chegou, e depois a noite, a gente tentou dar no pé. Mas não tinha como passar pelo Padre Sinclair.

“Vocês dois, bravos voluntários, vão ficar aqui”, ele disse, agarrando a gente com força pelos braços.

A gente sentou sob o luar num silêncio ensurdecedor.

“Não precisa mais mentir pra gente, Sinclair”, a Molly disse, quebrando o silêncio. “A gente sabe o que você tá fazendo.”

O Padre Sinclair virou de repente. Deu um tapa na cara dos dois enquanto eu gritava de dor.

Ele deu um sorrisinho. “Vocês sabem por que vivem vidas tão abençoadas? Por que todos nós vivemos vidas tão abençoadas? Eu faço isso por nós, de verdade. Por todos nós. E logo, vocês vão ter feito isso por todos nós também. Deveriam estar orgulhosos.” Ele disse enquanto desenhava aquela estrela esquisita no chão com um graveto. A gente viu ele acender velas e falar palavras estranhas.

De repente, um grito estridente fez a Molly e eu nos abaixarmos e taparmos os ouvidos.

Acho que eram 3:33.

Quando ajudei a Molly a se levantar, eu vi.

Ele se erguia acima de nós, desafiando a altura das árvores. Uma figura alta, escura, com chifres e tudo. Olhou pra gente de cima.

O Padre Sinclair se curvou. “Seus súditos, senhor.” Ele nos empurrou na direção dele enquanto a gente tentava correr.

Ele se abaixou. “Você quebrou as regras, Sinclair. Achei que eu tinha deixado as coisas bem claras.”

Num instante, o Padre Sinclair largou a pose de sempre e eu vi o medo tomar conta dos olhos dele. “Q-que regra? Eu não quebrei regra nenhuma. Seus súditos, como prometido.”

“Minhas condições”, ele trovejou, “pela vida que vocês levam, pelos bens que eu concedo, vocês nunca mais devem ferir uma alma. As almas feridas eram pra ser guardadas pra mim.”

Ele tocou em mim com uma garra enorme que queimava. “Isso é um hematoma que eu vejo?” Ele virou pra Molly, e a marca vermelha no rosto dela. “Inacreditável.”

“Mas senhor!”, o Padre Sinclair implorou, de joelhos. “E o bem da minha vila? Todas essas pessoas, orando só por você. Por minha causa. Não podemos fazer outro acordo?”

Ele pensou um pouco. “Muito bem. Posso permitir mais um ano de prosperidade pra essa vila. Mas vou precisar de outro sacrifício.”

O Padre Sinclair nos empurrou pra frente de novo.

Ele balançou a cabeça. “Não eles. É você que eu quero.”

E com isso, a gente viu ele agarrar o Padre Sinclair com uma garra imensa e jogá-lo no chão como se fosse uma boneca, enquanto ele era consumido pelas chamas abaixo. Ainda ouço os gritos dele até hoje.

A Molly e eu ficamos em choque até aquela criatura gigantesca virar a atenção pra gente.

“E vocês dois”, ele disse, se abaixando até nosso nível. “Vão. Saiam desses terrenos e não voltem. Vocês precisam dar o fora daqui.”

Confusos, mas sem querer desobedecer aquela coisa, a gente começou a ir embora.

Eu virei pra trás. “Te vejo em breve?”

Ele deu um sorrisinho. “Com certeza.”
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