quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Sussurros Através das Paredes

É o começo do meu semestre na faculdade e eu tô ficando na casa de um cara chamado Elijah. Não devia chamar de “cara” – ele tem um ano a mais que eu. Parecia um sujeito bem normal. Disse que era cristão, e eu não tinha problema nenhum com isso. Nunca tentou enfiar religião goela abaixo, o que eu curtia e respeitava. Em troca, eu rezava a bênção na mesa quando a gente dividia as refeições. No geral, não era um colega de quarto ruim.

Mas, durante as férias de inverno do semestre, eu me remexia inquieto na cama, os olhos saltando pros números brilhantes do meu relógio: 3h07 da manhã… Eu preferia mil vezes ter ficado acordado até as 3h do que acordar às 3h. Só fiquei lá deitado, torcendo pra que o sono voltasse a me invadir os ossos. Nunca voltou. As paredes pareciam prender a respiração, ouvindo os sussurros suaves que vinham do outro quarto. Elijah. Virei pro lado, enfiei a cabeça no travesseiro tentando abafar o silêncio ensurdecedor da noite misturado com aquelas canções de coral esquisitas que ele cantarolava. Normalmente ele recitava versículos da Bíblia ou orações aleatórias, mas as músicas cantaroladas eram raras e sempre me deixavam arrepiado.

A ansiedade cravou as garras tão fundo no meu estômago naquela noite que achei que ia vomitar. O desconforto pairava no ar. Toda noite, aquele psicopata do caralho voltava de sei lá onde, arrastando terra e murmurando orações crípticas. Já tava mais irritante do que qualquer outra coisa. Fazia semanas que eu não pregava o olho direito por causa daquele sussurro filho da puta.

Porra, nem sei como me meti nessa merda. Claro, sou um estudante universitário quebrado e precisava desesperadamente de um teto… Mendigo não escolhe, né?

Ultimamente, ele tem trazido objetos manchados de lama – penas tingidas, cruzes de madeira grosseiras e páginas rasgadas e úmidas da Bíblia – que parecem se multiplicar toda vez que eu olho pra coleção. O nascer do sol não trazia respostas, só mais perguntas. Nunca perguntei nada. Tem gente que tem hobbies esquisitos e não é como se ele estivesse machucando alguém.

Continuei resistindo à vontade de confrontar o Elijah. Tinha medo do que poderia desabar se eu abrisse a boca. O pensamento ficava ali: o que ele tá fazendo de verdade com aquelas coisas?

Mas a curiosidade cravou as garras compridas nas dobras mais profundas do meu cérebro. A falta de respostas pras perguntas que eu nem fazia virou insuportável e acabou me consumindo.

Numa noite, decidi ficar acordado, de ouvido colado pro barulhinho característico dos pés arrastando. Devagar, e com o cu na mão, rastejei até a porta do meu quarto, que separava meu canto do resto da casa. O coração disparou quando entreabri a porta e espiei pro quarto mal iluminado, sombras dançando com a luz de uma única vela tremeluzente. Meu colega de quarto, Elijah, estava ajoelhado no meio da coleção bizarra, murmurando versículos com uma intensidade frenética. Os olhos arregalados de um fervor que me congelou no lugar.

Limpei a garganta de leve, o suficiente pra quebrar o encanto sem assustar. Minha curiosidade rompendo as amarras do desconforto.

“O que você tá fazendo?” perguntei, voz baixa no silêncio opressivo.

Elijah encarou meus olhos, uma calma sobrenatural no olhar, seguida de uma pausa desconfortavelmente longa.

“Construindo uma ponte entre o céu e a terra”, respondeu como se isso explicasse tudo.

Hesitante, saí do quarto, cruzando o limiar pro santuário de segredos. “Por que os objetos estranhos…?” insisti, olhando pra eles com uma mistura de fascínio e pavor.

Elijah inclinou a cabeça, como se tentasse enxergar uma verdade que eu não via. “Ferramentas”, entoou, “pra guiar os perdidos e prender os caídos.”

O ar ficou mais pesado, carregado de algo intangível que parecia vibrar entre a gente. Hesitei de novo, inquieto mas intrigado com a resposta críptica. “…e quem você tá guiando? Quem você prende?” sussurrei, precisando entender. Morrendo de vontade de entender um pouco dos comportamentos bizarros do meu colega de quarto. Maldita essa minha necessidade de saber tudo, por que eu tenho que ser tão enxerido?

O sorriso do Elijah era enigmático, insondável. “Aqueles que vagam nas trevas”, foi tudo o que deu, os dedos deslizando por uma das cruzes de madeira.

Estremeci sem querer, as palavras mandando um calafrio descer pela espinha. “Que trevas?” insisti, feito idiota, impulsionado por uma mistura de terror e curiosidade mórbida.

Os olhos do Elijah brilhavam de intensidade. “Eles estão ao nosso redor. Invisíveis, mas perto”, sussurrou, a voz tanto um cântico quanto um aviso.

Vacilei, atordoado com a realidade e a loucura se sobrepondo. Queria correr, mas meus pés continuaram plantados, como se tivessem criado raízes no assoalho de madeira. “Você pelo menos… tá nos protegendo?” arrisquei, olhando pros itens sinistros espalhados sob a nova luz.

Elijah assentiu, fechando os olhos como em transe. “De jeitos que você nem imagina”, garantiu. Por algum motivo, aquilo soou qualquer coisa menos tranquilizador.

Algo mudou no ar, frio e ofegante, sussurrando segredos sombrios demais pra compartilhar. Meu olhar foi atraído pra uma boneca manchada de lama no meio daquele monte macabro. Os olhos dela reluziam sob a luz da vela, parecendo vivos. Tremendo, dei um passo em direção à boneca pra ver melhor, o quarto pulsando com uma energia invisível, uma força tão antiga quanto maligna. De repente, uma sombra disparou pela parede, sem pertencer a nenhum de nós.

Recuei de supetão, o coração martelando contra as costelas como um pássaro preso. A sombra se contorcia de forma antinatural, inchando e comprimindo como se testasse os limites deste mundo.

“Você tá vendo agora?” A voz do Elijah vagou num zumbido grave, ressonante e solene.

Assenti, a garganta seca. Eu via e queria não ter visto. Fala sério, cético virando crente na marra.

O ambiente estalou com eletricidade, denso com a presença de algo invisível mas inegavelmente poderoso.

“O que eles querem?” consegui perguntar, quase inaudível, sentindo os pelos da nuca se eriçarem.

Os olhos do Elijah continuavam fechados, as mãos unidas em súplica fervorosa. “Buscam o que todos os andarilhos desejam: salvação”, murmurou, as palavras pingando uma devoção perturbadora.

Engoli em seco, o peso da revelação me esmagando. Agora eu entendia, pelo menos um pedaço do quadro torto pintado pelos rituais bizarros e falas crípticas do meu colega de quarto. Mas que preço essa salvação ia cobrar, e quem, de fato, estava sendo salvo?

De repente, Elijah falou, arrancando-me dos pensamentos: “A porta tem que se abrir”, confessou, a voz como correntes de seda, prendendo mas suave. O desespero arranhou minhas entranhas, uma avalanche de pavor soterrando cada pensamento. Achei que ia botar o jantar pra fora.

“Não dá pra impedir?” implorei, procurando nos olhos fervorosos do meu colega de quarto um pingo de humanidade, um lampejo de redenção. Mas só vi devoção desconectada de qualquer noção moral.

Elijah balançou a cabeça, uma tristeza resignada piscando rápido antes de sumir. “Não cabe a nós parar”, respondeu, cada palavra um sino pesado. Lá fora, o vento uivava, ecoando o tumulto dentro da minha cabeça. Me sentia preso, um rato numa maquinação divina distorcida, além do meu controle ou compreensão.

“O que acontece quando a porta abrir?” sussurrei, temendo a resposta mas incapaz de fugir daquela dança macabra.

“Eles vêm”, Elijah respondeu, olhos distantes, vendo horrores que deviam ficar invisíveis.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Eu sei o que vi, e ninguém vai tirar isso de mim

Tinha acabado de sair da sexta série quando meu irmão mais velho, Jonathan, morreu. Acordei num dia de verão e encontrei meus pais na cozinha com os olhos vermelhos e inchados. Preparei um cereal e sentei. Antes que eu começasse a comer, minha mãe se aproximou.

— Querido, eu não sei como te dizer isso… o Jonathan morreu ontem à noite num acidente grave.

Na verdade, eu não lembro desse momento — é o que meus pais me contaram. Depois disso nunca mais fui o mesmo. Não conseguia me concentrar nos estudos e perdi todo interesse pelo futebol. No primeiro ano do ensino médio meu GPA caiu para 2,1 e, de alguma forma, me formei com 1,6. Acho que a escola forçava formaturas para manter o financiamento. Meses depois, com mais tempo livre, eu continuava igual: dormia o dia todo e só acordava por volta das 18h. Numa noite meus pais me chamaram.

— Escuta, a gente te ama, mas não podemos manter você aqui por muito mais tempo. Você tem que arrumar um lugar até conseguir um emprego e começar a ajudar.

Dias depois liguei para meus avós. Eles, sendo bondosos, me deixaram ficar até eu me reerguer. Comecei a mandar currículos pela cidade e, uma semana depois, uma lojinha familiar me chamou para uma entrevista. Três dias depois fui com uma calça social e uma camisa. O dono, Terry, andava devagar e me perguntou:

— Você é o Ryan? Para a entrevista?

Fui levado até o fundo da loja. O lugar cheirava a desinfetante e estava impecável. Terry perguntou sobre minha disponibilidade; eu disse que estava livre sempre. Ele explicou que precisava de alguém para o turno da madrugada, porque não achavam ninguém. Eu disse que podia e, sorrindo, ele apertou minha mão.

— Esteja aqui amanhã às 22h.

Ao sair, percebi que estava menos nervoso do que imaginava. Ainda tinha dificuldade de concentração e tontura de vez em quando, mas falava mais claro do que antes. Voltei para a casa dos meus avós. Ao entrar, ouvi barulho no meu quarto: minha avó parecia falar com alguém. Abri a porta e não havia ninguém. Associei aquilo a truques da minha cabeça — qualquer coisa para não encarar a verdade. Mal dormi, até pegar no sono e acordar apenas no início da tarde seguinte. Fui à cozinha fazer café e não encontrei meus avós. Havia um bilhete:

"Vovô e eu fomos visitar seus primos em Ixon. Voltamos na sexta."

O problema era que eles tinham saído antes do meu turno.

No primeiro dia de trabalho cheguei às 21h55 — meu pai dizia que "a tempo é tarde demais". No balcão encontrei Melinda, esposa do Terry. Perguntei do treinamento.

— Querido, só precisa passar as compras no caixa. Não há treinamento.

Quando fui ao fundo, vi Terry "ao telefone", falando com o ar. Achei estranho e perguntei. Ele me respondeu como se eu tivesse interrompido algo. Melinda comentou, meio en passant, que ele tinha um tipo de demência ou esquizofrenia não diagnosticada. Fiquei chocado, perguntei se nunca o tinham levado a um médico; ela deu de ombros. Ela me mostrou o básico e foi embora. Estava cansado, encostei no balcão.

Depois de meia hora, um zumbido no ouvido começou, fraco no começo e crescendo até quase me incomodar. Uma hora depois entrou um cliente; quando eu o atendi, ele disse que eu parecia estar fingindo limpar — que parecia que eu movia o ar. Olhei para o balcão: estava limpo, embora eu jurasse de ter tirado coisas dele segundos antes. Fiquei desconcertado. Então avistei, pela vitrine, uma figura do outro lado da rua, só observando. Era uma silhueta. Desviei e, quando olhei de novo, ela estava colada ao vidro. Travei de medo e a encarei por um tempo que pareceu uma eternidade.

Acordei em casa no dia seguinte com dor de cabeça e sem lembrar como fui parar ali. Liguei para o Terry. Ele me acusou de ter saído pela porta dos fundos às 2 da manhã, com o carro deixado no estacionamento — eu não lembrava de nada disso. De repente ouvi passos do lado de fora do meu quarto. Minha avó entrou, me mandou lavar e disse que eu tinha que trabalhar. Era 20h e eu ainda estava com o uniforme. Liguei para o Terry e disse que não iria; ele me sugeriu tirar a semana de folga. Deitei tentando esquecer tudo. Acordei no meio da noite em paralisia do sono e vi a silhueta do lado de fora da janela, me observando. Levantei suando, e no chão havia um abajur quebrado que não estava lá antes.

Duas semanas depois, descansando na casa dos meus avós, achei que estava melhor — só dores de cabeça esporádicas e objetos fora do lugar. Voltei ao trabalho porque precisava do dinheiro. Melinda me abraçou e perguntou se eu estava bem. Terry não veio naquele turno. Depois de um tempo ouvimos barulho na despensa; fui conferir, mas não havia sinal de ninguém. Fiquei apavorado e liguei o telefone da loja, deixando o 911 pronto. O zumbido voltou. Olhei a vitrine e vi a silhueta de novo, maior, vindo em minha direção. Ao me mover, derrubei prateleiras e tentei escapar pela porta dos fundos, mas ela estava trancada. Havia um bilhete de Melinda: "Tranquei por sua própria segurança. Espero que entenda." A porta da frente, contudo, estava aberta. Sem saída, vi uma sombra se materializar e parar mais à frente. Ela falou o meu nome numa voz que eu conhecia.

— Ryan.

Olhei. Era Jonathan.

A polícia me encontrou desacordado no fundo da loja minutos depois. Estou escrevendo isto caso minha memória falhe novamente: não sou louco e sei o que vi. Esta é a minha declaração oficial, para que não atribuam tudo a uma condição mental. Eu sei o que vi, e ninguém vai tirar isso de mim.

Assombração Desumana

Eu morei num lugar que preenchia os requisitos de uma cidadezinha de Wisconsin: pelo menos duas igrejas, três bares e um silo de grãos. Essa cidade era mais sorteada que a maioria — tinha uma fábrica de móveis da qual você provavelmente já ouviu falar e uma indústria de processamento de frango que você provavelmente não conhece — então havia onde trabalhar depois do ensino médio, se sua ambição não te levasse pra outro lugar. Se um jovem enjoasse naquela cidade pequena e não quisesse ir a um dos três bares, sempre tinha bastante natureza por perto.

Meu plano pro dia era empacotar um sanduíche e duas garrafas de Root Beer da A&W na mochila e procurar pontas de flecha num lugar que os locais chamavam de Barnes Bluff. Barnes Bluff era o ponto mais alto do vale e dizia a lenda que a tribo local Winnebago costumava posicionar vigias lá em cima pra observar a região. Era uma caminhada curta até Barnes Bluff; ficava a uma milha depois de onde a Barnes Road acabava e virava pasto de vacas. O penhasco ficava mais ou menos a uma milha além disso. Sem trilha. Sem placas. Não havia outra estrada nem caminho pra Barnes Bluff. Soube que tava chegando quando passei pelo que um dia fora a cabana de um colonizador. A casa tinha desabado sobre si mesma décadas atrás, sobrando só a sombra das madeiras podres e das plantas invasoras. Mas o poço ainda estava lá.

O poço fora coberto por tábuas de madeira, a maior parte já apodrecida há muito tempo, sobrando só pedaços nas bordas. Tinha uns cinco pés de diâmetro, fundo e escuro. Olhar pra dentro era inquietante; as paredes eram revestidas de pedra e, ao olhar pra baixo, escurecia quase imediatamente, de modo que o fundo não era visível. Joguei uma pedra e, depois de um segundo, ouvi ela bater na água lá embaixo com um ker-thump profundo que ecoou enquanto o som subia de volta. Um frio subiu do poço — não um frescor agradável como o do ar-condicionado num dia quente, mas o frio que entra na casa quando o aquecedor pifa à noite no inverno e você ainda tem que tomar banho de manhã.

Eu estava perdido em pensamentos, imaginando quando a casa fora construída e como devia ser a área naquela época, quando um grande sapo marron me assustou ao pular debaixo de uma das tábuas podres do outro lado do poço. Ele me observou por um segundo, inclinou a cabeça e pareceu coçar o céu da boca com uma das patinhas. Depois deu um pulo pequeno pra ficar me encarando direto, a cerca de uma polegada da beirada do poço.

Ficamos nos encarando por uns sessenta segundos e, claro, me deu vontade de pegá-lo. Deixei a mochila no chão e dei a volta pra ir por trás, mas enquanto eu fazia isso ele deu outro pulo pequeno pra me encarar novamente. Beleza, pensei, esse bicho não parece querer ir a lugar nenhum, então com os olhos no sapo me adiantei um pouco mais rápido pra agarrá-lo. Só que, com a atenção nele, não reparei numa pedra solta mal presa em concreto esfarelando. Pisei nela e a pedra imediatamente descolou e caiu no poço. Achei que conseguiria pôr meu peso no chão firme, mas não rolou — então, com um resignado "ope", caí na escuridão fria do poço.

Depois de cair por um tempo que pareceu absurdo, a água me tirou o ar dos pulmões. Afundei, depois voltei à tona, ofegante e piscando. O céu era agora só um círculo pálido, do tamanho de uma bola de softball e mais distante do que eu achava que devia estar. Não havia chão sob meus pés. As paredes ao redor eram lisas, escorregadias, sem nada pra me apoiar. E assim, eu fiquei preso no poço, e ninguém sabia que eu estava ali.

Isso é ruim, ninguém sabe que eu tô aqui. Ninguém vem aqui. Como alguém saberia procurar por mim neste lugar? A primeira coisa que notei foi como minha respiração soava alta e ecoava. E como gritar era inútil. O som não ia a lugar nenhum. Fiquei boiando por um tempo que pareceu horas, chutando devagar pra me manter à tona, os braços raspando nas paredes arredondadas sempre que chegava perto demais. A ponta dos dedos apalpava a pedra, mas não achava apoio. As paredes tinham sido moldadas à mão há muito tempo, assentadas com cuidado, e agora estavam polidas pela água, pela lama e pelo tempo.

Meus olhos se acostumaram à pouca luz. Os pés procuravam algo pra firmar, mas não havia nada, só o frio das pedras escorregadias e a água. Olhei pra cima quando uma nuvem passou na frente do sol e o poço ficou visivelmente mais escuro e mais frio. Quando o céu abriu novamente e a luz voltou, notei algo que tinha deixado passar: havia arranhões nas paredes. Por toda parte e tão alto quanto eu alcançava, arranhões. Isso era um mau sinal — eu não seria o primeiro a cair ali? Seria o segundo? Um entre muitos? Quantos corpos estavam debaixo de mim naquele momento? Eu já estava com frio, mas tremei só de pensar nisso.

O tempo passou. Eu não consigo te dizer quanto. A água grudava na roupa e sugava o calor do meu corpo. Virei de costas pra boiar, cruzei os braços e fechei os olhos. Então senti algo tocar minha perna. Não era alga nem galho. Era mais lento, mais intencional. Esfregou o lado de fora da minha coxa e se afastou. Congelei. Um momento depois, uma bolha veio à superfície. Outra. O cheiro de metano bateu no ar. Era só gás de pântano subindo lá debaixo. Era só isso. Dei uma risadinha trêmula, fina e oca. Mais bolhas subiram, fazendo pequeninas ondulações quando estouravam — irritantes talvez, mas não perigosas.

Com o tempo as bolhas ficaram mais difíceis de ver, enquanto nuvens cobriam o sol e a abertura do poço parecia do tamanho de uma bola de baseball agora, estranho. Parecia uma incoerência menor perto do aprieto em que eu me encontrava. Então aconteceu: vi um redemoinho na água que não era seguido por bolhas estourando. A água era preta, eu não conseguia ver o que havia abaixo da superfície, mas algo se mexeu por baixo — não bolhas, algo como a cauda de um peixe grande. Observei com os olhos arregalados, pressionando meu corpo contra o lado oposto do poço, e então senti algo que eu não podia ver, algo frio e sólido que bateu no meu pé.

O medo do que eu não podia ver tocando-me por baixo e o medo de me afogar ou de ser puxado para o escuro frio foram demais; virei no ar e tentei arranhar a parede, não conseguia segurar nada nas superfícies lisas, o que só aumentou a frenética ânsia das minhas mãos tentando agarrar algo, qualquer coisa, sem que meu cérebro sequer pedisse. Então a água atrás de mim subiu um pouco, como se algo empurrasse de baixo. Ouvi um barulho. Um sopro. Não era meu. A água bateu nas paredes. E então eu vi: subindo devagar do centro do poço.

Primeiro apareceu o topo da cabeça, longos fios de cabelo negro grudados num couro cabeludo acinzentado. Depois um rosto, ou o que um dia fora um rosto. A pele estava encolhida, frouxa sobre os ossos. A boca pendia aberta, cheia d’água e sem nada que pudesse ser chamado de língua. Os olhos eram o pior. Brilhavam em vermelho, não forte, mas constante, e mostravam uma inteligência mortal por trás deles. Ao redor do pescoço pendia um colar de garras de urso. Amarrada à garganta, uma bolsinha preta, encharcada, caindo e gordurosa — um indício do que havia dentro. A pele dos braços parecia couro velho, as mãos torcidas em garras que se esticavam devagar na minha direção, provocando, como se soubessem que eu não tinha pra onde correr.

Eu não conseguia processar o que acontecia, não naquele pasto comum, cercado por aquelas árvores normais, naquela colina parecida com milhares de outras. Meu cérebro começou a falhar e minha garganta soltou um som que a linguagem não comportava — o terror primal da presa pega, vulnerável, numa armadilha sem saída. Senti um zumbido nos ouvidos e notei que estava escurecendo, e então ouvi lá de cima: “Ei, tudo bem aí embaixo?” A normalidade daquela pergunta, comparada ao que eu via bem ao meu lado, me deixou zonzo. Olhei pra cima e vi um homem com uns cinquenta e poucos anos olhando pra dentro do poço: camisa xadrez, jardineira, um boné verde da John Deere e óculos grossos, curioso e preocupado. “Você me escuta? Tá bem?” ele perguntou de novo. Onde houvera o horror agora só havia uma ressaca d’água; eu ainda sentia aquilo, mas nada mais — eu estava sozinho.

Aquele homem, Haines era o nome dele, um sujeito do povo, trabalhador e bom, estava passando com o gado pela região, viu minha mochila junto ao poço e foi ver do que se tratava. Ele me tirou de lá e me levou pro hospital quando percebeu que eu não conseguia falar. Disse que eu tive sorte porque estava nublando, e ele não queria mover a manada na tempestade, então resolveu adiantar o serviço.

Anos depois, eu estava de passagem pela região em uma viagem de negócios no começo dos anos 2000 e vi um evento cultural Ho-Chunk (o nome mais apropriado pros Winnebago), então fui. O evento rolava no pátio da feira, com música e dança, vendedores locais e um estande com o selo da Nação Ho-Chunk. Fiquei um tempo parado lá no fundo, até que um homem notou que eu estava olhando e acenou pra eu me aproximar. Parecia ter uns sessenta anos. Rosto vincado. Olhos que mediam as coisas antes de falar. Contei a história. Ele ouviu com atenção. Quando terminei, não sorriu nem riu. Só perguntou: “Onde ficava o poço?” Descrevi. Ele assentiu. “Não temos histórias assim. Isso não é nosso.” Eu pisquei. “Mas os Ho-Chunk estiveram lá, certo?” “Estivemos. E antes de nós, outros. Os construtores de montes, os povos Mississipianos. Antes deles, não sabemos. Talvez alguém mais.” Ele olhou por cima do meu ombro, para a linha de árvores distante. “Essa terra é mais velha que a memória. Mais velha que nós.” Então ele se inclinou. “Alguns lugares não são assombrados pelos nossos mortos. Alguns são ocupados por algo mais antigo.”

Soube que o Haines morreu de AVC alguns anos atrás, mas que colocou uma tampa de metal no poço pra evitar mais acidentes. Mas o poço ainda está lá, intacto, ao lado de uma cidadezinha com duas grandes fábricas, no pé da colina mais alta da área. Estou escrevendo tudo isso porque, há duas noites, eu estava sentado no meu pátio e notei uma mancha sem forma no tijolo ao lado do meu pé. Quando me inclinei pra ver o que era, vi que era um sapo grande e, enquanto eu o encarava, ele deu uma espécie de meio pulo pra me encarar diretamente. Usou a patinha pra coçar o céu da boca, que estava escancarada. Não sei o que fazer — não tenho dormido desde então.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Sempre tive medo do oceano. Agora eu sei por quê...

Sempre tive medo do oceano.

Não é algo que me paralise — consegui ignorar isso durante a maior parte da minha vida. Às vezes o assunto aparece quando falam de fobias, ou quando um amigo ou um namorado sugere ir à praia. Tive sorte de crescer num condado sem litoral, longe da costa.

Não é como a experiência de um aracnofóbico diante de um monstro de muitas pernas, congelado e suando de pavor. É mais uma proximidade com o mar que provoca um tipo de... inquietação. Uma sensação de que alguma coisa está errada, enraizada logo abaixo das minhas costelas como um buraco. Isso me deixa um pouco nervoso. Em alerta. Aproximar-se da arrebentação me enche de um pressentimento pesado, como se entrar na água fosse o meu fim.

Envolvendo isso há também a menor sensação de que falta algo. Que entrar na água, deixar as ondas me envolverem e me arrastarem para baixo com mãos verdes, é a única forma de eu realmente me sentir inteiro. A combinação dessas sensações causou muita confusão na minha vida — a contradição de tudo aquilo.

Meus pais aceitavam em silêncio meu comportamento estranho perto do mar quando eu era criança. Nunca tivemos muito dinheiro, e férias na praia não eram algo rotineiro. Talvez dois dias na costa durante o verão: meus irmãos felizes na água e na areia, correndo como caranguejinhos, enquanto eu ficava com minha mãe.

Foi numa dessas férias, quando eu tinha quinze anos, que ela me deu o primeiro aviso.

“Você sente isso, não sente?”

Ela me perguntou com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Algo entre tristeza e medo. Não era o tipo de expressão que se quer ver na mãe, e isso me preocupou.

“O quê?”

“Você consegue ouvir o mar falando com você.”

Olhei para o oceano. A cabeça escura e arredondada de uma foca aparecia à distância, gaivotas mergulhando sobre ela.

Ela também olhava, mas o olhar estava voltado para meu pai e meus irmãos, brincando na água rasa. “Minha irmã também sentia. Por isso eu sei. Você fica com o mesmo olhar perto da água que ela tinha.” Ela virou para mim, pegou meus ombros nas mãos e me virou de frente para ela. “Faça o que fizer, não vá para a água. Eu não posso perder mais ninguém.”

Naquela época fiquei confuso e um pouco irritado por ela não explicar melhor. Acabei esquecendo. Deixei aquilo se apagar, como as memórias de infância costumam desaparecer.

Nunca conheci minha tia — ela morreu antes de eu nascer. Depois de eu ter contado a conversa com minha mãe, você pode esperar que ela tenha se afogado — porém, ela simplesmente adoeceu. Nunca me contaram qual doença exatamente, mas sei que ela definhou devagar, apagando-se até a morte.

Acho que a perda da irmã mais velha mudou minha mãe profundamente. Meu pai nos contou histórias de como ela era quando se conheceram: feliz, vibrante, cheia de vida. Quando eu, o terceiro filho, nasci, ela era pouco mais que uma casca de mãe. Agia como mãe — nos consolava, nos alimentava, nos ensinava o que precisávamos para viver — mas se você observasse de verdade dava para ver que não havia nada ali. Olhos vazios por trás de um sorriso brilhante. Quando eu era mais novo, sem ter conhecido a perda, eu não entendia. Hoje sinto certa compaixão por ela.

Esse vazio foi afastando meus irmãos. Na época da morte dela, alguns anos depois da morte do meu pai, eu já era quem morava com ela para cuidar dela. Coube a mim lidar com a casa e com os assuntos dela.

Perder um dos pais é uma coisa estranha. Nunca dá para estar preparado. E quando tudo o que você quer é chorar, vem junto um monte de responsabilidades terríveis que passam a pesar nos seus ombros. Dar a notícia; organizar um funeral; lidar com décadas de coisas acumuladas, uma vida bem vivida reduzida a caixas de livros, brinquedos de infância, roupas e papéis soltos. Joias, enfeites, centenas de coisinhas cujo valor sentimental eu jamais poderei conhecer — coisas que significavam o mundo para ela, agora empilhadas para vender, jogar fora ou repassar. Há uma insensibilidade nisso, vasculhar as coisas da vida dela procurando valor. Algo tão inerentemente emocional reduzido a método.

Como em quase todas as casas, o sótão estava cheio de caixas empoeiradas. Uma delas, quando eu a puxei, tinha o nome da minha tia escrito. A primeira prova física da existência dela que eu via. A caixa era pesada e desajeitada, escorregando das minhas mãos; o papelão deformado pelo tempo e coberto por uma camada espessa e pegajosa de pó.

Do que caiu da caixa parecia ser um casaco de pele. Era escorregadio, quase como seda. Quente ao toque e muito mais fino que qualquer pele que eu já tinha visto. O padrão me era estranho: um cinza manchado com reflexos prateados espalhados como líquens num galho morto. O casaco fedia a sal antigo e algas, como uma piscina de maré num dia quente.

Com alguma apreensão percebi que devia ser pele de foca.

Nunca tinha visto um casaco de pele de foca antes. Por um instante pensei se a posse disso seria sequer legal. Por que minha mãe guardou aquilo? De todas as coisas, por que justamente esse casaco? Ela devia ter passado pelo próprio processo — a sua metodologia — quando a irmã querida morreu. E, de tudo, escolheu manter esse casaco. E não só manter, mas trancá-lo. O pó estava intacto, claramente sem mexidas por décadas. Aquele casaco não tinha sido usado; não tinha sido exibido; nem cuidado, pelo visto. Como se ela não tivesse realmente desejado ficar com aquilo, mas não conseguisse se livrar.

Enquanto passava a pele entre os dedos, um pedaço de papel de carta caiu das dobras. Reconhecendo a caligrafia limpa e afiada da minha mãe, peguei-o.

Querida Maude,

O nome da minha tia. Será que essa carta foi escrita antes ou depois da morte dela? Continuei lendo.

Sinto muito. Sinto tanto. Tive tanto medo de te perder que fiz algo terrível, imperdoável, horrível. Você nunca deveria ter me contado seu segredo. Você deveria saber que eu não acreditaria. Sinto muito por ter mandado você internar involuntariamente. Sinto que não a prenderam por mais tempo. Sinto muito por ter roubado seu casaco. Se eu não tivesse, talvez você ainda estivesse aqui.

Como eu poderia saber? Quem poderia saber? Quem acreditaria em você? Eu agi como qualquer pessoa sã faria, Maude. Por que você não guardou isso pra si?

Achei que você estivesse em abstinência. Eu não podia saber que isso te mataria. Água salgada corria nas suas veias, Maude, e eu não acreditei em você quando disse.

Eu ia te perder de qualquer jeito. Ou para isso, ou para a atração do oceano infinito. Lamento minha mão nisso, mas acredito que foi o melhor. Talvez eu nunca seja perdoada aos olhos de Deus, nem aos meus. Mas fiz o que fiz pelo bem dos meus filhos. E se eles fossem como você? E se você os transformasse como transformou a si mesma? Não posso deixar que aconteça. Nenhuma criança minha será marcada como você foi. Nenhuma criança minha será uma criatura tão amaldiçoada.

Sei que você dizia que era uma bênção. Mas isso é algo antinatural. Quem era você para mudar as leis do mundo? A ordem das coisas? Mudar de forma como você fazia não é nada menos do que obra do diabo. Eu tentei consertar você, de verdade tentei. E quando não consegui, tentei fazer com que os profissionais consertassem. Mas você estava em pleno juízo, não estava? Isso só piora. Você sabia exatamente o que fazia e o quão errado era. Mas você virou as costas para tudo o que é certo, santo e verdadeiro e colocou toda sua fé naquele casaco.

Espero que você esteja mais feliz onde estiver. Espero que esteja mais saudável. Espero que tenha sido perdoada pelo que fez, assim como rezo para ser perdoada quando chegar a minha vez.

Com todo o meu amor, sempre.

O papel caiu das minhas mãos.

Era uma loucura, claro. Os devaneios de uma mulher dilacerada pelo luto. Será que minha mãe realmente acreditou que matara a irmã ao tirar aquele casaco? Aquilo era absurdo.

Mas, quando olhei de novo para o casaco, ele parecia brilhar na luz fraca. Apesar da caixa em que estava, estava impecável, tão limpo e novo como se tivesse acabado de surgir.

A conversa que eu tivera com minha mãe naquela praia tantos anos antes voltou à mente.

“Minha irmã também sentia.”

O casaco parecia do meu tamanho. A vontade esmagadora de vesti-lo me derrubou como uma onda numa praia sem resistência. Mas eu sentia nos ossos que aquele não era o lugar para tal coisa.

Dirigi três horas até o oceano. A viagem é uma névoa para mim; as estradas vazias naquela hora da noite. Descalço na areia, enrolei o casaco sobre os ombros.

Quando acordei de novo, era manhã. Lembrei pouco da noite anterior, mas meu cabelo estava empapado de sal, e meu coração leve com uma sensação de liberdade. Trechos de memória dançavam na minha cabeça — nadando na água clara, mais longamente e mais rápido do que qualquer humano poderia. Rolando e brincando com as focas, que me aceitavam como um dos seus. Sentindo-me mais em casa do que jamais me sentira.

Entendo agora por que minha mãe tinha tanto medo de perder a irmã, e de ver os filhos seguirem o mesmo caminho, caso descobrissem sobre isso.

Agora que senti essa liberdade, não sei se consigo voltar.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon