sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

De onde caralhos tá vindo esse sangue?

Sou lurker antigo aqui e resolvi contar uma parada que rolou com meus pais há uns 30 anos. Eu sou viciado em história paranormal, adoro quebrar a cabeça tentando achar explicação lógica, mas essa aqui sempre me deixou de cara, deixou meus pais (os dois céticos pra cacete) e qualquer pessoa que eles contaram também. Então queria saber se alguém já passou por algo parecido ou tem uma explicação minimamente razoável.

Em 1995 meus pais moraram em Bangalore, na Índia, por quase um ano porque meu pai pegou um trampo temporário lá. Como era só um contrato curto, quando a empresa ofereceu um duplex pra alugar eles toparam na hora. Veio com as regalias típicas da classe média alta indiana: duas empregadas que corriam atrás de limpeza, mercado e quase toda a comida. Vida mansa pra um casal recém-casado e sem filho, praticamente tudo resolvido pra eles.

Na época minha mãe não trabalhava, ficava em casa enquanto meu pai ia pro batente. No mesmo andar tinha outro apartamento com uma véia morando sozinha. Minha mãe cumprimentava educada, mas a mulher sempre olhava torto e deixava ela desconfortável. Na terceira ou quarta vez que se falaram, a véia perguntou:  

“Tá tudo bem morar nesse apartamento?”  
Minha mãe deve ter feito que sim com a cabeça, aí a mulher insistiu:  

“Você não sente nada não?”  

Minha mãe ficou bolada com a pergunta, mas a véia não explicou porra nenhuma. Depois disso, toda vez que se cruzava no corredor a velha mandava: “Não fica sozinha aí não, filha.” Minha mãe achou que era só paranoia de idoso mesmo.

Numa manhã normal, solzão e fresquinho, umas 8h. Uma das empregadas tinha acabado de passar pano no chão, minha mãe e minha avó paterna (que tava de visita rápida) tavam na cozinha, meu pai tava na sala numa das poltronas lendo jornal. O esquema era duas poltronas com uma mesinha no meio onde ficava o telefone fixo, e uma sacada grande com porta de correr do lado esquerdo de quem tá sentado.

O telefone toca. Minha mãe atende, era um parente ligando pra avisar que minha bisavó materna tinha batido as botas – tinha mais de 90 anos, morte natural. Minha mãe era muito apegada pra caralho com a avó, ficou super abalada. Passou o telefone pro meu pai falar também. Quando ele estica o braço pra pegar, cai uma baita gota de um troço que parecia sangue no chão. Depois uma menor, depois outra, outra, até parar perto da porta de correr, sem acertar o pé dele. Eles descrevem como aquele sangue vermelho vivo de quem corta o pulso.

Depois que desligaram, os dois se olharam totalmente perdidos. A empregada tinha acabado de limpar, ninguém tava cortado, teto sem infiltração… então que porra foi aquela? Mesmo sendo céticos, não acharam explicação nenhuma. A empregada, que ainda tava ali, se recusou a chegar perto, então o negócio ficou lá. Com o tempo o “sangue” secou, virou um pozinho marrom. A vida seguiu, minha mãe ficou meio bolada e começou a seguir o conselho da véia: passava as tardes numa biblioteca ali perto. Meu pai encontrava com ela na volta do trabalho e eles voltavam juntos.

Meses depois, o incidente já tava quase esquecido. Era a última noite deles naquela casa – no dia seguinte pegavam voo cedinho e davam adeus pra Bangalore pra sempre. Tavam no quarto arrumando mala, minha mãe deixou alguma coisa cair no chão, abaixou pra pegar e… replay do caralho. Mesma coisa: uma gotona + várias menores, passando do lado da mão dela sem acertando o chão. Dessa vez os dois piraram de vez, chegaram a pensar em ir pra hotel passar as poucas horas que faltavam. Saíram de Bangalore sem explicação nenhuma.

O próximo casal jovem que ia morar lá era amigo deles, mesmo trampo na empresa. Eram ainda mais céticos, deram risada das histórias dos meus pais e se mudaram de boa. Numa madrugada, a mulher acordou com sede, desceu pra pegar água. Quando tava subindo a escada, começou a mesma merda: a cada degrau que ela subia, caía uma gota de sangue do lado do pé dela. Ela levou um susto do caralho, teve uma crise epilética e caiu escada abaixo. O barulho acordou o marido, que veio correndo e levou ela pra cama. Ela ficou bem depois.

De manhã o marido tava convencido que era pegadinha. Raspou o sangue seco com um pedaço de papelão duro, botou num vidrinho e ia levar pro laboratório no caminho pro trabalho. Saiu do prédio, chamou um auto-rickshaw (aquele triciclo motorizado, tuktuk), entrou. No segundo que ele sentou, o motorista perdeu o controle do nada, o auto rodopiou 360°, jogou ele e a pasta do trabalho pra fora. Motorista saiu ileso, o cara quebrou o braço e o vidrinho sumiu do bolso fundo da pasta fechada.

Tem mais umas coisinhas menores que rolaram nesse apê, mas já tá gigantesco, então paro por aqui. Por fim: o apartamento ainda existe, a gente já passou na frente várias vezes quando vai pra Bangalore.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tem uma coisa no meu quarto enquanto eu durmo…

Duas coisas eu sei com certeza. A primeira é que ela tá lá. A segunda é que ela tá se matando pra eu não perceber que ela tá lá.

É silenciosa, isso que eu quero dizer. Silenciosa pra caralho. Tão silenciosa que eu fico me questionando o tempo todo à noite. De dia também, até agora que eu tô escrevendo isso. Mas eu tenho certeza absoluta que tem alguma coisa. São coisinhas pequenas, só que frequentes. Constantes. Algo arranhando o assoalho de madeira. O lençol lá na ponta da cama, aquele pedaço que fica pendurado pra fora, deslizando quando alguma coisa passa por baixo. Eu deixo roupa na cadeira da escrivaninha o tempo todo, também escuto elas se mexendo.

Parece exatamente o barulhinho que minha gata fazia antigamente, quando eu tinha bicho. Aquela movimentação de um bicho pequeno e noturno andando pela casa no meio da madrugada. Sabendo que você tá ali. Só que eu não tenho gato há anos, e nunca tive nesse apê.

Moro com três colegas numa casa estranha pra cacete. Não estranha de assustadora, mas é uma casa antiga que virou apartamento colocando parede em lugar doido, então eu tenho um closet que fica embaixo da escada do apê do lado. O teto do closet é inclinado e vai longe pra dentro quando você entra. Quando a gente se mudou, encheu aquilo de caixa e traste que ainda não tinha lugar, e nunca desempacotamos direito, então virou um labirinto bem ali no meu quarto.

Tenho quase certeza que é pra lá que ela vai de dia. Não fui muito fundo porque, pra ser sincero, tô com medo de encontrar.

Você deve tá pensando: “porra, então dorme no sofá ou se muda logo”. A noite passada foi a primeira vez que eu tive certeza absoluta que era real. Como eu disse, ficava sempre na linha do “pode ser nada”, então eu ignorava. É a casa assentando. Aquecimento de inverno fazendo madeira dilatar. Sabe quando você joga um moletom no encosto da cadeira e demora uma hora pra cair no chão fazendo barulho, mesmo ninguém encostando? Eu ficava botando na conta disso. Sempre tinha uma explicação plausível. Talvez seja assim que ela se safe.

A desconfiança já vinha crescendo faz tempo. Ontem à noite me deixou 100%. Ultimamente eu tava demorando mais pra pegar no sono. Costumo dormir com vídeo rolando, white noise, essas coisas. Ontem meu celular morreu, o carregador tava do outro lado do quarto, era 1h da manhã e eu tava com preguiça de levantar. Então fiquei lá deitado no escuro, olho fechado, tentando forçar o sono. Não conseguia dormir, mas acho que passou tempo suficiente pra ela achar que eu tava apagado.

Comecei a ouvir de novo. Bem fraquinho. Sabe quando você tem que se concentrar pra ouvir, senão perde? Batidinhas vindo da porta aberta do closet. Passos mais abafados quando chegava no tapete. Roçou no cobertor que tava pendurado na beira da cama, eu senti ali do lado.

Aí eu ouvi a respiração e fodeu. É baixo, rente ao chão, por isso que eu pensei em bicho antes. Vai ver é rato, roedor, explicação normal. Só que essa respiração parecia humana. Meio aguda, chiada. Dava pra ouvir que a boca tava aberta.

Abri o olho sem querer. Talvez meu corpo tenha ficado tenso. A respiração parou na hora. Como se ela tivesse percebido. Por algum motivo meu instinto foi fechar o olho de novo e fingir que tava dormindo. Sabe quando você era criança, ficava acordado até tarde e ouvia seus pais vindo pelo corredor? Você sabia que tinha que fingir um segundo antes deles abrirem a porta? Foi exatamente essa sensação, só que gelada dos pés à cabeça.

Ouvi ela andando de novo, tão leve, tão cuidadosa. Sentia ela chegando cada vez mais perto do meu rosto. Mesmo de olho fechado eu sentia a presença, o calor do corpo ou alguma merda assim. Eu sabia que se abrisse o olho ia dar de cara com ela. Uma parte de mim até queria, só pra saber o que era, mas eu não consegui.

O pior foi que ela simplesmente ficou ali. Perto pra caralho. Parada, respirando baixinho. Não fez nada, não me tocou, não foi pra outro lugar, ficou ali horas. Horas mesmo. Não preguei o olho a noite inteira. Em algum momento senti ela indo embora e minutos depois senti a luz do sol batendo na minha pálpebra. Já tava amanhecendo. 7h da manhã.

Isso foi hoje de manhã. Já tá quase escurecendo de novo. Não sei o que eu vou fazer. Não consigo dormir aqui essa noite. Mas também não quero deixar essa coisa sozinha com as pessoas que moram comigo, e eu sei que vou parecer completamente louco se tentar explicar o que rolou. Mas eu sei o que eu sei.

Eu sei que ela tá aí.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A Emma não é a Emma

Eu e minha namorada fomos passar um final de semana fora, mas não era ela que tava naquela cabana comigo.

Tudo começou quando a gente decidiu marcar essa escapadinha. A gente falava nisso fazia tempo e, com o trampo dos dois ficando uma merda e a vida em geral pesando, pegamos uma grana que tínhamos guardado e alugamos uma cabana no Lake District por um feriadão: sexta até segunda.

No dia antes de viajar, reparei que a Emma não tava bem. Ela disse que não era nada físico, só uma sensação estranha. Pelo jeito que ela descreveu, pra mim parecia nervosismo misturado com pavor. Ofereci pra adiar ou até cancelar tudo, mas ela bateu o pé que a gente ia mesmo. Beleza, partiu.

Chegamos na cabaninha por volta das cinco da tarde. Logo de cara já senti uma mudança na Emma: quanto mais a gente se aproximava, menos ela falava. Quando entramos, ela nem comentou nada sobre o lugar. A casa mais próxima ficava a pelo menos um quilômetro e meio do outro lado do lago, bem do jeito que eu planejei pra ela, porque no trabalho dela ela lida com um monte de idiota e eu achei que ficar totalmente isolada ia fazer bem. Mas nem um “nossa, que lindo” saiu da boca dela.

Conforme a noite foi caindo, fizemos janta. Tentei puxar papo, mas ela tava monossilábica. Achei que era cansaço da viagem e aquele mal-estar que ela tava sentindo. Coloquei os pratos na sala pra gente comer na frente da lareira. Quando botei os pratos na mesinha, percebi que ela não tava mais atrás de mim. Um segundo antes ela tava ali, carregando as bebidas. Olhei pro corredor que levava pra cozinha: escuridão total. Cadê ela?

“Amor?” chamei, esperando um “esqueci o celular na cozinha” ou qualquer coisa normal. Nada. Só o silêncio sinistro e o estalo da lenha queimando.

Não era o fim do mundo, sentei e comecei a procurar um filme pra gente ver enquanto comia. Passaram uns cinco minutos, zero barulho na casa inteira. Chamei de novo: nada. Fiquei prestando atenção em porta fechando, descarga, qualquer coisa. Até que ouvi um rangido lento e calculado bem atrás do sofá onde eu tava sentado. Impossível ela ter chegado ali sem passar do meu lado direito, que era o corredor da cozinha, ou sem eu ver ela indo pro quarto, que ficava exatamente atrás de mim.

Desliguei a TV na hora pra ouvir melhor. E gelei. No reflexo da tela preta eu vi minha namorada: cabelo pingando, roupa rasgada e encharcada, sorrindo feito psicopata a menos de 30 cm das minhas costas. Pulei do sofá e me virei: ninguém. Nem poça no chão, nada. Mas os rangidos continuavam, como se ela ainda estivesse ali, só que eu não conseguia ver.

Fiquei encarando o corredor do quarto sem piscar, esperando outro rangido pra localizar o que quer que fosse aquilo.

“Ei amor, tá tudo bem?” uma voz veio do meu lado esquerdo. Eu dei um grito e quase derrubei a comida toda.

“Porra, que susto! Parece que você viu um fantasma”, ela falou rindo de leve.

“Que porra, de onde você saiu?”

“Tive que fazer xixi, posso?” respondeu sarcástica.

Tentei controlar a respiração e sentei do lado dela, que agora tava preocupada de verdade.

“O que aconteceu?”

“Achei que vi… alguém no reflexo da TV.”

“Tem certeza? Não era o cabideiro do lado da porta? Quantas taças de vinho você já tomou mesmo?”

Fiquei na dúvida, mas concordei. Vai ver minha cabeça tava zuando comigo porque eu já tava meio tenso. Só queria esquecer essa parada estranha. Assistimos TV, mas eu não conseguia parar de sentir que tava sendo observado. De vez em quando ouvia um pingo bem fraquinho, tipo água caindo no chão de madeira logo atrás de mim.

Na hora de dormir eu ainda tava meio cagado. Quis falar sobre aquilo, mas como que eu ia dizer “ei amor, por que você apareceu feita uma doida no reflexo da TV e depois teleportou?”. Sempre acreditei pra caralho em fantasma e coisa do tipo, a Emma não. Não queria virar piada, porque realmente parecia loucura.

A noite foi tranquila, uns barulhinhos na casa escura que dava pra explicar, nada demais. Talvez eu não tivesse visto mesmo o que achei que vi e a cabana não fosse mal-assombrada pra cacete. Com esse pensamento fechei os olhos e dormi.

Sonhei pesado com o lago: eu e a Emma fazendo piquenique na beira, sol brilhando, passarinho cantando, cena perfeita. A gente levantou e correu pra margem. Olhei pra baixo, ri das ondulações que deixavam a gente parecendo estranho na água.

A água acalmou. Foquei no reflexo da Emma. Ela tava com um sorriso assustadoramente largo, e a cabeça girou pra me encarar enquanto o corpo continuava de frente. Levantei o olhar rápido pra cara dela de verdade: tava tranquila, olhando o horizonte. O oposto total do que eu tinha acabado de ver no reflexo. Acordei na hora, olhei pro lado: ela dormindo, roncando do mesmo jeitinho de sempre. Soltei o ar e tentei voltar a dormir, torcendo pra sonhar menos fudido dessa vez.

No dia seguinte parecia que nada tinha acontecido. Caminhamos, rimos, curtimos pra caralho. Teve umas duas vezes que peguei ela olhando pro nada, sussurrando coisas, mas quando eu falava com ela ou quando percebia que eu tava olhando, voltava ao normal. À noite, porém, não sei pra onde minha namorada foi nem o que tava no lugar dela.

Cozinhamos, jantamos, vimos TV, tomamos banho, fomos pra cama. Tudo normal… até a hora de dormir. Ela já tava de lado, começando aqueles roncos leves. Mas eu não conseguia me sentir seguro. Uma intuição fudida gritando que eu não devia dormir, que não era seguro. Sei lá o que me deu, resolvi descer pra sala e ler uma hora mais ou menos, no escuro, sozinho. Nem eu me acho tão esperto assim, mas foi o que eu fiz.

Nem vi o tempo passar: já tava na poltrona marrom grandona, de costas pra parede da TV, encarando o corredor do quarto, com o corredor da cozinha do lado esquerdo. O livro tampava quase toda a minha visão periférica. Devia ter uns 15 minutos que eu tava lendo quando ouvi um “Ei” seco e rápido no meu ouvido esquerdo.

Bati o livro na mesa e virei pra todos os lados. Tinha uma luminária fraquinha do lado, a luz não chegava no fundo dos corredores, mas não importava: a voz veio a centímetros do meu ouvido. Fiquei meio tenso, mas ignorei. Vai ver era tipo quando você tá de fone e acha que alguém te chamou. Voltei a ler.

Quinze minutos depois: outro “Ei” seco, agora no ouvido direito. Reagi rápido, olhei tudo. Juro que vi um vulto sumindo no corredor. Sussurrei o nome da Emma caso fosse ela, sem resposta. Esperei mais um pouco e decidi subir pra dormir. Quando tava dobrando o cobertor, veio um “EI!” mais alto e puto. Dessa vez não tinha como ser imaginação: era voz real, senti até o hálito gelado e podre na minha pele.

Virei esperando ver alguém, um ladrão, ou a Emma fazendo pegadinha (o que seria muito fora do normal dela). Nada. Espaço vazio e mal iluminado. Apertei o passo pro quarto, pelo menos lá eu não ficava sozinho. Quase chegando, olhei pra trás, devia ter deixado quieto.

Vi um vulto se escondendo rápido atrás da cortina. Não deu pra não ver o cabelo castanho avermelhado comprido que ficou pra fora. Quase ri de nervoso: era a Emma, óbvio, tentando me assustar pra se vingar daquela vez que eu pulei nela. Fui abrir a porta do quarto pra fingir que entrei e pegar ela desprevenida atrás da cortina, mas antes que eu conseguisse, vi pelo canto do olho.

Minha namorada dormindo exatamente na mesma posição e ritmo de antes.

O mundo parou. O que caralhos tava atrás daquela cortina?

Entrei no quarto, tranquei a porta e tentei bolar um plano. Acordei a Emma, expliquei o que vi. Ela apontou pro taco de beisebol do lado da porta e fomos conferir. Claro, não tinha porra nenhuma. De novo me convenceram que eu vejo filme de terror demais.

Ela tava morta de sono e não acreditou em nada, voltamos pra cama. Consegui dormir eventualmente, com um braço pra fora da cama segurando firme o taco.

O sono daquela noite foi uma bosta: pesadelo atrás de pesadelo, tudo muito louco e sem sentido, menos um. No sonho eu acordava, Emma não tava do meu lado. Calçava o chinelo e saía procurando. Ouvi arranhões na parede, segui o barulho e achei a Emma, ou o que tentava ser ela, agachada no canto, estalando o corpo inteiro enquanto se contorcia. Pus a mão no ombro dela, ela virou rápido e cravou uma faca na minha costela. O sorriso não vacilou, só cresceu. Enquanto eu caía no chão apertando o ferimento, ela sussurrou “não sai da cama”. Acordei, já era manhã.

Acordei moído, sem dormir direito e, pra ser honesto, puto. Eu nunca menosprezaria um medo da Emma, e ela fez exatamente isso comigo. No café da manhã fiquei quieto, sem falar nada. Ela percebeu que me chateou, eu me senti culpado, mas precisava ser assim por enquanto.

Umas horas depois ela falou que tinha uma surpresa. Fui atrás dela até a beira do lago: um piquenique montado. Me fez sorrir.

Lá tava minha Emma de volta, sorrindo doce com o sol batendo no rosto. Sentamos, comemos, conversamos, parecia que um peso tinha saído das costas. Não sei o que tava causando esses sonhos e possíveis alucinações, mas ia marcar médico quando voltasse. Ficamos ali um tempo até que um enxame de moscas começou a rodear a cabeça dela. Ela tentou espantar rindo, mas acabou correndo com uma risadinha.

Era estranho pra caralho a quantidade de mosca, mas eu ri e corri atrás até a gente parar bem na beirada da água. Ela tirou umas folhas do corpo, elas caíram na água e fizeram ondulações. Olhei pra baixo, achei graça de como a gente ficava distorcido. E aí me caiu a ficha: era exatamente o meu sonho. A memória tava meio embaçada do que vinha depois, mas senti um déjà vu misturado com pavor.

Quando a água acalmou, levantei o olhar pra minha namorada, admirando o quanto ela era linda olhando a paisagem. Sorri pensando na sorte que eu tinha e olhei de novo pra baixo.

O sorriso sumiu da minha cara na hora. No reflexo, a Emma tava com aquele sorriso escancarado e a cabeça virada pra me encarar. Soltei um grito de terror e andei pra trás até aquela coisa sumir da minha vista. Virei e corri pra casa desesperado, querendo distância da Emma e seja lá o que tava fingindo ser ela. Sem saber qual das duas era real.

Claro que ela veio atrás tentando me acalmar. Mal conseguia falar direito antes de ver ela revirando os olhos. Já tava enchendo o saco. Falei firme que a gente ia embora agora, mas ela veio com um monte de motivo do porquê aquilo era importante pra ela, que a gente precisava desse descanso. Tentei argumentar, ela disse que não era real, que era só coincidência.

Eu tava quase acreditando quando olhei pra baixo e vi as unhas dela pretas, mortas, cabelo seco e quebrando, totalmente o oposto de como ela sempre cuida. Era ela, mas não era. Parecia uma gêmea que tinha vivido no escuro a vida inteira. Sabia que a gente precisava dar o fora dali rápido, mas não conseguia convencer ela. Tinha medo que o que quer que tivesse se alojado na minha namorada fizesse alguma merda e machucasse ela de verdade. Cedo pro dia seguinte de manhã, só precisava aguentar mais uma noite.

Fui dormir apavorado, com medo pela minha namorada e muito medo dela. Sabia que a Emma de verdade ainda tava ali dentro, então tentei ter paciência e tirar a gente dali o mais rápido possível sem acionar nada. De tanto cansaço, apaguei.

Acordei de repente, como se alguém tivesse jogado um balde d’água em mim. Emma não tava do meu lado. Talvez tivesse sede ou foi pegar algo pra comer, ela mal comeu desde que chegamos. Levantei pra ir atrás e ver se tava tudo bem. Quando fui calçar o chinelo, lembrei do dia: tinha sido idêntico ao sonho. Não tinha como ser coincidência.

O sonho que eu tive se realizou. Um pensamento me acertou: o sonho da noite anterior. Gele. Voltou tudo: eu acordando, Emma sumida, procurando, os arranhões, ela agachada, a facada. A memória me acertou como um tijolo, quase fiquei tonto. Levantei devagar, fui até a porta e girei a maçaneta.

Não tem como isso tá acontecendo. Meus sonhos não viram realidade, né? Impossível. Aconteceu uma vez, talvez não aconteça de novo. Mas eu precisava ter certeza que minha Emma tava bem.

Dei uns passos no corredor, respiração curta e acelerada, repetindo pra mim mesmo que não podia ser real. Virei a esquina e ouvi um barulhinho fraco. Forcei o ouvido: foi ficando mais alto, mais alto, até não ter mais dúvida.

Era arranhado.

Na parede.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Matador de Vampiros

Ele era só um cara. Um cara comum. Você provavelmente nem notaria se cruzasse com ele na rua.

Mas quando eu olhava pra ele, via um anjo. Uma fruta doce que Deus fez só pra mim. Ele tinha aquele tipo de calor que fazia todo mundo se sentir confortável e seguro só de entrar no ambiente. Ser hipnotizado por aqueles olhos azuis macios era tipo flutuar numa piscina quentinha cheia de lontras fofinhas enquanto te servem bolo e sorvete no seu aniversário. Cada pessoa se sentia o centro do universo dele quando ele tava por perto, e parecia tão fácil pra ele ser adorado.

Por isso eu mereço o que aconteceu comigo depois que eu matei ele.

Eu simplesmente não consegui me segurar. Essa raça sempre foi a minha favorita. Toda aquela energia altruísta que o mundo não valoriza deixa a pessoa desesperada pra alguém notar, morrendo de vontade de ser abraçada, implorando por um momento de paz. O sangue praticamente desce sozinho pela sua garganta quando você morde, e aí irradia uma sensação profunda de conforto e calor por cada artéria e sinapse do seu corpo durante dias enquanto você digere todo aquele bem e amor que todo mundo menosprezava.

Ele não viu chegar. Nunca veem. Na real, ele devia ter me agradecido: dei muito mais tempo pra ele do que pra qualquer outro. Ele me entretinha, era engraçado, fofo, e eu simplesmente perdi a noção do tempo. Que porra é um ano ou três quando você já não conta mais os séculos? Era gostoso demais ficar perto dele, tão cheio daquele calor delícia que eu sentia pulsar só de estar do lado, e o toque aveludado dele fazia minha pele arrepiar com uma eletricidade do caralho.

Olhando pra trás, não sei por que eu não deixei isso ser suficiente. Se eu conseguia viver assim com ele, por que caralhos eu precisei querer mais? Eu nem tava com fome. Eu tava feliz. Acho que ele também tava. Não precisava ter terminado assim.

Era nosso aniversário de namoro e a gente tinha ido no restaurante que ele me levou no primeiro encontro. Ver o pôr do sol refletido nos olhos dele enchia tanto a minha alma que parecia que eu tava transbordando, e eu simplesmente não aguentei a ideia de outra pessoa ver aqueles olhos lindos ou desperdiçar o calor da presença dele. Só a risada dele já levantava qualquer festa, e de repente eu senti náusea só de pensar que outra pessoa pudesse sentir o que eu sentia. Nenhum deles ia valorizar a essência dele do jeito que eu valorizo.

Foi tipo instinto. Uma outra fera saiu pra caçar. Eu vi a forma que a garçonete ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu pra ele quando pediu nossas bebidas. A vadia chorou, gritou e tentou desesperadamente me enganar quando eu peguei ela no beco na hora do intervalo. “Eu tô só fazendo meu trabalho! Homem dá gorjeta melhor se você flerta!”. Puta não me enganava. Eu ainda sentia o calor dele grudado na mente dela.

Eu tinha passado tanto tempo focada só nele que devia ter esquecido como era sangue bom de verdade, porque não consegui me parar enquanto eu me empanturrava daquele pescoço com gosto de mentol. Ou talvez eu só estivesse desesperada pra sentir uma migalinha patética do calor dele nela…

Mas ela só me deixou vazia…

Toda aquela energia dourada que eu tava transbordando sumiu e eu tava lá, coberta de sangue, sozinha no beco atrás de um restaurante caro, segurando o corpo mole do que um dia foi uma garçonete. Nem senti o estalo quando o pescoço dela quebrou. Não era tão bruta com comida desde criança. Que vergonha. Levantei uma tampa de bueiro e joguei ela no esgoto com um barulho molhado. Problema de outro agora.

Não podia deixar ele me ver assim, então mandei mensagem dizendo que passei mal e peguei um táxi pra casa. O motorista perguntou se a festa à fantasia tinha sido boa e eu só balancei a cabeça quietinha. Ainda bem que nem todo mundo sente cheiro de sangue, porque o último abate ainda tava me dando náusea e eu não tava afim de papo. Só queria chegar em casa e ficar de boa.

Tirei o vestido grudento e joguei na lareira, depois entrei no chuveiro. Fiquei hipnotizada vendo os riscos vermelho-vivo do que sobrou da garçonete rodopiarem pelo ralo. Parecia estranho, como se faltasse um pedaço de mim. Aumentei a temperatura da água, mas continuava com frio. Parecia que eu ainda tava com saudade de casa mesmo estando no meu próprio chuveiro quente do caralho.

Desde quando alimentar dá nojo? Me forcei a vomitar a garçonete inteira de medo que ela tivesse câncer no sangue. Sinceramente nem acho que isso me machucaria, mas eu precisava tentar alguma coisa. Por que ela me deixou tão vazia? Ela nem valia toda essa angústia. Mesmo depois de lavar tudo ralo abaixo, eu ainda me sentia vazia.

Me arrastei pra cama, puxei o cobertor por cima da cabeça e… chorei. Não sabia se era de verdade ou se eu só tava imitando algo que vi humano fazer até não conseguir mais parar. Me contorcendo e vomitando, me encolhi e chorei rios por o que pareceram séculos até que ouvi a fechadura da porta da frente abrir e o calor voltou a inundar a casa.

As mãos dele ainda estavam geladas do ar de inverno, mas o toque gentil dele parecia um bote salva-vidas no meio da tempestade. Puxei ele pra cima de mim, ainda molhada das lágrimas e do chuveiro, e apertei ele nos meus braços mais forte do que ele provavelmente imaginava que eu era capaz. Ele olhou pra mim com aqueles olhos cheios de empatia e soltou um “aconteceu alguma coisa?” enquanto eu espremia o ar dos pulmõezinhos dele.

Afrouxei um pouco e empurrei a cabeça dele pro meu peito. “Não”, falei docinho enquanto acariciava, “só passei mal, mas quando saí senti sua falta. Fiquei mal por te deixar lá.”

“Que pena que você passou tão mal. A gente tava animado pra hoje.” Ele deu um beijinho suave na minha clavícula e eu beijei a testa dele e cheirei o cabelo. “Que tal a gente remarcar pra semana que vem quando você estiver melhor?” Eu assenti com os lábios ainda grudados na cabeça dele e dei um suspiro fundo enquanto sentia a tensão do meu corpo se dissolver.

“Você tá sentindo algum cheiro?” ele perguntou. Meus olhos se arregalaram. Terror. Aquele frio, aquele nojo. “Tipo moeda molhada e… mentol?”

Eu não lembro o que aconteceu depois, só lembro de me sentir sozinha e com saudade de casa na minha cama, segurando desesperadamente as pálpebras abertas de um corpo mole pra ver mais uma vez aqueles olhos que me enchiam de felicidade. Ele deve ter visto o choque no meu rosto quando eu percebi o que tinha feito, porque o rosto ensanguentado dele se contorceu numa olhar de compaixão olhando pra mim enquanto soltava um último suspiro molhado e sussurrava “Te vejo… logo…”

Ele não fazia ideia do que tava falando. Não podia fazer. Não tinha como ele saber o quão especial ele era. Gerações sendo presa tinham virado o jogo de um jeito que nenhum de nós dois esperava.

Não era pra ter sido assim. Tudo errado. Eu bebi a essência dourada desse homem. Eu era pra estar radiante agora. Transbordando, porra! Não lembro o momento que engoli ele, mas ainda sentia o gosto puro dele nos meus lábios e eu só… me sentia… VAZIA…

Ele ainda tava aqui. Cada pedacinho dele ainda tava nesse quarto, mas ele tinha ido embora e toda cor tinha sido sugada do mundo junto com ele.

Em algum momento eu levantei e carreguei ele pro banheiro. Nunca tinha me incomodado com aquela sensação esquisita de cadáver, mas não podia deixar ele daquele jeito. Lavei o sangue dele, embrulhei no cobertor e coloquei na cama. Queria que ele parecesse em paz, mas não conseguia fazer aquela cara dele fazer o que fazia quando encostava a cabeça no meu peito e dormia. Agora ele só parecia um boneco, um casco que eu vesti com as roupas dele e coloquei na cama dele.

Chorei pela segunda vez na minha vida infinita enquanto via nossa casa queimar. Inúmeros caras que engoli desse jeito e nunca tinha ficado pra essa parte; nunca senti necessidade de me despedir. Fiquei lá no frio vendo os humanos lidarem com aquilo até nossa casa virar só um monte de lembranças e sangue fumegante.

Não tentei me alimentar de novo por um tempão. Só de pensar dava nojo até a fome ficar insuportável e eu não conseguir pensar em outra coisa além da necessidade desesperada de consumir o calor de outra pessoa. É Dia dos Namorados e eu tô vendo um casal ficar noivo na praia de cima do penhasco. Minha barriga ronca e eu consigo imaginar a felicidade nos olhos dela e como ele colocou aquilo lá, mas quando desço até lá, a cena não é nem um pouco o que eu imaginei… Ela tá grávida e ele fede a suor de outra mulher. Esse tipo de felicidade é passageira. É mentira que ele conta pra ela pra se alimentar do calor dela.

Talvez eu consiga um gostinho desse calor se eu tirar ela desse sofrimento. Posso confortar ela enquanto ela desliza suavemente pra dentro de mim. Ela nunca vai precisar saber quanta misericórdia eu tô dando. Dei um passo na direção deles e de repente, como se um véu fosse levantado, senti o abraço dele por trás e congelei. O casal, perdido na própria bolha, nem me notou enquanto eu ficava lá parada feito estátua assistindo o momento deles.

Faziam anos que eu não sentia esse abraço, mas eu sabia que era dele, quente e confortador, em lugar nenhum e em todos ao mesmo tempo. Braços de ar. Braços de nada. Braços de calor e alegria. Eu sentia eles me envolvendo, firmes e fortes como eu lembrava, mas ao mesmo tempo eu sabia que eu tava completamente livre. Eu podia dar um passo à frente. Podia me alimentar desse casal. Podia sentir o calor passageiro deles…

Mas aí eu ia ter que sair desses braços…

Fiquei lá no ar gelado de fevereiro, perdida no tempo como uma memória que nunca aconteceu. Ele me segurou por horas e ninguém prestou atenção. O casal foi embora. Outras pessoas passaram. O sol se pôs, o sol nasceu. Não sei quanto tempo, mas quando acabou, eu não sentia mais fome. Fria de novo, mas não com fome.

Depois disso a cor voltou pro mundo. Não em todo lugar, não como antes, mas eu conseguia ver lampejos de vez em quando. Segui a cor até um parque uns dias depois e só fiquei sentada vendo as crianças meio que brilharem enquanto brincavam. É difícil explicar o que meus olhos viam, mas parecia quente e pela primeira vez na vida eu só queria que aquele calor ficasse onde tava pra eu poder admirar um pouco. Enquanto durasse.

Um aniversário. Um piquenique. Uma pega-pega. Memórias essenciais sendo formadas bem na minha frente. Pequenos vaga-lumes de cor num mar de sépia.

Aí um brilhozinho desceu de algum lugar e pousou na minha palma. Formigava de calor e eu fechei as mãos em volta dele e deixei irradiar pra dentro de mim. Sem palavras ele me disse e eu entendi que eu precisava levantar e ele me puxou pelo canto do abrigo de beisebol e foi aí que eu cruzei o olhar com alguém. Um cara baixinho e peludo em todos os lugares errados, tipo um dedo do pé com unha encravada. Ele segurava um pedacinho de calor tão apertado no punho que os nós dos dedos tavam brancos. O que eu vi nos olhos dele era menos que nada, um vazio que nunca ia ser preenchido exigindo calor mas nunca dando.

Ele ainda tinha aquele sorriso louco de quem achou que o plano deu certo até eu quebrar o pulso dele. A menininha perguntou se ele tava bem e eu sorri com carinho e falei que só precisava dar uma injeção no meu tio porque ele não podia sair do hospital e mandei ela voltar pra mãe.

Arrastei o cara-dedo-do-pé até a van branca feia dele, joguei no fundo e rasguei o motor com as mãos. Talvez eu devesse ter matado ele, mas eu sabia que isso não ia me aquecer. Só deixei ele lá largado, ferido e coberto de merda dele mesmo.

Naquela noite senti ele me abraçando de conchinha. Foi fraco, mas eu sabia que era ele. Um sonho de um abraço de conchinha, mas pela primeira vez dormi como eu dormia nos braços dele antigamente. Quando acordei não sentia mais ele, mas não tinha como confundir.

Levou tempo, mas a gente descobriu juntos. O corpo dele morreu, mas ele ainda tá aqui, grudado dentro de mim, me mostrando a luz. A gente se fala por sensações e cutucadas, calor e cor. Não escuto a voz dele, mas sei que é ele de verdade, consciente, vivo e me guiando. Agora eu honro a memória dele sendo a pessoa que ele via em mim, a pessoa que ele tava olhando quando eu tava focada no pôr do sol refletido nos olhos dele.

Milhares de anos de evolução finalmente ensinaram um humano a matar vampiro; só queria que ele não tivesse precisado morrer pra fazer isso.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon