quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Toda noite, alguém morre no meu sonho

Foi o grito mais doloroso que eu já ouvi na vida.

Aí acordei.

Faltavam só alguns minutos pro meu turno começar. Me recompus rápido, saí de casa e fui andando.

Mas as coisas que eu tinha visto ficaram na minha cabeça o caminho todo. No sonho, eu tava numa beco escuro. Correndo atrás de alguém. Tudo tava embaçado, como se eu tivesse vendo através de uma camada de neblina. Aí a mulher caiu. Uma mão subiu pro ar e um grito ecoou.

Nem lembro como cheguei no trabalho. O Fred acenou pra mim. Meu amigo mais próximo lá. A gente conversou um pouco. Fiz as tarefas de contabilidade de sempre.

Era só um pesadelo. Só um pesadelo.

Na noite seguinte, eu devia ter trabalhado até umas duas da manhã. Quando abri os olhos de repente, tava num lugar isolado, tipo entre dois prédios.

— Por favor, não… Por favor… Fica longe.

Virei a cabeça pra direita. Uma silhueta masculina tava no chão. Uma mão levantada, implorando.

— Por favor…

O som de um corpo sendo rasgado cortou as palavras dele. Nem um grito saiu. Só o último suspiro do cara. Eu não só ouvi.

Eu senti.

Quando acordei, tava na minha mesa. A luminária tava acesa. O despertador tava tocando do lado. Com dificuldade, estiquei a mão e desliguei. Devia tá com muita pressão no trabalho. Tantos relatórios pra fazer. Tantas coisas pra documentar. Minha mente tava tão emaranhada que devia ser por isso que eu tava tendo esses sonhos.

Então, mais um dia normal. Esqueci o pesadelo. Até ir pra cama naquela noite. Fiquei um tempo sentado na beirada da cama.

E se eu visse de novo?

Deitei e fiquei acordado por um bom tempo.

Outro pesadelo.

Dessa vez, eu não tava lá fora. Tava dentro de uma casa, meus passos ecoando. Uma mulher tava sentada no sofá assistindo TV. Ela não me viu. Eu fui em direção a ela. Mesmo quando tensei o corpo pra parar, nada mudou. Vi a faca na minha mão, levantada no ar. De repente, agarrei o pescoço da mulher e…

Melhor eu não escrever o resto.

E de novo, acordei. Coberto de suor.

O que tá acontecendo comigo?

Nem lembro como cheguei no trabalho. Quando o Fred me viu na porta, os olhos dele se arregalaram.

— Cillian, você tá bem?

Não queria preocupar ele. Só falei que não tinha conseguido dormir. Ele me comprou um café e me aconselhou a tomar um remédio pra dormir naquela noite. Por causa do meu estado, a ideia de remédios não parecia tão absurda. Naquela noite eu tomei e dormi bem, relativamente falando. No dia seguinte fui pro trabalho mais energizado. Nos próximos dias, nem sonhei. Pensei que o pesadelo tinha acabado.

Uns sete dias depois, uma noite, ouvi um choro de repente. Tava dentro de um galpão enorme, ou algo parecido. Mas dessa vez, era mais familiar que os outros lugares.

Era a fábrica abandonada logo fora da cidade. Quando o choro ficou mais alto, olhei pra baixo. Tinha um homem encolhido no chão. Um chute súbito na barriga fez ele se encolher ainda mais. A voz dele sumiu. A luz da lua entrava pela janela quebrada lá em cima. Vi o brilho da lâmina afiada. E então, como sempre, acordei.

Cheguei um pouco atrasado no trabalho. Encontrei meu chefe ranzinza. Tava certo que ele ia me dar uma palestra disciplinar de uma hora. Felizmente, o Fred interveio, disse que eu não tava bem nos últimos dias e me salvou.

— Obrigado, cara — falei. Assim que virei pra sair, ele segurou meu braço.

— Cillian, o que tá rolando?

— O que você quer dizer?

— Chegando no trabalho sem dormir, viajando… Você tá traindo a sua mulher?

— Eu nem sou casado, Fred.

Ele riu e deu um tapa no meu ombro.

— Tô brincando, relaxa um pouco.

Ri junto com ele. Afinal, ele era meu amigo. Não tinha motivo pra não contar o que tava passando. Me sentei e contei sobre os pesadelos que eu tava tendo. As versões menos sangrentas, pelo menos. Quando terminei, uma expressão pensativa tinha se instalado no rosto dele. Falei que eram coisas insignificantes. Mas ele levou tudo muito a sério. Na verdade, eu quase diria… ele tava com medo. Ele me fez um monte de perguntas. O que eu sentia no sonho, por exemplo — não emoções, mas coisas concretas: frio, luz, umidade…

Na maioria, só respondi que não sabia.

Finalmente, pra tranquilizá-lo, acrescentei que ia ver um psicólogo e voltei pro meu trabalho.

Naquela noite, a caminho de casa, começou a chover forte e durou a noite toda. Até lembrei disso enquanto adormecia.

E ao acordar.

Ouvi a chuva mais claramente. Tava encharcado. Tava lá fora. Tinha um lixo ao meu lado. Não conseguia definir exatamente onde tava. Na beirada da calçada, vi um homem gemendo. Pelo jeito que tava vestido, era óbvio que era um morador de rua. Ele tava gritando alguma coisa. O colarinho dele tava sendo puxado pra cima por alguém. Vi aquela faca, a mesma que sempre terminava meus sonhos; dessa vez, sangue pingava do metal frio. O homem soltou um gemido mais agudo. A faca tava prestes a cair e acabar com ele.

Mas parou, no ar, por segundos.

De repente, senti que alguém me observava. Alguém tava me olhando. Mas eu não conseguia ver. Mesmo assim, eu jurava.

Os olhos do morador de rua se desviaram da faca, pra outra coisa.

Aí o som da faca rasgando violentamente o casaco sujo ecoou nos meus ouvidos. Dessa vez… foi diferente. Mais cruel. Mais raivoso.

Acordei tremendo. Puxei o cobertor sobre mim. Tava escuro lá fora. Pensei que ia dormir um pouco mais.

Mas ainda tava com frio. Puxei o cobertor mais forte. O cobertor tava frio também.

Algo tava errado.

Quando liguei a luz, quase gritei com o que vi.

Tava molhado. Minha cama tava molhada. Água pingava onde eu tava em pé. Água escorria de mim. Será que eu tomei banho dormindo? Ou…

Sonhos realistas… os sons… a insônia sem fim…

Na minha mão direita, algo mais pingava junto com a água.

Sangue.

Mas eu não tava ferido.

Tinha manchas no meu pijama também. Pontilhadas.

Lembrei da chuva, quanto tinha caído… tinha parado agora, mas.

Será que foi um sonho? Ou… não foi? Eu matei eles? Todos eles…

Eu fiz isso.

Peguei o celular e liguei pro Fred. Falei pra ele vir na minha casa. Ele me perguntou mil vezes o que tava acontecendo e se eu tava bem. Só falei: vem.

Porque ele era o único que não ia ligar pra polícia quando me visse assim.

Quando ele bateu, corri pra abrir a porta. Como eu tinha imaginado, no instante em que me viu, ele cobriu a boca com a mão.

— Você… O que você fez?

Deixei ele entrar. Tava tremendo de frio, encharcado. Já tinha contado sobre os sonhos que tava tendo. Contei todos os detalhes daquela noite também.

— Acordei encharcado, Fred. E tem sangue. Tem sangue em mim. Eu tô fazendo isso. Não é sonho.

O rosto dele assumiu a expressão mais séria que eu já tinha visto.

— Eu devia ir pra polícia… Devia contar tudo. Eu matei todas aquelas pessoas. Sou um serial killer. Talvez tenha mais que eu nem lembro.

Enquanto eu entrava em pânico, andando de um lado pro outro e falando, ele sussurrou meu nome, fraco.

— Mas eu não fiz isso de boa vontade, eu não sabia. Os corpos… Eu não lembro depois de matar eles.

Ele disse meu nome de novo.

— Talvez eles estejam no meu porão, talvez eu tenha enterrado todos lá. Meu Deus… Eu tenho vivido por dias em cima de tantos cadáveres.

— Calma, Cillian.

Não tinha nem um pingo de pânico na voz dele. Tava me observando andar de um lado pro outro no quarto.

— Como eu posso? Como eu posso me acalmar? Eu sou um serial killer, Fred! Seu amigo é um matador! Como você tá tão calmo?

Até então, eu não tinha percebido. Ele tava sentado no sofá, pensativo. Nenhum sinal de pânico no rosto.

— Você não é um serial killer.

— Como você pode ter certeza? Tem sangue em mim. Tô encharcado. Eu matei aquele cara.

— Você não matou. Você assistiu.

Fiquei paralisado no lugar.

— O quê?

— Você assistiu a todos, Cillian. Acho que… você sempre esteve assistindo.

— Como… Como você sabe disso? Como você sabe que eu não os matei?

— Porque eu matei.

Recuei dois passos, chocado. Antes que eu conseguisse entender o que ele tinha dito, ele falou de novo.

— Eu devia ter percebido antes. Mas você… de algum jeito, você era invisível. Eu sempre senti. Sempre soube que não tava sozinho com eles. Mas quando você começou a falar dos sonhos, tudo ficou claro. Hoje à noite eu te vi, Cillian. Você tava me observando do canto. Como um fantasma. Aí você desapareceu. Você não fez isso. Mas você assistiu.

O Fred se levantou. Veio em minha direção.

— Não sei como isso tá acontecendo. Você… você é algum tipo de Ceifador.

Ele pegou a bolsa que tinha jogado no corredor quando entrou. Fiquei paralisado de choque enquanto ele passava por mim.

— Ainda não descobri o que é isso, Cillian. Você não é normal, você sabe disso agora. E tenho certeza que você não vai pra polícia até entender.

Ele olhou nos meus olhos. Me deu exatamente a mesma sensação que quando eu achava que estava sendo observado. Quando saiu, vi as marcas roxas no braço dele. Eram marcas de dedos, machucando o braço dele. Aquela mão… a mão que subiu no ar segurando a faca…

Ele bateu a porta e foi embora.

Eu ainda não fui à polícia. Não sei o que tá acontecendo, o que tá rolando aqui. Estou escrevendo isso pra ver se alguém pode me ajudar. Com coisas paranormais, ou qualquer campo que isso se encaixe. O Fred vai voltar por mim.

E eu tenho medo que a última coisa que eu assista seja o meu próprio assassinato.

Ela Foi Escolhida Muito Antes de Mim

É fácil admitir que meu mundo inteiro gira em torno da minha namorada. Eu sei que é vergonhoso ter sua vida inteira nas mãos de um parceiro romântico, mas ela preenche o vazio da minha vida vazia. Nunca fui próximo da minha família imediata e saí de casa aos dezoito anos. Agora tenho vinte e cinco, namorando felizmente minha parceira Isabel há quatro anos.

Nós nos conectamos logo no início do nosso relacionamento por causa das nossas famílias quebradas. Ela nunca entrou fundo na história da própria família e ficava desconfortável sempre que eu insistia em puxar o assunto. Ela tinha inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo. A cicatriz mais assustadora — aquela que me abalou até os ossos — estava gravada bem no centro do corpo dela, cortada fundo na pele pálida: os números seis, seis, seis. Ela geralmente cobria com curativos de algum tipo, e levou muito tempo até ter coragem de me mostrar. Isso sozinho já deveria ter sido suficiente pra eu entender que o que ela passou foi um verdadeiro inferno na Terra.

Minha namorada sempre falou dormindo — algo que eu percebi quando começamos a morar juntos. Eu trabalho remoto e geralmente fico acordado até tarde, então ela sempre é a primeira a cair no sono. Na maioria das vezes é só baboseira, então eu ignorava.

Era uma noite normal de trabalho pra nós dois. Eu tinha acabado de lavar a louça enquanto Isabel corria pro quarto pra ler seu livro. Depois, fui até o quarto. Ela estava encolhida no canto da cama, focada no livro.

Eu interrompi: “Ei, preciso terminar umas coisas extras de trabalho.”

Ela levantou a cabeça, gemendo. “Ah, amor, sinto muito.”

Soltei um suspiro. “Vou terminar em umas duas horas, então descanse pra amanhã.”

Ela sorriu e pulou da cama, me abraçando. Sussurrei: “Eu te amo. Boa noite, minha deusa.”

Ela riu. “Eu te amo tanto. Vai dormir, meu Superman.”

Eu saí cambaleando pro escritório, amaldiçoando o trabalho que tinha que fazer.

Depois de algumas horas, entrei silenciosamente no quarto. O ambiente estava gelado enquanto eu me aproximava da cama. Isabel estava deitada de costas, soltando roncos suaves. Subi na cama com cuidado, sem querer acordá-la. Enquanto me ajeitava, virei pra ela, observando cada movimento minúsculo que ela fazia.

Beijei suavemente sua bochecha e sussurrei: “Boa noite, meu amor.”

Quando me virei e comecei a dormir, ouvi um risinho suave vindo da direção dela. Virei de novo — ela ainda estava profundamente dormindo. Não dei bola, fiquei olhando por alguns segundos.

Então ela começou a murmurar. Não conseguia entender, então aproximei o ouvido da boca dela. As palavras que saíram subiram de tom de repente.

“Eles precisam de mim. Querem me matar. Querem me levar.”

Ela repetia as mesmas palavras sem parar. O corpo dela lentamente se ergueu, sentando na cama. Num movimento rápido, a cabeça dela se virou pra mim.

Ouvi risinhos suaves atrás de mim. Senti a presença de alguém espreitando ali, enquanto o som abafava tudo o mais. Fiquei paralisado, ainda fixo em Isabel, enquanto ela continuava a cantarolar pra mim. Meu coração batia descontrolado, meus pensamentos se despedaçando.

Agarrei Isabel pelos ombros com força. Os risinhos sumiram. O canto parou imediatamente.

Ela abriu os olhos lentamente, me olhando com uma expressão confusa, mas acolhedora. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu tentava falar, mas nenhuma palavra saía.

Ela inclinou a cabeça, confusa. “Amor, o que foi?”

Balancei a cabeça, ainda em choque com o que tinha acabado de acontecer. Ela sorriu — e então o sorriso começou a se alargar.

Num tom sombrio, ela sibilou: “Vou arrancar suas tripas e te pendurar como o maldito idiota que você é.”

O corpo dela relaxou, caindo na pilha de travesseiros.

Eu respirei, completamente atordoado. O quarto ficou em silêncio de novo. Deitei de novo, forçando-me a dormir e esquecer o horror que tinha acabado de testemunhar. Chorei em silêncio até finalmente adormecer.

Acordar com o sol cegante me atingindo nos olhos. Isabel tinha sumido da cama. Pulei sentado, procurando por ela freneticamente. Corri pro living e vi que o carro dela não estava. Percebi rapidamente que ela já tinha ido pro trabalho.

Ainda meio sonolento, cambaleei até a cozinha, onde uma nota dela me esperava. Era uma mensagem fofa de incentivo, dizendo que ia pegar uma sobremesa especial pra jantar. Não preciso dizer que eu não trabalhei naquele dia.

Todo o medo e confusão da noite anterior inundaram meus pensamentos. Passei o dia inteiro tentando racionalizar o que diabos tinha acontecido de verdade. Não tinha respostas. Não mandei mensagem pra ela, nem contei nada. Não queria estragar o dia dela com algo que eu mesmo não conseguia entender.

Honestamente, eu estava com medo. Chame de intuição, ou o que quiser, mas ela estava ciente naquele momento. Não sei se estava sob algum controle sobrenatural ou se estava brincando de um jeito horrível pra me fazer parar de trabalhar até tarde.

Eu temia as horas se esgotando até o pôr do sol.

Quando o sol se pôs, ouvi o ronco do carro dela entrando na garagem. Tremi ao me aproximar da porta da frente, as palmas das mãos suadas enquanto eu segurava a maçaneta. Forcei-me a avançar e abri a porta.

Fui recebido pelo sorriso mais lindo que já vi. Ela segurava um pacote de biscoitos do nosso lugar favorito da madrugada. Deixou-os cair e me abraçou.

“Senti tanta saudade de você,” ela sussurrou no meu ouvido. “Como foi seu dia?”

Eu me afastei devagar, o medo da noite anterior voltando com tudo. Ela me olhou, confusa.

“O que foi? Alguma coisa aconteceu hoje?”

Eu tremi. “Nada, amor. Só estou exausto. Tive muitas reuniões mais cedo.”

Ela sorriu e me abraçou de novo. Entramos e deitamos no sofá. Ela começou a mastigar os biscoitos enquanto eu a observava, a tensão aumentando no peito.

Sabia que tinha que perguntar. Me aproximei, mantendo contato visual.

“Algo estranho aconteceu ontem à noite,” eu sussurrei. “Você lembra de alguma coisa?”

Ela apertou minha perna. “Amor, para de brincadeira. Eu dormi a noite toda.”

Inclinei a cabeça, confuso.

De repente, um estrondo alto veio lá de fora.

“Você ouviu isso?” eu perguntei.

“Hehehe.”

Virei a cabeça rapidamente pra Isabel. Em puro horror, ela estava de quatro em cima do sofá, rindo de forma metódica.

No mesmo tom sombrio e familiar, ela sibilou: “Pare de fazer perguntas, ou vou te deixar numa poça de sangue.”

Eu gritei: “O que diabos você está fazendo?”

Ela desceu e se aproximou de mim. Senti sua respiração quente contra minha pele. Empurrei ela pra trás, gritando seu nome sem parar.

Ela caiu no chão, levantando a cabeça lentamente. “Por que você está gritando comigo? O que diabos deu em você?”

Ela se levantou, lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Eu—eu—eu—”

“Me deixa sozinha essa noite e se controla,” ela disparou, entrando no quarto e batendo a porta.

Comecei a questionar minha sanidade. Fui pro quarto de hóspedes, revivendo tudo na minha cabeça.

Minha única conclusão foi que o trauma do passado dela estava se manifestando de algum jeito. Não era só imaginário — algo estava terrivelmente errado.

Finalmente adormeci.

Acordar com risinhos. Pulei da cama e acendi a luz — nada. Olhei no celular. 3:33 da manhã.

Os risinhos começaram de novo, dessa vez bem do lado de fora da porta. Fiquei preocupado com Isabel e corri pro quarto. A porta já estava aberta.

Ela tinha sumido.

Chamei seu nome repetidas vezes. Nenhuma resposta.

Então ouvi soluços baixos do banheiro. Me aproximei com cuidado e acendi a luz.

“Amor, o que você está fazendo?”

Ela estava ajoelhada no chão de azulejo frio. Preocupação me invadiu quando vi o sangue encharcando suas roupas. Corri até ela, implorando pra me dizer o que tinha acontecido.

Nenhuma resposta — só soluços.

“Eles estão aqui,” ela sussurrou. “Eu sinto.”

Risinhos explodiram atrás de nós.

Virei pra porta. Uma mulher estava ali, vestida com um manto vermelho, capuz puxado sobre o rosto. O cheiro de podridão encheu minhas narinas.

“Voltamos por você, minha filha,” ela cantarolou.

Ela ergueu uma faca de açougueiro.

Eu carreguei nela, a adrenalina tomando conta. Ela me esfaqueou nas costas enquanto eu a agarrava, levantando-a do chão. Gritando de dor, joguei ela pela janela sem hesitar.

O vidro se estilhaçou enquanto seu corpo tombava lá fora, batendo no chão. O ar frio invadiu o quarto enquanto eu olhava pra baixo, pra sua forma sem vida.

Quando olhei de volta, fiquei paralisado em choque completo. Em volta do lado direito da minha casa, havia quase quarenta pessoas vestidas de mantos vermelhos. Estavam paradas como estátuas, olhando diretamente pra mim.

Corri de volta pra Isabel, que ainda estava ajoelhada no chão, chorando. Exigi saber o que diabos estava acontecendo e pedi o celular dela. Ela levantou os olhos, cheios de lágrimas, e murmurou: “É minha família. Eu deveria ter te contado antes, mas eles nunca fizeram nada de errado comigo, como você sempre acreditou.”

Gaguejei: “Mas seu corpo — e você nunca quer falar do seu passado.”

Ela respondeu, baixinho: “Eu nasci pra ser um vaso. Eles adoram quem eu vou me tornar. Está quase na hora de eu entregar meu corpo e minha alma.”

Confuso além de qualquer compreensão, fiquei sem palavras. A adrenalina começou a desaparecer, e senti a dor aguda jorrando das costas. Cambaleei, puxando Isabel pra meus braços. Ela me abraçou, pedindo desculpas sem parar.

“Temos que ir embora ou chamar a polícia,” eu implorei.

Ela balançou a cabeça, recusando.

Eu me recusei a desistir. Levantei, segurando sua mão, implorando pra ela vir comigo. Cambaleamos até o quarto de hóspedes pra pegar meu celular. Quatro homens vestidos de mantos vermelhos subiram as escadas, bloqueando o corredor.

Cerrei os dentes e arranquei a faca das minhas costas. Eles vieram em cima de nós. Eu esfaqueei o primeiro no estômago, usei meu peso pra jogá-lo por cima da balaustrada. Outro homem me agarrou por trás, me jogando na parede. Fiquei preso pelos dois.

Fiquei ali, impotente, vendo o último homem arrastar a mulher da minha vida escada abaixo. Gritei e implorei pra eles pararem. Isabel nunca desviou o olhar de mim enquanto a levavam.

“Matt, eu te amo,” ela chorou. “Não importa quanto tempo leve — se eu ainda tiver uma alma, juro que vou te encontrar de novo!”

Eu não pude fazer nada além de assistir.

Fui arrastado escada abaixo e amarrado. Me levaram pra fora, onde fui recebido pela visão de uma cruz em chamas. Dezenas de figuras encapuzadas a cercavam. Me avisaram pra não dizer uma palavra. Fiquei completamente inútil, paralisado pela submissão.

Assisti enquanto Isabel era amarrada à cruz. Sua voz mudou para aquele mesmo tom sombrio enquanto proclamava: “Sim. Está na hora de eu renascer.”

Meu mundo inteiro foi destruído em segundos. Ela era minha alma gêmea — verdadeira e completamente.

Não sei quanto tempo o canto durou — minutos ou horas se misturaram enquanto o fogo subia mais alto.

Quando seu corpo foi engolido pelas chamas, algo mais surgiu. Uma abominação usando sua pele. A coisa se aproximou de mim, rindo maliciosamente. O cheiro de podridão saía da sua respiração enquanto rugia na minha cara.

“Você nunca mais vai vê-la,” ela zombou. “Ela está no inferno agora, queimando enquanto a gente fala.”

Mostrou suas novas presas a poucos centímetros do meu rosto.

Cuspi nela, recusando-me a falar. Ela me deu um tapa na cara e proclamou seu novo nome — Kali, a fonte da destruição do amor e da fé.

Ela pegou uma faca de um dos seguidores e a balançou na minha frente. Inclinando-se, sussurrou no meu ouvido: “Eu ainda tenho uso pra você, mortal.”

Tremi enquanto Kali cortava fundo no meu peito, gravando seus números na minha carne. A escuridão me dominou. A última coisa que vi foi o sorriso grudado no rosto lindo dela.

Acordar e descobrir que minhas feridas estavam completamente curadas.

Meses se passaram desde aquela noite. No começo, eu estava perdido. A pessoa a quem dediquei minha existência inteira tinha ido embora. Mas transformei aquele vazio em propósito.

Vingança.

Estou treinando. Me preparando. Sei que o culto e sua divindade ainda têm planos pra mim, mas eu vou atacar primeiro. Sigo cada pista, estudo cada rastro que eles deixaram.

Pela minha pesquisa, descobri que a cicatriz que Kali gravou no meu peito brilha sempre que estou perto dela.

Estou atualmente escondido perto da floresta na Costa Leste. A marca queimou há poucas horas. Há um rancho perto daqui onde membros proeminentes do culto residem.

Vou conseguir respostas.

E vou conseguir vingança.

Minha intuição me diz que Isabel ainda não sumiu completamente. Ela está presa — incapaz de seguir em frente — enquanto seu corpo ainda anda por esta Terra.

Eu vou te ver de novo, meu amor.

Medo do Palco

Fico impressionado até hoje com o jeito que nosso cérebro funciona. Eu não consigo te contar com grandes detalhes o que aconteceu comigo ontem. Segundo minha esposa, eu não consigo contar nada com grandes detalhes a menos que tenha a ver com filmes ou música. Mas tem aquelas ocasiões em que eu lembro de cada imagem, cada palavra e cada sensação que senti num determinado momento. Uma delas foi numa noite de domingo, em novembro de 89.

Minha mãe tinha começado a fazer trabalho voluntário no teatro comunitário da nossa cidadezinha, e eu implorei pra ir junto. Não queria ficar em casa com meu pai. Ele era um fanático pelos Dallas Cowboys, e as coisas não tinham ido nada bem pro time naquela temporada toda. Aquele dia não foi exceção. Em vez de ficar vendo meu pai emburrado, preferi passar o tempo num teatro velho e empoeirado enquanto minha mãe ficava na sala da diretoria numa reunião do conselho.

O auditório era enorme pra mim na época. Tecido vermelho desbotado forrava as paredes, e arandelas de mau gosto, todas diferentes entre si, estavam espaçadas com precisão ao longo delas, tudo pintado com uma tinta dourada brilhante numa tentativa desesperada de dar uma ilusão de uniformidade. Fileiras de cadeiras antigas de madeira que rangiam estavam escalonadas, e as almofadas estavam detonadas. A maioria mostrava remendos malfeitos aqui e ali. Era um teatro voluntário, afinal, e quando uma pessoa nova entrava pela porta disposta a ajudar, era logo jogada em todo tipo de artesanato e manutenção, independente do nível de habilidade.

É isso que tem de maravilhoso num teatro comunitário: as pessoas que participam são tão exageradas, barulhentas e discrepantes quanto os móveis e acessórios garimpados que tem lá dentro. A única semelhança é a que realmente importa: essa necessidade inexplicável de montar um espetáculo, de gastar o pouco tempo livre que têm pra que o público entre pela porta e esqueça a vida por um instante.

O auditório comportava quatrocentas pessoas, e o piso de concreto descia de forma irregular até um palco velho e surrado. O proscênio era curvado e a borda ondulada que escondia as luzes de ribalta tinha sido montada à mão. Duas colunas falsas sustentavam o arco em cada extremidade, e tudo era pintado de um branco puro, com os sulcos e linhas detalhados em dourado.

Havia dois palcos laterais nas extremidades. Os três – os laterais e o principal – estavam cobertos por cortinas vermelhas gastas e puídas. Naquela noite eu levei meus brinquedos, e comecei a fazer o Batmóvel descer correndo pelo piso inclinado, fugindo de uma chuva imaginária de balas disparadas pelo Coringa e pelo capanga Bob. O único som no lugar inteiro era o dos pneus de plástico trepidando sobre a fina teia de rachaduras no concreto.

Eu achava que estava sozinho. Hoje sei que nunca se está sozinho num teatro.

Corri pelo corredor pra pegar meu brinquedo favorito quando, de repente, todas as luzes do palco acenderam. As cortinas se abriram, e o barulho dos roletes – aquele tec-tec-tec – ecoou pelo auditório. O cenário estava quase pronto: um saloon enfeitado com todos os exageros de uma visão melodramática do velho oeste. Um balcão enorme ocupava todo o lado esquerdo do palco, e a barra de latão na base brilhava nas luzes multicoloridas. Mesas e cadeiras de quebrar de propósito espalhavam-se pelo palco, e a parede do fundo era coberta por um papel de parede verde-menta estampado que descascava em vários pontos. As janelas nos painéis de fundo davam para um cenário pintado de deserto, cheio de cactos caricatos e nuvens fofinhas espalhadas num céu azul demais.

Um homem entrou no palco.

Vestia um terno preto, com polainas brancas sobre os sapatos lustrosos. Segurava uma bengala encimada por uma cobra prateada curvada, e um chapéu de feltro alto estava torto na cabeça. Um bigode oleado sombreava os lábios finos e se enrolava nas pontas. A perfeita encarnação de um canalha desprezível. Um vigarista viscoso que não pensaria duas vezes antes de amarrar uma donzela indefesa nos trilhos do trem.

Ele começou uma recitação safada, detalhando suas ações sombrias e desprezíveis. Eu fiquei ali parado, hipnotizado pela apresentação, seduzido pelo som da voz dele, pelas subidas e descidas, pelo floreio dos braços, pelo jeito que parecia flutuar de um lado pro outro do palco. Quando chegou ao fim do monólogo assassino cheio de maquinações, explodiu numa gargalhada estrondosa e maligna, e depois ficou em silêncio por um instante ao cruzar o olhar comigo.

“Ei, garoto! O que você tá fazendo aqui?” Ele falou num barítono quente de uísque e areia.

“Tô só brincando.”

“Eu também. Eu sou o Roger. Você é o filho da Nell, né?” Assenti com a cabeça. “Sei que você quer fazer filmes um dia.” Assenti de novo. “Já subiu no palco alguma vez?”

“Não, senhor.”

“Vem cá pra cima!” Ele fez sinal pras escadas na lateral do proscênio.

“Tá bom.”

Eu não devia falar com estranhos, mas era óbvio que era alguém que minha mãe conhecia. Fiz o que ele pediu. Meus olhos demoraram um pouco pra se acostumar com as luzes do palco. O auditório à minha frente sumiu, substituído por vermelhos, azuis e verdes. Roger se ajoelhou ao meu lado.

“Todo mundo quer cinema, garoto, mas é aqui que a mágica de verdade acontece. Aqui em cima você pode ser quem quiser, mas isso não é o especial. O que você vê lá fora?”

“Só consigo ver as luzes.”

“Isso. Pode ter qualquer um lá fora. Pode ter centenas, pode ter poucos. Pode ser alguém que vai te levar pra fama e fortuna ou pode ser uma família sem nada procurando uma fuga. Não importa. Todos querem a mesma coisa. Mágica.

Você sobe aqui e interpreta seu papel com tudo que tem. Dá pra ouvir as cadeiras rangendo, o farfalhar discreto dos sacos de pipoca, os suspiros, os assobios de desaprovação e os vaias, e aquele coração disparado num silêncio constrangedor quando alguém esquece a fala.

Bum

Bum

Bum

Bum

Dá pra sentir eles pendurados em cada palavra. O ar fica denso de faz de conta.

Seu nariz fica cheio do cheiro de suor e maquiagem. A sensação de figurinos mal ajustados e acessórios segurados por fita pintada. Você vê os arranhões e buracos nas tábuas, deixados pelos que vieram antes. Tem uma liberdade no palco que não existe em nenhum outro lugar. Você se perde nisso.”

Eu lembro de tudo, palavra por palavra. Quando terminou, ele se levantou.

“Quer ver uma coisa bem legal?”

Segui ele pro palco lateral. Tinha uma forca pequena montada. A corda com a forca balançava, mas não tinha vento nenhum.

“Me matam no final dessa peça.” Ele pegou minha mão e subimos os degraus até a plataforma. “Totalmente seguro. É um truque, mas a plateia não faz ideia de como funciona. Vou te mostrar.”

Ele esticou o braço, puxou a corda e colocou no meu pescoço. Eu estava num sonho, encantado pela atuação dele. Ele deu um passo atrás e me olhou.

“Perfeito. Agora quero que você faça cara de assustado. Isso… assim mesmo, mas tem que virar pro público. Tem que se abrir.”

Fiz o que ele mandou. Imaginei uma plateia lá fora, sentada na ponta das cadeiras, só esperando pra ver o que ia acontecer.

“Tudo que você precisa fazer é puxar aquela alavanca ali.” Olhei pra alavanca de madeira logo ao meu lado.

“E aí?”

“Aí a mágica acontece.” Hesitei. “Tá tudo bem, garoto. Confia em mim.”

Puxei a alavanca e a plataforma despencou debaixo de mim. Senti a corda esticar. Meus pés chutavam o ar e minhas mãos arranhavam a corda no pescoço. Tentei gritar, mas só consegui ofegar. Olhei pro Roger pedindo ajuda, mas ele não estava mais lá. Olhei de novo pro auditório, e juro que lá além das luzes eu vi as silhuetas de pelo menos uma dúzia de pessoas me vendo me enforcar devagar, e depois tudo ficou preto.

Acordei no hospital. Contei pros meus pais o que tinha acontecido, mas dava pra ver que eles não acreditaram em mim.

Pelo visto o cenógrafo ainda não tinha construído a plataforma de segurança escondida na forca. Ninguém fazia ideia de quanto tempo eu fiquei pendurado naquela corda.

Mais tarde me contaram que “Roger” era o nome de um dos fantasmas do teatro. Um ator que morreu em 1977 e sempre fazia os vilões. Ele ia pra todas as apresentações de moto, já vestido como o personagem. Na noite de estreia de A Vergonha de Tombstone, perdeu o controle da moto e foi decapitado ao deslizar debaixo de um caminhão de toras. A lenda diz que ele ronda o teatro, cheio de raiva por nunca ter conseguido fazer sua apresentação.

Minha mãe largou o voluntariado, e por um tempão eu não podia nem chegar perto daquele prédio. Não contei nada pra mais ninguém. Pra todo mundo, eu era só um moleque burro que cometeu um erro idiota.

Podem me chamar de louco, mas quando fiz dezoito anos, voltei. Fiz teste pra uma peça e peguei o papel principal. Apesar de tudo que aconteceu comigo, eu ainda sentia o chamado daquele lugar. Tinha algo dentro de mim que nunca soltou. Algo que me dizia que eu encontraria meu destino naquele palco, mesmo com o medo do que tinha acontecido.

Nunca mais vi o Roger e nunca realizei o sonho de fazer sucesso no cinema, mas conheci o amor da minha vida naquelas tábuas velhas em 96. Depois de quase trinta anos, eu não mudaria porra nenhuma. Siga aquilo que te chama, mesmo que você tenha medo disso. Provavelmente você não vai acabar com o que esperava. Pode acabar com algo ainda melhor.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Perseguidor Noturno

Eu moro numa cidadezinha rural bem pequena na Austrália, que você provavelmente nunca ouviu falar. E quando digo pequena, é pequena mesmo. População de uns 250 habitantes, no máximo. Não me entenda mal, eu gosto assim. Paz e sossego. Pelo menos foi por isso que me mudei pra cá. Agora já não tenho tanta certeza.

Desde que comprei a casa aqui, comecei a viver umas coisas estranhas pra caralho. Minha casa fica perto de um valezinho que desce até um riacho. Juro que isso é importante pro cenário. Uns sete dias depois de me mudar, olhei pela janela e vi uma trilha. Uma trilha que definitivamente não estava lá antes. Ela subia direto pelo vale, como se alguma coisa tivesse passado por ali e parado bem no topo. Bem na linha da cerca que separa a casa do precipício do vale. E as coisas não pararam por aí.

Cerca de uma semana depois, eu estava acordado até tarde, rolando na cama sem conseguir dormir. Resolvi fazer um chá e assistir uns filmes de madrugada. Em algum momento da noite, ouvi folhas farfalhando lá fora, bem na janela de onde eu tinha visto aquela trilha na semana anterior. Dei uma espiada discreta e vi alguém correndo vale abaixo. Preocupado que fossem vândalos ou ladrões de olho na minha casa, foi aí que decidi começar um diário, caso precisasse de um registro dos acontecimentos pra entregar pra polícia depois.

Vou colar o diário aqui embaixo, e você tira suas próprias conclusões…

3 de novembro: Aconteceu de novo hoje à noite. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi aqueles passos correndo subindo o vale. Ainda não entendo por que essa porra vem sempre daquele lado. Sei que tem uns drogados locais que moram do outro lado do riacho. Será que estão vigiando minha casa?

12 de novembro: Dessa vez cortaram a cerca. Acordei por volta das 23h com um barulho do caralho. Liguei o refletor do lado de fora e vi que a cerca tinha sido cortada reto. Devem ter usado um alicate de corte. Quem quer que seja, parece organizado pra cacete. Não entendo por que cortaram a cerca e simplesmente foram embora. Talvez pra mostrar força. Coloquei um cadeado no portão. Pode ser que só quisessem provar que nenhum cadeado vai impedir eles, sabe? Começando a ficar com medo pela minha segurança.

15 de novembro: Acordei hoje de manhã e a cerca inteira do lado estava no chão. Cortada dos dois lados. Não faço ideia do motivo de alguém fazer isso. Já denunciei pra polícia local. Investigação em andamento.

18 de novembro: Os drogados lá do riacho foram presos por dano à propriedade. Tomara que isso ponha um fim nessas visitas.

23 de novembro: A janela foi quebrada ontem à noite. Como eu não acordei com o barulho, eu não sei. Janela lateral, aquela que dá pro precipício, claramente quebrada pra dentro, e com o que parecem marcas de arranhões do lado de fora. Já avisei a polícia e o controle de animais. Não sei que porra de bicho faz marcas de garra daquele jeito.

1 de dezembro: Seja lá o que estiver acontecendo, não são os drogados. Eles ainda não voltaram pra cidade. Hoje de manhã, acordei e encontrei pegadas no meu quintal. Não são normais. Grandes demais. Comprei um sistema de CFTV. Tomara que consiga respostas de verdade.

5 de dezembro: Saí da casa. Mais incidentes aconteceram, o que me fez conferir as gravações de segurança. Não denunciei mais nada pra polícia. Muito bizarro. Em duas ocasiões, dava pra ver sombras logo depois da linha das árvores. Na última noite que passei na casa, vi alguma coisa estendendo o braço de dentro das árvores. Um braço longo e magrelo, seguido de uma figura alta, se arrastando pra fora das árvores, subindo o vale e entrando no meu quintal. Das 23h até as 4h da manhã, ficou só parada ali, olhando pela minha janela de vez em quando. Andava pelo quintal, às vezes arrastava os pés até a escada da frente e espiava pelas janelas. Em certos momentos, mais criaturas daquele tipo saíam cambaleando das árvores e se juntavam a ela. Parecia que estavam esperando alguma coisa.

Esse é o fim das minhas anotações no diário. Lá pro final, ficou muito claro pra mim que eu estava lidando com algo que não é desse mundo. O diário deixou de ser uma forma de buscar alguma ação judicial e virou mais um registro dos meus últimos dias, caso algo aconteça comigo.

Não faço ideia do que exatamente vi nas gravações de segurança. Era claramente algo que nós, humanos, não deveríamos presenciar. Eu sei que aqui no interior da Austrália a gente tem uns bichos bem assustadores. Sobrenaturais ou não. E tenho certeza de que vi algo que se encaixa na primeira categoria.

A parte mais assustadora? De um jeito todo torto… parecia que aquilo estava ali pra brincar. Estava me provocando. E eu tenho a sensação de que teria feito coisa bem pior comigo se eu tivesse aparecido na janela. Se eu tivesse reconhecido que sabia que ele estava lá. Parecia que era exatamente essa a reação que ele queria. Um reconhecimento da presença dele. Saber que tinha me pegado de surpresa, me encurralado. Se deliciar vendo o medo da morte nos meus olhos.

Quanto ao motivo de nunca ter entrado na casa? Eu não sei. Talvez tenha entrado. Tinha aquelas marcas de arranhão na parede na noite em que a janela foi quebrada. Talvez tenha entrado naquela noite, e eu nem soube.

Talvez, em muitas daquelas noites, ele tenha ficado bem ali no meu quarto. Só esperando que eu abrisse os olhos…
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon