sábado, 11 de abril de 2026

Os Substitutos

Eu nunca quis as câmeras. Quem quis foi a Sarah.

Depois do arrombamento na casa dois números depois da nossa, ela não conseguia mais dormir. “Só a da campainha e duas internas,” ela disse, segurando o celular como se fosse a salvação da humanidade. “Ring. Barato. Fácil.” Eu estava destruído de tanto fazer turno de doze horas no design e ainda cuidar de duas crianças com menos de oito anos, então acabei cedendo. Vinte minutos no aplicativo, uns parafusos e pronto: estávamos “seguros”.

A primeira semana foi chata de um jeito bom. O Tommy andava de bicicleta na entrada de casa. A Emma girava na sala ao som da música que ela amava. A Sarah acenava pra câmera da campainha quando ia pegar a correspondência. Eu checava o app no trabalho do mesmo jeito que os outros caras checam os placares dos jogos. Parecia normal. Reconfortante.

Até que chegou a terça-feira, quando eu trabalhei até tarde.

Às 21h47, meu celular vibrou com um alerta de movimento na sala. Abri o vídeo achando que ia ver o sofá vazio. Em vez disso, vi a Sarah sentada de pernas cruzadas no chão, ajudando a Emma a montar uma torre de blocos. O Tommy estava esparramado do lado deles, rindo de alguma coisa no tablet. O horário marcava que eles já deveriam estar dormindo há uma hora. Mesmo assim, eu sorri. Era fofo eles terem ficado acordados. Mandei mensagem pra Sarah: “Vocês viraram corujas da noite hoje, hein?”

Ela respondeu na hora: “As crianças estão na cama desde as 8. Eu já tô deitada lendo. Dirige com cuidado.”

Eu fiquei olhando pras duas mensagens, depois voltei pro vídeo. Na tela, a Sarah olhou direto pra câmera e deu aquele sorrisinho apertado que ela faz quando está fingindo que está tudo bem. Era o mesmo sorrisinho tenso que ela me deu na noite em que descobrimos que a Emma ia precisar de cirurgia.

Falei pra mim mesmo que era só um glitch, atraso na nuvem ou carimbo de data errado.

Na quarta-feira aconteceu a mesma merda. Eu estava preso no trânsito quando vi movimento na cozinha. A família na câmera estava comendo sorvete direto do pote às 22h12. O cabelo da Sarah estava preso num rabo de cavalo que ela não usa mais. O pijama da Emma tinha patinhos amarelos; eu tinha jogado aquilo fora meses atrás, quando ela cresceu e não serviu mais.

Quando eu entrei em casa, tudo estava escuro e em silêncio. A Sarah me encontrou no corredor vestindo a camisa velha de dormir. “Tem sobra na geladeira,” ela disse. Nenhum sorvete. Nenhum patinho.

Mostrei o vídeo pra ela. Ela assistiu duas vezes e depois deu uma risada nervosa, aquele mesmo riso que ela dá quando chega a fatura do cartão de crédito. “Que sinistro. Deve ser vídeo antigo.”

Mas o app não guarda vídeos antigos a menos que você pague a mais. E a gente não paga a mais.

Na quinta-feira eu comecei a testar. Saí do trabalho ao meio-dia, falei pra Sarah que tinha consulta no dentista e estacionei três quadras longe de casa. Abri o app e fiquei esperando.

Às 21h03, o alerta de movimento disparou na câmera do quintal dos fundos.

Lá estavam eles: minha família, brincando de pega-pega com lanterna no quintal como se fosse verão, e não uma noite fria de outubro. A risada do Tommy ecoava pelo alto-falante. A Sarah chamava o nome dele com aquela voz cantada que ela usa quando está irritada. Eu me vi saindo pela porta dos fundos na câmera, sorrindo e segurando uma lanterna. Só que eu estava sentado no meu carro, três quadras longe, com o coração batendo tão forte que sentia até nos dentes.

Dirigi pra casa. A casa real estava quieta. A Sarah estava dobrando roupa. As crianças já estavam na cama. Ninguém tinha saído pra fora.

Não dormi aquela noite.

Na sexta-feira eu já estava deletando o app toda manhã e reinstalando, torcendo pra que o glitch sumisse. Não sumiu. Os vídeos só ficavam mais nítidos e mais claros. Comecei a chamar eles de “os substitutos” na minha cabeça. E eles pareciam ter notado as câmeras.

No sábado à noite eu estava no sótão “organizando as decorações de Natal”. Na real, eu estava agachado atrás de uma caixa de álbuns de foto antigos com o brilho do celular no mínimo. Às 23h19, todas as câmeras dispararam ao mesmo tempo.

Transmissão ao vivo.

A Sarah estava na sala, olhando direto pra lente. Não a Sarah de verdade, que estava dormindo lá embaixo, mas a outra. Os olhos dela estavam abertos demais. O sorriso estava errado, como se alguém estivesse usando o rosto dela pela primeira vez. Atrás dela, os substitutos das crianças estavam parados perfeitamente imóveis, com a cabeça inclinada no mesmo ângulo.

Eles começaram a andar na direção da câmera.

Eu ouvi passos na escada abaixo de mim. Passos reais. Leves. Cuidadosos. A voz da Sarah — a minha Sarah — chamou baixinho: “Alex? Tá tudo bem aí em cima?”

Na tela do celular, a Sarah substituta levantou um dedo até os lábios, fazendo “shhh” pra mim, mesmo eu não tendo feito barulho nenhum. Depois ela apontou direto pra lente, direto pra mim, e articulou três palavras que eu consegui ler perfeitamente na luz fraca:

“Ele está lá em cima.”

A porta do sótão rangeu e se abriu atrás de mim.

Eu não me virei. Não consegui. Meus olhos ficaram grudados na transmissão ao vivo. Nela, a família substituta subia as escadas em sincronia perfeita com os passos reais que eu agora ouvia nos degraus do sótão.

A voz da Sarah, quente e preocupada, disse: “Amor, as crianças estão perguntando onde você foi. Desce.”

Na tela, a Sarah substituta chegou no topo da escada e olhou direto pra câmera uma última vez. Ela sorriu do jeito que minha esposa sorri quando está prestes a dizer que me ama. Só que esse sorriso continuou crescendo. Mais largo. Dentes demais.

Finalmente eu me virei.

A Sarah de verdade estava parada na porta do sótão, iluminada por trás pela luz do corredor. Ela parecia exausta, linda e normal.

Atrás dela, três figuras esperavam na escada. Cópias perfeitas, com as mesmas roupas, o mesmo cabelo e os mesmos olhos cansados. Elas não estavam respirando.

A Sarah, a minha Sarah, olhou por cima do ombro pra elas e depois voltou pra mim. A voz dela saiu baixa: “Eles disseram que você ia entender com o tempo.”

Olhei pra baixo, pro meu celular. A transmissão ao vivo agora mostrava o sótão do ângulo da câmera. Mostrava eu parado ali, celular na mão, olhos arregalados.

E mostrava quatro figuras atrás de mim.

Uma delas levantou a mão e acenou.

A câmera da campainha apitou. Movimento na porta da frente.

Abri o novo alerta com os dedos tremendo.

Lá estava eu na varanda, sorrindo pra minha própria porta da frente como um estranho. A mesma camisa de flanela que eu estava vestindo agora. A mesma barba por fazer das cinco da tarde. Os mesmos olhos cansados.

Mas o eu da varanda levantou a mão e bateu três vezes. Educado. Paciente.

O substituto eu articulou as mesmas três palavras que a Sarah falsa tinha dito:

“Ele está lá em cima.”

Eu ouvi a porta da frente de verdade se abrindo lá embaixo.

O app tocou de novo com um novo alerta de movimento dentro de casa agora.

Eles estavam subindo.

Fechei o app. Não precisava mais assistir.

Porque em algum lugar no escuro, a versão de mim que acabou de entrar pela porta da frente já está sorrindo daquele sorriso errado, já está aprendendo a usar o meu rosto.

E as câmeras nunca mentem.

Elas só me mostraram exatamente quanto tempo eu ainda tenho antes de virar o glitch.

Meu colega de carona tem me levado de carro passando pela mesma mulher duas vezes por dia há três meses. E ontem à noite ela me disse que eu nunca deveria ter visto ela

Preciso de ajuda e não sei mais pra quem perguntar. Estou digitando isso do banheiro da minha casa com a porta trancada porque não confio mais no meu próprio apartamento agora. Vou tentar explicar tudo com clareza, mesmo que minhas mãos estejam tremendo tanto que eu fico apertando as teclas erradas.

Eu faço carona com uma colega de trabalho. Vou chamá-la de M. A gente se conheceu no serviço uns seis meses atrás e, há três meses, ela se ofereceu pra me levar e trazer do escritório porque a gente mora no mesmo bairro e a gasolina tá cara pra caralho. Eu aceitei. Ela é quieta, simpática, coloca uma música baixa no carro e as viagens costumam ser a parte mais tranquila do meu dia.

Ontem de manhã eu estava olhando pela janela no caminho pro trabalho e reparei num hidrante de incêndio vermelho numa esquina que a gente passou. Uma mulher estava passeando com um cachorrinho marrom bem na frente dele. Não pensei nada.

Ontem à noite, no caminho de volta pra casa, vi o mesmo hidrante. E a mesma mulher. E o mesmo cachorro. Andando na mesma direção, passando pela mesma esquina, no exato momento em que nosso carro passou.

Eu comentei com a M como se fosse uma coincidência engraçada. Falei algo tipo: “Que estranho, a mesma mulher com o cachorro dela duas vezes no mesmo dia.”

As mãos da M apertaram o volante com força. Ela não olhou pra mim. Só disse “ah, é, isso acontece às vezes” com uma voz que tentava muito soar normal e falhava completamente.

Não pensei mais nisso até chegar em casa. Aí eu abri o histórico do GPS no meu celular, aquele que rastreia minha localização automaticamente. Toda manhã, mesma rota pro trabalho. Toda noite, mesma rota pra casa. Todo dia, durante três meses, passando pela mesma esquina mais ou menos no mesmo horário.

E toda vez, aquela mulher estava lá. Eu revisei minha memória com cuidado. Nas viagens da manhã, eu lembrava dela passeando com o cachorro numa direção. Nas viagens da noite, eu lembrava dela passeando com o cachorro na mesma direção. Ela nunca volta. Em três meses de caronas, eu nunca vi ela andando no sentido contrário nem uma única vez.

Isso não é possível. Ela teria que andar pra algum lugar e voltar. A não ser que ela só ande numa única direção. A não ser que ela esteja sempre naquela esquina exatamente naqueles dois horários todos os dias.

Não consegui dormir ontem à noite. Fiquei pensando na voz da M quando ela disse “isso acontece às vezes”.

Hoje de manhã entrei no carro dela normalmente. Eu ia perguntar sobre isso. Não tive chance. Assim que fechei a porta, ela disse bem baixinho: “Por favor, não olha pro hidrante hoje. Por favor. Só fica olhando pro seu celular até a gente passar.”

Eu perguntei do que ela estava falando. Ela disse: “Se ela souber que você reparou nela, ela te segue até em casa. Eu estou tentando impedir que ela te note há três meses. Achei que a gente estava seguro. Ontem à noite você me disse que viu ela. Isso significa que ela sabe. Ela sempre sabe quando alguém fala em voz alta.”

Eu perguntei quem era “ela”.

A M disse: “Eu não sei o que ela é. Só sei que ela anda naquela esquina. De manhã e de noite. Ela está andando ali desde antes de eu começar a trabalhar na nossa empresa. O colega que me levava antes me contou as regras. Não olha pra ela. Não menciona ela. Não deixa ela ver que você viu ela. Ele disse que estava tentando passar a rota pra mim porque já dirigia esse caminho há quatro anos e estava cansado pra caralho.”

Eu perguntei onde ele está agora.

Ela não respondeu por um bom tempo. Depois disse: “Ele parou de vir trabalhar mais ou menos há seis meses. O apartamento dele ainda está alugado. O carro dele ainda está no estacionamento da empresa. Ninguém teve notícia dele. Eu passei de carro na frente da casa dele uma vez pra checar e a luz da varanda estava acesa, e uma mulher estava passeando com um cachorrinho marrom na frente da casa dele.”

Eu perguntei por que ela não me contou nada disso quando se ofereceu pra fazer carona comigo.

Ela disse: “Porque eu precisava de outra pessoa no carro comigo. Ela se interessa menos quando tem duas pessoas. Desculpa. Eu sinto muito. Eu ia te contar eventualmente, depois que ela se acostumasse com você. Achei que a gente tinha mais tempo.”

Quando a gente chegou na esquina hoje de manhã, eu não consegui me controlar. Eu olhei. Eu precisava saber se ela realmente estava lá.

A mulher com o cachorro estava parada. Não estava andando. Estava parada bem embaixo do hidrante, de frente pro nosso carro, olhando pra gente passar. Ela tinha um rosto completamente normal. Ela sorriu pra mim. O cachorro não se mexeu.

A M começou a chorar em silêncio. Ela não disse mais nada durante o resto do caminho. Quando chegamos no trabalho, ela estacionou, desligou o carro e me falou: “Vai pra casa. Fala que tá doente. Não usa o meu carro. Não usa nenhum carro. Vai andando se precisar. Quando chegar em casa, tranca a porta, fecha as cortinas e não abre a porta pra ninguém hoje à noite, por nada nesse mundo. Nem pra mim. Nem pra um vizinho. Nem pra ninguém. Eu vou tentar levar ela pra outro lugar, mas não sei se vai dar certo.”

Eu peguei um táxi pra casa. Tranquei tudo. Fechei todas as cortinas. Estou sentado no banheiro porque é o único cômodo do apartamento sem janela.

Uma hora atrás eu ouvi passos do lado de fora da minha porta. Lentos. Pacientes. Eles pararam bem na frente do meu apartamento. Depois eu ouvi alguma coisa pequena e viva respirando do outro lado da porta. Um cachorro. Bem do outro lado da minha porta. Sem latir. Sem ganir. Só respirando.

Então eu ouvi a voz de uma mulher, bem calma, dizer: “Você não era pra ter me visto. Mas já que viu, achei que eu devia me apresentar direito.”

Eu não me mexi. Não fiz nenhum barulho. Meu celular está com 14% de bateria.

A respiração ainda está lá. Ela não bateu na porta. Está esperando alguma coisa. Não sei o quê. Acho que ela está esperando eu fazer algum som pra saber exatamente em qual cômodo eu estou.

A M não está respondendo minhas mensagens. Eu tentei ligar pra ela três vezes. Cai direto na caixa postal. A última mensagem que mandei pra ela só diz “ela está na minha porta” e foi marcada como lida, mas sem resposta.

Eu estou pedindo pra qualquer pessoa que ler isso. Se você já viu uma mulher passeando com um cachorrinho marrom no mesmo lugar duas vezes por dia, todo dia, e você reparou nisso e falou em voz alta pra alguém, por favor me conta o que aconteceu depois. Por favor me conta o que ela quer. Por favor me conta se a M ainda está viva, porque a última coisa que ela me disse foi que ia tentar levar ela pra outro lugar, e eu acho que “outro lugar” queria dizer o apartamento dela mesma.

A respiração acabou de parar.

Não sei se isso é melhor ou pior.

Vou esperar até de manhã. Vou deixar o celular no silencioso. Não vou abrir essa porta por nada.

Se alguém tiver alguma informação, por favor responde. Eu vou checar isso quando a bateria deixar.

Por favor, se apressa.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Minha caneca sumiu da minha mesa. Alguém viu?

Não consigo lembrar exatamente os resultados que apareceram quando pesquisei isso, mas alguma coisa apareceu. Fiquei meio perturbado. Qual era a chance de alguém ter passado pelo mesmo problema?

Não era só um caso de “ah, que burro, eu levei ela pro banheiro e deixei lá depois de cagar”.

Eu dei um gole no café e coloquei a caneca de volta no descanso, bem de leve. Dois segundos depois, quando olhei pra ver se ela estava centralizada, ela tinha sumido.

A mesma coisa tinha acontecido com alguém na internet, ou pelo menos foi o que a pessoa alegou. Tragicamente, ninguém respondeu.

Depois de alguns momentos de descrença, eu me gaslightei e me convenci de que tinha levado a caneca lá pra baixo e simplesmente imaginado aquele último gole.

Procurei na pia, nas mesas, na geladeira… caralho, eu até olhei dentro da lareira. Era uma caneca branca simples, com um adesivo de gato.

A cor dela contrastava com a maioria dos móveis, então eu descartei rápido a ideia. Se não estava lá embaixo, então ela simplesmente tinha desaparecido e não era mais problema meu. Eu tinha que voltar pro trabalho.

Aí eu me vi diante de uma escolha: ou subia pro andar de cima ou fazia outro café primeiro. Escolhi a segunda opção.

Nesse momento, preciso mencionar que todos os copos e canecas que eu tenho são diferentes uns dos outros. Eu nem tenho duas canecas iguais.

Então, quando abri o armário, com certeza não esperava que ele estivesse lotado até o topo com aquelas canecas brancas sem graça. Na verdade, todos os armários estavam assim.

Minha primeira reação foi esfregar os olhos, torcendo pra estar sonhando. Quando percebi que não estava, minha curiosidade foi substituída por algo que eu nunca tinha sentido antes.

Não era medo. Era algo mais primitivo. Uma sensação que revirava o estômago e me dava vontade de arrancar a própria pele.

No meu delírio, comecei a revirar a cozinha inteira. E não era só nos armários. A geladeira que eu tinha checado cinco minutos antes também estava transbordando de canecas. Acho irônico que nenhuma delas era a caneca que eu estava procurando.

Tentei me agarrar a várias esperanças, mas não conseguia deixar de descartá-las. Ninguém estava pregando uma peça em mim; nenhum ser humano conseguiria fazer uma coisa dessas. E eu não estava imaginando.

Eu conseguia sentir fisicamente meu sangue esfriando a cada nova caneca que encontrava. Elas não se limitavam à cozinha. Apareciam em lugares que eu tinha verificado poucos minutos antes. Eu devia parecer um louco tentando acompanhar o ritmo.

Pelo menos a brisa do ar-condicionado roçando no meu pescoço me ancorava na realidade. Respirei fundo e tentei pensar em alguma explicação possível. Como nada veio à mente, decidi que o melhor era me trancar no quarto. Talvez, se eu me sentisse mais seguro, conseguisse descobrir um jeito de superar… fosse lá o que isso fosse.

Antes de fazer isso, desliguei o ar-condicionado. Pelo menos eu ainda tinha controle sobre a conta de luz.

Parecia uma onda de desrealização. Meu coração batia forte contra as costelas, ameaçando quebrá-las. Minha respiração ficou descontrolada e entrecortada. Por um momento, tive a sensação de que estava olhando pro ar-condicionado já desligado em terceira pessoa.

Não tinha nenhuma janela aberta. Nenhuma ventilação. O ar-condicionado estava desligado. Alguém tinha respirado no meu pescoço.

Corri em direção à escada, subindo desesperado de quatro, e quando finalmente cheguei no meu quarto, tranquei a porta sem olhar pra trás.

A falsa sensação de segurança evaporou rápido na forma de inspirações e expirações rápidas e erráticas. Eu tinha acabado de me prender ali. Liguei pras autoridades e disse que alguém tinha invadido minha casa. De jeito nenhum eles iam acreditar na minha história.

Sem saber o que fazer, fiquei andando de um lado pro outro no espaço pequeno, ansioso. Eu me arrependo de ter olhado pra minha janela.

Duas marcas de mão, os vestígios de respiração quente entre elas, e um bilhete. Inconfundível. Caí de joelhos, com os olhos fixos naquela cena brutal. Será que eu tinha enlouquecido?

Minha janela fica uns 6 metros acima do chão. Não tinha parapeito, sacada, nada pra pisar.

A ideia de alguém olhando pra mim pela minha própria janela, impossivelmente elevado acima do chão, foi o suficiente pra me dar vontade de pular.

O bilhete. O bilhete era a pior parte.

“Encontre a caneca, ou você é o próximo.”

Tá de brincadeira, porra? Alguma coisa com habilidades incompreensíveis estava me perseguindo, me colocando numa situação impossível, e a única coisa que ela tinha pra me dizer era pra encontrar uma caneca idiota? E o que diabos significava “você é o próximo”?

Um barulho repentino bem atrás de mim me fez pular pra trás. Precisei de toda a força que eu tinha pra me virar. Uma trilha. Uma trilha de canecas brancas simples, as mesmas que tomaram conta da minha casa. Ela levava pro meu armário.

“É, foda-se, eu não vou fazer isso”, eu lembro de ter dito pra mim mesmo, incrédulo.

Não foi aquela abertura lenta e arrepiante de porta que a gente vê nos filmes. Foi barulhento. Violento. Parecia um chute.

Foi aí que um pensamento me passou pela cabeça.

E se o fim da trilha não fosse no armário, mas bem nos meus pés?

E se eu não fosse o responsável por seguir a trilha, mas sim o que quer que estivesse dentro do meu armário?

O que saiu de lá foi o ser mais visceral que alguém pode imaginar. Era eu mesmo. Uma versão mutilada e grotesca de mim.

Minhas órbitas oculares estavam esticadas à força pra abrigar duas canecas brancas. Meu maxilar estava quebrado e minha boca parecia grande demais pro meu rosto comportar.

A voz dele saiu distorcida e com um tom agudo anormal, dizendo coisas como:

“Dói! Dói pra caralho!”

“Me mata!”

“Meu Deus, como dói!”

Meu peito apertou e o quarto começou a girar. Acho que dei alguns passos pra trás e acabei caindo pela janela, que eu nem lembro de ter aberto.

Fui encontrado pelos policiais quando eles chegaram e depois fui levado correndo pro hospital. Apesar da queda, meus ferimentos foram leves, embora eu tenha sofrido uma parada cardíaca por causa do puro terror do encontro.

Estou escrevendo isso de uma cama de hospital. A polícia me disse que alguém estava morando dentro das paredes da minha casa nos últimos doze anos. Tinha túneis ligando meu armário ao sótão e ao banheiro de baixo.

Eu sei que isso não é algo pra se levar na brincadeira, mas não explica nada do que eu passei. Nenhuma pessoa normal seria capaz de fazer nada daquilo. O que era aquela coisa que eu vi? Aquela versão apavorante de mim ainda está por aí.

Estou tão desesperado por respostas que vou fazer o que o bilhete mandou. Não quero descobrir o que “ou você é o próximo” significa.

Não acho impossível que a caneca esteja do outro lado do mundo agora. É uma caneca branca feita sob medida, com um adesivo de um gato de smoking. Eu sei que a descrição não ajuda porra nenhuma, mas realmente não tem mais nada.

Por favor, me ajudem. Estou desesperado e não sei o que fazer.

Observação: Isso pode ser coincidência, mas todas as pessoas aqui estão bebendo nas mesmas canecas que inundaram meu apartamento. Estou morrendo de medo, porra.

Minha Última Memória

A gente sempre chama de coincidência — aqueles momentinhos comuns e bobos que parecem um pouco errados. Você está tomando seu café e o ar fica frágil de repente, uma geada repentina que não tem nada a ver com o tempo lá fora. Você culpa a corrente de ar. Você sempre culpa. Mas não era corrente de ar. Era o quarto ficando lotado.

Aqui vai um desses incidentes que, quando olho para trás, acho que não foi só uma coincidência qualquer. Ou talvez eu esteja pensando demais.

18 de dezembro de 2016

Era uma noite de inverno bem fria e amarga. Eu estava curvado na cadeira, com a luz azul da tela do laptop vazando para dentro da escuridão do quarto. Tentava forçar uma história de terror a existir; a atmosfera estava perfeita, mas as páginas continuavam teimosamente vazias. Não tinha nada de assustador no que eu escrevia — pelo menos ainda não.

Estiquei a mão para pegar minha garrafa laranja de cobre, mas recuei por um segundo. Ela estava grossa de ferrugem, com uma película escura e opaca cobrindo o metal que eu tinha polido até ficar brilhando só algumas horas antes. Eu até conseguia sentir o cheiro — aquele cheiro forte e metálico de moedas antigas. “Talvez o ar esteja úmido demais”, disse para mim mesmo, uma desculpa fraca para explicar como o metal tinha azedado tão rápido. Ignorei a intuição apertando meu peito e voltei para a tela.

— Mamma, você pode encher isso pra mim? Tô no meio de uma coisa aqui.

Nenhuma resposta.

— Mamma? Você tá aí? — Levantei a voz, mas a casa não deu nem um rangido de tábua do assoalho em resposta. Era um silêncio pesado, sufocante.

“Ela deve estar só assistindo TV com a porta fechada”, pensei. Mas um pensamento gelado não me largava: mesmo com a porta dela fechada, eu deveria estar ouvindo o zumbido abafado do jornal ou o piscar de uma comédia. Em vez disso, só havia... nada. Fiquei na cadeira, usando a preguiça como escudo contra o desconforto que só crescia.

Consegui escrever duas páginas inteiras. De repente, a história começou a fluir, ficando sombria e visceral — tanto que os pelos dos meus braços começaram a se arrepiar. Mas os arrepios não vinham das palavras na tela.

Vinham do som.

Um rangido ritmado, estalando, como botas pesadas pisando em tábuas de madeira antigas. Era inconfundível. Continuei digitando, com os dedos tremendo um pouco enquanto tentava racionalizar aquilo. “Minha cabeça só tá pregando peças por causa da história”, pensei. “Essa casa é toda de piso de mármore. Não tem madeira nenhuma aqui pra ranger.”

Mas o som não parava.

A sede ficou insuportável, uma dor seca na garganta que me tirou da cadeira. Peguei a garrafa enferrujada e me levantei.

— Mamma, sério, que porra tá acontecendo?

Caminhei até a porta. Ela estava um pouco entreaberta, revelando só uma fresta do corredor completamente preto lá fora.

“Espera, o corredor tá escuro demais. Deixa eu só... acender as luzes.”

Eu estava falando sozinho. Eu nunca falo sozinho, a não ser quando tento abafar um silêncio que parece pesado demais. Acionei o interruptor da luz principal do quarto. Por uma fração de segundo, enquanto a lâmpada zumbia e acendia, eu vi — uma mancha de preto absoluto no canto, escondida atrás das dobras grossas das cortinas.

“Só uma ilusão”, sussurrei. “Pareidolia. O cérebro é só uma máquina de reconhecer padrões jogando xadrez às cegas consigo mesmo. Ele vê um rosto numa nuvem; vê um fantasma numa sombra. Nada mais.”

Eu me agarrei àquela explicação, mesmo enquanto uma tensão fria e afiada apertava entre meus pulmões.

Mas então olhei para a porta.

Meu quarto estava inundado de luz, mas o corredor continuava um vazio sólido e impenetrável. Mesmo com a porta bem aberta, nem um único fóton parecia cruzar o limiar. Era como se a escuridão lá fora estivesse faminta, devorando ativamente a luz antes que ela conseguisse escapar do quarto.

Tentei forçar meu cérebro de volta para a zona de conforto. “Fenômenos paranormais não existem”, disse para mim mesmo. “A ciência tem resposta pra tudo. Talvez fosse uma interferência eletromagnética alta (EMI) causando uma alucinação localizada? Ou talvez o ar do quarto tivesse ficado tão incrivelmente denso que eu estava testemunhando uma ocorrência rara de Reflexão Interna Total (TIR), presa dentro do limite da porta.”

Mas a lógica falhou assim que se formou. Para uma TIR acontecer naquela escala, o ar do meu quarto teria que estar denso o suficiente para esmagar meu peito. Eu não conseguiria respirar, muito menos ficar de pé.

Naquele momento, percebi que eu não estava só racionalizando. Eu estava mentindo para mim mesmo para não gritar.

“Tá bom, Avinash! Não é nada. É literalmente nada. Só entrar no corredor, acender as luzes, ir até a cozinha e encher a garrafa. Só isso. Talvez eu dê uma olhada na Mamma no caminho de volta.”

Me forcei a cruzar o limiar. A escuridão não só me cercou; ela parecia pesada, como se eu tivesse mergulhado no oceano e mexido sem querer na lama do fundo. Num vazio turvo daquele tipo, você não consegue ver sua própria mão na frente do rosto. Só precisa confiar na corda de segurança. Minha “corda” era a propriocepção — o mapa interno que meu cérebro tinha da minha própria casa. Eu não precisava de olhos para achar o quadro de interruptores; meus músculos já sabiam o caminho.

Meus dedos encontraram o plástico frio do interruptor. Acionei.

Nada. O corredor continuou um bloco sólido de preto.

“Ah... interruptor errado. Foi mal. Deixa eu tentar de novo.” Eu me ouvi rindo — um som irregular e agudo, que estava a meio caminho de um grito. Eu fazia o maior barulho possível, tentando sufocar o silêncio aterrorizante da casa.

Acionei o próximo interruptor. Ainda nada.

“Acho que as lâmpadas queimaram. São velhas... isso é perfeitamente normal.” Eu falava cada vez mais rápido, com a respiração engasgando na garganta. “Tão normal quanto a temperatura. O corredor só está... naturalmente mais frio que o resto da casa. Termodinâmica. É tudo só física.”

Continuei rindo, mas o som saía oco, ecoando nas paredes de mármore como se pertencesse a outra pessoa.

De repente, eu senti. Uma lufada de bafo gelado contra meu ombro direito.

Cada célula do meu corpo começou a gritar, mas minha garganta era um deserto; eu não conseguia emitir som nenhum. Meu coração não estava só acelerado — ele martelava contra minhas costelas como um animal preso tentando escapar da jaula. Comecei a recuar, um passo trêmulo de cada vez, voltando para o santuário do meu quarto.

Acelerei, com os calcanhares batendo freneticamente no mármore, quando uma mão — morta de fria e impossivelmente forte — agarrou meu pulso esquerdo por trás.

— Socorro! SOCORRO!

O grito finalmente rasgou de dentro de mim. Eu me lancei para frente, arrancando o braço com tanta violência que senti a pele rasgar. Unhas longas e afiadas arranharam minha carne. Não parei para olhar para trás. Mergulhei no quarto e bati a porta, mexendo no trinco até a trava encaixar com um clique.

Desabei contra a madeira, ofegante. Olhei para minha mão. Estava uma bagunça; sangue quente e escuro já pingava das pontas dos meus dedos, manchando os azulejos brancos. Isso não era truque de luz. Era físico.

Eu me arrastei até a janela, desesperado para ver um vizinho, um carro — qualquer coisa que pertencesse ao mundo real. Puxei as cortinas com força, esperando o brilho familiar dos postes de rua.

Nada.

O mundo lá fora era um vazio de escuridão absoluta, preta como tinta. Não havia veículos, nem postes, nem sequer a silhueta da casa do outro lado da rua. Não fazia sentido. Ontem tinha sido lua cheia, mas hoje à noite o céu era uma prisão. Nuvens grossas e antinaturais tinham engolido a lua inteira, devorando até a última gota de luz, como se o próprio universo tivesse sido apagado.

Uma batida ritmada e forte soou contra a madeira. Eu me virei rápido, com a respiração presa na garganta, só para ver o impossível: a porta que eu tinha acabado de trancar estava escancarada.

Não era mais só um corredor lá fora. A escuridão invadia meu quarto como uma maré física, grossa e parecida com tinta, engolindo o piso. Eu recuei desesperado, com as mãos procurando freneticamente na escrivaninha por qualquer coisa — uma caneta, um abajur — algo para usar como arma. Mas antes que eu conseguisse pegar qualquer coisa, a lâmpada do teto piscou uma vez e morreu.

O blecaute foi total.

A única coisa que eu conseguia ouvir era o som molhado e irregular da minha própria respiração e o tum-tum pesado do meu coração. Então lembrei do celular no meu bolso. Minhas mãos tremiam tanto que quase o deixei cair, mas consegui deslizar na tela e apertar o ícone da lanterna.

O feixe de luz cortou um buraco irregular na escuridão. Eu varri o quarto — nada. Virei de volta para a janela — nada. Então eu senti.

Duas mãos, frias como terra de túmulo, cravaram nos meus ombros por trás.

Eu girei a lanterna, e o feixe pegou um rosto a poucos centímetros do meu. Era um pesadelo irregular e esquelético — pele esticada como pergaminho cinza sobre um crânio, olhos afundados em poços podres de sombra. Não gritou; só ficou olhando, com a boca puxada num sorriso largo e sem lábios.

O mundo inclinou. A lanterna caiu da minha mão e tudo ficou preto.

Acordei com o cheiro esterilizado e cortante de antisséptico e o bipe-bipe constante de um monitor cardíaco. Minha cabeça estava pesada, enrolada em camadas grossas de gaze. Segundo a Mamma, ela me encontrou caído no corredor, inconsciente e sangrando muito dos cortes no braço. Ela não tinha ouvido nada — nem gritos, nem passos, nem batidas. Só o som do meu corpo batendo no piso de mármore.

O contraste é o que me assombra. Para a Mamma, a cena foi mundana, quase chata. Sem gritos, sem luta, sem escuridão impossível. Na versão dela da realidade, eu simplesmente escorreguei no mármore polido e bati a cabeça — um acidente rotineiro causado por um corredor escuro e um pouco de desajeito.

Mas conforme a ardência do antisséptico vai passando, meu cérebro científico já está descartando a teoria dela. Ele está procurando uma nova hipótese para explicar os dados. Se eu descarto o paranormal como “não comprovado”, sobra um terror bem mais clínico.

Esquizofrenia. Os sintomas encaixam com uma precisão aterrorizante: alucinações auditivas (o rangido da madeira), distorções visuais (a escuridão “faminta”) e delírios táteis (o bafo frio, as mãos nos meus ombros). Talvez os cortes no meu braço não tivessem vindo de unhas, mas dos meus próprios movimentos frenéticos e inconscientes contra os móveis.

Estou numa encruzilhada do medo. Um caminho leva a um mundo onde fantasmas são reais e as leis da física podem ser quebradas. O outro leva a um mundo onde minha própria mente é uma traidora, uma “prisão de escuridão” da qual eu nunca vou conseguir escapar.

Não sei qual dos dois eu estava rezando para ser verdade.

Fui liberado dois dias depois. A psiquiatra foi clínica, profissional e totalmente desinteressada. Depois de uma bateria de testes, ela disse que meu cérebro estava funcionando dentro de parâmetros perfeitamente normais.

— Não é esquizofrenia, Avinash — disse ela, rabiscando na prancheta. — E com certeza não são fantasmas. Você andou consumindo muita “porcaria de terror” enquanto escrevia sua história. Quando você escorregou e bateu a cabeça, seu cérebro entrou num estado de consciência parcial. Você estava sonhando acordado, alimentado pela própria adrenalina criativa. Sua mente só preencheu as lacunas com os monstros que você já estava pensando.

Eu queria acreditar nela. Cientificamente, fantasmas não têm massa mensurável, nem assinatura de energia, nem lugar nas leis da termodinâmica. Se não estão comprovados, eles não existem.

Naquela noite, meu amigo Abhinav passou lá para ver como eu estava. Contei tudo pra ele — a escuridão, os arranhões, a dispensa da psiquiatra.

— Você deve ter feito alguma coisa que ofendeu eles — disse Abhinav, com a voz baixa. — O que quer que esteja nessa casa... você devia só pedir perdão.

Eu ri, embora tenha soado forçado.  
— Pedir perdão pra quem, Abhinav? Pros meus próprios neurônios? Se eu me desculpar com uma sombra, só vou treinar meu cérebro pra acreditar na mentira. A ciência não comprovou fantasmas, então eu me recuso a reconhecer eles.

Abhinav foi embora pouco depois, parecendo preocupado. Fui dormir cedo, me agarrando às palavras da psiquiatra como se fossem uma boia salva-vidas. Era só um sonho. Uma concussão. Porcaria de terror.

Mas naquela noite, a escuridão voltou.

Dessa vez não veio com batidas. Não teve bafo frio no ombro, nem luta desesperada na porta. Foi muito pior.

Enquanto eu estava deitado, senti o colchão afundar ao meu lado. Foi uma depressão lenta e pesada, como se alguém — ou alguma coisa — tivesse acabado de sentar bem do lado do meu quadril. Eu conseguia sentir o frio irradiando através dos cobertores. Fiquei olhando para o espaço vazio na cama, com o coração vibrando de um terror que nenhum livro didático conseguiria explicar.

No silêncio esmagador, uma memória do meu professor de Física veio à tona, um aviso que eu tinha descartado meses antes:

“Só porque algo não foi comprovado pela ciência, não significa que foi desprovado.”

Percebi então que a ciência não era um escudo. Era só um mapa das coisas que a gente entendia. E eu estava dividindo minha cama com algo que não estava nesse mapa.

Aliás, esse foi o último episódio que aconteceu comigo. Voltando para 2026, não teve mais nenhum. Mas essa história minha, que eu mandei pro meu amigo que literalmente publicou isso nessa plataforma, literalmente me deu uma saída.

Como Avinash, eu ignorei eles demais, e eles cansaram disso. Queriam provar a presença deles pra um cara científico e mal-educado.

Mas enfim, obrigado por ler minha história. Embora talvez eu te encontre em breve, se você não se importar com alguém deitado na sua cama ao seu lado.

Obrigado por ouvir minhas palavras e por me dar permissão pra ficar.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon