terça-feira, 14 de abril de 2026

Alguém mais foi ao médico da noite?

Quando eu era criança, eu ficava doente o tempo todo. Era uma batalha crônica de febres que pareciam ferver o cérebro e dores no corpo que me deixavam imóvel. Passava longas noites curvado sobre a privada enquanto minha mãe ou meu pai esfregava círculos nas minhas costas, cansado, só pra me consolar. Parecia que eu pegava cada vírus ou bactéria que andava por aí. Mesmo assim, meus pais sempre me chamavam de “filho milagroso”. Pelo que me contaram, quando eu nasci, não era provável que eu saísse da UTI neonatal, mas eu era um lutador.

Minha mãe sempre dizia:  
“Qualquer coisa que você pega uma vez só te deixa mais forte!”

Eu tentava acreditar nela.

Alguns dias eu tinha medo de nunca mais ficar bem.

Eu vivia entrando e saindo de consultórios médicos. Estava acostumado a passar longas horas debaixo daquelas luzes fluorescentes doentias das salas de espera, sentado em cadeiras duras e desconfortáveis, jogando no meu Game Boy Color até a bateria acabar, depois lendo aquelas revistas chatas de saúde só pra dar risada das palavras grossas e dos diagramas estranhos até a enfermeira me chamar.

Foi por causa dessa familiaridade toda com consultórios que eu passei anos tentando descobrir se a história que vou contar agora realmente aconteceu ou se era só um collage surreal de experiências inventadas pelo meu subconsciente hiperativo pra preencher as lacunas. Sabe como eventos distintos do passado acabam se misturando com o tempo? Você pode confundir um sonho de infância ou um programa de televisão com uma memória real, mesmo que o conteúdo pareça impossível.

Mas aquelas noites grudam nos cantos mais fundos do meu cérebro como um mofo que vai se espalhando. Toda vez que eu me atrevo a lembrar de uma, os detalhes são vívidos, dolorosos e exatamente iguais.

As memórias são reais. Eu sei que são. Eu tenho cicatrizes pra provar.

Aqui vai uma memória de quando eu tinha dez anos. Eu lembro de acordar suando embaixo dos meus lençóis do Homem-Aranha. O relógio digital na mesinha de cabeceira brilhava em vermelho: 11:59 PM. Eu me senti paralisado de medo, tão em pânico que não conseguia respirar nem gritar por ajuda, mas não sabia por quê. Conseguia distinguir as formas da minha escrivaninha, do abajur, do armário e do meu estegossauro de pelúcia na cadeira de balanço no canto. Tinha outra forma também, e eu percebi que não tinha sido o calor que me acordou.

Tinha um homem grande parado no meu quarto, bem do lado da minha cabeça. Ele estava me olhando. A luz vermelha do relógio se refletia nos óculos dele.

Eu gritei pelos meus pais com toda a força dos meus pulmões. Eles entraram, acenderam as luzes e tentaram me acalmar. O homem ainda estava lá, e ele parecia pálido e igualmente assustador sob a luz. Era um homem mais velho, mais alto que o meu pai, com o rosto afundado e papadas caídas. Os olhos dele eram fundos, por baixo de pálpebras pesadas. Pareciam pequenos demais pras órbitas, como se ele estivesse espiando de trás da própria cara. Ele me lembrava uma máscara de látex de velho que eu tinha visto no Walmart uma semana antes. Meio derretida e oca.

Eu lembro da minha mãe pedindo desculpas pra ele, e do meu pai se abaixando pra falar comigo.

Eles o chamavam de Dr. Moris. Eu odiava ele. Me disseram que ele ia me fazer algumas perguntas e me examinar, e depois eu poderia voltar a dormir.

Na hora eu não soube o que dizer, mas lembro de ter pensado que estava tudo mais ou menos bem. Como meus pais não estavam alarmados, eu deixei rolar.

Dr. Moris sentou na beira da minha cama e pediu um braço, depois o outro. Minhas mangas já estavam dobradas. Ele tirou uma fita métrica do bolso do jaleco e mediu os dois braços: primeiro do ombro até o cotovelo, depois do cotovelo até o pulso. Fez o mesmo com as minhas pernas. Depois, com a minha coluna.

Ele perguntou se eu praticava esportes e se eu me dava bem com as outras crianças. Eu disse que sim. Eu jogava futebol e tinha uns amigos na rua de baixo.

O médico só balançava a cabeça, concordando.

“Nós vamos nos ver bastante a partir de agora”, eu lembro dele dizendo, ou algo parecido. “Se você quiser crescer grande e forte, vou precisar te ver enquanto você cresce.”

Ele se levantou, disse alguma coisa baixinho pros meus pais e pronto. Saiu do quarto tão rápido quanto tinha chegado.

Meus pais me cobriram e eu voltei a dormir, cansado demais pra fazer qualquer pergunta.

A próxima memória estranha começa comigo acordando de novo. O relógio digital mostrava 11:30 PM em vermelho brilhante. O alarme estava tocando, com aquele mesmo som repetitivo e o barulho de passarinho rouco que eu ouvia toda manhã antes da escola. Achei que tinha sido engano. Desliguei. Aí minha mãe entrou e mandou eu entrar no carro. Perguntei por quê e ela me lembrou que eu tinha uma consulta.

Eu lembro de estar sentado no banco de trás tentando não dormir no caminho. Acho que acabei dormindo, porque a próxima coisa que lembro é estar numa sala com paredes brancas e teto popcorn, deitado numa maca acolchoada. Tinha um buraco num dos ladrilhos. Eu ficava olhando pra aquele ponto escuro e vazio, sonolento demais pra me mexer ou olhar pra qualquer outra coisa.

Uma enfermeira entrou depois de um tempo e me perguntou coisas tipo quantos anos eu tinha e quais programas de TV eu gostava enquanto media meus sinais vitais. Eu falei com ela um bom tempo sobre The Electric Company. Ela desenhou um X no meu braço direito.

A enfermeira trouxe uma segunda pessoa: uma senhora velha com máscara cirúrgica. Os olhos dela também pareciam miudinhos, como se as feições estivessem afundando pra dentro. Eu senti cheiro de amônia e de biscoito queimado.

Eu lembro dela cantando o tema do The Electric Company enquanto colocava uma máscara no meu nariz e na minha boca. Eu comecei a cantar junto também.

Depois o Dr. Moris apareceu e disse que era bom me ver de novo.

Eu tenho uma cicatriz no antebraço esquerdo. Ela vai do osso do cotovelo até a base da palma da mão.

Perguntei pro meu pai sobre ela há pouco tempo. Ele disse que eu tinha me ferrado feio numa queda de bicicleta quando tinha uns dez anos, indo pra casa do meu amigo Leland, que morava na rua de baixo.

“Eu achei que íamos ter que amputar”, ele sempre brinca quando conta a história pra família toda.

Eu não lembro nada disso. Só lembro do braço.

Eu lembro de voltar pra casa com o braço esquerdo numa tipoia. Estava dormente, mas também formigando, como se estivesse cheio de aranhas minúsculas. Já estava escuro quando chegamos. Eu já estava de pijama. Lembro de me enfiar na cama e olhar pro relógio de cabeceira. Eram 3:00 da manhã.

Demorou meses pra cicatrizar. Todos os meus amigos na sala perguntavam, e eu só dizia que tinha sofrido um acidente. Até que eu meio que curtia ser o centro das atenções por aquelas semanas.

E aí continuou acontecendo.

Eu definitivamente fui ao médico da noite mais de uma vez. O que contei até agora foi só a noite mais antiga que consigo lembrar.

Eu tenho mais de 42 cicatrizes visíveis no corpo. Minha esposa me ajudou a encontrar várias nas costas que eu nem tinha notado. O número só continua aumentando.

Algumas cicatrizes são longas e finas, outras são pequenas, redondas ou em formato de cruz. Algumas cicatrizaram melhor que outras. Talvez algumas tenham cicatrizado tão bem com o tempo que quase não dá pra ver mais.

Eu tenho bem menos de 42 memórias distintas das visitas ao médico da noite. Se eu penso nisso por muito tempo, meu estômago começa a revirar e eu sinto vontade de vomitar tudo, de expulsar cada memória que eu tenho da cabeça de uma vez por todas.

Hoje em dia eu tomo banho no escuro.

Felizmente, minha saúde melhorou de um jeito milagroso conforme eu fui ficando mais velho. Como adulto, eu desenvolvi uma fobia bem forte de ambientes médicos — uma coisa que, até pouco tempo atrás, eu achava que vinha de ter ficado doente tantas vezes na adolescência.

Eu tomo todo tipo de tônico e suplemento preventivo que consigo pra derrubar qualquer resfriado antes que precise de antibiótico. Eu malho o tempo todo, mas nunca exagero a ponto de machucar músculos ou ossos. Eu durmo exatamente às 21h e acordo pontualmente às 6h da manhã.

Vocês nunca vão me encontrar num consultório médico.

Mas duas noites atrás, eu senti uma dor latejante no peito tão forte que derrubei a cafeteira inteira no chão da cozinha. Minha esposa me levou correndo pro pronto-socorro. Depois de uma rodada assustadora de exames, eles disseram que eu ia ficar bem, mas que tinham várias perguntas.

Depois de uma tomografia computadorizada completa do corpo, me chamaram de volta pra fazer outra rodada. O técnico pediu desculpas, dizendo que a máquina estava dando problema.

Na segunda tentativa, eles encontraram algo tão raro que foi considerado medicamente impossível.

A quantidade de distorção e interferência visual na imagem sugeria que eu tinha mais de 100 implantes colocados em intervalos aleatórios pelo corpo inteiro.

“Tipo uma prótese de joelho de titânio ou algo assim?”, eu perguntei pro técnico, brincando, enquanto mexia na fita do acesso venoso. “Eu não tenho artrite.”

“Tipo titânio em tudo”, ela respondeu. “Por que você não me contou que era um ciborgue?”

Dava pra ver que ela estava tentando manter o clima leve enquanto a gente esperava o resultado da terceira rodada. Dava pra ver também que ela ainda achava que era só uma falha maluca da máquina.

A terceira rodada chegou. Depois de ler o laudo, eu quero acreditar que é falha. Não faz o menor sentido. Eu li várias vezes. Cada vez dói mais na cabeça.

De acordo com os resultados, eu estou faltando cerca de 66% da massa óssea, espalhada em vários pontos: desde ossinhos pequenos dos dedos das mãos e dos pés até a clavícula, vértebras isoladas, costelas inteiras, a ulna e o rádio dos dois lados, pedaços da pelve e as curvas entrelaçadas do crânio. Tudo sumido, tudo removido cirurgicamente e substituído de forma metódica por algo artificial, leve e com precisão quase perfeita. A equipe do pronto-socorro não conseguiu dar nenhuma outra informação.

Seja lá o que for, não é osso.

As cicatrizes internas indicam que vários implantes foram movidos, estendidos ou reajustados em diversas ocasiões separadas, provavelmente pra imitar o crescimento natural.

Eu fico imaginando o que fizeram com as sobras minhas.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Eu comecei um emprego novo no mês passado e todo mundo lá acha que eu trabalho com eles há nove anos

Estou escrevendo isso do meu carro, no estacionamento da empresa. Eu não quero entrar. Não sei se consigo continuar entrando. Preciso que alguém me diga o que está acontecendo, porque eu estou ficando sem explicações e as que ainda me restam estão ficando cada vez piores.

Eu comecei um emprego novo há quatro semanas. Empresa de porte médio. Departamento de Marketing. Passei por um processo normal de entrevista. Três rodadas. Recebi o e-mail com a proposta numa terça-feira. Assinei a papelada na sexta. Meu primeiro dia foi na segunda seguinte. Eu tenho toda a cadeia de e-mails. Tenho a carta de oferta assinada. Tenho o primeiro contracheque. Tudo datado dentro do último mês.

No meu primeiro dia, uma mulher do departamento de contabilidade me abraçou na máquina de café e disse:  

— Bem-vinda de volta, sentimos sua falta.  

Eu achei que ela estava sendo simpática com uma nova contratada. Eu ri e agradeci. Ela ficou confusa e falou:  

— Como assim “nova”? Você está aqui desde que eu comecei.

Eu deixei pra lá. As pessoas falam besteira. Nervosismo do primeiro dia dos dois lados.

No fim da primeira semana, eu já tinha contado seis situações parecidas. Um cara do TI me perguntou como estava o meu cachorro. Eu não tenho cachorro e nunca tive. Uma mulher do RH me perguntou se eu ia levar meu marido no piquenique da empresa. Eu não sou casada. O diretor do meu departamento mencionou um projeto que eu liderei em 2019 — quatro anos antes de eu sequer saber que essa empresa existia.

Eu comecei a checar as coisas.

Entrei no diretório da empresa. Tem uma foto minha. A foto é minha, mas eu nunca tirei essa foto. Estou usando uma camisa que eu não tenho. A data de contratação que aparece embaixo do meu nome é janeiro de 2017. Quase nove anos atrás.

Fui até o RH. A mulher na mesa puxou o meu arquivo. Ela me mostrou a papelada de admissão que eu assinei no mês passado. Depois rolou a tela e me mostrou nove anos de avaliações de desempenho, reajustes salariais, certificados de treinamento e escolhas de benefícios. Tudo no meu nome. Tudo com a minha assinatura. As assinaturas batem perfeitamente com a minha. Eu nunca assinei nenhuma delas.

Perguntei se existiam dois funcionários com o meu nome. Ela verificou. Só existe um. Eu. Ela disse:  
— Querida, você bateu a cabeça ou algo assim?

Saí do RH e fui pra minha mesa. Minha mesa tem fotos agora. Três fotos emolduradas que não estavam lá no final da semana passada. Uma é minha num evento da empresa que parece ser de anos atrás. Outra é minha com duas crianças que eu nunca vi na vida. A terceira é eu segurando um cachorrinho branco numa praia que eu nunca visitei.

As crianças na foto parecem que poderiam ser minhas se eu tivesse filhos. Tem alguma coisa no rosto delas. Eu fiquei sentada na minha mesa segurando aquela foto por um tempão e não conseguia parar de olhar para a mais velha, porque ela tem exatamente os meus olhos.

Isso foi na última terça-feira.

Durante o resto da semana passada, eu tentei agir normalmente. Fiz o trabalho que eu realmente fui contratada pra fazer. Respondi e-mails sobre os projetos que realmente me passaram. Mas as pessoas continuavam mencionando coisas que eu nunca fiz. Uma colega me perguntou se eu queria almoçar juntos “como a gente fazia antes”. A recepcionista perguntou como estava a recuperação da minha mãe depois da cirurgia. Minha mãe está ótima. Ela não fez nenhuma cirurgia. Eu nem falei com ela nas últimas três semanas porque estamos no meio de uma briga.

Na sexta, o cara do TI passou na minha mesa e disse:  
— Ei, seu laptop antigo finalmente morreu. Quer que eu tire alguma coisa dele antes de formatar?

Eu perguntei do que ele estava falando. Ele me mostrou um laptop no carrinho dele com uma etiqueta com o meu nome. A tag de serviço era de 2018. Ele disse que aquele tinha sido o meu computador de trabalho até o ano passado, quando eu troquei pelo que uso agora. Perguntei se eu podia ver o que tinha nele. Ele plugou. A área de trabalho carregou. O papel de parede era uma foto minha com as mesmas duas crianças da foto emoldurada. As pastas estavam organizadas exatamente do jeito que eu organizaria. O histórico do navegador estava cheio de sites que eu costumo acessar. Pesquisas que eu realmente faria. Tinha e-mails abertos em abas de um endereço pessoal que não é o meu endereço pessoal, mas é estruturado exatamente do jeito que eu nomeio meus e-mails.

Perguntei se eu podia levar o laptop pra casa no fim de semana antes de ele formatar. Ele disse que sim.

Passei o fim de semana inteiro fuçando nele. Tem nove anos da minha vida nesse laptop. Fotos com as crianças. Fotos com um homem que eu nunca vi na vida. Declarações de imposto. Roteiros de viagem pra lugares que eu nunca fui. Consultas médicas que eu nunca fiz. E-mails da escola sobre reuniões de pais e professores de crianças cujos nomes eu nem conheço. Uma vida inteira. Detalhada. Específica. Minha em todos os sentidos que importam… exceto que eu nunca vivi nada disso.

O homem nas fotos usa aliança. Eu também uso aliança nas fotos. Eu não tenho aliança. Nunca fui casada. Olhei pra minha mão. Tem uma marquinha clara e pálida no meu dedo anelar, exatamente onde ficaria uma aliança. Eu nunca usei aliança. Não faço ideia de como essa marca apareceu aí.

Hoje de manhã eu cheguei e a recepcionista sorriu pra mim e disse:  

— Sua filha está melhor?

Eu não tenho filha.

Eu falei:  

— O que você disse?

Ela olhou pra mim e o sorriso dela sumiu. Ela falou:  

— Sua filha. A menorzinha. Você comentou ontem que ela estava com febre.

Eu não lembro de ter falado com ela ontem. Eu não tenho filha. Fui pra minha mesa. A foto emoldurada das duas crianças ainda estava lá. A menor tem uns seis anos. Ela tem os meus olhos. Eu fiquei olhando pra essa foto por uma hora e não consigo parar, porque alguma coisa no meu peito dói quando eu olho pra ela e eu não entendo por que dói, já que eu nunca conheci essa criança.

Chequei meu celular. Não tem nenhum contato que eu não reconheça. Não tem fotos de crianças. Não tem nenhuma mensagem de alguém me chamando de mãe. Meu e-mail pessoal é o mesmo que eu tenho há anos. Não tem nada nele sobre família.

Mas no meu laptop do trabalho, aquele que eu recebi há só quatro semanas nesse emprego novo, a agenda tem um compromisso marcado pra hoje às 18h que diz: “Buscar Maddie na aula de dança”.

Maddie é o nome da criança mais velha da foto.

Eu não coloquei esse compromisso na minha agenda.

Estou sentada no estacionamento escrevendo isso porque não sei o que acontece se eu voltar lá pra dentro. Não sei o que acontece se eu for embora. A recepcionista sabe o nome da minha suposta filha. O sistema do RH tem nove anos de papelada. Outras pessoas lembram de uma versão de mim que está aqui desde 2017. Elas não estão mentindo. Dá pra perceber. Elas acreditam em tudo o que estão me contando.

A única pessoa nesse prédio inteiro que acha que eu sou nova aqui sou eu.

Fico voltando o tempo todo pra foto emoldurada que está na minha mesa. A menina mais velha. Maddie. Ela tem os meus olhos. E tem uma lasquinha no dente da frente. Exatamente a mesma lasquinha que eu tenho no meu dente da frente desde que caí do balanço quando tinha sete anos.

Eu não sei o que fazer. Não sei pra quem ligar. Minha família vai achar que eu estou tendo um surto. Não posso contar pros meus amigos de verdade porque eles só conhecem a versão da minha vida que eu estou vivendo agora. Tem outra versão da minha vida inteira num laptop que está no banco do passageiro e uma criança em algum lugar que tem a mesma lasca no dente que eu… e alguém está esperando que eu busque ela na aula de dança daqui a três horas.

Vou dirigir pra casa agora. Não vou voltar pra esse prédio hoje. Se alguém já passou por alguma coisa parecida com isso, por favor me conta o que você fez. Não sei se eu estou sendo inserida na vida de outra pessoa ou se alguém foi removido da minha. Não sei qual das duas opções seria pior.

Eu só quero saber quem tirou aquelas fotos. Alguém tirou. Alguém emoldurou e colocou na minha mesa. Essa pessoa sabe o que está acontecendo aqui. Preciso encontrar ela antes das 18h de hoje, porque eu não consigo parar de pensar numa criança que eu nunca conheci esperando do lado de fora de um estúdio de dança por alguém que não vai aparecer.

Encontrei o apartamento perfeito na cidade. Alguma coisa nele está roubando a minha vida

Todo mundo está sempre procurando aquele lugar perfeito. Grande o suficiente, não muito caro, perto do trabalho. De alguma forma, eu realmente encontrei.

O prédio em si era antigo, daqueles com corredores estreitos e um elevador lento que sempre fazia um barulhinho fraco na subida, mas estava bem conservado, limpo e silencioso de um jeito difícil de achar numa cidade como esta.

A proprietária morava no mesmo prédio, três andares acima de mim. Era uma mulher alta, já mais velha, com uma voz suave e ombros tensos, e parecia realmente satisfeita em me mostrar o apartamento.

Tinha dois quartos, uma sala de estar grande e uma varanda. Ficava também a apenas alguns quarteirões do escritório, o que significava que eu podia ir andando para o trabalho toda manhã em vez de enfrentar trens lotados.

Eu andava por cada cômodo esperando que tivesse alguma pegadinha. Eu tinha acabado de me formar e ainda estava cheia de empréstimos estudantis, então não tinha a menor condição de pagar algo daquele nível.

Mas quando ela me falou o valor do aluguel, eu simplesmente fiquei parada ali por um segundo.

Ela explicou que dava um desconto bem grande para garotas jovens que estavam chegando novas na cidade, porque ela mesma já tinha sido uma delas um dia, e eu não questionei. Assinei o contrato naquele mesmo dia.

A mudança foi boa. Meu pai me ajudou a trazer minhas coisas e a consertar uns detalhes pequenos, e pela primeira vez parecia que eu estava realmente começando a minha vida.

A única coisa estranha naquela primeira noite foi quando deixei uma caixa de ferramentas cair no meu pé e cortei feio a lateral do dedão. Limpei o corte, coloquei um band-aid e pensei que ia olhar melhor no dia seguinte.

Mas quando acordei, o corte já tinha sumido, como se tivesse acontecido há muito tempo.

O primeiro mês foi perfeito.

Eu costumava sentar na varanda toda manhã, comendo ovos mexidos e tomando café antes de ir andando para o trabalho. Eu estava no início dos meus vinte anos, morando na maior cidade em que já tinha vivido, com um emprego que eu realmente gostava, e parecia que tudo finalmente tinha dado certo.

O apartamento era uma grande parte disso.

A primeira vez que alguma coisa pareceu errada foi depois de uma noite bebendo com os colegas de trabalho. Cheguei em casa, abri o Instagram e vi uma foto minha daquela noite, e eu parecia diferente.

Nada óbvio, só mais velha. Meu rosto parecia um pouco mais cansado, a pele sem viço, com olheiras fracas embaixo dos olhos.

Eu até puxei fotos antigas para comparar. Mesmo ângulo, mesmo sorriso, mas não parecia a mesma pessoa.

No começo não pensei muito nisso, mas ao longo da semana seguinte ficou cada vez mais difícil ignorar.

Minha pele ficou mais seca, eu comecei a acordar exausta não importava o quanto eu dormisse, e uma manhã no trabalho eu não conseguia parar de bocejar durante uma reunião. Mais tarde naquele dia, durante uma apresentação, senti uma dor estranha nas costas.

No início achei que era só estresse. Primeiro emprego de verdade, cidade nova, rotina nova. Fazia sentido.

Fui ao médico só por garantia, e ele confirmou que provavelmente era fadiga.

Então continuei.

Dia após dia, eu fui me acostumando a me sentir assim. Saía menos, parei de ir pra academia, e na maioria das noites eu só ficava em casa assistindo séries aleatórias.

Todo mês, eu deslizava o aluguel por baixo da porta da proprietária, como combinamos. Quase nunca a via depois da primeira semana, e ela nunca me procurava.

Cerca de dois meses depois de ter me mudado, encontrei meu primeiro cabelo branco.

Era uma manhã de domingo e eu estava escovando o cabelo enquanto ouvia um podcast quando vi. Isso me assustou pra caralho.

Depois disso, as coisas pioraram rápido.

Os colegas de trabalho começaram a notar. Meu rosto parecia mais magro, a pele seca e sem vida, e eu devo ter perdido mais de dez quilos sem nem tentar. Os cabelos brancos continuavam aparecendo.

Meu chefe até me chamou na sala dele e perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de algum tempo de folga.

Eu nem sabia o que responder pra ele. Todo médico que eu consultava falava a mesma coisa: estresse, burnout, algo assim. Mas a verdade é que eu nem estava trabalhando tanto assim.

Então chegou o Dia de Ação de Graças, e eu decidi visitar meus pais na casa deles porque não via a hora de sair daquela cidade. Ficava pensando que talvez eu só precisasse daquela pausa.

E por um dia, eu acreditei que era isso. Na primeira noite de volta no meu quarto antigo, minha pele já parecia melhor, eu tinha energia de novo e me sentia eu mesma.

Mas meus pais não enxergaram dessa forma.

Eles me olharam como se estivessem vendo uma pessoa diferente, como se não me reconhecessem mais.

E a pior parte foi quando eu fiquei ao lado da minha mãe no espelho do banheiro.

Nós parecíamos da mesma idade.

Foi aí que eu soube que não era só estresse.

Acabei ficando lá duas semanas, e quando voltei pro apartamento eu já sabia que alguma coisa naquele lugar tinha me mudado pra sempre.

No segundo em que entrei, comecei a fazer as malas. Peguei tudo o que consegui, enfiei em duas malas e corri pro elevador.

Tinha outra mulher lá dentro. Uma mulher alta, atlética, vestindo roupa de academia e óculos escuros, mesmo dentro do prédio. Parecia ter uns vinte e poucos anos.

No começo mal prestei atenção nela. Depois olhei de novo.

Alguma coisa nela me pareceu familiar. O jeito de andar. O jeito como mantinha os ombros tensos. O formato do rosto.

Fiquei encarando, tentando lembrar de onde.

E então caiu a ficha.

Ela era a cara da proprietária, só que décadas mais jovem.

Eu fiquei olhando mais tempo do que devia, e ela percebeu. Virou o rosto rápido e tentou sair assim que o elevador chegou no térreo.

Mas eu não deixei.

Segurei o braço dela e a virei pra mim.

Eu não precisava que ela falasse nada.

Eu já sabia.

Era a proprietária.

Comecei a gritar com ela, perguntando o que caralho ela tinha feito comigo. Ela tentou se soltar, mas eu não larguei, e acabamos brigando ali mesmo no saguão.

Claro que ela agora era bem mais forte do que eu, muito mais forte, e me empurrou com tanta força que eu caí e bati a parte de trás da cabeça no chão.

Não lembro de ter desmaiado. Só pareceu que tudo apagou.

Quando acordei, estava num quarto de hospital, com luzes fortes e enfermeiras andando do lado de fora, e a proprietária sentada ao lado da minha cama.

Ela parecia culpada, quase triste.

Pediu desculpas por ter me empurrado e disse que não tinha escolha, mas eu não estava nem aí pra isso. Só queria respostas.

Entre lágrimas, ela me contou que a mesma coisa tinha acontecido com ela, que tinha se mudado praquele apartamento mais ou menos um ano antes, e que havia outra proprietária antes dela.

Processsei aquela informação por um minuto e perguntei como diabos aquilo funcionava, e ela disse que não sabia exatamente.

O que a última proprietária tinha contado pra ela era só que os dois apartamentos — o dela e o que ela alugava — estavam conectados desde que o prédio foi construído, e que um sugava o tempo enquanto o outro dava, tipo um canudo.

Eu sei o quão insano isso soa, porque meu primeiro instinto foi achar que era mentira.

Mas ela se levantou, enxugou os olhos e colocou uma chave na minha mão, dizendo que agora os dois apartamentos eram meus e que ela estava indo embora.

Perguntei o que eu deveria fazer com aquilo.

Ela deu um sorrisinho cansado e me disse para alugar.

Pensei em ir à polícia.  
Pensei em tentar encontrar a proprietária.  
Pensei em voltar pros meus pais.

Mas nada disso ia me devolver aqueles meses. Ou os anos.

Eu tenho vinte e dois anos, mas meu corpo tem décadas a mais, e toda vez que me olho no espelho, dá pra ver que isso não vai se reverter sozinho.

Em desespero, coloquei meu apartamento no mesmo site onde encontrei, e me mudei pro dela. As mensagens começaram a chegar quase imediatamente.

A primeira visita é hoje. É por isso que estou escrevendo isso: por culpa.

Uma parte de mim fica dizendo que eu não preciso fazer isso. Que tem que ter outro jeito.

Mas a outra parte grita que eu não tenho escolha, que é isso ou aceitar que perdi toda a minha juventude.

A garota que vem ver o apartamento parecia jovem e cheia de esperança no telefone. Ela está animada por ter encontrado um lugar onde pode viver o melhor momento da vida dela nessa cidade.

Eu lembro de ter soado exatamente assim.

domingo, 12 de abril de 2026

Ainda é Ele

Você pode me chamar de doente. Pode me chamar de doente da cabeça. Pode me chamar de fodido pra caralho pelo que eu deixo ficar nessa casa comigo. Eu não iria discutir nada disso.

Tudo começou com o som de ossos se quebrando.

Acordei por volta das 3:15 da manhã com um estalo alto e molhado de algo se partindo. Não era vidro nem madeira, era algo orgânico. Grosso e profundo. Como se um gigante estivesse estalando os nós dos dedos bem do lado de fora da porta do meu quarto. Eu me levantei num salto, o coração já na garganta. Meu cachorro, Jasper, normalmente dormia aos pés da cama. Estiquei a mão para baixo, mas meus dedos só encontraram os lençóis vazios.

Outro som veio do corredor. Um barulho de algo sendo arrastado, depois um ronco gutural baixo. Não era bem um rosnado, mas algo mais pesado. Mais faminto.

— Jasper? — sussurrei.

Nenhuma resposta. Claro que não.

Eu não queria abrir a porta, mas a ideia do meu doce labrador com pastor alemão machucado ou assustado lá fora mexeu com alguma coisa dentro de mim. Peguei o taco de beisebol que ficava ao lado da cama e fui me arrastando até a porta. O cheiro me acertou primeiro. Era quente, quase com cara de carne, com um fundo azedo e metálico de cobre que fez meu estômago revirar. A porta rangeu quando eu abri, e na hora eu me arrependi pra caralho.

Jasper estava no corredor.

Ou… algo que um dia tinha sido Jasper.

Ele estava maior. Essa foi a primeira coisa que notei. Grande demais. O corpo dele parecia esticado de forma irregular, como se tivesse sido inflado torto. As costelas saltavam em ângulos estranhos por baixo da pele esticada, quase translúcida. Tufos de pelo tinham caído em pedaços, e os olhos — aqueles olhos castanhos quentes como mel — agora eram de um branco leitoso, sem pupila. Fios espumosos de baba pendiam das mandíbulas, que pareciam ter se rasgado nos cantos.

Ele olhou pra mim, e por um segundo eu juro que vi reconhecimento. Ele soltou um ganido baixo — um som quebrado e miserável. Ainda parecia ele. Exatamente como o meu bom menino que tinha medo de aspirador de pó, do gato do vizinho, que adorava brincar nas pilhas de folhas secas que eu juntava e era capaz de comer um frango inteiro daqueles de Costco se tivesse a chance.

Aí ele partiu pra cima de mim.

Eu mal consegui fechar a porta antes que ele batesse contra ela, sacudindo o batente com tanta força que um quadro caiu da parede. Eu cambaleei pra trás, agarrando o taco como se aquilo fosse me salvar, a respiração toda esfarrapada. Que porra tinha acontecido com o meu cachorro? Aquilo não era o Jasper. Porra, aquilo nem era um cachorro.

Não dormi mais aquela noite. Fiquei sentado contra a parede mais distante do quarto, com o taco atravessado no colo, encarando a porta, esperando. Escutando. Jasper — ou a coisa — não fez mais nenhum barulho a noite inteira. Quando o sol finalmente nasceu e a luz começou a entrar pelas persianas, abri a porta de novo, mas ele não estava mais no corredor. A porta do banheiro no final do corredor estava entreaberta, então eu empurrei devagar, taco em punho.

Jasper estava na banheira. Deitado encolhido, absurdamente grande, com os membros torcidos embaixo dele como um fantoche quebrado. A respiração dele estava molhada e superficial. Os olhos se abriram quando eu me aproximei. Ainda leitosa. Ainda errados. Mas eles se fixaram em mim quando eu levantei o taco.

Ele não se mexeu. Só ficou olhando.

— Jasper — sussurrei, a palavra engasgando na garganta.

Ele gemeu. Baixo. Quase pedindo desculpas.

Eu deveria ter ligado pro controle de animais. Pra um veterinário. Pra um padre. Porra, sei lá. Pra alguém. Mas não liguei. Desci pra cozinha, joguei água fria no rosto, meio convencido de que tudo isso era só um pesadelo fodido. Conseguia ouvir o Jasper na banheira lá em cima e sabia que não era sonho. Enchi a tigela do Jasper com ração e voltei pro banheiro. Nem olhei direito pro que estava na minha banheira, deixei a tigela no chão e fechei a porta atrás de mim.

Eu não sabia o que fazer. As mudanças continuavam vindo. A cada dia ele parecia… menos um cachorro. As patas traseiras se alongaram. Os ombros se curvaram pra frente. O pescoço ficou mais grosso. Ele começou a andar mais como uma pessoa de quatro do que como um cachorro — devagar e deliberado.

Ele me olhava com aqueles olhos horríveis e cegos e balançava o rabo grosso e escamoso quando eu entrava. A respiração dele estava sempre pesada. Ele não conseguia mais latir — saía como um chiado gorgolejante, como se estivesse engasgando com alguma coisa bem lá no fundo. Eu o mudei pro porão, onde fiz uma cama com cobertores velhos e travesseiros antigos, e fiquei olhando enquanto ele se acomodava, ossos estalando e se torcendo enquanto ele se ajeitava.

E eu comecei a ter pesadelos. Sonhava com uma floresta escura. Com alguma coisa antiga, agachada atrás das árvores, me observando. A respiração dela soltava vapor no frio, e quando ela dava um passo à frente, eu via os olhos do Jasper no rosto dela. Acordava encharcado de suor, quase esperando que ele estivesse parado aos pés da minha cama.

Ele nunca estava, mas os sonhos continuavam, então acabei comprando correntes. Prendi elas na parede lá embaixo. Chorei enquanto fazia isso. Chorei ainda mais quando fechei a algema em volta do tornozelo inchado dele. Jasper soltou um som estrangulado que parecia metade ganido, metade soluço humano.

Duas semanas se passaram. Eu fiquei em casa e disse pro trabalho que tinha uma emergência familiar e que ia trabalhar de home office. Falei pros meus amigos que o Jasper tinha fugido. Parei de dormir. Ficava deitado na cama, olhando pro teto, escutando o som de unhas arranhando o concreto. Tentei ligar pra um veterinário anonimamente. Eles desligaram quando descrevi os sintomas.

Uma noite, peguei meu reflexo no espelho do banheiro. Minha pele estava pálida. Olhos com olheiras pretas. Parecia que eu tinha envelhecido cinco anos em quinze dias. Alguma coisa dentro de mim se quebrou. Desci pro porão com o taco e disse pra mim mesmo que estava na hora.

Ele estava encolhido no canto, acorrentado, respirando pesado. Quando me viu, levantou a cabeça e soltou aquele ganido suave de novo.

— Jasper — eu disse.

Ele levantou uma pata grotesca — mão? — e se arrastou pra ficar de pé. Alguma coisa estalou na coluna dele enquanto ele cambaleava pra frente.

Eu levantei o taco.

Ele parou. Sentou. E levantou uma das patas.

Aperto.

Era o truque que eu tinha ensinado pra ele quando era filhote. Agora parecia errado, o movimento era brusco, a pata terminando em dedos com garras. Mas estava ali. O gesto.

— Jesus Cristo — sussurrei. Caí de joelhos e chorei até não conseguir mais respirar.

Ele se arrastou pra frente e deitou a cabeça enorme e deformada no meu colo.

Isso foi há três meses.

As correntes sumiram. Às vezes eu deixo a porta dos fundos entreaberta à noite pra ele poder sair pro quintal. Ele sempre volta antes do sol nascer.

Os olhos dele começaram a ficar castanhos de novo. Não humanos e nem de cachorro, mas algo no meio. Às vezes, quando eu dou comida pra ele, ele senta do jeito que sentava antes e eu juro que vi o rabo dele balançar na semana passada. Eu li todos os fóruns, todos os sites de ocultismo, todos os casos médicos bizarros. Nada explica isso. Nada ajuda.

Mas… ele ainda é o Jasper. Eu sei que ainda é ele. É o meu Jasper.

Outra noite, acordei e encontrei ele aos pés da minha cama.

Não estava de pé. Não estava pairando. Só sentado, me observando. Eu deveria ter gritado, talvez até pegado o taco. Mas em vez disso eu falei:

— E aí, parceiro.

E ele soltou aquele mesmo ganido quebrado. Depois abaixou a cabeça enorme pro chão e eu voltei a dormir. A cama dele, aquela cinza felpuda grande que ele sempre amou, está de volta no lugar, aos pés da minha cama.

Olha, eu sei como tudo isso soa. Sei que nada disso faz sentido. Mas eu simplesmente não ligo mais. No que o Jasper se transformou, seja lá o que ele for agora… ele ainda é o meu cachorro.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon