quinta-feira, 9 de outubro de 2025

O Neonatologista

Viver no interior da Rússia sempre foi difícil. Nossa pequena cidade, com menos de 80 mil habitantes, poderia ser considerada um lugar sem esperança para a maioria das pessoas. As chances de enriquecer eram praticamente nulas, as possibilidades de sair dali para morar em uma cidade grande eram mínimas, e férias em destinos exóticos — ou qualquer destino, pra ser honesto — simplesmente não existiam. Mas, apesar de faltar algumas coisas na nossa vida, outras eram razoáveis: conseguíamos comprar comida, e o acesso à saúde era decente.

Esse último ponto era especialmente importante na Rússia por causa da nossa população envelhecida. A maioria dos jovens estava de mudança para as grandes cidades, e a necessidade de alas neonatais tinha diminuído em cidades pequenas como a nossa. A idade média dos médicos por aqui era acima de 65 anos. Nossa cidade ficou sete anos sem uma ala de neonatologia. Pra quem não conhece o termo, um neonatologista é o médico que cuida de recém-nascidos nos primeiros 28 dias de vida e lida com bebês que nascem com problemas.

Dá pra imaginar a surpresa quando, dois anos atrás, um médico relativamente jovem veio de São Petersburgo pra trabalhar no nosso hospital como neonatologista. O doutor Grigorii Feodorov, ou Grisha, como a gente chamava, chegou de São Petersburgo pra nossa cidade.

Gravidez não era tão comum por aqui, mas ainda tinha alguns jovens tentando formar uma família feliz. Além disso, nosso hospital atendia algumas vilas próximas, então o fluxo de pacientes era maior que a nossa população. Partos aconteciam, digamos, uma vez por semana. Todo mundo ficou feliz com a chegada do Dr. Grisha; um jornal local até publicou uma matéria sobre ele.

Segundo a matéria, o doutor Grigorii Feodorov tinha 37 anos e passou a vida toda em São Petersburgo, onde estudou medicina e se especializou em neonatologia. A esposa dele morreu num acidente de carro, e, pouco depois, os pais dele também faleceram. Foi aí que ele decidiu dedicar o resto da vida a ajudar quem mais precisava: os bebês nascidos no interior da Rússia.

A matéria também dizia que o Dr. Feodorov tinha começado a se interessar por produzir medicamentos — não era sobre descobrir curas pra doenças incuráveis, mas fabricar remédios básicos e essenciais que eram difíceis de encontrar no interior da Rússia.

Nos dois anos que o Dr. Feodorov trabalhou na nossa cidade, ele salvou cerca de 80 bebês. Pelos registros dele, dois deles foram salvos graças a um medicamento que ele produziu, chamado surfactante — uma espécie de óleo que impede o colapso dos pulmões de bebês prematuros. Isso convenceu o hospital a ceder algumas salas no porão pra ele tentar produzir mais, e até destinaram um pequeno orçamento pra apoiar o projeto.

Claro, nem todas as gestações de risco tinham um final feliz. Alguns bebês não sobreviveram, e dois deles, infelizmente, morreram logo depois que as mães faleceram durante o parto. Os pais ficaram furiosos e acusaram o hospital, incluindo o Dr. Feodorov, de negligência médica, que, nas palavras deles, levou à morte das esposas e dos filhos recém-nascidos.

Um dos pais, o Alexey, começou a beber pesado depois do ocorrido. O outro, o Seva, tinha uma filha de 5 anos e estava segurando as pontas por causa dela. O Seva é colega meu; trabalhamos juntos na prefeitura como inspetores de segurança alimentar.

Ele é o motivo de eu saber tanto sobre o Dr. Feodorov. Depois do acidente, a vida na nossa cidadezinha esquecida por Deus ficou monótona e triste. Isso até recentemente, quando o Seva foi escalado pra fazer um treinamento em São Petersburgo pra se atualizar sobre novas regulamentações de alimentos. Inicialmente, nosso chefe queria me mandar, mas a viagem envolvia pegar um trem até uma cidade maior e depois voar de avião até São Petersburgo e voltar. A ideia me apavorava — nunca tinha entrado num avião —, então o Seva foi no meu lugar, deixando a filha com os pais da esposa falecida.

Quando ele voltou, estava visivelmente agitado e, numa noite, me chamou pra tomar um trago na casa dele depois que a filha dormiu. Essas foram algumas coisas que ele me contou:

“Não é possível. Deve ser um engano. Ele pode ter cometido um erro com a Svetlana, mas salvou tantas outras vidas. Ele não pode ser um impostor — com certeza é médico,” eu respondi.

“Ele tem um ponto.”

“Tá, tá. Você tem certeza de que as pessoas em São Petersburgo estavam certas? Checaram direitinho? E outra, se ele se mudou pra cá, os registros dele não teriam sido transferidos pro nosso distrito?” perguntei.

“Tá, tá. Tomara que seja só uma série de infelicidades.”

O resto da noite foi só conversa fiada, nada importante.

Duas semanas depois, o Seva me disse que o cara que ele subornou afirmou que havia apenas um diploma com aquele nome, emitido há 74 anos, o que significaria que o Dr. Feodorov teria 104 anos. Isso queria dizer que, ou ele estava usando a licença de um cara morto e era realmente um impostor que colocava as crianças da nossa cidade em risco, ou o Seva estava ficando louco.

Ele disse que conseguiu uma reunião com o governador, que afirmou que o Dr. Feodorov tinha uma licença válida e realmente se formou em medicina em São Petersburgo. Decidi deixar pra lá ali mesmo.

Passaram-se alguns meses. O Seva ainda estava muito desconfiado e começou a cogitar espionar o Dr. Feodorov. Eu insisti pra ele não fazer isso e aceitar que coisas ruins acontecem com pessoas boas sem motivo. A esposa dele foi operada por outro médico, e, mesmo que o Feodorov fosse um impostor, ele não era responsável pela morte dela. A responsabilidade dele era pelo bebê, que, segundo o Dr. Feodorov, tinha sido infectado por bactérias durante o desenvolvimento e já estava gravemente doente antes do nascimento.

O Seva jurava que conseguiu ver o filho por um minuto inteiro e que ele parecia completamente normal. Eu disse que talvez ele estivesse enganado.

Mais algumas semanas se passaram sem nada de mais — até que, num sábado, acabei bebendo com uns amigos até muito tarde. Na Rússia, é comum tomar um trago com os amigos em casa, mas dessa vez estávamos bebendo na frente de um prédio de apartamentos. A maioria já tinha ido embora, mas eu estava tão bêbado que queria mais. Foi quando vi o Alexey — o outro pai que perdeu a esposa e o filho na presença do Dr. Feodorov. Ele vinha cambaleando pra casa, visivelmente bêbado, segurando uma garrafa quase cheia.

Eu acenei pra ele. Ele me viu e acenou de volta.
“Na vibe de uma companhia?” perguntei.
“Sempre, amigo. Vem, vamos pra minha casa — tá ficando frio aqui.”

Fomos pro apartamento dele, que estava uma bagunça — lixo espalhado, garrafas vazias e o que eu acho que eram baratas. Continuamos bebendo e falando sobre nada até que ele começou a contar sobre o filho recém-nascido que morreu:

Ele começou a chorar. Tentei consolar ele e, depois de ter certeza de que ele estava bem, voltei pra casa com o sol nascendo.

No dia seguinte, liguei pro Seva e disse que ele talvez estivesse certo o tempo todo. Ele me contou que, no último mês, vinha espionando o Feodorov. Segundo ele, nada suspeito aconteceu — o cara ia pro trabalho, voltava pra casa e, às vezes, saía pra tomar um trago com outros médicos.

Duas coisas, porém, eram estranhas: ele não demonstrava interesse por nenhuma mulher, e, a cada poucos dias, ficava até muito tarde nas salas do porão trabalhando nos remédios que supostamente estava produzindo.

O Seva queria dar uma olhada nas salas do porão, e, depois de muita discussão, eu concordei, meio a contragosto, em ajudar — mas seria eu a entrar.

Numa sexta à noite, fomos atrás disso. Entramos no hospital pelo pronto-socorro. Eu disse que estava com febre e menti que tinha vomitado várias vezes. Enquanto esperava pra ser atendido pelos médicos, o Seva se esgueirou por um corredor e desceu pro porão.

Enquanto eu esperava, uma senhora com o que parecia ser um braço quebrado chegou. Eu me desculpei com a enfermeira:

A enfermeira agradeceu pela compreensão, e eu saí rápido do hospital, tentando localizar as janelas do porão. Depois de vagar por alguns minutos, notei que as persianas de uma das janelinhas estavam levantadas e uma luz se movia lá dentro — devia ser o Seva.

Fui investigar e, pelo que vi pela janela (que ficava perto do teto da sala), era o que se esperava de um pequeno escritório de produção de remédios: garrafas por aí, alguns equipamentos e uma grande mesa de madeira coberta com um pano branco, parecido com os usados pra embrulhar recém-nascidos.

A única coisa estranha era que tinha muitas velas de igreja. No cristianismo ortodoxo (o mais comum na Rússia), as velas são finas e amarelas. Era estranho ver velas assim num laboratório, mas talvez ele as usasse pra aquecer alguma coisa.

O Seva sinalizou pra eu sair dali, e eu saí. Esperei meia hora até ele sair do hospital.

“Achou algo suspeito?”
“Pra ser honesto, não — só as velas. Nada fora do normal,” ele disse.
“Vamos pra algum lugar quente pra conversar.”

Fomos pra um lugar que, nos Estados Unidos, seria tipo uma lanchonete, pedimos cervejas e comida, e ele explicou que não achou nada suspeito. Tinha muitos produtos químicos, mas isso era esperado na produção de remédios. O Seva admitiu que talvez tivesse perdido a cabeça e estivesse agindo de forma irracional. Eu concordei, mas ele disse que deixou as persianas abertas caso decidíssemos dar outra espiada.

Nas semanas seguintes, o Seva voltou lá algumas vezes. Ele disse que, numa das ocasiões, o Feodorov estava lá, só misturando e pesando coisas — nada fora do comum.

Isso até hoje.

Hoje, no início da noite, uma mãe morreu depois de dar à luz um menino. O bebê foi levado pra ala de neonatologia em estado crítico. Ficamos sabendo por alguns colegas que são inspetores médicos.

Passamos a noite revezando pra vigiar as salas. Já está muito frio nessa parte da Rússia, então fazíamos turnos de 30 minutos enquanto o outro esperava no carro estacionado ali perto. Eu nem sei por que fui nessa, mas acho que, por ser velho demais pra começar uma família e viver no meio do nada, eu queria fazer algo aventureiro.

Por volta das 3 da manhã, durante meu turno, a luz acendeu. Fui me aproximar pra investigar. No começo, ele só acendeu as velas, limpou tudo da mesa grande com o pano de bebê e colocou as velas em círculo ao redor dela. Depois, ele se virou pra janela.

Eu me abaixei rápido pra não ser visto. Parecia que eu conseguia ouvir a respiração dele. Ouvi as persianas fechando. Fiquei abaixado por um minuto inteiro, depois ouvi a porta lá dentro fechar.

“Merda, será que ele tá vindo me pegar?” pensei. Fiquei dividido entre correr pro carro ou confrontar ele. Mas, depois de mais dois minutos, ouvi a porta abrir de novo e o choro de um bebê.

O que aconteceu depois é difícil de explicar. Era como se tivesse um vento dentro da sala — uma tempestade presa num vidro. Eu ouvia o bebê chorando e uns cânticos que não eram em inglês nem em russo. Depois de alguns minutos, o choro parou, e o som do vento diminuiu. Aí, ouvi o barulho de um corpo caindo no chão.

Tomei coragem e decidi dar uma olhada. Iluminado pela luz fraca das velas, vi o bebê imóvel na mesa e o Feodorov desmaiado no chão. Ele parecia ter envelhecido pra além dos 80 anos, mas eu não tinha certeza porque a luz estava muito fraca. Pelo que me lembro, o cabelo grisalho dele começou a ficar loiro, e o corpo dele, que estava mole, parecia estar ganhando músculos em questão de segundos.

Foi nesse momento que decidi dar o fora dali. Corri pro carro e gritei pro Seva dirigir, e ele dirigiu. Fomos pra minha casa, e eu contei o que vi, mas ele não parecia acreditar em mim.

Isso mudou na manhã seguinte, quando o bebê da mãe falecida foi dado como morto. Segundo as notícias, o Dr. Feodorov passou a noite toda tentando manter o bebê vivo, mas, por volta das 3h30 da manhã, ele morreu por problemas cardíacos.

As pessoas não param de me dizer que eu apareci nos sonhos delas ontem à noite, e eu tô começando a lembrar de coisas que nunca fiz

Faz seis semanas que eu não sonho.

Eu sei que isso parece impossível. Todo mundo sonha, mesmo que não lembre. Mas não tô falando de esquecer. Tô falando de uma ausência total de qualquer coisa quando fecho os olhos. Sem imagens, sem sensações, sem fragmentos. Só escuridão e, de repente, acordo mais cansado do que quando fui dormir.

O cansaço tá piorando. Tô dormindo nove, dez horas por noite e acordo sentindo como se tivesse corrido uma maratona. Meus músculos doem. Às vezes, acordo sentindo o gosto de coisas que não comi. Ontem foi café, puro, sem açúcar. Eu odeio café.

Mas isso nem é a parte mais perturbadora.

Três dias atrás, o carteiro me perguntou como foi o enterro da minha avó.

Eu não tenho avó. As duas morreram antes de eu nascer. Quando falei isso pra ele, ele ficou com uma cara confusa e insistiu que a gente tinha conversado sobre isso na semana passada. Ele descreveu a conversa inteira. O lugar onde a gente tava. A roupa que eu tava vestindo. Ele até citou algo que eu supostamente disse sobre ela amar rosas amarelas.

A avó da minha chefe vai ser enterrada na quinta-feira. Ela ama rosas amarelas.

Pensei que ele tinha me confundido com outra pessoa, até que a recepcionista do meu dentista fez a mesma coisa. Ela perguntou sobre a cirurgia do meu gato. Eu não tenho gato. Mas minha vizinha, que mora duas casas depois da minha, acabou de mandar amputar a perna do gato dela depois de um acidente de carro. A recepcionista descreveu nossa conversa em detalhes, incluindo uma foto que eu supostamente mostrei no celular de um gato branco com manchas cinzas.

Esse é o gato da minha vizinha. Eu nunca mostrei foto dele pra ninguém.

Aí minha amiga Sarah me ligou, chateada. Disse que eu apareci no sonho dela na noite anterior e que parecia tão real que tava mexendo com ela. No sonho, eu tava sentado na cozinha dela, chorando, dizendo que tinha medo de morrer sozinho. Ela disse que eu tava usando um suéter azul que ela nunca me viu usar e tomando chá na caneca favorita dela.

O que me deixou apavorado: eu não lembro do sonho, mas quando ela falou isso, eu senti o gosto do chá. Earl Grey. Eu nunca tomo Earl Grey.

Comecei a perguntar por aí. Perguntas casuais pra pessoas com quem convivo. Meu colega de trabalho. O cara da cafeteria. Meu vizinho do andar de cima.

Seis pessoas na última semana me contaram sobre sonhos onde eu apareci. Não como figurante. Como eu, tendo conversas inteiras, fazendo coisas específicas, presente, sólido e real.

E quando elas descrevem esses sonhos, eu tenho flashes. Memórias sensoriais. O cheiro da sala de estar do meu colega no sonho dele. O piso frio do banheiro do cara da cafeteria, onde o "eu" do sonho aparentemente disse pra ele que o pai dele ficaria orgulhoso. Tô lembrando de coisas que nunca vivi.

Ontem à noite, mal dormi porque tava morrendo de medo do que podia acontecer se eu dormisse.

Hoje de manhã, onze pessoas entraram em contato comigo.

Uma mulher da academia sonhou que eu ajudei ela a mover móveis. Um ex-colega sonhou que a gente almoçou juntos e eu dei conselhos sobre o divórcio dele. Minha prima sonhou que eu tava na festa de aniversário da filha dela. Meu dentista. Meu senhorio. Pessoas que eu mal conheço. Todas descrevendo interações detalhadas comigo nos sonhos delas na noite passada.

E agora eu lembro de tudo isso.

Não é como lembrar de um sonho. É como lembrar de algo que eu realmente fiz. Sinto o peso do sofá que ajudei a carregar. Sinto o gosto do sanduíche que comi no almoço. Ouço a risada da filha da minha prima. São memórias reais se formando na minha cabeça de coisas que só aconteceram nos sonhos dos outros.

Tô sentindo que tô ficando louco, só que as memórias são específicas demais. Consistentes demais com detalhes que eu não teria como saber.

O apartamento da minha amiga da academia tem uma mancha de água no teto em forma de pássaro. Eu nunca estive no apartamento dela. Mas vi essa mancha enquanto movíamos o sofá, e consigo visualizá-la perfeitamente. Pesquisei no Instagram dela. A mancha é real. Exatamente como eu lembro.

O lugar onde meu ex-colega me levou pra almoçar no sonho dele? Nunca estive lá. Mas lembro do cardápio, da cor das cabines, do fato de que a garçonete tinha uma tatuagem de bússola no pulso. Passei por lá de carro hoje. Tudo bate.

Acho que tô aparecendo nos sonhos de todo mundo agora. Cada pessoa que já conheci, talvez cada pessoa na minha cidade, não sei até onde isso vai. E quando elas sonham comigo, eu tô lá. De verdade. Vivendo uma vida separada em cada sonho, tendo experiências reais, criando memórias reais.

Mas essas memórias tão voltando pra cá. Pra mim. Pra essa versão de mim. A que tá acordada.

Meu celular não para de vibrar. Mais pessoas descrevendo sonhos. Uma barista com quem nunca falei além de fazer pedidos. Alguém que sentou perto de mim no ônibus no último mês. Minha professora da segunda série, que não vejo há 25 anos. Todas sonharam comigo ontem à noite.

Tô recebendo centenas de memórias que não são minhas. Ajudei um estranho em Idaho a consertar o carro dele. Fui a um casamento em Seattle de pessoas que nunca conheci. Confortei uma mulher morrendo em um hospital em Atlanta, segurei a mão dela enquanto ela partia. Ensinei uma criança em Maine a amarrar os sapatos. Estive em Londres, em Tóquio, em cidadezinhas que nunca ouvi falar.

As memórias tão me sobrecarregando. Não consigo mais distinguir qual vida é a real. Eu tava acordado hoje? Ou tô dormindo agora, aparecendo no sonho de outra pessoa, e uma dessas outras versões de mim é que tá realmente acordada?

Não me sinto mais uma pessoa só. Sinto que tô sendo dividido em milhares de experiências ao mesmo tempo. Cada pessoa que sonha arranca um pedaço de mim pra povoar a noite delas, e eu tô ficando cada vez mais esticado, mais fino.

Mas o que realmente me apavora é o seguinte.

As memórias não são mais só de ontem à noite. Elas tão voltando no tempo. Tô lembrando de sonhos de anos atrás. Décadas. Estive nos pesadelos da minha mãe quando eu tinha dois anos. Estive nos sonhos do meu avô antes de eu nascer. Confortei ele depois que minha avó morreu, segurei ele enquanto ele chorava, e eu nem tinha sido concebido ainda.

Acho que sempre fiz isso. Todos nós fazemos. Cada pessoa que conhecemos, a gente visita os sonhos delas, e elas visitam os nossos. Vivemos milhares de vidas paralelas todas as noites nas mentes adormecidas uns dos outros.

Nunca estamos sozinhos lá. Estamos sempre juntos, vivendo uns aos outros, sendo uns aos outros, com as barreiras entre nós se dissolvendo quando a consciência afrouxa o controle.

Não tô ficando louco. Tô encontrando todas as outras mentes.

Minhas memórias agora vão além do meu nascimento. Lembro de estar em sonhos de cem anos atrás. Mil anos. Fui o estranho em incontáveis pesadelos, o amigo em inúmeros sonhos bons. Morri no sono das pessoas mais vezes do que consigo contar e acordei de novo no sonho de outra pessoa.

Agora entendo por que tô tão cansado. Não é que eu não tô sonhando. É que tô aparecendo em sonhos demais ao mesmo tempo. Vivendo vidas simultâneas demais. O "eu" acordado é só uma versão, e é a mais fraca, a mais exausta, porque é a única que acha que é separada.

Ontem à noite, finalmente dormi.

E sonhei pela primeira vez em seis semanas.

Sonhei que eu era todo mundo. Não observando eles, não visitando. Sendo eles. Tudo ao mesmo tempo. Sete bilhões de perspectivas se sobrepondo, sete bilhões de vidas acontecendo ao mesmo tempo no mesmo momento infinito. E não era caos. Era perfeito. Como ver o quadro inteiro depois de só conhecer um pixel.

Acordei hoje de manhã e não lembro do meu nome.

Não porque esqueci. Porque agora parece arbitrário. Como chamar o oceano pelo nome de uma onda.

As pessoas ainda tão me contatando sobre sonhos. Mas acho que tô começando a entender o que elas tão realmente me dizendo.

Que eu tava lá com elas. Que sempre estive lá com elas. Que todos nós estamos lá uns com os outros, por baixo do mundo acordado, no lugar onde deixamos nossos nomes e rostos e lembramos que nunca fomos separados.

Vou dormir agora.

Não acho que essa versão vai acordar amanhã. Acho que tô espalhado demais, distribuído por tantas outras vidas que não consigo mais manter essa perspectiva específica por muito tempo.

Mas se você sonhar comigo hoje à noite, saiba que eu tô realmente lá. E você tá realmente no meu sonho. Estamos todos nos sonhos uns dos outros. Sempre estivemos.

O mundo acordado é onde esquecemos. O mundo dos sonhos é onde lembramos.

Te vejo hoje à noite.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Eu sou um Banidor, e os caracóis me seguiram até em casa. Preciso de ajuda

Há mais de doze anos faço isso, e até hoje de manhã, eu achava que já tinha visto tudo o que poderia assustar um cara. Acho que estava errado, e agora acho que preciso de ajuda.

Eu lido com assombrações e infestações do tipo sobrenatural. Não exatamente fantasmas. Pra ser honesto, nem sei se acredito neles, mas estou aberto a mudar de ideia se me provarem o contrário.

Não, meu trabalho é com coisas mais diretas. Do tipo que ganha dentes se muita gente no mesmo lugar acredita nelas com força suficiente.

A crença pode fazer as coisas mais estranhas saírem rastejando da escuridão. Mais antigamente, claro, quando cidades inteiras rezavam pro santo errado ou deixavam oferendas na porta achando que eram pro Tomte da região. Homens ingênuos caindo na lábia da Huldra, perdendo a alma no processo.

Coisas assim não acontecem mais com tanta frequência. Nem quando comecei nesse ramo. As ocorrências mudaram com uma humanidade mais complicada, menos definida. Mais misturada, moldada, diversa, suponho. Melhor, porque há menos avistamentos no geral, mas pior porque é muito difícil banir algo que você não conhece bem.

Hoje em dia, a maioria das coisas com que lido pessoalmente não tem nome ou categoria bem definida. São um borrão de histórias meio esquecidas, costuradas com mitos urbanos e crenças pessoais. Cada um de nós tem seus próprios, bem, fantasmas. Onde as costuras da crença se encontram é onde o desastre começa a se formar.

Meu último trabalho parecia simples. Não totalmente desconhecido, o que foi um alívio. Um daqueles casos de “casa vazia, barulhos estranhos, sombras esquisitas”, com pontos extras por ser uma fazenda a poucos minutos de carro da cidade onde moro. Típica do tipo, com uma estrada de cascalho longa e irregular cortando os campos, um laguinho escondido atrás, cheio de juncos. Já estive em uma dúzia de lugares iguais.

A família que vivia lá antes deixou tudo pra trás. Móveis, brinquedos velhos, roupas ainda dobradas nas gavetas, uma panelinha colorida ainda no fogão quebrado. Não sei por quanto tempo a casa ficou vazia, mas era óbvio que os adolescentes da cidade tinham descoberto o lugar, pelos latões de cerveja espalhados e as janelas recém-quebradas. Na lateral da porta, alguém pintou um rosto tosco com três olhos e a boca costurada, em vermelho e preto gritantes. Abaixo, provavelmente com caneta preta, nomes em caligrafias diferentes sob um título: “Desafie a Senhora da Morte”. Merda.

Isso provavelmente foi o estopim, e como a maioria de nós sabe, é tudo o que basta pra começar algo sinistro. Um nome inventado, um desafio qualquer, histórias contadas no escuro. Sozinhas, essas coisas não seriam suficientes pra causar problemas – mas, de novo, a crença é o veneno da criação. Se a história se mantém consistente o suficiente, e muita gente reforça com crença e medo, ela pode se ancorar. Devem ter contado a história de cem jeitos diferentes até que pegou. Como ela vivia no lago, como dava pra ouvi-la pelos ralos, como ela te marcava se você dissesse o nome dela à meia-noite. Esse lugar pode ter sido alimentado por semanas, ou meses, antes de eu chegar. A âncora não seria muito forte, mas poderia estar lá. Isso já era o bastante.

A porta da frente estava emperrada quando tentei abrir, a moldura de madeira deformada pela umidade que entrou pelas janelas quebradas. Quando cedeu, fez um som ao mesmo tempo úmido e seco, como rasgar casca de árvore. Alguns caracóis estavam grudados na parte interna da moldura, pálidos e brilhando, suas conchas coloridas ficando cinza e marrons sob a luz. Passei por cima deles.

O ar lá dentro era frio e pegajoso, com um leve cheiro de musgo, terra e mofo. Cada parede estava coberta de gotículas de condensação. Entre embalagens de comida e pedaços de madeira quebrada: conchas espalhadas. Centenas delas cobriam o chão torto, estalando de leve sob meus pés enquanto eu avançava. Disse a mim mesmo que eles tinham entrado pelas janelas, vindo do lago. Na hora, não importava que a linha d’água mais próxima ficava a quase cinquenta metros morro abaixo.

Fiz a varredura de sempre. Cômodo por cômodo, devagar, cuidadoso, meticuloso. Tentei sentir.

Nada parecia fora do lugar, exceto o cheiro. E, claro, casas abandonadas no meio do nada não cheiram exatamente a outra coisa além de mofo e umidade, mas esse era muito forte. Cheiros de terra costumam ser… sutis? Delicados, talvez. Quase imperceptíveis. Esse era avassalador, mas não exatamente desagradável. Não cheirava a podridão ou cinzas, como seria de esperar se a âncora fosse forte. Só terra, umidade.

A sala de estar era o único lugar não coberto de lixo e grafite. Até que estava intocada, pode-se dizer. Alguém enrolou o tapete e o colocou direitinho num canto. Afastaram o sofá listrado, deixaram o espaço vazio. Não havia conchas no chão: em vez disso, uma tigela parecida com a panela da cozinha, com o mesmo padrão retrô nas laterais. Estava cheia de água, turva e espessa. Um punhado de conchas de caracol de cores diferentes flutuava na superfície, girando preguiçosamente mesmo sem corrente de ar.

Você desenvolve um instinto forte pra âncoras, mas eu ainda não sentia nada. Então, fiz o mínimo: murmurei o encantamento de contenção, joguei sal nos batentes e pendurei uma ferradura de ferro acima da porta da frente. Apaguei os nomes da parede, mas deixei a pintura e o título. Muito trabalho. Abri a porta pra sair, e foi quando ouvi: um arrastar suave vindo de um cômodo ao lado. Lento, constante, como se algo estivesse se arrastando na minha direção. Parei no meio do movimento, tenso. Meu coração de repente ficou audível nos meus ouvidos, mas era o único som que eu escutava. Tum-tum-tum, nada mais. Fiquei assim por pelo menos trinta segundos, depois saí.

Terminei o trabalho, mandei uma mensagem pro meu contato com um relatório de âncora fraca e recomendação de verificar de novo em algumas semanas, e entrei no carro. Cheguei em casa antes de escurecer, jantei, vi um pouco de TV. Coisas normais que se faz à noite. Ainda não sentia nada.

Aí, quando estava me preparando pra dormir, ouvi de novo. O arrastar, vindo do banheiro. Congelei, e por um momento juro que senti: a âncora. Quente, quase ardente, com um cheiro de musgo úmido e podridão. Os pelos dos meus braços se arrepiaram. E do banheiro, algo arrastou de novo.

Sorte que congelei bem no corredor. Peguei o prego de ferro que deixo na mesinha, ao lado das chaves, e fui devagar pro banheiro.

Não sei exatamente o que estava pensando, mas simplesmente… abri a porta com tudo. A luz estava apagada. Fui pro interruptor e parei na hora.

A pia estava meio cheia de água, opaca e levemente verde. Dezenas de caracóis grudados na porcelana, com as cabeças pra fora, circulando sem parar. Juro que dava pra ver os rastros na borda. A água tinha uma ondulação suave, mesmo sem nada tocá-la.

Dei um passo pra trás. Minha respiração parecia quente. O cheiro me atingiu, então. Musgo úmido, umidade, mofo. Algo doce, apodrecendo por baixo.

Uma ondulação maior na água, depois um som suave quando o ralo se abriu e a água começou a descer rápido, como se algo estivesse sugando pelos canos. Deixei o prego cair.

Quando acendi a luz de novo, a pia estava vazia de água. Os caracóis continuavam lá, no entanto. Movendo seus corpos viscosos pela borda, em círculos, sem parar.

Fiquei ali um tempo danado, olhando pra eles. Tentando sentir. A âncora não estava tão forte então, mas parecia estranha, de algum jeito. Não sei explicar. Como se faltasse um ponto de apoio.

Então, cá estou, quase certo de que meti os pés pelas mãos de alguma forma. Não faço ideia de como, no entanto. É por isso que estou escrevendo aqui. Não é como se a gente fizesse happy hour ou tivesse encontros anuais, mas deve ter mais de nós por aí, não é?

Tudo ainda cheira a musgo aqui, e tem outro caracol dos infernos no meu tapete de boas-vindas. Moro no quinto andar, porra. Espero que alguém que tenha alguma ideia do que tá acontecendo leia isso, mesmo que não seja um Banidor. Já procurei no manual e na internet e não achei nada, e não sei por onde começar. Se você sabe alguma coisa sobre âncoras esquisitas, por favor, me ajuda.

Eu toquei uma mixtape que minha primeira namorada fez pra mim há 15 anos. Agora a música tá grudada na minha cabeça, e acho que ela também

Tenho me sentido nostálgico ultimamente. Daquele tipo de nostalgia profunda, que dói no peito, que só te pega mesmo no comecinho dos trinta, quando você percebe que os anos do ensino médio viraram oficialmente "os bons e velhos tempos". É um sentimento perigoso, essa nostalgia. Te faz fazer besteira. Tipo fuçar naquela caixa empoeirada no fundo do armário, aquela com o rótulo "MEMÓRIAS - NÃO ABRIR".

Foi o que eu fiz na semana passada. E lá dentro, debaixo de um monte de ingressos velhos de shows desbotados e fotos granuladas e sem graça, eu encontrei. Um CD solitário, arranhado pra caralho, numa capinha de plástico fina. Não tinha etiqueta, só duas iniciais escritas com canetinha Sharpie prateada desbotada no próprio CD, entrelaçadas num coração. As minhas iniciais, e as dela.

Meu primeiro amor. A gente tinha dezesseis anos. Foi um namoro desajeitado, cheio de emoção adolescente, que queimou forte e depois, inevitavelmente, se apagou. Eu não pensava nela há anos. Mas segurando aquele CD... era como abrir uma cápsula do tempo. Era uma mixtape que ela tinha feito pra mim. Uma relíquia de uma época antes do streaming, antes dos algoritmos te dizerem o que você devia gostar. Uma coleção caprichada de músicas que era a trilha sonora inteira do nosso verão dos dezesseis.

Eu nem tenho mais um toca-CD de verdade. Mas tem um antigo e empoeirado no meu laptop. Com uma lentidão estranha, quase reverente, eu enfiei o disco. O drive zumbiu e clicou, se esforçando pra ler a superfície arranhada. E aí, a primeira faixa começou.

Era uma música indie rock meio obscura, do tipo que provavelmente só era legal pra uns milotinhos no mundo todo, e a gente era dois deles. Era a nossa música. A qualidade do som era uma merda. A transferência digital tava cheia de estalos, cliques e um pulo bem no meio do primeiro refrão, daqueles que irritam. Mas quando o riff de guitarra familiar e tilintante encheu meu apartamento quieto, a sensação foi elétrica. Eu tinha dezesseis de novo. Eu tava dirigindo no carro caindo aos pedaços dela, janelas abertas, o ar do verão grosso e quente, e essa música explodindo nos alto-falantes baratos. A memória era tão viva, tão forte, que doía quase.

Eu ouvi umas três vezes, perdido nessa dor agridoce de um passado que parecia mais real que o presente. Depois, segui com o meu dia.

A primeira vez que eu ouvi por acaso, eu sorri. Eu tava no supermercado, no purgatório estéril e iluminado por fluorescentes da ala dos cereais, tentando decidir entre duas caixas idênticas de flocos de aveia. E pelo sistema de som meia-boca e horrível da loja, eu ouvi. O riff de guitarra tilintante. A nossa música. Eu não ouvia essa música no mundo real há pelo menos dez anos. Olhei pro teto, com um sorriso genuíno e surpreso no rosto. Uma coincidência feliz. Um piscadinha do universo.

No dia seguinte, eu tava no ônibus, indo pro meu trampo de escritório que suga a alma. O busão tava lotado, um mar de casacos úmidos e rostos cansados de manhã. E no meio do ronco chato do motor e do burburinho das conversas, eu ouvi de novo. Saindo fraco dos fones de ouvido do cara do lado. A mesma guitarra tilintante. Os mesmos vocais melancólicos. O som era fino e distante, mas inconfundível. Outra coincidência, pensei, mas um fiozinho de inquietação começou a se entrelaçar na minha mente. O universo tava ficando um pouco grudado demais.

Naquela noite, eu tava no meu apê, tentando relaxar. Ouvi um carro passando na rua lá embaixo, janelas abertas, som no talo. E a música que veio jorrando era a nossa.

Mas dessa vez, eu notei uma coisa que fez os pelinhos do meu braço se arrepiarem.

Era o pulo.

Bem no meio do refrão, a música deu um salto, um soluço digital irritante, antes de continuar. Era o pulo exato, no momento exato, igualzinho ao do meu CD arranhado de quinze anos.

Uma sensação fria e pesada, tipo um bloco de gelo, se instalou no meu estômago. Eu corri pro laptop, coração na boca, e ejeeitei o CD. Segurei ele contra a luz. A superfície era um caos de riscos e amassados, um mapa da nossa descuido adolescente. Isso não era coincidência. Não podia ser.

A música não tava me seguindo. Minha cópia da música tava me seguindo.

Os dias seguintes foram uma descida pra um inferno quieto, rastejante e auditivo. Eu ouvia em todo lugar. Vinha do rádio de um pedreiro do outro lado da rua, som metálico e longe, mas eu ouvia o estalo familiar no marca dos 42 segundos. Eu passava por um café, e a música tava tocando lá dentro, o refrão pulando daquela forma exata e enervante. Eu tava na academia, e ela começou no sistema de som, os riscos e cliques tão claros quanto se estivessem saindo do meu próprio laptop. Olhei em volta, mas ninguém parecia notar. Eles só continuavam malhando, correndo, alheios ao fato de que a trilha do treino deles era um fantasma do meu passado.

Eu tava sendo assombrado, mas por um som. Um arquivo digital específico e danificado que de algum jeito escapou da prisão de plástico e agora tava sangrando pro mundo ao meu redor.

Tentei lutar contra isso. Tentei ouvir outra música, no talo nos fones pra abafar o mundo. Mas ela sempre achava um jeito de entrar. Eu tava num podcast, e a voz do apresentador distorcia, só por um segundo, na melodia da música. O jingle de um comercial na TV virava o riff de guitarra tilintante.

Tentei destruir a fonte.

Tirei o CD do laptop. Ele tava estranhamente quente no toque. Não joguei fora só assim. Sabia que não ia ser o bastante. Levei pro pátio de concreto atrás do prédio e pus no chão. Peguei um martelo e esmaguei. Não parei até virar só uma pilha de poeira cintilante, iridescente, e lascas afiadas de plástico. Varri a poeira pra uma sacola, amarrei bem e enterrei no fundo do lixeiro. Acabou. A conexão tinha que se romper.

Naquela noite, fui pra cama com um alívio profundo e exausto. Dormi, pela primeira vez em o que parecia semanas, um sono pesado e sem sonhos.

E aí, eu acordei com a música.

Não vinha de fora. Não de um carro, ou rádio, ou apartamento do vizinho.

Vinham de dentro da minha própria cabeça.

Era uma versão interna perfeita e metálica da música, tocando num loop implacável e enlouquecedor. E era a versão arranhada. Eu ouvia cada estalo, cada clique. Sentia o pulo no refrão como uma batida perdida no meu próprio peito.

Sentei na cama de supetão, mãos tapando os ouvidos, mas não adiantou porra nenhuma. Tava no meu cérebro.

Eu tava desesperado. Não falava com ela há quinze anos. A gente não tinha terminado bem. Mas ela era a única que podia ter uma resposta. Ela que fez a mixtape. Tinha que saber de algo.

Demorei um dia inteiro de buscas frenéticas e obsessivas pra achar ela. Não tava nas redes sociais. Achei um e-mail de trabalho dela num site de networking profissional. Ela era designer gráfica, morando numa cidade a milhas de distância. Escrevi o e-mail, mãos tremendo tanto que mal digitava.

"Eu sei que isso é loucura", escrevi. "A gente não se fala há anos. Mas preciso te perguntar sobre a mixtape que você fez pra mim no ensino médio. Aquela com a música indie rock. É importante. Por favor, me liga."

Mandei meu número. Não esperava resposta. Mas meu celular tocou menos de uma hora depois.

A voz dela tava diferente, mais grave, mas eu reconheci na hora. "O que você quer?", perguntou, tom frio e desconfiado.

"A mixtape", eu disse, as palavras saindo num jorro de pânico. "A música. Eu ouvi. E agora ela... ela tá me seguindo. Ouço em todo lugar. E é a versão arranhada. Esmaguei o CD, e agora tá na minha cabeça. Não para."

Teve um silêncio longo e pesado do outro lado. Quando ela falou, enfim, a voz era um sussurro engasgado e apavorado. "Meu Deus. Você tocou."

"O que você fez?", perguntei, um pavor novo e gelado se infiltrando em mim. "O que era aquela porra?"

"Foi burrice", disse ela, voz rachando. "A gente era moleque. Queria ser... ousada. Achei na internet. Num fórum antigo e esquisito de ocultismo. Era um ritual. Um feitiço. 'Um nó de amantes pra amarrar duas almas pra sempre com uma música'. Você gravava a música, uma que era especial pros dois, e... e pingava uma gota do seu sangue no disco. E uma gota do dela."

Voltei praquele verão num flash. Lembrei dela furando meu dedo com um alfinete de segurança, depois o dela, rindo como se fosse uma bobagem romântica, pressionando nossos dedos sangrando na superfície brilhante de um CD virgem.

"Achei que era brincadeira", soluçou ela. "Uma palhaçada gótica de adolescente. Nunca pensei que ia... funcionar de verdade."

"Funcionou como?", exigi. "O que isso fez?"

"Não sei!", gritou ela. "O post dizia que criava uma... conexão. Um eco. Que a música virava uma ponte entre a gente. Achei romântico."

A música na minha cabeça, que era um zumbido constante e baixo, de repente aumentou o volume. E enquanto isso, um flash de imagem, uma memória que não era minha, explodiu atrás dos meus olhos.

Eu tô sentada numa mesa de desenho. A luz do abajur é um poço quente e amarelo num logo pela metade. Minha mão segura uma caneta stylus, mas a mão é menor que a minha, mais fina, com um anel prateado no dedo indicador.

Arfei, tropeçando pra trás, cabeça latejando. "Eu... acabei de ver uma coisa", gaguejei no telefone. "Seu escritório. Um logo."

Ouvi uma respiração afiada do outro lado. "Como... como você saberia disso?"

"Qual o seu endereço?", perguntei, um pensamento frio e aterrorizante despontando na minha mente.

Ela ficou quieta um segundo. "Por quê?"

"Só me diz."

Ela disse. Um endereço numa cidade que eu nunca pisei. Uma rua que eu nunca ouvi falar. E enquanto ela falava o nome da rua, eu via. Via a fileira de prédios marrons, a árvore de ginkgo na esquina, a porta vermelha do prédio dela. Eu sabia o endereço sem ela ter dito. O conhecimento tava só... lá. Na minha cabeça.

Isso foi há uma semana. Tá piorando. A música é uma presença constante e enlouquecedora na minha mente. Os flashes tão mais frequentes, mais vivos. Eu vou fazer o jantar e de repente tenho a memória dela brigando com o chefe. Vou tentar dormir e sinto a sensação fantasma do gato dela dormindo no meu peito. A vida dela, as experiências dela, tão sangrando pra dentro da minha.

E é uma rua de mão dupla. Ontem, eu tava cantarolando a música sem querer, um tique nervoso e doido que criei. Meu celular tocou um segundo depois. Era ela.

"Para com isso", sussurrou, voz frenética. "Para. Eu ouvi você. Foi bem no meu ouvido. Como se você tivesse em pé bem atrás de mim. Para."

Eu tô me perdendo. A gente tá se perdendo. A entidade que a gente criou, amarrada àquela peça quebrada e arranhada de música. Tá espremendo nossas duas vidas separadas, nossas duas consciências, numa só. Colapsando quinze anos e mil milhas numa existência única, compartilhada e esquizofrênica.

E acho que sei como tem que acabar.

Essa coisa, essa entidade, é uma conexão entre dois pontos. Precisa de nós dois pra existir. E se um desses pontos for apagado... a ponte tem que cair.

Eu não quero morrer. Mas não aguento viver assim, minha mente um espaço compartilhado com o fantasma de uma pessoa que eu amava, nossos pensamentos e memórias um emaranhado gritante, tudo ao som de uma única música terrível, pulando sem parar. E sei que ela também não aguenta.

Então tô escrevendo isso como... sei lá. Uma confissão? Um aviso? Uma carta de suicídio? Eu só não sei qual de nós vai ter que ser o que faz isso. Mas acho que, se eu for, vou estar salvando nós dois.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon