terça-feira, 4 de novembro de 2025

Fui caçar dentro de uma zona de testes de radiação. Agora, algo está me caçando...

Lá estava eu, mirando a espingarda na beira da mata, quando sai um cervo de três olhos.

Ele abaixava a cabeça, roçando o focinho na grama. Eu espiava de trás de um carvalho, uns cento e cinquenta metros pra trás, numa leve encosta. Fiquei pasmo. Só conseguia olhar.

O cervo achou o lugar dele e começou a mordiscar a grama. Enquanto os olhos normais ficavam fixos no que comia, o terceiro olho rolava dentro da órbita, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, vasculhando tudo ao redor. Até piscava no próprio ritmo.

Era uma mutação genética foda. Exatamente o tipo de coisa que eu procurava.

Eu tava deitado no chão, atrás da espingarda. Deslizei a mira do olho dele, subindo pelo pescoço, e parei logo acima do ombro direito. Bem em cima do coração. Não consegui segurar o sorriso. Porque hoje era meu dia de sorte. Essa cabeça ia virar um troféu do caralho.

Passei o indicador no gatilho. Respirei fundo. Lá no alto das árvores, o sol se punha. Tudo banhado num brilho dourado. O ar tava gelado e o calor da minha respiração embaçava o vidro da luneta. Segurei o ar. Estabilizei a mira. Reflexos loiros riscavam o pelo marrom-chocolate do cervo. Era lindo pra porra. E a vida dele tava na ponta do meu dedo.

O cervo deu uns passos pra frente, virando de lado pro esquerdo, bagunçando minha mira. Quando ele se inclinou, vi uma quinta perna saindo da bunda dele. Empurrei isso pra longe da cabeça. Foquei. Voltei a mira pro coração. Conte uns batimentos e me ajeitei no chão pra ficar confortável. Umas folhas estalaram debaixo de mim.

O olho se ergueu. E depois se estreitou.

Apertei o gatilho.

No meio segundo que a bala levou pra acertar, o cervo deu um pinote pro lado. Tropeçou, girou e disparou de volta pra mata, roçando num cartaz desbotado que dizia “Zona de Radiação. Proibida a Entrada”.

Meus olhos grudaram no cartaz e no buraco vazio entre as árvores. Uma sensação de fracasso afundou no meu estômago como âncora na água. Depois, uma queimação explodiu no peito. Soltei o ar com força pelos dentes.

Seu filho da puta inútil... Eu tinha acertado. Tinha. Tinha. Tinha. Por que caralhos eu me mexi?

Levantei, encarando o carvalho com ódio, e recolhi a espingarda. Tava pronto pra quebrar ela no meio e rachar lenha de quebra. Eu odiava errar. Odiava pra caralho. Um segundo antes de balançar, uma luz se acendeu na minha cabeça.

Parei. Deixei a espingarda cair pro lado. Aquilo tinha sido um tiro bom. Eu tinha acertado em cheio. Olhei pela luneta. Contra a luz que sumia, um ponto de sangue brilhava.

Afunde no tronco da árvore e cruzei a espingarda no colo. Do lado, minha mochila também encostava na árvore. Enfiei a mão dentro e tirei o cantil. Bebi um gole. E comecei a pensar.

O cervo tava correndo, mas aposto que não foi longe. Aposto que nem um pouco. Mas, se eu for atrás agora, posso assustar ele. Fazer correr mais fundo na mata. Seria burrice. Quando isso acontece numa caçada, o tempo padrão de espera é trinta minutos. No mínimo.

Olhei pra um fio de sol sumindo atrás das árvores.

Em trinta minutos, não ia ter mais luz. Eu ia rastrear dentro de uma floresta desconhecida no escuro total.

Bebi mais um gole, depois pensei no meu pai. Ele ia odiar isso. Pra ele, caçar era só pra comida. Atire só no que você vai comer, e nada mais. Eu sempre discordei.

Quando você sente a adrenalina, a empolgação, o tesão de caçar um bicho e conquistar a vida dele, é inesquecível. É como um barato. É íntimo. É a troca mais delicada que você pode ter com outro ser vivo. Mais que sexo. Tô falando sério. Nada se compara.

Mas, como tudo, o novo enjoa.

Aos vinte e poucos, depois que o pai morreu, o tesão sumiu. O que era minha maior alegria virou rotina. É como quando você começa a dirigir. Na primeira vez que vira o volante, parece que descobriu o fogo. É mágica. Mas deixa um ano passar... bom, como eu disse. É igual qualquer coisa. E você só recupera a mágica encontrando um jeito novo de fazer.

Foi aí que descobri esse lugar. Floresta de Radiação Enterprise.

Durante a Primeira Guerra, o governo dos EUA usou uma área pequena dessa floresta em Wisconsin pra testar os efeitos da radiação na vida selvagem. Queriam ver as formas horríveis que ia alterar as árvores, insetos e animais, pra se os EUA fossem atingidos, a gente soubesse o que esperar.

Os locais odiavam. Políticos brigavam a cada passo pra fechar. Então, mesmo que o projeto tivesse verba pra vinte anos, cortaram depois de um.

O lugar não é mais radioativo. Mas quando li que a vida selvagem foi alterada pra sempre, tive que ver com meus próprios olhos. Claro, caçar aqui era altamente ilegal. Mas isso era parte da graça.

Isso decidiu pra mim. Não fiquei puto porque o cervo correu. Fiquei feliz. Era só o aquecimento pro evento principal. Agora era caçada de verdade. Com sol ou sem sol, eu ia levar meu troféu pra casa.

Coloquei um timer de trinta minutos no relógio.

Depois, encaixei outra bala na câmara, troquei a bateria da luneta infravermelha e, por via das dúvidas, botei uma bateria nova na lanterna de luz vermelha. Quando caça à noite, tem que usar luz vermelha porque os bichos são menos sensíveis a essa cor.

Trinta minutos passaram, e o relógio apitou. Eu tava bem alto já. Joguei a espingarda no ombro e desci a encosta em direção ao sangue. Agora tava escuro.

Uma rajada gelada cortou e atravessou meu casaco. Esfreguei as mãos, soprando pra recuperar o tato, quando cheguei no fundo da encosta. Olhei pro sangue.

Era marrom-escuro e já tinha coagulado por causa do frio. Um cheiro podre subia, e vários tufos de pelo marrom tavam enrolados dentro. Sinais bons.

Sangue marrom-escuro com cheiro horrível significa tiro na barriga. Tiro na barriga significa morte rápida. Sinceramente, fiquei chocado que ele tenha conseguido entrar na mata. Achei que tava perto.

Várias gotas de sangue seguiam pra dentro da floresta. Segui, passando pelo cartaz de aviso, e entrei na mata.

Andei ao lado de mais umas gotas, depois o rastro cortou. Vasculhei ao redor, procurando continuação. O feixe vermelho da lanterna varria árvores que cresciam uma na outra, troncos torcidos em formas horrendas. Na minha frente, um bordo explodia com centenas de cogumelos vermelhos que brotavam na casca como uma erupção.

Do lado direito, vi uma folha com várias gotas de sangue. Estalei naquela direção por uns metros e dei num segundo poço grande de sangue.

Pelo jeito que tava acumulado, o cervo provavelmente parou ali pra descansar. Isso me derrubou. O fato de ele parar, descansar e continuar com um tiro na barriga era uma maravilha absoluta. Esse bicho era foda. Aí notei algo no sangue.

Mais tufos de pelo enrolados, mas de cor diferente da anterior. Esse pelo era vermelho. Pelo de um bicho completamente diferente. Como assim? As chances de outro bicho ferido cruzar exatamente esse caminho eram astronômicas.

Minha melhor aposta era pelo de raposa, mas eu sabia que era forçado. A textura tava errada. Fui mais fundo na floresta. Tinha que tá perto. Tinha que.

Claro, peguei mais rastro e segui uns metros. Parei quando algo brilhou na minha cara.

Esticada entre duas árvores a uns três metros de distância, uma teia de aranha tão grande que devia ter levado um exército pra fazer. Uma rede de padrões assimétricos espiralava pro centro. No meio, uma aranha gorda pendia, tremendo. A centímetros da minha cara.

Parecia que tava tendo um ataque. As pernas eram longas como dedos. A pele era translúcida, e dentro do corpo eu via veias azuis pulsando. Expandindo e contraindo.

Recuei devagar. E enquanto eu recuava, o corpo da aranha parou de tremer. Ficou só pendurada, imóvel, balançando leve no vento.

Aí algo explodiu debaixo dela e centenas, talvez milhares de aranhas bebês saíram correndo. Rastejavam umas por cima das outras pra sair debaixo da mãe. Depois se espalhavam, explorando a teia.

Sou mateiro há muito tempo. Vi muita coisa louca na natureza. Mas nada como aquilo. Aquilo me fodeu. Dei uma volta larga daquelas árvores e tentei esquecer o que tinha visto. Queria que o cervo aparecesse logo. Quanto mais floresta eu via, menos queria tá ali.

Continuei no rastro, pegando uma gota aqui, outra ali. E pra minha surpresa, tive que andar mais duzentos metros até uma clareira nas árvores. Aí achei.

O corpo do cervo tava deitado de lado, amontoado. Estudei a barriga, procurando subir e descer. Mas tava parado. Finalmente, caiu morto. “Aí tá você”, sussurrei.

Um galho estalou atrás de mim.

Virei, varrendo a luz pelas árvores. Não tinha nada. Virei de volta.

Pelo lugar que acertei, qualquer outro cervo teria dobrado na hora, se não uns metros depois. Mas esse. Esse cervo viajou o equivalente a três campos de futebol com um buraco explodido no intestino. Era loucura absoluta.

Só podia assumir que os bichos dessa mata eram duros pra caralho porque as pessoas os fizeram assim. Pessoas impuseram forças que deviam ter tornado a vida aqui impossível. Eles deviam ter sido apagados. Mas em vez disso, se adaptaram. É o que a vida faz. Acima de tudo, quer existir.

De repente, senti um respeito imenso por aquele cervo. Depois senti culpa. Nunca devia ter vindo aqui. A vida desses bichos já era dura o suficiente sem eu meter o dedo. Lição aprendida. De novo, o pai tava certo. Quanto mais velho eu ficava, mais percebia isso.

Porém—

Já que eu tava aqui, e já que o cervo tava morto, não devia eu fazer o melhor pra honrar ele? Comemorar a perseverança contra todas as probabilidades? A resposta natural parecia sim. Ia levar a cabeça pra casa e pendurar na parede pra todo mundo ver.

Entrei na clareira e, enquanto me aproximava, revirei a mochila atrás da serra de osso. Como não ia esviscerar o cervo inteiro, não ia demorar. Só precisava da cabeça.

Antes de achar a serra, a lanterna piscou um pouco, o que me surpreendeu. Tava com bateria nova. Por sorte, tinha reservas se precisasse.

Parei em cima do cervo e senti algo estranho no jeito que tava deitado de lado. Algo não natural. Aí percebi que não tava deitado de lado. Nem tava lá. Só a pele.

A pele do cervo tava jogada em cima de uma pedra, criando ilusão de volume, mas o corpo tinha sumido. Sumido. Dava pra ver que as bochechas tavam ocas, a barriga esticada na pedra como cobertor numa cadeira, e as pernas enroladas embaixo como cordas. Meu coração pulou. O cervo tinha largado a pele.

Aí a luz piscou, apagou e morreu. Tudo escureceu. Tirei a lanterna da cabeça, cliquei o botão umas vezes, depois bati nela. Nada.

Precisava daquelas baterias.

Ajoelhei, arranquei a mochila do ombro e tateei o zíper. Depois de umas passadas, os dedos roçaram metal. Abri e enfiei a mão, procurando o plástico das baterias.

Os dentes da serra de osso arranharam meu braço, mandando uma dor foda. Minha pele agora tava escorregadia de sangue. Forcei uma risada pra me acalmar. Tá tudo bem. Tudo certo. Só achar as baterias, colocar e vazar. Simples.

Algo se mexeu atrás de mim.

Levantei, arrancando a espingarda do ombro. Usei a luneta térmica pra varrer a área onde ouvi o barulho. Se tivesse algo, o calor do corpo ia aparecer em branco. Mas só via uma paisagem de árvores deformadas e um tapete de folhas mortas embaixo. Algo definitivamente tava lá. Só não queria ser visto.

Todos os meus sentidos entraram em overdrive. Meu cérebro tava louco, tentando absorver tudo de uma vez, tentando localizar a ameaça. Eu tava perdendo a cabeça.

Saí correndo na direção que achava que tinha vindo, usando a luneta da espingarda pra ver, o que tornava correr rápido impossível. Tropecei em raízes, galhos mortos, saliências no chão escondidas na minha visão. Aí meu pé bateu em algo sólido. Tropecei pra frente, largando a espingarda mas me segurando numa árvore. Minhas mãos esmagaram algo. Aí começou a se mexer.

Empurrei a árvore e me joguei no chão, depois comecei a tatear no escuro. Tinha que pegar a espingarda. Varri na frente, virei esquerda, varri mais, virei de novo e bati na coronha. Agarrei e levantei correndo.

Atrás de mim, algo também começou a correr. Quatro pernas batendo no chão com velocidade do caralho. Quando ouvi, girei e disparei um tiro de aviso pra mostrar que eu ainda era ameaça. Que ainda tinha poder.

Quando virei de volta, bati em algo pegajoso. Senti cócegas no rosto e no couro cabeludo. Olhei pra baixo. Dezenas de pontinhos brilhantes rastejavam na minha jaqueta. Tinha corrido direto na teia.

Bati no corpo e puxei o cabelo, lutando pra tirar. Mas os corpinhos grudavam como cola. Rasguei a mochila e tirei o cantil, depois joguei uísque na cabeça e espalhei. Quando o álcool entrou, a cócega parou.

Eu tinha perdido total controle da situação. Se continuasse correndo assim, ia morrer. Não conhecia essa mata. O que me caçava conhecia. Precisava de um lugar pra acampar. Precisava que viesse até mim.

Vasculhei. A uns metros, uma parede de pedra. Se encostasse as costas ali, cortava pelo menos um ângulo de ataque. Não era muito, mas era algo.

Corri pra lá. A posição era melhor do que imaginei. Porque tinha um buraco cavado na base. Um buraco que eu podia enfiar o corpo. E esperar.

Ajoelhei e entrei de costas, agarrado na espingarda. O espaço era apertado. Mas cabia. Me ajeitei. Depois varri fora do buraco, testando a mira.

Tava deitado do lado esquerdo, num ângulo foda. Mas tinha certeza que dava pra fazer algo. Assim que visse, mirava na cabeça e atirava. Já tinha gastado uma bala, então sobravam quatro. Quatro chances.

Tinha que ficar quieto agora. Sabia que a audição dele era afiada. Ouviu eu estalar uma folha a cento e cinquenta metros. Pra pegar de surpresa, precisava ficar parado como estátua.

Fiquei imóvel, olhando pela espingarda, ouvindo o tum-tum rápido do meu coração. Mal respirava.

De algum lugar à direita, ouvi folhas estalando. Vindo bem de fora do buraco. Queria mirar pra lá. Mas tinha medo que o movimento fizesse barulho demais. Em vez disso, esperei ele entrar na mira.

Os passos ficavam mais perto. Pra checar onde tava em relação a mim, avancei o olho devagar da luneta. Uma forma escura entrou no campo. Só que não era forma de bicho. Era forma de gente. Rastejando de quatro. A cabeça abaixada no chão, olhando algo além do buraco, mas rastejando bem na minha frente.

Mesmo a menos de sessenta centímetros, não percebeu minha presença. Fiquei imóvel. Tava quase direto na minha linha de tiro. Passei o dedo no gatilho.

Aí algo fez cócegas na linha do cabelo, e perninhas minúsculas desceram no meio da minha testa. Quando a aranha chegou entre meus olhos, parou. O corpo brilhava no canto da visão. Meu reflexo gritava pra mão bater, esmagar. Mas isso significaria morte quase certa pra mim. Tinha que ficar perfeitamente parado.

Enquanto a criatura humanoide rastejava direto na frente do cano, a aranha subiu na ponta do meu nariz, depois desceu por um fio. Pernas como agulhas roçaram meus lábios e andaram, explorando a carne mole ao redor da boca. Não mexi um músculo. Desceu pelo queixo, pelo pescoço e entrou na frente da camisa.

Fora do buraco, a criatura olhava pro lado esquerdo. Depois parou, como se tivesse captado algo. As orelhas tremiam. Minha arma agora mirava longe demais pro direito. Tava tão congelado de medo, tão paralisado, que não ousava me mexer. Tava perto demais. A cabeça virou pro buraco, só uns centímetros. Segurei o ar nos pulmões com força. Aí virou mais um centímetro, e mais um, e olhou direto pra mim. Bem dentro do buraco.

Aí virou pro outro lado e rastejou pra longe, me mostrando as costas. Devia tá me caçando pelo som.

Deixei ele se afastar. Aí voltei o olho pra luneta. Lá tava. Bem na mira. Deslizei a retícula na nuca. O pescoço rolou pro esquerdo. Segui. Esperei. Depois de uns segundos parado, o dedo tocou o gatilho e começou a apertar. Algo afiado picou meu peito.

A retícula desviou e disparei fora do alvo. A cabeça girou pra trás, direto pra mim. Foi a primeira vez que vi direito.

Tava usando a minha cara.

Minhas mãos tremiam enquanto alinhava a retícula de novo, bem entre os olhos, e disparei a segunda bala. Ele desviou pro direito, pulou de volta e avançou.

Disparei a terceira.

Cortei pro esquerdo, como se soubesse exatamente quando eu ia atirar antes de eu puxar o gatilho.

Chegou a um metro e meio de mim.

Mirei direto na cabeça e apertei a última bala enquanto ele pulava do chão. Caiu de cabeça dentro do buraco, tremendo em cima de mim. Aí parou de tremer, e o corpo ficou muito parado. Um calor começou a vazar na minha camisa. Tava sangrando.

Lutei contra o peso morto e finalmente empurrei o suficiente da abertura pra me espremer pra fora.

Fiquei de pé, depois dobrei e vomitei. Aí as pernas cederam nos joelhos e desabei no chão. Tive que me esforçar pra levantar de novo. Uma pressão crescia na cabeça. Parecia que meus olhos iam explodir.

Quando me estabilizei, levantei a espingarda pra ver o que tinha atirado. Tava de costas, e via que tinha acertado direto no coração, totalmente por acidente. Tiro de sorte. Milagre.

***

Agora tô sentado na cadeira de rodas perto da lareira. Na minha sala de caça. Exceto pela luz tremendo da fogueira, o quarto tá escuro. Por causa das enxaquecas, é tudo que meus olhos aguentam.

Fogo tem um jeito engraçado de pintar um quarto. Tô notando coisas nas paredes que não via há anos.

O fogo brilha nos olhos escuros dos meus troféus empalhados. Reluz no metal brilhante da minha primeira espingarda. Reflete nas molduras das fotos de caçadas antigas. Tudo isso representa os bons tempos. Esse quarto é uma extensão de mim. Essas relíquias são pedaços de mim. Enquanto olho ao redor, me pergunto se vou conseguir adicionar mais alguma coisa, ou se minha última adição já foi feita.

Minha saúde não tá boa nessas últimas semanas. Quando fui picado, injetaram um veneno que meu corpo não consegue combater.

Primeiro, perdi os movimentos finos das mãos, então não consigo mais mirar uma espingarda. Depois perdi o uso das pernas. Não consigo ir trabalhar nem sair de casa sem ajuda. E agora a visão tá indo embora. As enxaquecas são tão ruins que vejo em dobro. Quando atacam, parece duas picaretas batendo nas têmporas, sem parar.

Minha namorada parou de vir. Nem atende minhas ligações. Acho que acha tudo isso depressivo demais. Não dá pra culpar ela.

Talvez eu tenha trazido isso pra mim mesmo. Talvez seja castigo por tratar caça como jogo. Se for, aceito. Mas queria que meu arrependimento aliviasse a dor, nem que fosse um pouco. Tô doendo o tempo todo agora. É só no que penso.

Só fico feliz que o pai não tá aqui pra ver isso. Me dá vontade de chorar, pensando nele e nos dias que caçamos juntos. Quando fecho os olhos, ainda ouço a voz dele me levando pra caçar pela primeira vez. Ele era tão jovem. Nós dois éramos. Lá estávamos, de bruços, espiando por cima de uma árvore morta e estudando um cervo. Era uma beleza.

Eu tinha a espingarda nele, e sentia ele sussurrando no meu ombro, dizendo exatamente onde mirar, exatamente como respirar. Pra ficar calmo. Meus dedos tremiam tanto que mal segurava a espingarda. Mas ele disse que tava tudo bem. Disse pra não ter medo, porque o que a gente fazia era parte de um ciclo. Era um ato de violência, mas seria seguido por um ato de amor. Quando eu tomasse a vida do cervo, ele disse, nossa família ia ter comida por seis meses.

O pai se foi há alguns anos, mas ainda fala comigo. O som da voz dele tá tão claro na minha cabeça agora. Me conforta. É como ouvir as palavras de um anjo.

Mas o que ele pensaria de mim agora? Todos esses erros que cometi? Essas cabeças de troféu na parede? Me perdoaria?

Bem na minha frente tá pendurada a minha própria cabeça. Meus três olhos mortos e frios me encaram de volta. Zombam de mim e de como vivi a vida. Um paradoxo doentio. Parece que a natureza tá dando a última risada. O que o pai acharia disso?

Às vezes, nem consigo explicar pra mim mesmo por que faço algumas das coisas que faço. Olho pra dentro, mas as respostas ficam num lugar fundo e escuro demais pra eu alcançar. Ou talvez eu só não queira olhar.

De algum jeito, acho que as coisas vão se ajeitar do jeito que devem. Talvez minha dor suma logo. Talvez eu veja o pai de novo. E até lá, talvez eu tenha encontrado algumas respostas pra ele.

Aí talvez ele consiga me perdoar no coração. Vou dar um abraço nele, e dizer o quanto sinto. Que ele tava certo sobre tudo. Aí, finalmente, a gente pega as espingardas e vai caçar juntos de novo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Terror nos Apalaches

Já teve um trampo que você curtia pra caralho e achava que dava pra fazer pro resto da vida? Eu tive, aos vinte e cinco anos. Arranjei uma vaga de guarda florestal no Parque Nacional das Grandes Montanhas Fumegantes. Pra ser sincero, o serviço era moleza. Ficava o dia todo rodando de carrinho de golfe, multando quem furava regra e catando lixo. De vez em quando aparecia uns campistas escrotos, mas fora isso eu amava.

Aí, numa manhã fresca de outono, tudo mudou. Mudou minha vida pra sempre.

Estava rodando de boa quando um casal jovem atravessou na frente do carrinho. Pisei no freio com tudo pra não atropelar. Eles tavam pirados, a mãe com o rímel escorrendo de tanto chorar. Contaram que tavam num trailer e o filho de cinco anos sumiu de noite enquanto dormiam. Tentei acalmar, disse que o moleque devia tá por perto. Mas eles juravam que vasculharam tudo e nada.

Tavam apavorados, já tinham ligado pra polícia — que ainda não tinha chegido. Eu não tinha filho, mas dava pra ver a dor daqueles dois. Como guarda, senti que era minha obrigação ajudar. Enquanto esperavam os tiras, falei que ia dar uma busca numa trilha ali perto. Eles toparam, aliviados. A mulher mandou uma foto do menino no celular. Um guri fofo, sorrindo com um peixe que tinham pescado no dia anterior. Disse que ele usava boné do time favorito do pai e atendia por Jack.

Saí animado, achando que ia achar rapidinho. Já tinha lidado com desaparecidos antes; sempre apareciam em poucas horas.

Fui andando, gritando “Jack!” sem parar. Silêncio total na mata. Rezava pra ele não ter escorregado num riacho e se afogado. Ou, Deus me livre, virado jantar de urso-negro. Tentava empurrar esses pensamentos pra longe.

Quanto mais fundo, mais estranho. Comecei a ouvir um uivo esquisito, tipo coruja, me seguindo. Estudei os bichos dali e nunca tinha escutado nada assim. Coruja sai de noite, né? Mas nesses matos a gente nunca sabe.

Um guarda mais velho, o Gary Maluco, jurava que via Pé Grande toda semana. Dizia que se você levasse um pacote de carne-seca, ele dava tapinha na sua cabeça. Tá bom.

Nada de pegada, nada de menino. Achei que a polícia já tinha chegido e ia soltar os cães. Ia dar meia-volta quando, de repente, uma vozinha respondeu: “Ei, tô aqui!”

Corri pro lado do som. “Jack, é você??”

Silêncio. Achei que ele tava assustado. “Sou guarda-florestal, seus pais tão procurando. Segue minha voz!”

Nada. Mas eu tinha certeza que era ele.

Saí da trilha, entrei no mato fechado. A coruja esquisita voltou. Empurrei galho, rasguei a perna nos espinhos. De repente ouvi de novo, mais perto: “Senhor… me ajuda… tô perdido.”

“Cadê você? Tá machucado? Sai daí, tô tentando te salvar!”

Quebrei galho grosso, sangue escorrendo das canelas. Cheguei numa clareira… e cadê o menino?

No lugar, uma cabana podre no meio do nada. Parecia ter cem anos. Telhado de palha, sem janela, sem porta. Dava pra ver dentro. Um ano de parque e ninguém nunca falou dessa porra.

Curiosidade falou mais alto. Entrei.

Um fedor de podre me acertou na cara. Quase vomitei. Cheiro de coisa morta apodrecendo.

Tudo mofado, tudo velho. Parecia cenário daquele jogo… sabe, aquele que você salva a filha do presidente de um culto zumbi.

No centro da mesa, um caldeirão. Escorria uma gosma vermelha, tipo extrato de tomate. Olhei dentro.

Nunca esqueço.

Caldeirão fervendo sangue. Dedinhos, dedões, nariz, orelhas. Olhos boiando, me encarando. Tudo tamanho de criança.

Caí no chão, hiperventilando. Não era sonho.

Do lado, no chão, o boné. Manchado de sangue. O mesmo da foto.

Algo horrível rolou ali. Peguei o boné e corri pra fora.

Dois velhos nojentos bloqueando a saída. Trapos, cabelo grisalho emaranhado. O cara com barba vermelha na boca. A véia com dentes podres e unhas amarelas.

Começaram a rir e soltar aqueles uivos. Aí entendi: não era coruja.

A véia falou, voz de criança: “Me ajuda…”

Adrenalina explodiu. Tirei o spray de pimenta do cinto. Jato nos olhos daqueles rostos deformados. Caíram gritando, se contorcendo.

Corri que nem louco, horrorizado.

Nunca imaginei que um trampo tranquilo na natureza virasse isso. O coitado do Jack… já era.

Corri sem parar. Cheguei no acampamento. Dois policiais anotando, pais desesperados.

Cheguei voando, quase derrubando um. Agarrei pela gola: “MATARAM ELE! AQUELOS MONSTROS MATARAM! FAÇAM ALGUMA COISA!”

Entreguei o boné ensanguentado. O olhar dos pais… nunca esqueço.

Polícia fechou o parque inteiro. Levaram a gente pra delegacia. Os gritos da mãe ecoam até hoje nos meus pesadelos.

Falaram em me internar. Eu tava destruído.

Mandaram um batalhão tático. Os ferais atacaram; nem falavam humano. Eram bichos que comiam gente pra sobreviver. Encontraram vários corpos. Todos devorados, mutilados. Igual o Jack.

Não me internaram, mas fiz anos de terapia. Remédio, surtos de estresse pós-traumático. Larguei o emprego. Nunca mais pisei na mata. Demorei pra comer direito. Sabendo o que rolou com a criança… perdi mais de cinquenta quilos. Várias internações.

Hoje, anos depois, consegui deixar pra trás. Mas nunca esqueço o horror.

Na floresta, o povo teme urso ou se perder. Eu vi o terror de verdade: caipiras selvagens caçando campistas inocentes. Centenas somem todo ano. Eu vi o que acontece com eles.

Um cara me assaltou no mês passado. Ele não levou minha carteira, mas levou uma coisa que eu nunca vou conseguir de volta...

Escrevo isso porque não tenho outra forma de falar. O boletim de ocorrência da polícia só diz "agressão grave". Eles não entendem. Não podem entender.

Antes disso tudo, minha voz era a minha vida. Mais que a vida: era o meu propósito. Todo dia eu achava um canto nessa cidade imensa e indiferente e pregava. Sou jovem, sei como parece. Uns riam na cara, outros passavam correndo, mas alguns paravam pra ouvir. Nunca gritei fogo e enxofre. Falava de esperança, de achar luz nas rachaduras dessa selva de concreto. Minha voz era um sino. Forte, ressonante, um dom que eu achava que Deus tinha me dado pra dividir. Eu sentia as palavras vibrarem no peito, uma força física que eu jogava por cima de uma praça lotada, cortando o barulho dos carros e da multidão até alcançar quem precisava ouvir. Aquela sensação... era estar vivo de verdade.

Tudo acabou há um mês.

Era uma terça. Terminei tarde, garganta arranhada mas alma nas nuvens. Tive um dia bom; umas pessoas pararam pra conversar, pra desabafar. Voltava pra casa por um atalho que já fizera cem vezes. Um beco estreito, mal iluminado, que te cospe a um quarteirão do meu prédio. Sempre parecia um segredinho, um momento de silêncio entre o rugido da avenida e o zum-zum do bairro.

Naquela noite, o silêncio era outro. Pesado. Predatório.

Ele era só uma forma no fundo da sombra, no meio do beco. Só vi quando já tava em cima. Primeiro pensei num morador de rua, e minha mão foi automática pra carteira — não de medo, mas pra dar o troco que eu tinha.

"Deus te abençoe, irmão", comecei a dizer. As palavras morreram na garganta.

Não era morador de rua. Era... errado. Magrelo é pouco. A pele parecia grande demais pros ossos, esticada num esqueleto fino demais. Os olhos eram buracos negros na luz fraca. Tinha um cheiro também, de terra úmida e papel mofado.

Ele se mexeu mais rápido que eu consegui reagir. Num segundo era forma, no outro a mão dele tava cravada no meu braço. Gelada pra caralho, um frio morto que atravessava o casaco. Fiz o que qualquer um faria. Abri a boca e berrei.

Foi um berro bom, daqueles que nascem do medo puro, com toda a potência que eu botava nos sermões. Deveria ter ecoado nas paredes de tijolo e trazido gente correndo.

Mas não ecoou.

O cara, esse boneco de palha, nem piscou. Não tentou me calar. Em vez disso, se aproximou, cara a centímetros da minha. E enquanto eu berrava, ele fez uma coisa que até hoje não cabe na cabeça. Inspirou.

Não foi respiração normal. Foi uma sugada funda, rangida, impossível, um vácuo. Eu senti. Senti a minha voz, o som, a força, a vibração, sendo puxada dos pulmões, arrancada da garganta. Era físico, como se tirassem um fio do meu âmago. O berro afinou, tremelicou e... sumiu. Só silêncio.

Minha boca ainda aberta, pulmões ainda arfando, mas zero som. Só um silêncio aterrorizante onde minha voz devia estar. O cara se endireitou, um brilho de satisfação nos olhos fundos. Não pegou a carteira. Não me tocou de novo. Só soltou o braço, virou e derreteu nas sombras do fundo do beco.

Fiquei ali um tempão, tentando gritar por socorro, tentando fazer barulho. Respirava, tossia, mas a parte que faz som... sumiu. Era tentar mexer um membro fantasma. A máquina tava lá, mas o sinal não chegava.

Os primeiros dias foram um borrão de médicos e especialistas. Andava com bloquinho e caneta pra todo lado.

*Fui assaltado. Berrei e minha voz parou.*

Olhavam com pena. Um otorrino enfiou câmera pelo nariz até a garganta. Mostrou o monitor. "Olha", disse, apontando. "Pregas vocais perfeitas. Sem inchaço, sem paralisia, sem nódulos. Fisicamente, zero motivo pra você não falar."

Deram nome: transtorno de conversão. Trauma psicológico grave virando sintoma físico. Minha mente, disseram, ficou tão chocada que desligou a voz pra me proteger. Explicação plausível, científica. Fez sentido pra todo mundo menos pra mim.

Fui pros meus mentores, os pregadores mais velhos que me guiaram. Sentei numa cadeira de carvalho numa sala cheirando a livro velho e escrevi tudo num bloco amarelo. Leram, caras marcadas de preocupação.

"O inimigo age de muitas formas, filho", disse um, voz grave e reconfortante. "Ele quer calar os mensageiros do Senhor. Foi um trauma. O choque roubou tua língua por um tempo. Tenha fé. Ore. Descanse. Deixe Deus curar tua mente, e a voz volta."

Psicológico. Todo mundo concordava. Vítima de crime violento, mente quebrou de um jeito específico e raro. Tentei acreditar. Oreí. Descansei. Enchi cadernos com sermões mudos, súplicas mudas a Deus. Mas eu sabia o que senti. Não foi a mente quebrando. Foi roubo. Sentia o vazio no peito onde antes ressoava. Um buraco que doía de silêncio.

A vida virou pesadelo quieto. O mundo parecia atrás de um vidro. Não trabalhava. Não pregava. Nem pedia café sem apontar e escrever. Virei fantasma na própria vida, identidade arrancada. O silêncio era o barulho mais alto que já ouvi.

Aí, exatamente uma semana depois do ataque, o horror de verdade começou.

Eu tava no apê, tentando ler. Janela aberta, ar da noite e som distante da cidade entrando. Primeiro foi um murmúrio, no limite do ouvido. Quase ignorei, rádio de carro ou briga de casal. Mas o ritmo... tinha algo familiar.

Fui à janela, me debrucei. O som subia e descia, vindo com o vento. Aí ouvi claro, uma frase ecoando de umas ruas dali.

"...e eu vos digo, a compaixão do próximo é fraqueza que você pode explorar..."

Congelei. Suor frio tomou o corpo inteiro. Era a minha voz.

Sem erro. Meu tom, meu timbre, meu jeito de esticar vogais quando enfatizo. A voz que usava todo dia pra falar de amor e perdão. Mas as palavras... veneno. Uma gozação torpe de tudo que eu preguei.

Peguei as chaves e saí correndo, coração batendo na garganta. Desci a rua atrás do som. Parecia vir de um parquinho a dois quarteirões. Cheguei sem fôlego, frenético, e... nada. Só uns cachorreiros, um casal no banco. Silêncio. Voz sumiu.

Tentei me convencer: alucinação auditiva, sintoma do trauma. Médicos diriam isso. Mente pregando peça, criando fantasma da voz perdida. Fazia sentido.

Mas na noite seguinte, aconteceu de novo.

Dessa vez mais perto. Parecia do telhado do prédio em frente. Fiquei na janela, sangue gelando.

"...olhem pros desesperados e vejam não alma pra salvar, mas ferramenta pra usar. A esperança deles é moeda, gaste à vontade..."

Minha voz, pregando evangelho do mal puro. Egoísmo como virtude, crueldade como força. Sermão do inferno, no mesmo tom apaixonado que eu usava pra consolar perdidos. Fiquei meia hora olhando o telhado. Ninguém. A voz cuspiu sujeira no ar noturno e... parou, como se desligassem.

Toda noite depois, ficava mais perto.

Uma noite, do beco atrás do prédio. Outra, do cruzamento bem embaixo da janela. Eu descia correndo, mas nunca tinha ninguém. Fantasma.

Eu tava desmoronando. Não dormia. Ficava no escuro, na janela, esperando, temendo o momento que eu começava a falar. Amigos e mentores da igreja vinham ver. Tentava explicar, rabiscando loucamente.

*Ouço minha voz. Alguém tá usando. Diz coisas horríveis.*

Mesmos olhares de pena. "É o trauma", diziam suave. "Sua mente tá processando. Talvez seja sua raiva, seu medo se manifestando."

Achavam que eu pirava. E, pra ser honesto, eu começava a achar o mesmo. Era esse o meu novo normal? Preso no silêncio, assombrado por uma versão distorcida de mim?

Ontem à noite decidi que não aguentava mais. Louco ou não, tinha que enfrentar. Quando a voz começou, mais perto que nunca, vindo do mesmo beco onde perdi, não hesitei. Peguei a lanterna mais pesada e saí pra encarar meu fantasma.

O beco tava igual, e a voz... tava ali. Alta, ricocheteando nas paredes, torrente de palavras lindas, persuasivas, horrendas.

"...porque o verdadeiro poder não tá em erguer os outros, mas na certeza de que você pode derrubá-los..."

Vinham do fundo. Me aproximei devagar, feixe da lanterna cortando a escuridão, e vi ele.

O mesmo magrelo. Mesmo espantalho. Não tava sozinho. Encurralara uma garota contra a parede. Ela olhava pra cima, olhos arregalados, mas não de medo. Era... fascínio. Hipnotizada.

A voz saía dele. Mas os lábios não acompanhavam. Parecia dublagem ruim. O som, *meu* som, brotava do peito, transmissão perfeita da minha voz roubada, torcida pro propósito dele.

Sangue gelou, mas aí acendeu outro fogo. Raiva justa. Aquela que eu canalizava nos sermões. Sou pastor, e isso... era lobo no meio do rebanho.

Ele me viu. O feixe pegou o rosto, olhos fundos cravaram nos meus. A voz cortou de repente, mergulhando o beco num silêncio chocante. A garota piscou, como acordando, e medo de verdade finalmente surgiu.

O magrelo inclinou a cabeça. Não pareceu surpreso. Um som seco, folhas mortas no asfalto, saiu da garganta. Talvez risada. Aí falou, voz dele dessa vez. Sussurro.

"Você. Voltou. O fogo em você é forte. Tempera o som."

Sabia. Falava comigo, mas parecia entender minhas perguntas mudas. Dei um passo, erguendo a lanterna como porrete. Não sabia o que ia fazer. Só sabia que não podia deixar ele machucar ela.

"Se pergunta como?", chiou, olhos fixos. "É um dom. Pego instrumentos de convicção. Sermão do pregador, promessa do político, sussurro do amante. Bebo o som, uso a fé que sobra pra atrair." Apontou o queixo pra garota, que agora tremia. "Eles ouvem voz que querem acreditar. Se aproximam. Muros caem. O resto fica fácil."

Não tinha voz pra gritar aviso. Não tinha palavras pra condenar. Só convicção. Num gesto desesperado, fiz o único que podia. Me joguei nele.

Não sou grande, e ele era forte pra caralho, mas a surpresa bastou. Bati nele, caímos embolados.

"CORRE!", articulei pra garota, grito mudo, desesperado.

Por um segundo ela ficou parada, aí o instinto de sobrevivência ligou. Saiu raspando, passos ecoando enquanto fugia na noite.

Senti um lampejo de vitória. Durou pouco.

O ladrão me jogou longe com força assustadora. Bati na parede, ar fora. Antes de me recuperar, tava em cima, mão esquelética no meu pescoço.

Se inclinou, cara a centímetros. Fedor de terra podre tomou conta.

"Gesto inútil", sibilou, voz farfalhando na escuridão. "Teu rebanho fugiu. O pastor vai ser devorado."

Aperto aumentou, consciência escorregando. Ria, mesmo som de folhas, e abriu a boca.

Vou ver isso em pesadelo pro resto da vida, por mais curta que seja. Não era mais boca. Esticou, desengonçou, alargou, carne se contorcendo fora da física, da biologia. Abriu mais, mais, até a cabeça ser só um buraco perfeito, círculo de breu sem estrelas. Buraco no mundo. Um zumbido agudo saía, puxando as bordas da alma. Baixava aquele vazio no meu rosto, e eu sabia, com certeza além do terror, que ia me engolir. Não só o corpo, tudo que eu era.

Aí uma sirene cortou a noite.

Começou longe, mas cresceu, uivando. O ladrão congelou. O buraco da boca recuou, voltando a linha fina sem sangue. Cara de puro saco.

Com um último sibilo de desprezo, soltou meu pescoço, levantou e sumiu. Não correu. Desmanchou nas sombras do fundo e evaporou.

Fiquei ali, ofegante, puxando ar rasgado e mudo, enquanto o carro de polícia freava na boca do beco. A garota que salvei achou eles.

Claro, não acreditaram na história real. Me acharam machucado, vítima histérica. Pra eles, assalto que deu errado. Tentativa de agressão. Ela tentou explicar da voz, do transe, mas anotaram como choque. Quando pediram meu depoimento, só mostrei o bloquinho. Chamaram psicólogo da assistência a vítimas. Foram gentis, profissionais, e totalmente inúteis.

Então aqui estou. Garganta roxa, mas médicos dizem que fico bem. Fisicamente. Voz não voltou. Sei que não volta. Tá lá fora com ele.

Escrevo porque sou pregador, e pregador tem que espalhar a palavra. Esse é meu novo púlpito. Meu novo sermão. Aquela coisa tá solta. Caça na minha cidade, usando minha voz. Pode tá caçando na sua.

Então, por favor, escute. Se voltar pra casa à noite e ouvir uma voz num beco escuro, voz que parece confiável demais, convincente demais... voz que fala de esperança mas te dá um frio na espinha... CORRE. Não escute. Não deixa as palavras criarem raiz. Porque pode ser promessa de político, sussurro de amante.

Ou pode ser a minha.

Algo nojento tá rolando na minha casa nova

Eu peguei essa casa faz mais ou menos um mês. É alugada, porque comprar uma agora? Nem no meu pior pesadelo, com esses preços malucos. O lado bom é que não fica no subúrbio — achei que isso era top. Moro no interiorzão, na beira da cidade. Não tem outra casa num raio de uns bons minutos de carro. A casa tem 80 anos, é pequena, uns 140 m². Dois quartos, um banheiro só. Mas só porque é dos anos 40 e compacta não quer dizer que seja ruim. O dono cuidou dela direitinho; ele me contou que reformou tudo quando comprou, há um ano, e dá pra ver. Basicamente, ninguém mexia nela desde que os primeiros donos abandonaram, uns 60 anos atrás.

O dono, vamos chamar de Dan, era esquisito pra caralho. Quando me mostrou a casa, foi na correria. Qualquer pergunta — tipo idade da casa, quem morou antes, se tinha algum problema — ele respondia curto e grosso, ou desviava total. Mas dane-se, desde que a casa fosse boa, eu topava um dono esquisito.

O primeiro dia foi tranquilo. Chamei meus brothers, John e Jason, pra ajudar na mudança; foi massa. A primeira coisa que montamos foi a TV pra ver o jogo enquanto trabalhava, e compramos duas caixas de cerveja. Levou umas horas, mas esvaziamos o caminhão antes do sol cair.

Quando acabou, John teve que vazar pra voltar pra namorada — nunca me case, cara. Eu e Jason resolvemos comprar mais cerveja e fazer um esquenta de casa nova. Foi aí que a parada começou a ficar estranha. Entramos no meu carro, girei a chave... nada. Motor morto. Não lembro de ter deixado farol ligado, mas quem lembra? Jason zoou minha cara e ofereceu o carro dele. Beleza, fomos.

Voltamos da única bomba de gasolina por perto — cinco minutos de carro — e, ao entrar, sentimos na hora: tava gelado pra cacete lá dentro. Outubro, noite ainda quente, mas parecia que alguém tinha ligado o ar. Não via a fumaça da boca, mas dava pra sentir a diferença vindo da rua. Olhei o termostato: desligado o dia todo, tempo ameno, nem precisava de aquecedor. Jason checou as janelas: tudo fechado. Fodam-se, liguei o aquecedor e começamos a festa. Filme, salgadinho, cerveja. Foi da hora.

Acordei umas 3 da manhã com a cabeça explodindo de ressaca. Jason tinha escorregado do sofá e dormia de bunda pra cima no chão. TV ligada, tela azul de entrada. Só a luz da cozinha acesa, fraquinha. Peguei um cobertor, joguei em cima do bêbado. Fui pro meu quarto. Passei pela cozinha, apaguei a luz e ouvi um barulhinho, tipo papel amassando atrás de mim. Virei: na luz azul da TV, o cobertor do Jason tinha descido até os tornozelos, mas ele não tinha mexido um músculo. Fiquei parado, olhando. Confuso. Mas não ia dar bola pra besteira. Fui arrumar o cobertor e tapei o nariz. “Jason, porra, o que você comeu?” O cheiro era de lixo orgânico no verão, podre. Achei que o cara tinha cagado nas calças. Cobri ele de novo e capotei.

Acordei com Jason me cutucando. “Mano, cadê minha chave? São quase 8h30, tenho que estar no trampo às 9.” Levantei, ainda de ressaca, e ajudei a procurar. Sofá, tapete, geladeira... Nada. Às 8h45 ele tava surtando. “Vou me foder! E ainda tô apertado pra mijar.” Mandei ele ir no banheiro enquanto eu continuava. Se não tava nos lugares óbvios, ia nos malucos. Ia abrir a lava-louça quando ouvi: “PORRA, MANO!” Corri pro banheiro. Ele tava com a chave na mão, pingando água.

“Meu Deus, onde tava?” “Ia mijar e vi no fundo do vaso”, ele riu. “Bebi mais que pensei, irmão.” Rimos, mas no fundo eu não tava rindo. Algo errado. Jason foi embora logo depois, e fiquei eu, a casa e o carro morto.

Voltei pro banheiro, só pra dar uma olhada. Não sei o que esperava achar, mas certeza que nem eu nem ele jogamos a chave no vaso; não tava tão bêbado. Levantei a tampa e... puta que pariu. O cheiro invadiu tudo. Uma gosma preta grossa escorrendo dos jatos da borda pro água. Fedor de legume podre. Abri a caixa acoplada: água limpinha. Liguei pro Dan, contei. Ele nem piscou, como se esperasse a ligação. Disse que o vaso era o único original da reforma, que devia ter sujeira entupida nos jatos. “Dá umas descargas que resolve.”

Jason voltou depois do trampo pra dar tranco no carro, e fiquei sozinho o resto da semana. O dia foi normal; a semana inteira, na real. Mas no sábado seguinte... aí fodeu.

Fiquei em casa o dia todo, sem escolha. Acordei cedo pra caralho, antes do sol, querendo um McDonald’s. Carro morto de novo. Puto, bati a porta e ia entrar pra fazer algo em casa. De repente: *bam!* A porta abriu e bateu sozinha. Pulei, virei. Fiquei parado, esperando. Nada. “Tô louco”, pensei, e entrei. À noite chamei Jason de novo — pra dar tranco e pra ter companhia. Comemos bife, mais cerveja, ele ficou pra dormir.

Capotamos tarde. Acordei umas 3 de novo, não de dor de cabeça, mas de barulho. Durmo leve, qualquer som me acorda. Mas esse me gelou: passos pesados no chão de madeira. Sentei na cama, coração na boca. Passos lentos, vindo pro meu quarto. “Jason, é você?” — parecia criança chamando a mãe.

Os passos vieram mais perto, pararam na porta. Silêncio. Segurei a vontade de me esconder. “Oi?” Os passos voltaram — correndo. Congelei, fechei os olhos, me encolhi no cobertor como criança. Os trovões vieram até mim e pararam. Silêncio ensurdecedor.

Lembrei: não tenho chão de madeira. O cheiro podre do vaso encheu meu nariz. Baixei o cobertor devagar: pegadas pretas escorrendo no teto, como se pingasse bota. Bem em cima da minha cabeça. Meu cobertor tava manchado de gosma fedida. Congelado. Uma mancha escura se formou no gesso, escorrendo como tinta no papel, até virar um homem. O fantasma pulou em cima de mim, me imobilizou na cama. Agarrou meus pulsos, me sujando de lama podre. Me debati, chutei. Ele copiava cada movimento — até eu balançar a cabeça pra fugir dos pingos. Abri a boca pra gritar; ele abriu a dele, imitando. E vomitou um jato de muco preto na minha garganta. Acordei engasgando.

Levantei num pulo — o bicho sumiu. “Só sonho”, pensei, aliviado. Acendi o abajur e... caralho. Meus pulsos vermelhos, esfolados, como se tivessem sido amarrados com silver tape. Não acabou. Mal vi as marcas e ouvi Jason gritando na sala. Corri: sofá de cabeça pra baixo, pratos, talheres, tudo quebrado no chão, armários abertos. Como não ouvi? Cadê o Jason? Mas o pior: uma poça de gosma preta podre no meio da sala, e pegadas descalças indo até a porta dos fundos... aberta.
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