quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Entre Minhas Bocas

Não me lembro quando comecei a gostar de ficar na beira.

Talvez tenha sido da primeira vez que mergulhei os pés numa água quente demais e senti o calor latejando subindo pelos tornozelos. Ou quando deixei a mão parada no ferro, recém-desligado, só o tempo suficiente pra ouvir aquele chiado silencioso que a pele faz antes da dor. Não era masoquismo, acho. Era outra coisa. Uma espécie de tremor que me deixava suspensa, como se o corpo respirasse sozinho sem precisar de mim.

Às vezes eu entrelaço as pernas até elas deixarem de existir. Espero o tempo que for preciso pra parar de sentir temperatura ou textura. Quando chega esse momento, mexo de novo. Aí a corrente começa a fluir, o formigamento corre pelo corpo inteiro, como um eco acordando debaixo da pele. As vias das pernas doem, queimam, me fazem franzir a cara, os músculos se tensionam, e eu tento mexer devagar só pra maximizar a sensação.

Já tentei outras coisas. Deixar algo cair nos dedos do pé, até o impacto arrancar um gritinho interno e o corpo se contorcer por um segundo. Prender a respiração até o peito queimar, a cara esquentar, as veias das têmporas incharem, e o coração bater no lugar errado, bem entre as pernas. Mas não é sobre chegar no ponto, nem gozar, nem nada disso. Se eu cruzar a linha, se eu ceder ao impulso, tudo desliga. Então eu paro. Sempre antes. Sempre a tempo. Ali, na antessala, tudo tá vivo: o ar, a pele, a umidade, o ardor, a queimação.

Ultimamente tá mais difícil. O corpo não responde mais do mesmo jeito. As pernas demoram mais pra ficar dormentes, o queimor some rápido, como se a pele tivesse aprendido a se defender de mim. Comecei a procurar jeitos novos de voltar. Às vezes mergulho as mãos em água gelada, tão fria que parece queimar, os dedos ficando num vermelho-cereja lindo. A pele racha e as unhas escurecem, violeta pálido, quase como o sangue mais grosso que se pode imaginar.

Mas não dura muito. O corpo esquece com uma facilidade que me assusta, me desespera. Cada tentativa me deixa um pouco mais longe, um pouco mais oca. Às vezes acordo de madrugada e não sinto os lençóis na pele. Tenho que cerrar os punhos, morder o lábio inferior até sangrar, que já não tem gosto de metal enferrujado, nem calor. Tenho que arranhar o colchão e quebrar as unhas, só pra checar que ainda tô aqui.

Há semanas o corpo se comporta como algo emprestado. Ando, respiro, me mexo, mas é como se eu fizesse isso dentro de um macacão que nunca serve direito. A pele não registra mais o que toca: água, ar, tecido. Tudo tem a mesma temperatura morna de coisas que não existem de verdade.

Tento voltar pro umidade, pro pulsinho que antes me mantinha viva, mas a corrente não chega. Nem o formigamento, nem o pulso, nem a pressão que me lembrava que eu tava ali. Tentei enganar o corpo com contrastes, com mudanças bruscas, com choque térmico, com o silêncio de um quarto escuro demais. Nada.

Há uma semana, tomei meio litro de óleo de cozinha no café da manhã. A textura da água parecia incerta, fraca, sem vida. Bebi direto da garrafa. Era mais grosso e escorregadio. Era o óleo que usei no dia anterior pra fritar batata. Abri a boca e deixei pingar direto da boca pras mãos. Dava pra ver os pontinhos pretos espalhados no líquido. Era diferente. Levei o óleo de volta à boca e deixei vagar entre os dentes. Mexi a língua na substância. Parecia alguém tentando correr dentro de piscina. Engoli o óleo devagar. Só aí senti o óleo chegar entre as pernas.

Eu tava expelindo da boca entre as pernas. Limpei rápido a mão direita e levei entre as pernas. Lá tava, sorri. A umidade. Minha umidade abençoada tinha voltado. Sorri extasiada, dentes engordurados e língua dormente. Peguei a garrafa de óleo e dei mais uns goles, seguindo aquele ritualzinho que acabara de aprender. No mesmo instante, como uma dança sincronizada, um marzinho terno, claro e morno escorreu da boca entre as pernas, o suficiente pra me aquecer no caminho até os tornozelos. Era eu. Era meu cheiro de pele úmida. Era meu grito pra poder sentir. As pontas dos dedos formigavam, loucas pra me provar, pra detectar a temperatura, pra me cheirar mais de perto. Era delicioso. Quase translúcido. Porque eu não me deixava ser, porque precisava do controle que só eu posso dar pro meu corpo. Porque precisava das regras que eu mesma me obrigo a seguir. Precisava daquela umidade, daquele pulso, daquela falta de controle. Precisava arrastar ele junto, acorrentar, rir na cara dele. Precisava das pernas tremendo e dele implorando um pouquinho de mim.

Teria sido só isso.

Se tivesse funcionado pra sempre.

Repeti esse momentinho mais três ou quatro vezes naquela semana. Só que numa manhã tudo parou de novo. Já não sentia o gosto de cinza que conhecia antes. Não parecia especial, amargo, viscoso. Nada. O jeito que ficava entre os dentes não funcionava; a língua não flutuava na densidade e engolir parecia inútil.

Olhei pro fogão e depois pra geladeira. A temperatura tinha funcionado antes. Mas uma colher de óleo queimado? O que eu ia conseguir sentir com esse elemento a mais? A umidade da língua congelada na superfície e a ferida resultante dos botões gustativos sendo arrancados da carne. Eu conhecia bem aquela dor: o gosto enferrujado do sangue congelado, o latejar da língua esfolada, e a visão da minha carne grudada naquela superfície fria. Precisava de outra coisa.

Olhei de novo pro fogão. O calor podia ser regulado, e talvez… uma colher de óleo reutilizado na temperatura certa pudesse acender meu corpo de novo. Fechei os olhos e balancei a cabeça, nervosa. Mas o que eu era não era humana, mulher. Era um impulso, e eu vivia por ele. Peguei a frigideirinha, coloquei um fio de óleo e acendi o fogão. Girei o botão e deixei no mínimo. Não passaram mais que alguns segundos até eu segurar a palma da mão em cima. Sentia morno. Bom o bastante.

Despejei a colher de óleo, levei pro rosto, e o cheiro de óleo encheu minhas narinas e a cabeça. Uma nova expectativa encheu o corpo. Toquei o óleo com o lábio superior… tinha uma mudança. Coloquei a colher na boca e deixei o óleo cair na língua. Dei um gritinho por uma fração de segundo, mas a sensação de brasas sumiu tão rápido quanto veio. Minha boca tava quente demais pra temperatura que eu tinha levado o óleo. Precisava de um pouco mais.

Girei o botão e vi as chamas crescerem um tiquinho. Contei até 60 e tirei a panela do fogo antes de despejar na colher. Mergulhei o mindinho no óleo, só a pontinha e um pedacinho da unha. Senti uma fisgada que fez minhas pupilas dilatarem. Eu sabia porque o filtro nos olhos mudou. Tudo parecia mais… ocre, mais cor de canela. Tava chegando lá. Tirei a ponta e levei à boca. A substância parecia bem mais quente. Com um pouco mais de calor, eu chegaria no objetivo.

De novo, com um pouco mais de óleo, coloquei a panela no fogão. Fogo mais alto e 60 segundos. Aos 45 segundos, já dava pra ver bolhinhas minúsculas na borda da panela. Sorri com a gengiva. Despejei rápido o óleo num copo e segurei no rosto. Agora tinha um cheiro doce de petróleo, tipo rímel deixado no sol. Não conseguia tirar o sorriso da cara, e até meus dentes do siso estavam ficando dormentes. Respirei fundo e despejei o óleo na boca, bem na língua. O arrepio foi imediato. O corpo deu um tranco, e lágrimas começaram a rolar pelas bochechas. Girei o óleo entre os dentes e senti o espaço entre eles crescer. Como uma represa que não segurava a água inteira. Um vazamento.

A língua parecia pesada e flutuava no óleo quente, queimando, inchando. Aí comecei a sentir a boca enchendo, como se o óleo tivesse dobrado de tamanho. Escorria do canto dos lábios, e resolvi engolir. Com toda a calma que merecia. O líquido grosso começou a descer pela traqueia; as pernas tremiam, assim como as mãos. O peito queimava, e eu sentia como se a caixa torácica estivesse se dissolvendo.

O rosto quente, o pescoço quente, os olhos quentes. Agora eu tinha um filtro vermelho nos olhos, tipo filme colorido numa balada barata. Engoli uma boa porção e o corpo convulsionou enquanto a umidade da boca entre as pernas aparecia. Se deixou, escorreu do corpo. A boca entre as pernas não se continha e eu via o óleo quente e a saliva da boca que morava entre as pernas rolarem morro abaixo até sumirem nos chinelos.

Fiquei hipnotizada, absorta naqueles caminhos que se formavam. As pernas queimavam, cheiravam a sexo e alcatrão. A cor começou a mudar pra um vermelho vivo e depois pra um vinho. Franzi a testa e levei as mãos trêmulas à boca entre as pernas, peguei um pouco daquela mistura de substâncias e levei os dedos à outra boca. Tinha gosto de óleo velho, ovulação e sangue. O óleo tinha cavado seu caminho como uma corrente de rio na terra. Saboreei o gosto entre os dentes, e aí eu soube. O círculo tava completo; o que entrou pela boca saiu e entrou de novo.

Não consegui evitar sorrir ainda mais largo; a plenitude corria pelas veias e roía a mente.

Só que senti um leve torpor. Algo ácido, algo que queimava mais que óleo fervendo. Era náusea. Sem conseguir controlar o corpo, caí de joelhos no chão gelado. A coluna arqueou, e senti como se as vértebras fossem se deslocar. Era algo vindo das entranhas, ou do estômago, ou das veias das panturrilhas — não sei. Não queria expelir, mas não mandava no corpo, e eu odiava isso.

Ondas e ondas de vômito sanguinolento saíram da boca. Não era só líquido. Dava pra ver coágulos vermelhos, pedacinhos vermelhos de algo. As paredes da boca e o tubo longo da traqueia pareciam ferver. O vômito vermelho encheu as mãos, o queixo, a pele fina do pescoço, os seios. Era tão… inebriante. Uma queimação quase corrosiva de dentro pra fora. Estava descascando a pele dos órgãos. Mas era tão, tão quente contra a pele. Alucinógeno e prazeroso. Tanto que a boca entre as pernas se encheu de novo de sangue oleoso, ainda morno.

Me senti totalmente absurda.

E tão gratificada.

Era isso que eu tinha procurado a vida inteira.

Só que eu não sabia se ia sobrar pele suficiente nos órgãos pra próxima vez.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O Pior Controle de Pragas de Todos os Tempos

Sinto que estou enlouquecendo depois do que aconteceu nos últimos dias. Todo mundo a quem contei essa história ou caiu na risada ou simplesmente deu de ombros, achando que eu estava inventando. Estou postando isso aqui porque, considerando as toneladas de fantasias sexuais bizarras e teorias conspiratórias sobre lagartos no governo que circulam na internet, talvez alguém tenha ao menos o bom senso de me ouvir.

Moro em uma cidade quente e úmida o ano inteiro. É ótimo não precisar de casaco de inverno, mas o preço disso é que qualquer casa vira o paraíso de todo tipo de inseto nojento.

O problema no meu apartamento começou há uns dois meses.

Comecei a ver uns pontinhos pretos no canto da visão, mas eles sumiam sempre que eu tentava olhar direto. Pesquisei no Google, e só encontrei aquelas respostas de sempre: podia ser glaucoma, moscas volantes, ou — claro — o clássico diagnóstico da internet: “você vai morrer em poucas horas”.

Decidi ignorar. Achei que podia lidar com isso. Não pareciam muitos e apareciam de vez em quando.
Mas tudo mudou quando eles começaram a mover as coisas.

Lembro perfeitamente de um dia em que minhas chaves do carro — que eu sempre deixo numa tigela na cozinha — apareceram no canto da sala, no chão.
Antes que algum engraçadinho diga que eu só estava distraído, me responde: por que diabos eu pegaria as chaves da tigela e colocaria do outro lado do cômodo, no chão?

Naquele ponto, eu ainda não suspeitava dos pontinhos — era cedo demais, e eu mal os via.
No dia seguinte, uma das cadeiras da sala apareceu na cozinha.

Uma semana depois, comecei a ver sombras correndo por baixo da porta à noite. Eu estava vendo TV e via uma mancha escura passar rápido sob as cadeiras. Também comecei a ouvir barulhos — arranhões nas paredes, passos na cozinha — sempre à noite, quando eu prendia a respiração pra prestar atenção.

O condomínio tinha parceria com uma empresa de dedetização chamada NoMoBugs (sim, nome horrível). Tirando uns panfletos no quadro da portaria, nunca ouvi falar dela — nem na internet.

Liguei pro número que estava no panfleto. O primeiro toque mal terminou e uma voz já atendeu:

— “Você ligou pra NoMoBugs! Onde qualquer praga será eliminada!”

A voz soava ensaiada, tentando fazer parecer um slogan, mas as palavras “praga” e “eliminada” não rimavam nem um pouco.

— “Ah... então... eu tô com um problema de insetos no meu apartamento.”

Comecei a dar meu endereço, mas a voz me interrompeu:

— “Quem— digo, que tipo de insetos estão te incomodando?”

— “Na real, eu não sei direito. São uns pontinhos pretos que vejo no canto do olho. Dá pra ver as sombras deles por baixo da porta, e eu ouço barulhos nas paredes. Talvez ratos? Não sei.”

A voz ficou de repente muito grave:

— “Enviaremos alguém ainda hoje. Esteja pronto.”
E desligou.

Eles chegaram por volta das sete e meia da noite — e, se eu não estivesse tão irritado com os bichos, teria achado bem rude aparecerem tão tarde.
Abri a porta pra dois caras em trajes de proteção completos: um verde, outro amarelo. As máscaras cobriam a cabeça inteira, com uma viseira espelhada que impedia de ver o rosto. Fiquei preocupado.

Será que eu devia estar usando um desses também? Será que eu tinha pegado algum tipo de câncer de superinseto?

— “Ah... entrem.”

Assim que falei, eles entraram e foram direto pra sala.

— “Ooh, sim.” — disse o do traje verde, com a voz abafada pela máscara. — “Você tem praga, sim senhor.”

— “Beleza. Vocês conseguem resolver? Vai demorar quanto tempo?”

— “Vinte.”

— “Vinte? Tipo vinte minutos? Vinte horas?”

O cara de verde olhou pro outro e riu:

— “Esse cara é engraçado.”

— “Você vai agora. Nós trabalhar.” — ordenou o do traje amarelo.

Outra coisa que teria me irritado, se eu não estivesse tão desesperado. Mas, já que pareciam levar a sério, resolvi deixar que fizessem o trabalho.

Erro fatal.

Quando voltei, já dava pra ouvir barulhos de arrasto e marteladas, como se tivessem transformado meu apartamento num canteiro de obras.

O lugar estava um desastre.

Mesas viradas, buracos nas paredes, poças de uma gosma gordurosa e iridescente no chão.

E então vi — e meu sangue gelou.

Um dos homens estava de quatro, de cabeça pra baixo, preso no teto, com a máscara removida.
No lugar da cabeça humana, havia uma de barata — enorme, grotesca, viva.

As antenas se mexiam, o som das mandíbulas estalando ecoava pelo cômodo, e uma trilha de saliva oleosa escorria da boca até o chão.
No canto, havia uma estrutura gigante, como um ninho de vespa monstruoso.

Antes que eu pudesse reagir, o homem-barata caiu do teto e ficou de pé na minha frente.

— “Você volta cedo demais.” — disse ele, limpando a boca com a mão e espalhando a baba no traje.

— “Que porra tá acontecendo aqui?”

— “Muitos insetos. Muito bom.”
Antes que eu entendesse, ele bateu a mão na parede.
Quando levantou, um resquício amarelado, viscoso, grudava na luva — parecia gema de ovo podre.
Ele levou a mão à boca e, com as mandíbulas, devorou aquilo, lambendo os restos com cuidado.

Então, ouvi a descarga do banheiro, e o outro — o do traje verde — saiu.

— “Ah, merda, ele voltou. Matamos ele agora, sim?”

Fui agarrado antes mesmo de pensar. A porta bateu atrás de mim com força.

Senti minhas costas contra a parede e as mãos escorregadias e gordurosas apertando meus ombros.

O bafo quente do bicho me envolveu.

Cheirava a banheiro público misturado com leite azedo.

As mandíbulas estalaram mais uma vez enquanto ele se inclinava sobre minha cabeça.

— “ESPERA! EU PRECISO TE DIZER UMA COISA SOBRE OS INSETOS QUE VOCÊS ESTÃO COMENDO!” 

— Gritei no desespero.

Não fazia ideia do que eu poderia dizer pra impedir que esmagassem minha cabeça, mas isso o fez recuar.

— “Fala logo. O que é?”

No canto do olho, vi o cara do traje verde abrir minha geladeira, pegar umas fatias de presunto, montar um sanduíche de insetos e se jogar no sofá pra assistir Wheel of Fortune.

— “Vocês... querem o meu apartamento?”

— “Sim. Por isso matar você.”

Olhei por cima do ombro dele e vi o estado do lugar:
Um homem-barata comendo um sanduíche asqueroso no meu sofá, vendo TV, com um ninho enorme construído em volta da tela.

Meu quarto coberto de gosma e tripas de insetos esmagados, os lençóis empapados daquela baba oleosa.

Nem quis imaginar o estado do banheiro — o cheiro devia ser infernal.

— “Cara... podem ficar. Eu pego minhas coisas e vou embora.”

— “Sério? Você sério?” — perguntou ele, tirando as mãos dos meus ombros.

— “Tô. Tudo seu, parceiro.”

Demorei um pouco pra achar roupas que não estivessem cobertas de baba. Peguei só o essencial e fui até a porta.

Antes de sair, me virei.

— “Uma última pergunta... por que o meu senhorio fez parceria com vocês?”

— “Senhor... o quê?”

Os dois estavam sentados no sofá, se encarando com o que parecia ser uma expressão confusa — de barata.

— “Deixa pra lá. Aproveitem o que sobrou do apartamento.”

No caminho, resolvi parar no apartamento do senhorio pra avisar que eu estava indo embora — e apresentar os novos inquilinos invertebrados.

Bati na porta.

Ela se abriu, e do outro lado estava uma barata do tamanho de um homem, vestindo bermuda jeans e regata, tomando uma cerveja que eu nunca tinha ouvido falar: Pest Pilsner Ever.

Desde então, estou dormindo em sofás de amigos. Tentando me reerguer depois de perder praticamente tudo.

Desculpa

Um dos meus hobbies é garimpar antiguidades, e eu adoro bater perna em brechós esquecidos no fim do mundo ou em vendas de garagem pra encontrar aquelas peças que todo mundo ignorou. Tá ficando cada vez mais difícil achar algo interessante na era da internet, mas de vez em quando a gente ainda dá sorte.

Numa cidadezinha rural, vi uma placa de venda de espólio, então segui o caminho e parei o carro. A maior parte do treco era o de sempre: tranqueira pura. Mas um item me chamou a atenção. Era uma placa de chumbo, mais ou menos 30 cm de lado por 2,5 cm de espessura, e tavam vendendo por um tiquinho acima do valor do metal fundido. Gravado nela, embora bem desgastado pelo tempo, tinha letras numa escrita que eu definitivamente não conseguia ler, e em estilos diferentes.

Não fazia a menor ideia do que era, mas fiquei curioso, então comprei.

Aí a coisa óbvia era tentar traduzir, e isso se provou um baita desafio. Tradutores de IA ajudaram pouco, mas descobri que o texto tava em várias línguas antigas, mortas.

A primeira parte era em cuneiforme elamita, só que entalhado em chumbo em vez de argila. Decifrar não foi moleza, exigiu aquele tipo de estudo que só um hobista meio obcecado consegue fazer. Ajudou quando percebi que era pra rimar.

A parte seguinte foi mais fácil: grego antigo. Explicava que o texto de cima era uma invocação ritual pra proteger de… não traduz bem, mas “o Devorador Interior” é o mais próximo.

Também dava instruções pros outros requisitos. Não vou entrar em detalhes aqui, mas não era difícil conseguir, embora meio nojento. Levei uns olhares estranhos no açougue, mas não foi lá um sacrifício preparar.

Minha curiosidade não me deixava deixar pedra sobre pedra, então testei. Era simples, e, francamente, meio chato e constrangedor de um jeito que me deixava envergonhado. Fiquei feliz de estar sozinho; seria humilhante alguém me ver fazendo uma palhaçada daquelas.

Nada óbvio aconteceu. Mesmo sendo o que eu esperava, ainda foi um pouco decepcionante.

Uma semana depois, no trabalho, vi pela primeira vez. Meu chefe veio falar comigo e eu vi a forma nadando atrás dos olhos dele, e parecia que tava me encarando de volta. Ele não via. Nenhum dos meus colegas via. A coisa conseguia se esconder de todo mundo, menos de mim.

Três semanas depois, ele tava morto. Os primeiros sinais são fáceis de ignorar: dor de cabeça, talvez dor nas juntas, ou só cansaço. Mas rapidinho o corpo é consumido por tumores que ninguém segura. Nem quimio, nem radioterapia param. É assim que a coisa rasga um corpo sem derramar uma gota de sangue. Também não é um jeito fácil de ir, e morfina parece não fazer efeito nos coitados. Talvez a dor seja importante pro bicho de algum jeito.

A próxima foi a moça da lojinha de conveniência da rua. Um dia entrei pra comprar leite e vi de novo, nadando atrás dos olhos dela, me olhando com uma mistura de curiosidade e ódio.

O ritual de proteção me mantém longe dele, mas também atrai a atenção. Não pode me machucar, mas me persegue e vai atrás de quem tá perto de mim.

Minha irmã foi a seguinte. Sempre fomos bem próximos, e eu não podia estar mais horrorizado ao ver a forma nos olhos dela.

Tentei explicar o que tava rolando. Supliquei pra ela tentar o ritual. Não dá pra culpar ela por recusar, eu sei como parece loucura. Mas foi de partir o coração ver ela morrer no hospital, com os médicos de mãos atadas, sem conseguir ver a coisa atrás dos olhos dela.

Foi assim que ele matou meu pai também. Com a minha irmã eu era próximo, mas com o pai não falava fazia uns dez anos. Quando ela morreu, ele ligou. Pediu desculpas por umas coisas do passado. Eu também. Marcamos de nos ver de novo, no Natal.

Os planos nunca rolaram, porque um mês depois ele tava morto, o corpo cheio de tumores. O Devorador Interior tá me caçando, até quem eu falo, mesmo estando longe.

Trabalhei pra traduzir mais da placa, tentando achar uma solução. Não tem. Tudo que descobri é que o ritual protege só uma pessoa por vez. Se outra usar, a proteção passa pra ela.

E é por isso que eu peço desculpas. Não aguento mais ver gente ao meu redor morrer daquele jeito. Tô jogando essa mensagem pro mundo, sabendo que pode levar o Devorador até alguns de vocês, quem sabe pra poupar quem tá perto de mim. Já tão fazendo perguntas demais.

Se ele for atrás de você, talvez exista outra cópia do ritual por aí. Talvez salve você. Mas pensa bem antes. O Devorador com certeza viria atrás de mim, mas nesse ponto eu mereço. Não é fácil viver com ele te perseguindo, devorando quem tá ao seu redor.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Os dias que virão

Meu avô sempre foi louco por bibelôs e bugigangas ultrapassadas – pelo menos era o que pareciam pra mim. Pra ele, eram pequenas janelas pra um passado que a maioria da minha geração já esqueceu de vez.

Nos fins de semana esporádicos em que meus pais me largavam na casa dele, ele me arrastava pra todo tipo de feiras de porta-malas, lojas de antiguidade e brechós.

Na minha infância eu detestava aquilo, mas com o tempo, quando as lembranças dessas saídas foram se apagando, virou o único jeito de me reconectar com a memória dele.

Embora eu tenha carinho pelos objetos que chamariam a atenção dele – brinquedos antigos e tal –, minha busca sempre foi por livros.

No começo usava eles só pra passar o tempo; logo viraram o alvo da minha vasculhada obsessiva, despertando aquela vontade louca de escrever os meus próprios.

Ele sempre dizia que aquelas peças quebradas, gastas e completamente desamadas tinham, sem dúvida, testemunhado décadas da vida dos donos. Com um pouco de graxa de cotovelo, como ele falava, podiam ser revitalizadas e voltar a ser úteis.

Eu curtia pra caralho essa ideia, embora os romances falassem comigo num nível diferente. Janelas pra mente de autores lembrados só pelo nome.

Me dava uma satisfação do caralho poder ser transportado pro mundo que eles rabiscavam, vendo tudo pelos olhos deles.

Naquela manhã de domingo cedinho, eu já tinha fisgado dois romances, louco pra voltar pra casa e me afogar no brilho do verão enquanto devorava aquelas páginas empoeiradas. Mas algo lá dentro – talvez as palavras do vovô – me empurrou a pelo menos dar a volta completa, vai que.

Chegando no fim da fileira, meus olhos bateram num carrinho de metal de corda, pequeno e surrado. Parecia bem com aqueles que tenho no escritório, porque nunca tive coragem de jogar fora nada do que ele me deixou.

Peguei na mão, aliviado por acalmar aquela sensação, quando outro item praticamente pulou na minha cara.

Deitado ao lado do balde vermelho desbotado pelo sol, que continha uma mistureba de carrinhos de brinquedo, tinha um livro encadernado em couro marrom-escuro.

Hipnotizado pelo tomo bem envelhecido, virei ele e li o título gravado, meticulosamente talhado na capa levemente úmida.

“Uma história de vida”.

Não reconheci o título nem o nome do autor rabiscado, pequeno demais até pras minhas lentes aumentarem. Tentei chamar a atenção da vendedora. A mulher corpulenta, vidrada no celular, acenou com a mão e repetiu uma frase cansada, apontando pro adesivo de preço no balde.

Joguei as moedas, voltei pra casa com bem mais escolha que o normal. Pensando qual dos novos achados atacar primeiro, meu olhar sempre caía naquele livro.

Não sei o que eu esperava de um título desses – talvez uma autobiografia reflexiva ou um guia completo pra viver a vida intensamente. Não foi o que rolou.

Nem terminei a primeira página e o estilo do autor já me travou. Cada frase era uma descrição metódica, até relatando os sentidos que o personagem principal estaria sentindo.

As descrições eram precisas, ainda mais do ponto de vista de alguém afastado da situação, mas presente o suficiente pra sentir tudo junto.

O problema mais foda, porém, era que cada detalhe batia quase perfeitamente com a minha infância.

Meu local de nascimento, o hospital, o horário exato, até a primeira casa e o nome completo dos meus pais.

Admito, não tenho memórias sólidas daqueles anos por motivos óbvios, mas as descrições do meu quarto e da família eram precisas demais.

Não consegui ler mais. Quem quer que tivesse bolado essa piada doente devia estar me seguindo há um tempão – ou pegou minhas informações na internet.

Nos dias seguintes, virei paranoico pra caralho, olhando por cima do ombro a cada segundo, pronto pra encarar algum perseguidor sombrio.

Nunca aconteceu, mas mostrei o livro pra uma amiga, em parte pra justificar minha loucura atual e em parte pra saciar uma curiosidade.

Libby surtou direitinho quando leu a primeira página, os olhos arregalados e a testa franzida enquanto eu via o olhar dela percorrer cada linha.

Já comecei meu discurso no segundo em que ela ergueu os olhos pros meus, mas a primeira pergunta dela calou minhas preocupações – por um momento. A frase seguinte que saiu da boca dela me deixou pasmo, igualzinho a ela.

“Como diabos alguém sabe tanto sobre mim?”

Desabei no salto que eu já tinha dado, chegando numa conclusão completamente alienígena. Virei o livro e reli as primeiras linhas; ainda detalhavam minha infância, mas segundo Libby, as palavras daquela página eram sobre ela.

Em pânico, cortei a conversa e precisei pesquisar mais. Usei o intervalo do trabalho pra vasculhar a internet atrás de qualquer informação. Nada.

Nenhum conto sobre o objeto, nenhum caso paranormal, nada. Nem a identidade daquela mulher era conhecida, embora eu tenha perguntado pra todos os vendedores habituais que estavam lá naquele dia.

Resignado com meu destino, afundei na poltrona naquela noite quando uma ideia idiota e irresponsável brotou na minha cabeça.

Se o autor daquele livro sabia tanto sobre mim – a ponto de eu nem lembrar direito de alguns detalhes –, então eu queria botar à prova. Loucura, eu sei, mas o quanto eu podia tirar de um livro sobre a minha própria vida?

Sem a ajuda dos meus pais, teria que cavar fundo e tentar casar cada batida dessa história com os dias que vivi, todos aqueles ontens.

Começou tranquilo, usando álbuns de fotos antigos e histórias que me contaram quando eu era criança. A maioria daqueles eventos iniciais batia. Não tinha memórias marcantes, então as descrições não mexiam muito.

Aquele escorregão na cantina trouxe de volta uma onda de vergonha que na época me matou por dentro, mas agora só arrancou um risinho baixo.

Meu primeiro gol pelo time juvenil e a pizza depois definitivamente acertaram aquela coceira nostálgica. Naqueles anos iniciais, quando eu não estava atolado em responsabilidades de adulto, tudo parecia bem mais leve.

Quanto mais detalhadas as contas ficavam, mais memórias vívidas eu conseguia arrancar do esquecimento.

Às vezes eu revivia dias inteiros do passado – sons, cheiros e imagens perfeitamente articulados em cada página, alguns até mais palpáveis que a minha própria lembrança.

Dias frescos de verão no quintal dos avós, colhendo amoras pra famosa torta de amora e maçã da vovó, voltavam correndo. Uma época mais quieta, sem estresse.

Sem viver na pele, aquelas sensações eram viciantes o suficiente pra grudar qualquer um na página, capaz de reviver aqueles momentos altos como se estivesse lá.

Infelizmente, outras visões eram uma bagunça de emoções que eu era jovem demais pra processar, só espelhando a miséria da minha família de luto.

Aqueles falecimentos batiam com força tectônica. Nas páginas, eram tão reais e físicas quanto o livro de onde vazavam. Arrancados com violência, deixando tanta devastação quanto no dia em que os perdi.

Logo, o encanto tentador de alcançar o passado calou todo o resto.

Lutar contra a vontade de faltar no trabalho era como segurar uma pedra gigantesca, mas bastou ceder à virada viciante de mais uma página e meu emprego dos sonhos perdeu qualquer peso.

Oito anos ralando pra chegar ali não valiam nada. Nem quando cheguei no topo, finalmente publicando minha própria obra, me tirou um centímetro da poltrona onde me colei.

Mensagens, ligações e até batidas ocasionais na porta não quebravam meu foco laser na narrativa que eu mesmo tinha vivido.

O mínimo do mínimo era o que eu fazia. Comer uma vez por dia parecia tortura, olhando de volta pras páginas impecavelmente lisas a cada microsegundo possível.

Minha insônia levantou a cabeça feia, trabalhando dobrado pra me tirar dos cochilos involuntários no chão da sala. No meu auge, a maior parte do meu melhor trabalho fluía nas horas crepusculares, encontrando inspiração nova enquanto meus pensamentos ficavam soltos.

Numa fachada distorcida dos meus próprios pensamentos, tudo o que importava era a próxima linha, a próxima recriação perfeita de um dia há muito descartado. Na época considerado só enchimento pro próximo grande evento da vida, agora ruminado como texto sagrado de um padre no altar.

Logo meu celular morreu, comi tudo o que consegui engolir com o mínimo de preparo possível e as batidas na porta ficaram mais frequentes.

Uma voz ecoou da porta de carvalho podre, misturando-se à brisa fria, nada além de um sussurro ambiente enquanto eu avançava pelos meus próprios recuerdos.

Pronto pra virar a página, meus olhos devoravam cada palavra famintos, parando pela primeira vez por vontade própria. Como uma experiência fora do corpo, a frase final descrevia cada detalhe minúsculo do quarto esquecido onde eu estava deitado, centrando no meu corpo exausto, virando pra mesma página.

Antes que eu pudesse processar o limiar em que eu estava, vozes explodiram e madeira estilhaçou enquanto aquele tomo bíblico era arrancado da minha mão encharcada.

No meio do caos e da confusão, aquela janela pra cada momento concebível sumiu, nada além de bafo num espelho.

Eu gostaria de dizer que estava estável o suficiente pra viver sem aquilo, não tão preso, mas meu rosto emaciado bastou pros dois policiais entenderem. Por sabe-se lá quanto tempo, eu tinha overdosed na minha droga de escolha: nostalgia.

Contido no meu estado selvagem – mais pelo meu próprio bem –, fui levado pro hospital. Aquelas memórias estão nebulosas, mas o nojo pela minha própria deterioração mental deixou um gosto amargo na boca.

Tive visitas, gente preocupada comigo, aflita com minha falta de interação, mas por mais triste que seja dizer, eu sentia falta das pessoas pra quem podia voltar pra mais. Aquelas páginas sem fim, ainda capazes de me transportar pros dias quietos de verão, onde ainda chamavam meu nome.

Com tempo pra me recuperar, não voltei ao meu melhor, mas cheguei o mais perto possível. Porém, rolando o celular depois da alta, ficou claro que Libby não tinha.

Nos meses em que eu fiquei grudado nas páginas, ela pirou.

A caixa de Pandora que abri pra ela causou uma ruptura braba na psique. Só com as primeiras páginas, uma pergunta brotou e praticamente a engoliu inteira.

Estava espalhado pelo quarto dela, em toda superfície disponível.

Eu teria aceitado o abuso por aquela ação idiota, mas nunca veio. Ver ela encolhida em silêncio naquela poltrona de canto – como eu via pela janela – finalmente colocou em perspectiva o quanto eu tinha sido sugado pela oferta.

Sei que foi burro, irresponsável, tudo isso, mas cheguei no topo daquela curva.

No tempo afastado, deixei a mente vagar, embora acho que a conclusão sempre esteve ali, cutucando no fundo da cabeça. O que aconteceria se eu lesse adiante?

Eu gravaria ativamente meu futuro na pedra, ou ele, como aquelas descrições do passado, já estaria escrito?

Talvez essa informação me mande pra outra espiral, pensando no meu destino e no meu livre-arbítrio.

Aqueles relatos, tão perfeitos que parecia que o autor viu cada evento pelos meus olhos.

A menos que eu vire aquela página e grave aquelas palavras na existência, nunca vou saber.

Mas é exatamente isso: estou pronto pra virar o autor da minha própria história?
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon