Eu não tô escrevendo isso porque acho que alguém vai poder me ajudar.
Tô escrevendo porque, se eu não tirar isso da cabeça, vou vacilar — e se eu vacilar, talvez eu fique. E ficar é pior.
As pessoas dizem que o luto faz a gente ver coisa onde não tem. Que ele preenche o vazio com qualquer forma que doa menos. Eu acreditava nisso, naquela época em que acreditar ainda parecia uma escolha. Hoje eu sei que o luto não inventa nada. Ele só arranca as partes de você que dizem “não”.
Eu tinha trinta e quatro anos quando minha esposa morreu. Sou corretor de imóveis — daqueles simpáticos, que lembram nome de cliente, que riem fácil demais, que ouvem o tempo todo que são “gente boa”, como se isso fosse um mérito só por não ser um babaca completo. Antes de tudo isso, eu tinha uma vida normal. Não perfeita. Mas real. Tínhamos uma casa que rangia no inverno e uma cafeteira que só funcionava se você desse um tapa do lado. Brigávamos por cor de tinta, esquecíamos aniversário um do outro e nos beijávamos na cozinha como se o tempo fosse infinito.
O local de trabalho dela pegou fogo numa terça-feira.
Na quinta, a imprensa já chamava de “evento com múltiplas fatalidades”. Na sexta, os restos eram “não identificáveis”. Eu lembro da frase porque quem falou disse com voz mansa, como se isso tornasse mais leve. Como se ainda não significasse que você nunca mais vai ver a pessoa.
Eu nunca vi o corpo dela. Não tinha corpo pra ver. Tinham fragmentos, disseram. Cinza, calor, desabamento. Então assinei papéis que não li e fiz que sim com a cabeça pra gente cujos rostos escorregavam da minha memória assim que paravam de falar. Uma semana depois, alguém me entregou uma caixinha e disse que eu podia levar ela pra casa.
O velório foi de caixão fechado. Claro que foi. Não tinha nada pra abrir.
Naquela noite, coloquei a urna na mesa da cozinha e sentei na frente dela até o sol se pôr. Lembro de pensar, absurdamente, que era mais leve do que eu esperava. Isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa. Como se uma prova mínima, baseada em peso, tivesse sumido.
Apaguei no sofá depois da meia-noite.
Ela me acordou falando meu nome.
Não da porta. Não do corredor. Da sala, como sempre fazia quando me pegava cochilando em lugar idiota.
Eu lembro exatamente do que pensei, porque pareceu tão lógico que quase doeu.
Eles erraram.
Erro de identificação acontece. Eu já tinha ouvido falar. Registro dentário incompleto. DNA demora. Incêndio é caos. Em algum hospital que eu ainda não chequei, ela tinha acordado confusa, machucada e sozinha, e agora tinha voltado pra casa porque pra onde mais ela iria?
Ela estava na porta quando levantei a cabeça, vestindo roupa que devia ter ganhado no hospital porque não servia direito.
Sorriu pra mim do jeito que sempre sorria quando queria que eu parasse de fazer pergunta.
“Não quero falar sobre isso”, disse, antes mesmo de eu abrir a boca. “Eu vi muita coisa. Não quero reviver.”
Aquele deveria ter sido o momento.
Em vez disso, pareceu piedade.
O luto deixa a gente grato pelas menores permissões.
Por um tempo — mais tempo do que eu gostaria de admitir — quase funcionou. Ela circulava pela casa do mesmo jeito. Sabia onde ficava tudo. Reclamava da dobradiça frouxa do armário e dava comida pro gato do vizinho quando eles esqueciam. Dormia encolhida em mim, quente e respirando, como uma pessoa que nunca tinha sido queimada pra fora do mundo.
Eu não contei pra ninguém. Dizia pra mim mesmo que era cautela. Que precisava de tempo antes de corrigir o erro oficialmente. Ia ter papelada. Pedidos de desculpa. Investigações. Imaginava notícias sendo atualizadas discretamente, o nome da minha esposa retirado das listas de mortos.
Mas toda vez que eu tentava imaginar a explicação, algo travava na minha cabeça. A explicação engasgava. As palavras se desfaziam.
Então eu esperei.
Ela nunca falava do incêndio. Se eu chegava perto demais sem querer, ela virava o rosto, ou encostava a cara no meu peito, ou dizia que ainda não aguentava. Eu me convencia que trauma fazia isso. Pesquisei sintomas. Dissociação. Mutismo seletivo. Culpa de sobrevivente. Tudo encaixava se você forçasse o suficiente.
No começo eu nem notei os olhos.
Ou notei e escolhi não processar. Isso é mais difícil de explicar, mas é mais verdadeiro.
Foi durante o sexo. Acho que isso importa. Não foi uma descoberta carregada de romantismo. Não foi ela sorrindo no escuro nem parada errada na frente do espelho. Foi cru, perto, humano. Suor, respiração, o som que ela fazia quando eu fazia aquela coisa que ela gostava.
O rosto dela estava a centímetros do meu. Me inclinei pra beijar e os olhos dela se abriram.
Pupila e córnea eram pretos.
Não dilatados. Não sombreados. Pretos, como se alguém tivesse preenchido com caneta. O resto do olho era normal — branco onde tinha que ser branco, veias fininhas e rosadas. Mas o centro engolia luz de um jeito que não fazia sentido.
Eu travei.
Ela percebeu na hora. Claro que percebeu. Minha esposa sempre percebia quando eu ficava assim, parado.
“Ei”, sussurrou, tocando meu rosto. “Tá tudo bem?”
Eu disse pra mim mesmo que era a luz. Que meu cérebro tava dando pane de tanto estresse, luto, alívio absurdo de tê-la de volta. Quando pisquei, quando me afastei só o bastante pra respirar, ainda estavam lá.
Pretos.
Nunca voltaram ao normal.
Eu não falei nada.
Essa é a parte que eu não consigo me perdoar — não completamente. Eu sabia que algo estava errado. Uma parte de mim soube na hora, com a clareza de um sino batendo. Não que ela tinha sobrevivido. Não que tinham errado. Algo mais frio.
E mesmo assim eu escolhi.
Depois disso, os olhos dela eram sempre assim quando eu olhava de perto. De manhã, à tarde, refletidos em janelas e na TV. Às vezes eu quase conseguia esquecer se ficasse no ângulo certo, se não focasse. Mas se ela me pegasse encarando, a ilusão quebrava de novo.
Uma vez ela perguntou por que eu olhava pra ela “daquele jeito”.
“Que jeito?”, perguntei, já sabendo.
“Como se estivesse vendo um fantasma.”
Eu ri. Até fiz piada. Alguma besteira sobre falta de sono.
Ela me olhou por um tempo longo antes de se inclinar pra beijar minha bochecha. Os lábios estavam quentes. A pele cheirava como ela.
No trabalho, o pessoal dizia que eu parecia melhor. Menos oco. Diziam que era bom eu estar “seguindo em frente”.
Ninguém mais via os olhos.
Eu testei, primeiro de leve. Convidei gente pra vir em casa. Observei reflexos. Fiquei atrás de amigos enquanto ela conversava com eles, procurando confusão, medo, qualquer coisa nos rostos deles. Nada. Pra todo mundo, ela era exatamente o que parecia ser.
Quando ela me contou que estava grávida, eu chorei tão forte que assustei nós dois.
O bebê parecia prova. Não exatamente da humanidade dela — mas de continuidade. De um futuro que não tinha sido totalmente queimado. Eu me convencia que nenhum monstro se daria ao trabalho com algo tão pequeno, tão frágil. Que nenhuma mentira se deixaria crescer daquele jeito.
A gravidez foi normal. Consultas, vitaminas, vontades. Ela ficou mais doce naqueles meses, mais suave, como se soubesse que estava sendo observada mesmo quando eu tentava não olhar.
Comecei a beber mais. Fumar também. Só o suficiente pra tirar a ponta, pra amaciar o quanto eu percebia as coisas. Não fazia os olhos sumirem, mas desacelerava o jeito como meus pensamentos se encaixavam. Me deixava existir no meio-termo.
Eu dizia pra mim mesmo que fazia isso por ela. Pelo bebê.
Nosso filho nasceu quieto.
Saudável, disseram os médicos. Peso bom. Coração forte. Olhos normais. Não chorava muito. Na verdade, quase não fazia nada. Só olhava.
Só chorava quando ela demorava demais pra voltar.
Ela era uma boa mãe. Talvez essa seja a parte mais cruel. Paciente, atenciosa, delicada. Segurava ele como se ele importasse. Se tinha algo errado no jeito que ela o amava, era sutil demais pra eu separar do meu próprio medo.
Eu achava que dava pra viver assim. Achava mesmo.
Achava que saber, em silêncio, era suficiente. Que enquanto eu não dissesse em voz alta — você não é minha esposa — o mundo não ia desabar com a confissão.
Mas só dá pra olhar pros olhos de alguém e sentir algo recuando dentro de você um número limitado de vezes.
Perto do fim — acho que isso aqui é o fim, né? — comecei a observá-la quando ela achava que eu não estava vendo. Parado nas portas. Parando no meio da escada. Me convencendo que era só cuidado, como um homem protegendo a família.
Uma noite eu não consegui dormir. O baby monitor zumbia baixinho na mesinha de cabeceira. Ela tinha se levantado mais cedo, ido pro quartinho.
Eu fui atrás.
A porta estava entreaberta. Não sei o que eu esperava. Acho que uma parte de mim ainda torcia pra não ver nada. Pra eu ter estado errado de um jeito que doesse, mas que desse pra sobreviver.
Ela estava de costas pra mim, em pé ao lado do berço.
Os braços estavam longos demais.
Não de um jeito dramático. Não uma transformação grotesca repentina. Simplesmente errados — esticados além da proporção, dobrando em ângulos que sugeriam juntas que eu nunca tinha visto antes. As pernas eram iguais, alongadas e finas, a postura levemente curvada pra dentro, como um marionete cujas cordas tinham afrouxado.
Ela balançava.
O bebê não chorava.
Eu não respirava.
Por um momento — só um momento humano e idiota — achei que ela parecia cansada.
Aí ela virou a cabeça, e mesmo sem ver o rosto dela, eu soube que se ela me olhasse, algo dentro de mim ia se quebrar de vez, sem conserto.
Recuei. Devagar. Com cuidado. Como quem sai de uma cena de crime que ainda não quer nomear.
Foi aí que admiti pra mim mesmo, de verdade, sem escapatória nem linguagem suavizada.
Eu tinha sabido o tempo todo.
Só tinha amado mais a mentira do que a verdade.
Arrumei uma mala antes do sol nascer. Pouca coisa. Só o suficiente pra parecer decisão. Ela não acordou. O bebê continuou dormindo.
Fiquei na porta mais tempo do que deveria. Tempo suficiente pra gravar na memória o formato do quarto como ele estava. Tempo suficiente pra imaginar, idiotamente, que eu podia congelar tudo ali.
Não disse pra ela o que eu ia fazer. Não sei se ela teria me impedido.
Não sei se ela teria se importado.
Agora tô aqui no carro, digitando isso com as mãos tremendo, tentando ter coragem de terminar o que comecei. Não tenho respostas. Não sei o que ela é, o que ela quer, nem no que nosso filho vai se transformar.
Só sei que não aguento mais carregar isso.
Se você tá lendo isso e acha que reconhece a situação — se o luto um dia te devolver algo que parece quase certo — por favor, olha pros olhos. E se eles não forem o que deveriam ser, não faça o que eu fiz.
Não fique.
Tô tão cansado.
Desculpa.

