domingo, 7 de dezembro de 2025

Os olhos da minha senhora não são nada parecidos com o sol…

Eu não tô escrevendo isso porque acho que alguém vai poder me ajudar.

Tô escrevendo porque, se eu não tirar isso da cabeça, vou vacilar — e se eu vacilar, talvez eu fique. E ficar é pior.

As pessoas dizem que o luto faz a gente ver coisa onde não tem. Que ele preenche o vazio com qualquer forma que doa menos. Eu acreditava nisso, naquela época em que acreditar ainda parecia uma escolha. Hoje eu sei que o luto não inventa nada. Ele só arranca as partes de você que dizem “não”.

Eu tinha trinta e quatro anos quando minha esposa morreu. Sou corretor de imóveis — daqueles simpáticos, que lembram nome de cliente, que riem fácil demais, que ouvem o tempo todo que são “gente boa”, como se isso fosse um mérito só por não ser um babaca completo. Antes de tudo isso, eu tinha uma vida normal. Não perfeita. Mas real. Tínhamos uma casa que rangia no inverno e uma cafeteira que só funcionava se você desse um tapa do lado. Brigávamos por cor de tinta, esquecíamos aniversário um do outro e nos beijávamos na cozinha como se o tempo fosse infinito.

O local de trabalho dela pegou fogo numa terça-feira.

Na quinta, a imprensa já chamava de “evento com múltiplas fatalidades”. Na sexta, os restos eram “não identificáveis”. Eu lembro da frase porque quem falou disse com voz mansa, como se isso tornasse mais leve. Como se ainda não significasse que você nunca mais vai ver a pessoa.

Eu nunca vi o corpo dela. Não tinha corpo pra ver. Tinham fragmentos, disseram. Cinza, calor, desabamento. Então assinei papéis que não li e fiz que sim com a cabeça pra gente cujos rostos escorregavam da minha memória assim que paravam de falar. Uma semana depois, alguém me entregou uma caixinha e disse que eu podia levar ela pra casa.

O velório foi de caixão fechado. Claro que foi. Não tinha nada pra abrir.

Naquela noite, coloquei a urna na mesa da cozinha e sentei na frente dela até o sol se pôr. Lembro de pensar, absurdamente, que era mais leve do que eu esperava. Isso me incomodou mais do que qualquer outra coisa. Como se uma prova mínima, baseada em peso, tivesse sumido.

Apaguei no sofá depois da meia-noite.

Ela me acordou falando meu nome.

Não da porta. Não do corredor. Da sala, como sempre fazia quando me pegava cochilando em lugar idiota.

Eu lembro exatamente do que pensei, porque pareceu tão lógico que quase doeu.

Eles erraram.

Erro de identificação acontece. Eu já tinha ouvido falar. Registro dentário incompleto. DNA demora. Incêndio é caos. Em algum hospital que eu ainda não chequei, ela tinha acordado confusa, machucada e sozinha, e agora tinha voltado pra casa porque pra onde mais ela iria?

Ela estava na porta quando levantei a cabeça, vestindo roupa que devia ter ganhado no hospital porque não servia direito.

Sorriu pra mim do jeito que sempre sorria quando queria que eu parasse de fazer pergunta.

“Não quero falar sobre isso”, disse, antes mesmo de eu abrir a boca. “Eu vi muita coisa. Não quero reviver.”

Aquele deveria ter sido o momento.

Em vez disso, pareceu piedade.

O luto deixa a gente grato pelas menores permissões.

Por um tempo — mais tempo do que eu gostaria de admitir — quase funcionou. Ela circulava pela casa do mesmo jeito. Sabia onde ficava tudo. Reclamava da dobradiça frouxa do armário e dava comida pro gato do vizinho quando eles esqueciam. Dormia encolhida em mim, quente e respirando, como uma pessoa que nunca tinha sido queimada pra fora do mundo.

Eu não contei pra ninguém. Dizia pra mim mesmo que era cautela. Que precisava de tempo antes de corrigir o erro oficialmente. Ia ter papelada. Pedidos de desculpa. Investigações. Imaginava notícias sendo atualizadas discretamente, o nome da minha esposa retirado das listas de mortos.

Mas toda vez que eu tentava imaginar a explicação, algo travava na minha cabeça. A explicação engasgava. As palavras se desfaziam.

Então eu esperei.

Ela nunca falava do incêndio. Se eu chegava perto demais sem querer, ela virava o rosto, ou encostava a cara no meu peito, ou dizia que ainda não aguentava. Eu me convencia que trauma fazia isso. Pesquisei sintomas. Dissociação. Mutismo seletivo. Culpa de sobrevivente. Tudo encaixava se você forçasse o suficiente.

No começo eu nem notei os olhos.

Ou notei e escolhi não processar. Isso é mais difícil de explicar, mas é mais verdadeiro.

Foi durante o sexo. Acho que isso importa. Não foi uma descoberta carregada de romantismo. Não foi ela sorrindo no escuro nem parada errada na frente do espelho. Foi cru, perto, humano. Suor, respiração, o som que ela fazia quando eu fazia aquela coisa que ela gostava.

O rosto dela estava a centímetros do meu. Me inclinei pra beijar e os olhos dela se abriram.

Pupila e córnea eram pretos.

Não dilatados. Não sombreados. Pretos, como se alguém tivesse preenchido com caneta. O resto do olho era normal — branco onde tinha que ser branco, veias fininhas e rosadas. Mas o centro engolia luz de um jeito que não fazia sentido.

Eu travei.

Ela percebeu na hora. Claro que percebeu. Minha esposa sempre percebia quando eu ficava assim, parado.

“Ei”, sussurrou, tocando meu rosto. “Tá tudo bem?”

Eu disse pra mim mesmo que era a luz. Que meu cérebro tava dando pane de tanto estresse, luto, alívio absurdo de tê-la de volta. Quando pisquei, quando me afastei só o bastante pra respirar, ainda estavam lá.

Pretos.

Nunca voltaram ao normal.

Eu não falei nada.

Essa é a parte que eu não consigo me perdoar — não completamente. Eu sabia que algo estava errado. Uma parte de mim soube na hora, com a clareza de um sino batendo. Não que ela tinha sobrevivido. Não que tinham errado. Algo mais frio.

E mesmo assim eu escolhi.

Depois disso, os olhos dela eram sempre assim quando eu olhava de perto. De manhã, à tarde, refletidos em janelas e na TV. Às vezes eu quase conseguia esquecer se ficasse no ângulo certo, se não focasse. Mas se ela me pegasse encarando, a ilusão quebrava de novo.

Uma vez ela perguntou por que eu olhava pra ela “daquele jeito”.

“Que jeito?”, perguntei, já sabendo.

“Como se estivesse vendo um fantasma.”

Eu ri. Até fiz piada. Alguma besteira sobre falta de sono.

Ela me olhou por um tempo longo antes de se inclinar pra beijar minha bochecha. Os lábios estavam quentes. A pele cheirava como ela.

No trabalho, o pessoal dizia que eu parecia melhor. Menos oco. Diziam que era bom eu estar “seguindo em frente”.

Ninguém mais via os olhos.

Eu testei, primeiro de leve. Convidei gente pra vir em casa. Observei reflexos. Fiquei atrás de amigos enquanto ela conversava com eles, procurando confusão, medo, qualquer coisa nos rostos deles. Nada. Pra todo mundo, ela era exatamente o que parecia ser.

Quando ela me contou que estava grávida, eu chorei tão forte que assustei nós dois.

O bebê parecia prova. Não exatamente da humanidade dela — mas de continuidade. De um futuro que não tinha sido totalmente queimado. Eu me convencia que nenhum monstro se daria ao trabalho com algo tão pequeno, tão frágil. Que nenhuma mentira se deixaria crescer daquele jeito.

A gravidez foi normal. Consultas, vitaminas, vontades. Ela ficou mais doce naqueles meses, mais suave, como se soubesse que estava sendo observada mesmo quando eu tentava não olhar.

Comecei a beber mais. Fumar também. Só o suficiente pra tirar a ponta, pra amaciar o quanto eu percebia as coisas. Não fazia os olhos sumirem, mas desacelerava o jeito como meus pensamentos se encaixavam. Me deixava existir no meio-termo.

Eu dizia pra mim mesmo que fazia isso por ela. Pelo bebê.

Nosso filho nasceu quieto.

Saudável, disseram os médicos. Peso bom. Coração forte. Olhos normais. Não chorava muito. Na verdade, quase não fazia nada. Só olhava.

Só chorava quando ela demorava demais pra voltar.

Ela era uma boa mãe. Talvez essa seja a parte mais cruel. Paciente, atenciosa, delicada. Segurava ele como se ele importasse. Se tinha algo errado no jeito que ela o amava, era sutil demais pra eu separar do meu próprio medo.

Eu achava que dava pra viver assim. Achava mesmo.

Achava que saber, em silêncio, era suficiente. Que enquanto eu não dissesse em voz alta — você não é minha esposa — o mundo não ia desabar com a confissão.

Mas só dá pra olhar pros olhos de alguém e sentir algo recuando dentro de você um número limitado de vezes.

Perto do fim — acho que isso aqui é o fim, né? — comecei a observá-la quando ela achava que eu não estava vendo. Parado nas portas. Parando no meio da escada. Me convencendo que era só cuidado, como um homem protegendo a família.

Uma noite eu não consegui dormir. O baby monitor zumbia baixinho na mesinha de cabeceira. Ela tinha se levantado mais cedo, ido pro quartinho.

Eu fui atrás.

A porta estava entreaberta. Não sei o que eu esperava. Acho que uma parte de mim ainda torcia pra não ver nada. Pra eu ter estado errado de um jeito que doesse, mas que desse pra sobreviver.

Ela estava de costas pra mim, em pé ao lado do berço.

Os braços estavam longos demais.

Não de um jeito dramático. Não uma transformação grotesca repentina. Simplesmente errados — esticados além da proporção, dobrando em ângulos que sugeriam juntas que eu nunca tinha visto antes. As pernas eram iguais, alongadas e finas, a postura levemente curvada pra dentro, como um marionete cujas cordas tinham afrouxado.

Ela balançava.

O bebê não chorava.

Eu não respirava.

Por um momento — só um momento humano e idiota — achei que ela parecia cansada.

Aí ela virou a cabeça, e mesmo sem ver o rosto dela, eu soube que se ela me olhasse, algo dentro de mim ia se quebrar de vez, sem conserto.

Recuei. Devagar. Com cuidado. Como quem sai de uma cena de crime que ainda não quer nomear.

Foi aí que admiti pra mim mesmo, de verdade, sem escapatória nem linguagem suavizada.

Eu tinha sabido o tempo todo.

Só tinha amado mais a mentira do que a verdade.

Arrumei uma mala antes do sol nascer. Pouca coisa. Só o suficiente pra parecer decisão. Ela não acordou. O bebê continuou dormindo.

Fiquei na porta mais tempo do que deveria. Tempo suficiente pra gravar na memória o formato do quarto como ele estava. Tempo suficiente pra imaginar, idiotamente, que eu podia congelar tudo ali.

Não disse pra ela o que eu ia fazer. Não sei se ela teria me impedido.

Não sei se ela teria se importado.

Agora tô aqui no carro, digitando isso com as mãos tremendo, tentando ter coragem de terminar o que comecei. Não tenho respostas. Não sei o que ela é, o que ela quer, nem no que nosso filho vai se transformar.

Só sei que não aguento mais carregar isso.

Se você tá lendo isso e acha que reconhece a situação — se o luto um dia te devolver algo que parece quase certo — por favor, olha pros olhos. E se eles não forem o que deveriam ser, não faça o que eu fiz.

Não fique.

Tô tão cansado.

Desculpa.

sábado, 6 de dezembro de 2025

O Urso Morango

“Ei, olha ali! É o Urso Morango!”

Era uma tarde de sexta-feira escura e deprimente. Minha irmãzinha de oito anos, a Emma, deu um gritinho animado e puxou a barra do meu moletom enquanto a gente voltava da escola a pé. Tirei os olhos do celular e olhei pro outro lado da rua. Lá estava um cara dentro de uma fantasia de pelúcia de urso, com traços exagerados e bem caricatos: olhos azuis enormes cheios de brilho, um laço vermelho gigante no pescoço e um monte de acessórios de morango da cabeça às patas. Ele segurava um buquê de balões flutuantes e dançava de um jeito meio apático.

Coitado, pensei. Deve estar morrendo de calor lá dentro o dia inteiro, balançando pra lá e pra cá entretendo criança barulhenta. O tecido barato do pelo parecia molhado e grudado, provavelmente por causa da chuva forte de mais cedo.

“Posso tirar uma foto com ele, por favor, Luke?”

Emma implorou. Eu fiz cara feia.

“Não, a gente tem que chegar cedo em casa, lembra? Não quero a mãe surtando e me ligando igual da última vez.”

Eu tava sendo um babaca, eu sei. Todas as crianças daqui amavam o Urso Morango, e a Emma não era exceção. A Strawberry Bear Co. começou como uma rede de sorvete e doces, depois o mascote fez sucesso e eles começaram a vender mercadoria e bichos de pelúcia do urso querido. Tirar foto com o Urso Morango era tipo o auge do “cool” pra molecada.

A Emma ficou visivelmente triste. Mas ela sempre foi uma irmãzinha gente boa, então só segurou minha mão e a gente continuou andando pra casa. Eu lembro que fiquei puto. Nenhum de nós queria essa merda. A Emma já tinha idade pra voltar sozinha, a escola dela ficava a poucos quarteirões de casa. Já a minha escola ficava mais longe, e eu tinha que pegar outro ônibus só pra buscar ela. Ou seja: perdia os rolês depois da aula com a galera e, óbvio, descontava nela.

Era uma bosta.

Meus pais não eram assim antes. Na verdade, eles incentivavam a gente a se divertir depois da aula e a ser independente. Tudo mudou quando crianças do bairro começaram a sumir. Algumas foram encontradas… ou melhor, pedaços delas. Quem fez aquilo era um filho da puta monstruoso. Eu ouvi a polícia usar a palavra “espalhados” pra descrever os restos que achavam. Isso deixou minha mãe paranoica pra caralho; ela passou a me obrigar a buscar a Emma todo santo dia e ainda botou horário pra gente chegar junto em casa.

Na sexta passada eu pensei “um sorvete não mata ninguém” e levei a Emma pro parque. Resultado: minha mãe ligando, chorando, fazendo escândalo. Tentei entender, mas uma parte de mim ficou com raiva e se sentindo impotente. Comecei a odiar tudo isso. A Emma era nova demais pra entender o tamanho da parada, mas dava pra ver que ela também tava assustada e frustrada.

Quando passamos correndo pelo Urso Morango, senti ela apertar mais minha mão. Tinha alguma coisa errada naquela fantasia, mas eu não sabia o quê.

O urso ficou parado. Completamente imóvel.

Os dias foram passando, zero pistas sobre as crianças desaparecidas, e eu tava ficando louco de tédio buscando a Emma todo dia. Sentia falta de jogar bola com os caras e, em alguns dias de sorte, ver a Alex no banco também. Ela é legal, vai. Eu me pegava encarando o cabelo curto, fofo e loiro-morango dela mais do que eu queria admitir. O Sam foi o primeiro da turma a sacar.

“Ei, tu não vem pro jogo hoje não?” Ele perguntou no recreio. “A Alex vai estar lá.”

Revirei os olhos, mas meu coração acelerou.

“E tu tem certeza disso porque…?”

“Uma amiga dela me contou. Sabe como é, eu sou o queridinho das minas.”

Eu ri. O Sam sempre se acha o engraçadão, mas aquilo me animou. Era bom pensar em qualquer coisa que não fosse minha irmã e um assassino filho da puta solto por aí.

“Cara, eu adoraria ir, mas tenho que buscar a Emma. Não tem negociação.”

“Pô, mano. Deixa ela sozinha um dia só. A gente sente falta de você no time.”

“Veremos.”

Falei e me despedi. Fiquei pensando nas possibilidades durante as aulas da tarde. Desde o mês passado eu buscava ela todo dia e nunca aconteceu nada. Ninguém chegou perto dela nem tentou levar. Nossa casa era logo ali. Ela já sabia gritar por socorro e minha mãe tinha martelado o papo de “perigo de estranho” na nossa cabeça.

Não ia fazer diferença se eu deixasse ela sozinha um dia só.

Um diazinho. Pra mim. Pros meus amigos. Pra Alex. Como recompensa por eu ser tão responsável o tempo todo. Fazia total sentido. A Emma chegaria em casa antes da minha mãe perceber. Fui inventando desculpa atrás de desculpa até o sinal tocar. Não peguei o ônibus pra escola dela. O Sam me jogou a calça de futebol reserva dele e disse que tava orgulhoso de eu finalmente “ter virado homem”. O tempo tava bom. Uma brisa leve bagunçava o cabelo da Alex enquanto ela sorria pra mim do banco. Ela tem olhos azuis claros, iguais aos meus, iguais aos da Emma. Iguais aos das crianças desaparecidas que eu via nos jornais.

Aquilo me deu náusea.

“Ei, cara, tu tá bem?”

O Sam pareceu preocupado. Tentei respirar fundo e me preparar pro jogo, mas meu estômago revirava. Antes que eu conseguisse organizar a cabeça, já soltei:

“Sam, empresta tua bike?”

“Claro, mano… mas pra quê?”

“Preciso ir buscar a Emma.”

Peguei as chaves dele e saí voando. Não sei se andar de bike daquele jeito dá multa, mas se desse eu teria levado umas dez naquele dia. Pedalei sem parar até ver a Emma voltando sozinha pra casa. Ela tava com carinha triste, provavelmente porque eu não apareci, e pelo tanto que já tinha andado, deve ter esperado pelo menos uma hora antes de desistir.

“Emma!”

Gritei.

“Luke!”

Ela virou a cabeça e abriu um sorriso enorme. Correu e me deu um abraço bem apertado.

“Eu fiquei tão preocupada! Achei que o ‘cara mau’ tinha te pegado.”

Na hora eu quis dar um soco na minha própria cara do passado. Enquanto eu pensava só em mim e nos meus rolês, esqueci que a Emma também tava estressada e com medo por causa de tudo que tava rolando… e mesmo assim ficou preocupada comigo.

“Desculpa, Emma.”

“Tá tudo bem!” Ela murmurou. “Essa bike é do Sam? O que aconteceu?”

“Nada importante. Vamos pra casa.”

Enquanto a gente andava pela rua, eu vi o Urso Morango de novo. Era o mesmo de antes, dava pra reconhecer pelo pelo molhado e grudado e pelo mesmo buquê de balões. Dessa vez a Emma nem pediu pra tirar foto. Só agarrou a manga do meu moletom e abaixou a cabeça. A ficha caiu como um caminhão de isekai (essa eu aprendi com o Sam). Pessoas vestidas de Urso Morango sempre ficam em lugares lotados — parque, shopping, evento — pra fazer propaganda. Por que esse tava ali parado? Numa rua vazia, à tarde, num dia cinzento do caralho? Um arrepio subiu pela minha espinha. Falei pra Emma:

“Pula na bike.”

Ela estranhou, mas não discutiu. Fiquei de olho no urso enquanto a gente passava por ele. Imaginei que ele fosse sair correndo atrás da gente com uma faca ou alguma merda assim.

Mas o Urso Morango só ficou lá. Parado.

Da próxima vez que eu vi ele, tava em tudo que era canal de TV.

Lembro da foto do urso na tela, da bile subindo pela garganta, do medo tão real que arrepiava a pele inteira. Era ele o monstro que tinha matado todas aquelas crianças. O cara, que já tinha trabalhado na Urso de Morango Co., roubou uma fantasia e usava pra atrair as crianças pro porão dele. Só foi pego porque ficou confiante demais e tentou pegar uma criança mais velha, que conseguiu correr e avisar a polícia. Meu corpo inteiro tremia sem parar. Se eu tivesse deixado a Emma sozinha naquele dia, se eu não tivesse largado o jogo e a chance de falar com a Alex…

“Luke?”

A Emma botou a cabeça pra fora do quarto, confusa. Eu só fui até ela, me ajoelhei e puxei ela pra um abraço bem forte, com os dedos tremendo. Eu tava apavorado com o que poderia ter acontecido com ela. Como eu já disse, a Emma é uma irmãzinha gente boa, então só ficou parada ali e deu uns tapinhas sem graça nas minhas costas.

“Luke, não fica triste. Eu te dou meu ursinho antigo, tá? A mamãe comprou um novo pra mim.”

Ela tirou do bolso um bichinho de pelúcia do Urso Morango. Eu dei uma risada meia-boca e recusei — ia ter pesadelo pro resto da vida se aceitasse aquela coisa no meu quarto. Mas olhando pro bicho de novo, com luz do dia, finalmente entendi o que tinha me incomodado tanto.

O ursinho oficial da Emma era rosa choque, quase neon. Abracei minha irmã mais forte ainda, segurando a vontade de vomitar. O Urso Morango assassino que a gente encontrou tava com uma fantasia molhada, grudenta, de um tom bordô escuro.

Estava encharcada de sangue.

Listras

Quando eu era mais novo, a hora de dormir sempre foi uma parada difícil e assustadora pra mim. Não era medo do escuro, não – era uma coisa bem mais sinistra, por conta própria.

Minha cabeça de criança sempre botava a culpa nos sonhos ou na minha família zuando comigo. Olhando pra trás, eu me sinto um completo idiota por achar que alguém da família ia se dar ao trabalho de me sacanear tão tarde da noite.

Família, no caso, era só uma pessoa mesmo. Cresci só eu e minha mãe.

Minha mãe era artista – ou pelo menos era louca por coisa artística quando eu era pequeno. Ela curtia especialmente fazer roupa. Por isso, tinha uns manequins espalhados pela casa. Eles ficavam sempre no ateliê dela, onde ela usava pra provar as peças.

Queria que a gente tivesse sacado o que tava rolando bem antes.

Eu tinha pesadelos com frequência. Experiências aterrorizantes que minha mente inventava na hora de dormir. Acho que era por isso que era tão difícil aceitar. Também era o principal motivo de ir pra cama ser um sacrifício daqueles. Até hoje não sei se os primeiros foram realmente pesadelo ou não.

Eu lembro com detalhes das três vezes que aquilo aconteceu.

A primeira vez eu nem liguei muito. Deitei, consegui dormir sem drama. O problema foi continuar dormindo. Primeiro era só escuridão. Aí meus olhos abriram.

Eu tava no meu quarto, ainda na cama. Só que alguma coisa tava diferente. O quarto tava muito mais escuro do que algumas horas antes – normal, quanto mais tarde, mais escuro fica.

Mas não foi isso que me apavorou. O que me fez mergulhar debaixo do cobertor foi uma figura parada bem no meio do quarto. Só conseguia ver porque tinha uns fiapos de luar entrando pelas frestas da persiana.

Olhei pro vulto o tempo suficiente pra sacar uns detalhes da roupa. A pessoa tava completamente imóvel, vestindo o que parecia uma calça social preta e uma camisa branca com listras pretas. Só isso. Não dava pra ver o rosto, e nem precisava. Ficou lá, parada. Eu não consegui gritar – não era que eu tava segurando, eu literalmente não conseguia. Fiquei tão apavorado que só consegui me enfiar no cobertor e esperar aquilo sumir.

Pode ser que eu tenha dormido de novo. Não sei, não lembro direito. Só sei que num momento eu tava escondido e no outro já tava acordando com o quarto todo iluminado pelo sol. A figura tinha sumido, então achei que tinha sido sonho.

Ainda assim fiquei na dúvida, e na hora do café perguntei pra minha mãe.

“Oi, mãe.” Eu falei. “Você… você colocou um dos seus manequins no meu quarto?”

O rosto dela mudou de tranquilo pra nervoso na hora. “O quê? Não, claro que não. Por que tá perguntando isso?”

“Ah, tá bom.” Respondi. “Então deve ter sido sonho.”

“Como assim?” Ela perguntou.

“Tinha uma pessoa no meu quarto, mas eu mal conseguia ver. Quando acordei de vez, não parecia que alguém tinha entrado. Acho que foi sonho.”

“Hmm.” Ela fez. “Que estranho. Qualquer coisa você me avisa, tá?”

“Tá bom.”

Preciso deixar claro: minha mãe nunca foi burra, em tempo nenhum. Ela pensou nas possibilidades. Revistou a casa inteira depois da nossa conversa e não achou nada. Não tinha como ela imaginar que aqueles sonhos, por mais reais que parecessem, podiam não ser só sonhos. Mas eu tô divagando. Não tinha como ninguém ter invadido a casa. Ela até desceu pro porão, inclusive nas partes que a gente evitava entrar. Nada.

O fato de ela não ter encontrado nada torna o que aconteceu depois ainda mais difícil de explicar, mas vou tentar.

O último caso foi mais ou menos uma semana depois do primeiro. Eu tinha acabado de pegar no sono e tava até sonhando uma coisa boa quando fui interrompido.

Dessa vez teve barulho de verdade. Acordei com o som do meu despertador caindo da cômoda e se espatifando no chão. Eu tinha certeza que tinha deixado ele bem longe da borda, mas vai que eu errei. Achando que tinha sido descuido meu, levantei um pouco o cobertor e me inclinei pra pegar.

Recuei horrorizado. Ali, saindo um pouco debaixo da minha cama, tinha um braço. Não era braço cortado, não – tava claramente ligado a alguém. O despertador não tinha caído perto da mão, então não dava pra ver direito, mas já saquei que era a mesma situação da semana anterior.

A luzinha do despertador mostrou que o braço era da mesma figura. Mesma camisa branca com listras pretas. Eu voltei pra trás na hora e me enterrei de novo no cobertor. Fechei os olhos com força. De algum jeito, mesmo com o pavor absoluto de ver aquela mesma coisa debaixo da minha cama, eu consegui dormir.

Na manhã seguinte, minha mãe tava puta da vida. Desci pro café já me preparando pra contar o que eu achava que podia ter sido sonho de novo. Ela tava de mau humor pra caralho. Pelo visto algum bicho tinha mexido lá fora e quebrado uma das janelas que davam pro porão.

Ela tava resmungando duas coisas. Primeiro: que o bicho que quebrou a janela ainda podia tá lá dentro. Quando ela foi ver, umas coisas tinham sido mexidas, principalmente perto daquela área escura tipo um vão de engatinhar. Segundo: como diabos ela ia pagar pra consertar a porra da janela. Eu e ela descobrimos que ela não ia precisar se preocupar com isso quando eu tentei falar com ela.

“Que foi?!” Ela cortou.

“Eu… hm.” Gaguejei.

“Desculpa.” Ela disse. “Tô só puta com essa janela. O que você queria me contar?”

“Eu vi de novo.” Falei. “A figura. Acho que eu tava sonhando?”

“Você sonha muito com isso.” Ela disse. “Lembra de algum detalhe?”

“Tava usando uma daquelas camisas listradas que você fez.” Respondi.

O rosto da minha mãe congelou. Ela ficou quieta um tempo. Quando falou, foi sério pra caralho. Me pegou pela mão e fomos direto pra porta de entrada. Enquanto eu calçava o tênis, perguntei:

“Por que você tá nervosa?”

Ela só respondeu quando já tava dentro do carro e ligando o motor. Olhou pra mim com aquele tom grave:

“Eu não fiz isso. Eu nunca fiz camisa listrada.”

Nós mudamos naquele mesmo dia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Não vá até o local do Experimento de Inanição de Minnesota. Eles ainda estão com fome…

Estou escrevendo isso do meu apartamento, e preciso que você entenda uma coisa antes de eu contar o que aconteceu. Preciso que você saiba que o Experimento de Inanição de Minnesota foi real.

Em 1944, na Universidade de Minnesota, o Dr. Keys conduziu um dos estudos psicológicos mais perturbadores da história americana. Trinta e seis objetores de consciência — caras que se recusaram a lutar na Segunda Guerra Mundial — se ofereceram pra passar fome. Durante seis meses, recebiam umas 1.800 calorias por dia enquanto faziam trabalho pesado. Depois, passaram por três meses de “reabilitação”, sendo realimentados aos poucos.

Os resultados foram o puro terror. Os caras ficaram obcecados por comida: juntavam receitas, lambiam os pratos, alguns até pensaram em canibalismo. Entraram em depressão profunda, se mutilavam, mudaram tanto de personalidade que vários nunca mais voltaram ao normal. Um deles, tá registrado, cortou três dedos da própria mão com um machado — e nem lembrava se tinha sido de propósito ou não.

O objetivo do experimento era entender como realimentar populações famintas na Europa pós-guerra. Tudo aconteceu no porão do laboratório da Universidade de Minnesota, num prédio sem graça que ainda está de pé até hoje.

Eu sei disso tudo porque eu era consultor de demolição. Era. Era consultor de demolição.

Há três semanas, a Universidade finalmente liberou a demolição do laboratório antigo — o prédio onde o experimento rolou. A maior parte estava abandonada desde os anos 80, considerada obsoleta e cara demais pra reformar. Meu trampo era avaliar a estrutura, identificar materiais perigosos e planejar a forma mais segura de derrubar aquilo.

Entrei lá numa manhã de terça-feira. Sozinho.

O prédio cheirava errado desde o momento em que pisei lá dentro. Não era o mofo e podridão comum de lugar abandonado. Era mais forte, mais orgânico. Parecia uma fábrica de sebo que eu tinha vistoriado anos atrás, mas com um fundo azedo, de vômito.

Os andares principais eram normais: escritórios vazios, laboratórios sem nada, poeira de décadas. Meus passos ecoavam demais. As plantas mostravam quatro andares, mas quando chequei as escadas, vi marcações de um subsolo que não constava em nenhuma das minhas documentações — só um bilhetinho escondido no final do arquivo.

Curiosidade profissional é um perigo no meu ramo. Eu devia ter deixado pra lá.

A escada era estreita, de concreto institucional pintado de cinza há mil anos. A lanterna pegou algo nas paredes enquanto eu descia: arranhões. Profundos. Cinco linhas paralelas descendo o concreto, como se alguém tivesse cravado as unhas com força suficiente pra rasgar pedra.

O subsolo era um corredor comprido com várias portinhas. Celdas, na real. Cada uma com uma cama de ferro, uma mesinha e uma lâmpada pelada no teto. A anotação no meu arquivo dizia que aquele nível tinha sido usado pra “observação prolongada” em vários estudos. As portas ainda tinham números pintados: S1 até S36.

Trinta e seis quartos.

Trinta e seis cobaias.

Fiquei gelado apesar do casaco.

Os arranhões estavam em tudo ali embaixo: batentes, chão, até no teto. Num dos quartos, alguém tinha gravado na parede: AINDA COM FOME AINDA COM FOME AINDA COM FOME, repetido em espirais loucas que cobriam a parede inteira. A letra ia piorando, ficando mais descontrolada, mais rasgada.

No fim do corredor tinha uma porta pesada de aço com várias trancas. Uma placa dizia: OBSERVAÇÃO DE LONGO PRAZO. SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO — DR. KEYS.

As trancas já estavam abertas.

Eu devia ter dado meia-volta. Meu Deus, eu devia ter dado meia-volta.

O cômodo lá dentro era enorme, uns 12 por 18 metros, com o teto sumindo na escuridão acima do alcance da lanterna. O cheiro me acertou como um soco: aquele cheiro de fábrica de sebo multiplicado por cem. E por baixo, outra coisa. Uma coisa que fez meu cérebro reptiliano gritar.

Tinham camas arrumadas em fileiras perfeitas. Trinta e seis camas.

Vinte e três estavam ocupadas.

Preciso que você entenda: eu já vi cadáver antes. Acidente em obra, uns suicídios em prédios que eu avaliei. Eu sei como é um corpo morto. Aquilo não eram cadáveres.

Eles estavam se mexendo.

Pouco. Só a respiração lenta, subindo e descendo. E eram… errados. Esquelético nem começava a descrever: eram corpos que tinham se devorado por dentro, queimado toda a gordura e depois começado no músculo, deixando só pele esticada sobre osso e tendão. Mas eram compridos demais. As proporções estavam tortas. Os dedos passavam muito do que deviam, com unhas grossas, amarelas e curvadas. As articulações inchadas, joelhos e cotovelos do dobro do tamanho normal.

E os olhos.

Quando a luz da lanterna passou pela cama mais próxima, os olhos se abriram de repente. Enormes, ocupando quase metade do rosto, pupilas tão dilatadas que pareciam buracos negros. Refletiam a lanterna como olho de bicho.

A boca daquela coisa se escancarou e eu ouvi um som que nunca vou esquecer: um estalo molhado, desesperado, como alguém tentando falar com a boca cheia de baba. A mandíbula desceu demais, e eu vi que os dentes tinham mudado — mais afiados, mais numerosos.

Depois ele se mexeu.

Nunca vi nada acelerar daquele jeito. Num segundo estava deitado; no outro já estava agachado na cama, cabeça inclinada num ângulo que quebraria o pescoço de qualquer pessoa normal. Não se movia fluido — dava uns trancos, como vídeo pulando quadro.

Todos os vinte e três acordaram. Vinte e três pares daqueles olhos gigantes, famintos, cravados em mim.

Eu corri.

Atrás de mim veio um barulho, não de passos, mas um estalar horrível, como se estivessem correndo de quatro. Ou de mais de quatro. Eu não olhei pra trás. Cheguei na escada e subi três degraus de cada vez, pulmão queimando, coração batendo tão forte que achei que ia explodir.

Uma coisa agarrou meu tornozelo.

Caí com tudo, queixo batendo no concreto. Atordoado, olhei pra trás.

Um deles tinha me pegado. A mão — se é que dava pra chamar assim — envolveu minha perna inteira, aqueles dedos compridos se encontrando do outro lado. O rosto dele estava a centímetros do meu, e eu conseguia ver cada detalhe na luz de emergência da escada.

Tinha sido homem um dia. Ainda dava pra ver na estrutura óssea, nos restos de humanidade agarrados às feições. Mas a fome tinha refinado ele em algo que a evolução nunca quis. A pele era translúcida, veias azuis visíveis como mapa. Os olhos desesperados, famintos, insanos.

A boca se abriu mais do que era possível, e eu vi a garganta se contorcendo, baba escorrendo pelo queixo em fios. O cheiro do hálito era indescritível: podre, ácido estomacal e algo químico.

Ele falou.

“Fome”, sussurrou, voz de folha seca. “Tanta… fome…”

Chutei a cara dele com o outro pé. Algo fez crack. Ele não soltou, mas recuou o suficiente pra eu arrancar a perna. Subi a escada engatinhando, depois me levantei e corri.

Cheguei no andar principal. A saída estava ali, luz do dia visível pelas janelas sujas. Eu ia conseguir.

Aí eu vi eles de novo.

Três no corredor à frente, bloqueando a porta. Deviam conhecer outro caminho pra subir. Se moviam daquele jeito horrível de stop-motion, pulando de um ponto pro outro, cabeças fazendo movimentos bruscos de ave pra me acompanhar.

O do meio usava o que sobrou de um crachá de voluntário da U of M. Ainda dava pra ler o ano: 1945.

Setenta e oito anos. Eles estavam lá embaixo há setenta e oito anos.

Olhei em volta desesperado e vi outra escada subindo. Corri pra lá, ouvindo aquele estalar atrás de mim de novo. Subi um lance, dois. Terceiro andar, corredor de escritórios vazios. Ali — uma janela, e uma escada de incêndio do lado de fora.

Não diminuí. Levantei os braços e me joguei no vidro.

Caí na escada de incêndio com força suficiente pra ver estrelas, vidro cravado na jaqueta e no cabelo. Embaixo, ouvi eles se atirando contra o batente da janela, incapazes ou sem vontade de seguir. Desci meio escalando, meio caindo, e corri pro meu caminhão.

Só parei de tremer direito quando já estava a mais de um quilômetro dali.

Não contei pra ninguém. Quem ia acreditar? Liguei pra universidade e disse que o prédio estava estruturalmente comprometido, que precisariam lacrar antes de qualquer demolição. Eles falaram que iam resolver.

Isso foi há três semanas.

No começo achei que estava bem. Assustado pra caralho, claro, mas bem. Tinha levado um susto, escapado, acabou.

Aí eu comecei a sentir fome.

Não fome normal. Era outra coisa. Eu comia uma refeição completa, enorme, mais do que eu costumava comer, e uma hora depois estava morrendo de fome de novo. Não só com vontade. Fome de verdade, dolorida, como se eu não comesse há dias.

Fui no médico. Ela fez exames. Tudo normal, disse. Metabolismo perfeito. Sugeriu que podia ser psicológico, me deu o contato de uma terapeuta.

Mas não é psicológico.

Eu sei porque perdi sete quilos em três semanas, mesmo comendo sem parar. Sei porque quando olho pras minhas mãos, meus dedos parecem mais compridos. Pouco. Só um pouco. O suficiente pra eu perceber quando digito ou pego um garfo.

Sei porque minhas articulações doem. Meus joelhos estalam quando levanto, e parecem inchados, quentes.

Sei porque ontem olhei no espelho e meus olhos pareceram grandes demais pro meu rosto.

Sei porque não consigo parar de pensar em comida. Todo pensamento volta pra isso. Sonho comendo, acordo com a mandíbula doendo de tanto ranger os dentes. Comecei a juntar receita de forma obsessiva, imprimi e cobri as paredes do apartamento com elas. Quando como, me pego lambendo o prato. Ontem me peguei calculando quantas calorias tem o cachorro da vizinha.

Sei porque a fome não tá mais na barriga. Tá nos ossos, nas células, no meu DNA. Tá me reescrevendo por dentro.

Passei de carro pelo prédio ontem. Tinham caminhonetes da manutenção da universidade lá fora, operários instalando chapas pesadas de aço em todas as janelas e portas. Nova placa: CONDENADO, PROIBIDA A ENTRADA, ESTRUTURA PERIGOSA.

Eles estão lacrando. Lacando eles lá dentro.

Mas pra mim já era.

Escrevo isso como aviso. O Experimento de Inanição de Minnesota não acabou em 1945. Continua rolando. Aqueles caras se voluntariaram pra passar fome pela ciência, pra ajudar a humanidade, e alguma coisa naquele processo transformou eles em algo que não devia existir. Talvez tenha sido a duração, a fome por tanto tempo que os corpos se adaptaram de formas impossíveis. Talvez tenha sido outra coisa, algo naquele prédio, naquele porão.

Não importa mais.

O que importa é que eu sinto acontecendo. As mudanças estão acelerando. Meus dedos estão definitivamente mais compridos hoje. Tive que aumentar o teclado no trabalho. Minha mandíbula estala quando mastigo, como se os ossos estivessem se soltando, se preparando pra esticar. Tô com tanta fome que mal consigo pensar, e comer não adianta mais. Nada adianta.

Ontem à noite senti vontade de voltar. Voltar pro prédio, pro porão. A fome me chama, sussurra que o alívio tá esperando no escuro com os outros. Que eu pertenço lá agora. Que sempre pertenci.

Tô tentando resistir. Tô tentando muito resistir.

Mas eu tô com tanta fome.

E meu contrato de aluguel vence mês que vem. Acho que não vou renovar.

Se você estiver lendo isso, fique longe do laboratório antigo no campus da Universidade de Minnesota. Não chegue perto. Não tente investigar. Lacrararam agora, mas lacre se quebra.

E pelo amor de Deus, se um dia você estiver perto daquele lugar e ouvir som de arranhões vindo de baixo da terra, se sentir aquele cheiro de fábrica de sebo misturado com vinagre e coisa errada, corra.

Porque eles ainda estão com fome.

Nós ainda estamos com fome.

E eu não acho que aguento muito mais tempo.

Meus dedos estão compridos demais pra digitar direito. Vou parar aqui.

Tem trinta e seis camas lá embaixo. Acho que uma delas sempre foi minha.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon