sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Meu Melhor Amigo Está Morto

Eu venho lutando com isso há um tempo. Tenho certeza de que ninguém mais pode fazer nada para me ajudar, pelo menos não até eu estar pronto para me ajudar sozinho, mas eu precisava tirar tudo isso do peito. E agora eu não tenho mais ninguém com quem conversar. Só o meu computador.

Nunca fui uma pessoa sociável, nem mesmo quando era bem novo, mas finalmente consegui fazer um amigo. As coisas foram boas por um tempo. Ele era alegre e gentil; uma presença incansavelmente otimista que rompia o zumbido aparentemente infinito de melancolia que eu aprendi a conhecer. Nunca tinha convidado outra pessoa para entrar na minha casa antes, mas ele vinha me visitar com frequência, especialmente quando eu passava por crises de desespero que me mantinham trancado em casa por dias seguidos.

Não sei direito como ele morreu. Nem lembro quem me contou, mas ele se foi. Mesmo se ninguém tivesse me avisado, eu teria percebido. Minha campainha não toca há semanas. Os óculos dele ainda estão no parapeito da janela da última vez que ele veio aqui. Ele sempre foi tão distraído, e eu vivia reclamando disso. Agora, eu queria que ele tivesse esquecido mais coisas aqui.

Não saí de casa desde que soube. A porta da frente simplesmente parece intimidante demais pra mim. Talvez porque eu fique esperando que ele apareça na varanda e diga que foi tudo um engano. Ainda estou esperando que ele venha me tirar dessa tristeza, mesmo sabendo que não vai. Pelo menos, não do jeito que eu queria.

Eu tentei de verdade lembrar de tudo que ele me dizia. Mesmo nunca tendo visto nenhuma prova de vida após a morte ou de mortos interagindo com os vivos, eu ficava procurando pequenos sinais; tipo quando acordei com a luz do sol batendo na janela de um jeito perfeito que jogou um arco-íris pequeno no meu rosto.

Mas não parou nos detalhes pequenos assim. E nem todos são tão doces ou reconfortantes. Toda vez que ele vinha aqui, eu servia o mesmo chá na mesma caneca pra ele. Um dia eu fiz aquele chá, mesmo nunca tendo gostado dele. Não consegui mexer na caneca dele. Mas enquanto eu estava de costas pro armário, que eu tinha certeza de que tinha fechado, a caneca se jogou sozinha da prateleira e se espatifou no chão.

Fiquei horas parado ali olhando praquilo, como se meu coração tivesse se espalhado pelo azulejo no lugar do cerâmico desbotado com arco-íris. Pedi uma nova pela internet. Eu precisava substituir ou seria o mesmo que admitir que ele não ia voltar. Essa também caiu do armário, e a terceira também. Desmontei o armário inteiro tentando descobrir por que elas escorregavam, mas nunca entendi. Nenhum outro prato meu quebrou.

Eu tinha pegado no sono no chaise longue da sala de visitas menor e acordei com a televisão ligando de repente no volume máximo, tocando a música tema do desenho favorito dele. Mas enquanto eu ficava ali sentado, respirando em golfadas curtas e rápidas, algo deu errado. A imagem se dissolveu em blocos caóticos de cor borrados na tela e o áudio virou um chiado mecânico misturado com gritos. Não respondia ao controle remoto nem aos botões, então tive que desligar da tomada.

As coisas foram piorando até eu começar a ouvir a voz dele em cômodos vazios e ver vultos de roupa colorida pelo canto do olho. A presença dele não é nada reconfortante. Ele parece agitado e frustrado. Parece que está preso nessa casa comigo. E eu o conheço. Se não existir outro plano pra alma dele e os mortos ainda andarem pela Terra, ele preferiria muito mais vagar pelo mundo do que ficar parado num lugar só, mesmo que fosse com um amigo. Tenho medo de que minha fixação nele esteja mantendo ele preso aqui.

Por algum motivo, a atividade dele é mais forte no quarto do computador. Acho que deve ser porque passávamos muito tempo ali juntos quando ele era vivo. Ele jogava videogame enquanto eu escrevia meus romances. Às vezes jogávamos juntos.

Ele gostava dos consoles retrô que eu tenho, especialmente o Atari que está ligado num monitor CRT no fundo do quarto. Ele ainda senta na frente daquele computador antigo, olhando direto pra frente sem se mexer. Eu sei porque vejo ele no reflexo do vidro. Ele parece tão triste e eu queria poder ajudar.

O Atari liga sozinho em horários aleatórios, o computador também, e a tela plana na outra parede. Não preciso estar lá pra ele ligar. Imagino que ele esteja entediado, querendo jogar os jogos favoritos dele, mas parece que não consegue. Ele só liga. Ou só senta e chora. Nunca vi ele chorar em vida.

Eu quero ir embora. Quero deixar ele ir. Mas simplesmente não consigo. Em vez disso, todo dia eu sento na frente daquele monitor antigo e grosso, olhando praquela imensidão cinza-escura e vendo ele onde deveria estar o meu reflexo.

Não é como mofo comum

Eu nunca planejei postar isso online. Sou pesquisador, não contador de histórias. Eu catalogo coisas. Rotulo amostras. Escrevo relatórios de incidentes que acabam soterrados por carimbos de classificação e linguagem jurídica.

Mas o que encontrei há três meses não fica enterrado. Ele cresce. Ele se espalha.

Por isso estou escrevendo isso aqui.

Eu trabalhava numa instalação privada de pesquisa biomédica no sul da Europa. Não posso dizer o nome, pelos motivos que vão ficar óbvios, mas ela era especializada em fungos extremófilos. Mofo que prospera em lugares onde nada mais deveria sobreviver. Sistemas de resfriamento de reatores. Naufrágios no fundo do mar. Bunkers abandonados selados desde a Guerra Fria.

A gente se convencia de que era pela medicina. Antibióticos. Estruturas regenerativas de tecido. A gente dizia um monte de coisas.

A amostra que fodeu tudo chegou num caixão de transporte de aço marcado MYC-117 / HELIX STRAIN. Essa era a designação oficial. Informalmente, os técnicos do laboratório chamavam de Mofo Espiral por causa da forma como crescia. Não para fora em florescimentos fofos, mas para dentro, enrolando, perfurando qualquer coisa que tocasse.

Veio de um prédio de apartamentos condenado depois que um inquilino reclamou que “as paredes estavam respirando”. A reclamação foi zoada até três moradores sumirem e um ser encontrado catatônico na escada, com os pulmões cheios de algo que não devia estar lá.

Meu papel era observação e mapeamento de respostas neurais. O que significa que eu via o que aquilo fazia com tecido vivo.

Nosso principal sujeito de teste era rotulado PACIENTE ECHO-9. Nome real censurado, mas eu vi uma vez num formulário de admissão antes dele sumir no triturador. Uns 30 e poucos anos. Homem. Ex-trabalhador da construção civil. Exposição estimada em seis semanas antes da recuperação.

Quando eu o conheci, já era difícil dizer onde o paciente terminava e a contaminação começava.

Echo-9 ficava numa câmara de isolamento com pressão negativa, paredes revestidas de polímeros antimicrobianos que custavam mais que meu apartamento. Tubos enfiados no peito, na coluna, no crânio dele. O mofo tinha colonizado o sistema nervoso sem matá-lo. Isso era o milagre, segundo os chefes.

Ele mantinha o cara vivo.

Vivo demais.

A primeira coisa que notei foi que ele acompanhava movimentos com os olhos mesmo sedado. Não só pessoas. Sombras. Reflexos no vidro. Uma vez, quando as luzes piscaram, as pupilas dele dilataram tanto que eu não via mais o branco.

Registramos vocalizações no começo. Sons úmidos. Estalos. De vez em quando algo que quase parecia fala, mas em nenhuma língua que eu conhecesse. Eu me convenci de que era só disparo neural aleatório.

Não devia ter me convencido.

O encontro aconteceu durante uma verificação noturna programada de integridade. Só eu e Lena, outra pesquisadora, rodando diagnósticos nos sistemas de contenção depois de um alerta de flutuação de pressão. O mofo era sensível a interferência eletromagnética, e uma tempestade estava passando.

Às 02:17, Echo-9 sentou.

Não quero dizer que ele se debateu contra as amarras ou deu um espasmo. Quero dizer que ele sentou como uma pessoa saudável acordando do sono. As tiras não arrebentaram. Elas deslizaram dele, escorregadias com um crescimento cinza-preto que não estava ali uma hora antes.

Lena congelou. Eu lembro do zumbido das máquinas ficando mais alto, ou talvez minha audição tenha se estreitado em torno dele. Echo-9 inclinou a cabeça, juntas estalando como madeira velha encharcada de água.

Aí ele olhou direto pra mim.

Dentro dos olhos dele tinha movimento. Não reflexos. Não moscas volantes. Algo girando, devagar, como uma escada em espiral afundando na escuridão.

Ele falou.

“Eu sei onde você termina”, ele disse. A voz veio de muitos lugares ao mesmo tempo, em camadas, como se o som estivesse viajando através dele em vez de sair dele.

Lena gritou. As luzes apagaram.

O vermelho de emergência inundou o ambiente. O vidro entre nós e a câmara embaçou na hora, não de condensação, mas de crescimento. Filamentos se espalharam por ele em espirais apertadas e deliberadas, sem formar palavras, mas sugerindo intenção.

Echo-9 encostou a mão no vidro.

Onde a pele dele tocou, o mofo floresceu para fora, atravessando falhas microscópicas, provando o ar do nosso lado. Eu senti cheiro de terra molhada e podre e algo metálico, tipo sangue em cima de uma bateria.

O interfone estalou e ligou. Não com segurança. Com respiração.

Echo-9 sorriu. A boca dele abriu mais do que deveria, e eu não consegui olhar por tempo suficiente pra entender como.

“Vocês já nos carregam”, ele disse. “A gente só precisa que vocês percebam.”

Lena correu. Eu não culpo ela. As luzes do corredor piscavam enquanto os alarmes finalmente alcançavam a realidade. Eu fiquei porque vi algo no meu tablet.

Os escaneamentos neurais ainda estavam rodando.

O mofo não estava só reagindo ao cérebro do Echo-9.

Estava sincronizando com os nossos.

Os padrões na tela batiam com minhas leituras basais da semana anterior. Marcadores de estresse. Picos de recuperação de memória. A Cepa Helix não estava infectando o corpo primeiro.

Estava mapeando a mente.

Os protocolos de contenção finalmente entraram em ação. Espuma automatizada. Inundação de ultravioleta. Fogo químico. Eu vi Echo-9 desabar enquanto o mofo calcificava, travando ele numa estátua de carne enegrecida e crescimento endurecido.

Antes dos olhos dele ficarem opacos, ele articulou uma última coisa sem som.

“Obrigado.”

Oficialmente, o incidente foi contido. A ala foi selada. Echo-9 foi declarado terminado. A Cepa Helix foi registrada como neutralizada.

Eu ganhei licença médica por tempo indeterminado.

Se você está lendo isso e já viu mofo que cresce como se estivesse pensando, não toque nele. Não limpe. Não olhe por tempo demais.

Ele não está se espalhando do jeito que você acha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Neste lugar, qualquer um sem nome é baleado na hora. Eu sou obrigado a fingir que ainda me lembro do meu nome

Eu me lembro de cambalear pela floresta à noite.

Estava de quatro no chão. A pistola tinha caído da minha mão e eu sentia a terra e a neve entre os dedos. Não muito longe, havia uma luz fraca. Eu semicerrava os olhos, tentando focar no chão abaixo de mim.

Naquele momento, ouvi um som.

Um farfalhar e um estalo a pouca distância. Parecia que estava se afastando.

Era impossível focar. Eu não fazia ideia de onde o barulho vinha, pra onde ia ou o que estava causando, mas estava perto.

Meus dedos roçaram num objeto duro de metal. A pistola — eu tinha encontrado. Peguei ela e me levantei. Quando me ergui, a luz já não estava mais visível.

Eu me encolhi de repente.

Um tiro.

Vi um clarão de luz lá longe. Escutei com atenção. Veio outro estrondo, seguido rapidinho por mais quatro em sequência, manchando a cena por instantes com manchas de luz. Depois ouvi outro som, um grito selvagem, desesperado. Ele foi calado poucos momentos depois.

Eu não dava a mínima pro tiro, pro grito ou pros sons sinistros ao meu redor; eu precisava sair daquele frio do caralho. Comecei a andar na direção do grito — na direção do lugar onde a luz agora estava apagada.

Andei e logo me vi na beira de uma clareira. No meio da clareira tinha uma cabana de madeira pequena e decadente. A cabana parecia inclinar pra direita, depois pra esquerda, e ficar em foco e desfocar. Estava ficando difícil permanecer consciente, mas eu precisava continuar andando. Tropecei na porta. Assim que entrei, os sons da floresta cortaram de vez, e eu caí pra frente.

Isso é tudo que me lembro daquela noite. Isso é tudo que me lembro, ponto final; a memória de onde eu estava ou como tinha chegado ali me escapa completamente.

Acordei no chão frio de madeira, de bruços. Meu rosto doía e meus músculos estavam tensos pra caralho. Sentei e olhei ao redor.

A cabana era um único cômodo e uma bagunça completa. Livros velhos, papéis e objetos diversos espalhados por todo lado. Tinha carvão na lareira, parte queimado, o resto jogado no chão da chaminé como se alguém tivesse tentado apagar o fogo às pressas.

Tinha uma mochila encostada na parede ao lado da lareira. Era um modelo padrão verde e marrom, com dezenas de itens variados amarrados nas laterais, coisas grandes demais pra caber direito no compartimento principal: um rolo grande de tecido, uma panela de metal e um machadinho pequeno pendurado atrás. Examinei os itens rapidamente, depois peguei o zíper e abri.

Joguei o conteúdo no chão.

Vi roupas enroladas bem apertadas, sacos e garrafas, latas e pacotes. Nada disso era útil imediatamente; nada me dizia onde eu estava ou quem eu era, porra.

Peguei um bolso menor na parte de fora da mochila. Dentro tinha um livro. Finalmente, pensei, informação.

Tirei o livro e olhei a capa dura de couro.

Alex

Não tinha título, nem datas, e, além do nome na capa, era totalmente sem enfeites. Julgando pelo equipamento de sobrevivência na mochila, quem quer que fosse esse Alex, a situação dele devia ser bem parecida com a minha. Só podia torcer pra que esse livro tivesse informação útil. Abri a primeira página.

“Um sobrevivente sem nome deve ser baleado na hora.”

Era um ponto absurdamente vago, mas fez os pelos da minha nuca arrepiar. Meu nome era a coisa que mais me escapava. Minha vida e minhas experiências eram borrões incompreensíveis de movimento, mas pelo menos eu reconhecia as emoções pelo que eram. Minha identidade, porém, era um vazio completo.

Qual podia ser o propósito daquele aviso? Pensei. Talvez uma pessoa que não dissesse o nome não pudesse ser confiável. Não — não podia ser tão simples assim.

A lista continuava por uma quantidade absurda de páginas, e cada anotação parecia mais louca que a anterior. Em algum momento, parei de ler o caderno de vez e só tentava entender do que se tratava. Os pontos eram todos sobre ficar seguro, não confiar nas pessoas e evitar “infecção”. Alguns eram senso comum, tipo saber onde fica o norte, mas outros eram bem mais estranhos, como só cortar o cabelo ao ar livre e sempre cortar o mais curto possível pra evitar “contaminação”. Meu cabelo estava bem curto, e me perguntei se essa regra tinha sido conhecimento comum pra mim em algum momento. Mas por que eu não lembrava?

Fechei o livro e me encostei pra trás. Olhei pra capa de couro.

Alex. Pensei comigo mesmo. Meu nome é Alex.

Era simples, na verdade; se eu não tivesse nome, ia pegar um pra mim até lembrar o verdadeiro. Alex. Servia tão bem quanto qualquer outro. Aí, se alguém perguntasse meu nome, eu podia dizer, e a regra estaria satisfeita. Qualquer que fosse o motivo da anotação, eu sabia que era importante ter um nome.

“Alex.” Falei em voz alta pra ver o quão natural conseguia soar. “Alex”, repeti. “Qual é o seu nome?”, disse, falando como se fosse pra um estranho. “É Alex.”

Olhei de novo pro caderno. Alex não era meu nome; era o deles — do dono da mochila. Meu nome verdadeiro estava perdido. Seria bom saber qual era, mas pelo menos eu podia me dar um. Podia começar por algum lugar.

Quem quer que fosse o verdadeiro Alex, ele estava morto, e lá estava eu, fuçando as coisas dele e roubando o nome. Disse pra mim mesmo que não importava mais.

Fui assustado de repente.

Uma batida na porta, depois mais três.

Levantei num pulo e corri pra entrada, procurando a pistola que tinha deixado cair na noite anterior. Achei e segurei firme no cabo, mas antes que eu pudesse me levantar, a porta abriu.

“Seu nome, qual é?” Uma voz disse da entrada.

Virei devagar, erguendo os olhos pra ver a mulher na porta. Eu via pelo cano de uma espingarda grande pra caralho. O dedo dela tensionou enquanto eu hesitava em falar.

“Alex!”, disse, “É Alex.”

Vi o aperto dela afrouxar um pouco, e o cano baixou.

“Qual é o seu nome?”, disse, tentando soar natural.

“Anna”, ela respondeu. Passou pela porta com um passo rápido e fechou atrás de si. “Você chegou cedo.”

Ela olhou o cômodo com uma cara de nojo leve, a espingarda ainda solta nos braços, apontando pro chão.

“Por que o fogo apagou?”

Pensei um segundo. “Teve… teve um problema ontem à noite. Fui obrigado a apagar.”, disse.

Ela me deu um olhar de desprezo. “Seu nome bate, então suponho que você seja o Alex que eu devia encontrar. Se não fosse por isso, você estaria morto, mas não pense que eu não vou ficar de olho em você. Temos muito pra conversar.”

No que eu tinha me metido? O que eu devia fazer? Eu não sabia quem era Alex, nem por que Anna esperava encontrar ele. Tinha que fingir.

Andei até onde Anna estava.

“Você já tem acesso à cidade?”, ela disse.

Tinha que me colocar no lugar do Alex, mesmo sem saber quem ele era ou onde ficava a cidade. Pensei na noite anterior — nos tiros, no grito.

“Não… não tenho.”

“Que bom que eu tô aqui, então.”

Não disse nada.

De repente, meu braço tremeu violentamente. Entrei em pânico e segurei com a outra mão pra parar. Minha respiração travou na garganta. Não sabia o que era o tremor, mas o que quer que fosse, Anna já estava desconfiada o suficiente. Olhei pra ela, esperando ver pelo cano da arma de novo.

A espingarda ainda apontava pro chão, e o olhar dela estava fixo na lareira. Ela não tinha visto o movimento repentino.

O tremor — o que tinha sido aquilo?

Anna olhou pro chão por alguns instantes, depois falou. “Vamos pra cidade assim que o sol se pôr. Você teve sorte deles terem decidido te dar acesso, Alex.”

Minha mente focou de novo. Tentei esquecer o tremor.

A cidade? Que cidade?

“É, suponho que sim.”

“A segurança tá bem rigorosa ultimamente; não me surpreende. As taxas de infecção estão subindo”, ela disse.

“Não posso culpar eles”, disse, embora não fizesse ideia do que estava falando.

“É”, Anna disse, “se um deles entrar, acabou tudo. Fico feliz que você entenda.”

Dessa vez, senti vindo antes de acontecer. Outro tremor. Senti subindo pelo pescoço como um inseto. Tive que balançar pra afastar.

Mas se Anna visse, e aí? Não sabia o que era o tremor, mas duvidava que fosse algo bom. Não podia deixar ela ver.

“Vou guardar minhas coisas de volta na mochila”, disse, tentando esconder a ansiedade.

“Claro.”

Assim que me afastei, sacudi a cabeça violentamente pro lado. O tremor forte foi seguido por uma sensação estranha de formigamento na garganta. Ainda bem que Anna não viu.

Antes de começar a juntar os itens da mochila, procurei loucamente o diário. Assim que achei, virei pra página que tinha lido por último.

Como se respondesse minhas dúvidas, a primeira frase da página dizia:

“Qualquer um que faça movimentos repentinos sem explicação deve ser baleado na hora.”

Fiquei com nojo de mim mesmo. O diário… era sobre gente como eu, e quanto mais eu lia, mais óbvio isso ficava.

“Amnésia é sinal certo de infecção.” Dizia a última frase da página.

Eu era o inimigo naquele diário. Mas por quê? Por que eu era perigoso? O livro não explicava nada.

Terminei de arrumar a mochila e me levantei, indo até onde Anna estava.

“Pronto, Alex?”

“Sim.”

“Estou convencida que você não é um deles, então acho que podemos seguir. Vou te dar acesso à cidade, mas você tem que me prometer uma coisa primeiro”, ela disse.

“Claro.”

“Se sentir qualquer sintoma, qualquer um mesmo, mete uma bala na cabeça antes de pôr o pé na cidade.”

Meu corpo tensionou.

“Alex, você tem que entender o que aconteceria se um deles entrasse. A cidade é o único lugar que sobrou; se ela cair, não vai ter mais nenhum lugar no mundo pra se esconder. Você promete?”

Eu não queria morrer. Com certeza tinha outro jeito… tinha que ter.

“Alex? Você ouviu?”

Não… eu não ia desistir. Não podia morrer ainda, não quando meu passado era um borrão de memória. Pelo jeito que eu via, minha vida tinha acabado de começar. Por que tinha que começar nesse pesadelo do caralho?

Antes que eu pudesse falar, ouvimos um barulho do lado de fora da cabana.

Um suspiro repentino, como se alguém tivesse emergido depois de ficar muito tempo debaixo d’água.

Anna correu pra fora antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo. Eu a segui rápido.

Demos a volta na cabana até chegar na parede de onde veio o som.

Ali, encostado na parede da cabana, estava um homem coberto de sangue e neve com um rifle no colo. As feridas eram brutais e irregulares. Os olhos arregalados e o rosto pálido. Ele parecia apavorado.

“Que porra…”, Anna sussurrou.

O homem ofegava por ar.

A ficha caiu como um trem.

Os tiros, o grito.

Ele estava vivo.

“Alex, você conhece esse cara? Sabe o que aconteceu?”, Anna virou pra mim.

O homem olhou pra ela, depois devagar virou e olhou pra mim.

“Eu… eu não sei”, disse. “Ele deve ter chegado antes de mim.”

O homem sustentou meu olhar, e tinha algo mais nos olhos dele. Algo inconfundível e inegável. Raiva. Ele sabia.

Esse era Alex — o verdadeiro Alex. Se ele revelasse a verdade, seria o meu fim.

Ele abriu a boca.

“Não…”, ele chiou. “Eu sou…”

“Ele é um deles!”, gritei, abafando as palavras do homem antes que ele revelasse quem era. Eu nem sabia quem eram “eles”; só precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa.

O homem ferido não disse nada; só ficou me encarando com os mesmos olhos silenciosos e julgadores. Parecia triste de algum jeito.

Vi ele tensionar o braço em volta do rifle no colo.

Um som ensurdecedor ecoou. Virei o rosto enquanto meus ouvidos zuniam. O barulho me pegou desprevenido, e demorei pra me recuperar.

Quando olhei de novo, a parede atrás do homem estava coberta de sangue fresco.

“Merda, por que ele tinha que tentar pegar o rifle?”, Anna disse. Fumaça saía do cano da espingarda dela. “Mas acho que você tá certo; ele já era carne morta mesmo.”

Meu estômago revirou. A culpa era minha. O verdadeiro Alex estava morto, e lá estava eu com o nome dele e sabendo que, se ele tivesse revelado quem era, Anna teria metido uma bala no meu peito.

Pelo menos o verdadeiro Alex está morto, pensei, e a informação foi com ele.

Mas o homem ainda respirava.

Anna tinha mirado baixo. A barriga dele era uma bagunça, mas ele ainda respirava.

Ele abriu a boca.

“Não… eu sou… Alex…”

Curto, quase inaudível, mas incriminador mesmo assim.

Um momento de silêncio horrível.

Não tinha saída.

“Seu filho da puta!”, Anna gritou.

Assim que vi o cano da espingarda apontado pro meu peito, me abaixei. O tiro ecoou e espalhou estilhaços ao meu redor.

Corri pra trás do canto da cabana e voei pra porta. Precisava pegar minha pistola.

Alex tinha levado um tiro de espingarda na barriga por minha causa, e agora Anna ia fazer o mesmo comigo. Me sentia um merda, mas não tinha tempo pra questionar minha decisão. Invadi pela porta no exato momento em que ouvi outro disparo de espingarda. Vidros explodiram dentro da cabana.

Pulei em direção à mesa onde estava minha pistola, segurando nela enquanto minhas costas batiam no chão.

Anna entrou correndo pela porta e atirou, mas meu corpo já estava no chão, e ela tinha mirado alto demais.

O gatilho não se mexeu quando apertei.

Mesmo sendo minha arma, eu não lembrava como usar.

Anna ajustou a mira. A arma dela clicou, mas nada aconteceu. Ela estava sem munição.

Girei um botão na lateral da minha pistola. Meu dedo estava tão tenso no gatilho que ela disparou imediatamente e sem esperar. Meus ouvidos zuniram, e virei a cabeça do clarão. Mais três tiros saíram, embora eu não tenha olhado pra ver onde acertaram.

Quando a fumaça da pistola baixou, ergui a cabeça.

A porta estava escancarada, e Anna tinha sumido.

Levantei num salto e corri pra porta, mas antes de sair, vi ela.

Anna estava deitada na neve lá fora. A espingarda dela apontava pra mim. Clicava inutilmente de novo e de novo.

Sangue escorria pela boca dela.

Depois de me encarar por alguns instantes, ela largou a espingarda e levou as mãos ao pescoço. Parecia que só um dos meus tiros tinha acertado.

Sangue jorrava entre os dedos dela.

Tropecei pra trás e caí no chão. Não aguentava. O que eu tinha feito? Eu nem entendia o que estava acontecendo — o que eu tinha feito pra merecer isso. Tinha agido por instinto; nunca quis matar ninguém. Disse pra mim mesmo várias vezes que não tive escolha.

Estou escrevendo isso agora nesse diário amaldiçoado — aquele que avisa sobre gente como eu.

Mas talvez eu realmente seja o inimigo. Afinal, eu sou responsável pelos corpos lá fora. Mas que escolha eu tinha? Eu precisava sobreviver.

O verdadeiro Alex está morto, e mesmo não tendo sido eu que apertei o gatilho, o sangue dele está nas minhas mãos. Talvez Anna estivesse certa; ele ia morrer mesmo.

Anna carregava um mapa e, mais importante, um cartão. Acesso aos portões da cidade, diz.

Os tremores pioraram; agora são quase incontroláveis. E tem uma fome crescendo dentro de mim, embora eu não saiba o que é nem o que ela quer. Será essa a infecção que o livro mencionava?

Talvez lá, na cidade, eles possam me ajudar.

Meu Trabalho é Comer Camarão, ou o Que Eu Achava Que Era Camarão

Eu sempre fui um cara de rotina. Acordo às 5:30 da manhã, preparo uma cafeteira de café preto forte o suficiente pra tirar tinta de parede, e saio pro trabalho de merda que paga as contas. Nos últimos seis meses, esse trabalho tem sido na Oceanic Delicacies, um armazém gigantesco nos arredores de Port Haven, uma cidade costeira enevoada no Maine onde o ar sempre cheira a sal e podridão. O trampo? Testador de controle de qualidade de camarão. Isso mesmo, você ouviu direito. Meu trabalho é comer camarão. Ou pelo menos, o que eu achava que era camarão.

Começou tudo de forma bem inocente. Vi o anúncio num site de empregos: “Não precisa de experiência. Salário competitivo. Precisa ter estômago forte e nenhuma alergia a frutos do mar.” Pensei: por que não? Eu tinha sido demitido do meu último emprego numa fábrica de enlatados — alguma coisa sobre automação substituindo mãos humanas — e minha grana estava acabando mais rápido que a maré baixa. A entrevista foi uma piada: uma conversa rápida com uma representante de RH entediada chamada Marlene, que me entregou um formulário e uma caneta. “Assina aqui, e tá dentro”, ela disse, com os olhos vidrados como se tivesse repetido aquela frase mil vezes.

O armazém era imenso, um labirinto de esteiras rolantes, freezers zumbindo e o barulho constante das máquinas. Meu posto ficava numa sala branca e estéril no fundo, isolada do piso principal. Chamavam de “Laboratório de Degustação”, mas parecia mais uma sala de exame clínico — luzes fluorescentes piscando no teto, uma mesa de metal com um banquinho, e um espelho falso na parede que eu jurava que sempre tinha alguém observando do outro lado. Todo dia eu batia o ponto, colocava rede no cabelo e luvas, e esperava as amostras.

O processo era simples: uma fenda na parede abria, e uma bandeja deslizava com dez a quinze camarões, descascados e limpos, às vezes crus, às vezes cozidos com vários temperos. Eu comia um por um, anotando textura, sabor, frescor num tablet digital. Salgado demais? Marcava. Borrachudo? Flagava. Gosto estranho que ficava na boca? Reportava. Depois, a bandeja voltava, e outra aparecia. Oito horas por dia, cinco dias por semana. Era monótono pra caralho, mas o pagamento era 25 dólares por hora, mais benefícios. Em Port Haven, isso era uma fortuna.

No começo, eu adorei. Camarão sempre foi um prazer culpado — camarão de coquetel em festas, camarão ao alho e óleo em noites de encontro, quando eu ainda tinha essas coisas. As amostras eram premium: gorduchos, suculentos, com aquele estalo salgado que só o fresco tem. Eu mastigava devagar, curtindo a explosão de sabor de mar, a doçura sutil por baixo do sal. Minhas anotações eram ótimas: “Firmeza excelente”, “Equilíbrio perfeito de umami”, “Sem gosto de peixe estragado”. Eu até comecei a sonhar com camarão — bandejas infinitas flutuando num mar de molho coquetel.

Mas lá pela terceira semana, as coisas começaram a ficar… estranhas. Começou pela textura. Um lote parecia errado, como se a carne fosse fibrosa demais, quase filamentosa, como se tivessem fios de algo mais duro entrelaçados. Anotei: “Ligeiramente mastigável, possível processamento excessivo.” No dia seguinte, outra bandeja veio com camarões que se mexiam levemente quando eu pegava. Pisquei, achando que era reflexo da luz, mas não — espasmos minúsculos, como se não estivessem bem mortos. “Atividade nervosa residual?”, digitei, com os dedos hesitando. Nos tempos da fábrica de enlatados, eu tinha visto peixe se contorcer depois de morto, mas camarão? Eles deviam estar inertes.

Comentei com a Marlene na reunião semanal. Ela deu risada, a voz metálica no interfone. “Ah, isso é só a nova origem. Estamos testando variedades de mar profundo — mais frescas que fresco. Mantém o sabor trancado.” Eu assenti, mas uma semente de dúvida se plantou. Camarão de mar profundo? Nunca tinha ouvido falar disso sendo viável comercialmente. As águas de Port Haven eram rasas, castigadas por tempestades, não os abismos do oceano.

Com o passar das semanas pros meses, as anomalias foram se acumulando. Alguns camarões tinham um brilho iridescente, como óleo na água, mudando de cor sob a luz — azul, verde, roxo. Outros tinham gosto metálico, um toque de cobre que ficava na língua por horas. Comecei a ter dores de cabeça depois dos turnos, enxaquecas latejantes que embaçavam a visão. Em casa, eu desabava no sofá, olhando pro teto, sentindo como se algo estivesse rastejando debaixo da minha pele.

Uma noite, depois de um lote especialmente esquisito — camarões que estouravam como caviar quando mordidos, soltando um fluido viscoso — sonhei vividamente. Eu estava debaixo d’água, numa vala oceânica vasta e escura. Formas bioluminescentes dançavam ao meu redor, não peixes, mas coisas alongadas com segmentos demais, olhos brilhantes em fileiras. Elas pulsavam com luz, me chamando. Eu estendi a mão, e uma se grudou no meu braço, as partes da boca se abrindo como pétalas. Acordei ofegante, com a palma da mão coçando onde não tinha nada.

No turno seguinte, as bandejas vinham mais rápido. Sem pausas entre elas. Eu mal terminava de registrar um lote e outro já deslizava. Os camarões estavam maiores agora, quase do tamanho de lagostins, com veias que pulsavam levemente sob a carne translúcida. Mordi um, e ele esguichou — quente, não frio como deveria ser. O sabor era mais rico, quase cremoso, com um fundo de algo terroso, como terra molhada misturada com sangue.

Flagrei: “Temperatura incomum — amostra quente na chegada. Perfil de sabor alterado.” Nenhuma resposta no interfone. Normalmente, a Marlene ou alguém dava uma desculpa. Silêncio.

Meu corpo começou a mudar. Notei no espelho uma manhã: minha pele parecia mais pálida, veias mais visíveis, especialmente no pescoço e nos pulsos. Linhas azuladas correndo por baixo da superfície. Eu coçava o tempo todo, arranhando até sangrar. As dores de cabeça viraram algo pior — sussurros, fracos no começo, como estática nos ouvidos. Palavras que eu não conseguia entender, borbulhando de algum lugar profundo.

No trabalho, o espelho falso às vezes embaçava, como se tivesse respiração do outro lado. Eu pegava vislumbres de movimento no reflexo, sombras se mexendo quando eu não olhava direto. Os camarões — meu Deus, os camarões — começaram a parecer diferentes. Não só na textura ou no sabor, mas no formato. Alguns tinham cristas extras na cauda, protuberâncias minúsculas como membros nascentes. Outros tinham o que pareciam manchas oculares, pontos escuros que me seguiam enquanto eu os levava à boca.

Tentei pedir demissão uma vez. Fui até o escritório da Marlene depois do turno, com o tablet nas mãos trêmulas. “Isso não tá certo”, eu disse. “As amostras… não são camarões normais.” Ela sorriu, com aquela mesma expressão vidrada. “Bobagem. Você é o nosso melhor testador. Melhores notas toda semana. Toma um bônus.” Ela deslizou um envelope na mesa — 500 dólares em dinheiro vivo. Eu peguei. Contas não se pagam sozinhas.

Naquela noite, a coceira piorou. No chuveiro, arranhei o antebraço até ficar em carne viva, e algo se mexeu debaixo da pele. Um ondulado, como um verme cavando. Eu fiquei olhando, com a água caindo em cima de mim, convencido que era alucinação. Mas não — aconteceu de novo. Um pequeno inchaço subindo pelo braço, depois sumindo.

Os sonhos ficaram mais frequentes. Sempre a vala, as criaturas brilhantes. Mas agora, elas falavam. Não com vozes, mas impressões — fome, paciência antiga, promessa de pertencimento. Eu acordava com crosta de sal nos lábios, mesmo morando a quilômetros da praia.

As bandejas nunca paravam. Eu comia centenas por dia, minha barriga inchando de dor, mas nunca me sentia satisfeito. Os camarões estavam vivos agora, sem dúvida. Se enroscavam quando tocados, antenas — antenas de verdade — se mexendo. Alguns tentavam fugir da bandeja, rastejando pra borda. Eu os prendia com o garfo, forçando goela abaixo. O gosto era uma agonia deliciosa: podridão doce, vitalidade elétrica correndo por mim.

Minhas anotações viraram bagunça: “Amostra apresenta motilidade. Recomendo parar.” “Sabor induz euforia — possível contaminante.” “Olhos presentes. Múltiplos.” Ainda assim, silêncio no interfone.

Comecei a levar amostras pra casa escondido. Embrulhadas em guardanapo, escondidas na marmita. Sob a luz da cozinha, ampliadas com uma lupa barata que comprei online, a verdade me encarava. Não eram camarões. Corpos segmentados, pernas articuladas dobradas, mandíbulas escondidas embaixo. Formas larvais, talvez, de algo bem maior. Horrores de mar profundo, colhidos de valas que nenhum submarino deveria alcançar.

Pesquisei na internet de madrugada, fóruns sobre vida marinha críptica, documentos vazados de expedições oceanográficas. Sussurros sobre “anomalias bentônicas” pegas em redes de arrasto na plataforma continental, coisas que imitavam espécies comerciais pra se infiltrar nas cadeias de suprimento. Parasitas que reescreviam os hospedeiros por dentro.

A coceira se espalhou por tudo. Costas, couro cabeludo, entre os dedos dos pés. No espelho, meus olhos tinham mudado — pupilas ligeiramente alongadas, íris salpicadas com o mesmo brilho iridescente.

Num turno, a fenda abriu, mas nenhuma bandeja veio. Em vez disso, uma voz — finalmente — no interfone. Não era da Marlene. Mais grave, ressonante, como ondas de pressão na água. “Você se adaptou bem. Fase de integração concluída.”

As luzes diminuíram. O espelho falso clareou, revelando não uma sala de observação, mas escuridão. Um abismo, iluminado por bioluminescência fraca. Formas se moviam além — massivas, segmentadas, familiares.

Olhei pras minhas mãos. A pele se abriu sem dor, descascando como uma casca. Por baixo, algo pálido e articulado se flexionou. Pernas? Antenas?

A bandeja chegou então, vazia. Um convite.

Eu entendi. Meu trabalho não era testar camarão. Era virar o recipiente. Levar eles pro interior, espalhar a ninhada.

Os sussurros ficaram claros: Nós somos a maré que retorna. Você é a ponte.

Eu dei um passo em direção à fenda. Ela se alargou, acomodando. O ar ficou frio, salgado.

Quando cruzei o limiar, pro escuro úmido além da parede, senti o que restava do velho eu se desfazendo. A fome permaneceu — a fome eterna, paciente.

Lá no laboratório, um novo banquinho esperava. Um novo tablet. Logo, outro candidato ia assinar o formulário.

Eu estou deitado nessa bandeja esperando por eles.
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