Eu faço trilha nessas montanhas desde moleque, quase sempre sozinho, nada muito louco, só pra sumir do mundo por uns dias. Em julho passado, eu peguei uma rota circular lá nas North Cascades que praticamente ninguém faz mais. Começa numa estrada de extração de madeira antiga, depois é só mato fechado subindo a crista. Sem marcação, sem gente, só eu e os insetos.
No segundo dia eu tava me sentindo bem. Montei acampamento cedo perto de um riachinho, comi uma merda de chili desidratado e resolvi subir um pouco o morro antes de escurecer pra ver como era a vista do próximo platô. O sol tava baixando, tudo dourado e silencioso. Foi aí que eu vi o cara.
Ele tava a uns cem metros de distância, num valezinho entre as árvores. Pelado que só, alto e magrelo, pele bem branca. No começo pensei que ele tinha se separado do grupo ou perdido a roupa, hipotermia começando, sabe como a cabeça vai logo pro lado prático. Abri a boca pra gritar “Ei, tá tudo bem?”, mas as palavras morreram na garganta. O cara tava dando cambalhotas pra trás.
Não era tipo corredor fazendo acrobacia pra se exibir. Era só parado ali, se curvando pra trás bem devagar, mãos tocando o chão atrás dele, depois jogando as pernas por cima e caindo de pé de novo. Perfeito toda vez. Sem impulso, sem salto. Cambalhota. Pouso. Pausa de meio segundo. Cambalhota de novo.
Eu fiquei lá feito um idiota vendo ele repetir isso umas dez, doze vezes. Mesmo movimento exato, mesmo lugar exato. Sem barulho nenhum: nem respiração ofegante, nem folha rangendo embaixo dos pés. Nada.
Finalmente me toquei e dei uns passos pra frente, tentando ver o rosto dele. Ele nunca ergueu a cabeça. Sempre olhando reto ou pro chão, como se estivesse dando cambalhota só pra si mesmo e nem soubesse que eu existia.
Em algum momento a luz mudou, as sombras alongaram, e eu percebi que tinha ficado parado ali tempo demais. Minha pele arrepiava toda. Recuei devagar, mantendo ele na vista até as árvores bloquearem, aí virei e meti o pé de volta pro acampamento. Não corri — não queria que ele ouvisse —, mas andei rápido pra caralho. Naquela noite deixei a faca do lado de fora da barraca e mal preguei o olho. Todo estalo de galho me fazia sentar de uma vez. Nada chegou perto do acampamento, porém.
Na manhã seguinte arrumei tudo correndo e desisti da rota circular. Peguei o caminho mais longo pra sair, acrescentei um dia inteiro de caminhada só pra pegar uma trilha que eu conhecia. Cheguei no carro um dia antes, dirigi direto pra casa, tomei um banho demorado. Não contei pra ninguém durante semanas. Achei que iam pensar que eu tava louco ou que tinha visto algum nudista iogue doido, sei lá.
Aí uma noite eu tava fuçando num fórum local de trilha e um cara posta uma foto borrada — mesma drenagem, mesma época do ano. Legenda só: “Que porra é essa?”
Os comentários tavam cheios de gente que tinha visto exatamente a mesma coisa. Um sujeito disse que ficou olhando vinte minutos seguidos. Outro falou que voltou no fim de semana seguinte com uma câmera melhor e o cara ainda tava lá, ainda dando cambalhota. Chegou perto o suficiente pra gritar e o cara simplesmente… sumiu. Tipo, desapareceu no segundo em que você decidia se aproximar.
Eu nunca mais voltei praquela crista. Às vezes, quando tá bem quieto à noite, eu penso nisso — como aquelas cambalhotas eram suaves, como ele nunca cansava, nunca olhava pros lados. Só dando cambalhota.
Sem parar.
Como se fosse a única coisa que ele faz. A única coisa que ele vai fazer pra sempre.

