terça-feira, 11 de novembro de 2025

Assombração Desumana

Eu morei num lugar que preenchia os requisitos de uma cidadezinha de Wisconsin: pelo menos duas igrejas, três bares e um silo de grãos. Essa cidade era mais sorteada que a maioria — tinha uma fábrica de móveis da qual você provavelmente já ouviu falar e uma indústria de processamento de frango que você provavelmente não conhece — então havia onde trabalhar depois do ensino médio, se sua ambição não te levasse pra outro lugar. Se um jovem enjoasse naquela cidade pequena e não quisesse ir a um dos três bares, sempre tinha bastante natureza por perto.

Meu plano pro dia era empacotar um sanduíche e duas garrafas de Root Beer da A&W na mochila e procurar pontas de flecha num lugar que os locais chamavam de Barnes Bluff. Barnes Bluff era o ponto mais alto do vale e dizia a lenda que a tribo local Winnebago costumava posicionar vigias lá em cima pra observar a região. Era uma caminhada curta até Barnes Bluff; ficava a uma milha depois de onde a Barnes Road acabava e virava pasto de vacas. O penhasco ficava mais ou menos a uma milha além disso. Sem trilha. Sem placas. Não havia outra estrada nem caminho pra Barnes Bluff. Soube que tava chegando quando passei pelo que um dia fora a cabana de um colonizador. A casa tinha desabado sobre si mesma décadas atrás, sobrando só a sombra das madeiras podres e das plantas invasoras. Mas o poço ainda estava lá.

O poço fora coberto por tábuas de madeira, a maior parte já apodrecida há muito tempo, sobrando só pedaços nas bordas. Tinha uns cinco pés de diâmetro, fundo e escuro. Olhar pra dentro era inquietante; as paredes eram revestidas de pedra e, ao olhar pra baixo, escurecia quase imediatamente, de modo que o fundo não era visível. Joguei uma pedra e, depois de um segundo, ouvi ela bater na água lá embaixo com um ker-thump profundo que ecoou enquanto o som subia de volta. Um frio subiu do poço — não um frescor agradável como o do ar-condicionado num dia quente, mas o frio que entra na casa quando o aquecedor pifa à noite no inverno e você ainda tem que tomar banho de manhã.

Eu estava perdido em pensamentos, imaginando quando a casa fora construída e como devia ser a área naquela época, quando um grande sapo marron me assustou ao pular debaixo de uma das tábuas podres do outro lado do poço. Ele me observou por um segundo, inclinou a cabeça e pareceu coçar o céu da boca com uma das patinhas. Depois deu um pulo pequeno pra ficar me encarando direto, a cerca de uma polegada da beirada do poço.

Ficamos nos encarando por uns sessenta segundos e, claro, me deu vontade de pegá-lo. Deixei a mochila no chão e dei a volta pra ir por trás, mas enquanto eu fazia isso ele deu outro pulo pequeno pra me encarar novamente. Beleza, pensei, esse bicho não parece querer ir a lugar nenhum, então com os olhos no sapo me adiantei um pouco mais rápido pra agarrá-lo. Só que, com a atenção nele, não reparei numa pedra solta mal presa em concreto esfarelando. Pisei nela e a pedra imediatamente descolou e caiu no poço. Achei que conseguiria pôr meu peso no chão firme, mas não rolou — então, com um resignado "ope", caí na escuridão fria do poço.

Depois de cair por um tempo que pareceu absurdo, a água me tirou o ar dos pulmões. Afundei, depois voltei à tona, ofegante e piscando. O céu era agora só um círculo pálido, do tamanho de uma bola de softball e mais distante do que eu achava que devia estar. Não havia chão sob meus pés. As paredes ao redor eram lisas, escorregadias, sem nada pra me apoiar. E assim, eu fiquei preso no poço, e ninguém sabia que eu estava ali.

Isso é ruim, ninguém sabe que eu tô aqui. Ninguém vem aqui. Como alguém saberia procurar por mim neste lugar? A primeira coisa que notei foi como minha respiração soava alta e ecoava. E como gritar era inútil. O som não ia a lugar nenhum. Fiquei boiando por um tempo que pareceu horas, chutando devagar pra me manter à tona, os braços raspando nas paredes arredondadas sempre que chegava perto demais. A ponta dos dedos apalpava a pedra, mas não achava apoio. As paredes tinham sido moldadas à mão há muito tempo, assentadas com cuidado, e agora estavam polidas pela água, pela lama e pelo tempo.

Meus olhos se acostumaram à pouca luz. Os pés procuravam algo pra firmar, mas não havia nada, só o frio das pedras escorregadias e a água. Olhei pra cima quando uma nuvem passou na frente do sol e o poço ficou visivelmente mais escuro e mais frio. Quando o céu abriu novamente e a luz voltou, notei algo que tinha deixado passar: havia arranhões nas paredes. Por toda parte e tão alto quanto eu alcançava, arranhões. Isso era um mau sinal — eu não seria o primeiro a cair ali? Seria o segundo? Um entre muitos? Quantos corpos estavam debaixo de mim naquele momento? Eu já estava com frio, mas tremei só de pensar nisso.

O tempo passou. Eu não consigo te dizer quanto. A água grudava na roupa e sugava o calor do meu corpo. Virei de costas pra boiar, cruzei os braços e fechei os olhos. Então senti algo tocar minha perna. Não era alga nem galho. Era mais lento, mais intencional. Esfregou o lado de fora da minha coxa e se afastou. Congelei. Um momento depois, uma bolha veio à superfície. Outra. O cheiro de metano bateu no ar. Era só gás de pântano subindo lá debaixo. Era só isso. Dei uma risadinha trêmula, fina e oca. Mais bolhas subiram, fazendo pequeninas ondulações quando estouravam — irritantes talvez, mas não perigosas.

Com o tempo as bolhas ficaram mais difíceis de ver, enquanto nuvens cobriam o sol e a abertura do poço parecia do tamanho de uma bola de baseball agora, estranho. Parecia uma incoerência menor perto do aprieto em que eu me encontrava. Então aconteceu: vi um redemoinho na água que não era seguido por bolhas estourando. A água era preta, eu não conseguia ver o que havia abaixo da superfície, mas algo se mexeu por baixo — não bolhas, algo como a cauda de um peixe grande. Observei com os olhos arregalados, pressionando meu corpo contra o lado oposto do poço, e então senti algo que eu não podia ver, algo frio e sólido que bateu no meu pé.

O medo do que eu não podia ver tocando-me por baixo e o medo de me afogar ou de ser puxado para o escuro frio foram demais; virei no ar e tentei arranhar a parede, não conseguia segurar nada nas superfícies lisas, o que só aumentou a frenética ânsia das minhas mãos tentando agarrar algo, qualquer coisa, sem que meu cérebro sequer pedisse. Então a água atrás de mim subiu um pouco, como se algo empurrasse de baixo. Ouvi um barulho. Um sopro. Não era meu. A água bateu nas paredes. E então eu vi: subindo devagar do centro do poço.

Primeiro apareceu o topo da cabeça, longos fios de cabelo negro grudados num couro cabeludo acinzentado. Depois um rosto, ou o que um dia fora um rosto. A pele estava encolhida, frouxa sobre os ossos. A boca pendia aberta, cheia d’água e sem nada que pudesse ser chamado de língua. Os olhos eram o pior. Brilhavam em vermelho, não forte, mas constante, e mostravam uma inteligência mortal por trás deles. Ao redor do pescoço pendia um colar de garras de urso. Amarrada à garganta, uma bolsinha preta, encharcada, caindo e gordurosa — um indício do que havia dentro. A pele dos braços parecia couro velho, as mãos torcidas em garras que se esticavam devagar na minha direção, provocando, como se soubessem que eu não tinha pra onde correr.

Eu não conseguia processar o que acontecia, não naquele pasto comum, cercado por aquelas árvores normais, naquela colina parecida com milhares de outras. Meu cérebro começou a falhar e minha garganta soltou um som que a linguagem não comportava — o terror primal da presa pega, vulnerável, numa armadilha sem saída. Senti um zumbido nos ouvidos e notei que estava escurecendo, e então ouvi lá de cima: “Ei, tudo bem aí embaixo?” A normalidade daquela pergunta, comparada ao que eu via bem ao meu lado, me deixou zonzo. Olhei pra cima e vi um homem com uns cinquenta e poucos anos olhando pra dentro do poço: camisa xadrez, jardineira, um boné verde da John Deere e óculos grossos, curioso e preocupado. “Você me escuta? Tá bem?” ele perguntou de novo. Onde houvera o horror agora só havia uma ressaca d’água; eu ainda sentia aquilo, mas nada mais — eu estava sozinho.

Aquele homem, Haines era o nome dele, um sujeito do povo, trabalhador e bom, estava passando com o gado pela região, viu minha mochila junto ao poço e foi ver do que se tratava. Ele me tirou de lá e me levou pro hospital quando percebeu que eu não conseguia falar. Disse que eu tive sorte porque estava nublando, e ele não queria mover a manada na tempestade, então resolveu adiantar o serviço.

Anos depois, eu estava de passagem pela região em uma viagem de negócios no começo dos anos 2000 e vi um evento cultural Ho-Chunk (o nome mais apropriado pros Winnebago), então fui. O evento rolava no pátio da feira, com música e dança, vendedores locais e um estande com o selo da Nação Ho-Chunk. Fiquei um tempo parado lá no fundo, até que um homem notou que eu estava olhando e acenou pra eu me aproximar. Parecia ter uns sessenta anos. Rosto vincado. Olhos que mediam as coisas antes de falar. Contei a história. Ele ouviu com atenção. Quando terminei, não sorriu nem riu. Só perguntou: “Onde ficava o poço?” Descrevi. Ele assentiu. “Não temos histórias assim. Isso não é nosso.” Eu pisquei. “Mas os Ho-Chunk estiveram lá, certo?” “Estivemos. E antes de nós, outros. Os construtores de montes, os povos Mississipianos. Antes deles, não sabemos. Talvez alguém mais.” Ele olhou por cima do meu ombro, para a linha de árvores distante. “Essa terra é mais velha que a memória. Mais velha que nós.” Então ele se inclinou. “Alguns lugares não são assombrados pelos nossos mortos. Alguns são ocupados por algo mais antigo.”

Soube que o Haines morreu de AVC alguns anos atrás, mas que colocou uma tampa de metal no poço pra evitar mais acidentes. Mas o poço ainda está lá, intacto, ao lado de uma cidadezinha com duas grandes fábricas, no pé da colina mais alta da área. Estou escrevendo tudo isso porque, há duas noites, eu estava sentado no meu pátio e notei uma mancha sem forma no tijolo ao lado do meu pé. Quando me inclinei pra ver o que era, vi que era um sapo grande e, enquanto eu o encarava, ele deu uma espécie de meio pulo pra me encarar diretamente. Usou a patinha pra coçar o céu da boca, que estava escancarada. Não sei o que fazer — não tenho dormido desde então.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Sempre tive medo do oceano. Agora eu sei por quê...

Sempre tive medo do oceano.

Não é algo que me paralise — consegui ignorar isso durante a maior parte da minha vida. Às vezes o assunto aparece quando falam de fobias, ou quando um amigo ou um namorado sugere ir à praia. Tive sorte de crescer num condado sem litoral, longe da costa.

Não é como a experiência de um aracnofóbico diante de um monstro de muitas pernas, congelado e suando de pavor. É mais uma proximidade com o mar que provoca um tipo de... inquietação. Uma sensação de que alguma coisa está errada, enraizada logo abaixo das minhas costelas como um buraco. Isso me deixa um pouco nervoso. Em alerta. Aproximar-se da arrebentação me enche de um pressentimento pesado, como se entrar na água fosse o meu fim.

Envolvendo isso há também a menor sensação de que falta algo. Que entrar na água, deixar as ondas me envolverem e me arrastarem para baixo com mãos verdes, é a única forma de eu realmente me sentir inteiro. A combinação dessas sensações causou muita confusão na minha vida — a contradição de tudo aquilo.

Meus pais aceitavam em silêncio meu comportamento estranho perto do mar quando eu era criança. Nunca tivemos muito dinheiro, e férias na praia não eram algo rotineiro. Talvez dois dias na costa durante o verão: meus irmãos felizes na água e na areia, correndo como caranguejinhos, enquanto eu ficava com minha mãe.

Foi numa dessas férias, quando eu tinha quinze anos, que ela me deu o primeiro aviso.

“Você sente isso, não sente?”

Ela me perguntou com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Algo entre tristeza e medo. Não era o tipo de expressão que se quer ver na mãe, e isso me preocupou.

“O quê?”

“Você consegue ouvir o mar falando com você.”

Olhei para o oceano. A cabeça escura e arredondada de uma foca aparecia à distância, gaivotas mergulhando sobre ela.

Ela também olhava, mas o olhar estava voltado para meu pai e meus irmãos, brincando na água rasa. “Minha irmã também sentia. Por isso eu sei. Você fica com o mesmo olhar perto da água que ela tinha.” Ela virou para mim, pegou meus ombros nas mãos e me virou de frente para ela. “Faça o que fizer, não vá para a água. Eu não posso perder mais ninguém.”

Naquela época fiquei confuso e um pouco irritado por ela não explicar melhor. Acabei esquecendo. Deixei aquilo se apagar, como as memórias de infância costumam desaparecer.

Nunca conheci minha tia — ela morreu antes de eu nascer. Depois de eu ter contado a conversa com minha mãe, você pode esperar que ela tenha se afogado — porém, ela simplesmente adoeceu. Nunca me contaram qual doença exatamente, mas sei que ela definhou devagar, apagando-se até a morte.

Acho que a perda da irmã mais velha mudou minha mãe profundamente. Meu pai nos contou histórias de como ela era quando se conheceram: feliz, vibrante, cheia de vida. Quando eu, o terceiro filho, nasci, ela era pouco mais que uma casca de mãe. Agia como mãe — nos consolava, nos alimentava, nos ensinava o que precisávamos para viver — mas se você observasse de verdade dava para ver que não havia nada ali. Olhos vazios por trás de um sorriso brilhante. Quando eu era mais novo, sem ter conhecido a perda, eu não entendia. Hoje sinto certa compaixão por ela.

Esse vazio foi afastando meus irmãos. Na época da morte dela, alguns anos depois da morte do meu pai, eu já era quem morava com ela para cuidar dela. Coube a mim lidar com a casa e com os assuntos dela.

Perder um dos pais é uma coisa estranha. Nunca dá para estar preparado. E quando tudo o que você quer é chorar, vem junto um monte de responsabilidades terríveis que passam a pesar nos seus ombros. Dar a notícia; organizar um funeral; lidar com décadas de coisas acumuladas, uma vida bem vivida reduzida a caixas de livros, brinquedos de infância, roupas e papéis soltos. Joias, enfeites, centenas de coisinhas cujo valor sentimental eu jamais poderei conhecer — coisas que significavam o mundo para ela, agora empilhadas para vender, jogar fora ou repassar. Há uma insensibilidade nisso, vasculhar as coisas da vida dela procurando valor. Algo tão inerentemente emocional reduzido a método.

Como em quase todas as casas, o sótão estava cheio de caixas empoeiradas. Uma delas, quando eu a puxei, tinha o nome da minha tia escrito. A primeira prova física da existência dela que eu via. A caixa era pesada e desajeitada, escorregando das minhas mãos; o papelão deformado pelo tempo e coberto por uma camada espessa e pegajosa de pó.

Do que caiu da caixa parecia ser um casaco de pele. Era escorregadio, quase como seda. Quente ao toque e muito mais fino que qualquer pele que eu já tinha visto. O padrão me era estranho: um cinza manchado com reflexos prateados espalhados como líquens num galho morto. O casaco fedia a sal antigo e algas, como uma piscina de maré num dia quente.

Com alguma apreensão percebi que devia ser pele de foca.

Nunca tinha visto um casaco de pele de foca antes. Por um instante pensei se a posse disso seria sequer legal. Por que minha mãe guardou aquilo? De todas as coisas, por que justamente esse casaco? Ela devia ter passado pelo próprio processo — a sua metodologia — quando a irmã querida morreu. E, de tudo, escolheu manter esse casaco. E não só manter, mas trancá-lo. O pó estava intacto, claramente sem mexidas por décadas. Aquele casaco não tinha sido usado; não tinha sido exibido; nem cuidado, pelo visto. Como se ela não tivesse realmente desejado ficar com aquilo, mas não conseguisse se livrar.

Enquanto passava a pele entre os dedos, um pedaço de papel de carta caiu das dobras. Reconhecendo a caligrafia limpa e afiada da minha mãe, peguei-o.

Querida Maude,

O nome da minha tia. Será que essa carta foi escrita antes ou depois da morte dela? Continuei lendo.

Sinto muito. Sinto tanto. Tive tanto medo de te perder que fiz algo terrível, imperdoável, horrível. Você nunca deveria ter me contado seu segredo. Você deveria saber que eu não acreditaria. Sinto muito por ter mandado você internar involuntariamente. Sinto que não a prenderam por mais tempo. Sinto muito por ter roubado seu casaco. Se eu não tivesse, talvez você ainda estivesse aqui.

Como eu poderia saber? Quem poderia saber? Quem acreditaria em você? Eu agi como qualquer pessoa sã faria, Maude. Por que você não guardou isso pra si?

Achei que você estivesse em abstinência. Eu não podia saber que isso te mataria. Água salgada corria nas suas veias, Maude, e eu não acreditei em você quando disse.

Eu ia te perder de qualquer jeito. Ou para isso, ou para a atração do oceano infinito. Lamento minha mão nisso, mas acredito que foi o melhor. Talvez eu nunca seja perdoada aos olhos de Deus, nem aos meus. Mas fiz o que fiz pelo bem dos meus filhos. E se eles fossem como você? E se você os transformasse como transformou a si mesma? Não posso deixar que aconteça. Nenhuma criança minha será marcada como você foi. Nenhuma criança minha será uma criatura tão amaldiçoada.

Sei que você dizia que era uma bênção. Mas isso é algo antinatural. Quem era você para mudar as leis do mundo? A ordem das coisas? Mudar de forma como você fazia não é nada menos do que obra do diabo. Eu tentei consertar você, de verdade tentei. E quando não consegui, tentei fazer com que os profissionais consertassem. Mas você estava em pleno juízo, não estava? Isso só piora. Você sabia exatamente o que fazia e o quão errado era. Mas você virou as costas para tudo o que é certo, santo e verdadeiro e colocou toda sua fé naquele casaco.

Espero que você esteja mais feliz onde estiver. Espero que esteja mais saudável. Espero que tenha sido perdoada pelo que fez, assim como rezo para ser perdoada quando chegar a minha vez.

Com todo o meu amor, sempre.

O papel caiu das minhas mãos.

Era uma loucura, claro. Os devaneios de uma mulher dilacerada pelo luto. Será que minha mãe realmente acreditou que matara a irmã ao tirar aquele casaco? Aquilo era absurdo.

Mas, quando olhei de novo para o casaco, ele parecia brilhar na luz fraca. Apesar da caixa em que estava, estava impecável, tão limpo e novo como se tivesse acabado de surgir.

A conversa que eu tivera com minha mãe naquela praia tantos anos antes voltou à mente.

“Minha irmã também sentia.”

O casaco parecia do meu tamanho. A vontade esmagadora de vesti-lo me derrubou como uma onda numa praia sem resistência. Mas eu sentia nos ossos que aquele não era o lugar para tal coisa.

Dirigi três horas até o oceano. A viagem é uma névoa para mim; as estradas vazias naquela hora da noite. Descalço na areia, enrolei o casaco sobre os ombros.

Quando acordei de novo, era manhã. Lembrei pouco da noite anterior, mas meu cabelo estava empapado de sal, e meu coração leve com uma sensação de liberdade. Trechos de memória dançavam na minha cabeça — nadando na água clara, mais longamente e mais rápido do que qualquer humano poderia. Rolando e brincando com as focas, que me aceitavam como um dos seus. Sentindo-me mais em casa do que jamais me sentira.

Entendo agora por que minha mãe tinha tanto medo de perder a irmã, e de ver os filhos seguirem o mesmo caminho, caso descobrissem sobre isso.

Agora que senti essa liberdade, não sei se consigo voltar.

Levado para Cima

Eu desejava do fundo do coração poder ver as folhas caindo, mas as paredes de pedra bloqueavam a luz de fora.

O bunker foi lotado quase que imediatamente depois que a catástrofe aconteceu naquela fatídica manhãzinha. O povo entrou em pânico, alguns sem direção nenhuma. Eu diria que é seguro assumir que a maior parte da população da Terra foi arrancada do chão na hora, pelos ventos de quase mil quilômetros por hora. As árvores de outono foram desenraizadas. Casas explodiram em pedaços soltos de drywall e estuque. Arranha-céus não tombaram — simplesmente saíram voando do chão. Pelo menos um pouco de entulho, segundo as transmissões, conseguiu até alcançar a velocidade de escape, e os terremotos que estouraram a escala Richter não ajudaram. O mundo que se preparava pro inverno que vinha pela frente foi obliterado.

As pessoas viraram sacos de carne voadores sem rumo. Algumas se espatifaram contra paredes bem firmes, atravessaram ruas ou foram moídas nos restos de uma cerca de ferro. Os que tiveram sorte de sobreviver já estavam debaixo da terra ou debaixo d’água. Com o tempo, os restos da lei local e do exército nos tiraram dos esconderijos. Lembro de ver crianças sendo vendadas ao entrar pra não terem que ver os restos dos vizinhos cobertos pelas folhas marrons. Eu não tive essa sorte. Tudo que consegui foi guardar no bolso uma folha rasgada de alguma árvore caída. Talvez ela viesse de onde eu estava, ou talvez tivesse vindo de vários quilômetros de distância. Tanto faz.

O rádio virou o centro das noites de todo mundo. Dentro dos quartos apertados, ele ficava em cima de uma mesinha no meio, ligado a uma antena tosca em algum lugar lá em cima. Conseguimos sintonizar uma transmissão de notícias pra atualizações, mas ouvir cada uma delas ficava mais e mais pesado, e tenho certeza de que eu não era o único. Quando deixávamos ligado durante as noites sem dormir, eu via os ombros do meu vizinho de beliche subindo e descendo debaixo do cobertor fino enquanto ele fungava. Às vezes eu me pegava na mesma, encarando a folha que consegui pegar. A base dela subia até um topo fragmentado, as veias se esticando, sem conseguir sustentar nada.

Uma noite, eu tinha conseguido me ajeitar o suficiente pra quase cair no sono, mas o rádio chamou minha atenção. Ficou mais e mais claro com o tempo, tirando qualquer chance de dormir. Derrotado, desci a escada do beliche até a mesinha do centro. Ninguém parecia notar meus movimentos.

Embora tivesse clareado, a voz ainda chegava mal, mas era melhor que a maioria das noites de chiado incoerente do vento correndo. Girei o botão com cuidado.

“…mapeamento de toda a catástrofe… para o nosso entendi…”

O chiado cortou a fala dele. Parecia um pesquisador lá em cima. As palavras eram formais, ditas em voz alta tentando vencer o vento. Girei o botão de novo.

“…com nossos pontos de dados das equipes perdidas no marco zero, conseguimos mapear o formato da zona de impa… os pontos no mapa formam a imagem de um…”

Uma o quê? Tentei sintonizar melhor, mas o chiado não sumia. Depois de um tempo, o sinal clareou de novo.

“…asualties chegam aos milhares!”

“Merda!”

Ele já tinha passado adiante, e ouvindo mais, não explicou o que era aquilo. Afundei na cadeira rangente com os braços cruzados. O mundo acabou e a gente nem sabia o que causou.

“…torres de satélite recém-construídas voltaram com informações sobre o nascer e o pôr do sol esperados da Terra por área…”

Como isso ia ajudar? Virei na cadeira pra voltar pro beliche, mas a voz do pesquisador continuou, me parando.

“…nascer e pôr do sol não fazem mais parte da nossa transmissão porque os dados de telemetria mostram que a rotação axial parou completamente…”

Meu coração deu um pulo. A Terra parou de girar? Alguém mais tinha ouvido isso? Por que não descobriram antes? Isso com certeza tinha a ver com a tal zona de impacto, né? Era um meteoro? Outro planeta? A Lua?

“O sol não vai se m… da posição atual no céu! Fiquem dentro de casa nes… ti…”

O rádio perdeu o sinal de vez. Sentei de novo na cadeira, atônito. O teto pingava no meu rosto enquanto eu olhava pra cima. Eu queria mais que tudo voltar pra casa e ver as cores das folhas mudando. Queria voltar. Quando isso tudo acabasse, eu poderia voltar. Talvez quando nos dessem uma boa notícia, todo mundo pudesse voltar. Um frenesi subiu do meu estômago pros braços. Eu precisava saber mais. Estiquei a mão pro botão e girei rápido. O dial correu entre canais, parando num onde peguei sinal.

Não era o mesmo canal de antes. Esse estava muito mais claro. Uma voz grave e confiante falou pelo rádio, o chiado sumindo.

“…isso foi predito por gerações. Nossa hora chegou. Todos os fiéis a quem falo, não fraquejem, pois os medrosos são os pecadores. O tufão furioso da ira de Deus vai cessar. Não se enganem, pois Deus destruiu Sodoma e Gomorra pelos seus pecados, e hoje vemos a mão Dele. Esta estação, a estação da queda, tem esse nome por um motivo. Não estamos caídos? Fomos devolvidos ao pó da Terra, como Adão, e vamos nos erguer com um conhecimento mais alto e mais santo.”

“Que porra é essa?”, sussurrei.

“Precisamos ter fé, pois a mão de Deus está sobre nós! Ele veio buscar os fiéis para ficarem à Sua direita! A mão de Deus está sobre nós!”

Girei o dial mais uma vez; precisava do pesquisador de volta, não desse fanático. Mas esse era o único canal que pegava alguma coisa. Voltei pro chiado gritante do canal do pesquisador, a voz dele agora afogada no ruído.

“…zona de impacto… aproximadamente três milhas da estação de transmissão… localizada em… torre de rádio foi danifica… repito, estamos localizados em Dallas, Texas…”

Dallas? A gente tava perto. Senti a folha no bolso, lembrando das palavras do fanático. Eu tinha que ir ver. Se era manhã quando entramos, seria manhã quando eu saísse.

As portas do bunker rasparam no chão pavimentado e rachado, enganchando num pedaço de asfalto levantado. Me espremi entre as placas de metal.

O ar lá fora estava completamente parado, e o céu da manhã confirmou minha teoria. Tudo igual a quando entrei. Nada habitava o ar, nem a menor partícula de poeira. Olhei pro chão. Nem as pilhas de folhas se mexiam. Enquanto meus olhos vagavam, tive o lembrete infeliz de um cadáver completamente destroçado à minha esquerda. Quem quer que tivesse sido, já se foi há um tempo, comprovado pela cor mais escura do sangue. Não parecia estar com dor, porém. Parecia mais… derrotado — finalmente permitido descansar da catástrofe. O cabelo preto do cadáver não se mexia. Fiquei ali um instante antes de voltar a atenção pro ar ao meu redor mais uma vez.

Se o vento parou, ou melhor, se o ar ficou completamente imóvel, por que o sinal do pesquisador era tão ruim? Virei pra subir a colina onde o bunker foi cavado. Ao chegar no topo, me deparei com um pedaço de antena retorcida e quebrada. Toda a estrutura da torre de rádio tinha desabado sobre si mesma com o vento extremo. Apesar do cadáver da minha linha de vida com o mundo exterior estar aos meus pés, minha atenção virou bruscamente pro horizonte com o novo ponto de vista.

O sol ardente pairava logo acima do horizonte a leste, iluminando perfeitamente o contorno da Terra externa, mas com a forma humana do objeto de impacto. Uma mão gigantesca que esticava os dedos até cada extremidade do horizonte agarrava o solo com força incrível. Não se mexia, assim como o rescaldo da catástrofe que causou. Segui o contorno da ponta do indicador, subindo pelo dorso da mão e pelo braço que se esticava pro céu, tudo coberto por camadas cada vez mais densas de atmosfera.

Fiquei ali, pregado no lugar. Tirei a folha do bolso, dei uma última olhada nela antes de deixar cair. Não balançou nem rodopiou no ar. Não, caiu como peso morto. Direto pra baixo, na grama moribunda.

Meu crime de carnaval me condenou a rimar

Parece que tô fingindo, né? Por um crime tão pequeno assim. Aquele carnaval me mudou pra sempre, e agora só consigo rimar. Queria nunca ter ido naquele dia, que tivesse ficado em casa, quietinho. Mas agora que o meu destino tá selado, escrevo nesse tom novo.

O carnaval tava rolando na minha cidade, achei que ia ser divertido. Uns shows legais, comida porcaria aos montes. Sentei lá dentro da tenda e vi tudo acontecer. Paguei meus vinte dólares e não saí correndo.

Quando acabou, a galera foi saindo, rindo alto. O mestre de cerimônias tirou o chapéu e deu aquele olhar ensaiado. Agradeceu todo mundo por ter vindo, depois sumiu atrás da cortina. A tenda pareceu menor sem ele, mais escura, meio doente, pálida.

Fiquei ali onde a cortina se abria, só pra dar uma espiada nos bastidores. Só lona, cordas e formas sombrias balançando devagar. Uma voz atrás de mim sussurrou: “Senhor, a saída é à direita.” Fiz que sim com a cabeça, mas meus pés me traíram e me levaram pra noite.

Do lado de fora das tendas, o ar tava parado, os brinquedos não giravam mais. Uma névoa rastejou pelo gramado e escondeu o sol que tava se pondo. As barraquinhas de jogos pareciam dentes tortos, os prêmios rasgados e cinzentos. Um teatro de marionetes ainda cochichava falas, mas ninguém tava assistindo.

As marionetes se mexiam nas cordas emboladas, bocas pintadas escancaradas. Elas se curvavam diante de uma forma sombria que esperava perto do bar. Achei que era alguém, um funcionário esquecido. Mas quando virou, juro que vi: não tinha olhos humanos.

A forma preta subiu como fumaça, o rosto escuro como a noite. Só dois olhos furando o vazio, e um sorriso brilhante. Aqueles olhos cravaram na minha alma e fizeram meu coração desabar. Tudo que eu queria dali pra frente era estar bem longe.

Ele falou, ou talvez cantou, um zumbido grave e fundo. As palavras deslizaram pela borda da minha razão e se enterraram como sono. Disse meu nome em tons quebrados, depois riu, como se fosse piada. E das trevas, o mestre de cerimônias surgiu de colete vermelho.

“Você viu a parte do nosso show que não é pra humanos. Deu um passo além da cortina. E não vai voltar atrás.” Antes que eu me virasse, as cordas foram jogadas, as bonecas começaram a subir. Rostos sorridentes sussurrando baixo, me enrolaram na linha.

Me arrastaram pra uma tenda mais longe e me prenderam num carrinho. Ele ficava num trilho, de onde eu ia partir.

Gritei, berrei, me soltem, por favor! Mas meus gritos eles ignoraram. O mestre de cerimônias apareceu e soltou o discurso ensaiado.

“Você viu o que não devia. Não dá pra te deixar ir embora. Mas o quão pesado vai ser o castigo, só você vai descobrir. Vai jogar um jogo, talvez dois ou mais. Seu sucesso em cada um decide o que te espera. Então vem, o primeiro já tá chegando, hora de ver onde seu futuro vai parar.”

O carrinho disparou na escuridão, chiando e parando devagar. O holofote iluminou meu trem improvisado, revelando a tarefa, o primeiro jogo de habilidade. Pra piorar, uma multidão de seres apareceu, assistindo à minha maldição.

Na minha frente, bem alinhadas, dezenas de cabeças flutuando em potes. Cada uma acordada num líquido verde, me olhando de longe. Os olhos, distorcidos pelo vidro curvo, mostravam pena que eu sentia. Como se, se eu errasse, logo eu fosse o próximo. “Você tem três bolas pra jogar. Acerta uma dentro de um pote. É a sua vida que tá em jogo se não der o par.”

Mão tremendo, peguei a primeira. Fiz uma prece silenciosa. Levantei o braço e joguei, a bola voou pelo ar. Caiu na borda grossa de um pote e quicou pro escuro. Mais duas chances pra salvar minha vida. Tinha que acertar.

As caras nos potes viraram, as bocas começaram a zumbir. Um coral oco de bolhas que deixou meus dedos dormentes. Joguei com a mão trêmula, desviou, curvou torto. Bateu na tampa, rolou pelo lado e sumiu da minha vista. O mestre de cerimônias abriu os braços e disse: “Uma chance, lá vai.” A bola final parecia mais pesada, como se soubesse do meu crime. Sussurrei: “Deus, faz cair” e joguei pela última vez.

Ela arqueou no ar parado, ficou suspensa um segundo. Depois caiu dentro de um pote esperando. A multidão pulou de pé. Um grito ecoou, metade alegria, metade dor, pelo breu. As cabeças piscaram, afundaram devagar, cada uma sumindo no túmulo.

O mestre de cerimônias tirou o chapéu e se curvou com orgulho ensaiado. “Parabéns”, disse, “você vive por enquanto. Mas tem mais que tentaram.” Estalou a bengala, o carrinho deu um solavanco e sumiu pelo trilho. As risadas me seguiram na escuridão, me desafiando a não olhar pra trás.

“Você ganhou a vida, deve tá feliz, mas agora vamos ver se vai sair daqui com a sanidade.”

O jogo seguinte apareceu, meu ânimo caiu. Era aquele clássico do martelo e do sino.

“Se quiser manter a cabeça no lugar, escuta agora. Isso eu não repito. Pra cada centímetro que faltar, sua sanidade vai junto. Bate com força e não vacila, só tem uma tentativa. Pega o martelo e soca naquele ponto!”

Peguei o martelo, senti um choque. Como se a ferramenta nas minhas mãos estivesse me avaliando em silêncio. Minha mente ficou enevoada, controlei, e bati com tudo. Mantive o foco afiado na luz subindo.

Perdi o sino por um centímetro, mas achei que tinha ido bem. Mas senti vagamente a mudança, minha lucidez caiu. Só um pouquinho, não dá pra reclamar. Com um suspiro, segui pro jogo final.

“Você se saiu bem, te digo. O pior já passou. Mas pelo seu grave deslize, vai ter consequência. Ainda tá vivo, mente sã, pode achar que vai contar nosso segredo pro mundo e nos ferrar todos. Então algo temos que fazer, e você escolhe qual. Gira a roda ali na frente. Vamos acabar sem problema.”

A roda de madeira na minha frente, pintada e iluminada, cada espaço com uma maldição, uma bebida que eu ia ter que tomar. Olhei as opções e tremi de medo. Perderia a língua, os ouvidos, ou quem sabe a visão?

As escolhas eram horríveis, mas não tinha jeito. Pus a mão na roda e girei até rodar. Vocês sabem o que aconteceu depois, qual foi o meu destino. Mas comparado com as opções da roda, esse me aliviou.

“Você sobreviveu ao teste, com quase nada. Mas ninguém vai acreditar em você falando assim. Então se acha sortudo que só rima agora. Mas mais uma coisa: você trabalha aqui. Seu primeiro turno começa às nove.”

Então se encontrar o carnaval, fuja a todo custo. Quem vê o ato final nunca mais conta os perdidos.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon