terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Matador de Vampiros

Ele era só um cara. Um cara comum. Você provavelmente nem notaria se cruzasse com ele na rua.

Mas quando eu olhava pra ele, via um anjo. Uma fruta doce que Deus fez só pra mim. Ele tinha aquele tipo de calor que fazia todo mundo se sentir confortável e seguro só de entrar no ambiente. Ser hipnotizado por aqueles olhos azuis macios era tipo flutuar numa piscina quentinha cheia de lontras fofinhas enquanto te servem bolo e sorvete no seu aniversário. Cada pessoa se sentia o centro do universo dele quando ele tava por perto, e parecia tão fácil pra ele ser adorado.

Por isso eu mereço o que aconteceu comigo depois que eu matei ele.

Eu simplesmente não consegui me segurar. Essa raça sempre foi a minha favorita. Toda aquela energia altruísta que o mundo não valoriza deixa a pessoa desesperada pra alguém notar, morrendo de vontade de ser abraçada, implorando por um momento de paz. O sangue praticamente desce sozinho pela sua garganta quando você morde, e aí irradia uma sensação profunda de conforto e calor por cada artéria e sinapse do seu corpo durante dias enquanto você digere todo aquele bem e amor que todo mundo menosprezava.

Ele não viu chegar. Nunca veem. Na real, ele devia ter me agradecido: dei muito mais tempo pra ele do que pra qualquer outro. Ele me entretinha, era engraçado, fofo, e eu simplesmente perdi a noção do tempo. Que porra é um ano ou três quando você já não conta mais os séculos? Era gostoso demais ficar perto dele, tão cheio daquele calor delícia que eu sentia pulsar só de estar do lado, e o toque aveludado dele fazia minha pele arrepiar com uma eletricidade do caralho.

Olhando pra trás, não sei por que eu não deixei isso ser suficiente. Se eu conseguia viver assim com ele, por que caralhos eu precisei querer mais? Eu nem tava com fome. Eu tava feliz. Acho que ele também tava. Não precisava ter terminado assim.

Era nosso aniversário de namoro e a gente tinha ido no restaurante que ele me levou no primeiro encontro. Ver o pôr do sol refletido nos olhos dele enchia tanto a minha alma que parecia que eu tava transbordando, e eu simplesmente não aguentei a ideia de outra pessoa ver aqueles olhos lindos ou desperdiçar o calor da presença dele. Só a risada dele já levantava qualquer festa, e de repente eu senti náusea só de pensar que outra pessoa pudesse sentir o que eu sentia. Nenhum deles ia valorizar a essência dele do jeito que eu valorizo.

Foi tipo instinto. Uma outra fera saiu pra caçar. Eu vi a forma que a garçonete ajeitou o cabelo atrás da orelha e sorriu pra ele quando pediu nossas bebidas. A vadia chorou, gritou e tentou desesperadamente me enganar quando eu peguei ela no beco na hora do intervalo. “Eu tô só fazendo meu trabalho! Homem dá gorjeta melhor se você flerta!”. Puta não me enganava. Eu ainda sentia o calor dele grudado na mente dela.

Eu tinha passado tanto tempo focada só nele que devia ter esquecido como era sangue bom de verdade, porque não consegui me parar enquanto eu me empanturrava daquele pescoço com gosto de mentol. Ou talvez eu só estivesse desesperada pra sentir uma migalinha patética do calor dele nela…

Mas ela só me deixou vazia…

Toda aquela energia dourada que eu tava transbordando sumiu e eu tava lá, coberta de sangue, sozinha no beco atrás de um restaurante caro, segurando o corpo mole do que um dia foi uma garçonete. Nem senti o estalo quando o pescoço dela quebrou. Não era tão bruta com comida desde criança. Que vergonha. Levantei uma tampa de bueiro e joguei ela no esgoto com um barulho molhado. Problema de outro agora.

Não podia deixar ele me ver assim, então mandei mensagem dizendo que passei mal e peguei um táxi pra casa. O motorista perguntou se a festa à fantasia tinha sido boa e eu só balancei a cabeça quietinha. Ainda bem que nem todo mundo sente cheiro de sangue, porque o último abate ainda tava me dando náusea e eu não tava afim de papo. Só queria chegar em casa e ficar de boa.

Tirei o vestido grudento e joguei na lareira, depois entrei no chuveiro. Fiquei hipnotizada vendo os riscos vermelho-vivo do que sobrou da garçonete rodopiarem pelo ralo. Parecia estranho, como se faltasse um pedaço de mim. Aumentei a temperatura da água, mas continuava com frio. Parecia que eu ainda tava com saudade de casa mesmo estando no meu próprio chuveiro quente do caralho.

Desde quando alimentar dá nojo? Me forcei a vomitar a garçonete inteira de medo que ela tivesse câncer no sangue. Sinceramente nem acho que isso me machucaria, mas eu precisava tentar alguma coisa. Por que ela me deixou tão vazia? Ela nem valia toda essa angústia. Mesmo depois de lavar tudo ralo abaixo, eu ainda me sentia vazia.

Me arrastei pra cama, puxei o cobertor por cima da cabeça e… chorei. Não sabia se era de verdade ou se eu só tava imitando algo que vi humano fazer até não conseguir mais parar. Me contorcendo e vomitando, me encolhi e chorei rios por o que pareceram séculos até que ouvi a fechadura da porta da frente abrir e o calor voltou a inundar a casa.

As mãos dele ainda estavam geladas do ar de inverno, mas o toque gentil dele parecia um bote salva-vidas no meio da tempestade. Puxei ele pra cima de mim, ainda molhada das lágrimas e do chuveiro, e apertei ele nos meus braços mais forte do que ele provavelmente imaginava que eu era capaz. Ele olhou pra mim com aqueles olhos cheios de empatia e soltou um “aconteceu alguma coisa?” enquanto eu espremia o ar dos pulmõezinhos dele.

Afrouxei um pouco e empurrei a cabeça dele pro meu peito. “Não”, falei docinho enquanto acariciava, “só passei mal, mas quando saí senti sua falta. Fiquei mal por te deixar lá.”

“Que pena que você passou tão mal. A gente tava animado pra hoje.” Ele deu um beijinho suave na minha clavícula e eu beijei a testa dele e cheirei o cabelo. “Que tal a gente remarcar pra semana que vem quando você estiver melhor?” Eu assenti com os lábios ainda grudados na cabeça dele e dei um suspiro fundo enquanto sentia a tensão do meu corpo se dissolver.

“Você tá sentindo algum cheiro?” ele perguntou. Meus olhos se arregalaram. Terror. Aquele frio, aquele nojo. “Tipo moeda molhada e… mentol?”

Eu não lembro o que aconteceu depois, só lembro de me sentir sozinha e com saudade de casa na minha cama, segurando desesperadamente as pálpebras abertas de um corpo mole pra ver mais uma vez aqueles olhos que me enchiam de felicidade. Ele deve ter visto o choque no meu rosto quando eu percebi o que tinha feito, porque o rosto ensanguentado dele se contorceu numa olhar de compaixão olhando pra mim enquanto soltava um último suspiro molhado e sussurrava “Te vejo… logo…”

Ele não fazia ideia do que tava falando. Não podia fazer. Não tinha como ele saber o quão especial ele era. Gerações sendo presa tinham virado o jogo de um jeito que nenhum de nós dois esperava.

Não era pra ter sido assim. Tudo errado. Eu bebi a essência dourada desse homem. Eu era pra estar radiante agora. Transbordando, porra! Não lembro o momento que engoli ele, mas ainda sentia o gosto puro dele nos meus lábios e eu só… me sentia… VAZIA…

Ele ainda tava aqui. Cada pedacinho dele ainda tava nesse quarto, mas ele tinha ido embora e toda cor tinha sido sugada do mundo junto com ele.

Em algum momento eu levantei e carreguei ele pro banheiro. Nunca tinha me incomodado com aquela sensação esquisita de cadáver, mas não podia deixar ele daquele jeito. Lavei o sangue dele, embrulhei no cobertor e coloquei na cama. Queria que ele parecesse em paz, mas não conseguia fazer aquela cara dele fazer o que fazia quando encostava a cabeça no meu peito e dormia. Agora ele só parecia um boneco, um casco que eu vesti com as roupas dele e coloquei na cama dele.

Chorei pela segunda vez na minha vida infinita enquanto via nossa casa queimar. Inúmeros caras que engoli desse jeito e nunca tinha ficado pra essa parte; nunca senti necessidade de me despedir. Fiquei lá no frio vendo os humanos lidarem com aquilo até nossa casa virar só um monte de lembranças e sangue fumegante.

Não tentei me alimentar de novo por um tempão. Só de pensar dava nojo até a fome ficar insuportável e eu não conseguir pensar em outra coisa além da necessidade desesperada de consumir o calor de outra pessoa. É Dia dos Namorados e eu tô vendo um casal ficar noivo na praia de cima do penhasco. Minha barriga ronca e eu consigo imaginar a felicidade nos olhos dela e como ele colocou aquilo lá, mas quando desço até lá, a cena não é nem um pouco o que eu imaginei… Ela tá grávida e ele fede a suor de outra mulher. Esse tipo de felicidade é passageira. É mentira que ele conta pra ela pra se alimentar do calor dela.

Talvez eu consiga um gostinho desse calor se eu tirar ela desse sofrimento. Posso confortar ela enquanto ela desliza suavemente pra dentro de mim. Ela nunca vai precisar saber quanta misericórdia eu tô dando. Dei um passo na direção deles e de repente, como se um véu fosse levantado, senti o abraço dele por trás e congelei. O casal, perdido na própria bolha, nem me notou enquanto eu ficava lá parada feito estátua assistindo o momento deles.

Faziam anos que eu não sentia esse abraço, mas eu sabia que era dele, quente e confortador, em lugar nenhum e em todos ao mesmo tempo. Braços de ar. Braços de nada. Braços de calor e alegria. Eu sentia eles me envolvendo, firmes e fortes como eu lembrava, mas ao mesmo tempo eu sabia que eu tava completamente livre. Eu podia dar um passo à frente. Podia me alimentar desse casal. Podia sentir o calor passageiro deles…

Mas aí eu ia ter que sair desses braços…

Fiquei lá no ar gelado de fevereiro, perdida no tempo como uma memória que nunca aconteceu. Ele me segurou por horas e ninguém prestou atenção. O casal foi embora. Outras pessoas passaram. O sol se pôs, o sol nasceu. Não sei quanto tempo, mas quando acabou, eu não sentia mais fome. Fria de novo, mas não com fome.

Depois disso a cor voltou pro mundo. Não em todo lugar, não como antes, mas eu conseguia ver lampejos de vez em quando. Segui a cor até um parque uns dias depois e só fiquei sentada vendo as crianças meio que brilharem enquanto brincavam. É difícil explicar o que meus olhos viam, mas parecia quente e pela primeira vez na vida eu só queria que aquele calor ficasse onde tava pra eu poder admirar um pouco. Enquanto durasse.

Um aniversário. Um piquenique. Uma pega-pega. Memórias essenciais sendo formadas bem na minha frente. Pequenos vaga-lumes de cor num mar de sépia.

Aí um brilhozinho desceu de algum lugar e pousou na minha palma. Formigava de calor e eu fechei as mãos em volta dele e deixei irradiar pra dentro de mim. Sem palavras ele me disse e eu entendi que eu precisava levantar e ele me puxou pelo canto do abrigo de beisebol e foi aí que eu cruzei o olhar com alguém. Um cara baixinho e peludo em todos os lugares errados, tipo um dedo do pé com unha encravada. Ele segurava um pedacinho de calor tão apertado no punho que os nós dos dedos tavam brancos. O que eu vi nos olhos dele era menos que nada, um vazio que nunca ia ser preenchido exigindo calor mas nunca dando.

Ele ainda tinha aquele sorriso louco de quem achou que o plano deu certo até eu quebrar o pulso dele. A menininha perguntou se ele tava bem e eu sorri com carinho e falei que só precisava dar uma injeção no meu tio porque ele não podia sair do hospital e mandei ela voltar pra mãe.

Arrastei o cara-dedo-do-pé até a van branca feia dele, joguei no fundo e rasguei o motor com as mãos. Talvez eu devesse ter matado ele, mas eu sabia que isso não ia me aquecer. Só deixei ele lá largado, ferido e coberto de merda dele mesmo.

Naquela noite senti ele me abraçando de conchinha. Foi fraco, mas eu sabia que era ele. Um sonho de um abraço de conchinha, mas pela primeira vez dormi como eu dormia nos braços dele antigamente. Quando acordei não sentia mais ele, mas não tinha como confundir.

Levou tempo, mas a gente descobriu juntos. O corpo dele morreu, mas ele ainda tá aqui, grudado dentro de mim, me mostrando a luz. A gente se fala por sensações e cutucadas, calor e cor. Não escuto a voz dele, mas sei que é ele de verdade, consciente, vivo e me guiando. Agora eu honro a memória dele sendo a pessoa que ele via em mim, a pessoa que ele tava olhando quando eu tava focada no pôr do sol refletido nos olhos dele.

Milhares de anos de evolução finalmente ensinaram um humano a matar vampiro; só queria que ele não tivesse precisado morrer pra fazer isso.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Eu tinha dificuldade pra dormir quando era mais novo. Ontem à noite eu descobri o porquê

Tudo começou quando eu tinha 8 anos. Nessa época, eu comecei a ter esses “estremecimentos” no sono. Lá pelas tantas, perto da meia-noite, eu era arrancado do sono de repente. Era igual àqueles momentos em que você tá quase pegando no sono e o corpo dá um tranco, como se você estivesse caindo, só que esses trancos me faziam sentir que eu tava sendo jogado pro alto. Meus pais, no começo, acharam que era só insônia – a escola tava bem estressante pra mim, com um monte de matéria nova e aula diferente, então até entendo eles pensarem isso. Só que os trancos eram raros no início, mas com o tempo começaram a acontecer toda noite, e aos poucos eu acordava com mais pânico, gritando e socando o ar contra uma ameaça que não existia.

Cinco dias depois que esses trancos pioraram de vez, meus pais começaram a achar que insônia não explicava mais. Começaram a perguntar se eu tava sofrendo bullying na escola, se tinha professor filho da puta, essas coisas. Eu não tinha bully nenhum na época e todos os professores eram legais, então a resposta era sempre “não”. Me levaram pra umas consultas na clínica infantil da cidade, não acharam nada errado fisicamente, mas anotaram que eu tinha um monte de “trauma auto-infligido” – vai entender que porra era essa. Deram uma receita de remédio pra dormir pros meus pais e falaram pra eu tomar um uma hora antes de deitar, pra ver se me mantinha apagado. O remédio nunca funcionou porra nenhuma. Eu até ficava mais sonolento antes de dormir, mas os trancos continuavam acontecendo, toda santa noite, pontualmente à meia-noite.

Isso durou um tempão e eu só queria que aquele inferno acabasse. Acabei perguntando pros meus pais se existia um “médico do sono”. Eles falaram que não tinha isso, mas que podiam me levar num psiquiatra. Logo eu tava sentado num consultório cheio de brinquedo, fidget toy e livro espalhado, enquanto o Dr. Cole, meu psiquiatra na época, me fazia um monte de pergunta. Perguntas ridiculamente básicas: “Quantos anos você tem? Sempre quis procurar ajuda psiquiátrica? Dorme bem? Come direitinho?” e tal. Depois disso ele tirou umas folhas, aquelas com borrões pra ver como a cabeça do paciente funciona identificando imagem. Juro por Deus, cada uma por uma, todas as folhas tinham dois círculos pretos gigantescos dos lados, tão escuros que parecia que eu podia enfiar a mão ali e perder pra sempre. Sei que algumas realmente tinham traços assim, mas pra mim todas eram iguais: vazios absolutos que pareciam me encarar direto. Lá pela nona folha eu desabei chorando e tentei me esconder embaixo da mesa. O Dr. Cole juntou as folhas, guardou na pasta e começou a preencher um relatório. No mesmo dia meus pais foram informados que eu podia ter um caso leve de esquizofrenia, que fazia meu cérebro projetar imagens que eu não queria ver nas folhas. Deram outra receita. Meu pai fez o maior escândalo, falando que não ia deixar o filho caçula tomar remédio pra um transtorno de verdade em vez de tratar de verdade. Resumindo: nunca mais voltei lá.

Por meses eu tive que aguentar aqueles trancos o tempo todo, e ficou tão insuportável que parei de dormir no meu quarto e passei a dormir com meu irmão David. David tinha 10 anos na época e, pra ser sincero, já tava de saco cheio da minha palhaçada, mas ainda me deixava dormir com ele se isso fizesse eu calar a boca. Depois de um tempo chegou meu aniversário. A festa era pra ser uma desculpa pra eu pegar ar livre, mas por causa dos trancos da meia-noite meus pais decidiram que todo mundo ia ficar dentro de casa pra “se conectar mais”. Na festa tinham três dos meus amigos mais próximos – dois eram vizinhos, o outro era da sala. Além deles, dois primos meus que eram pelo menos cinco anos mais velhos que o David, mas ainda curtiam vir em casa zoar com a gente de vez em quando.

Durante a festa eu consegui esquecer completamente dos trancos. Todo mundo jogando, falando de coisa que ia rolar, e principalmente rindo de piada escrota e besta pra caralho. No fim da tarde eu e o David pegamos os sacos de dormir. Ele foi abrir o sofá-cama enquanto eu juntava cobertor e travesseiro. O David parou na frente de todo mundo e avisou que os sacos de dormir eram só pra mim e pra ele, e que o sofá-cama ia ser “quem chegar primeiro leva”. Eu dei um sorrisinho e falei pra eles “se “se matarem pela cama”. Achei que ia rolar guerra de polegar ou pedra-papel-tesoura, mas os primos se ofereceram pra dormir no chão e meus amigos resolveram na queda de braço. Depois de decidir quem dormia onde, ficamos acordados umas boas duas horas depois do horário de dormir, desafiando um ao outro pra ver quem aguentava mais tempo sem apagar. Claro que eu fui o último a dormir.

Enquanto eu ia apagando, sorria com o dia inteiro de diversão, mesmo tendo ficado só dentro de casa rindo até doer a barriga. Aí, lá pela meia-noite, senti aquele tranco me jogando pra fora do sono de novo, e a vontade de gritar e socar o que tivesse mais perto veio com tudo – só que minha voz não saía. Minha boca tava aberta, mas as cordas vocais não funcionavam. Meus braços, já dentro do saco de dormir, não mexiam. Lembrei que meu primo tinha falado que sentia isso direto: paralisia do sono, quando você acorda rápido demais e o corpo não destrava os movimentos. Varri o ambiente com os olhos pra ver se tinha alguém acordado. Só via a bagunça de jogo de tabuleiro e salgadinho, meu irmão, meus primos e meus amigos dormindo, e a janela grande do lado da porta da frente.

Meu primo sempre dizia que, quando ficava paralisado, tentava ficar olhando pras coisas diferentes porque sabia que a mente acabava ficando entediada e inventava monstro. Meu irmão retrucava que ficar olhando em volta só incentivava a mente a criar os demônios. Meu primo dava de ombros e falava que nunca tinha visto nada que não estivesse ali de verdade. Eu fiquei olhando cada canto da sala que conseguia pra garantir que nada mudava. Quando me senti seguro, fechei os olhos e tentei dormir de novo. Logo depois de fechar os olhos, ouvi um farfalhar no mato bem do lado de fora da janela grande. Abri os olhos num pulo e virei pra ver o que porra era aquela. Fiquei apavorado.

O cara – a coisa, melhor dizendo – que tava do lado de fora da janela era alto e todo escuro. Parecia usar um moletom preto, mas o rosto… nunca vou esquecer aquele rosto. Escuro e ao mesmo tempo pálido, sem boca nem nariz que desse pra ver, e os olhos eram exatamente aqueles círculos pretos gigantescos que eu vi nas folhas do Dr. Cole, só que ainda mais fundos. De algum jeito consegui franzir a cara numa careta de raiva, torcendo pra ele ver que eu tava puto e ir embora. Ele viu mesmo a careta, virou pro lado da porta e… caminhou até ela. Pisquei só pra ter certeza que não tava louco, mas a coisa agora tava dentro da minha casa, parada bem na frente da janela. Com medo de piscar de novo, forcei os olhos a ficarem abertos. A coisa começou a andar na minha direção, bem devagar. Meus olhos lacrimejaram, lutei com tudo pra não piscar, até que, de repente, piscar foi inevitável. Quando abri os olhos de novo, a coisa tinha sumido. Varri a sala inteira: nada fora do normal. Percebi que meu corpo já tinha destravado da paralisia e corri pro David pra acordar ele.

“David! David!” gritei. “Tem um cara, eu vi ele! Tá escondido aqui dentro de casa!”

Meu irmão se mexeu e virou de costas pra mim. “Vai dormir, cara, tá tarde pra caralho.”

“Não! Eu não consigo dormir, David! Ele tá na nossa casa! Pode tá esperando pra matar a gente!” retruquei gritando.

David se levantou devagar, espreguiçou e falou bocejando: “Que tal a gente procurar esse cara e, se achar, a gente vai chamar o papai e a mamãe. Combinado?” Eu balancei a cabeça que sim. Levantamos e fomos procurar pela sala: debaixo do sofá-cama, debaixo da mesinha de centro, até no armário do corredor. Nada. Voltamos pra cama e o David apagou quase na hora. Eu sabia o que tinha visto. Sabia mesmo.

Depois daquela noite os trancos pararam. Nunca soube o porquê, então por um tempo achei que era só uma fase de medo de medo de tudo. Hoje eu tenho 19 anos e ontem à noite eu fui provado errado: senti um tranco de novo, olhei pra janela do meu quarto e lá tava ele – o homem sem olhos.

Eu fiz parte de uma equipe de resposta enviada pra uma instalação secreta por causa de um surto. O que a gente descobriu nunca deveria ter existido… e agora eles estão soltos

Não sei quanto tempo eu ainda tenho. Minhas mãos não param de tremer e meu pulmão tá queimando como se eu tivesse respirado fogo, mas eu preciso botar isso pra fora porque não sei se vou conseguir sair vivo dessa mata antes que o que quer que esteja se mexendo ali na beirada das árvores me ache. Se você tá lendo isso, entenda uma coisa: tudo sobre os Laboratórios Helixion não era boato. Não era teoria da conspiração. Era real. E a gente libertou uma coisa que devia ter ficado enterrada pra sempre.

Eu era de uma equipe de cinco caras: Comandante Coleman, Matthews, Fields, Torres e eu. Fomos mandados pra conter uma brecha de segurança numa instalação ultra-secreta. Comunicação cortada, número de mortos desconhecido. Aquela missão que a gente treina a vida inteira mas reza pra nunca cair.

O lugar chamado Helixion Labs não era nenhuma instalação civil. Era financiada pelo governo, enterrada sob uns bons quinze metros de concreto armado no cu do mundo. Pesquisa genética, evolução experimental… aquele tipo de coisa que só existe em filme de terror e fantasia. Eu tinha ouvido os boatos: animais com genes misturados, híbridos humano-animal, supersoldados feitos pra sobrevriar qualquer coisa. Achava que era papo de maluco, mas eu não fazia ideia do quanto tava errado.

Pousamos logo depois do amanhecer. A neblina tava baixa e pesada, engolindo qualquer som antes dele chegar nas árvores. O portão de aço tava escancarado, dobrado pra fora, como se alguma coisa tivesse forçado passagem pra sair.

Antes de entrar, Coleman passou o plano:

“Vamos resgatar sobreviventes, descobrir o que rolou, achar a sala dos geradores, colocar as cargas e vazar pelo túnel que sai dali pros lados da mata”, explicou ele. “A porta é trancada com código que me passaram. Assim que a gente sair, as cargas detonam e levam o prédio inteiro pro saco junto com tudo que tiver dentro.”

Terminou de falar e a gente entrou. Energia cortada. Só as luzes de emergência deixando os corredores num vermelho sufocante. Silêncio total, só o barulhinho do nosso equipamento e o chiado de vapor vazando de cano quebrado. Quanto mais fundo, pior o cheiro: carne queimada, sangue, podre e um troço químico que arranhava a garganta.

Achamos o primeiro corpo na recepção… ou o que sobrou dele. Um cientista, metade do tronco sumida. As costelas abertas pra fora tipo flor desabrochando, as tripas espalhadas pelo chão. Alguém tinha escrito uma palavra na parede do lado com os dedos tremendo.

CORRE.

“Ataque de animal?”, Torres sussurrou.

Coleman nem olhou pra ele. “Animal nenhum faz isso.”

Seguimos mais fundo, varrendo o corredor leste. Cápsula de bala, marca de queimado e jaleco rasgado pra todo lado. Num canto, um corpo meio fundido na parede. Carne e concreto misturados como se fossem a mesma coisa.

Os elevadores eram sucata retorcida, então descemos pela escada de serviço pro Subnível 3 – Divisão Genética. Cada degrau ecoava e meu coração parecia que ia rasgar o peito pra sair.

Aí a gente ouviu: um arranhado, metal no concreto.

Fields virou o fuzil com lanterna pro corredor e, por um segundo, eu vi movimento. Uma coisa pálida, rápida demais pra focar.

“Olhos abertos”, Coleman mandou. “Não tá vazio aqui. Cuidado com a retaguarda.”

Achamos outro corpo. Os ossos moles, dobrados em ângulo impossível. A pele escorrendo como cera de vela.

Torres quase vomitou: “Porra, Jesus Cristo, o que caralhos faz uma coisa dessas?”

Aí veio a respiração. Lenta, pesada e errada.

A coisa apareceu debaixo de uma porta que ela devia ter que se abaixar pra passar. Pele pálida quase brilhando, como se não tivesse sido feita pra luz. A mandíbula desencaixada, dentes pretos e finos que nem agulha, mas os olhos… puta merda, aqueles olhos… me encarando com uma inteligência humana que me congelou no lugar.

Coleman atirou primeiro, mas a coisa era mais rápida que qualquer coisa que eu já vi. Chegou no Fields antes da gente piscar.

Começou a rasgar ele com garras que pareciam lasca de osso. O som não era rugido… era tipo risada, distorcida, mecânica.

A gente abriu fogo tudo. Bala atravessava, mas a coisa não caía. Soltou um grito agudo que fez minha visão embaçar.

Quando ela sumiu de volta no duto de ventilação, Fields não tava mais de pé com a gente. Só sobrou uma poça de carne triturada, roupa, equipamento e sangue.

Seguimos porque tinha que seguir. Parar era começar a pensar no que a gente tinha acabado de ver.

Chegamos na sala de controle. Coleman achou um único vídeo que ainda rodava. A maioria tava corrompida, mas um funcionava: filmagem de uma cela de contenção. Um cara amarrado numa maca, gritando. As costas arqueando enquanto alguma coisa mexia debaixo da pele, aí a pele se abriu como casulo e uma coisa rastejou pra fora. Igualzinha à que matou o Fields.

Nome do arquivo queimou na minha cabeça: SUJEITO 47B – TESTE DE REGENERAÇÃO

Torres quis abortar a missão, mas Coleman bateu o pé que não.

Subnível 4 foi pior. O ar tava úmido e vivo. As paredes pulsavam de leve, como se respirassem junto com a gente. Uma coisa caiu do teto – fina, pálida, mais rápida que o olho consegue acompanhar. Matthews atirou por reflexo.

O clarão do cano iluminou outras penduradas nas paredes, agarradas que nem aranha, mas com forma de gente pela metade da transformação. Andavam de quatro, osso estalando a cada movimento.

A gente correu, mas elas vieram atrás gritando. Uma pulou em cima do Torres e grudou na perna dele. Virei e meti bala à queima-roupa, explodi metade dela fora dele… mas os tentáculos já tavam entrando na pele. Ele gritou até a voz virar gorgolejo.

Elas começaram a enxamear ele, os tentáculos se retorcendo debaixo da carne, esvaziando o cara por dentro. Quando terminaram, arrastaram o que sobrou dele pra parede – usando o corpo dele como saco de ovo.

Selamos o Subnível 4 e tentamos respirar, mas Coleman manteve a gente andando. Não pela missão… pela sanidade, pela ilusão de que ainda tinha algum controle.

O rastreador do Matthews pegou sinais fracos – vários, se movendo devagar e de forma irregular.

“Pode ser sobrevivente”, eu disse, voz falhando.

“Duvido muito”, Matthews respondeu. “Ninguém sobreviveu a isso aqui.”

Coleman suspirou: “Ele tá certo, mas a gente vai conferir mesmo assim.”

Aí veio o som. Primeiro baixo, depois crescendo.

Cantoria.

Uma melodia suave, meio desafinada mas dolorosamente familiar.

Cantiga de ninar. Aquela que toda criança conhece, mas meio segundo fora do tom, como se alguém tivesse esquecido a letra.

O som nos levou pra uma câmara onde o ar era quente e úmido, fedendo a podridão. Cabos pendurados no teto… só que não eram cabos. Balançavam e se retorciam no ritmo da música. Alguma coisa molhada pingou no ombro do Matthews. Quando ele olhou pra cima, congelou no meio da respiração.

O teto não era metal. Era carne viva. Os cabos eram intestino e língua pendurados, com nervo enrolado em volta.

E tinha dezenas… talvez centenas… de bocas humanas cravadas na superfície. Lábios rachados e tremendo, dentes batendo em perfeita harmonia. Algumas articulavam palavras mudas, outras cantavam em tons quebrados. As línguas se esticavam pra baixo, tateando o ar.

“Jesus Cristo…”, eu sussurrei.

Aí elas começaram a gritar. Todas ao mesmo tempo. O som parecia sucção virada do avesso.

Matthews abriu fogo e sangue – ou sei lá o quê – choveu em cima da gente, chiando no chão. Mas as bocas não paravam. Formavam palavras que não existiam em língua nenhuma.

De repente uma língua desceu chicoteando, enrolou no pescoço do Matthews. Ele arranhou, olhos esbugalhados. Segurei as pernas dele e puxei. A língua se soltou… junto com metade da garganta dele. Morreu na hora nos meus braços.

As bocas começaram a rir.

Coleman jogou uma granada incendiária. Fogo tomou o teto inteiro, carne estourando que nem óleo quente. A cantoria parou e virou grito que foi morrendo no silêncio.

Quando a chama apagou, só sobraram dois de nós.

Chegamos no setor de segurança. A energia reserva piscou por alguns segundos. Naquele clarão, vimos dentro das celas reforçadas: formas que talvez um dia tinham sido gente, ou bicho, ou os dois. Corpos pegos no meio da transformação, congelados em posições que doíam só de olhar.

Foi aí que caiu a ficha: todos aqueles boatos sobre Helixion eram verdade. As aberrações nas celas eram soldados, protótipos que deram errado. Eles tavam tentando construir a própria evolução… e conseguiram.

Achamos a sala dos geradores e armamos as cargas. Coleman mandou eu cobrir a porta.

Quando ele colocou a última carga, ouvi respiração vindo de cima. A coisa começou a falar com várias vozes ao mesmo tempo, tipo rádio trocando de estação sem parar.

Caiu em cima do Coleman com um baque pesado. Essa era diferente – maior, mais completa. As outras pareciam protótipos ou no meio da evolução… essa era o produto final.

O corpo era um remendo perfeito de várias pessoas costuradas. Eu reconheci pedaços… rostos que eu conhecia, olhos que eu conhecia. Não mortos, não vivos… só presentes.

A boca se abriu na vertical, partindo a cabeça no meio, revelando fileira atrás de fileira de dente fino e afiado.

Coleman gritou pra eu correr, mas eu travei, Deus me perdoe, eu travei.

“É ORDEM, MARTINEZ! CORRE! Usa o túnel – código 8593! AGORA VAI!”

Aí a coisa começou a rasgar ele, carne e osso que nem manteiga. Coleman não gritou… foi lutando, enfiando a faca até o corpo amolecer.

Atirei na aberração até o pente acabar. Quando terminou com o Coleman – que agora era só um monte de carne rasgada e sangue – ela olhou pra mim e ficou parada. Aí falou.

Não com palavras, mas a última coisa que eu ouvi antes da explosão foi a criatura imitando perfeitamente a voz do Coleman, implorando pra eu não abandonar ele.

Nem lembro de digitar o código, entrar no túnel ou como cheguei na mata. Só sei que não tava sozinho quando cheguei lá.

Quando as cargas explodiram, a instalação desabou… mas a floresta se mexia de um jeito que não era vento. Da encosta onde eu tava, vi formas rastejando pra fora dos escombros. Dezenas, talvez centenas, se espalhando pela mata.

Tô escondido há três horas. Rádio morto, a mata ficou em silêncio total, como se tudo aqui estivesse prendendo a respiração.

Tô usando o celular pra botar isso no mundo. Já tentei ligar e mandar mensagem, mas o sinal caiu. As criaturas devem ter derrubado as torres, isolando todo mundo aqui do resto do planeta.

Pelo menos a internet ainda pega, então postar isso é minha única chance de avisar vocês. Eu sei que vazar isso vai custar meu emprego, minha carreira, tudo… mas eu não ligo mais. Vou fazer o possível pra continuar atualizando.

Se alguém tá lendo isso: NÃO MANDA RESGATE. NÃO VEM INVESTIGAR. Só espalha esse post pra caralho pra avisar o que tá vindo e prepara tua casa.

Porque eles tão na superfície agora… e evoluíram pra máquinas de matar perfeitas.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Mãe

O quarto respirava aquela quietude cara, cara mesmo, daquele tipo de casa que parece montada por decorador de revista, não vivida. Tudo no lugar, tudo perfeito, tudo gritando dinheiro velho e terapia cara. A mãe estava plantada no meio disso tudo como se fosse a peça que segurava o arco inteiro, ombros pra trás, postura impecável, aquela simetria ensaiada que tinha carregado ela por décadas de crise sem nunca deixar rachar a fachada. O mundo dela dependia de superfície intacta. Ordem era sinônimo de nada sair do lugar. Ela sabia disso sem nunca precisar falar em voz alta.

Eu entrei sem cerimônia, não invadi, cheguei. Cheguei com o peso de algo que já estava atrasado vinte anos. Passos lentos, firmes, cada um dizendo que aquilo não era conversa, não era negociação. Não tinha raiva no meu peito. Tinha era uma neutralidade pesada de quem já pagou o preço da briga dentro da própria cabeça antes de abrir a boca. O ar entre a gente engrossou, encolheu, virou uma coisa viva em volta da gente.

Ela me observou chegando do mesmo jeito que sempre observou tudo que ameaçava o equilíbrio do mundo dela: analítica, olhos farejando mudança de tom, de postura, de intenção. A cabeça dela já procurando automático uma gaveta, uma categoria, uma alavanca pra controlar a situação. Mas não tinha. Não tinha linguagem clínica, não tinha manual, não tinha terapeuta pra botar no meio e absorver o impacto. Só nós dois. Só ela. E a sombra comprida da nossa família esticada no chão entre nossos pés como um fantasma.

Ela nunca vai esquecer o segundo em que eu atravessei a linha que sempre existiu entre a gente. Antes, sempre um abismo. Eu não fui pra cima dela com raiva, nem com súplica. Fui com uma calma que desmontava muito mais. Levantei a mão devagar, dedos abertos, desarmado. O gesto era simples, mas o significado era foda: depois de vinte anos rodando um ao outro em órbitas calculadas, eu finalmente escolhi tocar.

Foi aí que apareceu a primeira rachadura fina na máscara dela. Não era medo, nunca. Era o estalo de perceber que ela não estava mais dirigindo aquela cena. A respiração dela falhou quando a palma da minha mão encontrou a dela. A mão dela era quente, firme, absurdamente estável. O instinto dela era gerenciar o momento, moldar aquilo em algo suportável, mas meu aperto recusou o roteiro com jeitinho, mas recusou total.

Eu puxei ela pra um abraço. Um abraço que foi crescendo aos poucos, cada centímetro de aproximação desfazendo mais um tijolo daquela fortaleza que ela construiu desde o dia em que me entregou pra tentar arrancar a dor do próprio peito. Pra mim, aquilo era a subida: a verdade virando carne. Eu segurei ela como quem segura o peso inteiro do passado, sem esmagar mais, só sem deixar escapar de novo sem ser reconhecido nunca mais.

Pra ela, o abraço era desorientação pura. Sentiu meus braços na cintura dela; não era força, não era castigo, era só constância. E foi essa constância que fodeu com ela. Minha mãe, que dominava todas as formas de controle menos essa: o momento em que o passado resolve aparecer vivo e respirando.

Quando meu abraço apertou mais, devagar, com vontade, não era pra dominar. Era pra impedir que o mundo dela desviasse o olho da verdade. O abraço virou cadinho onde tudo que nunca foi dito virou vapor. Eu joguei toda minha resistência ali, músculos tremendo não de esforço físico, mas de contenção. Não pra machucar ela, mas pra impedir que o estrago que eu carregava dentro de mim transbordasse errado. A densidade emocional daquele toque era insana. Eu não estava segurando só o corpo dela. Estava segurando vinte anos de silêncio.

Pra ela, foi o instante em que ela se dissolveu, não porque eu tirei, mas porque a verdade que ela tinha emparedado finalmente arrebentou a parede. Minha insistência era o solvente. Minha firmeza era o instrumento.

Meu ápice veio quieto. Sem grito. Sem acusação. Só o momento em que o abraço chegou no limite. Quando meu corpo começou a ceder sob o peso psíquico que eu arrastei até ali. Senti o tremor nos braços, o corpo querendo colapsar, e segurei mesmo assim, não deixando o momento virar simbólico ou contido.

Ela sentiu também, o tremor, o esforço. Aquilo bateu nela como revelação. Não era dominação. Não era teatro. Era o filho dela segurando ela como se a única forma de falar a verdade fosse sangrando o próprio corpo até o fim.

Eu passei a lâmina no meu pescoço. E aí ela gritou.

Não era medo. Não era choque. Era o som do controle dela, a língua materna dela, estilhaçando. Explodiu do fundo da alma, cru, sem filtro, a nota exata que ela engoliu por vinte anos toda vez que repetiu pra si mesma “ele vai ficar bem”, toda vez que assinou mais um cheque, toda vez que preferiu acreditar nos profissionais do que no próprio instinto.

Eu aguentei o grito, deixei passar por mim como tempestade. Quando minha força acabou, não foi desabar. Foi conclusão. Afundei, não pra longe dela, contra ela, corpo dobrando enquanto meus braços amoleciam, esgotados de carregar a verdade até onde precisava.

Ela me amparou sem pensar, joelhos cedendo, o suéter de lã merino branca fudido pra sempre. O grito foi morrendo, deixou ela ofegante, tremendo, suspensa nas ruínas da própria certeza. Ela me apertou porque não sobrava mais nada pra fazer. Nenhuma estrutura, nenhum roteiro, nenhum sistema pra consultar. Só consequência.

Eu fiquei lá no chão, não quebrado, não derrotado. Não mesmo. Só vazio. Ela meio ajoelhada, meio de pé em cima de mim, mãos tremendo, respiração curta, olhando o ponto exato onde filho e culpa se encontravam numa cena impossível de negar.

No silêncio que veio depois, nada foi resolvido. Nada foi perdoado. Nada foi consertado.

Mas tudo foi visto, finalmente, sem os filtros que o sistema ensinou ela a usar.

E pela primeira vez em vinte anos, ela não tinha controle nenhum.

Só verdade.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon