Fala aí, pessoal. Tô escrevendo aqui porque tô passando por uma experiência muito doida e precisava desabafar com alguém.
Pra começar: eu sou cego. Não é fácil, mas também não é esse drama todo que o povo acha. A parte mais chata, na minha opinião, é ter que ficar sempre esperto em público, então eu quase não bebo. Quando bebo, é pouquinho.
As bebedeiras pesadas eu deixo pra festa em casa ou praquelas noites raríssimas em que você simplesmente decide “hoje vou encher a cara sozinho em casa mesmo”.
Foi numa dessas noites que tudo começou. Eu me mudei pra Vermont pra fugir dos insetos do sul. Sempre curti ficar no meio da natureza, mas depois que fiquei cego minha pele ficou super sensível àqueles pezinhos de bicho. Me dá um nojo do caralho. Quando juntei uma grana, me mudei na hora. Achei uma cidade legal, nem pequena demais nem grande demais, com calçada, e comprei uma casa. Meu quintal encosta direto numa área de mata. Pode ser até parque nacional, sei lá. Não é como se eu pudesse ler as placas, né? (piadinha de cego ruim, desculpa aí)
Mandei fazer um banco bem grande, de madeira reforçada, coloquei na beirada do terreno e cavei um buraco pra fogueira. Não tem coisa melhor do que ouvir um audiobook esquentando a mão no fogo numa noite fria.
Foi mais ou menos um mês depois que me mudei que o visitante começou a aparecer.
Na primeira vez, eu tinha acabado de me despedir de uns amigos novos (fiquei checando se todo mundo tinha motorista sóbrio). Tranquei a frente da casa, fiz mais um drink e cambaleando fui pro banco e pra fogueira. O fogo ainda tava aceso, a gente tinha acendido pra festa. Fui com a bengala varrendo o chão, juntando latinha e copo usado, empilhei tudo embaixo do banco, me sentei e apertei play no audiobook.
O fogo já tava bem baixo, eu tava quase indo dormir, quando ouvi passos se aproximando. “Quem diabos vem aqui essa hora?”, pensei, mas tava bêbado demais pra ligar.
Eu sou aquele bêbado alto, feliz e que quer que todo mundo aproveite a noite. Então meu segundo pensamento foi: “Amigo novo!” Gritei: “Fala aí, parceiro! Quer vir sentar na fogueira?”
Silêncio por um tempo, até que os passos pesados vieram mais perto. Mais perto, mais altos… comecei a pensar “caralho, que tamanho é esse cara?”. Aí ele sentou na outra ponta do banco. Meu banco é grandão, uns dois metros e pouco, pra eu poder deitar se quiser e ainda sobrar espaço pro som ou pra comida.
Comecei a puxar papo, mas ele não falava quase nada. Às vezes soltava um grunhido, mas na maior parte do tempo ficava quieto me deixando falar. E eu falei pra caralho.
Contei da minha cegueira, da mudança pra um lugar estranho, que tava procurando amizades pra ter gente que me ajudasse a ficar de olho no perigo. Falei, falei, até cansar. Aí estendi a mão. Ele segurou com uma mãozona enorme e apertamos. Desejei boa noite e cambaleei até a cama.
Isso virou rotina. Meu novo amigo não aparecia toda noite, mas quando aparecia só sentava perto do fogo e ouvia. Comecei a reparar umas coisas nele. Primeiro foi o cheiro – achei que era morador de rua precisando de um banho. Ofereci o banheiro da minha casa, ele só grunhiu. Interpretei como “valeu, mas não, obrigado”, mas também não tinha certeza.
Na minha cabeça, era um cara de rua que tinha passado por algum trauma e ficou mudo. Não é o melhor amigo que um cego pode ter, mas vai saber… talvez eu fosse o único amigo que ele tinha no mundo.
Essa amizade estranha rolou de boa por uns meses. Até aquela noite. A noite que todo cego tem pesadelo.
Eu tava na fogueira, ouvindo audiobook no volume baixo. Meu amigo – eu tinha começado a chamar ele de Carvalho, porque igual carvalho ele era grande e calado – tava no lugar de sempre. De repente ouvi vidro quebrando. Levantei pensando que tinha deixado um copo na beirada da pia, coisa que acontece às vezes. Dei um passo em direção à casa pra limpar antes que esquecesse onde era.
Um rosnado atrás de mim me parou na hora. Nunca tinha ouvido um som daquele na vida: grave, fundo, parecia que vibrava dentro do meu cérebro. Aí meu amigo se levantou e com duas ou três passadas pesadas já tava dentro de casa. Ouvi ele abrir a porta de correr de vidro do fundo e entrar.
Fui dar outro passo quando veio o primeiro grito lá de dentro: “PORRA, QUE CARALHO É ESSA COISA?!” “SAI, SAI!” – um berreiro do caralho, e a porta de vidro voou pra fora com alguém correndo desesperado.
“QUEM É VOCÊ, PORRA?”, eu gritei.
Agora, uma coisa que vocês precisam saber sobre cego: a gente esquece luz. Simplesmente não pensa nisso porque não precisa. Então quando gritei, gritei do escuro total. O cara soltou um grito tão agudo e alto que doeu meu ouvido e me assustou pra caralho. Eu gritei de susto também, ele pirou de vez e meteu o pé na mata.
Fiquei ali parado uns minutos, totalmente apavorado, já pensando em ligar pra polícia.
Ouvi vidro estalando e meu amigo passou do meu lado arrastando alguma coisa. O cheiro dele misturado com cheiro de sangue veio forte. “Tá tudo bem?”, perguntei. Só veio um grunhido de volta.
Entrei em casa, achei o celular que realmente pega sinal e liguei pros policiais.
Depois os caras explicaram que acreditavam que dois ladrões tinham entrado na minha casa, mas que “alguma coisa” atacou eles. Encontraram um braço humano cortado jogado no meu sofá. Tinha sangue pra cacete. Pedi pros policiais tirarem foto pra mim – o seguro ia adorar essa porra.
Eles acharam as pegadas do que correu e as marcas de arrasto do meu amigo, que tinha levado o outro embora. Pelo tanto de sangue, acharam que o segundo ladrão tava morto.
Agora eu tô em casa sozinho. A equipe de limpeza acabou de sair depois que a perícia demorou uma eternidade. Tem lona na porta dos fundos e na janela do escritório. Eu fico feliz pra caralho que meu amigo me defendeu, mas ao mesmo tempo… que tipo de “pessoa” arrasta um corpo pro mato? Meu amigo é humano mesmo? Com o que eu tenho dividido a fogueira esse tempo todo?
Não sei. Por isso tô postando aqui. E se um dia ele ficar puto comigo? Eu nem vou ver chegar.

