segunda-feira, 13 de abril de 2026

Eu comecei um emprego novo no mês passado e todo mundo lá acha que eu trabalho com eles há nove anos

Estou escrevendo isso do meu carro, no estacionamento da empresa. Eu não quero entrar. Não sei se consigo continuar entrando. Preciso que alguém me diga o que está acontecendo, porque eu estou ficando sem explicações e as que ainda me restam estão ficando cada vez piores.

Eu comecei um emprego novo há quatro semanas. Empresa de porte médio. Departamento de Marketing. Passei por um processo normal de entrevista. Três rodadas. Recebi o e-mail com a proposta numa terça-feira. Assinei a papelada na sexta. Meu primeiro dia foi na segunda seguinte. Eu tenho toda a cadeia de e-mails. Tenho a carta de oferta assinada. Tenho o primeiro contracheque. Tudo datado dentro do último mês.

No meu primeiro dia, uma mulher do departamento de contabilidade me abraçou na máquina de café e disse:  

— Bem-vinda de volta, sentimos sua falta.  

Eu achei que ela estava sendo simpática com uma nova contratada. Eu ri e agradeci. Ela ficou confusa e falou:  

— Como assim “nova”? Você está aqui desde que eu comecei.

Eu deixei pra lá. As pessoas falam besteira. Nervosismo do primeiro dia dos dois lados.

No fim da primeira semana, eu já tinha contado seis situações parecidas. Um cara do TI me perguntou como estava o meu cachorro. Eu não tenho cachorro e nunca tive. Uma mulher do RH me perguntou se eu ia levar meu marido no piquenique da empresa. Eu não sou casada. O diretor do meu departamento mencionou um projeto que eu liderei em 2019 — quatro anos antes de eu sequer saber que essa empresa existia.

Eu comecei a checar as coisas.

Entrei no diretório da empresa. Tem uma foto minha. A foto é minha, mas eu nunca tirei essa foto. Estou usando uma camisa que eu não tenho. A data de contratação que aparece embaixo do meu nome é janeiro de 2017. Quase nove anos atrás.

Fui até o RH. A mulher na mesa puxou o meu arquivo. Ela me mostrou a papelada de admissão que eu assinei no mês passado. Depois rolou a tela e me mostrou nove anos de avaliações de desempenho, reajustes salariais, certificados de treinamento e escolhas de benefícios. Tudo no meu nome. Tudo com a minha assinatura. As assinaturas batem perfeitamente com a minha. Eu nunca assinei nenhuma delas.

Perguntei se existiam dois funcionários com o meu nome. Ela verificou. Só existe um. Eu. Ela disse:  
— Querida, você bateu a cabeça ou algo assim?

Saí do RH e fui pra minha mesa. Minha mesa tem fotos agora. Três fotos emolduradas que não estavam lá no final da semana passada. Uma é minha num evento da empresa que parece ser de anos atrás. Outra é minha com duas crianças que eu nunca vi na vida. A terceira é eu segurando um cachorrinho branco numa praia que eu nunca visitei.

As crianças na foto parecem que poderiam ser minhas se eu tivesse filhos. Tem alguma coisa no rosto delas. Eu fiquei sentada na minha mesa segurando aquela foto por um tempão e não conseguia parar de olhar para a mais velha, porque ela tem exatamente os meus olhos.

Isso foi na última terça-feira.

Durante o resto da semana passada, eu tentei agir normalmente. Fiz o trabalho que eu realmente fui contratada pra fazer. Respondi e-mails sobre os projetos que realmente me passaram. Mas as pessoas continuavam mencionando coisas que eu nunca fiz. Uma colega me perguntou se eu queria almoçar juntos “como a gente fazia antes”. A recepcionista perguntou como estava a recuperação da minha mãe depois da cirurgia. Minha mãe está ótima. Ela não fez nenhuma cirurgia. Eu nem falei com ela nas últimas três semanas porque estamos no meio de uma briga.

Na sexta, o cara do TI passou na minha mesa e disse:  
— Ei, seu laptop antigo finalmente morreu. Quer que eu tire alguma coisa dele antes de formatar?

Eu perguntei do que ele estava falando. Ele me mostrou um laptop no carrinho dele com uma etiqueta com o meu nome. A tag de serviço era de 2018. Ele disse que aquele tinha sido o meu computador de trabalho até o ano passado, quando eu troquei pelo que uso agora. Perguntei se eu podia ver o que tinha nele. Ele plugou. A área de trabalho carregou. O papel de parede era uma foto minha com as mesmas duas crianças da foto emoldurada. As pastas estavam organizadas exatamente do jeito que eu organizaria. O histórico do navegador estava cheio de sites que eu costumo acessar. Pesquisas que eu realmente faria. Tinha e-mails abertos em abas de um endereço pessoal que não é o meu endereço pessoal, mas é estruturado exatamente do jeito que eu nomeio meus e-mails.

Perguntei se eu podia levar o laptop pra casa no fim de semana antes de ele formatar. Ele disse que sim.

Passei o fim de semana inteiro fuçando nele. Tem nove anos da minha vida nesse laptop. Fotos com as crianças. Fotos com um homem que eu nunca vi na vida. Declarações de imposto. Roteiros de viagem pra lugares que eu nunca fui. Consultas médicas que eu nunca fiz. E-mails da escola sobre reuniões de pais e professores de crianças cujos nomes eu nem conheço. Uma vida inteira. Detalhada. Específica. Minha em todos os sentidos que importam… exceto que eu nunca vivi nada disso.

O homem nas fotos usa aliança. Eu também uso aliança nas fotos. Eu não tenho aliança. Nunca fui casada. Olhei pra minha mão. Tem uma marquinha clara e pálida no meu dedo anelar, exatamente onde ficaria uma aliança. Eu nunca usei aliança. Não faço ideia de como essa marca apareceu aí.

Hoje de manhã eu cheguei e a recepcionista sorriu pra mim e disse:  

— Sua filha está melhor?

Eu não tenho filha.

Eu falei:  

— O que você disse?

Ela olhou pra mim e o sorriso dela sumiu. Ela falou:  

— Sua filha. A menorzinha. Você comentou ontem que ela estava com febre.

Eu não lembro de ter falado com ela ontem. Eu não tenho filha. Fui pra minha mesa. A foto emoldurada das duas crianças ainda estava lá. A menor tem uns seis anos. Ela tem os meus olhos. Eu fiquei olhando pra essa foto por uma hora e não consigo parar, porque alguma coisa no meu peito dói quando eu olho pra ela e eu não entendo por que dói, já que eu nunca conheci essa criança.

Chequei meu celular. Não tem nenhum contato que eu não reconheça. Não tem fotos de crianças. Não tem nenhuma mensagem de alguém me chamando de mãe. Meu e-mail pessoal é o mesmo que eu tenho há anos. Não tem nada nele sobre família.

Mas no meu laptop do trabalho, aquele que eu recebi há só quatro semanas nesse emprego novo, a agenda tem um compromisso marcado pra hoje às 18h que diz: “Buscar Maddie na aula de dança”.

Maddie é o nome da criança mais velha da foto.

Eu não coloquei esse compromisso na minha agenda.

Estou sentada no estacionamento escrevendo isso porque não sei o que acontece se eu voltar lá pra dentro. Não sei o que acontece se eu for embora. A recepcionista sabe o nome da minha suposta filha. O sistema do RH tem nove anos de papelada. Outras pessoas lembram de uma versão de mim que está aqui desde 2017. Elas não estão mentindo. Dá pra perceber. Elas acreditam em tudo o que estão me contando.

A única pessoa nesse prédio inteiro que acha que eu sou nova aqui sou eu.

Fico voltando o tempo todo pra foto emoldurada que está na minha mesa. A menina mais velha. Maddie. Ela tem os meus olhos. E tem uma lasquinha no dente da frente. Exatamente a mesma lasquinha que eu tenho no meu dente da frente desde que caí do balanço quando tinha sete anos.

Eu não sei o que fazer. Não sei pra quem ligar. Minha família vai achar que eu estou tendo um surto. Não posso contar pros meus amigos de verdade porque eles só conhecem a versão da minha vida que eu estou vivendo agora. Tem outra versão da minha vida inteira num laptop que está no banco do passageiro e uma criança em algum lugar que tem a mesma lasca no dente que eu… e alguém está esperando que eu busque ela na aula de dança daqui a três horas.

Vou dirigir pra casa agora. Não vou voltar pra esse prédio hoje. Se alguém já passou por alguma coisa parecida com isso, por favor me conta o que você fez. Não sei se eu estou sendo inserida na vida de outra pessoa ou se alguém foi removido da minha. Não sei qual das duas opções seria pior.

Eu só quero saber quem tirou aquelas fotos. Alguém tirou. Alguém emoldurou e colocou na minha mesa. Essa pessoa sabe o que está acontecendo aqui. Preciso encontrar ela antes das 18h de hoje, porque eu não consigo parar de pensar numa criança que eu nunca conheci esperando do lado de fora de um estúdio de dança por alguém que não vai aparecer.

Encontrei o apartamento perfeito na cidade. Alguma coisa nele está roubando a minha vida

Todo mundo está sempre procurando aquele lugar perfeito. Grande o suficiente, não muito caro, perto do trabalho. De alguma forma, eu realmente encontrei.

O prédio em si era antigo, daqueles com corredores estreitos e um elevador lento que sempre fazia um barulhinho fraco na subida, mas estava bem conservado, limpo e silencioso de um jeito difícil de achar numa cidade como esta.

A proprietária morava no mesmo prédio, três andares acima de mim. Era uma mulher alta, já mais velha, com uma voz suave e ombros tensos, e parecia realmente satisfeita em me mostrar o apartamento.

Tinha dois quartos, uma sala de estar grande e uma varanda. Ficava também a apenas alguns quarteirões do escritório, o que significava que eu podia ir andando para o trabalho toda manhã em vez de enfrentar trens lotados.

Eu andava por cada cômodo esperando que tivesse alguma pegadinha. Eu tinha acabado de me formar e ainda estava cheia de empréstimos estudantis, então não tinha a menor condição de pagar algo daquele nível.

Mas quando ela me falou o valor do aluguel, eu simplesmente fiquei parada ali por um segundo.

Ela explicou que dava um desconto bem grande para garotas jovens que estavam chegando novas na cidade, porque ela mesma já tinha sido uma delas um dia, e eu não questionei. Assinei o contrato naquele mesmo dia.

A mudança foi boa. Meu pai me ajudou a trazer minhas coisas e a consertar uns detalhes pequenos, e pela primeira vez parecia que eu estava realmente começando a minha vida.

A única coisa estranha naquela primeira noite foi quando deixei uma caixa de ferramentas cair no meu pé e cortei feio a lateral do dedão. Limpei o corte, coloquei um band-aid e pensei que ia olhar melhor no dia seguinte.

Mas quando acordei, o corte já tinha sumido, como se tivesse acontecido há muito tempo.

O primeiro mês foi perfeito.

Eu costumava sentar na varanda toda manhã, comendo ovos mexidos e tomando café antes de ir andando para o trabalho. Eu estava no início dos meus vinte anos, morando na maior cidade em que já tinha vivido, com um emprego que eu realmente gostava, e parecia que tudo finalmente tinha dado certo.

O apartamento era uma grande parte disso.

A primeira vez que alguma coisa pareceu errada foi depois de uma noite bebendo com os colegas de trabalho. Cheguei em casa, abri o Instagram e vi uma foto minha daquela noite, e eu parecia diferente.

Nada óbvio, só mais velha. Meu rosto parecia um pouco mais cansado, a pele sem viço, com olheiras fracas embaixo dos olhos.

Eu até puxei fotos antigas para comparar. Mesmo ângulo, mesmo sorriso, mas não parecia a mesma pessoa.

No começo não pensei muito nisso, mas ao longo da semana seguinte ficou cada vez mais difícil ignorar.

Minha pele ficou mais seca, eu comecei a acordar exausta não importava o quanto eu dormisse, e uma manhã no trabalho eu não conseguia parar de bocejar durante uma reunião. Mais tarde naquele dia, durante uma apresentação, senti uma dor estranha nas costas.

No início achei que era só estresse. Primeiro emprego de verdade, cidade nova, rotina nova. Fazia sentido.

Fui ao médico só por garantia, e ele confirmou que provavelmente era fadiga.

Então continuei.

Dia após dia, eu fui me acostumando a me sentir assim. Saía menos, parei de ir pra academia, e na maioria das noites eu só ficava em casa assistindo séries aleatórias.

Todo mês, eu deslizava o aluguel por baixo da porta da proprietária, como combinamos. Quase nunca a via depois da primeira semana, e ela nunca me procurava.

Cerca de dois meses depois de ter me mudado, encontrei meu primeiro cabelo branco.

Era uma manhã de domingo e eu estava escovando o cabelo enquanto ouvia um podcast quando vi. Isso me assustou pra caralho.

Depois disso, as coisas pioraram rápido.

Os colegas de trabalho começaram a notar. Meu rosto parecia mais magro, a pele seca e sem vida, e eu devo ter perdido mais de dez quilos sem nem tentar. Os cabelos brancos continuavam aparecendo.

Meu chefe até me chamou na sala dele e perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de algum tempo de folga.

Eu nem sabia o que responder pra ele. Todo médico que eu consultava falava a mesma coisa: estresse, burnout, algo assim. Mas a verdade é que eu nem estava trabalhando tanto assim.

Então chegou o Dia de Ação de Graças, e eu decidi visitar meus pais na casa deles porque não via a hora de sair daquela cidade. Ficava pensando que talvez eu só precisasse daquela pausa.

E por um dia, eu acreditei que era isso. Na primeira noite de volta no meu quarto antigo, minha pele já parecia melhor, eu tinha energia de novo e me sentia eu mesma.

Mas meus pais não enxergaram dessa forma.

Eles me olharam como se estivessem vendo uma pessoa diferente, como se não me reconhecessem mais.

E a pior parte foi quando eu fiquei ao lado da minha mãe no espelho do banheiro.

Nós parecíamos da mesma idade.

Foi aí que eu soube que não era só estresse.

Acabei ficando lá duas semanas, e quando voltei pro apartamento eu já sabia que alguma coisa naquele lugar tinha me mudado pra sempre.

No segundo em que entrei, comecei a fazer as malas. Peguei tudo o que consegui, enfiei em duas malas e corri pro elevador.

Tinha outra mulher lá dentro. Uma mulher alta, atlética, vestindo roupa de academia e óculos escuros, mesmo dentro do prédio. Parecia ter uns vinte e poucos anos.

No começo mal prestei atenção nela. Depois olhei de novo.

Alguma coisa nela me pareceu familiar. O jeito de andar. O jeito como mantinha os ombros tensos. O formato do rosto.

Fiquei encarando, tentando lembrar de onde.

E então caiu a ficha.

Ela era a cara da proprietária, só que décadas mais jovem.

Eu fiquei olhando mais tempo do que devia, e ela percebeu. Virou o rosto rápido e tentou sair assim que o elevador chegou no térreo.

Mas eu não deixei.

Segurei o braço dela e a virei pra mim.

Eu não precisava que ela falasse nada.

Eu já sabia.

Era a proprietária.

Comecei a gritar com ela, perguntando o que caralho ela tinha feito comigo. Ela tentou se soltar, mas eu não larguei, e acabamos brigando ali mesmo no saguão.

Claro que ela agora era bem mais forte do que eu, muito mais forte, e me empurrou com tanta força que eu caí e bati a parte de trás da cabeça no chão.

Não lembro de ter desmaiado. Só pareceu que tudo apagou.

Quando acordei, estava num quarto de hospital, com luzes fortes e enfermeiras andando do lado de fora, e a proprietária sentada ao lado da minha cama.

Ela parecia culpada, quase triste.

Pediu desculpas por ter me empurrado e disse que não tinha escolha, mas eu não estava nem aí pra isso. Só queria respostas.

Entre lágrimas, ela me contou que a mesma coisa tinha acontecido com ela, que tinha se mudado praquele apartamento mais ou menos um ano antes, e que havia outra proprietária antes dela.

Processsei aquela informação por um minuto e perguntei como diabos aquilo funcionava, e ela disse que não sabia exatamente.

O que a última proprietária tinha contado pra ela era só que os dois apartamentos — o dela e o que ela alugava — estavam conectados desde que o prédio foi construído, e que um sugava o tempo enquanto o outro dava, tipo um canudo.

Eu sei o quão insano isso soa, porque meu primeiro instinto foi achar que era mentira.

Mas ela se levantou, enxugou os olhos e colocou uma chave na minha mão, dizendo que agora os dois apartamentos eram meus e que ela estava indo embora.

Perguntei o que eu deveria fazer com aquilo.

Ela deu um sorrisinho cansado e me disse para alugar.

Pensei em ir à polícia.  
Pensei em tentar encontrar a proprietária.  
Pensei em voltar pros meus pais.

Mas nada disso ia me devolver aqueles meses. Ou os anos.

Eu tenho vinte e dois anos, mas meu corpo tem décadas a mais, e toda vez que me olho no espelho, dá pra ver que isso não vai se reverter sozinho.

Em desespero, coloquei meu apartamento no mesmo site onde encontrei, e me mudei pro dela. As mensagens começaram a chegar quase imediatamente.

A primeira visita é hoje. É por isso que estou escrevendo isso: por culpa.

Uma parte de mim fica dizendo que eu não preciso fazer isso. Que tem que ter outro jeito.

Mas a outra parte grita que eu não tenho escolha, que é isso ou aceitar que perdi toda a minha juventude.

A garota que vem ver o apartamento parecia jovem e cheia de esperança no telefone. Ela está animada por ter encontrado um lugar onde pode viver o melhor momento da vida dela nessa cidade.

Eu lembro de ter soado exatamente assim.

domingo, 12 de abril de 2026

Ainda é Ele

Você pode me chamar de doente. Pode me chamar de doente da cabeça. Pode me chamar de fodido pra caralho pelo que eu deixo ficar nessa casa comigo. Eu não iria discutir nada disso.

Tudo começou com o som de ossos se quebrando.

Acordei por volta das 3:15 da manhã com um estalo alto e molhado de algo se partindo. Não era vidro nem madeira, era algo orgânico. Grosso e profundo. Como se um gigante estivesse estalando os nós dos dedos bem do lado de fora da porta do meu quarto. Eu me levantei num salto, o coração já na garganta. Meu cachorro, Jasper, normalmente dormia aos pés da cama. Estiquei a mão para baixo, mas meus dedos só encontraram os lençóis vazios.

Outro som veio do corredor. Um barulho de algo sendo arrastado, depois um ronco gutural baixo. Não era bem um rosnado, mas algo mais pesado. Mais faminto.

— Jasper? — sussurrei.

Nenhuma resposta. Claro que não.

Eu não queria abrir a porta, mas a ideia do meu doce labrador com pastor alemão machucado ou assustado lá fora mexeu com alguma coisa dentro de mim. Peguei o taco de beisebol que ficava ao lado da cama e fui me arrastando até a porta. O cheiro me acertou primeiro. Era quente, quase com cara de carne, com um fundo azedo e metálico de cobre que fez meu estômago revirar. A porta rangeu quando eu abri, e na hora eu me arrependi pra caralho.

Jasper estava no corredor.

Ou… algo que um dia tinha sido Jasper.

Ele estava maior. Essa foi a primeira coisa que notei. Grande demais. O corpo dele parecia esticado de forma irregular, como se tivesse sido inflado torto. As costelas saltavam em ângulos estranhos por baixo da pele esticada, quase translúcida. Tufos de pelo tinham caído em pedaços, e os olhos — aqueles olhos castanhos quentes como mel — agora eram de um branco leitoso, sem pupila. Fios espumosos de baba pendiam das mandíbulas, que pareciam ter se rasgado nos cantos.

Ele olhou pra mim, e por um segundo eu juro que vi reconhecimento. Ele soltou um ganido baixo — um som quebrado e miserável. Ainda parecia ele. Exatamente como o meu bom menino que tinha medo de aspirador de pó, do gato do vizinho, que adorava brincar nas pilhas de folhas secas que eu juntava e era capaz de comer um frango inteiro daqueles de Costco se tivesse a chance.

Aí ele partiu pra cima de mim.

Eu mal consegui fechar a porta antes que ele batesse contra ela, sacudindo o batente com tanta força que um quadro caiu da parede. Eu cambaleei pra trás, agarrando o taco como se aquilo fosse me salvar, a respiração toda esfarrapada. Que porra tinha acontecido com o meu cachorro? Aquilo não era o Jasper. Porra, aquilo nem era um cachorro.

Não dormi mais aquela noite. Fiquei sentado contra a parede mais distante do quarto, com o taco atravessado no colo, encarando a porta, esperando. Escutando. Jasper — ou a coisa — não fez mais nenhum barulho a noite inteira. Quando o sol finalmente nasceu e a luz começou a entrar pelas persianas, abri a porta de novo, mas ele não estava mais no corredor. A porta do banheiro no final do corredor estava entreaberta, então eu empurrei devagar, taco em punho.

Jasper estava na banheira. Deitado encolhido, absurdamente grande, com os membros torcidos embaixo dele como um fantoche quebrado. A respiração dele estava molhada e superficial. Os olhos se abriram quando eu me aproximei. Ainda leitosa. Ainda errados. Mas eles se fixaram em mim quando eu levantei o taco.

Ele não se mexeu. Só ficou olhando.

— Jasper — sussurrei, a palavra engasgando na garganta.

Ele gemeu. Baixo. Quase pedindo desculpas.

Eu deveria ter ligado pro controle de animais. Pra um veterinário. Pra um padre. Porra, sei lá. Pra alguém. Mas não liguei. Desci pra cozinha, joguei água fria no rosto, meio convencido de que tudo isso era só um pesadelo fodido. Conseguia ouvir o Jasper na banheira lá em cima e sabia que não era sonho. Enchi a tigela do Jasper com ração e voltei pro banheiro. Nem olhei direito pro que estava na minha banheira, deixei a tigela no chão e fechei a porta atrás de mim.

Eu não sabia o que fazer. As mudanças continuavam vindo. A cada dia ele parecia… menos um cachorro. As patas traseiras se alongaram. Os ombros se curvaram pra frente. O pescoço ficou mais grosso. Ele começou a andar mais como uma pessoa de quatro do que como um cachorro — devagar e deliberado.

Ele me olhava com aqueles olhos horríveis e cegos e balançava o rabo grosso e escamoso quando eu entrava. A respiração dele estava sempre pesada. Ele não conseguia mais latir — saía como um chiado gorgolejante, como se estivesse engasgando com alguma coisa bem lá no fundo. Eu o mudei pro porão, onde fiz uma cama com cobertores velhos e travesseiros antigos, e fiquei olhando enquanto ele se acomodava, ossos estalando e se torcendo enquanto ele se ajeitava.

E eu comecei a ter pesadelos. Sonhava com uma floresta escura. Com alguma coisa antiga, agachada atrás das árvores, me observando. A respiração dela soltava vapor no frio, e quando ela dava um passo à frente, eu via os olhos do Jasper no rosto dela. Acordava encharcado de suor, quase esperando que ele estivesse parado aos pés da minha cama.

Ele nunca estava, mas os sonhos continuavam, então acabei comprando correntes. Prendi elas na parede lá embaixo. Chorei enquanto fazia isso. Chorei ainda mais quando fechei a algema em volta do tornozelo inchado dele. Jasper soltou um som estrangulado que parecia metade ganido, metade soluço humano.

Duas semanas se passaram. Eu fiquei em casa e disse pro trabalho que tinha uma emergência familiar e que ia trabalhar de home office. Falei pros meus amigos que o Jasper tinha fugido. Parei de dormir. Ficava deitado na cama, olhando pro teto, escutando o som de unhas arranhando o concreto. Tentei ligar pra um veterinário anonimamente. Eles desligaram quando descrevi os sintomas.

Uma noite, peguei meu reflexo no espelho do banheiro. Minha pele estava pálida. Olhos com olheiras pretas. Parecia que eu tinha envelhecido cinco anos em quinze dias. Alguma coisa dentro de mim se quebrou. Desci pro porão com o taco e disse pra mim mesmo que estava na hora.

Ele estava encolhido no canto, acorrentado, respirando pesado. Quando me viu, levantou a cabeça e soltou aquele ganido suave de novo.

— Jasper — eu disse.

Ele levantou uma pata grotesca — mão? — e se arrastou pra ficar de pé. Alguma coisa estalou na coluna dele enquanto ele cambaleava pra frente.

Eu levantei o taco.

Ele parou. Sentou. E levantou uma das patas.

Aperto.

Era o truque que eu tinha ensinado pra ele quando era filhote. Agora parecia errado, o movimento era brusco, a pata terminando em dedos com garras. Mas estava ali. O gesto.

— Jesus Cristo — sussurrei. Caí de joelhos e chorei até não conseguir mais respirar.

Ele se arrastou pra frente e deitou a cabeça enorme e deformada no meu colo.

Isso foi há três meses.

As correntes sumiram. Às vezes eu deixo a porta dos fundos entreaberta à noite pra ele poder sair pro quintal. Ele sempre volta antes do sol nascer.

Os olhos dele começaram a ficar castanhos de novo. Não humanos e nem de cachorro, mas algo no meio. Às vezes, quando eu dou comida pra ele, ele senta do jeito que sentava antes e eu juro que vi o rabo dele balançar na semana passada. Eu li todos os fóruns, todos os sites de ocultismo, todos os casos médicos bizarros. Nada explica isso. Nada ajuda.

Mas… ele ainda é o Jasper. Eu sei que ainda é ele. É o meu Jasper.

Outra noite, acordei e encontrei ele aos pés da minha cama.

Não estava de pé. Não estava pairando. Só sentado, me observando. Eu deveria ter gritado, talvez até pegado o taco. Mas em vez disso eu falei:

— E aí, parceiro.

E ele soltou aquele mesmo ganido quebrado. Depois abaixou a cabeça enorme pro chão e eu voltei a dormir. A cama dele, aquela cinza felpuda grande que ele sempre amou, está de volta no lugar, aos pés da minha cama.

Olha, eu sei como tudo isso soa. Sei que nada disso faz sentido. Mas eu simplesmente não ligo mais. No que o Jasper se transformou, seja lá o que ele for agora… ele ainda é o meu cachorro.

sábado, 11 de abril de 2026

Os Substitutos

Eu nunca quis as câmeras. Quem quis foi a Sarah.

Depois do arrombamento na casa dois números depois da nossa, ela não conseguia mais dormir. “Só a da campainha e duas internas,” ela disse, segurando o celular como se fosse a salvação da humanidade. “Ring. Barato. Fácil.” Eu estava destruído de tanto fazer turno de doze horas no design e ainda cuidar de duas crianças com menos de oito anos, então acabei cedendo. Vinte minutos no aplicativo, uns parafusos e pronto: estávamos “seguros”.

A primeira semana foi chata de um jeito bom. O Tommy andava de bicicleta na entrada de casa. A Emma girava na sala ao som da música que ela amava. A Sarah acenava pra câmera da campainha quando ia pegar a correspondência. Eu checava o app no trabalho do mesmo jeito que os outros caras checam os placares dos jogos. Parecia normal. Reconfortante.

Até que chegou a terça-feira, quando eu trabalhei até tarde.

Às 21h47, meu celular vibrou com um alerta de movimento na sala. Abri o vídeo achando que ia ver o sofá vazio. Em vez disso, vi a Sarah sentada de pernas cruzadas no chão, ajudando a Emma a montar uma torre de blocos. O Tommy estava esparramado do lado deles, rindo de alguma coisa no tablet. O horário marcava que eles já deveriam estar dormindo há uma hora. Mesmo assim, eu sorri. Era fofo eles terem ficado acordados. Mandei mensagem pra Sarah: “Vocês viraram corujas da noite hoje, hein?”

Ela respondeu na hora: “As crianças estão na cama desde as 8. Eu já tô deitada lendo. Dirige com cuidado.”

Eu fiquei olhando pras duas mensagens, depois voltei pro vídeo. Na tela, a Sarah olhou direto pra câmera e deu aquele sorrisinho apertado que ela faz quando está fingindo que está tudo bem. Era o mesmo sorrisinho tenso que ela me deu na noite em que descobrimos que a Emma ia precisar de cirurgia.

Falei pra mim mesmo que era só um glitch, atraso na nuvem ou carimbo de data errado.

Na quarta-feira aconteceu a mesma merda. Eu estava preso no trânsito quando vi movimento na cozinha. A família na câmera estava comendo sorvete direto do pote às 22h12. O cabelo da Sarah estava preso num rabo de cavalo que ela não usa mais. O pijama da Emma tinha patinhos amarelos; eu tinha jogado aquilo fora meses atrás, quando ela cresceu e não serviu mais.

Quando eu entrei em casa, tudo estava escuro e em silêncio. A Sarah me encontrou no corredor vestindo a camisa velha de dormir. “Tem sobra na geladeira,” ela disse. Nenhum sorvete. Nenhum patinho.

Mostrei o vídeo pra ela. Ela assistiu duas vezes e depois deu uma risada nervosa, aquele mesmo riso que ela dá quando chega a fatura do cartão de crédito. “Que sinistro. Deve ser vídeo antigo.”

Mas o app não guarda vídeos antigos a menos que você pague a mais. E a gente não paga a mais.

Na quinta-feira eu comecei a testar. Saí do trabalho ao meio-dia, falei pra Sarah que tinha consulta no dentista e estacionei três quadras longe de casa. Abri o app e fiquei esperando.

Às 21h03, o alerta de movimento disparou na câmera do quintal dos fundos.

Lá estavam eles: minha família, brincando de pega-pega com lanterna no quintal como se fosse verão, e não uma noite fria de outubro. A risada do Tommy ecoava pelo alto-falante. A Sarah chamava o nome dele com aquela voz cantada que ela usa quando está irritada. Eu me vi saindo pela porta dos fundos na câmera, sorrindo e segurando uma lanterna. Só que eu estava sentado no meu carro, três quadras longe, com o coração batendo tão forte que sentia até nos dentes.

Dirigi pra casa. A casa real estava quieta. A Sarah estava dobrando roupa. As crianças já estavam na cama. Ninguém tinha saído pra fora.

Não dormi aquela noite.

Na sexta-feira eu já estava deletando o app toda manhã e reinstalando, torcendo pra que o glitch sumisse. Não sumiu. Os vídeos só ficavam mais nítidos e mais claros. Comecei a chamar eles de “os substitutos” na minha cabeça. E eles pareciam ter notado as câmeras.

No sábado à noite eu estava no sótão “organizando as decorações de Natal”. Na real, eu estava agachado atrás de uma caixa de álbuns de foto antigos com o brilho do celular no mínimo. Às 23h19, todas as câmeras dispararam ao mesmo tempo.

Transmissão ao vivo.

A Sarah estava na sala, olhando direto pra lente. Não a Sarah de verdade, que estava dormindo lá embaixo, mas a outra. Os olhos dela estavam abertos demais. O sorriso estava errado, como se alguém estivesse usando o rosto dela pela primeira vez. Atrás dela, os substitutos das crianças estavam parados perfeitamente imóveis, com a cabeça inclinada no mesmo ângulo.

Eles começaram a andar na direção da câmera.

Eu ouvi passos na escada abaixo de mim. Passos reais. Leves. Cuidadosos. A voz da Sarah — a minha Sarah — chamou baixinho: “Alex? Tá tudo bem aí em cima?”

Na tela do celular, a Sarah substituta levantou um dedo até os lábios, fazendo “shhh” pra mim, mesmo eu não tendo feito barulho nenhum. Depois ela apontou direto pra lente, direto pra mim, e articulou três palavras que eu consegui ler perfeitamente na luz fraca:

“Ele está lá em cima.”

A porta do sótão rangeu e se abriu atrás de mim.

Eu não me virei. Não consegui. Meus olhos ficaram grudados na transmissão ao vivo. Nela, a família substituta subia as escadas em sincronia perfeita com os passos reais que eu agora ouvia nos degraus do sótão.

A voz da Sarah, quente e preocupada, disse: “Amor, as crianças estão perguntando onde você foi. Desce.”

Na tela, a Sarah substituta chegou no topo da escada e olhou direto pra câmera uma última vez. Ela sorriu do jeito que minha esposa sorri quando está prestes a dizer que me ama. Só que esse sorriso continuou crescendo. Mais largo. Dentes demais.

Finalmente eu me virei.

A Sarah de verdade estava parada na porta do sótão, iluminada por trás pela luz do corredor. Ela parecia exausta, linda e normal.

Atrás dela, três figuras esperavam na escada. Cópias perfeitas, com as mesmas roupas, o mesmo cabelo e os mesmos olhos cansados. Elas não estavam respirando.

A Sarah, a minha Sarah, olhou por cima do ombro pra elas e depois voltou pra mim. A voz dela saiu baixa: “Eles disseram que você ia entender com o tempo.”

Olhei pra baixo, pro meu celular. A transmissão ao vivo agora mostrava o sótão do ângulo da câmera. Mostrava eu parado ali, celular na mão, olhos arregalados.

E mostrava quatro figuras atrás de mim.

Uma delas levantou a mão e acenou.

A câmera da campainha apitou. Movimento na porta da frente.

Abri o novo alerta com os dedos tremendo.

Lá estava eu na varanda, sorrindo pra minha própria porta da frente como um estranho. A mesma camisa de flanela que eu estava vestindo agora. A mesma barba por fazer das cinco da tarde. Os mesmos olhos cansados.

Mas o eu da varanda levantou a mão e bateu três vezes. Educado. Paciente.

O substituto eu articulou as mesmas três palavras que a Sarah falsa tinha dito:

“Ele está lá em cima.”

Eu ouvi a porta da frente de verdade se abrindo lá embaixo.

O app tocou de novo com um novo alerta de movimento dentro de casa agora.

Eles estavam subindo.

Fechei o app. Não precisava mais assistir.

Porque em algum lugar no escuro, a versão de mim que acabou de entrar pela porta da frente já está sorrindo daquele sorriso errado, já está aprendendo a usar o meu rosto.

E as câmeras nunca mentem.

Elas só me mostraram exatamente quanto tempo eu ainda tenho antes de virar o glitch.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon