sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

10% das pessoas nem são pessoas de verdade...

Sou entomólogo, o que quer dizer que eu me dedico ao estudo dos insetos. Falar do meu trabalho costuma entediar as pessoas até quase chorarem, mas as crianças ficam absolutamente fascinadas com o que eu faço; por isso comecei a dar palestras educativas para escolas que visitam o museu local de história natural. Eu adorava inspirar a garotada sobre a classe biológica mais fascinante do reino animal.

Fascínio e terror não são coisas que se excluem, como eu aprendi seis meses atrás, e estou começando a desejar que meus amigos e minha família — sempre tão desinteressados — estivessem certos.

Seria melhor pra todo mundo se, de fato, não houvesse nada de extraordinário nos insetos.

Depois de uma das minhas palestras no museu, no fim do verão, um garoto esperou o professor se distrair com os colegas dele, aí se afastou do grupo e, meio tremendo de medo, me contou sobre a descoberta de um inseto novo: um com asas de um “branco esquisito” e que fazia um “zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção”.

Ele não foi a primeira criança empolgada (nem o primeiro adulto, inclusive) a achar, por engano, que tinha descoberto uma espécie nova — mas com certeza foi o primeiro a estar apavorado. O medo dele atiçou minha curiosidade, então quando ele mandou eu ir embaixo do píer da praia da cidade pra ver com meus próprios olhos o inseto de asas brancas, foi exatamente o que eu fiz.

Eu estava a uns bons 90 metros de distância quando avistei pela primeira vez os bichinhos de asas brancas. Eles emitiam um zumbido nauseantemente íntimo, como papel amassando dentro dos meus canais auditivos, como se estivessem mais perto de mim do que pareciam. Eu disse a mim mesmo que deviam ser moscas-brancas de estufa, mas insetos sugadores de seiva assim não teriam nada a ver com um píer de madeira caindo aos pedaços.

Além disso, a verdade é que não pareciam moscas-brancas.

Eram umas quatro vezes maiores do que deveriam ser, e aquele branco não era branco como eu já tivesse visto antes. “Branco esquisito”, como o garoto tinha chamado. Ainda assim, descartei isso como coisa da minha cabeça privada de sono, do mesmo jeito que descartei aquele som alienígena de papel enrugando — diferente de qualquer inseto que eu já tivesse ouvido. Um zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção. O garoto estava certo de novo. Eu já tinha atravessado aquele píer dezenas de vezes e provavelmente nunca ouvi os bichinhos, apesar de passar bem por cima deles. Só agora, que eu estava procurando e ouvindo com intenção, foi que eu tinha percebido.

E mesmo que eu tentasse ignorar todas essas estranhezas, tinha uma coisa impossível de ignorar: o jeito que eles fugiam.

Os insetos mergulharam no mar.

Eu devo ter ficado pálido. Eu nunca tinha visto nada parecido. Insetos suicidas? Eu levantei essa hipótese, mas fui até a água lambendo a beira da praia e não vi um único inseto afogado boiando na superfície. Os insetos voadores tinham nadado por baixo d’água e sumido.

Meus colegas riram da minha história de “inseto voador aquático”, e eu me peguei rindo junto. O mais perturbador é que a lembrança já estava ficando turva na minha cabeça. Era um tipo de letargia diferente de tudo que eu já tinha sentido. Eu sinceramente acredito que, se aquele garoto não tivesse voltado ao museu com os pais uma semana depois, meu cérebro teria apagado qualquer conhecimento do que eu vi e ouvi.

Os pais deram risadinhas enquanto o filho falava daquele inseto “novinho em folha”. Disseram que ele tinha imaginação demais, e eu dei um sorrisinho, concordando, mas aí o garoto disse uma coisa que gelou minha pele.

“Você já esqueceu, né? É isso que eles fazem.”

O pai bufou, debochado. “São só insetos, campeão. Tenho certeza de que o doutor Farrow consegue identificar a espécie.”

Os pais pediram desculpa por tomarem meu tempo e puxaram o garoto pra longe, mas as palavras dele desenterraram aquela memória abafada da minha visita ao píer. Eu me lembrei de ouvir um som impossível de descrever. Eu me lembrei de ver insetos, de uma cor impossível, mergulharem na água e desaparecerem.

Claro que, como cientista com os pés ainda fincados na realidade, eu achei que talvez estivesse tendo um surto psicótico. O único jeito de ter certeza era voltar ao píer mais tarde naquele mesmo dia.

Eu fui até a praia, parei à minha distância “segura” de uns 90 metros e observei as pessoas caminhando ao longo da passarela elevada do píer. Lá embaixo, não havia insetos — só uma mulher parada com o rosto esticado pra cima, tentando espiar pelas frestas entre as tábuas do píer acima dela. Ela se debatia de um jeito errático, movendo os membros duros e estalando os lábios, como um peixe dourado, como se estivesse tendo uma conversa muda com alguém. Eu segui a linha do olhar dela até uma mulher no píer; ela conversava com as amigas e gesticulava com entusiasmo, mexendo os braços.

A mulher lá embaixo estava imitando a mulher lá em cima.

Eu decidi que era como ver um bebê aprendendo com um adulto — só que aquilo era uma mulher adulta aprendendo com outra mulher adulta. Ela é uma mulher? veio um pensamento horrível quando eu encarei a imitadora embaixo do píer, e isso arrancou de mim um gemidinho involuntário de terror, lá do fundo. Foi um som baixo. Baixo demais pra alguém a 90 metros de distância ouvir. Mesmo assim, a mulher que imitava congelou na hora, como se estivesse brincando daquela brincadeira infantil de estátua.

Não passou nem um segundo, e ela virou o rosto na minha direção num estalo.

Os olhos dela eram inteiramente brancos; só esclera, sem pupilas. Um branco impossível, como o tom que eu só tinha visto uma vez na vida. E quando pedacinhos da pele dela começaram a se soltar, descamando, carregados pelo vento na minha direção, eu percebi que eram insetos.

Eu percebi que ela era insetos.

Eu disparei pro estacionamento da praia, sem fôlego demais até pra gritar. Mas quando eu virei pra olhar pra trás, não tinha nada além de um pedestre preocupado — provavelmente tentando entender por que eu estava tão desesperado pra chegar no meu carro. Não havia insetos de asas brancas. Não havia mulher.

A partir daquele dia, eu me esforcei de verdade pra evitar aquela cidade litorânea e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Esquecer os insetos. Esquecer o garoto. Voltar pra ignorância feliz, por mais que isso fosse contra meus princípios científicos. Meu medo engoliu minha curiosidade.

Esquecer funcionou — até certo ponto. Aquele lodo misterioso voltou pra minha cabeça, afogando minhas memórias; sempre acreditei que era um mecanismo de defesa dos insetos.

Mesmo assim, algumas semanas depois, enquanto eu dirigia por uma cidade próxima, eu vi ela atravessando a rua: a mulher debaixo do píer. Quando eu parei, ela parou também, e virou a cabeça pra me mostrar os olhos — que não eram mais vazios brancos. Tinham pupilas castanhas por cima do branco. Ela parecia humana, se movia como humana, e eu tinha certeza de que também soaria humana. Mas eu vi a falsidade daqueles olhos e o sorriso embaixo deles, e quando eu realmente escutei, eu ouvi de novo: aquele som de papel amassando, se enfiando pelas frestas da lataria do meu carro pra afogar o interior do veículo.

O zumbido enlouquecedor dos insetos aquáticos de asas brancas parecia quase carregar, escondido no chiado, um aviso; parecia quase carregar palavras.

A gente se vê.

Por um instante, eu achei que ela ia se jogar com o corpo em cima do capô. Minha garganta inchou e quase fechou de terror enquanto eu esperava ela fazer isso — e ela com certeza comunicou essa vontade com os olhos. Graças a Deus, ela terminou de atravessar a rua, então eu pisei fundo no acelerador, acreditando que tinha escapado dela ileso mais uma vez. Aí eu olhei no retrovisor e soltei um soluço apavorado.

Sangue estava escorrendo dos meus ouvidos.

As palavras sussurradas dela, de papel, tinham me cortado.

Eu consegui esquecer de novo, porque aquele lodo preto de memória era uma bênção tanto quanto era um horror. Mas não dá pra esquecer pra sempre. Acho que, como aquele garoto no museu, eu abri a Caixa de Pandora. Não importa quantas vezes eu enterrasse os insetos e a mulher, alguma coisa sempre vinha com uma concha e puxava o lodo pra servir a verdade de novo. Aquele som de papel amassando me perseguia, e sempre que eu ia atrás da fonte, eu acabava vendo alguém que não parecia totalmente certo: escleróticas meio encardidas e movimentos estranhamente ensaiados.

Foi quando eu parei de me esconder disso. Eu gravei áudio daquele som estranho de papel enrugando em público e tirei fotos às escondidas de desconhecidos com olhos estranhos. Eu enchi o saco de outros cientistas com o que eu tinha encontrado, e bastou uma semana pra o instituto me mandar embora, alegando uma suposta “preocupação com seu bem-estar mental”.

Alguns colegas prometeram, com um ar de desculpas, que não estavam sendo teimosos nem fazendo de conta que não viam. Eles também estavam inquietos com meus dados sobre essa espécie de inseto não classificada, mas algum “chefão” do instituto tinha ameaçado que eles largassem isso pra lá — ou seriam mandados embora comigo.

Um colega chegou a dizer que tinha cavado um pouco e descoberto incidentes parecidos em outros institutos científicos. “Meu conselho? Para de cavar agora, doutor Farrow. Agradece pelo que você ainda tem. Já ouvi falar de pesquisadores tendo destinos piores do que uma demissão forçada.”

Eu me senti justificado. Claro que não era só um garotinho que sabia dos insetos.

Gente poderosa está encobrindo isso.

Gente que, eu temo, talvez nem seja gente.

Olha só: nos últimos cinco meses, eu venho torrando minhas economias numa caça por respostas. Tenho viajado de continente em continente, país por país, cidade por cidade, e município por município. Tenho estudado pessoas por horas todos os dias: gravando, fotografando e chegando perto de assediar, eu admito. Eu quase não dormi. Quase não comi. E depois de compilar dados de 36.794 “pessoas” ao longo de 189 dias, sabe o que eu descobri?

3.707 indivíduos tinham olhos com uma coloração estranha ou, quando eu realmente escutava, emitiam aquele zumbido de papel amassando; e eram sempre as “pessoas” que me encaravam com sorrisos duros, inabaláveis, e a maior desconfiança. Muitos paravam onde estavam e sussurravam ameaças horríveis com suas vozes de papel, fatiando meus canais auditivos e fazendo o sangue escorrer livre. Uma ou duas vezes, os mais ousados chegaram a avançar pra cima de mim, e eu saí correndo, morrendo de medo.

Eu encontrei 3.704 não humanos que pareciam humanos.

10%.

10% das pessoas vêm do mar como insetos de asas brancas, imitam nossos comportamentos e depois viram a gente.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade.

Os cervos não gostam de mim...

Eles têm me encarado.

Pra contextualizar, eu moro numa cidadezinha pequena em West Virginia. Uma velha cidade mineradora de carvão com tipo umas mil pessoas. Sou sortudo pra caralho porque tenho uma grana depois de trabalhar um tempo em tech, então consigo viver confortavelmente enquanto os outros estão se ferrando. Então eu tenho uma casa bem decente na saída da cidade, onde moro com minha esposa.

As matas ao nosso redor são lindas pra porra. Na real, a gente escolheu esse lugar pela beleza natural das colinas. É quieto aqui, quase quieto demais, que era exatamente o que a gente queria depois de passar anos em San Fran. Um cantinho só nosso pra curtir um pouco de paz.

Quer dizer… Nosso vizinho mais próximo fica tipo meio quilômetro de distância. Jason, um cara ótimo. Ou era, pelo menos.

Eu tava sentado na varanda dos fundos outra noite com ela, a gente curtindo uma cerveja e batendo papo (a gente já tem essa rotininha de fim de dia), e foi aí que eu ouvi pela primeira vez.

Tinha tipo um som. Não sei bem como descrever. É tipo um rangido, um gemido, ou um zumbido. Meio os dois? Vinha lá do fundo da mata e parecia bem distante. Ela e eu brincamos que eram aliens e não pensamos muito nisso, sinceramente. Quer dizer, coisas estranhas acontecem na mata às vezes, então a gente ficou nas cadeiras de balanço, tomou nossas cervejas e só escutou um tempo.

Depois de uns 30 minutos, parou, e foi isso. A gente entrou, foi pra cama e deu o dia por encerrado. Tudo ficou quieto por um tempo depois disso.

Passa mais ou menos uma semana e as coisas estão normais. Mas uma noite, enquanto eu voltava da loja pra fazer nossa coisinha na varanda, eu ouço de novo. Aquele rangido, aquele gemido de zumbido. Obviamente eu olhei pra trás pras matas, mas não consegui ver nada além de um dos cervos que perambulam pela área. Ele me olhou e saiu correndo, e eu entrei.

Eu lembro de ter contado pra minha esposa que tinha ouvido de novo, e ela disse algo tipo:  
— Talvez seja maquinaria velha de mineração.

Eu perguntei o que ela queria dizer, e ela falou:  
— Bom, eles mineravam carvão na área antigamente. Tem um monte de minas por aqui, talvez alguma coisa esteja acontecendo com as máquinas que eles usavam.

Ela não tá errada; tem um monte de minas de carvão velhas na área. Não que eu soubesse muita coisa sobre isso, mas eu sabia quem saberia. Lembra do Jason? O cara mora aqui a vida inteira, e eu tinha o número dele, então liguei do celular.

Não consegui falar com ele. O sinal tava ruim. Acho que acontece às vezes, mas eu senti uma sensação estranha, rastejante no estômago. Então eu disse pra minha esposa que ia fazer uma visita pra ele, e ela falou que ia manter a cerveja gelada pra mim.

Eu entrei na minha caminhonetinha e fui na direção dele. Agora, Jason é tipo um grandalhão montanhoso, e a esposa dele é uma mulherzinha magrinha que tá sempre do lado dele. Mas quando eu cheguei na entrada de terra da casa dele, eu fui parado pelos faróis.

Ele parou o carro e saiu. Eu fiz o mesmo.

— E aí? — perguntei pra ele. — Tá meio tarde pra tá saindo, né?

E ele só meio que me encara e balança a cabeça.  
— Você ouviu isso?

Eu assumi que ele tava falando do zumbido, então eu disse que sim e perguntei o que era.

Em resposta, ele aponta pras matas, pra um cervo que tá nos encarando direto. No momento que a gente trava o olhar com ele, o cervo sai correndo. Eu achei que era whatever, mas o Jason parecia pensar diferente.  
— Não é normal — ele disse.

— O que não é normal?

E ele cospe e vai:  
— Os cervos. Eles não tão se comportando direito.

— O quê, você acha que o barulho tá assustando eles?

Eu achei que ele ia dizer sim, mas ele só meio que encarou de novo pras matas, onde o cervo tava antes. Depois de um momento ele olhou de volta pra mim e disse:  
— Os cervos não fazem isso.

— Encarar?

Ele assente.  
— Eles não encaram assim.

Eu não faço ideia do que ele tá falando, então eu meio que dei pra ele um olhar de confusão. Mas antes que eu pudesse pedir clareza, ele me diz:  
— É melhor você ir pra casa.

— Por quê?

— Porque cervos não encaram assim.

O-kay? Eu achei melhor deixar ele em paz, ele não parecia bem essa noite. Então eu dei meia-volta e fui embora, cheguei em casa e abri uma cerveja com minha esposa.

Eu contei pra ela o que ele disse, e ela falou:  
— Bom, eu tenho notado mais cervos ultimamente. E eles ficam meio que encarando.

Eu perguntei o que ela queria dizer.

— Eu tava na cidade ontem e vi dois cervos me encarando pelo canto do olho, e quando eu olhei pra eles, eles só meio que saíram correndo.

Huh. Bom. Eu não sabia o que dizer pra isso. Então a gente foi pra cama depois de um tempo de silêncio, salvo pelo zumbido, claro. Isso parou lá pelas dez da noite.

No dia seguinte, eu acordei e desci pra fazer café. Eu tava incrivelmente grogue, como de costume, e então eu não notei de primeira, mas… bom, eu senti essa sensação afundando de estar sendo observado. E pelo canto do olho, eu vi um cervo me encarando direto pela janela da cozinha.

No momento que eu olhei nos olhos dele, eu soube que tinha alguma coisa errada. Ele tava me observando como se estivesse pensando. E assim que eu percebi isso, eu senti um calafrio que me fez tremer, como se eu não estivesse olhando pra um animal de verdade. E então ele só… saiu correndo.

Foda-se o café. Eu peguei as chaves e a carteira, entrei no carro e fui direto pra casa do Jason. Eu literalmente *bati* na porta tipo às oito da manhã. E quando ele atendeu, ele tinha esse olhar nos olhos, um olhar cansado, exausto. Olhos vermelhos, olheiras, um ar de esgotamento total.

Ele me puxou pra dentro rápido.

— Que porra tá acontecendo — eu perguntei.

E ele me leva pra cozinha e me diz:  
— Os cervos não tão certos.

Foi aí que eu notei que ele tem uma espingarda no balcão. E uma perto da porta. E uma 9mm na cintura.

— O que isso significa?

E ele balança a cabeça e diz:  
— Você e sua esposa deviam dar o fora daqui. Os cervos não gostam de você.

— Quem se importa se os cervos não gostam de whatever — eu disse. — Eles são só cervos.

Assentindo, ele meio que morde o lábio, então diz:  
— É, bom, aquele barulho não é só um barulho.

Eu sinto que ele tá super reservado, e eu só sinto um desconforto profundo me invadir. Como se eu não fosse bem-vindo. Isso vindo de um cara que só foi bondade com minha esposa e comigo, então era bem notável.

— Tá bom, bom, então eu vou indo — eu digo pra ele. Mas ele põe a mão no meu braço enquanto eu vou saindo.

— Não sem isso você não vai. — E ele me entrega a espingarda do balcão. Também me dá dois cartuchos — só dois. — Agora vai.

Eu não conto nada pra minha esposa o dia todo, mas acabo cedendo naquela noite quando a gente tá na varanda dos fundos ouvindo o zumbido de novo. Eu despejo tudo pra ela: os cervos, o “aviso” que o Jason me deu, a espingarda… e ela me encara boquiaberta.

Mas antes que ela pudesse falar, eu vejo outro cervo filho da puta na mata dos fundos, só me encarando. Ele não tá se mexendo, mal tá respirando. Só tá nos encarando. E na luz da varanda refletida nos olhos dele, eu consigo ver alguma coisa… humana. Ou pelo menos inteligente. Não sei descrever de outro jeito.

Mas onde eles normalmente saem correndo quando eu noto eles, esse aí só continuou encarando. E encarando. E encarando. Eu olho pra minha esposa, que tá encarando de volta.

— O que tem de errado com ele? — ela me pergunta.

— Não tenho certeza. Mas eu não gosto disso.

A gente entra e eu pego a espingarda, decidindo que já cansei. E eu volto pra fora, e agora tem dois cervos lá, bem fora do círculo de luz da varanda, encarando. Nem fodendo, penso eu, então eu armo a arma e atiro neles.

Eu juro que acertei um bem no corpo. Ele devia ter caído morto ali mesmo, mas não caiu, e em vez disso só saiu correndo. Como se o chumbo tivesse atravessado ele. Eu corri atrás um pouco, na direção da fonte do zumbido, só um pedaço, mas não vi nenhuma marca nas árvores nem nada. Eu *sei* que acertei aquele cervo.

Sem sangue, nem nada.

Então eu corro de volta pra dentro. Agora tem alguma coisa errada, isso eu sei, mas quando eu entro, minha esposa tá na janela da frente me chamando.

— Amor — ela diz —, tem mais cervos lá na frente.

Eu corro pra olhar e com certeza, tem três cervos lá fora, encarando *direto* pra gente. E eu não sei se tô imaginando, mas juro que vi um deles formar a palavra “Shaun” com a boca.

Meu nome é Shaun.

A gente tranca todas as portas e sobe pro quarto, onde a gente se barricada usando um baú velho do pé da nossa cama. Pela janela, eu consigo ver mais cervos se juntando lá fora.

Todos eles encarando direto pra cima, pra gente.

O zumbido tá ficando mais alto também.

Eu digo pra minha esposa que a gente devia revezar pra dormir e ela concorda, e a gente decide cair fora de manhã. Ela dorme primeiro. Os cervos ficam lá a noite toda.

Por volta da uma da manhã, eu acordo ela pra trocar. A gente faz isso, e eu caio no sono, mas acordo de novo tipo às três. E ela sumiu. A porta tá aberta, e ela sumiu.

Mas na fresta da porta, um cervo filho da puta tá me encarando com aqueles olhos humanos. Eu gritei. Eu gritei como nunca gritei antes.

Isso pareceu assustar ele e eu pulei da cama e acendi todas as luzes. Eu chamei pela minha esposa, e não tive resposta. O zumbido parou. Tudo ficou quieto. E eu me senti mais sozinho do que nunca na vida. Sozinho e com medo.

Eu fico acordado até o sol nascer, e começo a procurar minha esposa. Já estamos no hoje nesse ponto. Eu tento ligar pro Jason de novo, e dessa vez tenho sinal.

— Minha esposa sumiu! — eu choro pra ele quando ele atende.

E ele literalmente só diz:  
— Os cervos não gostam de você — e desliga.

Agora eu tô sozinho na minha casa, e tenho que encontrar minha esposa. Nossa caminhonete ainda tá aqui então ela não deve ter ido longe… então eu me armo e vou pra onde o zumbido tá vindo. Não sei o que mais fazer…

Depois de tipo 30 minutos de estrada de terra ruim e pedregosa, eu encontro com certeza: uma mina velha cercada por uma cerca de arame enferrujada. Tá bem quieto aqui, mas em algum lugar lá no fundo, em algum lugar obscuro, eu consigo ouvir. Aquele rangido zumbido. Tipo engrenagens mecânicas chorando por óleo.

A cerca é resistente, mas a frente da minha caminhonete é mais. Eu bati naquela coisa com força total, e acabei numa encosta de mina com poços de madeira velhos e correias transportadoras que provavelmente não são usadas desde os anos 60.

Fodeu a caminhonete pra caralho, porém. Eu peguei a espingarda do banco, um cartucho sobrando, me sentindo impotente e morrendo de medo pra cacete.

— Amor? — eu chamei.

Nada.

Nada além do zumbido, lá no fundo da Terra.

Eu vasculhei o lugar todo, de cima a baixo, antes de encontrar a entrada da mina em si. E eu conseguia ouvir, aquele barulho horrível, lá no fundo.

— Amor?!

Ecoou nas paredes, ricocheteou pra dentro e através. E nesse momento, o zumbido parou. Simplesmente parou completamente. Eu encarei o poço da mina, parado na frente das portas de metal abertas, um cartucho na câmara.

E então eu vejo eles. Os olhos dos cervos. Não um. Não dois. Mas dezenas de cervos, todos piscando pra existência dentro da escuridão lá dentro. O da frente, porém, embora eu não conseguisse ver o corpo dele…

Bom, eu sei como são os olhos da minha esposa.

Eu gritei. Eu corri e gritei.

Eu entrei de volta na caminhonete tão rápido e tentei ligar o motor, mas acho que minha manobra com o portão fodeu o motor pra valer. Eu consegui fazer ele pegar, e mal e mal saí de lá com meu juízo, mas na metade do caminho pra casa ele pifou em mim.

E agora estamos aqui. Tá escurecendo, eu tô na mata, e tenho um cartucho de espingarda sobrando. Tentei ligar pro Jason, mas não tenho sinal de novo. Eu tô chorando. Não tem como eu voltar andando à noite nesse ponto.

E eu consigo ouvir o zumbido gemido ficando mais alto enquanto o sol continua a se pôr.

Eu consigo ver eles. Olhos de cervo nas árvores. Eles tão me encarando. Acho que eles tão esperando.

Não sei o que mais fazer. Mas tenho um cartucho de espingarda, e vou fazer ele valer. Tô com medo, mas não vou cair assim. Os cervos não vão me pegar.

Eu tô escrevendo isso pra avisar as pessoas. Quando alguém disser “os cervos não gostam de você”, não fica pra descobrir por quê. Por favor. Eu imploro.

Porque esses não são cervos.

E eles não gostam de mim.

Eles acabaram de piscar pra mim.

Vou fazer esse cartucho valer.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Diabo Está Vivo no Mississippi

Quando eu era só um moleque, minha mãe me deu um violão no meu décimo aniversário. Ela pegou aquele velho acústico de segunda mão, gastou todo o dinheiro das gorjetas do restaurante nele. A coisa estava gasta pra caralho e não segurava um tom porra nenhuma. Ele ficava estranho no meu colo pequeno, grande demais pra um garoto da minha idade, mas era um presente da minha mãe e eu amava minha mãe, então eu amava ele. Eu tocava todo santo dia.

“Continua tocando, garoto, e um dia você vai fazer algo grande de si mesmo”, ela costumava dizer enquanto eu me atrapalhava no braço do violão.

A gente não tinha dinheiro pra aulas, então conforme eu fui crescendo, ia pro centro da cidade pra ver os músicos de rua tocando. Se eu tivesse um dólar, colocava no jarro de um deles e pedia dicas. Eu era determinado. Eu nunca quis ser uma estrela do rock e aprender violão não mudou isso. Eu não ligava muito pra ideia de ficar famoso, só queria ser bom em alguma coisa.

A necessidade muda um homem. Conforme eu envelhecia, a vida tinha me tratado mal, e isso era quase tudo culpa minha. Eu nunca fui muito de estudar, consegui passar no ensino médio por um triz, mas faculdade estava fora de questão. Segurar um emprego das nove às cinco? Porra, isso também não era pra mim. Eu não tinha ética de trabalho nem motivação acadêmica, mas o que eu tinha era a música. Pra meu crédito, eu nunca parei de tocar aquele violão e agora, eu tocava pra caralho de bom.

A música não estava me deixando rico, mas estava colocando comida na mesa. Eu tocava nas ruas e em bares e restaurantes locais. Atrai multidões grandes o suficiente pros estabelecimentos continuarem me chamando de volta e, entre comida e bebida de graça e as gorjetas, eu estava ganhando a vida.

Eu soube que o Sr. Carwile era problema no segundo em que ele se aproximou de mim. O olhar nos olhos dele quando apertou minha mão disse tudo. Ele não estava olhando pra um igual, mas pra uma ferramenta, uma oportunidade. Eu deveria ter mandado ele se foder, mas meu set tinha acabado, eu estava com algumas cervejas na cabeça e num humor amigável, então escutei o que ele tinha a dizer.

O Sr. Carwile e seus sócios eram donos de um pequeno clube e cassino na cidade e ele me disse que eu podia ser o músico residente do lounge deles. Eu tocaria várias noites por semana, sempre que não tivesse algum artista de fora agendado. Tenho que admitir que parecia ótimo. Eu ainda ia ganhar comida e bebida de graça, mas finalmente teria a promessa de um pagamento fixo todo mês, além das gorjetas. O Wesley disse que eu ainda ganhava um bônus mensal em fichas da casa pra usar no cassino. Aquela merda era uma armadilha óbvia e eu caí direitinho.

Jogar era um vício que eu não tinha habilidade pra controlar. Eu queimava meus bônus como fogo em mato seco todo mês. Logo comecei a colocar meu próprio dinheiro no cassino, estava viciado. Eventualmente o Sr. Carwile me ofereceu um adiantamento, e como um idiota eu aceitei. Minha dívida foi se acumulando e, quando eu finalmente percebi que era um problema, eles puxaram o tapete debaixo de mim. Um dia o lounge precisava de um músico, no outro dia não precisava mais. Me informaram que, como eu não era mais funcionário, precisava pagar tudo o que devia imediatamente. Quando eu não consegui, uns filhos da puta apareceram na minha casa e me deram uma surra da porra. Um filho da puta feio com olho preguiçoso me segurou em cima da minha própria mesa da cozinha e enfiou meus dedos numa tesoura de cortar carne. Eu chorei lágrimas de verdade pela primeira vez em uma década e implorei pra ele não cortar meus dedos. Aqueles caras riram da minha desgraça e levaram tudo de valor que eu tinha. Me deram um mês e me deixaram sem nada. Só as roupas do corpo e o violão da minha mãe.

No interior do Mississippi, quando toda esperança acaba e um homem está realmente no fundo do poço, só resta uma coisa pra ele fazer. Numa encruzilhada poeirenta, eu fiquei no meio da noite e ofereci a única coisa que me restava, derramando meu sangue na terra.

A Bíblia diz que o Diabo vem como um leão que ruge, mas o que apareceu pra mim tomou a forma de uma sombra sorridente. Ele respondeu meu chamado com um olhar de divertimento no rosto. Eu estendi aquele velho violão acústico e implorei. Eu queria a fama, eu precisava da fama, sem ela eu era um homem morto. Uma gargalhada explodiu como trovão rolando pelo vale enquanto aquela velha Serpente rejeitou minha proposta. Minha mãe, que Deus a tenha, tinha me batizado quando eu era bebê. Desgraçado que eu era, eu já estava comprometido. Ele não quis nada comigo. Meu problema era só meu.

Eu estava tocando na rua em frente a um pub local quando eles me pegaram de novo. Diabo ou não, eu tentei pra caralho recuperar o que devia, mas ainda não era suficiente. Meus punhos estavam cerrados enquanto eles me chutavam e pisoteavam contra o meio-fio. Eles podiam quebrar meu corpo, mas eu não podia deixar eles pegarem meus dedos. Talvez minha cabeça estivesse rodando por causa da surra, mas enquanto aqueles gorilas me enchiam de porrada, eu juro que vi aquela sombra atrás deles, observando e rindo.

Eu fiz uma oração infernal silenciosa, oferecendo um último pedido, um acordo final com as forças além do véu, antes de me prostrar aos pés dos meus agressores.

“Espera, por favor… só… só me deixa tocar mais uma vez”, eu resmunguei, com a voz rouca e a respiração falhando por causa do que eles tinham feito nas minhas costelas. “Mais um show, me deixa tocar mais uma vez e eu juro que consigo recuperar o que devo, por favor.”

A ganância falou mais alto que a maldade naquele dia e me rendeu um adiamento da execução.

Eu estava andando mancando quando subi no palco do lounge. Só levou um segundo pra eu perceber que estava num covil de leões. O Sr. Carwile e seus associados estavam na plateia, junto com os capangas deles e alguns amigos e apostadores grandes que tinham ganhado as graças deles. Não tinha um único cliente pagante na plateia. Uma piada final à minha custa. Eu manquei até o equipamento da casa e peguei a Les Paul preta do suporte.

“Calma aí, garoto”, o Sr. Carwile me chamou, com um sorrisinho de deboche no rosto. “Você não trabalha mais aqui, isso é equipamento da casa, você tem que usar o seu.”

Eu vi a sombra no fundo da sala, sorrindo.

Ela acenou com a cabeça pra mim e um sorriso determinado surgiu no meu rosto. Eu peguei o violão da minha mãe e comecei a tocar.

Eu soltei uma linha pesada nas cordas graves, a linha mais pesada que eu já tinha tocado na vida. O ritmo grave rangia e rosnava, distorcendo conforme eu queria. Eu estava tocando o velho acústico da minha mãe, mas não importava, meu desejo tinha sido concedido. O ritmo explodia pelo lounge como se tivesse um sistema de som completo por trás. Agora eu tinha um demônio nas minhas cordas e ia soltar ele. Os olhos da plateia se arregalaram com a minha performance. O ritmo se infiltrava na mente deles, nas almas deles.

Um cara jovem na primeira fila foi o primeiro a se animar, recém-saído da faculdade, cheio de vida, comprando o caminho pro topo com o dinheiro do pai. Ele tinha uma garota bonitinha no braço e os dois estavam cheios de desejo, dava pra ver nos olhos deles. Eles se agarraram e rasgaram as roupas um do outro e subiram no palco. Ele comeu ela ali mesmo, sem camisinha, bem aos meus pés, fodendo como um cervo no cio enquanto eu aumentava o tempo. Gemidos de prazer se misturavam com os lamentos dos meus dedos dedilhando enquanto eu tocava uma melodia, levando o casal cada vez mais perto do clímax. Eu cortei o orgasmo deles com um pinch harmonic abrupto. O violão guinchou e um som profano ecoou pela sala inteira. Os gemidos de prazer do casal viraram gritos de dor. O cara jovem cedeu aos desejos mais sombrios e passou os braços em volta do pescoço da garota e começou a apertar.

Eu voltei pro meu riff de baixo. A mulher gritou e arranhou ele, o desejo dela se transformando em ódio. Ela revidou com ferocidade, furando os olhos dele e destruindo o rosto dele antes que ele esmagasse a traqueia dela.

A sala toda estava em transe, mas os capangas e pistoleiros foram os próximos a se perder completamente no meu feitiço. Meus dedos sangravam enquanto eu rasgava um arpejo triste por cima da multidão. Toda a ganância e as mentiras, a violência e as traições, tudo aquilo fervia dentro deles e transbordava. Seus piores eus sendo forçados à superfície conforme eu tocava. O demônio que eu soltei apertava as almas deles e sussurrava blasfêmias nas mentes, forçando eles a agirem conforme seus desejos mais baixos.

Aqueles homens malignos que sentiam prazer distorcido em quebrar ossos e rasgar carne em nome do dólar todo-poderoso agora viravam aquela raiva uns contra os outros. Com facas e punhos nus, eles se despedaçaram e decoraram meu palco com sangue. Eu nem precisava mais improvisar, só mantinha o ritmo grave vindo, a sala já estava perdida demais.

Eu dei um passo pro lado quando dois caras rolaram pro palco. Os mesmos filhos da puta que tinham me espancado na rua agora lutavam um contra o outro, se agarrando e se contorcendo pelo controle, com intenção clara de matar nos olhos. Eu sorri quando o filho da puta do olho preguiçoso que tinha gostado tanto das minhas lágrimas perdeu o controle e ficou por baixo. O outro homem montou nele e transformou o rosto dele numa polpa irreconhecível, batendo os nós dos dedos até sangrar no crânio do olho preguiçoso no ritmo do meu violão.

Fumaça de pólvora encheu o ar. Os executivos e os chefões estavam se virando uns contra os outros, gerações de traição nojenta, agora convencidos de que precisavam eliminar a concorrência. Eu assisti quando o crânio de um velho explodiu por trás, uma ponta oca se fragmentou no crânio dele e espirrou a sala com pedaços de osso e massa cinzenta. Seu sócio de negócios que virou executor riu de prazer, só pra encontrar o mesmo destino nas mãos de outro na fileira de trás.

O Sr. Carwile se levantou e se aproximou do palco. Um homem que nunca me viu como pessoa, um homem que não teria me deixado lamber a merda do sapato dele nem se isso me salvasse da fome, agora se ajoelhava no meu altar de depravação. Eu deixei o violão uivar enquanto ele cortava a própria garganta aos meus pés.

Eu continuei tocando até que todos eles caíssem pela música, parando só quando restamos eu e a sombra. O silêncio parecia denso enquanto eu olhava para o massacre do palco. O lounge tinha virado um matadouro profano. O sangue deles, as lágrimas deles, o sêmen deles; eles tinham derramado tudo por mim e agora jaziam em ruínas. O diabo pode não ter me querido, mas eu ofereci a ele um acordo diferente. Quando ele me seguiu naquele poço de pecado e viu o mal que habitava no coração daqueles homens, bom, ele simplesmente não conseguiu resistir. Eu senti a sala esfriar enquanto a sombra oferecia uma única rodada de aplausos, o sorriso se abrindo mais largo do que nunca. Eu inclinei a cabeça num cumprimento educado e saí do palco.

O diabo levou as almas dele, e eu dei o fora.

Eu ainda não sou famoso, nosso acordo foi de uma única vez, ou pelo menos era o que eu pensava. Às vezes quando estou tocando consigo ver aquele olhar começando a voltar em certos rostos na plateia. Eu tive que cortar tantas apresentações no meio que agora só toco nas ruas. Dizem que você nunca sabe o que realmente tem dentro de uma pessoa, mas eu sei, e a verdade é feia. O diabo paira sobre mim como um urubu, esperando pra pegar a carniça que eu deixo pra trás. Às vezes, quando tem uma plateia especialmente podre, eu termino meu set e alimento o velho desgraçado. Talvez esse seja o poder que ele tem sobre mim, torcendo meu próprio ódio só o suficiente pra eu fazer o papel de juiz.

Eu sei que tenho sorte de ainda ter minha alma, mas eu quero ser livre de novo. Acho que tem um pouco dessa ganância em todos nós. Eu nunca fui muito de livros ou computadores, mas agora tô aqui fazendo minha pesquisa. Um homem santo de verdade é mais difícil de encontrar do que você pode imaginar. Vou continuar procurando e qualquer ajuda que vocês puderem dar é bem-vinda. Até lá, se vocês ouvirem um cara tocando nas ruas do Mississippi, coloquem um dólar no jarro dele, vocês podem estar me pagando o almoço. Não é o ideal, mas vou continuar seguindo em frente, com o diabo nas minhas costas e um demônio nas minhas cordas.

Não consigo lembrar onde eu tô...

Meu nome é Travis. Tô postando isso aqui porque, estranhamente, é a única coisa no meu celular que parece estar funcionando agora. Tô encolhido debaixo de uma pilha de casca de árvore numa vala. Tá tão frio aqui… Nada disso faz o menor sentido… Vou começar do começo na esperança de que alguém consiga refazer meus passos e me encontrar. Se é que eu posso ser encontrado… Nem tenho mais certeza se eu ainda existo…

Eu saí com todo o equipamento essencial pra acampar: barraca, comida e o resto, não vou ficar listando tudo. Não é importante mesmo. Entrei no meu carro e dirigi até aqui. Sou campista experiente, já fiz várias viagens de acampamento disperso sozinho. Não fiz nada doido. Simplesmente estacionei o carro no começo da trilha e fui andando até achar um lugar bom pra montar acampamento.

Eu até te contaria a localização exata, mas por algum motivo não consigo lembrar pra onde caralho eu decidi ir. Tudo que sei é que tô em algum lugar nas montanhas do leste dos Estados Unidos. Quanto mais eu tento lembrar, minha cabeça dói pra caralho. Lateja como se tivesse um prego cravado direto na lateral da minha têmpora. Nem sei se essa informação tá certa…

Nem acho que esse post vai subir. Mandei um teste antes e vi que carregou, mas não tem nada que eu possa marcar nem ninguém pra mandar mensagem. Espero que os mods não tenham deletado, eu preciso de ajuda pra caralho…

Tudo isso começou só porque eu queria fazer uma porra de uma viagem de acampamento. Um pensamento fica apodrecendo na minha cabeça sem parar, tipo uma podridão doente e corrompida me levando pro que parece loucura pura. “Tudo que você fez foi andar uma milha pela trilha”… e foi só isso que eu fiz, porra! Estacionei o carro no começo da trilha e entrei… Acho…

Andei uma milha pela trilha, estiquei as pernas e montei acampamento. Joguei a mochila no chão, puxei a barraca e montei em minutos. Juntei umas pedras e fiz uma fogueira improvisada. Tirei carne moída e cozinhei em cima de uma pedra no fogo. Quando minha barriga tava cheia, rastejei pra dentro da barraca pra dormir.

Logo apaguei e tive uma noite incrível de descanso que eu tava precisando pra caralho. Acordei com o alarme do meu relógio de pulso. 6:30 da manhã, brilhando direto nos meus olhos. Limpando os restos de sono, a primeira coisa que notei foi como tava escuro pra porra lá fora.

O sol já devia ter nascido, é meio do verão. Sem falar que tava um frio do caralho, parecia fácil uns 20 graus negativos. Não pensei muito nisso, afinal tô nas montanhas. Decidi me agasalhar com a jaqueta mais pesada e as calças que eu trouxe justamente prevendo que podia esfriar. O frio, não sei que porra é essa.

Enrolei o saco de dormir, enfiei na mochila, abri o zíper da barraca. Rastejei pra fora e levantei devagar. Com as mãos na cintura, olhando ao redor, soltei um suspiro profundo.

Tá escuro… Tipo, ESCURO mesmo. Já eram quase 7 da manhã e ainda não tinha sol. Nada. Nem um pingo de luz no céu do sol aparecendo por cima da montanha. Parecia meia-noite. Não conseguia ver lua nem estrelas também. Só absorvi aquela atmosfera fria e escura pra caralho.

Chequei o celular pra ver se tinha sinal. Claro que não. Tô nas montanhas, óbvio. Enfiei o celular no bolso e cocei a cabeça, já meio irritado, pensando que porra eu ia fazer agora.

Ignorando a ansiedade que crescia na minha barriga. Olhei pras brasas ainda fumegando da noite anterior. Decidi que ia acender o fogo de novo. Achei que podia planejar o próximo passo depois de me aquecer.

Sentado na fogueira, agora já devia ser quase meio-dia. Segurei a cabeça com as mãos. No começo falei pra mim mesmo que talvez o relógio tivesse me acordado cedo demais, talvez o celular tá quebrado e com hora errada também, sei lá. Meu cérebro tava agarrando qualquer explicação normal possível nesse ponto.

Esperei até as toras virarem cinza e a luz começar a sumir. Finalmente decidi que era melhor voltar pro carro. Adeus “plano de ataque”. Só conseguia pensar em como tudo aquilo era desconfortável pra caralho. Alguma coisa não tava certa e eu precisava ver como o resto do mundo tava reagindo. Achei que ia conseguir sinal se saísse da floresta.

Enquanto andava, vi a fitinha amarela marcada numa árvore pra indicar pros outros caminhantes onde fica a trilha.

“Ótimo”, falei pra mim mesmo, com uma faísca de esperança subindo na barriga.

Olhei pra esquerda e pra direita tentando lembrar pra que lado eu tinha vindo. Meio que chutei e segui a trilha. Provavelmente não foi a jogada mais inteligente, mas eu tava tão nervoso que só dei um tiro no escuro. Literalmente.

Depois de mais ou menos uma hora andando, chutei um galho na minha frente. Ele fincou reto no chão, apontando pro ar como um homem implorando pra alguém puxar ele de um penhasco impossível.

Soltei uma risadinha comemorativa pra mim mesmo e continuei. Uns 5 minutos depois, outro galho apareceu na escuridão, saindo do chão do mesmo jeito sinistro do primeiro que eu tinha chutado.

Olhei pra cima e examinei os arredores. Claro que tinha galhos quebrados na árvore de cima.

Enquanto continuava, ouvia os sons dos grilos e sapos — uma cacofonia sussurrante de barulhos noturnos. Sapos berravam, grilos chiavam. Sentia a brisa gelada batendo no rosto, deixando meu nariz vermelho de frio.

“Espera aí”, falei pra mim mesmo. “Não…” Conforme eu chegava mais perto desse galho normal pra caralho na minha frente, me abaixei e olhei bem de perto. Outro graveto saindo do chão.

Musgo do lado direito, pelado do esquerdo. “Tá bom”, falei estudando o graveto. “Sabe de uma coisa…” Tirei a faca e serrei a ponta dele. Peguei a cabeça do graveto e finquei no chão bem do lado direito dele.

“Tô paranoico…” As palavras saíram da minha boca num tremor rouco e fraco. Levantei, sacudi a terra das mãos.

“Beleza, vamo dar o fora daqui, porra”, falei pra mim mesmo e continuei.

Enquanto ouvia os sons da floresta, notei que tinha alguma coisa errada com os chamados dos sapos. Parei morto no lugar e prestei atenção. Levou um ou dois minutos pra eu finalmente sacar o que tava errado. Era tipo uma coceirinha no fundo do cérebro. Quando identifiquei, me acertou como um tijolo na cara.

Todos soavam exatamente iguais. Claro que sapo repete o barulho à noite, mas parecia um áudio em loop. Os grilos também, assim que prestei atenção de verdade. O vento soprava a cada 2 minutos, exatamente pelo mesmo tempo. Que porra tá acontecendo?

Meu coração afundou… Pânico começou a fermentar no peito. Despersonalização batendo forte, um véu fino cobrindo minha mente pra proteger minha psique que já tava enfraquecendo. “De jeito nenhum. Não, não, não, não, não…” Falei correndo pro graveto.

Musgo direito, pelado esquerdo, ponta serrada e fincada no chão. “NÃO!” gritei de raiva e medo. “ISSO NÃO TÁ CERTO, PORRA, NÃO!” berrei como se estivesse discutindo com algum ser superior. Levantei e disparei em linha reta pela trilha. Três minutos de corrida depois, o mesmo galho apareceu de novo. Passei correndo por ele uma, duas, três vezes. Finalmente caí de joelhos na frente do graveto.

“O que tá acontecendo”, falei com lágrimas enchendo os olhos. “Tô dando voltas esse tempo todo? Não, impossível. Corri em linha reta por 10 minutos, andei PORRA DE UMA HORA E MEIA!” Bati no chão como criança raivosa. “GRRRAAAHHH! PORRA!” Levantei de novo.

Derrotado e completamente confuso, voltei pro lugar onde tinha montado acampamento no dia anterior. Não demorou nada, óbvio. Eu não tinha ido pra porra nenhuma.

Encontrei a mesma clareira, mas o sinistro pra caralho foi que a fogueira que eu tinha feito não tava mais lá. As pedras tinham voltado pro lugar exato de antes de eu mexer nelas. E não tinha resto de fogo nenhum.

“Por quê…” falei exausto com toda aquela loucura crescente. Joguei as mãos pro lado e comecei a pegar as pedras de novo.

Depois de colocar elas de volta no mesmo lugar, fiz outra fogueira. “De volta à estaca zero…” falei com um suspiro longo e pesado. Chequei a hora: agora eram 23h. Já tinha sido um dia inteiro. Nesse ponto a gravidade da situação nem tinha começado a cair pra mim de verdade.

Eu sabia três coisas:

Tá escuro.  
Eu tô completamente preso.  
E nada funciona como deveria.

Me deitei de novo no chão frio da floresta e fiquei olhando pro céu. Estiquei os braços, soltei um suspiro fundo. Cobri os olhos com as mãos e soltei um gemido longo de frustração.

“ALÔ!?”

Levantei num pulo e virei a cabeça na direção da voz. Alguém tava me chamando? Meu coração disparou, assustado e finalmente com uma esperança.

“ALÔ!?”

“EI!!” gritei de volta, desesperado.

“ALÔ!?”

Depois da terceira vez, uma onda de adrenalina percorreu meu corpo inteiro. Dessa vez eu ouvi de verdade: uma voz humana grotesca, molhada, borbulhante. Alguma coisa entre homem e mulher, não dava pra distinguir. Quase como um cara tentando forçar a voz mais grave do que ela é, mas com um tom feminino. Não soava certo. Nada nisso tava certo. Por que porra eu gritei de volta?

Me arrastei pelo chão da floresta e me joguei atrás de uma árvore. Fiquei sentado, respirando pesado, esperando qualquer coisa. Ouvi galhos estalando longe, mato sendo arrastado enquanto alguma coisa se puxava desesperadamente na direção do meu acampamento.

“Hahhhh… hahhhh… hahhhh… alô…” A voz saiu mais baixa agora, bem na beira da luz da minha fogueira.

Entre os arranhões no chão e a respiração daquela coisa, eu só ouvia meu próprio coração martelando nos ouvidos. Meu batimento acelerou enquanto eu escutava como aquela coisa… existia…

A respiração parecia alguém engasgando por ar, como se os pulmões estivessem cheios de um líquido viscoso, grosso e podre. Tentando desesperadamente puxar qualquer ar, dava pra ouvir um gorgolejo fraco… Os ossos raspando uns nos outros, estalos secos, como se só se mexer já doesse pra caralho naquela coisa. Dois baques altos, como se estivesse procurando apoio. Agarrou o solo duro, apertando com toda força pra se arrastar. Galhos e pedras estalavam e viravam pó com a força da pegada.

Fiquei surpreso pra caralho de como ela chegou rápido. Parecia que tava a pelo menos uma milha de distância. Nem achei que meu grito ia ser ouvido.

Segurei a respiração torcendo pra que aquela merda passasse… Apertei o peito tentando controlar a respiração. Não fazia ideia do que era aquela coisa. O que eu sabia era que não queria me entregar de jeito nenhum.

Meus dedos do pé se cravaram no chão, pronto pra correr o mais rápido possível. Cada célula do meu corpo gritava pra dar o fora dali. Queria correr, mas lá no fundo eu sabia que não era a escolha certa.

“alô…” disse com um tom triste, quase decepcionado por não ter encontrado nada.

Escutei a respiração ofegante dela sumindo devagar. Ouvi ela ir embora depois do que pareceu horas.

Esperei até não ouvir mais nada. Não queria ver o que quer que estivesse fazendo aqueles sons. Quando tive certeza máxima de que tava seguro, esperei ainda mais. Fiquei sentado até minha bunda ficar dormente. Depois andei bem devagar na direção oposta daquela abominação nojenta.

Encontrei uma vala um pouco maior que eu, funda o suficiente pra dar algum abrigo. Não quis ficar na barraca — isso não ia proteger porra nenhuma. Acendi a lanterna segurando a mão por cima pra não iluminar muito. Só usei quando precisei. Desempacotei a barraca, estendi ela plana e finquei no chão cobrindo a vala. Achei cascas de árvore grandes o suficiente pra colocar por cima. Achei que isso ia me manter camuflado do que quer que estivesse me caçando. Agora pelo menos eu conseguia me sentir um pouco seguro ali.

Rastejei pro meu lar improvisado. Fiquei deitado, pensando no que fazer em seguida. Tá escuro, e tentar achar saída já tinha se provado inútil. Finalmente com um tempo pra relaxar e organizar os pensamentos, lembrei que tinha trazido meu PLB. Por que caralho não usei essa coisa antes!

Pensa nisso como um botão de emergência pra trilheiros — manda um sinal pro satélite avisando as pessoas certas que ajuda é necessária.

Tirei da mochila, mexi rápido com ele nas mãos. Apertei o botão certo… e nada. Nada aconteceu. Sem bip, sem som nenhum indicando que o sinal foi enviado… Nada. Joguei o negócio inútil pro outro lado da vala.

Fiquei olhando pro canto escuro do meu abrigo improvisado. Sentindo que toda esperança tinha ido embora, decidi fazer a única coisa que ainda me dava algum senso de controle nesse pesadelo: pensar.

Eu podia mapear o lugar? Descobrir onde diabos eu tô? Quer dizer, devo estar no mesmo lugar que cheguei, né? Teria que ficar quieto. Chequei a bateria do celular: ainda 87 %, bom. Desliguei pra economizar. Minha lanterna tá ótima, troquei as pilhas antes de sair. Tenho faca pra proteção e roupa quente, então isso é positivo.

Deitei o corpo de volta na vala e soltei uma risadinha baixa. Pelo menos vim preparado. Então, se alguém estiver vendo esse post, tenho comida suficiente pra durar pelo menos uma semana. Com certeza dá tempo pra quem estiver lendo isso me encontrar.

Então primeiro de tudo: vou explorar a área ao redor e ver que porra tem aqui.

Se esse post subir, vou colocar uma atualização assim que der. Por favor, me desejem sorte.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon