domingo, 15 de março de 2026

Meus Órgãos Estão com Coceira

Tinha chegado ao ponto de estar afetando minha qualidade de vida. Eu não sabia exatamente de onde vinha, mas de repente senti algo fundo dentro do meu torso.

Lembro que estava batendo o ponto no trabalho quando começou — um leve desconforto naquela época, um alívio comparado ao que estava por vir. Mantendo os olhos na estrada, fui balançando o torso de um lado pro outro tentando me aliviar, o que felizmente funcionou. Quando cheguei em casa, me senti mais exausto do que de costume e fui dormir cedo.

No dia seguinte, a coceira voltou, mais forte mas ainda suportável. Aquela sensação persistente ficou rondando minha cabeça, e nos momentos de folga no trabalho eu ficava me contorcendo, tentando me livrar daquele incômodo. Apesar de todos os meus esforços, ela continuava teimosa. Quando cheguei em casa naquela noite, tive dificuldade pra dormir — fechar os olhos parecia amplificar a sensação. Não me lembro quando finalmente desmaiei.

No terceiro dia, ficou tão ruim que senti calafrios descendo pelas minhas pernas. No momento em que acordei, me vi me contorcendo de forma descontrolada em posições esquisitas tentando acabar com a coceira. Cheguei até a tentar beliscar, agarrar a pele em punhados e esticá-la pra todo lado, me socando e me dando tapas. Estranhamente, juro que senti alguma coisa se mover, mas independente do que eu fizesse, simplesmente não passava.

Decidi que precisava ir ao médico ver o que era isso. Liguei pro trabalho dizendo que estava doente e liguei pro meu clínico geral, que concordou que era uma situação bem estranha. Depois de me fazer uma série de perguntas, durante as quais fiquei o tempo todo pulando no lugar, ela me disse pra agendar um ultrassom.

A consulta seria tarde da noite. Queria marcar o mais cedo possível e aquele era o horário mais próximo disponível. Vou aceitar o que tiver.

Tentando ao máximo ignorar aquilo e seguir com o meu dia, me preparei um café da manhã. Meu cérebro protestava, gritando por alívio, mas não tinha nada que eu pudesse fazer. Afinal, não ia pegar uma faca pra me abrir e coçar as entranhas, né.

Junto com esse pensamento, meu olhar foi direto pro armário onde ficavam as facas. Sacudi a cabeça pra mim mesmo. Eu não era doido a esse ponto. Só precisava aguentar mais algumas horas.

Depois de uma tarde agonizante de espera, finalmente chegou a hora de sair. Peguei as chaves e saí disparado pela porta, incapaz de ficar parado por mais tempo.

Quando cheguei ao hospital, fui recebido por um médico que me levou até um quarto onde troquei de roupa pra uma camisola, e depois entrei na sala de ultrassom.

O médico arregaçou minha camisola, colocou uma toalha cobrindo minha virilha, e encostou o aparelho gelado no meu corpo. Senti o gel se espalhando enquanto ela pressionava em direção à área que eu tinha indicado momentos antes.

Ela foi movendo o aparelho de um lado pro outro pela região, e de repente parou completamente.

— O que foi? — perguntei.

Levantei a cabeça pra olhar pra ela.

Seus olhos estavam arregalados, sobrancelhas franzidas. A expressão dela era uma mistura de medo e confusão — provavelmente a última coisa que eu queria ver nessa situação. Será que eu tinha alguma doença? Tinha algo errado com meu corpo?

Ela virou a tela do ultrassom na minha direção.

A princípio, não consegui identificar nada além de uma enorme mancha em movimento, mas olhando mais de perto, consegui ver as pernas.

Milhares, não — milhões delas.

Aranhas. Minúsculas aranhas bebês haviam tomado conta do meu fígado, rastejando velozmente umas por cima das outras, cobrindo meu fígado inteiro numa massa escura. Pra piorar tudo, bem no centro estava a maior de todas, espalmada sobre as aranhas bebês com um tamanho comparável ao de uma tarântula grande.

Eu não conseguia mais me controlar. Estava com uma coceira insuportável.

Comecei a me debater e a me contorcer na cama. Minha médica gritou alguma coisa e outros médicos vieram correndo. Implorei que fizessem alguma coisa, qualquer coisa.

Depois de me avaliarem e examinarem o ultrassom, me colocaram pra dormir.

Acordei numa cama de hospital. Ainda grogue da anestesia, olhei ao redor procurando por algum médico enquanto tentava recuperar as memórias.

É verdade. Tinham operado em mim enquanto eu dormia.

Eu não sentia mais a coceira. Nunca na minha vida fui tão grato por estar livre dela, pensando em como eu vinha subestimando as coisas simples do dia a dia.

Um médico entrou pra verificar meu estado antes de me contar o que tinha acontecido.

Ele disse que nunca tinha visto uma anomalia assim na vida dele. Eu ficaria surpreso se tivesse visto.

1.074 aranhas. Esse foi o número que retiraram de mim.

O número me deu arrepios na espinha.

O médico deve ter lido minha expressão perturbada e me assegurou que eu ia ficar bem. Agradeci pelo trabalho duro dele.

Recebi alta alguns dias depois.

Voltar à minha vida normal não foi tão fácil. Embora estivesse bem fisicamente, não me recuperei mentalmente. Como uma anomalia dessas poderia ser possível, e por que comigo?

Com o tempo, voltei ao trabalho e tentei esquecer a experiência, enterrando-a fundo num lugar onde jamais pensaria nela de novo.

Até hoje.

Faz só duas semanas desde que voltei pra casa, e quando acordei essa manhã, senti uma sensação familiar.

Uma leve coceira.

Acho que o medo que tentei tanto afastar está se tornando realidade.

Um medo de que,

talvez durante a operação…

houvesse uma pequena possibilidade.

A possibilidade de que tenham deixado uma passar.

sábado, 14 de março de 2026

Trevianismo Biografia


Nome: Trevianismo
Conhecido como: Literatura das Trevas e Literatura Oculta 
Reconhecimento: 2008
Patrono: Douglas D.S.

Trevianismo, O que é?
(Literatura das Trevas / Literatura Oculta)

O Trevianismo é um movimento literário brasileiro pertencente à vertente da Literatura das Trevas e da Literatura Oculta, criado pelo escritor Douglas D.S. na cidade de São Paulo (SP). O movimento surgiu como uma proposta estética voltada à exploração das regiões mais obscuras da existência humana, abordando temas como angústia, morte, loucura, espiritualidade sombria, decadência emocional e o confronto do homem com o vazio da própria alma.

Fundado a partir da necessidade de transformar sofrimento, questionamento existencial e visões sombrias em arte literária, o Trevianismo une histórias de terror psicológico com poemas de caráter depressivo e introspectivo, criando uma atmosfera marcada por densidade emocional e simbolismo obscuro.

O movimento combina elementos de Ficção, Realismo e Naturalismo, formando uma estética própria. A ficção permite a construção de universos sombrios e sobrenaturais; o realismo revela a brutalidade da vida cotidiana; e o naturalismo expõe a fragilidade humana diante de seus instintos, vícios e destino inevitável.

A escrita trevianista caracteriza-se por:

1. Atmosferas sombrias e perturbadoras

2. Exploração do terror psicológico e existencial

3. Poesia marcada por melancolia, dor e introspecção

4. Simbolismo ligado ao oculto e ao desconhecido

5. Linguagem intensa e emocional

Dentro do Trevianismo, a literatura não busca conforto ou esperança, mas sim revelar as trevas interiores do ser humano, transformando sofrimento, medo e decadência em expressão artística.

Assim, o movimento se estabelece como uma forma de manifestação literária da escuridão da alma, onde a arte nasce da dor, do mistério e da contemplação do abismo humano e ao horror cósmico.

O homem de azul...

Eu me lembro do velho; bengala retorcida, usando uma capa com o capuz abaixado sobre os olhos. Tinha certeza de que já o tinha visto num sonho antes: um sobre um vírus que se espalhava pelo contato visual com os infectados — bobo, não é?

Quando ele bateu na minha velha porta de madeira, achei estranho; nenhuma sombra se infiltrava por baixo da porta como sempre acontecia. Mesmo assim, abri pra vê-lo. O velho, aquele do meu sonho de algumas noites atrás. Ele não projetava sombra alguma, mas deu várias respiradas fundas e trêmulas antes de falar:

"Eu sou Walter Woods."

"Ã... tá bom." eu disse surpreso. Pedi pro homem entrar mas ele não disse nada. Pedi de novo e dessa vez ele entrou.

"Sou cego, veja bem" ele disse com um leve tom de incerteza.

"E surdo, ao que parece" eu murmurei baixinho.

Ele pendurou a capa: azul-oceano com estrelinhas amarelas; igualzinha a de um mago de livro. Ofereci um chá, mas ele recusou. Ofereci comida, mas de novo ele declinou.

"Então, o que diabos você quer!?" eu gritei com ele, alto o suficiente pra fazer o cachorro do vizinho soltar um latido frenético.

"Quero ficar um tempo." Ele respondeu com calma.

"De jeito nenhum!" eu respondi.

"Eu nem te conheço… VAI EMBORA!" eu berrei, claramente em pânico. E com isso, ele foi. Enquanto saía pela minha porta, meu vizinho — Edward — veio correndo pro meu apartamento.

"Em nome de Jesus, o que tá acontecendo?" ele me perguntou.

"Aquele velho maluco que acabou de sair" eu respondi.

"Tá falando o quê?" ele perguntou no sotaque britânico carregado dele.

"Cara! Você acabou de ver ele sair… Ele saiu agora!" eu disse assustado. Com isso, ele balançou a cabeça e foi embora.

Todas as noites depois disso, eu sonhava com ele; o homem cego, aparentemente invisível pra todo mundo menos pra mim.

Uma semana depois, eu já tava de saco cheio. Sentei no computador e fui fuçar: Walter Woods, morto em combate na guerra América-Inglaterra. Isso não pode estar certo, pensei. Aquela guerra foi... há 60 anos atrás!

Muitas noites sem dormir se seguiram. Um dia, acordei de um sono curto e sem sonhos; olhei pela janela suja, passando pelas garrafas vazias de um álcool qualquer sem rótulo, e vi um homem me encarando de volta: curvado, com uma capa azul com uma estrela aqui e outra ali.

"Meu Deus" eu disse incrédulo.

"Posso entrar?" ele perguntou com calma. Como um idiota, eu disse que sim. Enquanto o deixava entrar, ele me olhou; mesmo sabendo que ele não podia ver.

"Chá, por favor." Ele disse.

"O quê... eu." Preparei o chá pra ele e sentei do lado dele no sofá manchado e perguntei:

"O que você quer?" eu perguntei no tom mais firme que consegui.

"Só ficar um tempo, tô procurando minha filha Jenna, veja bem..." ele respondeu.

"Olha. Você não pode ficar, e eu não sei quem é Jenna, tá?" eu disse a ele. E com isso, ele tomou o chá e foi embora.

Não dormi bem naquela noite; meus sonhos cheios do vírus e do homem... Agora com olhos fundos e dentes amarelados.

Acordei cedo pra ir pro trabalho — um emprego de escritório típico, com uma terapeuta que eu visitava quase todo dia.

Quando cheguei, percebi que estava atrasado; ótimo.

"Favor Holden Alston comparecer ao escritório do Sr. J. Armstrong" a voz saiu pelo alto-falante interno fazendo meu sangue gelar. Meu chefe.

"Pois não, senhor? O senhor queria falar?" eu disse hesitante.

"Holden, você está conosco há 10 anos; mas recebemos algumas reclamações de que sua saúde mental está... escorregando. Você não consegue prestar atenção no trabalho. Infelizmente, vou ter que te dispensar." Ele disse com uma falsa piedade.

Fui embora naquele dia, e quando cheguei em casa, fui atingido pelo cheiro de um cadáver em decomposição; ou algo parecido. Procurei de onde vinha o cheiro, mas sem sucesso. Sentei no velho sofá e bebi. Bebi uísque barato até o amanhecer, e depois até o anoitecer.

Toc toc. O barulho me assustou o suficiente pra eu levantar os olhos pra porta; lá estava o homem. Ele não tinha olhos, nem a capa azul. Apenas uma figura encoberta de preto.

"O quê... O QUE VOCÊ QUER!?" eu berrei com ele.

"O tempo acabou, Holden." Ele respondeu numa voz fria e sem emoção.

Ele me levou pela noite; estávamos viajando pelo que pareceu horas, eu amarrado em algum espaço escuro, sem saber onde ao certo.

Finalmente chegamos, alguma floresta em algum lugar. Ele me jogou no chão e mandou eu correr naquela voz dele; minhas mãos ainda estavam presas por correntes, e eu ainda usava a venda nos olhos, mas corri mesmo assim.

Corri pelo que pareceu horas, quando cheguei a ela: uma pequena cabana de madeira numa grande clareira, encostada perto de uma pedra enorme que dava pra colinas onduladas e vales. A venda tinha caído em algum momento nos últimos minutos.

Enquanto me virei devagar, o vi caminhando em minha direção, silencioso e calmo. Não tentei correr; já tinha feito isso o suficiente. Em vez disso, fiquei parado ali, igual a um cervo paralisado pelos faróis de um carro.

Ele estendeu uma mão fina e enrugada, e eu a peguei. Então tudo ficou escuro.

Percebo agora que deveria ter deixado ele ficar um tempo. Quando tudo escureceu, o conhecimento me invadiu — uma torrente: a filha dele, Jenna, baleada e morta na Rússia; os segredos de Einstein; minha cadela Daisy, esquartejada pelo meu irmão George, que se tornou um assassino com outro nome.

Minha vida antes de tudo isso era chata. Nunca acontecia nada. O homem pode ter sido meu fim, mas talvez também tenha sido meu salvador, me arrancando de uma vida de marasmo silencioso e me jogando em algo que ainda não consigo explicar.

Se alguém me encontrar, onde quer que eu esteja -deixa ele ficar um tempo. Talvez você não sofra o mesmo destino que eu.

Eu era um missionário LDS. Algo horrível aconteceu na minha última área

Eu fui missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (LDS), também conhecida como Os Mórmons. Não estou tentando começar discussão nenhuma sobre minha religião ou religião em geral, mas quero compartilhar uma história sobre algo que aconteceu na minha missão. As missões LDS são cheias de jargão próprio, então vou explicar qualquer termo que possa ser estranho. Mas pode me pedir pra esclarecer qualquer coisa se precisar.

Eu servi na Missão de Durban, na África do Sul. Eu estava quase no fim dos meus dois anos de missão e fui transferido pra uma cidade chamada Bloemfontein, na província do Estado Livre. Essa quase com certeza seria minha última área. Eu estava “whitewashing” a área junto com um missionário mais novo, o que significa que nós dois éramos novos ali. Isso é meio raro, mas acontece. Normalmente os missionários são mandados pra uma área onde já tem outro servindo e ele mostra as coisas pra você.

Me disseram que o motivo de estarmos whitewashing era porque os missionários anteriores não se davam bem um com o outro e os líderes acharam melhor dar um recomeço limpo pra área. Fui designado pra trabalhar com um missionário chamado Robert Brown.

A gente se encontrou numa igreja na cidade de Bethlehem, que fica umas duas horas e meia de carro até Bloemfontein. Ele era bem alto, super magro e usava um par daqueles óculos bem grossos. Tinha um cabelo castanho todo bagunçado, tipo um ninho de passarinho. Eu me apresentei e perguntei:  
— Quanto tempo você tá fora?

Robert Brown respondeu:  
— Essa é a minha quarta transferência, então ainda sou bem novato.

— Então aproveita esse tempo, porque antes que você perceba vai estar quase acabando, igual eu.

Uma transferência é um período de seis semanas. A cada seis semanas a missão faz as transferências. Isso quer dizer que os missionários são mudados de área, mas nem todo mundo muda. Alguns ficam na mesma área e alguns até mantêm o mesmo companheiro. Dá pra passar várias transferências no mesmo lugar.

A gente foi numa van da missão até Bloem. No caminho rolou aquela conversa típica de quebra-gelo:

— Quantos irmãos você tem?  
— Tem namorada em casa?  
— Como foi sua primeira área?  
— Quem foram seus companheiros anteriores?  
— Quais eram seus hobbies lá em casa?

Não tínhamos quase nada em comum, mas tudo bem. Já tive companheiro que não tinha nada a ver comigo e a gente sobreviveu à transferência tranquilamente. Chegamos em Bloemfontein lá pelas seis da tarde, então não dava pra fazer muita coisa, ainda mais com o sol já baixando. A África do Sul é um país incrível e eu adorei meu tempo lá, mas o lugar pode ser muito perigoso, então eu preferia estar dentro de casa antes de escurecer. Acabamos fuçando nos registros antigos e ligando pro líder da missão da ala local (uma ala é uma congregação de umas 100 a 300 pessoas). Estávamos tentando achar alguma pista de onde começar a fazer proselitismo no dia seguinte. Descobrimos que os missionários anteriores estavam ensinando um casal afrikaans num bairro perto, então ligamos pra eles. Disseram que podíamos passar lá na manhã seguinte.

No dia seguinte fizemos a rotina matinal. Aí rolou uma discussão besta sobre o estudo de companheirismo, se era mesmo necessário estudar juntos. Ele não queria e eu não quis ficar pressionando, então deixei pra lá. Não achei que fosse nada demais, mas o rosto dele ficou vermelho de raiva e tinha uma intensidade estranha no olhar. Essa foi a primeira de muitas discussões que viriam.

Pegamos as bicicletas e fomos até a casa do casal. Quando chegamos, tinha um bilhete no portão:  
“Ei, caras, desculpa, mas vamos ter que cancelar. Temos uma emergência familiar em Kimberley e só voltamos na semana que vem.”  
Mandei uma mensagem pra eles dizendo que esperávamos que estivesse tudo bem, pra ligarem se precisassem de qualquer coisa e que a gente ligaria na semana seguinte.

Aí Robert Brown e eu tivemos outra discussão. Discutimos sobre o que fazer em seguida. Eu sei que existe o estereótipo de missionário que vive batendo de porta em porta, mas nunca foi minha atividade favorita. Sugeri que a gente passasse pra visitar alguns membros da ala e ele disse que deveríamos bater portas. Eu falei que podíamos bater em algumas, mas ele queria fazer isso o dia todo. Ele começou a fazer cena, então eu cedi. No fim não visitamos nenhum membro e o trabalho de bater portas foi um fracasso total.

Nas semanas seguintes, Robert Brown e eu discutimos o tempo inteiro. Pra mim parecia que ele simplesmente gostava de brigar. Era sempre mesquinho e irritadinho de um jeito esquisito. Qualquer coisa que eu sugeria ele derrubava e queria fazer outra coisa. No final eu comecei a ficar de saco cheio.

Uma manhã estávamos de novo na área batendo portas quando rolou outra discussão. Tínhamos um compromisso com um investigador que realmente parecia promissor e ele se recusou a ir. Por algum motivo ele queria continuar batendo portas. Pela primeira vez eu me mantive firme. Pelo conteúdo da briga ninguém acharia grande coisa, mas foi uma das maiores. O rosto dele ficou mais vermelho do que eu já tinha visto e ele fechou o punho como se fosse me bater.

Eu disse:  
— Esquece, vamos voltar pro apartamento. Não faz sentido ensinar alguém se a gente não consegue se dar bem.

— Tá bom! Vamos fazer o que você quer. A gente sempre faz o que você quer.

Eu revirei os olhos, montamos nas bicicletas e começamos a voltar. Ele pedalou bem na frente, mas eu nem liguei. Não queria ele no meu espaço de jeito nenhum, mesmo que a regra fosse ficar ao alcance de vista e de ouvido um do outro. Quando cheguei no apartamento ele já estava lá em cima, parado na porta da frente. Teve que esperar eu abrir porque eu estava com a chave. Na hora achei engraçado fazer ele esperar e ver ele fervendo enquanto eu subia as escadas. Hoje eu queria nunca ter destrancado aquela porta e só ter conversado com ele. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.

Assim que destranquei, ele empurrou a porta com força, foi direto pro banheiro e bateu a porta. Eu fui pro sofá pra me acalmar. Segurei a cabeça entre as mãos e só respirei até toda a raiva sair do corpo. Depois levantei, pronto pra fazer as pazes com Robert Brown.

Fui até a porta e bati.  
— Robert, eu quero pedir desculpa. Sipho não teria problema em remarcar, então se você quiser bater portas, a gente bate portas. Vamos só voltar pra rua.

— Vá embora, eu te odeio — foi a única resposta que recebi.

Respirei fundo.  
— Tá bom, faça do seu jeito. Vou ficar aqui fora quando você estiver pronto pra sair.

Quando eu ia virar pra ir embora, notei uma coisa: a sombra dele andando de um lado pro outro na frente da porta. Dei de ombros e fui ler um livro.

Chegou a hora do almoço e, como oferta de paz, fiz um sanduíche extra pra ele. Até tirei a casca do pão do jeito que ele gostava. Fui bater na porta.  
— Robert Brown, eu fiz almoço pra você. Por que não sai pra comer?

— Vá embora, eu te odeio.

A voz dele estava estranhamente plana e sem emoção, pra alguém que antes discutia com tanta paixão. Dei de ombros. Não tinha como agradar certas pessoas.

Deixei ele em paz por um bom tempo. Não valia a pena brigar de novo se ele queria ficar emburrado no banheiro o dia inteiro. Além do mais, missionário quase não tem tempo sozinho ou de descanso. Se eu tivesse que passar metade da transferência trancado no apartamento porque a gente não se dava bem, que seja. Eu estava lendo *O Senhor das Moscas* pela primeira vez, então não me incomodava.

O tempo todo, porém, eu via a sombra dele andando. Pra frente e pra trás na frente da porta. Nunca acelerava. Nunca diminuía. Nunca parava. Não sei como ele não cansava nem por que ficou horas assim. Imaginei que algumas pessoas lidam com estresse de forma diferente. Mesmo assim, toda vez que eu olhava pra lá sentia um calafrio na espinha.

O dia passou e chegou a hora do jantar. Como última tentativa de fazer as pazes, preparei o jantar pra ele. Fiquei no fogão fazendo Bunny Chow — aquela comida local da África do Sul, curry servido dentro de um pão oco. Era um dos pratos favoritos dele desde que chegou no país. Achei que isso ia tirar ele da toca.

Bati na porta.  
— Robert Brown, agora é hora de sair. Fiz Bunny Chow pra você. Melhor comer enquanto tá quente.

— Vá embora, eu te odeio.

— Você tá sendo ridículo. Vem comer ou fica com fome a noite toda.

— Vá embora, eu te odeio.

— Tá bom, faça do seu jeito! Dorme aí dentro, pra mim tanto faz.

Eu estava fumegando enquanto comia meu jantar. Não conseguia acreditar que ele ainda estava lá dentro, andando depois de um dia inteiro. Logo depois do jantar percebi que não era ele que precisava sair do banheiro… era eu que precisava entrar. Eu não tinha usado o banheiro o dia todo por causa dele e agora estava desesperado. Não aguentava mais.

Bati na porta.  
— Cara, eu preciso muito que você saia daí. Tô prestes a mijar nas calças e você tá aí o dia inteiro.

— Vá embora, eu te odeio.

— Para de ser bebê. Você volta direto depois que eu usar o banheiro. Só preciso ir.

— Vá embora, eu te odeio.

Aí eu explodi. Comecei a bater na porta e tentar arrombar, mas estava trancada e não cedia.

De repente a voz dele ficou mais calma e firme do que nunca:  
— Vá embora, eu te odeio.

Eu dei um passo pra trás me sentindo estranho. A sombra embaixo da porta finalmente parou de se mexer. Fosse o que fosse que estava acontecendo com ele, eu não queria piorar.

— Vou usar o banheiro do vizinho. Espero que você entupa o vaso!

Isso tecnicamente não era permitido, mas nas circunstâncias eu não vi problema. Fui até a porta do vizinho e bati. Uma senhora idosa sotho super simpática atendeu. Expliquei que estávamos com problema no banheiro e ela me deixou entrar na hora. Foi o último momento normal que eu tive pelo resto da noite.

Quando voltei, o banheiro ainda estava ocupado. A sombra embaixo da porta voltou a andar. Decidi que não ia mais perturbar o Hanson, então passei na ponta dos pés em silêncio até o quarto. Apaguei as luzes e me deitei. A única luz que tinha era a que vinha debaixo da porta do banheiro.

Eu tive muita dificuldade pra dormir. Não conseguia fechar os olhos. Achei que ouvi sussurros vindo do banheiro. Poderia jurar que eram várias vozes.

Naquela noite eu vi Robert Brown no meu sonho. Os olhos dele queimavam de raiva. Tinha uma sombra atrás dele. Parecia infinitamente alta. As mãos longas e finas dela estavam nos ombros dele. Ele caminhou na minha direção. Tentei recuar, mas acabei encostado na parede. Ele estendeu as mãos e eu tentei lutar enquanto ele apertava meu pescoço.

Lutei, chutei, me debati com toda força, mas foi inútil. O aperto dele era de ferro e eu não conseguia respirar. Não sabia mais se estava dormindo ou acordado, mas meus olhos estavam fechados com força. Continuei me debatendo até sentir que estava desmaiando.

De repente consegui abrir os olhos à força. Rolei pro chão ofegante, tentando puxar ar. Por um segundo vi uma sombra no quarto. Quando recuperei o fôlego, olhei em volta. Não tinha nada. A única luz no apartamento era o brilho vindo debaixo da porta do banheiro. E eu ainda via a sombra andando de um lado pro outro.

Eu tinha que sair dali. Tinha que fugir. Fosse o que fosse que estava acontecendo com Robert Brown, eu não queria fazer parte. Não sabia se ia viver pra ver o sol nascer. Peguei o celular da missão e liguei pro presidente da missão. Fiquei chamando até ele atender.

A voz dele estava rouca de sono:  
— Robert, tem alguma coisa errada?

Eu hesitei:  
— Acho que sim… Tem alguma coisa errada com o Robert Brown. Ele se trancou no banheiro o dia todo. Não importa o que eu faça, ele se recusa a sair.

— Você está em perigo?

— Acho que tem alguma coisa mais aqui. Ele… ou aquilo… me atacou enquanto eu dormia.

— Saia. Agora. Vá ficar na casa de um membro. Eu cuido disso.

Não precisei ouvir duas vezes. Corri passando pelo banheiro, saí pela porta da frente, fui pra casa de um membro que morava rua abaixo. Eles ficaram confusos, mas acabaram me deixando entrar. Eu não sabia nem como explicar o que estava acontecendo. Eu mesmo não entendia.

Algum tempo depois consegui falar com um dos assistentes do presidente da missão. Os assistentes são missionários mais jovens como eu e ele estava no mesmo grupo que eu quando cheguei no país, então eu conhecia ele bem. Ele ficou meio enrolado, mas no final me contou o que aconteceu.

Foi isso que ele disse:  
— Cara, eu mesmo não entendo. Chegamos bem cedo, antes do sol nascer. O apartamento estava completamente silencioso, mas tinha alguma coisa muito errada. O ar estava pesado, sabe? O presidente bateu na porta do banheiro, ninguém respondeu. Estava trancada e a chave do outro lado, então tivemos que arrombar. Quando entramos… Robert Brown… ele estava morto. Na banheira. Parecia que tinha cortado os pulsos, mas não tenho certeza. Alguma coisa ou alguém pode ter feito isso com ele. Nenhum de nós tinha visto nada parecido. O presidente parecia que ia desabar. Obviamente chamamos a ambulância, mas ele já tinha ido há muito tempo. Tanto tempo que o legista disse que ele estava morto desde a manhã anterior.

Eu não sabia como processar o que ouvi. Até hoje não consigo. Eu fico me perguntando o que eu poderia ter feito pra impedir. Eu devia ter sido mais legal? Devia ter reportado a raiva dele pra ele conseguir ajuda? Foi culpa minha?

Às vezes, quando durmo, ainda vejo a luz embaixo da porta do banheiro. Ainda vejo a sombra andando de um lado pro outro e ainda ouço aquela voz.

“Vá embora, eu te odeio.”
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon