Foi numa quinta-feira, acho. Talvez tenha sido numa quarta. Hoje em dia, os dias parecem todos se embaralhar. Era um daqueles bares que só continuam abertos porque ninguém tem a porra da paciência de ir para outro lugar. O lugar cheirava a cerveja e a limpador de chão. E as caixas de som estavam totalmente fodidas. O grave simplesmente se sentava no seu peito como um gordo filho da puta. Eu tinha bebido forte a maior parte da semana. E ainda assim não conseguia dormir. Já estava no meu terceiro cidra barato que tinha gosto de combustível de foguete e arrependimento.
Eu estava só sentado ali, discutindo comigo mesmo sobre ir para casa. Como eu sempre faço. Mas é mais fácil para mim ficar do que admitir quando já bebi o suficiente.
Foi então que ela sentou ao meu lado. Uma loira linda. Não do tipo que olha para caras como eu duas vezes. E pediu o mesmo cidra. Perguntou se a música era sempre tão uma merda e tão alta. Eu disse que sim. Aí ela começou a falar sobre o pub do outro lado da rua. Costumava ser melhor antes de fechar. Nós só ficamos ali sentados, conversando sobre nada importante. Só as merdas de sempre. Depois de um tempo, ela se inclinou. O cheiro de rosas baratas e baunilha. Daquelas nos frascos pequenos perto do caixa. Aí ela disse que esse lugar era alto demais. E perguntou se eu queria ir para a casa dela.
Eu disse que sim. Pensando que a minha sorte finalmente tinha mudado.
A casa dela era no segundo andar. A escada era mal iluminada e cheirava a mofo e urina. E quando entramos no apartamento dela, ela trancou a porta. Disse que não queríamos ser incomodados e me deu uma piscadinha safada. Depois ela tirou os saltos e se esfregou toda em mim. Depois de alguns minutos, ela recuou e disse que precisava ir ao banheiro.
Eu andei até perto de uma janela e olhei para fora. O quarto estava meio escuro. Só iluminado por um abajur. E havia roupas amontoadas em cima de uma cadeira. O lugar parecia vazio de alguma forma. Como se ela não estivesse morando ali há muito tempo. Ou ela simplesmente não ligava. Não sei. E eu não me importava.
Aí ela voltou. E curvou o dedo para eu me aproximar. E enquanto eu andava em direção a ela, meu coração batia forte no peito. Aí alguma coisa estalou sob o meu pé. Era um celular. Tela estilhaçada. Eu disse que sentia muito e me senti um completo idiota.
Ela pegou ele de mim. E me deu um sorrisinho. Disse que pertencia a uma garota com quem ela tinha se divertido um pouco. E que ela devia ter esquecido e que não havia motivo para preocupação. E aí começamos a nos beijar de novo. Minha mão desceu pelo vestido dela e eu senti algo se mexer. Pesado. Profundo. Embrulhando o estômago. Eu me contraí, quase tirei a mão, mas disse a mim mesmo que era o cidra e a falta de sono. Tanto faz. Devia ser só gases. Deixei a mão ali. Mexeu de novo. Mais devagar desta vez. Como se algo estivesse se revirando.
Quase tirei a mão, mas não tirei. Só a mantive ali. Me senti estúpido por sequer pensar naquilo. Provavelmente não era nada. Só o jeito que ela respirava, ou o vestido se movendo sob meus dedos. Eu estava acordado há tempo demais. E pensei que minha mente tinha começado a pregar peças em mim. Acontece com falta de sono e beber demais. Pressionei um pouco mais firme, tentando provar para mim mesmo, e o movimento parou. Eu disse a mim mesmo que não era nada. Só eu sendo um paranóico filho da puta. Foi um certo alívio. Ela fez um barulho suave, quase uma risada, e me puxou para mais perto. Me beijou como se nada estivesse errado. Eu a beijei de volta com mais força do que queria, tentando enterrar aquele pensamento. E disse a mim mesmo para parar de ser mole. Você está num apartamento com uma mulher que realmente te quer. E está bem aqui. Não estrague tudo inventando merda.
Um terceiro deslocamento, menor do que antes, depois nada. Pensei que era isso. Até ri baixinho. E pensei: Idiota. Segura a porra da onda.
Então o calor dela sob minha palma mudou. Mais apertado. Como se a pele estivesse se contraindo sobre si mesma. Pressionei um pouco mais e senti uma crista se erguer contra meus dedos. Dura. Com formato errado. Minha boca ficou seca.
Ainda tentei. Disse a mim mesmo que era músculo. Ou osso. Ou o jeito que ela estava arqueada. As pessoas têm corpos estranhos. Isso não significa nada. Mantive minha mão ali por mais tempo do que deveria, esperando que fizesse sentido.
“Você está bem?” Perguntei a ela. Minha voz saiu fina.
Ela não respondeu. Só soltou o ar devagar contra o meu pescoço. A mão dela ainda estava na minha nuca, os dedos soltos. Tentei me sentar. O braço dela apertou. Não muito. Só o suficiente.
Outro empurrão. Maior. Todo o meio do corpo dela se deslocou, irregular, como se algo estivesse rolando de um lado para o outro. Arranquei minha mão de volta e saí da cama. Olhei para baixo e vi a frente do vestido dela. Estava se movendo sozinha. Pequeno a princípio, quase nada. Depois um estiramento mais profundo que se manteve por um segundo antes de se acomodar.
Eu disse a mim mesmo para levantar e sair. Só sair dali. Mas eu só fiquei parado ali, como um completo idiota, olhando para ela.
Ela fez outro som suave, mais baixo desta vez. Cabeça inclinada para trás contra o travesseiro. Os olhos rolando lentamente para trás nas órbitas e o brilho suave de saliva no lábio. Os movimentos ficaram mais pesados. Menos rolamentos, mais empurrões de dentro. Os quadris dela se contraíram. As pernas se dobraram e esticaram sozinhas, devagar, como se ela não encontrasse uma posição melhor para ficar.
Uma mancha escura se espalhou de entre as pernas dela. Pouco a princípio. Depois mais. Então um cheiro atravessou o perfume barato. Metálico e úmido. Errado.
Os braços dela se sacudiram. Repentinamente. E o vestido subiu. A pele parecia esticada demais, brilhante e esticada sobre algo se movendo por baixo.
Ela fez um barulho que não era risada nem gemido. Mais como ar sendo forçado para fora. A cabeça rolou para o lado. Os olhos brancos leitosos e meio abertos, olhando mais ou menos na minha direção, mas não me vendo mais.
A maior mudança até agora. Todo o meio do corpo dela se ergueu e continuou se erguendo, o tecido esticando, então algo úmido e grosso começou a se forçar para fora de entre as pernas dela. Só a ponta no começo, acinzentada, depois mais, devagar e mais deliberada. A cabeça dela pendeu, flácida. A cabeça daquela coisa se soltou depois disso, baixa em direção à cama, e olhou diretamente para mim. Fez um som como ossos estalando e um rosnado através de uma boca cheia de catarro.
Então começou a vir na minha direção. Não rápido. Só uma cambalhota lenta e desajeitada com as quatro patas, barriga virada para cima, a nova cabeça liderando o caminho, membros se dobrando em lugares onde não deveriam.
Eu recuei. E quase caí sobre a cadeira. As mãos tremiam tanto que eu não consegui girar a primeira tranca. Ouvi o barulho de tapa-tapa se aproximando. Consegui abrir a de cima, mas a do meio travou. Continuei girando no sentido errado. Senti algo roçar meu tornozelo. Chutei com força para trás sem olhar. Uma dor rasgou minha perna. Quente. Profunda. Então sangue e algo mais grosso escorrendo para dentro do meu sapato, morno e pegajoso. Finalmente consegui girar a última tranca e arranquei a porta, batendo-a atrás de mim. Algo bateu do outro lado com força. Depois, só o arranhar contra a madeira.
Caí quase rolando escada abaixo e fui de bunda no chão da rua, caindo com força. A perna parecia estar pegando fogo. A queimação continuava se aprofundando, como se ainda estivesse me devorando. Não parei. O único pensamento na minha cabeça era: Por favor, Deus. Continuei mancando, tentando não olhar para trás. E quando finalmente parei, o choque e a dor me atingiram com força, fazendo-me vomitar o cidra que eu tinha bebido.
Tremendo. Vomitando. Vi o rosto dela por um segundo. Aquele sorrisinho calmo. A incredulidade foi pior do que a dor.
Pensei em chamar a polícia. Mas quem vai acreditar no bêbado da cidade?
A cicatriz ainda está lá. Ainda assim, evito olhar para ela quando posso.


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