Tem uma parte da floresta que eu gosto de percorrer toda noite, nos últimos cinco meses, bem antes de o sol se pôr. Ela sobe uma colina atrás da minha casa e, no topo, há uma crista onde eu me sento até o sol se pôr completamente. Depois, espero mais meia hora para as nuvens terminarem seu show de cores habitual, antes de descer de volta para casa.
Toda noite. Rotina como o pôr do sol, você sempre me encontraria caminhando até a crista e voltando para casa.
Não mais. Não depois da noite passada.
A trilha tem cerca de um quilômetro e meio, nada extremo, mas é subida, então dá uma sensação de ser mais longa quando você está indo em direção à crista. A volta é fácil, na maior parte descendo em ângulos tortos e desajeitados. Eu tenho uma lanterna potente, ridiculamente brilhante, então vejo todas as irregularidades do caminho.
Ontem à noite, eu estava a mais ou menos meio caminho da trilha quando notei uma mala. Sabe, daquelas grandes que você esperaria que tivesse um cadáver dentro. Lembro de ter brincado comigo mesmo e dito algo como "é, com certeza tem um defunto ali dentro". Porque, obviamente, não tinha. Ela estava deitada de lado e aberta nas duas faces. Se já houve um ali, não havia mais.
Um pouco mais adiante na trilha, notei uma jaqueta dobrada e pendurada em um galho. Fiquei quase tentado a levá-la comigo, porque parecia do meu tamanho e em bem bom estado. Umas rodadas na máquina de lavar e ela nem lembraria mais quem foi o último dono. Tive a sensação de que quem a deixou ali o fez por um motivo, porque estava pendurada com muita arrumação. Então deixei. Só por precaução, caso voltassem para buscá-la.
Continuei andando, e alguns minutos depois foi quando vi o moletom com capuz e a camiseta.
Aquilo me deu um mau pressentimento no estômago. Não o mesmo tipo de sensação que ver roupas de mulher teria evocado – isso traria consigo todo um leque adicional de possibilidades. Embora essa possibilidade continuasse sendo a mesma, eu não achava que fosse nem de longe tão provável. Simplesmente as ignorei e segui em frente. O fato de estarem jogadas na terra, porém, me deixou inquieto. Aí me lembrei da mala, e tudo pareceu se encaixar. Era só uns moleques bagunçando. Arrastando coisas e jogando para todo lado.
Tudo bem.
Eu estava chegando bem perto do fim da trilha, faltava talvez uns quatrocentos metros, e o sol estava se pondo rápido. Eu conseguia ver o que restava dele pairando sobre a borda da colina. Foi mais ou menos nessa hora que vi os sapatos e as meias pendurados com cuidado no arame farpado que cercava o campo. Estavam presos pelos cadarços, balançando na vertical, com as meias dobradas direitinho dentro.
O resto das roupas veio como esperado, em intervalos mais ou menos iguais aos anteriores.
A cueca revirou um pouco meu estômago. Estava marrom e muito úmida. Como se alguém tivesse mijado nela e a arrancado. Dava para sentir o cheiro só de estar parado em cima dela.
Eu sabia que deveria ter virado para trás naquela hora. A probabilidade de as roupas serem da mala estava cada vez menor. Ninguém leva uma cueca merda dessas para uma viagem. E por que estariam ali? Não tinha estradas principais, nem pontos de ônibus perto da trilha. Estava ficando estranho. Eu deveria ter virado e ido para casa. Mas sou um escravo da rotina. Eu tinha estado naquele lugar toda noite e não queria ter que desistir por causa de uns moleques jogando roupas ou de um tarado pelado. Quer dizer, uma noite eu caí e quebrei um dedo numa pedra e ainda assim fiquei para ver o pôr do sol. Você acha que eu ia deixar uma cueca nojenta me vencer?
Quem dera tivesse deixado.
A ideia de algum cara pelado sentado no meu lugar me cagou de medo, mas a curiosidade já tinha fincado os dentes em mim. Eu queria saber que porra estava acontecendo. Parte de mim ainda estava pensando se realmente eram roupas de mulher – algo que eu deveria denunciar em vez de fugir. Deus sabe que, se fosse minha filha ou minha mãe, eu teria matado o homem que fosse embora em vez de verificar se elas estavam bem.
Cheguei ao topo da colina e fiquei olhando para a crista por um bom tempo antes de descer, examinando o terreno. Não vi ninguém, e o sol estava se pondo rapidamente, então fui para meu lugar de sempre, na minha pedra de sempre, e me acomodei para um belo espetáculo. O céu estava de um laranja profundo. Minha cor favorita.
Havia muitas nuvens no céu quando me sentei; a luz as iluminava de forma incrível. Não importa quantas vezes eu fosse lá, nunca dois pores do sol eram iguais. Tirei algumas fotos, observei o sol mergulhar além das colinas no horizonte e esperei o resto das cores desaparecerem e se reduzirem à neblina noturna.
Ficou frio muito rápido. Sempre ficava. Comecei a desejar ter levado uma jaqueta comigo, e depois ri quando me lembrei da jaqueta que tinha visto mais cedo. Eu deveria ter pegado, doenças ou não.
Levantei para ir embora enquanto os roxos ainda estavam se desvanecendo do céu. Foi quando os notei. Alguém, simplesmente caído numa pilha, um pouco mais adiante na crista. Estavam completamente nus.
Gritei na direção, perguntando se estava tudo bem. Eu deveria ter deixado eles em paz. Se você vê alguém deitado nu lá fora, nunca vai ser nada bom. Mas minha mente pendeu para a pior das possibilidades: que a pessoa nua não tinha se despido por vontade própria. Eu deveria ter ligado para uma ambulância, preocupado se era alguém fora de si por causa de drogas, e depois ter chamado outras pessoas.
Quando não responderam, me aproximei e gritei de novo.
Algo se moveu no mato. Um animal, talvez, mas meu coração subiu para a garganta. A pior coisa que temos por aqui são cervos. Talvez um texugo. Não parecia tão seguro naquele momento. O corpo parecia mais um aviso agora, menos um perigo.
Chamei de novo. Já estava perto o bastante para ver que não era uma pessoa, de jeito nenhum. Era só mais roupa amontoada. Mas a coisa mais estranha, porém. Elas tinham exatamente a cor da pele de alguém.
Estiquei um pé e chutei a pilha. Elas não se separaram, apenas se abriram onde estava a dobra e se esticaram.
Era pele.
Uma pilha inteira de pele humana, porra.
Eu pulei fisicamente para longe, quase me jogando para fora da crista e descendo o despenhadeiro rochoso. Lembrei da mala e de como tinha brincado sobre ser um cadáver, e fiquei encarando a mecha de cabelo onde devia ter sido um couro cabeludo em algum momento. A parte horrível era que estava tudo inteiro. Como se alguém simplesmente a tivesse tirado, igual uma cobra trocando de pele, ou uma malha de ginástica de corpo inteiro.
Isso foi mais ou menos o que consegui aguentar. Já tinha sido idiota o bastante por continuar andando depois de cada peça de roupa que encontrei, mas não ia cometer o mesmo erro de novo. Peguei o celular para ligar para o serviço de emergência, mas acabei saindo correndo a toda velocidade de volta pela trilha quando ouvi mais movimento no mato.
Cada pedaço de roupa que eu passava me dava uma sensação terrível de pavor no estômago, como se estivesse vendo a pele de novo. Cheguei no meio do caminho quando me deparei com a mala.
Dessa vez, ela estava no meio da trilha. Fechada. E em pé.
Não me movi. Fiquei paralisado. Apontei a lanterna para ela e tentei pensar em todos os motivos possíveis para estar daquele jeito, mas todos os pensamentos racionais tinham ido embora. Congelei. E fiquei vendo o zíper se abrindo, elo por elo.
Duas pontas de dedos nus e ensanguentados forçaram o zíper pelo seu trilho, até que abriu uma fenda larga o bastante para um olho espiar.
"Por favor", ouvi dizer. "Por favor, me ajude."
Não. Pulei a cerca e entrei no campo de cevada. Corri e não parei até ver o telhado da minha casa e a chaminé que eu nunca acendo. Voltei-me e vi algo me perseguindo. Corria sobre duas pernas e, na maior parte, parecia humano. Só que sem pele. Vermelho cru e ensanguentado. Músculos rangendo contra os ossos. Braços erguidos e maníacos. Gritando como pneus de carro tentando parar uma colisão.
Consegui chegar em casa e tranquei as duas portas, fechei todas as cortinas, e passei a noite vigiando pela janela de cima. Seja lá o que fosse, estava sentado no campo, com a cevada até o queixo, me observando. Não conseguia distinguir um único traço no rosto dele, mas sabia que ele conseguia me ver. Eu não conseguia desviar o olhar. Estava com medo de que, assim que o fizesse, ele investisse contra a casa, entrasse pela janela e me agarrasse.
Ficamos assim a noite toda.
Ele se agachou sob a cevada assim que o sol nasceu. Não o vi o dia inteiro.
A mala estava na minha porta da frente quando saí para ver o jardim, logo depois do meio-dia. Ateei fogo a ela no fundo do quintal e coloquei as cinzas no lixo.
Fiz check-in num hotel na cidade. Não quero dormir naquela casa de novo. Tinha uma camisa deixada no quarto, mas isso é normal, certo?
O sol vai se pôr daqui a uma hora.
Fico pensando na pele. Por que ele a tirou?
Nada disso faz nenhum sentido.
Só quero dormir.
Mas estou com medo.
Estou com um medo do caralho.


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