terça-feira, 11 de agosto de 2026

A velha barragem da minha cidade nunca reteve água

Eu já sabia desde o início que eu estava absurdamente despreparado para essa pescaria. Nunca foi exatamente a minha praia — era coisa do Matt, depois coisa do Noah — e eu só fingia que curtia pescar pra me enturmar com eles.
 
Sendo bem sincero, eu não gosto de pescar. É só uma desculpa pra passar um tempo com os caras. Já vi eles passarem por várias fases de hobbies diferentes, e honestamente, até que era admirável ver eles testando tantas coisas novas agora que a gente tá chegando nos trinta anos.
 
Vi o Matt e o Noah estacionando lado a lado, do outro lado do estacionamento em relação a mim. A gente tinha ido parar num bairro recém-construído que, depois de uma caminhada curta, dava acesso a um ponto de pesca perto de uma barragem antiga — e eu nunca imaginei que fossem construir algo ali por perto. Com a vara de pescar na mão, desci do carro pra cumprimentar eles.
 
— Cadê a sua caixa de pescaria? — perguntou o Matt, sorrindo debochado, só brincando.
 
— É mesmo, você não vai passar frio só de camiseta? — completou o Noah.
 
Eu olhei pra isca de metal prateada amarrada na minha linha. Mexi nela com uma confiança que não tinha, vendo ela girar no ar.
 
— Com essa aqui já tá de bom tamanho.
 
— Tá bom então, durão. Me avisa quando você pegar algum peixe de verdade — o Matt bateu nas minhas costas, e fez sinal pra gente seguir caminho.
 
Fui vendo os dois tagarelando sobre a última pescaria que fizeram; de vez em quando eles olhavam pra trás, mas não paravam pra perguntar se eu tava bem. Tavam imersos no hobby deles, e tudo bem, mesmo que eu me sentisse meio de lado. Fui seguindo ali, bem pertinho, até que eles finalmente falaram comigo só pra me guiar pelo pântano.
 
— Olha só, pelo menos ele tá de sapato certo pra essa parada — riu o Matt. Eu fiz uma dancinha boba pra mostrar minhas botas de trilha. Depois de tantos anos de amizade, a gente sempre revezava quem ia ser alvo de piada. Agora era a minha vez, e eu tava levando na esportiva.
 
— Essa aqui também serve pra correr, viu — olhei pros meus pés — Muito melhor do que essas botas de borracha idiotas que vocês dois, seus idiotas, tão usando.
 
— Isso aqui se chama bota de pesca com cano alto — corrigiu o Noah, com um tom meio na defensiva, apontando pro equipamento que ia até a metade do tronco dele.
 
— Você trouxe cerveja? — gritou o Matt mais na frente.
 
— Claro — o Noah bateu na mochila — E você, Jack?
 
Eu bati nos bolsos grandes da minha calça; dava pra ver direitinho as duas latinhas que eu tinha levado.
 
— Caramba, então você não veio totalmente despreparado não — sorriu o Noah.
 
A gente foi andando pelo pântano até que a barragem apareceu de vez. As nuvens de chuva que vinham do oeste faziam aquela estrutura gigantesca parecer ainda mais feia e despropositada. Os passaros davam voltas em volta dela, mas nenhum pousou na parede de concreto. Mesmo assim, não faltava cocô de passaro acumulado ali, parecia que fazia anos. A cerca de arame em volta das entradas da barragem tava tão enferrujada que dava pra confundir com madeira.
 
Nunca entendi por que construíram aquilo ali. O rio em si é bem pequeno, e nem na época de chuvas fortes ele nunca foi motivo de enchentes grandes. Pelo estado que tá, acho que nem a prefeitura sabe mais por que aquilo existe — mas também não dão a mínima pra demolir.
 
Fiquei olhando por tanto tempo que quase fiquei tonto. Reparei que o lugar tinha ficado estranhamente quieto. Os pernilongos que eu passei todo o caminho espantando tinham sumido. Tenho quase certeza que o Matt levou repelente, mas mesmo assim deu uma sensação esquisita.
 
— Tudo bem aí? — o Noah me tirou do transe. Eu balancei a cabeça pra voltar a prestar atenção.
 
— Tudo, tudo… é que nunca vi essa coisa de perto antes.
 
— É feia pra caramba, mas os peixes que eu já vi por aqui… — o Matt começou a preparar a vara de pesca com mosca — E também é muito quieto aqui.
 
— Posso ajudar a ficar ainda mais quieto se vocês quiserem — falei, apontando pra base da barragem.
 
— Pode ficar com a gente mesmo, Jack, nem que você não trouxe nada que preste! — riu o Matt.
 
— Não, tá bom. Se eu pegar algo, eu grito “PEIXE” bem alto pra vocês ouvirem.
 
Pulei de pedra em pedra pela margem do rio e me instalei numa maior. Abri a minha latinha, tomei um gole e fiquei olhando pro monte de ferrugem enorme ali do meu lado direito. De repente, vi uma luzinha vermelha piscando em cima de uma das portas.
 
— Vocês tão vendo essas luzes? — gritei. O Matt e o Noah olharam pra mim quase ao mesmo tempo, enquanto entravam na água juntos.
 
— Deve ser nada não, mano — deu de ombros o Noah — É só algum sensor.
 
Resmunguei e voltei a jogar a linha. Nada. A explicação do Noah não fazia muito sentido, mas a gente tava ali pra pescar, e com certeza não tava invadindo propriedade alheia. As nuvens foram chegando mais perto, mas ainda tava uma noite de verão bem quente. Joguei a linha umas cinquenta vezes e não peguei absolutamente nada. Decidi deixar a vara de lado e só curtir o momento.
 
De vez em quando a gente trocava uma palavra, mas era como o Matt tinha dito: silêncio. Você ia pensar que, por eles terem falado tanto antes, iam ficar o tempo todo comentando sobre pesca ou me zoando mais um pouco. Mas me enganei, e foi até bom ter um pouco de sossego.
 
No meio daquela calmaria, notei que ali bem pertinho do lugar onde eu tava pescando, na base da barragem, a água não se movia nem um pouco. E além disso, era muito mais escura do que o resto. Aquela poça parada parecia ser muito funda.
 
Fiquei encarando. O jeito que ela não se mexia me lembrou de toda aquela besteira que a gente vê na internet sobre amebas que comem cérebro em águas paradas. Não parecia nada com isso, mas quanto mais eu olhava, mais arrepios eu sentia na nuca.
 
— Peguei algo! — o Matt quebrou o silêncio. Desci depressa da pedra e deixei a minha vara ali mesmo. Peguei a rede que eles tinham trazido. Vi os dois vindo na minha direção com uma truta marrom, parecendo pais orgulhosos com o filho novo. Quando jogaram ela na rede, meu Deus, que peixe grande!
 
— Bem jogado, Matt — falei impressionado vendo o bicho se debatendo. Devia ter uns setenta centímetros e pouco, fácil.
 
— Agora é a minha vez — sorriu o Noah debochado — O meu vai ser muito maior.
 
O Matt soltou o peixe de volta na água. Ele virou de costas pro rio, mas eu não. O peixe continuou se mexendo desesperadamente, como se alguém tivesse correndo pra salvar a vida. Em todas as poucas vezes que eu fui pescar, nunca vi um peixe agir assim. Voltei pro meu lugar, mas não conseguia tirar aquela cena da cabeça.
 
Subi de novo na minha pedra, mas alguma coisa me impediu de pegar a vara de volta.
 
— Mas que porra é essa?
 
A água escura e parada tinha mudado de lugar. Ou melhor: tinha crescido. Agora era o dobro do tamanho de antes. Será que caiu alguma coisa ali dentro? Olhei pro céu: devia começar a chover daqui a meia hora mais ou menos.
 
— A gente vai embora assim que começar a chover, né? — perguntei, querendo mudar de assunto pra não ficar pensando besteira.
 
— Que nada! — cuspiu o Matt — É quando chove que os peixes aparecem todos!
 
Não deu pra ouvir a piada que o Noah ia fazer sobre mim, porque outra coisa chamou a minha atenção. Um barulho vindo da barragem. Uma batida baixa, que vinha e ia sem ritmo. Parecia que vinha bem na altura da água, do outro lado da parede toda corroída. Somado com aquela luz piscando, dava pra ter certeza que tinha alguma coisa acontecendo ali dentro.
 
Aquela batida me deixou apreensivo, mas dessa vez eu nem quis perguntar. Toda preocupação minha até agora tinha virado piada ou sido ignorada. Talvez eles já tivessem ouvido aquilo antes. Talvez fosse só maquinário velho e estragado batendo. Hesitei, olhando de novo pra aquele buraco escuro na água. Não devia ter peixe nenhum ali, né?
 
Joguei a linha de novo, não porque esperasse pegar algo, mas porque precisava fingir que não tava morrendo de medo por dentro. Continuei pescando calado até a chuva começar a cair, e continuava sem pegar nada.
 
Pouco depois das primeiras gotas, o céu pareceu resolver descarregar tudo em cima da gente. A chuva caiu tão forte que quase não dava pra enxergar mais nada.
 
— JACK! — ouvi o Noah gritar — TEM UMA CAPA DE CHUVA SOBRANDO NA MINHA BOLSA, PEGA ELA!
 
Que ódio de ter vindo tão despreparado. Consegui pegar a capa, mas ela já tava meio encharcada mesmo. Vi os dois jogando a linha de novo no rio. Aqueles caras eram doidos. As batidas continuavam, e cada vez mais altas — difícil de distinguir do trovão que começou a ribombar lá em cima.
 
A água do rio ficou toda agitada com a chuva, e o nível subiu bem o suficiente pra gente perceber. Mas aquela mancha escura não se mexia nem um pouco com o temporal.
 
— Não me diga que é um…
 
Uma sirene começou a soar de dentro da barragem; eu tampei os ouvidos com força. Era um barulho infernalmente alto.
 
— ENTÃO O QUE É QUE TÁ ACONTECENDO AQUI!? A GENTE TINHA QUE TER SAÍDO DAQUI JÁ! — gritei o mais alto que consegui, esperando que algum deles ouvisse. Peguei a minha vara e me virei pra sair andando rápido na direção contrária, passando pelos dois no meio da tempestade. Os peixes começaram a pular fora d’água em quantidade absurda, todos fugindo desesperados da barragem. Mas meus amigos estavam decididos a pescar mais um, custasse o que custasse.
 
— Deve ser só coisa da chuva! Relaxa! — tentou me acalmar o Noah.
 
— Se tá entediado é só ir embora! Ninguém tá te prendendo aqui! — completou o Matt, quase sendo derrubado pelo vento forte.
 
Uma pancada estrondosa me parou no lugar, e logo depois ouvi um barulho de sucção, como se a margem do rio tivesse afundando. Virei depressa e vi as luzinhas vermelhas da barragem apagando de uma por uma. Depois olhei pro rio: o nível da água baixava cada vez mais, e aquela escuridão ia afundando mais e mais.
 
— Vocês tão vendo isso? — perguntou o Matt, começando a recuar e guardar o seu equipamento.
 
— Tô… — mal deu pra ouvir o Noah responder, mas ele também começou a fazer o mesmo.
 
— Gente, anda logo — falei, andando pra trás sem tirar os olhos da barragem nem um segundo.
 
Naquele instante, a sirene que berrava tão alto parou de vez. Antes que eu pudesse raciocinar direito, a escuridão na base da barragem inchou de uma vez. No meio da chuva, a água subiu formando uma montanha que não devia ser possível de jeito nenhum.
 
— CORRE!
 
Antes mesmo de conseguir virar o corpo, vi algo se movendo através das cortinas de água. Um pescoço que dobrava de um jeito que nenhum animal do mundo tem, quase tão escuro quanto o céu de tempestade. Depois ouvi um som gutural vindo na direção da margem, e vi aquela coisa engolir o Noah de uma vez. Dava pra ouvir o grito dele abafado dentro daquilo e pelo barulho da chuva.
 
Saí correndo desesperado. Os pés escorregavam nas pedras, mas as botas seguravam firme. Ouvi o Matt cair, a água saindo das botas de pesca dele. Depois veio aquele mesmo som gutural atrás dele. Acho que nem chegou a gritar. Segurei o choro e fui disparado pelo caminho do pântano. Ouvia o barulho de alguma coisa imensa se arrastando atrás de mim, mas não parei nem pra respirar. Foi um milagre não ter tropeçado em nenhuma pedra.
 
Só parei de ouvir aquele ruído quando saí da região alagada, mas nem liguei. Continuei correndo morro acima até chegar no estacionamento. Já tava quase desmaiando de cansaço quando vi o meu carro, meu velho conhecido. Entrei e me joguei no banco. As mãos tremiam tanto que quase não conseguia colocar a chave na ignição. A visão toda embaçada, metade por causa das lágrimas, metade pela adrenalina.
 
Apoiei a cabeça no encosto e tentei respirar direito. A chuva caía tão forte que não dava mais pra ver a barragem de jeito nenhum. Mas ver os carros do Matt e do Noah estacionados do outro lado me deixou ainda mais em pânico. Gritei e chorei sem parar enquanto passava devagar pelos veículos dos meus amigos que tinham sido devorados ali.
 
Liguei para a polícia antes mesmo de chegar em casa. Os investigadores nunca acreditaram em mim. Os corpos deles nunca foram encontrados, e os carros só foram rebocados uma semana depois. Não tive coragem de dar a notícia para as famílias deles — mas o noticiário fez o serviço sujo por mim. Disseram que os dois pescadores foram levados por uma enchente causada por um rompimento estrutural na barragem. Que mentira desgraçada.
 
Alguém mais precisa saber o que aquela barragem inofensiva esconde dentro dela. Ela não foi construída pra proteger ninguém de enchentes; ela foi feita pra servir de jaula pra uma coisa que o mundo ainda não tá preparado pra conhecer.
 
Passei por lá semana passada. Já começaram a consertar o buraco enorme que apareceu na parede de concreto. Pelo que deu pra ver, agora tão construindo ela muito mais grossa e resistente.

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