quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Acho que minha esposa é imune a veneno

Eu realmente tentei ser um bom marido. Noites românticas. Viagens. Presentes. Provavelmente gastei dinheiro suficiente com comida para bancar o orçamento inteiro de algum país.
 
Acho que flores e chocolates já não são mais suficientes. Ou talvez sejam. Não sei. Ela sempre parecia tão grata quando eu lhe dava algo. Ficava ainda mais grata pela casa que comprei para nós.
 
Uma parte de mim está começando a acreditar que tudo é culpa minha. As brigas. O silêncio frio. Os longos e dolorosos momentos sem trocar uma palavra. É difícil culpar ela.
 
Eu realmente tento deixar minhas inseguranças de lado. Mas, meu Deus, como elas transbordam. Especialmente quando ela não está comigo. Cada noite entre amigas parece uma traição. Cada viagem sem mim parece um tapa na cara.
 
Acho que devia ter me esforçado mais para guardar toda essa escuridão só para mim, trancada na minha cabeça, mas chegou ao meu limite. Na semana em que tudo começou, ela saiu com as amigas todos os dias. Chegava tarde em casa, sempre cheirando a bebida e àquele perfume que eu amava tanto.
 
Tentei falar para ela:

— Não me sinto à vontade com você saindo assim tanto. Por favor, pare.
 
Mas ela teve a cara de pau de me fazer de vilão. De repente, eu sou “ciumento”. De repente, sou “obcecado”. De repente, é “você tem que me deixar ter a minha liberdade”.
 
Estava na cara que ela não queria mais ficar comigo. Depois de cinco anos, ela ia colocar esse muro entre nós só porque eu tenho sentimentos. Pois que seja. Se é assim que ela quer agir, eu ia retribuir na mesma moeda.
 
Talvez eu tenha passado um pouco da conta. Só um pouquinho. Mas quem é que pode me culpar, afinal? Eu estava ferido. Estava sofrendo.
 
Comecei devagar. Apenas algumas gotas de água sanitária no café dela. Eu acordava cedo e preparava o café para ela.

— Isso deve ajudar com a ressaca, amor.
 
Eu observava ela beber, sorrindo por dentro mas fingindo que era só carinho. Ela bebia tudo de uma vez e me agradecia sem reclamar de nada.
 
Eu só achava que não tinha colocado o suficiente. Na manhã seguinte, aumentei a dose para uma tampa inteira. Ela bebeu, elogiou o sabor e tudo continuou exatamente como antes.
 
Saindo a noite toda. Chegando na cama já de madrugada. Me enchendo o nariz com o cheiro de rum e lavanda, sem nem ficar com dor de garganta sequer.
 
Uma parte de mim percebia o que eu estava fazendo. Quando eu via o sorriso dela, o brilho nos olhos, o quanto ela ficava grata por eu levar o café da manhã na cama, eu sentia remorso. Achei que era um sinal para parar. Ainda não tinha acontecido nada irreversível.
 
Mas então, lá ia ela de novo. Dançando nas baladas. Dormindo na casa das amigas. Me deixando de lado, como ela sempre faz.
 
Eu tinha que me obrigar a manter a calma. Queria que o meu “trabalho” falasse por si mesmo. Foi por isso que comecei a preparar aqueles jantares todas as noites. Bife. Macarrão. Frango. Uma pitada de veneno para rato.
 
Ela nem reclamou de dor de barriga. Pelo contrário, para a minha frustração, ela começou a me agradecer ainda mais.

— Você andou tão bem ultimamente, amor.

— Desde quando você virou cozinheiro? Essa comida está uma delícia.

— Você é o único homem que eu vou precisar na vida.
 
E completava cada agradecimento com um beijo na minha bochecha, e isso me deixava furioso. Por que ela faz isso comigo? Por que ela não morre de uma porra de uma vez?
 
Ela começou a ficar mais em casa. Nós nos aproximamos de novo. Era como se ela estivesse se apaixonando outra vez. Eu via mais vezes aquele brilho nos olhos dela. Senti que, pela primeira vez em uma eternidade, ela estava interessada em mim de novo.
 
Mas já era tarde demais para isso. Eu já tinha seguido em frente. Cada beijo. Cada abraço. Cada momento íntimo só me enchia de uma raiva queimante por ela ainda estar viva.
 
Ela começou a pedir mais.

— Amor, você faz aquele macarrão que você fez há algumas semanas? Estava tão bom…

— Um dia desses você me ensina o segredo desse café gostoso, né?

— Juro que você é o único branco que sabe temperar a comida direito.
 
Eu aumentava as doses a cada dia. Droga, chegava a misturar venenos diferentes. Você não conseguia nem chegar perto do prato que o cheiro era tão forte que queimava as narinas, mas ela limpava o prato todinho todas as vezes.
 
Era como se quanto mais eu fazia, mais apaixonada ela ficava. Comprei os chocolates favoritos dela e misturei cianeto neles. Depois tive que me arrastar para a cama com ela e fingir que estava tudo bem.
 
Cheguei a colocar copos inteiros de limpa-pisos no café que ela comprava na Starbucks, e ela só dizia: “Lá não fazem tão bom quanto o seu” — e acabava jogando fora depois de beber só alguns goles.
 
Isso já faz meses, a essa altura. Você realmente fica pensando… será que a culpa é minha aqui? Tudo o que eu tenho que fazer é exatamente o que ela fez. Exatamente o que nos levou até aqui:
 
Sair até depois da meia-noite. Chegar em casa cheirando a Bar São André e perfume barato. Não dar bola para os avanços dela. Droga, talvez até pedir o divórcio.
 
Mas eu amo ela tanto. O divórcio ia acabar com ela. E uma parte de mim tem medo de que também acabe comigo. Eu só não sei como lidar com isso agora.
 
Talvez eu deva tentar colocar anticongelante no Gatorade dela, quem sabe.
 
Talvez assim finalmente eu consiga me ver livre dela.
 
Mas, mesmo assim, uma parte de mim sabe que eu estou mentindo para mim mesmo.
 
Uma parte de mim sabe… que ela não vai a lugar nenhum.

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