quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Paguei trinta dólares pelo rosto perfeito

Na primavera passada, decidi que precisava de um corte de cabelo. Algo limpo, que tornasse o resto de mim menos importante. Encontrei um lugar a poucas quadras do meu apartamento; uma barbeiro que cheirava a sabão e creme de barba. Nenhum xampu sofisticado nem ofertas para um modelo de assinatura, apenas algumas cadeiras pretas, além de um homem careca que parecia ter estado cortando cabelos desde o dia em que eu nasci.

Sentei-me e disse ao que queria; apenas um pouco do topo. Ele acenou e trabalhou em silêncio. Meu cabelo ficou melhor. Mais afiado. Por um momento senti-me como uma pessoa ligeiramente diferente por cima do pescoço. Mas quando olhei no espelho novamente, a velha insatisfação ainda estava lá. O barbeiro deve ter notado. Perguntou, com simplicidade, se precisava de ajuda com mais alguma coisa.

Talvez só tenha respondido pela maneira como ele perguntou. Ele era tão comum, tão educado e profissional. Confessei que havia outras coisas com as quais tinha insegurança ultimamente. Disse que poderia ajudar. Eu disse que não estava interessado em cirurgia plástica. Ele disse que não era cirurgia. Apenas um pouco do topo.

Perguntei o que isso significava.

Ele disse que seria simples. Um corte.

Pegou as tesouras e, sem cerimônia, removeu uma fina faixa de carne do lado do meu rosto. Saiu como argila cortada, sem sangue, sem dor. A peça se soltou em um movimento limpo. Colocou-a em uma bandeja como se fosse nada mais que cabelo sobrando.

Quando olhei no espelho, aquele lado do meu rosto parecia mais próximo daquele que carregava na cabeça há anos. Mais limpo. Definido. Belo.

Pedi que fizesse o outro lado. Fez. Pedi que tirasse os pontos macios do meu abdômen. Fez. Cada imperfeição, cada insegurança, ele cortou tudo naquela noite, tudo por trinta dólares (mais gorjeta).

Voltei na semana seguinte, e nas semanas após aquela. Pontos macios aparados. Ângulos afinados. A cada visita, saía parecendo mais com a versão de mim mesmo que conseguia suportar. Os pontos fracos ao longo do meu queixo desapareceram sob as tesouras. Meu abdômen se achatou em incrementos. Comecei a me reconhecer. Conseguia sustentar meu próprio olhar por vários minutos seguidos antes de desviar.

Algumas pessoas notaram. Um colega elogiou o corte. Uma mulher disse que eu parecia mais afiado, melhor do que jamais havia sido. Perguntou se eu estava malhando. Minhas conversas duravam mais. Os olhos demoravam. Parecia prova de que, pela primeira vez, algo estava dando certo.

Mas começou a parecer outra coisa. Comecei a me perguntar se alguém realmente me olhava ou apenas via a superfície que continuava sendo aprimorada. Esses pensamentos vinham e iam. Continuei voltando. Sempre havia uma correção a mais. Corte a gordura do abdômen. Linha mais limpa no queixo. Apenas um pouco do topo.

O ideal continuava se movendo. As metas mudavam sempre que eu me aproximava.

O barbeiro nunca se apressava. Trabalhava com uma precisão que só vira em médicos. Ocasionalmente recuava para estudar a forma do meu corpo. Falava apenas quando necessário. Quando perguntei como a carne saía tão limpa, ele apenas disse que algumas coisas se separavam mais facilmente quando se sabe o que cortar. Quando perguntei o que acontecia com as peças, respondeu que tinham sido cuidadas. Deveria ter parado ali.

Uma tarde, a loja estava vazia. O barbeiro demorou a sair da sala dos fundos. Curioso, avancei em direção à porta aberta. Só queria chamá-lo pelo nome.

A sala continha todas as partes que tinham sido tiradas de mim, arranjadas em uma massa carnosa, sem forma, dobrada sobre si mesma, empilhada e pressionada em pilhas que ocupavam a maior parte do canto distante. Algumas seções ainda mantinham contornos antigos; a curva que costumava estar acima dos meus quadris, a espessura sob meu queixo, a flacidez nos meus braços. A massa se mexeu. Respirou. Não tinha rosto, mas eu sabia que podia me ver.

Fiquei mais tempo do que deveria. O barbeiro apareceu atrás de mim. Perguntou, com aquela mesma voz calma, se eu tinha ficado satisfeito.

Não sabia como responder.

Naquela noite, saí e não voltei por um tempo. As mudanças permaneceram por algum tempo. Ainda sentia alívio pelas linhas mais limpas quando me via no espelho. Depois começaram a deslizar. Meu queixo amoleceu primeiro. Meu maxilar seguiu, gradualmente. Quase convenci a mim mesmo de que não estava percebendo. Uma manhã, o ângulo já não era tão afiado. No dia seguinte, a pele estava mais solta, mais quente, quase derretendo. A barra ao redor do meu abdômen começou a encher novamente. Sentia como se meu corpo estivesse tentando se restaurar, tentando colocar as peças de volta.

Coçava. A superfície por baixo não parecia pele cicatrizando. Parecia mais dura. Como algo maligno, se espalhando mais rápido a cada noite. Podia sentir que se instalava, reassentava, procurando cada forma que já não pertencia.

Deixei de dormir bem. Quando dormia, sonhava com a massa na sala dos fundos dobrando-se sobre si mesma.

As mudanças aceleraram. Meu rosto começou a se dissolver de novo. Meus músculos enfraqueceram e caíram. Algo dentro de mim já não parecia tecido meu, mais denso em alguns lugares, granulado em outros, coalescendo em algo desconfortável e espinhoso. Durou semanas, e ficou pior a cada dia. Meu corpo, meu rosto, o rosto perfeito que quase tivera, tornaram-se cada vez mais deformes, mais insuportáveis. A única maneira de manter o que queria era deixá-lo cortar novamente.

Voltei numa terça-feira aleatória. A loja estava quieta. O barbeiro levantou os olhos da cadeira. Não perguntou onde eu tinha estado. Apenas acenou para a cadeira vazia.

Sentei-me. Ele trabalhou com a mesma atenção cuidadosa de antes. As tesouras removeram camadas finas. Cada pedaço se soltou sem bagunça. O rosto no espelho estava mais próximo novamente daquele que eu perseguia. Aquele familiar alívio repousou sobre meus ombros. Por baixo dele, algo mais frio agitou-se.

Antes de sair, perguntei sobre a massa na sala dos fundos. Ele limpou as tesouras com um pano e disse que ainda estava lá, esperando. Perguntou se achava que terminaria logo.

Novamente, não respondi.

Voltei quatro vezes desde então. Os intervalos entre as mutações estão ficando menores. O corpo tenta mais a cada vez recuperar o que foi tirado. A coceira começa mais cedo. A mudança fica mais insistente. Posso sentir cada lugar querendo amolecer de volta à sua forma antiga, pressionando para cima, tentando lembrar exatamente onde pertencia.

Quando ele trabalha, surpreendo-me imaginando o tamanho da massa. Se ainda mantém alguma forma reconhecível, ou se esses detalhes foram enterrados sob montes de carne.

Não olhei de novo. Não sei se conseguiria suportar.

Estou mais perto do rosto que sempre quis.

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