quinta-feira, 12 de março de 2026

A Poça

Um buraco na rua. Feio. Redondo. Irregular. E miasmático. Bem no centro do beco estreito que eu atravessava todo santo dia voltando do trabalho pra casa. No escuro, cercado de sujeira, latas de lixo transbordando, cães vira-latas e bosta de vaca mofada espalhada por todo lado, a poça quase se camuflava na planura do asfalto. Se a pessoa fosse míope ou tivesse qualquer problema de visão, mal dava pra desviar o pé e não cair dentro dela, virando vítima na hora. Eu apostaria que ninguém além de mim usava aquele beco maldito. Eu tropeçava nela todo dia desde a primeira vez que a vi, o que calculo que foi há cerca de três semanas. Quando a encontrei pela primeira vez, ela mal tinha cerca de quatro polegadas de diâmetro.

Qualquer um pensaria, e com razão, que eu sou louco. Mas não sou, fica entendido. Não estou inventando romance nem alimentando fantasia nenhuma. Só estou confessando a verdade pura quando digo que a poça parecia crescer. Ela ficava cada vez mais larga conforme os dias passavam. A borda dela se estendia mais e mais a cada hora que sumia no poço do tempo. A água parada e mofada que nadava embaixo — aquele foco nojento de casulos pestilentos — ficava mais grossa e mais fedida quanto mais olhares eu lançava pra dentro dela. Aquilo me fascinava pra caralho. Eu sonhava com ela. Sonhava que criaturas celestiais, não infernais — ninfas e fadas — subiam dela pra me convencer a mergulhar junto e morar com elas num lugar onde eu podia me empanturrar de néctar e ambrosia.

Todo dia, quando passava pelo beco, eu parava na beirada da poça e ficava olhando o reflexo distorcido do meu próprio rosto na superfície da água antes de seguir em frente. Nos primeiros dias eu simplesmente dava um passo por cima. Depois, quando ela foi abrindo a borda, eu tinha que contornar. E quando finalmente cresceu tanto que engoliu o beco inteiro nas asas dela, pronta pra engolir o céu também, eu era obrigado a me esgueirar grudado nas paredes dos dois lados. Eu sabia que tinha outro caminho até minha casa — um atalho —, mas nunca pegava porque, olha só, eu estava fascinado pela poça.

Então, no fim da segunda semana, quando entrei no beco e vi que ele estava completamente engolido pela poça, senti um cheiro estranho. Um cheiro que eu não conseguia pescar de jeito nenhum na minha memória. Mesmo assim, vou tentar descrever com palavras, por mais fracas que sejam: tinha um toque de bicho-da-seda cozido, com um leve salgado; mas o principal era o cheiro de uma garota. Eu conseguia imaginar. Uma garota linda, virgem, de cabelo preto como carvão e pele morena dourada, com no máximo dezessete anos. Dei dez passos pra frente, parei na borda irregular da poça e fiquei olhando a água embaixo. A água borbulhava e fervia por todo lado, como se tivesse fogo se mexendo debaixo dela, soltando colunas de vapor que batiam direto no meu rosto. Fiquei ali, pregado no lugar, com a fala roubada pelo que estava acontecendo.

Não sei quantos minutos ou horas se passaram até eu perceber um movimento fraco na superfície. Uma leve saliência pra cima. Um tremor. Depois vi uma cabeça, preta como carvão, emergindo devagar, com uma testa morena e lisa. A cabeça subiu mais e logo me mostrou um rosto mais feio que uma gárgula. Ela me encarava com aqueles olhos feios, sem fundo, vazios, de coruja. Vazios. Literalmente vazios. Não tinha pupila, não tinha íris, não tinha retina, só uma bacia escura e profunda de cada lado da cara.

Meu corpo tremeu inteiro. Meus dentes batiam. Mas eu continuei ali. Olhando. Só olhando. Os braços escaldados da criatura dispararam de dentro da água e agarraram meus tornozelos. Por um minuto eu não fiz nada, só fiquei parado com os olhos bem fechados. Depois abri os olhos e comecei a chutar as pernas contra a coisa. Bati na cara e nos braços dela, esmaguei com minhas botas até pedaços de carne sujarem a barra da minha calça e a água ficar vermelha no meio do marrom. Aí me soltei com força, girei o corpo e saí correndo pelo mesmo caminho que tinha vindo.

Corri e corri, pingando suor, ofegando até a garganta doer, olhando pro céu estrelado acima de mim, e cheguei em casa pelo atalho que eu já devia ter começado a usar há muito tempo. Me joguei na cama. O sono me pegou quase na hora, e depois, eu acho, desmaiei dormindo, porque no dia seguinte acordei meio-dia. Nem lavei o rosto, nem escovei os dentes, só ajeitei o sobretudo e saí correndo de casa direto pro mesmo beco e pra mesma poça que tinham causado meu delírio. Por que corri pra lá? Não sei dizer. Minha mente puxava minhas pernas por conta própria.

Eu manquei, escorreguei, tropecei e cambaleei enquanto o sol fraco de fim de janeiro suavizava suavemente as minhas veias trêmulas, e finalmente cheguei no lugar do meu tormento. A poça estava isolada por uma fita amarela por todos os lados, policiais espalhados em volta, e vários moradores murmurando e lotando o beco inteiro. A poça tinha encolhido de volta pro tamanho original, a água não borbulhava nem fervia mais; e uma garota, de no máximo dezessete anos, estava enrolada na beirada, vestindo um vestidinho rosa de seda rasgado, com os braços escaldados e o rosto esmagado tão brutalmente que mal dava pra reconhecer. Mas eu reconheci. Reconheci sim. Era minha filha. Desaparecida há meses. Agora murcha e encolhida. Morta. Com um monte de moscas domésticas zumbindo em cima das feridas em decomposição.

Fim

Eu criei um jogo que destruiu o mundo...

Estamos todos condenados. Vocês só ainda não sabem. Nosso mundo está se desmoronando devagarinho, igual ao fígado de um velho alcoólatra.

Não importa se vocês acreditam em mim ou não, esse processo já não pode mais ser parado. Mas se ainda precisam de prova, é só prestar mais atenção.

Os sinais estão em todo lugar, e qualquer pessoa atenta já consegue ver a confirmação das minhas palavras no mundo ao redor.

As erupções solares estão acontecendo com mais frequência, a flutuação da ressonância de Schumann está ficando mais intensa e eventos estranhos e inexplicáveis estão aparecendo cada vez mais. Tenho medo de que eu seja o responsável por ter começado todo esse processo.

Desde criança eu amava histórias de terror, filmes de terror, tudo que tinha a ver com horror.

Nem sei direito por que eu era tão atraído por isso, ainda mais porque eu nem ficava com medo! Pelo contrário, eu encontrava um certo conforto e alívio naqueles mundos melancólicos, sombrios e apavorantes.

Por um tempo eu tentei achar o filme, o jogo ou a história mais assustadora que existia, mas sem sucesso. Mesmo assim, eu curtia demais o processo, só que nada nesse mundo conseguia me assustar de verdade. Até eu parar na UTI.

Aí sim foi terror de verdade. Era um hospital perdido no meio do nada, os médicos eram praticamente analfabetos e o lugar não tinha um puto de dinheiro. Eu estava cercado por paredes caindo aos pedaços e a comida era uma papa de batata cheia de barata.

Os pacientes andavam pelos corredores arrastando sacos cheios de sangue; eles tentavam usar ultrassom pra esmagar pedras nos rins, mas os enfermeiros locais, que pareciam lobisomens, acabavam esmagando os rins inteiros.

E o meu colega de quarto tinha um cateter improvisado com torniquetes e seringas porque não tinha os de verdade.

Enfim, nem sei como eu saí vivo daquele hospital. Provavelmente tive sorte porque não tinha nada grave comigo e as pedras saíram sozinhas. Mas essa experiência me marcou tão fundo que eu decidi que era hora de fazer alguma coisa na vida, de deixar uma marca nesse mundo.

Eu já tinha feito jogos de terror antes, mas nada em grande escala. Eram historinhas pequenas com uma audiência pequena, mas agora eu queria criar algo realmente significativo, algo que refletisse todo o meu amor pela cultura do horror.

O horror definitivo, que juntasse todos os elementos de diferentes gêneros!

Mas como diabos eu ia combinar tudo isso?

Aí eu entendi: eu precisava criar um sistema operacional de terror que contivesse jogos diferentes, histórias e arquivos de mídia. Um portal pro inferno de verdade.

Pro design, comecei a usar símbolos reais de magia antiga. Na área de trabalho, a Chave de Salomão girava, um círculo pra invocar demônios.

O logo principal é o Dingir. O símbolo sumério pra “deus”, e virou o nome oficial do meu jogo.

Dingir OS.

Nesse ponto, esse nome já estava queimado no meu subconsciente.

Dingir OS… Dingir OS… Dingir OS… Eu repetia isso todo dia que nem um mantra.

Eu preciso terminar o Dingir OS. Virou minha obsessão.

Dia e noite eu ficava grudado no computador, criando os arquivos amaldiçoados, as imagens e os sons que iam encher esse sistema.

Sem IA. Tudo tinha que ser real. Por trás de cada arquivo amaldiçoado tinha uma história escrita por mim.

Eu ficava no PC até ficar tonto. Doze horas por dia, moldando os órgãos desse monstro digital com meu sangue e meu suor.

Eu também criei outros personagens — pessoas que supostamente estavam jogando o Dingir OS. Escrevi as histórias e biografias delas, tentando fazer parecerem reais pra caralho.

De noite eu acordava a cada duas horas e anotava ideias novas, que eu já começava a implementar de manhã.

Até que um dia… eles vieram até mim.

Em um sonho, os personagens do Dingir OS que eu ainda nem tinha escrito apareceram na minha frente. Almas presas dentro do sistema. Começaram a me dar dicas de como organizar as coisas, que novas funções eu devia adicionar.

Seis meses se passaram e eu lancei a primeira demo.

Não muita gente jogou. Foram só umas cem downloads, mas já foi o suficiente…

Uma semana depois, quando abri o Dingir OS de novo, vi que tinham sido adicionadas histórias novas, anomalias novas, retratos que eu nunca tinha colocado.

Naquele momento, claro, achei que eu estava enlouquecendo de tanto trabalhar.

De noite, os espíritos do Dingir OS voltaram. Eles me pressionavam, me forçavam a trabalhar ainda mais no jogo.

Não, eu não aguentava mais. Precisava descansar. Decidi reservar um dia só pra descansar, pra limpar a cabeça desses pensamentos infinitos sobre o Dingir OS… mas não tinha pra onde fugir.

No noticiário, nos fóruns, em vídeos aleatórios do YouTube — em todo lugar apareciam mensagens do meu jogo. Eventos descritos no jogo estavam acontecendo no mundo real. Arquivos que eu tinha criado dentro do jogo estavam surgindo em vários fóruns.

As erupções solares estavam piorando. Voltei pro computador e descobri que o jogo já tinha sido lançado. Lançado sem eu saber.

Youtubers já estavam começando a fazer vídeos sobre o meu jogo.

Um jogo que eu não terminei e não lancei.

Por enquanto só alguns milhares de olhos viram, mas já é o suficiente.

A caixa de Pandora foi aberta.

Comecei a repassar freneticamente o enredo do meu jogo na cabeça.

Um grupo de stalkers da rede cria um sistema operacional pra encontrar e organizar objetos anômalos dentro da rede profunda.

Aos poucos, processando todos esses arquivos, eles realizam um ritual de sobrecarga de informação pra viajar pra outra dimensão e se fundir com o fluxo de informações.

Isso faz o sistema ganhar vida própria e existir em várias formas diferentes — seja como jogo, história assustadora, vídeo do YouTube — ele vive e se espalha, recolhendo almas das pessoas.

O criador do jogo escreve uma postagem no Blogger sobre o jogo dele, convencido de que começou o fim do mundo.

Depois disso, desastres naturais começam aos poucos, as erupções solares se intensificam, a flutuação da ressonância de Schumann muda, e imagens do meu jogo aparecem em fóruns de creepypasta. Youtubers que fizeram vídeos sobre ele desaparecem sem deixar rastro ou ficam assustados demais pra continuar falando.

O jogo vira um vírus de informação e se espalha cada vez mais.

O princípio é simples: a pessoa entra em contato com esse jogo, esse sistema operacional, com os arquivos dele ou até só com uma história sobre o jogo… e de noite, enquanto dorme, eles vêm até ela… Aqueles que agora atormentam, forçando a pessoa a continuar pensando no Dingir OS. E quanto mais eu penso nisso, mais ele cresce, ganhando novas habilidades.

Essas entidades levam a pessoa praquela dimensão infernal onde elas continuam alimentando o sistema.

Se você leu até aqui, já entendeu que pra você já era. Eles vão te buscar no sono, exatamente como vieram atrás de mim.

Desculpa. Eu criei o jogo que destruiu o mundo.

Meu avô fez coisas terríveis e cruéis na vida. Agora que ele está morto, eu finalmente entendo por quê

Ele ficou preso numa instituição mental, determinado por lei, durante toda a minha vida. Eu nunca tive permissão pra visitá-lo. Por isso, nunca cheguei a conhecê-lo de verdade como pessoa. Só ouvi as histórias.

Ataques aleatórios contra pessoas. Quebrar objetos. Ser um incômodo pra sociedade. O que o mandou embora de vez foi quando ele atropelou treze pessoas com o carro. A maioria morreu. Eles acham que foi o início de uma doença cognitiva grave causada por anos de encefalopatia traumática crônica do tempo que ele passou no exército. Eu sei que não foi isso.

Me deram o relógio dele no funeral. Não sei exatamente por que meu pai me deu aquilo. Acho que ele pensou que seria um gesto legal. O peso era leve na minha mão. Barato. Um relógio automático simples, prateado, com pulseira de couro surrado.

Tinha algo gravado na parte de trás.

Um sigilo. Tipo daqueles de filme de possessão. Dois triângulos se cruzando, como a Estrela de Davi, mas o canto do triângulo que aponta pra cima foi substituído por um quadrado. Tudo cercado por um círculo. Permanentemente entalhado no fundo de metal.

Embora eu não fosse muito de usar relógio, coloquei ele nos dias seguintes. Era uma sensação boa ter algo com história comigo o tempo todo.

Uma manhã, quando acordei e olhei a hora, alguma coisa mudou.

Enquanto eu estava sentado ali, as linhas minúsculas que formavam os números ao redor da borda do mostrador começaram a se mexer. Eu aproximei o relógio dos meus olhos cansados. Elas se moviam rápido, se reorganizando no centro do relógio pra formar palavras.

SEGURE A RESPIRAÇÃO

Eu fiquei perplexo. Achei que devia estar sonhando. Não segurei a respiração. Só fiquei ali sentado, olhando, boquiaberto.

De repente, uma dor lancinante irradiou pelo meu pulso. Parecia que estavam me espetando com um monte de agulhas. Eu me encolhi e apertei o lugar com a outra mão. Durou só uns segundos. Quando olhei de novo pro relógio, ele tinha voltado ao normal.

Com o pulso ainda latejando, tentei tirar o relógio. As pulseiras soltaram fácil, mas a caixa não. Quando eu levantei, a pele de baixo veio junto, doendo pra caralho. Parecia que minha pele tinha sido colada com supercola no fundo.

Depois de tentar todas as opções que consegui pensar pra tirar aquilo, desisti e deixei no braço. Eu precisava ir pra aula.

No final da primeira aula do dia, logo quando o professor dispensou todo mundo, senti uma vibração fraca no pulso. Olhei pra baixo.

As letras se reorganizaram.

TROPECE NA PRÓXIMA PESSOA NO CORREDOR

Eu ri alto da absurdidade daquilo. Tropeçar em alguém? Olhei pros alunos começando a se levantar e descer pelo corredor. A primeira pessoa estava prestes a passar por mim, já que eu estava na ponta da fileira. Pensei por um segundo em realmente fazer aquilo, mas meu pé hesitou.

Ela passou por mim sem nada acontecer.

Ouvi um clique baixo e um rangido curto vindo do relógio. Antes que eu conseguisse olhar pra baixo, uma dor intensa de facada subiu pelo meu antebraço a partir do pulso. Parecia que estavam me esfaqueando. Meu maxilar travou e eu tentei manter uma cara normal.

Quando a dor parou, uns quinze segundos depois, a pele ao redor do meu pulso tinha ficado pálida. Olhando mais de perto, agora eu conseguia ver umas linhas escuras e fracas saindo em jatos debaixo da minha pele, partindo da caixa do relógio.

Eu saí rápido da sala.

Durante a segunda aula do dia, sentado num auditório gigante, ouvindo o professor falar sem parar sobre cálculo, senti outra vibração. Olhei pra baixo.

ROUBE A CARTEIRA DELA

Virei pra direita. Uma garota estava sentada do meu lado, com o rosto virado pra baixo, provavelmente dormindo. A carteira dela estava bem ali na mesa. Imaginando a dor intensa debaixo do relógio, minha mão direita começou a tremer. Eu precisava pegar aquela carteira. Que se foda as consequências. Não era tão grave assim, né?

Logo quando eu estava a um centímetro de tocar nela, ela acordou com um susto. Minha mão recuou por instinto.

Droga. Se eu conseguisse só—

Meu pensamento foi interrompido pelo disparo rápido de todos os nervos do meu pulso e da mão. Foi tão absurdamente ruim que eu não consegui segurar um gemido de dor que escapou da minha boca. Minha pele parecia que estava sendo esfolada e o osso por baixo esmagado até virar pó.

Eu agarrei a borda da mesa pra me apoiar enquanto balançava com as ondas de sofrimento. Dessa vez não parou por vários minutos. Já tinha uma camada de suor frio na minha testa.

Inspecionando o relógio, vi que a pele ao redor das pulseiras de couro tinha crescido por cima das bordas. Ou talvez o couro estivesse afundando na pele. Difícil dizer. Mas quando puxei levemente a pulseira, ficou claro que estava completamente fundido em mim.

Minha cabeça disparou.

Se eu conseguisse só chegar em algum lugar privado…

O horário no relógio me dizia que eu nem estava na metade da aula ainda. Tentei só ficar sentado e me concentrar no conteúdo da matéria. Torci pra acabar logo.

Logo antes do fim do horário da aula, a vibração veio de novo. Meu estômago caiu.

ESFAQUEIE ELA

Percebi então que eu estava apertando um lápis apontado com força na mão direita. A garota do meu lado tinha a mão esquerda aberta e plana na mesa.

Meu coração começou a bater forte. Sem tempo pra racionalizar. Eu não aguentava mais aquilo. Minha mão tremia de expectativa enquanto eu me preparava mentalmente pra sair correndo da sala. Levantei a mão.

O lápis desceu num golpe rápido, atravessando a carne macia da mão da garota como se fosse manteiga. Ficou cravado na madeira embaixo. Um grito violento e um filete de sangue caindo na minha mão me disseram que eu precisava cair fora. Peguei minha mochila e corri da sala.

Cheguei em casa logo depois. No meio da correria toda, nem percebi dor nenhuma no pulso. Visualmente, não parecia diferente do que estava antes daquela tarefa horrível. Uma onda doentia de alívio passou por mim.

Pensando agora, percebo que não foi a decisão certa. Mas naquela noite, depois de horas sem nada do relógio, eu me senti mais seguro. Comecei a preparar o jantar, o que envolvia cortar um tomate enquanto a água fervia numa panela no fogão.

Eu estremeci e errei o trajeto da facada quando uma nova vibração me fez pular. Apertei a faca de cozinha com a mão direita e fiz uma careta enquanto olhava pro mostrador do relógio.

CORTA FORA UM DEDO

A adrenalina subiu pela minha espinha e eu considerei minhas opções. Por mais que eu não quisesse fazer aquilo, imaginei as possíveis consequências. Me vi sem o mindinho.

Nem fodendo. Isso não é uma troca justa.

Enfiei a faca no tabuleiro de corte. Achei que perder um dedo era pior do que o relógio ficar ainda mais preso do que já estava. Me preparei.

Metal derretido encharcou minha pele e entrou nas minhas veias. Tudo queimou numa dor branca incandescente pior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido antes. Eu desabei no chão em agonia e comecei a chorar.

O metal prateado do relógio estava se espalhando pela minha pele, crescendo e se enraizando. Virando parte do meu braço. Gemidos mecânicos, cliques e zumbidos ecoavam nos meus ouvidos. Eu gritei.

Meu grito alertou meu colega de quarto. Ele correu pra cozinha pra ver o que estava acontecendo. Me encontrou encolhido no chão de azulejo, chorando e apertando o pulso.

Eu mandei ele sair. Mas ele não quis escutar.

Depois de meia hora, a dor foi diminuindo aos poucos. Ele se recusou a sair do meu lado, não querendo me deixar sozinho porque eu não deixei ele chamar uma ambulância. Eu conseguia ver que a visão do meu braço tinha deixado ele apavorado.

Bzzzt.

Meus dentes teriam se quebrado se eu tivesse apertado o maxilar mais forte quando senti aquilo. Olhei pro meu braço mecânico se contorcendo.

JOGA ÁGUA FERVENDO NELE

Eu não tive nenhum escrúpulo. Não conseguia pensar numa solução melhor. Não ia deixar aquilo progredir mais.

Tirei o braço do meu colega de quarto do meu ombro e me levantei sem dizer uma palavra. Caminhei até a panela grande de água, que agora fervia violentamente. Sem hesitar, segurei uma das alças com a mão direita e joguei nela sem direção.

A água voou pela sala num arco fumegante, atingindo ele antes que conseguisse se mexer. A água fervendo espirrou no rosto, peito, braços, tudo. Encharcando as roupas. Ele gritou de um jeito que me abalou até o fundo da alma.

Uma nuvem de vapor se formou ao redor dele enquanto a pele ficava vermelha, depois mais escura, e então começou a chiar, estourar e rachar. O ar fedia a carne queimada e cabelo.

Visões do meu avô passaram pela minha cabeça. As histórias. As treze pessoas. A mão da garota. O cara estendido no chão na minha frente.

Quantas pessoas mais?

Eu soube naquele momento que ia ser até eu morrer. Eu ia ser igualzinho ao meu avô. Olhei pra baixo enquanto meu pulso vibrou mais uma vez.

MATE ELE

Não.

Eu virei e corri pro tabuleiro de corte.

Enfiei um pano de prato na boca. Peguei a faca de cozinha, com os nós dos dedos brancos. Joguei meu braço pesado e mecânico em cima do tabuleiro, batendo com um peso imenso. Segui o metal até o fim. Mais ou menos na metade do antebraço.

Antes que eu conseguisse me impedir, cravei a faca na carne macia e pálida. Ela afundou fácil, a dor menos intensa que a do relógio. O sangue começou a jorrar rápido da ferida que crescia enquanto eu serrava.

Lutei pra atravessar o osso, duro e escorregadio no meio daquela bagunça sangrenta. Apertando todo o meu peso, ouvi dois estalos molhados e doentios. Minha cabeça ficou tonta. O mundo girou.

No final, o último pedaço de carne se separou sob a lâmina e eu ouvi o barulho familiar da faca batendo no tabuleiro.

Eu me afastei da bancada e meu braço esquerdo não veio junto. A coisa meio metal meio carne ficou morta numa poça de sangue. Peguei todos os panos de prato da cozinha e apertei com força no meu coto sangrando. Tropecei no corpo carbonizado e mal respirando do meu colega de quarto enquanto corria pro telefone.

Estou escrevendo isso tudo de uma cama de hospital. Já faz uns dois dias. Estou estável agora. Acho que eles vão trazer gente de psiquiatria pra me ver em breve. Então estou preparando minha história.

Quer acreditem ou não, eu sei a verdade sobre o meu avô.

Não repitam os mesmos erros que as famílias de vocês cometeram. Não vale a pena.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Eu tive sorte de não gostar de suco de tomate, senão eu teria ficado lá pra sempre…

O hospital psiquiátrico estadual da cidade N., perto de Almaty, no Cazaquistão, é um lugar bem sinistro e deprimente. É um prédio enorme da era soviética que não vê uma reforma desde os anos 90, e que abriga, entre outras coisas, o departamento de narcologia. Aqui eles “tratam” alcoólatras e drogados. Bom, “tratam”… na real é enfiar soro na veia e dar uns comprimidos, alguns dos quais fazem praticamente o mesmo efeito que as drogas.

O lugar é úmido pra caralho, tem corrente de ar o tempo todo; por causa das árvores grandes e escuras de folha caduca, o sol quase não entra nas enfermarias. A maioria aqui são homens — 12 a 15 por ala; as mulheres são poucas — só uma ala, onde além de mim tem mais três mulheres com cara de gente em situação de rua. Mas mesmo assim dá pra se sentir bem aqui, principalmente se antes a situação era bem pior.

O hospital tem dois pátios: um é gradeado, onde ficam os doentes mentais que não conseguem se controlar. O segundo é aberto, onde as pessoas consideradas sãs e os drogados podem andar. Mas nem esse segundo pátio significa liberdade de verdade, porque todo o setor de narcologia é cercado por um muro alto de concreto armado com arame farpado em cima.

Nesses curtos três dias eu consegui arrumar um amigo — na fumódromo, no meio de cuspe no chão, bituca de cigarro até o filtro e bancos caindo aos pedaços, eu conheci ele. Ali é policial talentoso; trabalha no Departamento de Assuntos Internos, mas infelizmente cai em bebedeiras de vários dias seguidos e por isso tá aqui.

No setor de narcologia, onde a maioria das pessoas não tá aqui pra se livrar de um vício pesado, mas pra passar o inverno no quentinho, o cheiro é de desespero puro. Mas não pra mim — porque agora eu tenho o Ali. Ele é o meu sol. Ele prometeu que, assim que sair daqui, vai atrás dos meus parentes na mesma hora.

Se é que eles existem, claro.

Eu não sei se tenho família. Eu não sei porra nenhuma sobre mim mesma — só lembro das últimas duas semanas da minha vida. Bom, na verdade não é verdade que não sei nada sobre mim. Algumas coisas eu descobri sozinha. Eu sei falar, escrever, ler, manjo de navegar na internet, e até sei quais comunidades na web eu curto e quais eu detesto. E uma coisa eu sei com certeza absoluta: eu não sou drogada nem alcoólatra. Os médicos incompetentes me jogaram nesse setor porque, quando eu apareci aqui pela primeira vez, eu não lembrava de porra nenhuma. Mas o Google que vê tudo diz que eu tenho amnésia retrógrada — as habilidades e os conhecimentos ficam intactos, mas o passado some.

Pela primeira vez eu “acordei” no sótão de alguma dacha. Era um lugar entulhado, fedendo pra caralho e escuro — quase não entrava luz. Uma vez por dia uma mulher idosa subia até lá (depois eu descobri que o nome dela era Grusha). Ela trazia uma papa nojenta de lata e um copo de suco de caixinha; às vezes levava o balde que eu usava de privada. Era a ração do dia inteiro, então eu ficava feliz pra cacete com esse momento, devorava a papa rápido e tomava o suco.

Normalmente eram sucos de fruta de caixinha, mas em algum momento essa filha da puta começou a trazer suco de tomate. Eu odeio suco de tomate com todas as forças, então jogava tudo direto no balde da privada. Depois de alguns dias eu comecei a me sentir melhor; de repente caiu a ficha do horror que eu estava vivendo. Procurei maneiras de fugir, mas a porta estava trancada com cadeado. Não, a escada pro sótão não era de dentro da casa, era de fora, e pra subir até mim a Grusha usava uma escada de extensão — uma escadinha. Ela levava embora toda vez depois de trazer comida ou tirar o balde. Eu tava em desespero total — praticamente sem saída.

Ao mesmo tempo, eu comecei a descobrir aos poucos o que rolava no andar de baixo. Como a casa tava caindo aos pedaços e várias tábuas tavam podres pra caralho, dava pra ver algumas coisas. A visão era bem limitada, mas dava pra entender. Descobri que eu não era a única na dacha. Lá embaixo tinha quatro camas; uma obviamente era da Grusha. Nas outras três, tinha três cativos em cada — uma mulher bem idosa, a segunda um pouco mais nova, uns 40-45 anos, e um homem magro e idoso.

Eles dormiam quase o tempo todo, acordando só pra comer uma vez por dia. O homem mijava e cagava numa garrafa plástica vazia; as mulheres, pelo jeito, faziam tudo em cima de si mesmas. Quando acordavam, só dava tempo de comer e se virar de um lado pro outro uns minutinhos, soltando suspiros pesados. Pareciam uns coitados, sujos, cabelo oleoso grudado na cabeça, roupa que parecia não ter sido trocada há meses.

A Grusha não fazia porra nenhuma o dia inteiro — só ficava deslizando o dedo naquele celular pré-histórico 24 horas por dia e às vezes cozinhava uma merda simples pra ela. Minhas suspeitas se confirmaram: ela misturava algum remédio no suco, e nem disfarçava. Várias vezes nesse período um carro parava na frente da casa; a Grusha saía por 5-10 minutos e voltava com sacolas cheias de comida e remédio. Ela também saía umas duas vezes por dia por poucos minutos pra ir ao banheiro. A privada era daquele tipo fossa mesmo.

Depois de cinco dias, o remédio obviamente saiu do meu organismo, e aí eu decidi fugir. A Grusha e os comparsas dela não contaram que a casa tava tão podre que um cadeado não ia segurar nada — eu arrombei a porta seca com o ombro quase sem esforço. Esperei ela ir ao banheiro, e fiz talvez o pulo mais perigoso da minha vida.

Doeu pra caralho, mas não tinha tempo pra pensar; corri o mais rápido que consegui, deixando a casa abandonada pra trás. O medo era foda; parecia que a minha carcereira já tinha ligado pros comparsas e que agora eles tavam rodando de carro pela região toda atrás de mim. E o que ia acontecer quando me achassem… dá pavor só de imaginar. Quando minhas forças acabaram, eu andei…

Andei sem rumo, olhando pra onde meus olhos iam; o lugar era deserto — antigamente era uma vila de dachas, mas agora tava tudo abandonado. Em volta só floresta fechada e as montanhas altas do Trans-Ili Alatau. Perto do fim da tarde o medo só aumentou — tava escurecendo e ficando muito frio; eu tava só de agasalho de moletom, nada adequado pro clima. Tomei uma decisão — tinha que voltar pra aquela dacha… pelo menos lá eu não ia morrer de fome e de frio. Eu não ligava mais se me torturassem.

Como eu tava andando com chinelos masculinos enormes (não tinha outra coisa no sótão), meus pés tavam destruídos e eu não conseguia mais andar. Em desespero e completamente congelada, juntei uns galhos, estiquei no chão e dormi…

Acordei num lugar surpreendentemente quente e aconchegante. Um homem idoso de jaqueta camuflada velha sorriu com bondade e colocou na minha frente uma tigela de sopa cheirosa e um copo de leite. Eu ataquei a comida sem nem perguntar nada. Ele começou a se mexer pela casa. Quando terminei, ele me contou que trabalha como guarda florestal e é responsável por essa parte da floresta. De madrugada, fazendo ronda a cavalo, quase passou por cima de mim. Aí de algum jeito me colocou na sela e me trouxe pra cabana dele.

Eu não senti medo perto dele — o homem transpirava bondade. Perguntei o que ia acontecer comigo agora. Ele disse que chamou a polícia e a “Ambulância”. No mesmo dia eu já estava nesse departamento de narcologia estadual…

O mundo não é sem gente boa, e agora eu fico preocupada com o guarda florestal; e se os meus sequestradores foram lá e tentaram arrancar alguma informação dele na porrada? Aqui eu ainda fico um pouco com medo também. Mas o Ali é minha esperança e meu sol; ele me disse pra não ter medo de nada, que não vai deixar ninguém me machucar. Mas em uma semana ele sai do hospital. Por um lado é bom, porque ele vai atrás da verdade sobre mim. Por outro lado — e se eles voltarem quando ele não estiver aqui?
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon