terça-feira, 11 de agosto de 2026

A velha barragem da minha cidade nunca reteve água

Eu já sabia desde o início que eu estava absurdamente despreparado para essa pescaria. Nunca foi exatamente a minha praia — era coisa do Matt, depois coisa do Noah — e eu só fingia que curtia pescar pra me enturmar com eles.
 
Sendo bem sincero, eu não gosto de pescar. É só uma desculpa pra passar um tempo com os caras. Já vi eles passarem por várias fases de hobbies diferentes, e honestamente, até que era admirável ver eles testando tantas coisas novas agora que a gente tá chegando nos trinta anos.
 
Vi o Matt e o Noah estacionando lado a lado, do outro lado do estacionamento em relação a mim. A gente tinha ido parar num bairro recém-construído que, depois de uma caminhada curta, dava acesso a um ponto de pesca perto de uma barragem antiga — e eu nunca imaginei que fossem construir algo ali por perto. Com a vara de pescar na mão, desci do carro pra cumprimentar eles.
 
— Cadê a sua caixa de pescaria? — perguntou o Matt, sorrindo debochado, só brincando.
 
— É mesmo, você não vai passar frio só de camiseta? — completou o Noah.
 
Eu olhei pra isca de metal prateada amarrada na minha linha. Mexi nela com uma confiança que não tinha, vendo ela girar no ar.
 
— Com essa aqui já tá de bom tamanho.
 
— Tá bom então, durão. Me avisa quando você pegar algum peixe de verdade — o Matt bateu nas minhas costas, e fez sinal pra gente seguir caminho.
 
Fui vendo os dois tagarelando sobre a última pescaria que fizeram; de vez em quando eles olhavam pra trás, mas não paravam pra perguntar se eu tava bem. Tavam imersos no hobby deles, e tudo bem, mesmo que eu me sentisse meio de lado. Fui seguindo ali, bem pertinho, até que eles finalmente falaram comigo só pra me guiar pelo pântano.
 
— Olha só, pelo menos ele tá de sapato certo pra essa parada — riu o Matt. Eu fiz uma dancinha boba pra mostrar minhas botas de trilha. Depois de tantos anos de amizade, a gente sempre revezava quem ia ser alvo de piada. Agora era a minha vez, e eu tava levando na esportiva.
 
— Essa aqui também serve pra correr, viu — olhei pros meus pés — Muito melhor do que essas botas de borracha idiotas que vocês dois, seus idiotas, tão usando.
 
— Isso aqui se chama bota de pesca com cano alto — corrigiu o Noah, com um tom meio na defensiva, apontando pro equipamento que ia até a metade do tronco dele.
 
— Você trouxe cerveja? — gritou o Matt mais na frente.
 
— Claro — o Noah bateu na mochila — E você, Jack?
 
Eu bati nos bolsos grandes da minha calça; dava pra ver direitinho as duas latinhas que eu tinha levado.
 
— Caramba, então você não veio totalmente despreparado não — sorriu o Noah.
 
A gente foi andando pelo pântano até que a barragem apareceu de vez. As nuvens de chuva que vinham do oeste faziam aquela estrutura gigantesca parecer ainda mais feia e despropositada. Os passaros davam voltas em volta dela, mas nenhum pousou na parede de concreto. Mesmo assim, não faltava cocô de passaro acumulado ali, parecia que fazia anos. A cerca de arame em volta das entradas da barragem tava tão enferrujada que dava pra confundir com madeira.
 
Nunca entendi por que construíram aquilo ali. O rio em si é bem pequeno, e nem na época de chuvas fortes ele nunca foi motivo de enchentes grandes. Pelo estado que tá, acho que nem a prefeitura sabe mais por que aquilo existe — mas também não dão a mínima pra demolir.
 
Fiquei olhando por tanto tempo que quase fiquei tonto. Reparei que o lugar tinha ficado estranhamente quieto. Os pernilongos que eu passei todo o caminho espantando tinham sumido. Tenho quase certeza que o Matt levou repelente, mas mesmo assim deu uma sensação esquisita.
 
— Tudo bem aí? — o Noah me tirou do transe. Eu balancei a cabeça pra voltar a prestar atenção.
 
— Tudo, tudo… é que nunca vi essa coisa de perto antes.
 
— É feia pra caramba, mas os peixes que eu já vi por aqui… — o Matt começou a preparar a vara de pesca com mosca — E também é muito quieto aqui.
 
— Posso ajudar a ficar ainda mais quieto se vocês quiserem — falei, apontando pra base da barragem.
 
— Pode ficar com a gente mesmo, Jack, nem que você não trouxe nada que preste! — riu o Matt.
 
— Não, tá bom. Se eu pegar algo, eu grito “PEIXE” bem alto pra vocês ouvirem.
 
Pulei de pedra em pedra pela margem do rio e me instalei numa maior. Abri a minha latinha, tomei um gole e fiquei olhando pro monte de ferrugem enorme ali do meu lado direito. De repente, vi uma luzinha vermelha piscando em cima de uma das portas.
 
— Vocês tão vendo essas luzes? — gritei. O Matt e o Noah olharam pra mim quase ao mesmo tempo, enquanto entravam na água juntos.
 
— Deve ser nada não, mano — deu de ombros o Noah — É só algum sensor.
 
Resmunguei e voltei a jogar a linha. Nada. A explicação do Noah não fazia muito sentido, mas a gente tava ali pra pescar, e com certeza não tava invadindo propriedade alheia. As nuvens foram chegando mais perto, mas ainda tava uma noite de verão bem quente. Joguei a linha umas cinquenta vezes e não peguei absolutamente nada. Decidi deixar a vara de lado e só curtir o momento.
 
De vez em quando a gente trocava uma palavra, mas era como o Matt tinha dito: silêncio. Você ia pensar que, por eles terem falado tanto antes, iam ficar o tempo todo comentando sobre pesca ou me zoando mais um pouco. Mas me enganei, e foi até bom ter um pouco de sossego.
 
No meio daquela calmaria, notei que ali bem pertinho do lugar onde eu tava pescando, na base da barragem, a água não se movia nem um pouco. E além disso, era muito mais escura do que o resto. Aquela poça parada parecia ser muito funda.
 
Fiquei encarando. O jeito que ela não se mexia me lembrou de toda aquela besteira que a gente vê na internet sobre amebas que comem cérebro em águas paradas. Não parecia nada com isso, mas quanto mais eu olhava, mais arrepios eu sentia na nuca.
 
— Peguei algo! — o Matt quebrou o silêncio. Desci depressa da pedra e deixei a minha vara ali mesmo. Peguei a rede que eles tinham trazido. Vi os dois vindo na minha direção com uma truta marrom, parecendo pais orgulhosos com o filho novo. Quando jogaram ela na rede, meu Deus, que peixe grande!
 
— Bem jogado, Matt — falei impressionado vendo o bicho se debatendo. Devia ter uns setenta centímetros e pouco, fácil.
 
— Agora é a minha vez — sorriu o Noah debochado — O meu vai ser muito maior.
 
O Matt soltou o peixe de volta na água. Ele virou de costas pro rio, mas eu não. O peixe continuou se mexendo desesperadamente, como se alguém tivesse correndo pra salvar a vida. Em todas as poucas vezes que eu fui pescar, nunca vi um peixe agir assim. Voltei pro meu lugar, mas não conseguia tirar aquela cena da cabeça.
 
Subi de novo na minha pedra, mas alguma coisa me impediu de pegar a vara de volta.
 
— Mas que porra é essa?
 
A água escura e parada tinha mudado de lugar. Ou melhor: tinha crescido. Agora era o dobro do tamanho de antes. Será que caiu alguma coisa ali dentro? Olhei pro céu: devia começar a chover daqui a meia hora mais ou menos.
 
— A gente vai embora assim que começar a chover, né? — perguntei, querendo mudar de assunto pra não ficar pensando besteira.
 
— Que nada! — cuspiu o Matt — É quando chove que os peixes aparecem todos!
 
Não deu pra ouvir a piada que o Noah ia fazer sobre mim, porque outra coisa chamou a minha atenção. Um barulho vindo da barragem. Uma batida baixa, que vinha e ia sem ritmo. Parecia que vinha bem na altura da água, do outro lado da parede toda corroída. Somado com aquela luz piscando, dava pra ter certeza que tinha alguma coisa acontecendo ali dentro.
 
Aquela batida me deixou apreensivo, mas dessa vez eu nem quis perguntar. Toda preocupação minha até agora tinha virado piada ou sido ignorada. Talvez eles já tivessem ouvido aquilo antes. Talvez fosse só maquinário velho e estragado batendo. Hesitei, olhando de novo pra aquele buraco escuro na água. Não devia ter peixe nenhum ali, né?
 
Joguei a linha de novo, não porque esperasse pegar algo, mas porque precisava fingir que não tava morrendo de medo por dentro. Continuei pescando calado até a chuva começar a cair, e continuava sem pegar nada.
 
Pouco depois das primeiras gotas, o céu pareceu resolver descarregar tudo em cima da gente. A chuva caiu tão forte que quase não dava pra enxergar mais nada.
 
— JACK! — ouvi o Noah gritar — TEM UMA CAPA DE CHUVA SOBRANDO NA MINHA BOLSA, PEGA ELA!
 
Que ódio de ter vindo tão despreparado. Consegui pegar a capa, mas ela já tava meio encharcada mesmo. Vi os dois jogando a linha de novo no rio. Aqueles caras eram doidos. As batidas continuavam, e cada vez mais altas — difícil de distinguir do trovão que começou a ribombar lá em cima.
 
A água do rio ficou toda agitada com a chuva, e o nível subiu bem o suficiente pra gente perceber. Mas aquela mancha escura não se mexia nem um pouco com o temporal.
 
— Não me diga que é um…
 
Uma sirene começou a soar de dentro da barragem; eu tampei os ouvidos com força. Era um barulho infernalmente alto.
 
— ENTÃO O QUE É QUE TÁ ACONTECENDO AQUI!? A GENTE TINHA QUE TER SAÍDO DAQUI JÁ! — gritei o mais alto que consegui, esperando que algum deles ouvisse. Peguei a minha vara e me virei pra sair andando rápido na direção contrária, passando pelos dois no meio da tempestade. Os peixes começaram a pular fora d’água em quantidade absurda, todos fugindo desesperados da barragem. Mas meus amigos estavam decididos a pescar mais um, custasse o que custasse.
 
— Deve ser só coisa da chuva! Relaxa! — tentou me acalmar o Noah.
 
— Se tá entediado é só ir embora! Ninguém tá te prendendo aqui! — completou o Matt, quase sendo derrubado pelo vento forte.
 
Uma pancada estrondosa me parou no lugar, e logo depois ouvi um barulho de sucção, como se a margem do rio tivesse afundando. Virei depressa e vi as luzinhas vermelhas da barragem apagando de uma por uma. Depois olhei pro rio: o nível da água baixava cada vez mais, e aquela escuridão ia afundando mais e mais.
 
— Vocês tão vendo isso? — perguntou o Matt, começando a recuar e guardar o seu equipamento.
 
— Tô… — mal deu pra ouvir o Noah responder, mas ele também começou a fazer o mesmo.
 
— Gente, anda logo — falei, andando pra trás sem tirar os olhos da barragem nem um segundo.
 
Naquele instante, a sirene que berrava tão alto parou de vez. Antes que eu pudesse raciocinar direito, a escuridão na base da barragem inchou de uma vez. No meio da chuva, a água subiu formando uma montanha que não devia ser possível de jeito nenhum.
 
— CORRE!
 
Antes mesmo de conseguir virar o corpo, vi algo se movendo através das cortinas de água. Um pescoço que dobrava de um jeito que nenhum animal do mundo tem, quase tão escuro quanto o céu de tempestade. Depois ouvi um som gutural vindo na direção da margem, e vi aquela coisa engolir o Noah de uma vez. Dava pra ouvir o grito dele abafado dentro daquilo e pelo barulho da chuva.
 
Saí correndo desesperado. Os pés escorregavam nas pedras, mas as botas seguravam firme. Ouvi o Matt cair, a água saindo das botas de pesca dele. Depois veio aquele mesmo som gutural atrás dele. Acho que nem chegou a gritar. Segurei o choro e fui disparado pelo caminho do pântano. Ouvia o barulho de alguma coisa imensa se arrastando atrás de mim, mas não parei nem pra respirar. Foi um milagre não ter tropeçado em nenhuma pedra.
 
Só parei de ouvir aquele ruído quando saí da região alagada, mas nem liguei. Continuei correndo morro acima até chegar no estacionamento. Já tava quase desmaiando de cansaço quando vi o meu carro, meu velho conhecido. Entrei e me joguei no banco. As mãos tremiam tanto que quase não conseguia colocar a chave na ignição. A visão toda embaçada, metade por causa das lágrimas, metade pela adrenalina.
 
Apoiei a cabeça no encosto e tentei respirar direito. A chuva caía tão forte que não dava mais pra ver a barragem de jeito nenhum. Mas ver os carros do Matt e do Noah estacionados do outro lado me deixou ainda mais em pânico. Gritei e chorei sem parar enquanto passava devagar pelos veículos dos meus amigos que tinham sido devorados ali.
 
Liguei para a polícia antes mesmo de chegar em casa. Os investigadores nunca acreditaram em mim. Os corpos deles nunca foram encontrados, e os carros só foram rebocados uma semana depois. Não tive coragem de dar a notícia para as famílias deles — mas o noticiário fez o serviço sujo por mim. Disseram que os dois pescadores foram levados por uma enchente causada por um rompimento estrutural na barragem. Que mentira desgraçada.
 
Alguém mais precisa saber o que aquela barragem inofensiva esconde dentro dela. Ela não foi construída pra proteger ninguém de enchentes; ela foi feita pra servir de jaula pra uma coisa que o mundo ainda não tá preparado pra conhecer.
 
Passei por lá semana passada. Já começaram a consertar o buraco enorme que apareceu na parede de concreto. Pelo que deu pra ver, agora tão construindo ela muito mais grossa e resistente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A Cicatriz

Ainda tenho aquela porra de cicatriz na minha perna. Nunca cicatrizou direito. Toda irregular, parecia uma merda. Evito olhar para ela quando posso.

Foi numa quinta-feira, acho. Talvez tenha sido numa quarta. Hoje em dia, os dias parecem todos se embaralhar. Era um daqueles bares que só continuam abertos porque ninguém tem a porra da paciência de ir para outro lugar. O lugar cheirava a cerveja e a limpador de chão. E as caixas de som estavam totalmente fodidas. O grave simplesmente se sentava no seu peito como um gordo filho da puta. Eu tinha bebido forte a maior parte da semana. E ainda assim não conseguia dormir. Já estava no meu terceiro cidra barato que tinha gosto de combustível de foguete e arrependimento.

Eu estava só sentado ali, discutindo comigo mesmo sobre ir para casa. Como eu sempre faço. Mas é mais fácil para mim ficar do que admitir quando já bebi o suficiente.

Foi então que ela sentou ao meu lado. Uma loira linda. Não do tipo que olha para caras como eu duas vezes. E pediu o mesmo cidra. Perguntou se a música era sempre tão uma merda e tão alta. Eu disse que sim. Aí ela começou a falar sobre o pub do outro lado da rua. Costumava ser melhor antes de fechar. Nós só ficamos ali sentados, conversando sobre nada importante. Só as merdas de sempre. Depois de um tempo, ela se inclinou. O cheiro de rosas baratas e baunilha. Daquelas nos frascos pequenos perto do caixa. Aí ela disse que esse lugar era alto demais. E perguntou se eu queria ir para a casa dela.

Eu disse que sim. Pensando que a minha sorte finalmente tinha mudado.

A casa dela era no segundo andar. A escada era mal iluminada e cheirava a mofo e urina. E quando entramos no apartamento dela, ela trancou a porta. Disse que não queríamos ser incomodados e me deu uma piscadinha safada. Depois ela tirou os saltos e se esfregou toda em mim. Depois de alguns minutos, ela recuou e disse que precisava ir ao banheiro.

Eu andei até perto de uma janela e olhei para fora. O quarto estava meio escuro. Só iluminado por um abajur. E havia roupas amontoadas em cima de uma cadeira. O lugar parecia vazio de alguma forma. Como se ela não estivesse morando ali há muito tempo. Ou ela simplesmente não ligava. Não sei. E eu não me importava.

Aí ela voltou. E curvou o dedo para eu me aproximar. E enquanto eu andava em direção a ela, meu coração batia forte no peito. Aí alguma coisa estalou sob o meu pé. Era um celular. Tela estilhaçada. Eu disse que sentia muito e me senti um completo idiota.

Ela pegou ele de mim. E me deu um sorrisinho. Disse que pertencia a uma garota com quem ela tinha se divertido um pouco. E que ela devia ter esquecido e que não havia motivo para preocupação. E aí começamos a nos beijar de novo. Minha mão desceu pelo vestido dela e eu senti algo se mexer. Pesado. Profundo. Embrulhando o estômago. Eu me contraí, quase tirei a mão, mas disse a mim mesmo que era o cidra e a falta de sono. Tanto faz. Devia ser só gases. Deixei a mão ali. Mexeu de novo. Mais devagar desta vez. Como se algo estivesse se revirando.

Quase tirei a mão, mas não tirei. Só a mantive ali. Me senti estúpido por sequer pensar naquilo. Provavelmente não era nada. Só o jeito que ela respirava, ou o vestido se movendo sob meus dedos. Eu estava acordado há tempo demais. E pensei que minha mente tinha começado a pregar peças em mim. Acontece com falta de sono e beber demais. Pressionei um pouco mais firme, tentando provar para mim mesmo, e o movimento parou. Eu disse a mim mesmo que não era nada. Só eu sendo um paranóico filho da puta. Foi um certo alívio. Ela fez um barulho suave, quase uma risada, e me puxou para mais perto. Me beijou como se nada estivesse errado. Eu a beijei de volta com mais força do que queria, tentando enterrar aquele pensamento. E disse a mim mesmo para parar de ser mole. Você está num apartamento com uma mulher que realmente te quer. E está bem aqui. Não estrague tudo inventando merda.

Um terceiro deslocamento, menor do que antes, depois nada. Pensei que era isso. Até ri baixinho. E pensei: Idiota. Segura a porra da onda.

Então o calor dela sob minha palma mudou. Mais apertado. Como se a pele estivesse se contraindo sobre si mesma. Pressionei um pouco mais e senti uma crista se erguer contra meus dedos. Dura. Com formato errado. Minha boca ficou seca.

Ainda tentei. Disse a mim mesmo que era músculo. Ou osso. Ou o jeito que ela estava arqueada. As pessoas têm corpos estranhos. Isso não significa nada. Mantive minha mão ali por mais tempo do que deveria, esperando que fizesse sentido.

“Você está bem?” Perguntei a ela. Minha voz saiu fina.

Ela não respondeu. Só soltou o ar devagar contra o meu pescoço. A mão dela ainda estava na minha nuca, os dedos soltos. Tentei me sentar. O braço dela apertou. Não muito. Só o suficiente.

Outro empurrão. Maior. Todo o meio do corpo dela se deslocou, irregular, como se algo estivesse rolando de um lado para o outro. Arranquei minha mão de volta e saí da cama. Olhei para baixo e vi a frente do vestido dela. Estava se movendo sozinha. Pequeno a princípio, quase nada. Depois um estiramento mais profundo que se manteve por um segundo antes de se acomodar.

Eu disse a mim mesmo para levantar e sair. Só sair dali. Mas eu só fiquei parado ali, como um completo idiota, olhando para ela.

Ela fez outro som suave, mais baixo desta vez. Cabeça inclinada para trás contra o travesseiro. Os olhos rolando lentamente para trás nas órbitas e o brilho suave de saliva no lábio. Os movimentos ficaram mais pesados. Menos rolamentos, mais empurrões de dentro. Os quadris dela se contraíram. As pernas se dobraram e esticaram sozinhas, devagar, como se ela não encontrasse uma posição melhor para ficar.

Uma mancha escura se espalhou de entre as pernas dela. Pouco a princípio. Depois mais. Então um cheiro atravessou o perfume barato. Metálico e úmido. Errado.

Os braços dela se sacudiram. Repentinamente. E o vestido subiu. A pele parecia esticada demais, brilhante e esticada sobre algo se movendo por baixo.

Ela fez um barulho que não era risada nem gemido. Mais como ar sendo forçado para fora. A cabeça rolou para o lado. Os olhos brancos leitosos e meio abertos, olhando mais ou menos na minha direção, mas não me vendo mais.

A maior mudança até agora. Todo o meio do corpo dela se ergueu e continuou se erguendo, o tecido esticando, então algo úmido e grosso começou a se forçar para fora de entre as pernas dela. Só a ponta no começo, acinzentada, depois mais, devagar e mais deliberada. A cabeça dela pendeu, flácida. A cabeça daquela coisa se soltou depois disso, baixa em direção à cama, e olhou diretamente para mim. Fez um som como ossos estalando e um rosnado através de uma boca cheia de catarro.

Então começou a vir na minha direção. Não rápido. Só uma cambalhota lenta e desajeitada com as quatro patas, barriga virada para cima, a nova cabeça liderando o caminho, membros se dobrando em lugares onde não deveriam.

Eu recuei. E quase caí sobre a cadeira. As mãos tremiam tanto que eu não consegui girar a primeira tranca. Ouvi o barulho de tapa-tapa se aproximando. Consegui abrir a de cima, mas a do meio travou. Continuei girando no sentido errado. Senti algo roçar meu tornozelo. Chutei com força para trás sem olhar. Uma dor rasgou minha perna. Quente. Profunda. Então sangue e algo mais grosso escorrendo para dentro do meu sapato, morno e pegajoso. Finalmente consegui girar a última tranca e arranquei a porta, batendo-a atrás de mim. Algo bateu do outro lado com força. Depois, só o arranhar contra a madeira.

Caí quase rolando escada abaixo e fui de bunda no chão da rua, caindo com força. A perna parecia estar pegando fogo. A queimação continuava se aprofundando, como se ainda estivesse me devorando. Não parei. O único pensamento na minha cabeça era: Por favor, Deus. Continuei mancando, tentando não olhar para trás. E quando finalmente parei, o choque e a dor me atingiram com força, fazendo-me vomitar o cidra que eu tinha bebido.

Tremendo. Vomitando. Vi o rosto dela por um segundo. Aquele sorrisinho calmo. A incredulidade foi pior do que a dor.

Pensei em chamar a polícia. Mas quem vai acreditar no bêbado da cidade?

A cicatriz ainda está lá. Ainda assim, evito olhar para ela quando posso.

As Estrelas Dançaram para Mim

Foi em algum momento depois da meia-noite que eu vi as luzes pela primeira vez. Eu não saberia dizer a hora exata, pelo fato de ter ingerido uma substância que altera a mente. Você sabe como o tempo tem a mania de escapar de você quando se está naquele estado. Eu estava deitado na grama, uma brisa suave roçava minha pele nua. Normalmente, esse tipo de clima pediria uma jaqueta leve, mas os produtos químicos bombeando pelas minhas veias me permitiam apreciar o frio.

Pensei que talvez estivesse alucinando quando vi as luzes aparecerem pela primeira vez. Elas executavam o mais belo balé, lá no alto do céu noturno. O universo estava fazendo um show, só para mim. Eu comprei um ingresso através do mercado do acaso, e puta merda, eu estava recebendo cada centavo do meu dinheiro.

Como se fossem fazer uma reverência, as luzes desceram em direção ao palco inferior. Um indivíduo em particular decidiu fazer minha conhecença e se aproximou de mim como quem diz "olá". Flutuou sobre mim, executando uma pirueta com muito equilíbrio e graça. Então abriu uma escotilha para lançar um holofote sobre minha simples figura. O que eu poderia fazer? Tudo o que consegui pensar foi aplaudir e demonstrar meu entusiasmo e apreço pelo espetáculo que acabara de testemunhar.

Por um momento, pensei que talvez estivesse se aproximando ainda mais. No entanto, ao perceber que já não sentia mais o gramado úmido e a terra firme sob mim, entendi que estava flutuando para cima, sendo sugado para a escancarada goela do ser. Era uma espécie de convite. Estavam me apresentando um presente em agradecimento pela minha ininterrupta fascinação.

Somente quando fui baixado sobre uma mesa acolchoada é que os operadores se revelaram para mim. Eram criaturas humanoides esticadas, de cabeças oblongas e pele turquesa. Não tinham boca e se comunicavam através de uma forma de telepatia. Eles não transmitiam informações por meio de vocabulário, mas sim de conceitos amplos. Usavam emoção pura junto com noções vagas de tempo e espaço.

Vindos de uma galáxia distante, eles apenas desejavam nos ajudar a transcender a barreira da ignorância e chegar ao próximo estágio da nossa evolução. No entanto, assolados pela guerra e pela ganância, não estávamos prontos. Era imperativo que nos purificássemos dessas negatividades antes de estarmos prontos para a próxima fase.

Fui informado de que, na verdade, éramos perigosos demais para que nos permitissem persistir em nossa forma atual. Eles haviam considerado seriamente simplesmente destruir toda a nossa raça, mas optaram por nos dar uma oportunidade de melhorar.

Eu estava sendo incumbido de ser aquele que transmitiria essa mensagem a toda a humanidade. Eles estavam fazendo de mim uma espécie de salvador. Eu deveria livrar a nossa espécie do pecado. Arrancar-nos da beira da autodestruição.

Eles retornariam em um período de tempo não especificado para verificar nosso progresso. Se nos tornássemos dignos o bastante para transcender, então eles facilitariam essa transição. Se continuássemos com nossos caminhos corrompidos, então eles nos exterminariam a todos num instante.

Eu me vi de volta naquele campo gramado, com a consciência de que agora tudo estava em minhas mãos. Cabia a mim garantir que a humanidade sobrevivesse à próxima visita deles. Eles me deram um plano de ação. Um guia para ajudar a humanidade a evoluir. Recebi o conhecimento que me ajudaria a alcançar as massas, para mudar seus corações e mentes. O único problema foi que eu tinha ficado chapado demais bem antes de me levarem para o conselho deles, e não conseguia me lembrar de nada disso.

Tem um andar no meu prédio que não existe

Tem um andar no meu prédio que não existe.

Não é o Décimo Terceiro. Isso seria clichê demais. Embora, ele também não tenha um décimo terceiro andar, mas não por motivos sobrenaturais. Ele simplesmente não vai tão alto assim. Alguns moradores o chamam de Terceiro Andar e Meio, ou Três e Três Quartos para evocar uma vibe de Harry Potter, mas ambos são muito fantasiosos para o meu gosto. Eu só o chamo de Andar Morto, e eu sei que não é menos clichê do que o décimo terceiro andar, mas parece apropriado.

Os elevadores do nosso prédio usam todos mostradores analógicos acima das portas para indicar em qual andar estão. Em ocasiões raras e, até onde se sabe, aleatórias, a agulha para exatamente no zênite do mostrador, onde não há número algum. Quando isso acontece, o elevador congela, e a porta se abre para um andar que fisicamente não pode estar ali. Dá para perceber olhando para o lado de fora do prédio que não há espaço para um andar secreto no meio, e a escada de emergência passa bem por ele. O zelador dá as instruções a todos os novos moradores sobre o terceiro-andar-e-meio, e mais pessoas o levam a sério do que você imagina. Ocorrências assim não são tão raras por aqui.

Mas mesmo para aqueles que não o levam a sério no início, o assunto é regularmente levantado nas reuniões de condomínio, e há uma lista de regras afixada bem abaixo do painel de controle no elevador, para que saibamos sempre o que fazer.

1. Quando o elevador parar no terceiro-andar-e-meio, não aperte nenhum botão antes de apagar as luzes no fim do corredor. Cada botão que você apertar só vai reduzir o tempo que você tem.

2. Caminhe com calma, mas com rapidez, até a extremidade oposta do corredor, deixando quaisquer pertences pessoais no elevador para não te atrapalharem.

3. Não olhe diretamente para as janelas nem para nenhum espelho.

4. Não olhe pelos olhos mágicos de nenhuma porta de apartamento.

5. Não se aproxime nem entre em nenhum apartamento com a porta aberta.

6. Não responda nem reaja a nenhum som ou voz vindo de dentro dos apartamentos.

7. Se você ouvir algo atrás de você, não pare nem se vire. Siga em direção à extremidade oposta do corredor, virando-se apenas quando ouvir uma porta se fechar.

8. Ao chegar ao fim do corredor, leia o mural de avisos e assine o formulário. Por favor, certifique-se de que a caneta esteja visível e acessível para a próxima pessoa.

9. Ajuste o relógio de pêndulo pendurado na parede para o horário aproximado (com uma margem de três minutos e meio do horário local, de acordo com um dispositivo conectado à internet). Gire o botão do termostato para igualar a temperatura real, conforme indicado pelo medidor na metade inferior. Gire o dimmer até que as luzes do corredor estejam completamente apagadas.

10. Contanto que não haja nada atrás de você, vire-se e volte para o elevador. Não se vire depois que estiver dentro do elevador até que as portas estejam fechadas. Se o ritual foi concluído corretamente, as portas se fecharão automaticamente. Se as portas não se fecharem, também não se vire.

Essa última frase é bem sinistra, obviamente, mas eu não sei o que acontece se você errar o ritual. Nenhum dos meus vizinhos que completaram o ritual falhou, e não é tão difícil assim errar. O prédio data pelo menos dos anos oitenta, então é possível que já faz décadas que ninguém falhou.

Nem todo mundo no meu prédio já percorreu o andar morto, e algumas pessoas já o percorreram várias vezes. Eu não acho que seja completamente aleatório. Seja qual for a força por trás disso, ela quer que o ritual seja concluído, então ela não escolhe pessoas que seriam incapazes de fazê-lo, como enfermos ou crianças pequenas. Ela sempre escolhe pessoas que estão sozinhas no elevador, provavelmente porque um corpo extra ficaria tentado a vagar e atrapalhar tudo. Se você quiser evitar o ritual, pode simplesmente nunca usar o elevador sozinho e usar as escadas. Uma vez perguntei ao zelador se ele já tinha considerado simplesmente declarar os elevadores fora de serviço.

Ele disse que não, mas o último zelador considerou.

Eu tentei usar as escadas o máximo possível, só usando o elevador quando estava com compras ou algo assim, às vezes vagando pelo saguão esperando alguém aparecer para ir comigo. Mas na semana passada cheguei em casa tarde, e sabia que ia esperar uma eternidade por outra pessoa, então minha escolha foi carregar minhas sacolas cinco lances de escada ou arriscar o elevador sozinho.

Arrisquei o elevador, e acho que você já pode adivinhar o que aconteceu.

Pelo menos não me pegou desprevenido. Eu tinha colocado minhas sacolas no chão e pegado meu celular, tirando uma foto das regras e ligando a lanterna e a câmera de vídeo, só por precaução. Assim que o elevador começou a subir, meu olhar ficou preso na agulha enquanto ela arqueava lentamente para cima. Meus olhos se arregalaram, e meu coração quase parou quando a vi parar imóvel bem entre os andares três e quatro. O elevador também parou subitamente, as luzes piscando antes de se estabilizarem em um brilho âmbar fraco enquanto as portas rangiam lentamente, revelando o andar Três-e-Meio.

A única luz vinha do elevador e do luar entrando pelas janelas sujas do lado direito. Quase tudo o que eu via era em algum tom desbotado de azul. O carpete estava gasto, a tinta descascando e, quando as portas do elevador se abriram, o ar estagnado entrou como se fosse a primeira mudança de pressão que acontecia há tempos. O corredor estava vazio, sem nenhum som de encanamento ou ventilação; apenas o rangido sutil e o assentamento do próprio prédio. Todas as portas do lado esquerdo estavam bem fechadas, e eu não ouvi nenhum sinal de vida ou atividade atrás delas.

E bem no fim do corredor, vi o mural de avisos, o relógio, o termostato e o interruptor de luz.

Precisei de toda a força que tinha para resistir a apertar o botão do elevador, mas suspeitei que não seria apenas uma perda de tempo, mas que estaria ativamente tocando a campainha para o que quer que estivesse por trás de tudo isso. Olhei para meu celular e vi que não só a lanterna estava apagada, mas que a tela piscava com estática estranha e texto distorcido, tornando-o completamente inútil. Resmunguei baixinho e o enfiei no bolso, cerrando os punhos trêmulos enquanto tentava desesperadamente reunir forças para sair do elevador. Sabia que cada segundo que passava era um segundo perdido, então forcei um pé no carpete, e depois o outro.

Apesar de quão gasto parecia, era estranhamente macio e absorvia o som, como se estivesse engolindo meus pés bem de leve. Assim que saí, a única coisa a fazer era terminar logo, então marchei para frente o mais rápido que ousei, tentando desesperadamente não fazer barulho que pudesse alertar alguém sobre minha presença.

A primeira regra que quebrei foi olhar pelas janelas. As janelas estavam embaçadas pela umidade velha presa entre os vidros, obscurecendo o que quer que estivesse além. Eu conseguia distinguir as silhuetas de prédios altos e estranhamente góticos. Vi algumas brasas âmbar opacas, seja dentro dos prédios ou em lanternas externas, mas fora isso, tudo parecia bastante escuro e sem vida. Estava ventando lá fora, ventando o bastante para chacoalhar as vidraças, e de repente fiquei muito preocupado que elas pudessem se estilhaçar. Não entendi o porquê no início, porque demorou um momento para minha mente consciente registrar a forma escura e amorfa que avançava lentamente sobre elas. Percebi que se tratava de uma criatura vagamente parecida com um molusco, agarrando-se sem membros ao lado de fora do prédio com sua parte inferior plana e pegajosa. Ela se contorcia, ondulava e tremia enquanto se impulsionava sem rumo ao longo de seu curso repugnante. Não sei se ela sabia que eu estava ali ou se se importava, mas imediatamente desviei o olhar e continuei pelo corredor.

No lado esquerdo, havia espelhos ornamentados pendurados entre cada apartamento; todos manchados, todos quebrados e colocados de forma dessincronizada com as janelas, de modo que não refletiam nada do mundo exterior. Na periferia da minha visão, avistei reflexos de coisas que ou não estavam realmente lá, ou talvez simplesmente não fossem visíveis a olho nu. De qualquer forma, decidi seguir as regras neste caso e não olhar diretamente para eles.

Em vez disso, ergui o olhar para um teto de pipoca especialmente horrível, embora não abertamente sobrenatural. Estava muito manchado, e honestamente não me surpreenderia se contivesse amianto. As manchas eram amorfas, mas estranhamente concêntricas, como se estivessem se espalhando de seus focos o máximo que podiam, enquanto desviavam habilmente de quaisquer obstáculos, quase como crescimentos vivos de algum tipo.

Parei por reflexo quando ouvi uma porta ranger atrás de mim, mas me contive antes de ceder ao impulso de me virar. Quando você está em um estado tão elevado de luta ou fuga, lutar contra o instinto de olhar para cada som que ouve é incrivelmente desgastante. No instante em que ouvi um único pé pousar suavemente no carpete, retomei imediatamente minha marcha. Não sei quanto tempo aquele corredor tinha, mas parecia muito mais longo do que aparentava. Não posso ter certeza se era a adrenalina me dando uma percepção em câmera lenta ou se o Andar Morto estava fora do nosso tempo tanto quanto estava fora do espaço, mas de qualquer forma, a sensação de que o tempo estava se esgotando só aumentava dentro de mim.

Quando parei no fim do corredor, ainda conseguia ouvir passos arrastados e amortecidos se aproximando de mim. Sussurros e lamúrias quase inaudíveis fervilhavam atrás de quase todas as portas pelas quais passei, e uma vez um grito de gargalhada ao longe irrompeu sem aviso e terminou tão abruptamente quanto começou, como se algo o tivesse silenciado à força.

Fazendo o possível para ignorar tudo isso, concentrei minha atenção no bilhete preso ao mural de avisos. Dizia o seguinte:

"Desculpas e/ou Parabéns por esta honra~~ável martírio~~. Esperamos que tenha sido uma experiência agradável, mas somos indiferentes se não foi. Por favor, informe seu zelador que recentemente experimentamos um aumento estatisticamente significativo na demanda por Filamento Fantasmagórico devido a eventos metapolíticos sobre os quais não temos controle, mas dos quais somos cúmplices e nos beneficiamos. Observe que esta é uma explicação adequada e/ou justificativa para qualquer aumento em anormalidades de sono e/ou ontológicas experimentadas pelos moradores de sua residência. Pedimos desculpas – mas não nos responsabilizamos – pelo inconveniente. Lembre também ao seu zelador que seu tributo costumeiro de um alqueire de sal kosher deve ser entregue em um saco de estopa jogado no duto de lixo fora de serviço. Falhas adicionais em cumprir estes requisitos podem resultar no duto de lixo não estar mais fora de serviço. Caso isso ocorra, não nos responsabilizaremos por moradores sendo atraídos para o duto por coletores de lixo Unseelie. Assinar seu Nome Verdadeiro neste aviso reconhece que você entende suas responsabilidades em transmitir seu conteúdo ao destinatário pretendido. Esperamos (sem base empírica) que você tenha um retorno seguro para casa. ~~Sorrateiramente~~ Serendipitamente Seu."

Desesperado para sair dali, peguei a caneta em cima do mural e assinei e datei o formulário com uma rasura rápida. Coloquei a caneta de volta no mural, ajustei cuidadosamente o relógio, a temperatura no termostato e então girei o interruptor de luz o máximo possível para a esquerda.

E então, esperei.

Nunca tinha ouvido o ser atrás de mim voltar para seu quarto, e ainda sentia sua presença enquanto ele ficava ali em silêncio, olhando para a nuca. Não tinha certeza de quão perto estava, só que estava perto demais. Depois de ficar parado por quase um minuto, me perguntando se não tinha feito algo ou feito algo errado, finalmente o ouvi se arrastar de volta, seguido pelo rangido suave das dobradiças e um baque surdo quando se fechou.

Com uma exalação brusca, me virei o mais rápido que ousei para ter certeza de que estava seguro. Era difícil confirmar isso com certeza, pois com as luzes do corredor apagadas, a luz do elevador transformava tudo fora de seu alcance direto em uma sombra impenetrável. Mas não estava disposto a perder mais tempo. Corri direto para o elevador, percorrendo a distância em o que parecia um décimo do tempo que levei para sair. Assim que entrei, fiquei perfeitamente imóvel, recusando-me a me virar, e esperei as portas fecharem.

Quando elas não se fecharam imediatamente, comecei a contar. Um mil. Dois mil. Três mil. Na contagem de três e meio, ouvi as portas começarem a deslizar para fechar. Teria ficado perfeitamente imóvel até que se fechassem completamente, como deveria, se alguém não tivesse segurado uma delas e a mantido aberta.

Me virei instantaneamente e vi um homem alto, de terno marrom surrado, parado ali, seu rosto um borrão indistinto impossível de focar. Recuei contra a parede para todo o bem que isso me faria, mas fiquei rígido de medo. Não gritei, não ataquei nem corri, apenas o encarei de olhos arregalados enquanto esperava ele agir.

Da parte dele, ele não fez nenhum gesto ou som hostil, nem tentou entrar no elevador. Na mão que não estava segurando a porta do elevador, ele ergueu um envelope de papel manilha grosso e pesado. Ele inclinou a cabeça silenciosamente em direção a ele e o fitou por um momento antes de olhar para mim.

— Sinceras desculpas pela violação do protocolo, gentil caro, mas como o duto de lixo está fora de serviço, receio que devo confiar a você a entrega disto ao seu zelador, com urgência — disse ele com a maior neutralidade possível, em sua voz distorcida e cheia de estática.

Ele ficou ali em perfeito silêncio e imobilidade, como se esperasse que eu reagisse. Quando comecei lentamente a estender a mão para pegar o envelope, ele o jogou sem cerimônia no chão do elevador, onde caiu com um baque horrível.

— Sua discrição é apreciada e contratualmente exigida — disse ele, recuando ligeiramente e permitindo que as portas do elevador se fechassem. — Por favor, não recuse o elevador novamente, se for oferecido. Caso precisemos de seus serviços novamente, seria um encontro muito constrangedor se nos encontrássemos nas escadas.

O elevador subiu assim que a porta se fechou e chegou ao meu andar como se nada estivesse errado. Na manhã seguinte, entreguei o envelope ao zelador sem precisar explicar o que era. Ele soube imediatamente. Nunca o abri nem perguntei o que era, porque gosto de imaginar que valeu a pena, mesmo sabendo que provavelmente não valeu.

Você pensaria que tudo isso teria sido o bastante para me fazer jurar o elevador de vez, e quase teria sido, não fossem as palavras finais do homem estranho.

Seria de fato muito constrangedor se eu o encontrasse nas escadas.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon