quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ela me assusta

As cores ao meu redor são diferentes, elas se transformaram em tons que eu nunca vi antes. Não sei há quanto tempo isso dura, não me lembro do dia em que aconteceu. Escrever isto é a primeira coisa que fiz depois que acordei, está desaparecendo. Está desaparecendo rápido.

Eu estava solitário. Fui a uma acompanhante, uma que encontrei na internet. Eu estava solitário. Fui até a casa dela. Conversamos um pouco. Foi estranho. Ela era bonita. Ela era aterrorizante. Senti que tinha cometido um erro. Ela se despiu. Senti vontade de chorar. Ela montou em cima de mim. Eu estava com medo. Ela me viu. Minha vergonha foi arrancada do seu esconderijo. Eu estava com medo. Nós transamos. Eu não estava gostando nem um pouco. O que eu achei que isso iria ajudar? É só isso que eu valho? Por que não consigo me ajudar? Eu odiava olhar para os peitos dela. Eram dois olhos perfurantes me encarando diretamente, sempre centralizando o olhar na minha alma. Eles me faziam sentir pior. Estou doente. Será que eu sequer estava ali? Olhei para o rosto dela. O rosto horrível dela estava me encarando. Os olhos dela violavam meu corpo. Ela conseguia ver minha solidão. Os olhos dela estavam mortos. Como os meus. Por que estou fazendo isso? Ela é uma pessoa. Mais pessoa do que eu. Quero pedir ajuda a ela. Os olhos dela cresceram. O rosto dela se distorceu, os traços dela flutuaram pelo corpo. Voltavam ao lugar quando eu movia os olhos, sempre se desviando, mas nunca indo a lugar nenhum. Eu não conseguia olhar.

Um choque elétrico estala no meu estômago. Há um buraco no meu tronco. Sinto a profundidade dele no meu núcleo. Faz cócegas como se fossem borboletas. Uma casca de ferida esfrega meu interior. Está queimando. Olho para ela. Ela está me esfaqueando. Olho para a faca. Ela tem eu nela. Por que ela está me esfaqueando? Os relâmpagos dela atingem meu peito. A eletricidade dela viaja do meu coração para o meu cérebro. Ela grita comigo. Olho para ela. Choques elétricos faíscam pelo meu corpo. O cheiro do meu sangue enche o quarto. Por que eu quero isso? Ela joga a faca fora, sinto a caverna dentro de mim. Ela é humana?

Ela enfia a mão dentro do meu corpo. Sinto a mão dela deslizar por baixo do meu estômago. As mãos dela sobem rastejando. As unhas dela arranham meus músculos. As fibras debaixo da minha pele esticam e depois arrebentam. Ela aperta e puxa meu estômago. Ela apalpa por baixo das minhas costelas. A mão dela empurra meus pulmões. O punho dela bate no meu coração. A mão dela sobe apalpando. A palma da mão dela bloqueia minha via aérea. Eu engasgo. A mão dela passa pela minha boca. Ela agarra minha língua. Os dedos dela descem pela minha garganta. As juntas dela espremem meus olhos. Ela segue em direção ao meu cérebro. Ela agarra meu cérebro na mão dela, os dedos dela se enrolam dentro da minha cabeça, eletricidade flui para todas as extremidades do meu corpo, líquido escorre das minhas orelhas, tudo o que consigo ouvir é a mão dela dentro da minha cabeça, o pulso dela abaulando minha testa, minha coluna se enverga, meu rosto, meu rosto se contorce, faço uma careta, a careta mais forte que já fiz, meus membros se retraem, meu corpo inteiro encolhe, a eletricidade não dói, os choques não doem, eu queria isso, eu queria isso, eu quero, dói, dói tanto, Deus, faz parar, por favor, faz essa merda parar, tudo dói, tudo.

Ela fecha o punho.

Estou escorrendo para fora de mim mesmo. Os dias ociosos estão encharcados no meu colchão. Os anos fluem através de mim. As memórias que eu prezava. A vida que perdi. Tudo encharcado em lençóis sujos. As pessoas que vão me encontrar. Será que vão saber o quanto eu sinto muito? Ela está me olhando do outro lado do quarto. Eu queria isso. Por que eu queria isso? O que poderia ter me levado a pensar que isso seria aceitável? Ela é aterrorizantemente bonita. Ela está me olhando.

Estou escorrendo para fora de mim mesmo. Meu sangue satura a cama. Ele se acumula no chão. Pedaços dispersos do meu cérebro estão grudados na mão dela. Eu fiz isso. Matei a nós. Matei a mim? Ainda estou aqui. Matei a mim e ainda estou aqui. Estou com medo de olhar para ela. Estou com medo de saber que ela está me encarando de volta. Sei que ela me odeia. Sei o que preciso que ela faça comigo. Ela não pode ser real. Ela não pode fazer o que eu preciso fazer. Eu não posso fazer isso com outra pessoa. Ela não merece a minha morte. Eu não consigo fazer isso. Preciso que ela faça isso. Preciso que alguém faça isso. Ela é uma fuga de mim mesmo. Eu preciso dela. Preciso dela, preciso dela; preciso dela? Eu preciso dela! Preciso dela, porque, preciso dela. Preciso dela. Eu. Preciso. Dela.

Ela é uma fuga. Ela é a morte. Ela é a decomposição. Ela é o apodrecimento. Ela é a putrefação. Ela é o renascimento. Ela é o crescimento. Ela é a vida.

Olho para ela. Estou aterrorizado. Ela é tudo o que quero ser. Recuo encolhido. Preciso ir até ela. Preciso me salvar. Ela olha para mim. Eu vejo a mim mesmo. Estou crescendo. Estou bonito. Olho para ela. Bactérias comem meu cérebro. Eu seria mais feliz se fosse até ela. Mofo cresce no meu coração. Preciso dar um passo à frente. Minha pele desaba dos meus músculos. Eu me sentiria melhor se levantasse. As paredes do meu estômago se rompem, o ácido delas enche meu corpo. Eu me orgulharia se dissesse alguma coisa. Larvas comem meus testículos. Preciso andar até ela. Meus músculos ficam marrons e se rompem. Preciso falar com ela. Meu cérebro escorre pelas minhas orelhas. Preciso me levantar. Meu cérebro seca no chão. Não posso fazer nada sobre isso.

Acordei em um quarto que acho que é meu. Não sei. Tudo está dolorido. Ainda consigo ouvir as fibras do meu corpo arrebentando. É o silêncio mais alto que já experimentei. Minha pele está roxa de hematomas, vejo o rastro que a mão dela deixou pelo meu corpo. As paredes estão derretendo, a tinta delas escorre por elas. Minha mesa está fugindo de mim. Minhas mãos não são minhas. Minha mente não é minha. Sempre deveria terminar assim? Eu sempre quis que terminasse assim? Agora é tarde demais. O que está feito está feito. Sei o que quero fazer.

Quero voltar para ela.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Eu Coleto Dentes

Eu sei que este pode ser um título estranho – e eu fiquei muito tempo pensando se falava sobre isso nos últimos anos – mas, honestamente, não consigo mais guardar isso só para mim. Não posso contar aos meus pais. Não posso contar à minha terapeuta. Não posso contar à minha esposa. Não posso contar ao meu filho.

Então, vamos deixar claro: eu não machuco ninguém. Essas pessoas, elas não precisam mais dos dentes delas. Elas não sentem o mesmo prazer com eles que eu sinto. Do jeito que eu os rodo na palma da mão, sentindo eles tinindo uns contra os outros enquanto as raízes tocam suavemente a minha pele preciosa. Só de pensar nisso agora, eu fico animado.

Isso começou nos anos 1990, sabe? Na época em que a gente ouvia falar da fada do dente quando era criança. Eu e minha irmãzinha estávamos sentados no chão juntos, enrolados debaixo de um cobertor em cima de um carpete de pêlo baixo. Nossos pais estavam sentados no sofá atrás da gente. Aquele filme da Disney – A Fada do Dente – sabe, aquele de 1997 em que um dentista vira a fada do dente? Estava passando na televisão. E eu estava assistindo, e simplesmente não conseguia desviar o olhar quando mostravam dentes, ou qualquer cena de consultório odontológico. Todas aquelas coroas peroladas na boca dos pacientes, ali, implorando para serem arrancadas, seguradas e amadas.

Naquela noite, ela tinha um dente mole, e acho que o filme a inspirou a arrancá-lo. Meus pais ficaram tão animados, porque ela sempre foi meio medrosa. E então eles se reuniram na cozinha, fizeram um grande evento com aquilo, e eu fiquei ao lado deles, só observando. Ele brilhava, todo ensanguentado na palma da mão dela sob as luzes âmbar. A leve curvatura da coroa. O formato do colo do dente. Nem preciso dizer que fiquei obcecado.

Ela colocou o dente debaixo do travesseiro naquela noite. "P'wa 'a fada 'os dente", ela disse, sorrindo. Mas quem veio fui eu. A porta do quarto dela estava entreaberta, e eu usei a escuridão fornecida por tudo, exceto por um abajur noturno em formato de borboleta. E eu tentei andar na ponta dos pés, juro que tentei. Eu só queria pegar o dente debaixo do travesseiro dela. Queria que ele fosse meu.

Mas, conforme eu me aproximava, o carpete rangeu sob meus pés. E eu vi um olho se abrir, depois os dois, e eles ficaram tão grandes e assustados. Até eu pude ver isso. Eu silenciei os gritos dela com a minha mão na boca dela, e empurrei o rosto dela para longe. Ela me bateu por um tempo, e eu fiquei pedindo silêncio. Ela era minha irmã, então eu não entendia por que ela simplesmente não ficava quieta. Não vou mentir, eu considerei dar socos nela repetidamente até ela parar. Talvez alguns dentes dela até caíssem. Mas eu não queria arrumar confusão.

Eventualmente, eu sussurrei algo no ouvido dela – meu hálito quente e fedido contra a orelha dela, já que eu quase nunca escovava os dentes. Eu nunca quis estragar a beleza do meu esmalte natural.

Depois disso, ela ficou imóvel, e lágrimas escorriam pelas bochechas dela. Minha mão deslizou para debaixo daquele travesseiro, e peguei o que era meu de direito.

Muitas vezes, eu só ficava olhando para ele, ou então eu o lambia. Ou fazia outras coisas. Mas eu não tive outro incidente por um bom tempo. Na verdade, nunca fui punido pelo incidente original. Acho que é porque o que fiz foi bom e certo, e ninguém se machucou. Vocês precisam entender que eu não machuco ninguém. Essas pessoas, elas não precisam mais dos dentes delas. Elas não os valorizam do jeito que eu valorizo.

Arranjei minha primeira namorada aos dezenove anos, e a gente só se beijava. Ela queria fazer sexo, mas eu não. De que adiantava isso? E quando a gente se beijava, era sempre no estilo francês. Eu passava a língua nas pérolas dela, e aquela saliva viscosa que as cobria escorria pela minha língua como o melhor dos vinhos. Eu ficava bêbado com aquilo. E quando ela tentava me despir, eu só dizia não. E quando ela fazia comentários sarcásticos sobre a gente nunca fazer nada, eu só ficava com raiva. Mas eu não grito. Quando fico com raiva, eu só encaro. Eu franzo a testa. E quando elas se levantam para sair – para fugir – eu sussurro no ouvido delas o que sempre sussurro. Meu hálito está quente. Tudo o que digo é verdade. E elas nunca vão embora, nunca mesmo – mesmo quando as lágrimas escorrem pelas bochechas delas. Ela pode ter terminado comigo, mas ela não me deixou.

Depois de um tempo, fiquei entediado de beijar. Eu odiava toda aquela espera, e sentia inveja das pessoas que conseguiam se masturbar. Eu queria meus dentes quando eu quisesse, e os queria a cada segundo de todos os dias. Então, planejei um esquema – porque eu não podia simplesmente pegá-los. Eu não machuco ninguém.

Passei cerca de uma semana na biblioteca pesquisando sobre carros. Os mecanismos internos, a fiação – todo esse negócio. No final, eu não sabia muita coisa, mas sabia o suficiente para o que precisava fazer.

Quando minha namorada estava dirigindo para a faculdade no dia seguinte, os freios dela falharam na rodovia interestadual. Ela sofreu um acidente bem grave e teve que ser resgatada de helicóptero para o hospital para uma cirurgia de emergência. Fico tão grato que os pais dela me ligaram para que eu pudesse chegar lá a tempo. Fico tão grato que ela nunca contou aos pais que a gente tinha terminado. Fiquei sentado no saguão por horas, tão ansioso sobre o que tinha acontecido com ela.

Quando os médicos a mostraram para mim – enfaixada da cabeça aos pés em bandagens brancas sob o véu de luzes fluorescentes embutidas e clínicas – bem, eu simplesmente não conseguia parar de sorrir. Minha linda garota. Igualzinha a uma noiva. E ela dormia como a Bela Adormecida.
Quando os médicos saíram do quarto, me deixando para lamentar a dor dela, eu tirei o meu alicate. Dopada com fentanil e outros analgésicos, ela não sentia nada. Como eu disse: eu não machuco ninguém. E com aqueles tubos de alimentação passando por ela, ela também não precisava mais deles.

Arranquei os dentes dela um por um, e quando as gengivas ensanguentadas jorravam – tentando afogá-la – eu os suguei. Ela estava tão chapada que nem sabia que eu estava lá. Eu nunca tinha visto tantos dentes na minha vida. Rolar cada um deles na palma da minha mão foi incrível. Mas eu não sou ganancioso. Só peguei dez.

Nos dias seguintes, houve um rebuliço sobre onde os dentes dela tinham ido parar. Não havia registro de dentes perdidos, mas o hospital insistia que era verdade, apesar das alegações dos pais dela. Eles queriam evitar um processo, e as coisas se acalmaram depois.

Após o incidente, voltei com a minha namorada. Agora ela estava permanentemente em uma cadeira de rodas, e o rosto dela estava desfigurado além do reconhecimento. Grande parte da pele dela tinha sido queimada no acidente, e a mão esquerda dela tinha sido reduzida a um toco. Ela teve que desistir do sonho de fazer enfermagem, e eu me tornei o cuidador dela.

Ela era muito menos atraente para mim agora, mas não por causa das lesões – não. Era porque ela tinha tão poucos dentes. Mas fiquei com ela porque sabia o que ela poderia produzir para mim.

Desde então, tivemos um filho. E vocês sabem o que a nossa pediatra acha incrível? Os dentinhos de leite dele – assim que nascem, eles simplesmente somem. Mas eu sei onde eles estão. E também sei quando a próxima leva vai chegar.

Em setembro, a nossa linda filha vai nascer.

A Porta na Floresta

Encontrei uma porta no meio do mato que vai para qualquer lugar, e não consigo parar de usá-la para ficar te observando.

Não você especificamente, quer dizer, embora você possa ser uma das duzentas pessoas mais ou menos que eu tenho espreitado nos últimos sete meses. Mas não é isso que me deixou assombrado.

Acho que outra pessoa está usando ela para me observar mim.

Eu morei no Meio-Oeste a minha vida inteira. Um completo fim de mundo. O lugar que estou alugando faz fundo com a mata que margeia o lado leste da cidade, e como eu cresci não muito longe daqui, conheço bem a região. Costumava caminhar por todo lado quando era criança, andei pelas trilhas com meu cachorro quando adolescente, e ainda vou pra lá com frequência como adulto. Facilmente umas duas vezes por semana. Talvez conhecer como a palma da mão seja exagero, mas com certeza consigo ir do ponto A ao B sem mapa, é o que estou dizendo. Então imagine minha surpresa quando encontrei um abrigo de concreto mais ou menos quadrado, encravado na encosta de uma colina, lá em dezembro.

Foi pouco antes do Natal, neve no chão de uma nevasca rápida da noite anterior, e eu já estava andando há um tempo. Talvez uma hora desde que saí do meu quintal. Conheço bem a área, é tudo floresta pública não urbanizada, e quase não tem construções nela que eu saiba. Talvez um posto de observação de incêndio. Isso aqui, porém, era estranho. Concreto maciço, com uma daquelas portas de metal cinza-esverdeado, tipo entrada de subestação de energia ou algo assim. Uma placa grande com "Perigo. Proibido Entrar". Tinha pichação também, só assinaturas e tal, e estava quase engolida pela neve, ervas daninhas e vegetação rala. Acho que por isso nunca vi antes; na primavera deve ficar quase toda coberta por arbustos e o concreto meio que se camufla na folhagem.

Então é claro que meu cérebro grita "Bunker da Segunda Guerra Mundial" e eu estou subindo a ladeira correndo em direção a um tesouro semi-enterrado.

Mas acabou que não era um bunker, de jeito nenhum. Consegui abrir a porta com um pouco de esforço e muito rangido de metal, e atrás dela só havia um corredor. Uns três metros de comprimento, e só alguns centímetros mais largo que a porta. As paredes são de concreto, igual o lado de fora. Na verdade, parece um bloco maciço de cimento onde alguém cavou um corredor. Arranhões por toda parte também, no chão, nas paredes e no teto. E, no fundo, outra porta.

Na primeira vez que entrei, fiquei impressionado com o silêncio. Já me acostumei com isso agora. Tenho quase certeza de que é só o formato da colina em volta da construção que bloqueia o vento. A única luz é a que entra pela porta aberta atrás de você, que sendo inverno, era aquele branco azulado brilhante da neve refletindo o céu. Passei meus dedos enluvados pelos arranhões. Eles são bem fundos. Feitos de propósito, parecia. Mais tarde descobri que eram símbolos, mas não vou me adiantar. Nesse ponto, eu ainda achava que era só o vestíbulo de algum complexo de bunkers maior sob a floresta. Esperava uma escada descendo quando abrisse a porta do fundo. Então segurei a maçaneta e girei.

Imediatamente: luz atrás de mim.

Foi quando percebi que os arranhões nas paredes e no teto eram símbolos, porque quando olhei para trás para encontrar a fonte de luz, vi que ela vinha das paredes, e do teto, e do chão. Um símbolo em cada um estava brilhando como se houvesse um LED atrás e eu tivesse acabado de fechar o circuito. Verde. A cor do céu antes de um tornado.

Então abri a porta.

Como eu disse antes, esperava que isso levasse a algum tipo de bunker. Escadas. Corredores. Salas cheias de beliches enferrujados. Símbolos de chuva radioativa nas paredes. O que eu encontrei foi muito, mas muito mais bizarro. Você tem que entender, quando conto essa história, que eu nunca tive a intenção de que isso fosse dar tão terrivelmente errado. Eu nunca quis me tornar um esquisitão perseguindo estranhos por diversão. Sou um cara normal. Tenho um emprego normal. Tenho amigos. Sou solteiro, admito, mas não no estilo incel. Mas quando atravessei aquela porta, na mata, atrás da minha casa, e saí do armário do quarto de alguém do outro lado do país, quase me caguei nas calças.

Foi daí que começou. Saí correndo daquele quarto quando ouvi alguém na escada, fechei a porta atrás de mim, passei alguns minutos recuperando o fôlego. Me convenci de que não podia ser real. Eu abriria a porta de novo e prestaria mais atenção ao quarto e perceberia que era falso. Eu não podia ter estado no segundo andar de uma casa. Eu não podia estar olhando pela porra da janela aberta, cortinas balançando numa brisa leve, com a Ponte Golden Gate ao fundo. Então respirei fundo algumas vezes e tentei a porta de novo.

Mesmo brilho. Símbolos diferentes. Na época eu não percebi que eram símbolos diferentes, mas com o benefício da retrospectiva, estou inclinado a acreditar que eram diferentes porque eu não voltei para o quarto.

Não.

Uma cozinha de restaurante italiano. Sem brincadeira. Luzes fluorescentes. Piso de azulejo. Todo o resto em aço inoxidável. Um monte de cozinheiros de linha gritando uns com os outros com fortes sotaques de Nova Iorque. Entrei pela porta de serviço dos fundos e o cheiro de molho marinara e frutos do mar frescos me atingiu como uma parede. Então eu estou enlouquecendo, certo? De volta ao corredor. Fecho a porta.

Confuso, e precisando de ar, verifiquei o lado de fora e não há nada notável na construção. É concreto em todos os lados, pelo que posso ver, com a extremidade da (e eu realmente odeio usar essa palavra, mas), "Porta Mágica" meio enterrada sob a encosta. Pode estar aqui há décadas, a julgar pelo quão corroído, marcado e abandonado tudo parece. A placa é relativamente recente; está toda riscada e suja como se estivesse lá há anos, mas é uma placa moderna. Vinte anos, no máximo.

Sem respostas lá fora, então: de volta para dentro. Abro a porta. Entro numa sala.

É assim que tem sido por meses. Naquele dia tentei mais cinco ou seis vezes, e desde então tenho ido lá todos os dias. Antes do trabalho, depois do trabalho, dias de folga, fins de semana, e toda santa vez aquela porta me levava a um novo lugar completamente aleatório. Parece que só se abre em portas mais ou menos do mesmo tamanho e dimensões daquela pela qual eu entro. Não posso entrar nela e sair por um portão de celeiro ou porta de avião, embora já tenha atravessado a porta e saído num navio de cruzeiro uma vez. Parece que, contanto que abra em dobradiças e tenha as dimensões de uma porta comum de casa, vale tudo. Então, essa é a primeira ressalva sobre o "todo lugar".

Mas você deve estar se perguntando como tudo isso me levou a me tornar o maior perseguidor de 2026? Bem, essa é a segunda ressalva.

Quando estou do outro lado daquela porta, ninguém consegue me ver.

Não sou, tipo, invisível (eu acho) porque posso ver meu reflexo nas coisas, e não sou um fantasma porque não posso atravessar paredes e posso interagir com as coisas normalmente. É só que ninguém me nota. Como se eu não devesse estar ali, então não estou. Mas estou. Honestamente, eu poderia ficar a meio metro de você e você não veria nada. Já falei com as pessoas, até movi coisas bem na frente delas, e elas simplesmente seguem o dia como se nada tivesse acontecido. No máximo, parecem um pouco confusas. Como se tivessem certeza de que ouviram... algo... mas isso passa antes que registrem, ou têm certeza de que colocaram a caneca no criado-mudo, não na mesa de centro, mas ignoram como falha de memória.

Exceto que elas colocaram no criado-mudo, porque fui eu que a movi para a mesa de centro. Eu fiz isso bem na frente delas. Elas deveriam ter me visto.

Mas não viram.

Elas nunca veem.

E isso me deixa observá-las o quanto eu quiser.

Observar você o quanto eu quiser.

Já vi pessoas jantando, sentado na mesa de jantar bem ao lado delas. Já estive em reuniões de diretoria e ouvi colegas fofocando perto das fotocopiadoras. Já vi gente tomando banho, transando, e se masturbando na sala. Vi pessoas roubando do caixa da empresa, ou da carteira dos pais, ou da bolsa da esposa. Fiquei no canto de quartos e vi pessoas dormindo. Sentei atrás de casais vendo TV no sofá. Subi no palco num show do Bring Me The Horizon. Já estive em mais de alguns laboratórios de drogas e facilmente uma dúzia de bordéis.

Tenho quase certeza que topei com um assassino em série uma vez.

Então, você vê por que é intoxicante, certo? Toda essa coisa de ser um observador invisível na vida das pessoas? Claro, nem sempre entendo tudo. Já acabei em países onde não falava o idioma, e isso meio que me limita a depender de pistas de contexto. Acho que os símbolos são como um código que corresponde a pontos no espaço. Tipo um número de telefone.

Quando esquentou o suficiente para tirar as luvas, descobri que posso tocar os símbolos com antecedência. Girar a maçaneta sozinha só escolhe um conjunto aleatório. Tentei encontrar um sistema, mas não consegui entender patavina de qual rabisco específico corresponde a qual parte de um endereço. A mesma combinação sempre leva ao mesmo lugar, então posso fazer visitas repetidas. Há um lugar que eu volto com certa frequência. Um galpão de ferramentas nas montanhas em algum lugar. Europa, acho. É um dos poucos lugares onde nunca vi outras pessoas, e fico sentado na grama observando as cabras subirem nas rochas. Às vezes só fico olhando as nuvens.

Mas, na maior parte, observo pessoas. Pessoas comendo, pessoas dormindo, pessoas trabalhando. Pessoas em momentos privados e públicos. Homens, mulheres, jovens e velhos.

Mas ultimamente, acho que eu sou o que está sendo observado.

No começo era só paranoia, acho. Eu tinha ficado tantas vezes no canto de tantos quartos escuros que comecei a ficar com calafrios sempre que ficava sozinho por cinco minutos. Olhava para o canto de uma sala no trabalho e ficava convencido de que tinha alguém parado ali, mesmo sem conseguir ver. Vendo TV sozinho em casa, me vinha a ideia de que havia alguém na outra ponta do sofá e eu tinha que esticar a perna para ter certeza. Uma das cadeiras vazias na mesa de jantar dos meus pais ficava um pouco mais puxada do que o necessário, e eu ficava convencido de que alguém estava sentado nela. Me observando. Invisível.

Então as coisas começaram a sumir do lugar. A caneca que está um pouco mais para a esquerda do que eu lembrava. Leite no balcão em vez de na geladeira. Minhas chaves sumindo do gancho em que eu sei que as pendurei. Igual faço todo dia. Uma porta aberta que eu lembro distintamente de ter fechado. Talvez eu só tenha me confundido? Eu não estava dormindo muito bem. Toda vez que fechava os olhos, ouvia uma respiração. O que não faz sentido, porque sei que as pessoas não podem ver ou ouvir você quando você atravessa aquela porta, mas talvez elas... sintam...? Já vi mais de algumas pessoas olharem para mim, bem para mim, confusas, sabendo que algo estava errado, mas atribuindo à imaginação. Aquela sensação que você tem quando acha que está sendo observado. Todos já tivemos isso antes. Acho que, talvez, nesses momentos, haja alguém te observando.

Agora estão me observando.

O que me convenceu de vez foi a porta do bunker. Veja bem, eu sempre a fecho. Toda vez. Está bem escondida agora que os arbustos cresceram de novo, e com a porta fechada, você mal saberia que há algo ali. Definitivamente não dá para ver da trilha. Mesmo assim, eu a fecho, toda vez, para manter tudo só para mim, mas um dia fiz minha caminhada até a colina e a encontrei aberta. Só um pouco. Uma fresta.

Então, para garantir, comprei um cadeado bem pesado e fechei a porta bem firme. Garanti que nenhum animal pudesse entrar. Que o vento não fosse abrir a porta. Deveria ter segurado. Teria segurado. Aí voltei e o cadeado estava cortado limpo, largado no chão. E ao lado, a porta estava aberta. Dessa vez não era pouco. Aberta. Totalmente. Uma mensagem.

Como se você quisesse que eu soubesse. Porque sei que você está lendo isso, e tudo bem, entendi. Aprendi minha lição. A porta não me pertence. Entendi e não aguento mais. Preciso que você pare! Por favor! Me desculpe. Sinto muito. Quem quer que você seja. Chega de puxar meus lençóis à noite. Chega de deixar a porta da frente aberta para eu encontrar de manhã. Chega de carinhas felizes desenhadas no vidro enquanto estou no chuveiro. Mensagem recebida. Tão clara quanto alta.

Prometo que não vou voltar.

Só por favor.

Estou implorando.

Me deixe em paz.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Dirijo um Mega Cab para viver. Quebrei minha única regra de segurança, e agora as placas de trânsito estão se repetindo

Para entender o que está acontecendo, você precisa saber exatamente o que ocorreu na quinta-feira à noite passada.

A tempestade era implacável. A água batia contra o para-brisa com tanta violência que os limpadores mal conseguiam limpar o vidro mesmo na velocidade mais alta. Dirigir uma carreta gigantesca naquelas condições exige concentração absoluta. O asfalto estava escorregadio, e a escuridão que se estendia além dos faróis era absoluta. Não havia postes de luz, nenhum outro veículo e nenhum sinal de civilização por centenas de quilômetros. Apenas a interminável extensão de terreno desértico plano sendo afogada pelo temporal.

Motoristas de longa distância têm uma regra de ouro quando estão percorrendo estradas vazias à noite. Você nunca para no acostamento. Você não para para ajudar motoristas encalhados, nem encosta para verificar seus pneus, e você absolutamente não abre as portas para estranhos. Se alguém está quebrado, você chama a polícia rodoviária e continua rodando, porque parar coloca você em uma posição vulnerável.

Meus faróis cortavam as cortinas de chuva, iluminando a tinta refletiva no asfalto. Os pneus sibilavam alto contra a estrada alagada.

Algo chamou a atenção no limite dos faróis altos à frente.

Um objeto grande estava descansando no acostamento lamacento da rodovia. Conforme a carreta se aproximava, a forma ficava mais clara. Era um carro velho e enferrujado. O veículo estava completamente amassado, enrugado para dentro com uma força terrível, e estava envolto inteiramente em torno de uma estrutura alta de madeira.

Reduzi a velocidade da carreta ligeiramente, apertando os olhos através do vidro manchado pela chuva. A estrutura de madeira era um totem esculpido. Ele estava perfeitamente ereto na terra do deserto, o que não fazia absolutamente nenhum sentido. Não havia sítios históricos ou reservas indígenas perto daquela rodovia específica. O totem parecia completamente fora de lugar, parado como um sentinela silencioso na lama. A dianteira do carro enferrujado estava esmagada diretamente no centro da madeira esculpida.

Perto do para-choque amassado do carro, estavam três pessoas.

Um homem, uma mulher e uma garota adolescente estavam ombro a ombro sob a chuva torrencial. Os faróis os banharam, revelando o estado horripilante em que se encontravam. Suas roupas estavam rasgadas e coladas aos corpos. Sangue vermelho-escuro cobria seus rostos e mãos, sendo lentamente lavado pela chuva incessante.

O homem levantou o braço, acenando freneticamente para minha carreta que se aproximava. A mulher apenas encarava a estrada com um olhar vazio. A garota adolescente tremia violentamente, segurando o estômago, com uma expressão de terror absoluto.

Meu pé pairou sobre o pedal do freio. A regra de ouro gritava em minha mente. Continue dirigindo. Pegue o rádio, chame a polícia rodoviária e se afaste do acidente.

Mas ver a garota adolescente mudou minha mente. Ela parecia incrivelmente jovem e totalmente indefesa. Deixar uma criança sangrando no acostamento de uma rodovia deserta e alagada parecia fundamentalmente errado, então, no fim, a empatia humana sobressaiu ao meu treinamento.

Acionei os freios a ar. A carreta sibilou alto enquanto a velocidade diminuía. Os pneus agarraram o asfalto molhado, trazendo o Mega Cab a uma parada completa alguns metros à frente do acidente.

Deixando o motor ligado, me inclinei sobre o console central e destravei a porta do passageiro. A porta pesada se abriu, expondo a cabine aquecida ao vento congelante e à chuva.

— Entrem! — gritei acima do barulho ensurdecedor da tempestade. — Entrem antes de congelarem!

A família não hesitou. O pai agarrou a moldura da porta e se içou para dentro da cabine. Ele puxou a garota adolescente para cima atrás dele, e a mãe veio por último. Eles se amontoaram na área do passageiro, trazendo consigo uma súbita rajada de ar frio e umidade. O pai puxou a porta para fechá-la, selando a cabine.

O som da tempestade foi instantaneamente abafado. O aquecedor soprava ar quente sobre o painel.

Liguei a luz interna do teto para ver melhor seus ferimentos. Eles estavam completamente encharcados. A água escorria de seus cabelos sobre o estofamento. O sangue em suas peles parecia estranhamente escuro, quase preto sob a luz amarelada da cabine.

— Vocês estão bem? — perguntei, pegando um rolo de papel toalha no banco de trás e entregando ao pai. — Precisam de uma ambulância? Posso tentar chamar a central pelo rádio, mas o sinal aqui é péssimo.

O pai ignorou os papéis toalha. Ele se sentou rigidamente no banco, encarando fixamente o para-brisa em direção à rodovia escura.

— Dirija — disse o pai.

— Olha, vocês estão sangrando bastante — ponderei, tentando manter a voz calma. — Preciso saber se alguém tem ossos quebrados antes de começarmos a sacolejar por esta estrada.

O pai lentamente virou a cabeça em minha direção. Seu rosto estava coberto de terra escura e grudenta e sangue seco.

— Dirija — repetiu, apontando um dedo rígido diretamente para o para-brisa.

Olhei para a mãe. Ela estava sentada perfeitamente imóvel, encarando o painel atrás de nós. Ela não reconheceu minha presença. Olhei para a garota adolescente. Ela estava encolhida contra a janela, seu rosto pálido e inexpressivo. Nenhum deles tremia mais.

A situação parecia incrivelmente errada, mas ficar parado no acostamento de uma rodovia escura com três estranhos feridos parecia pior. A prioridade era levá-los ao hospital.

— Certo — disse, colocando a carreta em marcha. — Há um posto de caminhões enorme a cerca de sessenta e cinco quilômetros daqui. Eles têm uma clínica médica de emergência anexa. Vamos para lá.

Pisei no acelerador. O enorme motor a diesel roncou, e a carreta se afastou suavemente do acostamento, retornando à estrada vazia.

Nos primeiros minutos, a cabine ficou completamente em silêncio. Os únicos sons eram o zumbido do motor e o bater das palhetas do limpador.

Tentei quebrar o silêncio desconfortável. — O que aconteceu lá atrás? Vocês bateram naquele poste de madeira?

Ninguém respondeu. O pai manteve os olhos fixos à frente.

Foi quando as coisas estranhas começaram.

O sistema de controle de clima da carreta funcionava perfeitamente. O botão estava girado totalmente para o vermelho, soprando ar quente pelas saídas. Apesar do calor, a temperatura dentro da área dos passageiros começou a cair rapidamente.

Um frio cortante e penetrante emanava diretamente dos três passageiros. Eu podia ver minha própria respiração formando nuvens no ar.

Estiquei a mão e ajustei as saídas de ar, apontando-as diretamente para a família. Quando minha mão passou perto da mão do pai, notei algo estranho.

A água da chuva que escorria de seu terno rasgado não estava sendo absorvida pelo tecido do banco. As gotas d'água estavam congelando. Pequenas contas de gelo sólido grudavam em sua jaqueta e cabelo. Olhei para a garota adolescente através do espelho perto da janela atrás de nós. Geada estava se formando ativamente no vidro bem ao lado de seu rosto, espalhando-se em padrões intrincados e irregulares.

— O aquecedor está no máximo — murmurei, mais para mim mesmo. — Por que está congelando aqui dentro?

A mãe lentamente virou a cabeça e olhou para o console do rádio. Ela não falou.

Então, o cheiro me atingiu.

Começou como um odor fraco, semelhante a leite estragado. Em segundos, intensificou-se para uma hediondez sufocante e nauseabunda. Cheirava exatamente como um animal atropelado que ficou assando ao sol de verão por uma semana. O cheiro de carne podre e tecido em decomposição encheu o espaço fechado.

Abri a janela do lado do motorista uns dois centímetros para deixar entrar um pouco de ar fresco. A chuva gelada entrava pela fresta, mas era melhor do que respirar aquele fedor pútrido.

— Olha, não quero ser rude — disse, mantendo um olho na estrada escorregadia. — Mas o que exatamente vocês estavam fazendo aqui? Bateram em algum animal?

O pai permaneceu perfeitamente em silêncio. O gelo em sua gola estava engrossando.

Senti a ansiedade súbita no estômago. O silêncio, a temperatura congelante, o cheiro de decomposição, nada disso fazia sentido racional. Concentrei minha atenção inteiramente na estrada, ansioso para avistar os sinais luminosos do posto de caminhões.

Dirigimos por mais uns dez minutos. Os faróis iluminavam o asfalto escorregadio pela chuva à frente.

Um objeto grande apareceu no acostamento direito da rodovia.

Conforme a carreta se aproximava, o objeto se tornou distinto. Era um veículo velho e enferrujado, amassado para dentro com uma força terrível. O veículo estava envolto inteiramente em torno de um totem alto e esculpido, fincado na lama.

Meu pé instintivamente aliviou o acelerador.

Fiquei olhando para o acidente enquanto passávamos por ele. Era exatamente a mesma cena do acidente. O mesmo metal enferrujado, a madeira esculpida, a mesma lama escura espalhada pelo asfalto.

— Isso é impossível — falei em voz alta, meu coração começando a acelerar. — Acabamos de sair daquele acidente há dez minutos. Estamos viajando em linha reta a quase cem quilômetros por hora.

Olhei para o painel. Toquei na tela do aparelho de navegação por satélite.

A tela estava completamente com defeito. O mapa havia desaparecido, substituído por uma grade cinza. A seta digital que representava minha carreta girava loucamente em círculos, incapaz de estabelecer um rumo.

Levantei os olhos para o para-brisa. Uma placa refletiva verde de milha passou pelo lado direito da estrada. Milha 142.

Fiquei de olhos bem abertos. Dois minutos depois, outra placa verde apareceu nos faróis.

Milha 142.

As placas de trânsito estavam se repetindo.

Bati com a mão no volante. — O que está acontecendo aqui? De onde vocês vieram?

Virei-me para encarar a família diretamente.

Eles não estavam mais olhando para o para-brisa. Todos os três tinham virado a cabeça e estavam me encarando.

A luz do teto piscou, lançando sombras afiadas sobre seus rostos. Suas carnes estavam se decompondo bem diante dos meus olhos. A pele do maxilar do pai escorregou para baixo, descascando-se em tiras úmidas e acinzentadas, revelando osso amarelado por baixo. Os olhos da mãe haviam colapsado em órbitas vazias e escuras. O rosto da garota adolescente estava completamente esquelético, sua mandíbula aberta num grito silencioso e horripilante.

O fedor de carne podre tornou-se completamente insuportável, queimando o interior do meu nariz.

O pai inclinou-se lentamente em minha direção. O gelo rachando em seu terno soava como vidro estilhaçando. Sua mandíbula moveu-se rigidamente, e um sussurro rouco e ecoante preencheu a cabine.

— Precisamos de um substituto para ficar no ciclo, para que possamos ir para casa.

O pânico explodiu no meu peito. Pisei fundo no pedal do freio, com a intenção de derrapar a carreta até parar e pular para fora na chuva.

O pedal do freio não se moveu. Parecia pisar num bloco sólido de concreto. O pedal estava completamente travado.

Antes que eu pudesse reagir, o volante girou bruscamente para a esquerda, escapando da minha mão.

A carreta desviou sobre o asfalto molhado. A coluna de direção travou-se numa curva fechada. Os pneus gritaram, perdendo tração enquanto o veículo gigantesco se precipitava em direção ao canteiro central da rodovia deserta.

Erguendo-se da escuridão no canteiro, havia um pilar maciço e sólido de concreto sustentando um viaduto antigo.

— Não! — gritei, agarrando o volante com as duas mãos, tentando desesperadamente puxá-lo de volta para a direita.

O volante não se moveu uma vírgula. O pai tinha estendido sua mão esquelética e prendido seus dedos em decomposição diretamente na coluna de direção. Sua pegada possuía uma força impossível e inabalável.

O pilar de concreto crescia rapidamente nos faróis. Estávamos a segundos de uma colisão devastadora a quase cem quilômetros por hora.

Eu não conseguia dirigir, nem frear.

Mantive minha mão esquerda firmemente agarrada ao volante, lutando desesperadamente contra a força imensa do fantasma. Com a mão direita, alcancei a fresta estreita entre o banco do motorista e o console central. Caminhoneiros mantêm equipamentos de emergência ao alcance da mão para situações como esta. Meus dedos encontraram o que procuravam e envolveram o cabo de borracha de um bate-pneu de aço.

Puxei a barra de metal para cima e a balancei com força através da cabine. Mirei diretamente no braço esquelético do pai. O aço esmagou seu pulso em decomposição com um estalo alto.

O impacto quebrou sua pegada de ferro na coluna de direção. O pai-fantasma soltou um guincho rouco e vibrante e lançou-se em minha direção, alcançando minha garganta.

Balançei a barra de aço uma segunda vez, acertando-o em cheio no peito. A força o empurrou violentamente para trás contra a porta do passageiro.

Não lhe dei chance de se recuperar. Inclinei-me totalmente sobre o console central, ignorando o frio congelante que irradiava de seu corpo em putrefação, e agarrei a maçaneta da porta do passageiro, puxando-a para abrir.

A porta se escancarou, pegando a rajada de vento da rodovia.

Plantei minha bota direita diretamente no centro do peito do fantasma e empurrei para fora com cada grama de força e adrenalina que me restava.

O pai caiu para trás para fora da carreta em movimento. Ele atingiu o chão molhado com um baque nauseante, desaparecendo instantaneamente na escuridão atrás do veículo.

No momento em que o pai foi ejetado da cabine, a mãe e a garota adolescente simplesmente desapareceram.

Agarrei o volante com as duas mãos e usei cada grama de força que tinha para forçá-lo de volta ao centro.

A carreta respondeu. Os pneus guincharam enquanto o veículo corrigia sua trajetória, desviando bruscamente do iminente pilar de concreto.

Quase escapamos do concreto sólido. Em vez disso, o pesado para-choque dianteiro atravessou diretamente uma barricada de madeira em decomposição instalada perto da borda do canteiro central.

A carreta saltou do asfalto, caindo com força numa vala profunda e lamacenta. Lama e água suja espirraram pelo para-brisa. O caminhão atravessou a terra macia, diminuindo a velocidade rapidamente até finalmente parar com um solavanco violento e brusco.

O motor engasgou e morreu.

Fiquei sentado, agarrado ao volante, ofegante. Meu peito ofegava enquanto a adrenalina corria pelas minhas veias.

O único som restante era a chuva tamborilando no teto. O cheiro de carne podre já começava a desaparecer, soprando para fora pela janela do passageiro estilhaçada.

Peguei minha lanterna, chutei a porta aberta e sai para fora na vala. A chuva encharcou minhas roupas instantaneamente. Atravessei a lama profunda, inspecionando a frente da carreta. O para-choque estava amassado, e a grade estava cheia de terra, mas o radiador estava intacto, e o bloco do motor estava seguro.

Subi de volta à estrada e apontei minha lanterna pela área.

O pilar de concreto havia sumido, e a barricada de madeira havia sumido.

Eu estava parado num trecho completamente normal e reto de rodovia deserta. Não havia totem de madeira esculpido em lugar algum à vista. Não havia veículo enferrujado.

Voltei para a vala, entrei no banco do motorista e girei a chave de ignição. O motor a diesel engasgou por um momento antes de roncar novamente. Travei o diferencial, coloquei a transmissão numa marcha reduzida e consegui manobrar lentamente a carreta pesada para fora da vala lamacenta e de volta ao asfalto sólido.

Dirigi por mais duas horas sem ver um único veículo. Eventualmente, as placas luminosas de um posto comercial para caminhões apareceram no horizonte. Estacionei no estacionamento bem iluminado, perto das bombas de combustível, e tranquei as portas.

Não dormi naquela noite. Fiquei acordado, observando a chuva cair contra o vidro até que o sol finalmente apareceu.

Isso foi há quatro dias.

Consegui dirigir a carreta de volta ao meu estado de origem. Levei a um mecânico para substituir a janela do passageiro estilhaçada e fazer uma limpeza detalhada do interior. Eles lavaram os bancos a vapor e substituíram os filtros de ar da cabine.

Mas a carreta não está limpa.

Ontem à tarde, uma tempestade moderada passou pela minha cidade. Eu estava sentado no banco do motorista, preenchendo alguns papéis de entrega, quando as primeiras gotas de chuva atingiram o para-brisa.

Em trinta segundos, a temperatura dentro da cabine despencou. Eu podia ver minha respiração formando nuvens no ar.

Então, o cheiro voltou. O odor distinto e pútrido de carne em decomposição começou a se infiltrar pelas saídas de ar.

Peguei minhas chaves e corri para fora do veículo, trancando-o atrás de mim.

Se alguém lendo este fórum sabe como purificar genuinamente um veículo de uma fixação espiritual, por favor, entre em contato comigo imediatamente. Já tentei queimar sálvia, deixar sal no assoalho, e nada funciona. O frio sempre volta quando a chuva começa.

Até encontrar uma solução, a carreta fica estacionada na garagem. E se eu não encontrar um jeito de tirar o cheiro de podre do estofamento, vou ter que queimar o caminhão inteiro.
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