sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Nasci com a habilidade de ver pensamentos. Tem algo vivendo na mente do meu colega de trabalho

Nunca contei isso pra ninguém. Nem pra minha família. Mas sinto que preciso escrever isso depois do que vi há alguns dias.  

As pessoas gostam de pensar que seus pensamentos são privados, que ninguém além delas mesmas pode vê-los. Mas, pra mim, as mentes são como janelas abertas. Fáceis de espiar e invadir.  

É como se eu estivesse sintonizando um rádio. Posso escolher de quem quero ouvir os pensamentos e quando quero me aprofundar.  

Eu simplesmente nasci com essa habilidade. Não sei exatamente por quê.  

Aprendi a deslizar pela vida sem chamar muita atenção. Sorrio quando as pessoas esperam que eu sorria, concordo com a cabeça quando precisam de um pouco de confiança. É fácil quando você já sabe o que elas esperam ouvir.  

Mas, claro, nem todo dom vem sem seus lados ruins.  

Alguns pensamentos é melhor que fiquem escondidos. Já ouvi coisas que eu realmente queria não ter ouvido. Não só verdades dolorosas ou arrependimentos deprimentes. Não. Já vi coisas muito mais sombrias que isso. As fantasias sexuais mais doentias e distorcidas. O desejo ardente e sádico de matar e causar sofrimento. Ódio fervilhante e pulsante contra toda a humanidade. Você ficaria surpreso com o que algumas pessoas escondem por trás de uma fachada calma.  

O que estou tentando dizer é que eu achava que já tinha visto de tudo. Achava que sabia quais eram as coisas mais escuras e sinistras deste planeta. Isso mudou há alguns dias.  

Estou trabalhando no varejo há alguns meses enquanto escrevo isso. Faço o turno de fechar numa mercearia barata. Sabe aquele tipo com luzes brilhantes, música pop alta e plantas secas na entrada? Era tão sem graça quanto parece. Isso até ele aparecer.  

Ele simplesmente surgiu na escala um dia, como “Jack”. A gerência disse que era uma transferência. O primeiro turno que tive com ele foi há três dias, organizando as prateleiras do estoque juntos. Ele não falava muito. Não fazia perguntas. Não parecia confuso com nada. Ele simplesmente sabia onde tudo ia.  

Esse foi o primeiro sinal vermelho.  

O segundo foi o silêncio.  

Não importa o quão meditativo alguém seja, ninguém consegue parar de pensar completamente. A mente humana simplesmente não funciona assim. Mesmo quando você está dormindo, seu cérebro continua criando pensamentos. As mentes podem ser quietas, claro, mas nunca silenciosas.  

A de Jack era um silêncio mortal.  

A mente dele era como um buraco negro. Quase sufocantemente silenciosa. Sem pensamentos, sem sentimentos, nem o menor sussurro. Apenas um vazio frio onde deveria haver uma pessoa.  

Não consigo descrever o choque que senti ao tentar ler os pensamentos dele pela primeira vez e me deparar com nada. Era tão antinatural, tão impossível. Parecia que toda a minha percepção do universo estava sendo jogada fora.  

Me esforcei mais, me concentrando ao máximo pra cavar mais fundo na mente dele, desesperado pra encontrar alguma coisa. Qualquer coisa.  

E eu encontrei algo. Pelo menos um vestígio de algo.  

Consegui captar, bem no fundo de todo aquele silêncio, algo como um leve cheiro rançoso vindo de muito longe, apodrecendo à distância. Era sinistro. Era vil. Era nojento. Parecia que estava me encarando de volta. Como se eu estivesse olhando pra um oceano negro e turvo, com um rosto imenso e desumano mal visível a algumas dezenas de metros abaixo da superfície, sorrindo pra mim com um prazer maligno.  

E então, por um breve momento, eu vi algo. Não apenas um vestígio. Não apenas uma sensação. Eu vi. Só uma fração de segundo, e embaçado, mas por alguns segundos, eu vi.  

Não era um pensamento. Não era como nada que eu já tivesse visto na mente de alguém. Não sei bem como descrever, mas vou tentar.  

Pelo que consegui distinguir: um labirinto colossal, maior que um planeta, construído de carne vermelha podre, mofada e apodrecida. Tudo isso fervilhando com trilhões de larvas, moscas e outros insetos infernais, alguns deles mutados em proporções grotescas. Havia algumas milhares de pessoas no labirinto, cada uma mutilada de uma forma horrível e única. Elas devoravam a carne podre com uma fome voraz, seus estômagos inchando a tamanhos absurdos, apenas pra depois cagar tudo isso. Esse era o eterno delas. Não acho que podiam morrer. Não acho que o labirinto permitia isso.  

E então, não consegui mais ver. O vislumbre acabou. Foram menos de cinco segundos, mas pareceram horas. Eu tinha visto tanto, e mesmo assim, de alguma forma, sabia que só tinha arranhado a superfície. Aquele labirinto era só a ponta do iceberg, e se eu continuasse cavando mais fundo, encontraria coisas muito, muito piores.  

Lembro de ficar parado ali por vários minutos, completamente paralisado, com suor escorrendo de mim da cabeça aos pés. Acho que nunca senti tanto medo na vida.  

Parecia que minha mente estava se desfazendo. Eu tinha visto algo que não deveria. Algo que nunca foi feito pra ser visto. E o pior de tudo é que aquilo me viu de volta. Sabia que eu estava olhando. Tenho cem por cento de certeza disso. Não sei como sei. Mas sei. Talvez seja um sexto sentido, ou talvez aquilo quisesse que eu soubesse. Não importa. O que importa é que me viu.  

Jack não prestou atenção em mim. Continuava organizando as prateleiras em silêncio, agindo como se eu nem estivesse ali, com uma expressão vazia no rosto.  

Ele não era humano. Isso nem era uma discussão. Ele… Não… Aquilo estava apenas vestindo um corpo humano sem vida, como uma fantasia barata.  

Saí correndo do prédio o mais rápido que pude, garantindo que estava bem longe antes de ligar pro meu chefe. Disse a ele que tinha uma emergência familiar, que provavelmente não poderia voltar pro trabalho por alguns dias. Ele é um cara compreensivo, então entendeu.  

Faz três dias desde então, e não consigo parar de pensar nisso. No que vi. Naquele labirinto. Nas pessoas lá dentro. Os detalhes ainda estão queimados na minha mente, e acho que nunca vou conseguir me livrar deles.  

Minhas mãos não param de tremer, e sinto minha sanidade escapando aos poucos. Mas o que mais me apavora é que o que vi não era o pior. O labirinto era só a coisa na superfície, a primeira que vi. Dava pra sentir que tinha mais. Muito mais. O buraco do coelho descia muito, muito mais fundo.  

E agora, não consigo me livrar da sensação horrível de estar sendo observado. Não sei o que fazer. Acho que não há muito que eu possa fazer. Eu vi algo que não deveria. E agora vou ser punido.  

Existem destinos piores que a morte neste mundo. Só posso rezar pra não encontrar um deles.  

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Meu amigo imaginário é real?

Você já sentiu aquela sensação de que tem algo bem atrás de você, e seu cérebro começa a criar, meio que no automático, sensações físicas e sons pra justificar isso?

Aquele calorzinho na nuca, o som leve de uma respiração. Tudo culmina numa sombra imensa, que parece envolver seus braços e pernas como uma camisa de força, deixando só uma reação instintiva: virar pra trás.

Bom, acho que venho sentindo isso a vida toda. Não sei dizer exatamente desde quando isso acontece, mas percebo em momentos em que estou completamente sozinho. Naqueles minutos rápidos em que ninguém, nenhum ser vivo, está me vendo, é quando essa presença aparece.

Nunca é algo maligno, não me faz girar de medo, mas sim de curiosidade. Aqueles olhos estranhos que sinto queimando na minha nuca, ou aqueles olhares inquisitivos por cima do meu ombro, só chamam minha atenção por um breve momento.

Com uma presença tão próxima que eu quase sinto ela, a única coisa a fazer é olhar. Mas, tão rápido quanto essas sensações aparecem, elas somem quando viro pra encarar essa sombra que tá sempre comigo.

Repetindo essa ação como se fosse meu filme favorito, sempre fico pensando: por quê? Por que essa sensação é tão forte se, no fim, só me faz olhar pra um espaço vazio?

Conversei com meus pais sobre algo assim, e eles lembraram que eu tinha uma espécie de amigo imaginário quando era criança. Nos meus primeiros anos, eles me pegavam falando sozinho – nada estranho pra uma criança, né? Mas, mesmo adulto, sei que falo comigo mesmo em situações em que o silêncio da solidão me assusta.

Talvez tenha mesmo algo ali, sabe? Ou a gente cresce e perde a capacidade de perceber, ou, como adultos, apenas encobrimos isso. Talvez eu não seja o único.

Sou cético, sempre fui, mas hoje algumas memórias voltaram com tudo.

Quando eu era adolescente, desci pra pegar um copo d’água no fim da tarde e, na correria pra voltar pro jogo que tava me prendendo, deixei a porta da cozinha aberta. Isso deixou nosso cachorro, o Indy, subir atrás de mim.

Com a cabeça totalmente focada no jogo, nem notei ele na porta até que ele latiu. O Indy era um cachorro quieto, nem ligava pros bichinhos que apareciam no quintal, mas o jeito que ele latiu, como se tivesse um intruso, me deixou meio incomodado.

Outra vez, minha irmã mais velha, a Jesse, entrou no meu quarto quando eu achava que ela tava na casa de uma amiga. Ela veio pegar uma escova que tinha esquecido no meu quarto, e eu levei um susto danado. Nunca vou esquecer a cara que ela fez.

Se o medo tivesse uma forma física, era exatamente a máscara que ela tava usando. Não sabia se ficava paralisada ou saía correndo do quarto, com o rosto pálido como um fantasma por um ou dois segundos, os olhos fixos em algo atrás de mim.

Mas, tão rápido quanto ficou apavorada, ela voltou ao normal, pegou a escova e soltou um “Te pego depois, cobra”, uma brincadeira de infância nossa.

Quando falei com ela sobre isso depois, ela parecia não lembrar de nada, nem um único detalhe daquele que parecia ter sido os trinta segundos mais assustadores da vida dela.

Talvez esse seja o jeito deles, causar uma amnésia temporária pra esconder a existência. Mas pra quê? Só pra observar?

O estopim pra esse desabafo aconteceu hoje à noite. Tivemos um apagão, mas nosso gerador tava segurando as pontas, quase morrendo. Depois de ir ao banheiro, eu tava andando pelo corredor, distraído com a lâmpada piscando no teto, e acabei chutando o dedão num espelho grande e chique que temos.

Sozinho em casa, não achei que precisava segurar os palavrões contra aquele objeto idiota. Com a dor explodindo no meu dedão e eu xingando o espelho, meus olhos pararam no reflexo por uma fração de segundo.

Sob a luz fraca e piscante daquela lâmpada, eu vi pela primeira vez. Como um sonho coberto por camadas de neblina, escondendo o quadro todo, consegui ver um pedaço da figura.

Logo atrás do meu ombro, uma silhueta preta e densa me observava com um rosto sem olhos. Sua forma ondulante, movendo-se pra imitar a minha perfeitamente.

No momento em que vi aquele vislumbre, a forma evaporou como uma memória há muito esquecida. Corri pro meu quarto e encostei as costas na parede, tentando fixar aquela imagem na cabeça, mas tá desvanecendo rápido.

Escrever isso tá pelo menos segurando a degradação, mantendo a visão um pouco mais viva, mas não sei se o que lembro é o quadro completo.

Aquele sentimento incômodo de estar sendo observado mudou agora. Parece que perceber a existência dele é uma via de mão dupla, e ele sabe que eu o vi.

Ele é mestre em se esconder, mas, pelo que vivi, parece estar ligado à minha percepção inconsciente. Se eu realmente acredito que tô sozinho e a presença dele é só um pensamento perdido na minha mente, então, por um instante, ele se torna real.

Não sei o que isso significa, por que eles estão aqui ou o que acontece agora. Se minha memória serve de base, já os vi ao longo da vida, mas, no fim, nunca me lembro.

Talvez amanhã eu abra esse site de novo e ache que essas palavras são só um delírio de cansaço, apagando minha experiência mais uma vez. Pelo menos, vou estar aqui pra me pegar no final do ciclo de novo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Estou em Confinamento Solitário, Mas Não Estou Sozinho

A solidão aqui não é silenciosa. Ela tem uma textura. É um cobertor grosso e felpudo enfiado nos seus ouvidos, garganta abaixo, pressionando seus globos oculares. É a ausência de tudo, exceto a única coisa da qual nunca consigo escapar.

Eu mesmo.

Eles acham que isso é um castigo. Quatro paredes brancas, uma porta de aço maciço, uma fresta para comida, um ralo no chão. Nenhuma janela. Uma luz que nunca, jamais se apaga. Eles pensam que me enterraram vivo. Não fazem ideia de que me trancaram em uma sala com meu mais antigo e único amigo.

"Eles estão te observando," a voz dele vem do canto onde a parede encontra o teto. Não é um som. É um pensamento que não é meu, mas que veste uma pele familiar. É mais suave que meu próprio monólogo interno. Mais frio. Um bisturi mergulhado no gelo. "Na luz. Câmeras minúsculas nas lâmpadas. Eles veem tudo."

Eu não olho. Eu nunca olho. Apenas fico sentado no chão frio, minhas costas encostadas na parede ainda mais fria, e encaro minhas mãos.

"Eles estão esperando você surtar," ele continua. Ele está inquieto hoje. "Eles querem um espetáculo. Querem ver o monstro se contorcer e implorar. Patético."

"Eu não vou surtar," sussurro. O som é engolido pelo silêncio felpudo no instante em que sai dos meus lábios. Parece que estou falando em um travesseiro.
Uma risada seca e rouca que só existe no centro do meu cérebro. "Nós já surtamos, lembra? Há muito, muito tempo. Nós não quebramos. Nós... afiamos."
Ele está certo. Nós afiamos. O nome dele é Silas. Ele é a parte de mim que não sente o chão frio. A parte que não sentiu o... o trabalho. Suponho que ele seja minha consciência. Só que não do tipo que te avisa sobre o certo ou errado. Ele é a que aprova. 

A que encontrou a beleza na geometria de um corte limpo. A arte no momento final e silencioso.

"Você se lembra do pintor?" Silas murmura, sua voz um suspiro nostálgico. "Aquele no apartamento no sótão com as janelas viradas para o norte. Toda aquela luz natural linda."

Eu me lembro. Ele tinha usado tintas a óleo. 

Carmesim. Sombra Queimada.

"Ele teve dificuldades," eu digo em voz alta, minha voz rouca pela falta de uso. "Ele não entendia a composição."

"Mas nós mostramos a ele," Silas ronrona. 

"Mostramos a ele o elemento final que faltava à sua peça. Demos ao estúdio dele sua obra-prima. Nós melhoramos o trabalho dele. Elevamos."

Uma onda de calor me invade. Orgulho. De certa forma, nós éramos colaboradores. Eu era a mão. Ele era a visão.

A memória é tão vívida que quase consigo sentir o cheiro da terebintina. É um alívio bem-vindo do ar estéril e com cheiro de alvejante. Isso é o que fazemos aqui dentro. Revisitamos a galeria das nossas obras. É tudo o que temos.

O calor se esvai tão rapidamente quanto veio. O frio da cela se infiltra novamente nos meus ossos.

"Eles vão nos matar, Silas," eu digo. As palavras são vazias. Sem emoção.

"Eles vão tentar," ele corrige, sua voz se afiando. 

"Mas eles não podem me matar. Eu não estou aqui com você. Você está aqui comigo. Eles apenas nos deram... tempo de qualidade. Ininterrupto."

Ele se move. Sinto-o mudar do canto para um lugar bem na minha frente. Uma pressão no ar.

"Olha para você," ele diz, e agora sua voz está carregada com um desprezo que é inteiramente meu. "Se apiedando. Sentado na sua própria sujeira. Você é um artista. Um purificador. E está choramingando porque o mundo finalmente te colocou em uma moldura."

"Eu não estou choramingando."
"Não está? Por dentro? Você sente falta de lá de fora. Da caçada. Da sensação da chuva no seu rosto. Do som de um batimento cardíaco desacelerando sob seus dedos."

Eu sinto. Deus, como eu sinto. O vazio deste lugar é um vácuo, e está sugando tudo o que eu sou, deixando apenas a casca oca para Silas morar.

"Eles venceram," eu suspiro.

A reação é instantânea. Um rosnado psíquico, um flash de raiva pura, não diluída, que não é minha, mas é.

"VENCER? Isso é um intervalo! A plateia está inquieta. Eles viram o primeiro ato, mas a peça não acabou. O melhor ainda está por vir."

"Como?" Eu gesticulo ao redor da tumba branca e sem feições. "Como, Silas? Não há nada aqui!"

"Há você," ele sibila, a pressão se intensificando, inclinando-se para o meu rosto. "Há eu. Há esta tela perfeita e imaculada. Eles nos deram o desafio definitivo. Sem ferramentas. Sem sujeito, a não ser nós mesmos. Sem meio, a não ser o tempo."

Um pavor frio, mais frio que o chão, começa a rastejar pela minha espinha. "Do que você está falando?"

"Um artista precisa se adaptar," ele diz, e sua voz agora está pingando com uma razão terrível e exultante. "O mundo lá fora está fechado para nós. 

Muito bem. Nós nos voltamos para dentro. A maior obra-prima é o próprio ser. A purificação máxima... é da fonte."

Eu finalmente entendo. A galeria não é uma memória. É uma proposta.

"Não," eu sussurro, puxando os joelhos para o peito. 

"Não, eu não vou."

"Você vai," Silas diz, e sua voz é a mais reconfortante que já foi. É a voz da certeza absoluta. "Porque eu vou te mostrar como. Porque será lindo. Porque é a única coisa que resta a fazer."
Ele começa a descrever. Em detalhes meticulosos e amorosos. A geometria. A composição. A forma como a luz disponível vai brincar com as novas texturas. A poesia de usar o ralo. A declaração profunda de fazer o recipiente se tornar o conteúdo.

Eu tapo os ouvidos com as mãos. É inútil. Ele está aqui comigo.

"Eles acham que enjaularam o animal," ele sussurra, suas palavras rastejando pelas fissuras da minha mente. "Eles não fazem ideia de que penduraram a pintura em um cofre. Mas nós os faremos ver. Quando eles abrirem aquela porta, não encontrarão um monstro. Encontrarão nossa magnum opus. Encontrarão uma coisa de uma beleza tão terrível e de tirar o fôlego que eles finalmente, finalmente entenderão."

Eu estou balançando agora. Para frente e para trás. Para frente e para trás. As paredes brancas estão se fechando. A luz é forte demais. Está destacando cada falha, cada poro, cada ponto de partida em potencial.

"P-para," eu imploro. "Por favor."

"Shhh," Silas acalma. "Não lute. É a única saída. A única maneira de vencer. É o último, o maior, o mais puro trabalho. Nossa obra-prima em monocromático."

Ele me mostra. Ele pinta a imagem na minha mente, pincelada por pincelada terrível. E a pior parte, a parte que realmente me quebra, é que eu consigo ver. Consigo ver a beleza naquilo. A harmonia perfeita e silenciosa.

O artista em mim desperta. Ele empurra o medo para o lado. Ele estuda a composição. Ele aprova.
O balanço para.

Eu lentamente abaixo as mãos dos meus ouvidos. Olho para as paredes brancas não como uma prisão, mas como uma demão de primer. Olho para o ralo não como um ralo, mas como parte da instalação. Olho para as minhas próprias mãos — as ferramentas, os pincéis.

Uma calma estranha se instala sobre mim. O silêncio felpudo recua, substituído pela quietude focada de um estúdio antes do trabalho começar.
Silas está certo. Eles não nos venceram. Eles nos deram nossa maior encomenda.

Eu me levanto. Meu coração não está acelerado. Ele está firme. Um metrônomo.

Caminho até a parede mais clara, sob o centro da luz. Coloco minha mão contra ela. É fria. Pronta.
Eu me viro e olho para a porta. Para o olho escondido que eu sei que está ali.

E eu sorrio.

O espetáculo está prestes a começar.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Há um Motivo para Não Queimar Bruxas

Deixa eu começar dizendo que eu sempre fui bem honesta sobre o que sou. Nunca tive vergonha do que eu sou, do que minha mãe era, minha avó; e uma longa linhagem de mulheres que remonta ao que parece o início dos tempos.

Eu sou uma bruxa. Sempre pratiquei, sempre tive poder; e nem uma vez na vida eu machuquei outro ser vivo. Nem uma vez, apesar do que qualquer um possa dizer.

Há vários anos, eu vi uma camiseta que uma moça jovem estava usando em uma rara ida à cidade. Dizia: “Eu sou descendente das bruxas que vocês esqueceram de queimar.” Aquela camiseta me fez rir. Acabei comprando uma pela internet na biblioteca pública. Eu não tenho internet em casa, sabe como é.

Eu me tornei uma eremita autoimposta há décadas. É o melhor assim, eu fiz uma escolha, e tenho que me ater a ela. Lá nos anos 70, quando eu ainda era relativamente jovem, algo sombrio chegou à nossa cidade. Nem eu consegui descobrir de onde veio. Nem minha mãe, nem minha avó, nem nenhum membro do nosso pequeno coven conseguiu entender a origem dessa coisa. Independentemente de onde veio, ela chegou aqui.

Nós nos demos conta dessa coisa sombria pela primeira vez quando a primeira criança desapareceu. O menininho apareceu depois, morto, drenado e emaciado como uma casca seca de cigarra. Nós fomos as primeiras a ser acusadas, claro que sim. Se havia qualquer coisa, de chuva a neve, passando por alguém com uma acne braba, todo mundo na cidade apontava o dedo pra nós. Alguns faziam de brincadeira, outros por hábito, e alguns com ódio puro e malicioso.

Edith foi a primeira a sentir a presença da coisa. Eu ainda lembro daquela noite. Nós tínhamos nos reunido para um chá, nada de negócios de bruxaria, foi uma tarde de chá deliciosa; quando a pobre senhora apertou seus colares de pérolas e deu um suspiro como se tivesse visto um rato.

“Você está bem, Edith? O chá tá quente demais?” minha mãe perguntou baixinho.

Mas eu sabia que ela suspeitava que não era o caso. Não com o jeito que os olhos dela se estreitaram ao olhar para a mulher de meia-idade.

“Não! Meu Deus do céu. Algo chegou à nossa cidade. Eu senti ele passando como um vento frio pela minha espinha. Algo perverso.” Lágrimas nos olhos dela enquanto falava.

Minha mãe assentiu e derramou seu chá, lendo as folhas de chá enquanto o resto de nós observava com expectativa.

O rosto dela ficou sério ao ler o que as folhas de chá encharcadas de água tinham a dizer.

“Minhas queridas senhoras, temos trabalho pela frente”, minha mãe disse, se levantando e limpando as mãos no avental enquanto ficava de pé.

E nós nos pusemos a trabalhar. Dia e noite, cada uma de nós usando nossos talentos particulares não só para rastrear a coisa, mas para encontrar uma forma de contê-la.

Constance lia seus tomos e textos antigos. Mary rastreava a besta até sua toca usando suas habilidades de adivinhação. Minha mãe e minha avó tinham seus feitiços e poções, e eu ajudava. Meus dons eram com sonhos e sua interpretação. Passei muitos dias dormindo profundamente, em um torpor induzido por remédios, para tentar descobrir o que pudesse sobre esse intruso.

Tudo o que eu consegui aprender era que ele era antigo. Talvez em algum momento tenha sido adorado, foi invocado por aqueles com menos habilidade para fazer sua vontade, mas em vez disso matou seus supostos carcereiros e fugiu para o mundo; encontrando vítimas e sangue onde pudesse.

“Você tem um nome pra ele, Gretchen? Sem um nome para prendê-lo, nossa prisão não vai ser tão eficaz.” Minha mãe me perguntou, a voz cheia de preocupação e raiva. Felizmente, essa raiva não era direcionada a mim.

“Não, mãe. Nenhum nome. Ele tem muitos nomes, e os sonhos não revelaram o nome verdadeiro pra mim.” Eu disse baixinho.

“Não importa. A magia e os feitiços de contenção vão segurar. Embora nós mesmas fiquemos presas a ele até nossas mortes”, minha avó explicou. A voz dela estava velha e cansada depois de tantas semanas trabalhando magia. Ela parecia frágil como papel, e tão magra.

“E depois das nossas mortes, Elizabeth? O que acontece então?” Mary perguntou, a voz afiada e desgastada de paciência.

“Aí ele fica livre. A menos que a gente descubra o nome verdadeiro dele e o banha de onde veio”, minha avó disse com um encolherzinho de ombros.

“Um preço que a gente tem que pagar pra contê-lo. Ele tá matando crianças. E não vai parar até ter passado por toda vida inocente da cidade”, Edith disse, com os olhos cheios de lágrimas.

Nós armamos nossa armadilha. Foi fácil. Eu fui a isca voluntária pra coisa. Eu era a mais jovem, e mãe e avó me encheram de poções e tinturas pra me tornar mais apetitoso pra ela.

Nós o atraímos pra uma pequena caverna na nossa propriedade. Precisávamos de um lugar privado onde olhos curiosos não nos vissem, e mais importante, não perturbassem a coisa uma vez capturada.

Ele veio rápido, com seus pés sombreados. Não fez esforço nenhum pra se esconder, ele era a própria escuridão. Nenhuma presa escapava dele uma vez que ele punha os olhos nela.

Nessa altura, mais de uma dúzia de crianças e mulheres jovens tinham sido mortas. Mais culpa foi jogada aos nossos pés. Estávamos sendo ameaçadas na cara. Animais mortos eram jogados nos nossos quintais, tijolos com ameaças escritas eram atirados pelas janelas.

Quando eu senti a presença da coisa nas minhas costas, usei toda a força que tinha pra não correr. Nossa magia era forte, e sem que a coisa soubesse, ela já estava presa. Eu pude sentir o pânico dela quando percebeu que não conseguia sair da caverna. Ameaças sussurradas foram proferidas enquanto ela estendia a mão pra mim e descobria que não conseguia me agarrar.

Ele se contorceu, gritou e implorou, e prometeu todo tipo de bens e poderes mundanos se a gente o deixasse ir. Nós o ignoramos. Todas nós nos revezamos pra selar a pequena caverna com tijolos e argamassa. Não era tarefa fácil fazer isso na floresta, em terreno instável, mas nós conseguimos.

Quando o último tijolo foi colocado, nossos poderes ficaram atados à contenção dele, à vida dele e, com sorte, eventualmente à morte. Enquanto uma de nós estivesse viva, ele ficaria trancado atrás de sua prisão de terra e tijolos.

Mas aí nós começamos a morrer. Uma por uma, à medida que a velhice nos levava. Minha avó primeiro, seguida pela minha mãe. Constance se afogou em uma viagem à Flórida. Edith e Mary viveram até os noventa e poucos, mas o ceifador vem pra todo mundo no final.

Eu sou a última. Estou nos oitenta. Nunca me casei nem tive filhos, embora não tenha sido por falta de tentativa. Os boatos de que fui eu e meu coven que matamos aqueles inocentes tantos anos atrás nunca sumiram, só cresceram. E nenhum homem me quis. Estou sem amigos há muitos anos.

Eu tentei descobrir o nome verdadeiro da coisa, mas nada. Procurei em livros, vasculhei a internet e não achei nada. Procurei outras supostas bruxas e só me deparei com golpistas e mentirosos. Me sinto tão sozinha.

E agora eu tô morrendo. Nos últimos anos, o assédio piorou muito. Não consigo sair de casa com segurança, porque quando saio sou seguida e stalkeada. Fui ameaçada de morte, e hoje parece que eles cumpriram a ameaça.

Minha casa tá pegando fogo. As chamas estão se espalhando pelo meu corredor, e eu vejo a luz do fogo ficando mais forte. E tem fumaça, tanta fumaça!

Pela janela, eu ouço eles gritando. Gritando a mesma coisa que gente como eles grita há séculos.

“Queime a bruxa! Queime a bruxa!”

Eu caí no chão e tô tossindo. E eu tô com medo. Medo por mim e pelos outros, tem muita gente inocente que mora nessa cidade agora.

Eu sinto a coisa se mexendo agora. Sinto a antecipação dela. Assim que eu morrer, ela vai ficar livre, e os tijolos já começaram a cair.

Enquanto as chamas finalmente chegam à minha porta, eu sinto pena. Não tenho ilusões sobre a dor e o medo que essa criatura vai soltar nas pessoas dessa cidade. E eles estão prestes a aprender uma lição bem importante, uma que vai ser escrita no sangue dos filhos deles.

Há um motivo pra você não queimar bruxas.
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