sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Eu nunca vou esquecer o que vi na casa do meu amigo

O que a gente viu naquela noite na casa do meu amigo... Eu nunca vou esquecer. Não era algo inexplicável. Não era paranormal. Isso até teria sido quase reconfortante, de certa forma, saber que vinha de fora do nosso mundo, mesmo que fosse aterrorizante. Mas isso... isso era muito mais real.

Era um inverno brutal, durante as férias da escola. A gente tinha 16 anos e já se reunia quase todo fim de semana na casa do meu amigo pra beber e jogar videogame. Nosso passatempo favorito (e bem idiota) era o de pênaltis no FIFA, e toda vez que alguém levava um gol, tinha que virar um shot da vodca mais barata que a gente conseguia achar.

É, era burro, bem burro mesmo, mas a gente ria até não poder mais. Minhas melhores lembranças são daquele quarto, lá no fundão da casa do meu amigo, bem do lado da lavanderia e antes da varanda dos fundos. A mãe dele não podia reclamar do barulho, e ela não fazia ideia de quanta bebida a gente estava mandando pra dentro só por diversão. Pelo menos era o que a gente achava.

Aquela noite não parecia diferente das outras. Saí de casa e avisei pra minha mãe que ia pra casa do Luke. Ela sabia exatamente o que isso significava, mas era... digamos, "seletivamente" permissiva. Ela não aguentava me ver bebendo ou fumando, mas se eu fizesse isso pelas costas dela, de repente não era mais problema. No caminho, parei na vendinha da dona Rosita, aquela senhora que me vendia cigarro e bebida mesmo sabendo que eu ainda estava no ensino médio. Igualzinho sempre: um maço de cigarro e a vodca mais barata que tinha.

Fui o primeiro a chegar na casa do Luke. A mãe dele me deu uma olhada de lado rapidinha e um sorrisinho cúmplice quando ouviu o tilintar da garrafa batendo nas minhas chaves dentro da mochila. Ela sabia, mas, igual à minha mãe, não ia se meter.

Fui direto pro quarto dos fundos. O Luke já estava bebendo uma cerveja, Deus sabe de onde ele tinha tirado aquilo, e jogando um jogo que eu achei que era de tiro no começo, mas na verdade era de terror. Ele estava de moletom e coberto por um cobertor que tapava ele inteiro; eu só via a cabeça e as mãos, o que me pareceu um pouco esquisito. Mas, pensando bem, aquele quarto, por mais que a gente adorasse, era frio pra caramba. Sem aquecedor. A janela fechada, mas de algum jeito o vento ainda entrava. Lá dentro tinha só um colchão velho no chão, uma TV ainda mais velha e nosso tesouro sagrado: o PlayStation 2.

Cinco minutos depois que eu cheguei, a gente já estava jogando aquele joguinho idiota de pênaltis. Enquanto isso, conversávamos sobre as coisas de sempre: garotas, boatos meia-boca e outras bobagens que adolescentes de 16 anos ficam obcecados.

Agora, eu adorava o Luke, ele era meu melhor amigo e eu sempre fui super apoiador dele, não importava o que fosse, mas o relacionamento dele com a namorada era... esquisito. Ela era insanely ciumenta, a ponto de, mesmo sendo um adolescente bobão, eu saber que aquilo passava dos limites. Ela geralmente não aparecia nas nossas reuniões, graças a Deus. Mas de vez em quando, ela surgia do nada, como se estivesse torcendo pra pegar o Luke no flagra traindo.

A gente falou sobre isso naquela noite. Ele estava de saco cheio. Eu não entendia por que ele não terminava logo com ela. Ele disse que, se não respondesse uma mensagem em um minuto, ela ligava pra ele. Se não acordasse antes dela pra mandar "bom dia", ela bloqueava ele. Qualquer interação com uma garota já era motivo pra ela surtar. "O sexo é bom. Muito bom... mas ela curte umas coisas estranhas", ele disse. Eu insisti pra ele explicar. Ele sempre foi do tipo que conta tudo e ri, mas dessa vez ele estava sério pra caramba.

Enfim, a noite seguiu como sempre. O resto da galera chegou, e nós quatro jogamos o joguinho de pênaltis até a bebida acabar. Já era tarde, mas a vendinha da Rosita ainda estava aberta. O bairro era bem tranquilo, mas àquela hora, a gente ainda tinha que ficar de olho aberto.

Deixamos os celulares no quarto. O Luke disse que estava frio demais pra ir, então o resto de nós foi e ele ficou pra trás jogando. Assim que saímos, vimos a namorada do Luke no portão, com o celular na mão e uma mochilinha do Hello Kitty no ombro.

Abri o portão e deixei ela entrar. Ela não disse uma palavra pra gente, odiava todos nós por motivos que a gente nunca entendeu. Assim que viramos a esquina, começamos a rir feito loucos. Ela não podia ser mais esquisita. E o que quer que fosse rolar lá dentro... não ia ser bonito.

Demoramos pra voltar, só pra evitar o climão. Mas depois de meia hora, o frio estava insuportável, então voltamos mesmo assim. Sem gritos, sem vozes. Que alívio. Talvez a gente tivesse escapado do drama.

Mas, quando chegamos mais perto, ouvimos uns... sons molhados. É a única forma de descrever. Achamos que íamos pegar um boquete bem constrangedor no flagra, então, sendo os idiotas que éramos, fomos nos aproximando da porta na ponta dos pés, espiando.

Abri a porta de supetão e todos nós congelamos. Um dos meus amigos correu pra varanda dos fundos e vomitou antes mesmo de chegar lá fora.

O Luke estava deitado sem camisa no colchão velho. O tronco e os braços dele estavam cobertos de feridas mal cicatrizadas. Pedaços de pele faltando. Carne seca, como couro... e músculo fresco, cru, onde um pedaço novo tinha acabado de ser arrancado do antebraço dele.

Do lado dele estava a namorada. Mastigando uma tira de pele e músculo, os dentes afundando naquilo com um som nojento, gosmento. Ela nem parou quando nos viu. Engoliu o pedaço, limpou a boca com um guardanapo de pano da mochilinha do Hello Kitty, se levantou e foi embora.

O Luke implorou pra gente não contar pra mãe dele. Disse que estava "lidando com isso", que ela era perigosa, que não podia simplesmente largar ela. De alguma forma... a gente acreditou nele. Acho que estávamos chocados demais pra pensar direito.

Não vi muito o Luke naquele inverno. Ele parou de responder minhas mensagens no Facebook. Quando as aulas voltaram, descobrimos que ele tinha se mudado pra outra cidade. Meses depois, ele me mandou uma mensagem dizendo que não teve escolha, tinha que se afastar o máximo possível dela. A gente se encontrou de novo eventualmente. Ainda saímos de vez em quando.

Nunca tocamos no assunto. Ele quer deixar no passado. Fingir que não aconteceu. E, sinceramente, eu também quero. Mas não consigo apagar aquela imagem da minha cabeça. Nem o som. Aquele som nojento, gosmento de mastigação... dela comendo aquele pedaço de carne.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Minha namorada terminou comigo depois de uma lesão na minha cabeça. Sete meses depois, descobri o porquê...

No começo deste ano, minha ex-namorada, Alexandra, terminou comigo por motivos que ela ainda não me contou pessoalmente. As semanas antes do término são um borrão na minha memória. Eu sofri uma lesão na cabeça, sem me lembrar de como aconteceu, e suspeito que isso seja o motivo de eu não conseguir recordar nada do que supostamente fiz ou disse para ela.

A Alex e eu nos conhecemos desde o ensino médio, mas só viramos um casal no nosso primeiro ano de universidade. Agora estamos no segundo ano, e nossas moradias ficam a uns 20 minutos de distância uma da outra.

Três dias atrás, o diário da Alex chegou pelo correio na minha casa. Provavelmente foi ela quem mandou, mas não tenho como confirmar. Ao ler as entradas das datas que eu não lembro, senti um terror que não dá para sacudir. Um que não me largou desde então.

Um pouco de contexto extra para essa história: Bunny-Bunny era um grupo infame no Facebook em 2022, onde os membros postavam fotos supersaturadas de crianças da escola (a maioria meninos), junto com uma nota de zero a cinco cenouras. Isso vinha acompanhado de legendas perturbadoras, tipo "gosto único" ou "boca linda". O grupo começou a circular por quase todas as escolas da minha região e era o que todo mundo comentava. A teoria principal entre os alunos era que predadores locais usavam o grupo para avaliar vítimas em potencial, mas nunca teve prova disso. O grupo foi banido rapidinho do Facebook depois que os pais das crianças envolvidas descobriram as postagens. Depois do incidente, e de umas dezenas de reclamações na minha escola, fomos proibidos de falar sobre isso de novo, por respeito aos alunos afetados.

Abaixo, vão trechos do diário que eu resumi para incluir só as partes sobre mim, nos dias que antecederam o nosso término.

Terça-feira, 7 de janeiro

O Daniel me ignorou o dia inteiro. Ele costuma me mandar uma mensagem fofa toda manhã para começar o dia bem, mas hoje só respondeu por volta das 17h. Quando finalmente falou, perguntou se eu queria ir até lá, e eu disse que sim, toda animada. Mas, quando cheguei, o comportamento dele estava... estranho.

Ele me deu um sorriso esquisito e parecia estar agindo todo tímido perto de mim; me olhando como se estivesse deslumbrado. Achei fofo e pensei que era porque ele me achava linda naquele dia. Tinha também um hematoma bem visível do lado esquerdo da testa dele, o que me preocupou, mas ele dispensava sempre que eu tocava no assunto. "Não é nada" "Para de se preocupar". Decidi deixar pra lá porque ele ficava visivelmente irritado com os meus comentários, e eu tinha medo de ter envergonhado ele.

Sexta-feira, 10 de janeiro

O comportamento do Daniel está ficando preocupante. Ele não está indo às aulas como de costume e fica esquecendo coisas básicas, tipo onde deixou as chaves, datas que a gente marcou, senhas dos e-mails etc. E tem um cheiro horrível vindo da cama dele.

Ele também pegou uns hábitos esquisitos, coisas que nunca demonstrou antes. Hábitos como lamber os lábios toda vez que me vê, cheirar meu cabelo, me apertar mais forte do que o normal quando a gente se abraça, e quase não piscar. Acho que o pior é a queda óbvia na higiene dele. Ele não toma banho nem escova os dentes a menos que eu fale, e eu tenho que praticamente forçar. A gente divide os mesmos produtos de skincare, e dá pra ver que ele está negligenciando tudo.

Segunda-feira, 13 de janeiro

Ontem à noite, fui para a moradia do Daniel depois da minha aula, e ele estava ainda mais desleixado do que nos últimos dias. Os olhos dele estavam vermelhos de sangue e a respiração dele era bem pesada. Parecia que ele estava ficando sem ar. Perguntei se ele estava bem, e ele praticamente se jogou em cima de mim e começou a me beijar de forma agressiva. Isso me pegou de surpresa, então eu o empurrei com toda a força, mas mesmo assim ele continuou tentando subir em cima de mim. Eu gritei "Que porra é essa que tá acontecendo com você!", e isso pareceu acordá-lo, mas ao longo do resto do dia ele ficava tentando me convencer a transar com ele.

À medida que a noite foi escurecendo, o Daniel ficou mais frustrado. Toda vez que eu ousava recusar as investidas sexuais esquisitas dele, ele me olhava como um animal selvagem. Sinceramente, aquilo estava começando a me dar arrepios. Ele tinha uma expressão vazia no rosto, não piscava, e os olhos dele até começaram a encher de lágrimas. Fui escovar os dentes para fugir da situação, mas quando voltei uns minutos depois, ele estava completamente apagado, como se já estivesse dormindo há horas. Percebi que os olhos dele estavam vermelhos provavelmente por exaustão, e, por sorte minha, o sono finalmente o pegou.

Aliviada, peguei meu celular e chamei um Uber na hora para não ter que voltar sozinha para a minha moradia, mas logo depois de pagar, vi algo se mexendo no canto inferior do meu olho. Olhei rápido para baixo e vi uma mão de pessoa, rastejando devagar de debaixo da cama do Daniel. Não tem palavras para descrever o medo que eu senti nesse momento. Fiquei parada, paralisada, enquanto esse homem de meia-idade começava a sair de baixo do corpo inconsciente do meu namorado. O cara era um pouco acima do peso, careca, e parecia um cadáver de uma semana. Depois que ele se levantou, a gente se olhou por um instante, e a boca dele se contorceu no sorriso mais horrível que eu já vi, antes de dizer as palavras "obrigado". Nesse momento, saí do transe de pavor, gritei o mais alto que pude e corri direto para fora do prédio, sem perder tempo pegando nenhuma das minhas coisas.

Quinta-feira, 16 de janeiro

Passei os últimos três dias na casa dos meus pais, só tentando processar toda essa situação com o Daniel. Ele voltou a me mandar mensagens de bom-dia como se nada tivesse acontecido, e alega não ter ideia de quem era o homem debaixo da cama dele. O que eu quero saber é por que ele disse "obrigado". Será que ele estava nos gravando? O Daniel sabia disso e estava sendo pago para realizar a fantasia pervertida desse cara de espiar uma garota de 19 anos? Talvez por isso ele tenha insistido tanto em transar comigo o dia todo, e ficado bravo quando eu recusava. Acho que vou simplesmente cortar ele da minha vida, porque essa história toda estragou a forma como eu o vejo.

Sexta-feira, 17 de janeiro

Hoje de manhã, recebi um e-mail de uma ex-colega da minha antiga escola com um link anexado. O link era para um grupo no Facebook chamado "Rabbit-Rabbit". Cliquei por curiosidade e não estava nem um pouco preparada para o que vi. O grupo era o Bunny-Bunny em tudo, menos no nome. Centenas de postagens de crianças e adolescentes sendo avaliados com cenouras. Esses tarados estavam ativos e postando o tempo todo, pelo menos duas postagens por dia no último ano. Minha raiva durou pouco e logo virou horror quando rolei para baixo e vi um rosto familiar em uma postagem de terça-feira, 14.

A foto de perfil do usuário que postou era o mesmo sorriso torto que eu vi no quarto do Daniel. Era o homem debaixo da cama. O nome de usuário dele era "Elmer Fudd" e, para o meu choque total, ele postou uma selfie supersaturada do Daniel, com cinco emojis de cenoura na testa dele.

A legenda dizia "Pele confortável".

Fim dos trechos do diário

Eu chequei a selfie usada na postagem do Rabbit-Rabbit (que, surpreendentemente, ainda está no ar) e não me lembro de ter tirado ela. Achei que a Alex estava mentindo quando me perguntou sobre um tal "homem que saiu rastejando de debaixo da cama". Espero que alguém aqui consiga dar algum sentido a tudo isso, mas acho que o melhor é eu tentar não entrar em contato com ela mais.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Toda vez que durmo, vejo pessoas sendo massacradas

Quase não quero mais dormir. Estou tão exausto que só penso em morrer. Lembro dos bons tempos. Minha cabeça no travesseiro depois de um banho quente. O sono vindo quase instantaneamente.

Sempre tive esse talento. Cheguei a me gabar disso, em outra época.

Agora, é o meu inferno. Especialmente agora, tentando ficar acordado. Tentando adiar o inevitável. Se eu me deitar, apago na hora.

Por que isso começou? Que se dane, eu não sei. Só quero que acabe. Não uso eletrônicos antes de dormir. Nada de telas. Não como nada menos de uma hora antes de ir pra cama. Tomo banho todas as noites. Leio um livro. Algo chato, tipo filosofia ou sei lá o quê. Algo pra apagar as luzes. E, nossa, como elas apagam.

Em menos de uma hora, meus olhos começam a pesar, e agora me deito para dormir.

Eu costumava amar dormir. Fazia isso o tempo todo. Até durante o dia, tinha períodos de cochilos marcados e um horário fixo pra dormir à noite. Levo meu sono a sério, me processem. Na verdade, agora, só me matem.

Não são pesadelos. Sei o que você tá pensando, mas não são. Toda vez que acontece, estou lá. No segundo em que minha cabeça toca o abraço gostoso do travesseiro, os demônios começam a aquecer os tridentes pra me atormentar a noite toda.

E, de repente, é como se eu estivesse acordado de novo. Estou sentado no sofá de alguém, alguém real. Na mesa de jantar de alguém, alguém real. Na cama com eles, de verdade. Perto demais pro meu gosto, de verdade. Observando.

E é diferente a cada vez. Alguém novo. Como se eu estivesse assistindo a um filme do qual faço parte, mas sou aquela mosca na parede que ninguém nota, mesmo estando bem na frente deles.

E todos estão sendo massacrados.

Lá estou eu, sentado na poltrona reclinável da casa de uma velhinha e um velhinho. O carpete é tão macio. A poltrona cheira a suor de idoso e queijo. As lâmpadas são todas velhas e amareladas. Iluminam o suficiente pra enxergar, mas não com clareza. À minha frente, uma TV. Ao meu lado, um sofá com uma senhora comendo amendoins de uma tigela, sem olhar pra TV. Ouço cada mastigada e estalo como se fossem engrenagens triturando. Vejo e ouço tudo em 4D. O marido dela está ao lado, encarando a televisão, o pé batendo no chão antes de ele se levantar.

Ele resmunga, com a voz rouca: “Vou pegar um cigarro.”

“Isso vai te matar, sabia?”, diz a velhinha.

Tem uma porta à esquerda da TV que não paro de olhar. Uma daquelas portas de correr que entram na parede. Está totalmente aberta. A escuridão aberta boceja como a boca de um blasfemo.

Porque o que vem de lá é profano.

O velho é jogado contra a parede do outro lado. Ainda não o vejo, mas sei o que está acontecendo pelo barulho. Ele cai no chão, convulsionando violentamente, batendo em tudo que é quebrável na sala. A esposa ao lado dele, gritando. Amendoins e cigarros voando por aí. Eu, incapaz de me mover, e ele finalmente para. Ele olha pra esposa uma última vez.

“Por favor, Edith. Só me beije mais uma vez…”

Confusa e assustada, ela o faz. Eles se abraçam, e os lábios se unem. O som de carne molhada se chocando, saliva escorrendo pelos rostos, línguas fazendo um aperto de mãos secreto. A mão dele ainda segurando o maço de cigarros. A esposa limpa a boca e olha pra ele.

“Querido… o que foi isso?”

Foi quando o rosto dele se abriu.

Eu trabalhava numa criação de pombos. Vendíamos as aves pra fazendas e acampamentos de caça, pra treinar cães. Não sei se você já viu um filhote de pombo natimorto dentro do ovo, depois que você puxa a camada de carne e vê ele lá, todo vermelho e amontoado, como um verme deformado encharcado de grenadine e salpicado com lascas de madeira. Era mais ou menos assim que parecia.

Aconteceu em, no máximo, cinco segundos. Toda a pele e os ossos do rosto dele se abriram. Como uma pupila se dilatando ao máximo. Só que dentro havia algo como lama vermelha misturada com carne, que caiu direto no rosto dela e na boca ainda aberta.

Um último beijo de despedida.

A mulher se contorcendo e se debatendo de nojo. Cuspindo, tossindo, engasgando. Eu desejando poder fazer o mesmo. Ela se arrasta, o rosto rosado virando de um lado pro outro, procurando um agressor. Fazendo um gemido baixo, como o de uma mula, repetidamente. Recuando, recuando, recuando. Ela não viu a mesinha de centro e cai de lado. Ouço um estalo audível e um suspiro raso.

E então, apago.

Como o fade-out de uma cena de filme, as cortinas se fecham, e sou puxado pra uma escuridão turva, de volta a algo como o sono. O resto da noite sem interrupções.

Agora me deito para dormir.

Mas não é um sono tranquilo. É um sono longo, atormentado, suado, quente, que me faz acordar sentindo como se tivesse dormido por dias e com uma enxaqueca que faria um padre botar uns trocados no pote de palavrões.

Revirando o cérebro. Dizendo a mim mesmo que foi um sonho. Ainda sentindo o cheiro daquele filhote de pombo quente e se contorcendo.

Tomo banho toda manhã também. Não só por causa do suor, da enxaqueca e da urina, mas também do sangue. Minhas narinas parecem ter sido perfuradas por um lápis Ticonderoga até a letra R.

Não, não bati o rosto. Não, não estou doente. Não, não vou ao maldito médico. Não tenho plano de saúde e, literalmente, não posso pagar por isso.

Toda manhã é assim. O cheiro de órgãos recém-abertos nunca vai embora. Um cheiro quente, ardido. Fica pior quanto mais isso acontece. Como se o cheiro estivesse apodrecendo nas minhas vias respiratórias, e a cada manhã, uma nova camada é cuidadosamente aplicada. Dói pra respirar, pra comer, pra engolir, tossir, espirrar. As bordas do meu nariz estão cheias de cascas de tanto limpar as gotas, rasgando a pele a cada vez.

Toda noite é a mesma coisa, mas diferente.

Dessa vez, é uma esposa e filhos encolhidos num canto enquanto o pai é espancado e mutilado na frente deles por um invasor que nenhum de nós consegue ver. Ele gritando, repetidamente:

“Me desculpe! Me desculpe! Me desculpe! Não consigo evitar—”

Enquanto isso, eu fico pendurado com uma mão no ventilador de teto. Só apreciando a vista.

Em outra, estou aos pés da cama de alguém, na posição de sapo. Os pés deles pra fora do cobertor, começando a convulsionar silenciosamente, correndo no lugar por um instante, como um porco baleado, enquanto uma voz vem debaixo da porta.

“Tom?”

Em resposta, o volume na outra ponta da cama começa a manchar, se espalhar, vazar. Um rio de sangue escorre dos dois lados, e um pouco respinga em mim.

Deveria ter mantido os pés debaixo do cobertor.

E de novo, agora estou em cima de uma cômoda, olhando enquanto um homem abre as gavetas. Ele pega uma caixa. Um envelope. Muito dinheiro. Mete a mão no bolso e coloca outra pilha de dinheiro no envelope. Uma mulher se junta a ele e olha dentro, impressionada. Eles riem e falam sobre o que vão fazer com o dinheiro antes de pararem e olharem pra baixo, cada um pro próprio peito, e começarem a se despir. Algo está se movendo. Algo dentro deles. Eles gritam, choram, as costelas explodem pra fora enquanto caem de cara no chão, mortos, e as costelas batem de cada lado como pequenas asas.

Elas não voam muito longe. As asinhas os elevam ligeiramente, mas os braços e rostos moles só arrastam no chão. Eles voam em círculos, em direções opostas, ao redor do envelope e da pilha de dinheiro espalhada, deixando um rastro duplo de sangue como lesmas.

E sou sempre eu que tenho que ver.

Já faz três dias que não durmo. Tento entender isso. Não quero que aconteça de novo. Não quero ver de novo. Não assisto às notícias. Não saio mais de casa.

Não quero dormir. Mas está tão tarde, e estou tão cansado. Preciso. Não entendo. Preciso de um drinque. De muitos drinques.

Talvez essa seja a cura. Vou ficar bêbado. Bêbado demais pra isso acontecer. Só apagar até amanhã. Como nos velhos tempos.

Minha mão na garrafa. Levanto pra tomar um gole longo e glorioso. Mas, de repente, minha cabeça dói de novo, muito. Uma enxaqueca rasgando meu cérebro como uma agulha quente de veneno, e meu nariz começa a sangrar.

Não de novo.

Perco o equilíbrio e desabo no chão, chorando, nu e gritando como no dia em que nasci.

E sinto o leve cócegas de uma mosca pousando no meu pé.

A vingança de Downfall

"Vai, é só uma foto," o cara riu ao telefone, a voz dele escorregando pelo aparelho como uma cobra rastejando na grama.

"Mas não é real," ela protestou, a voz trêmula, os olhos grudados na tela que mostrava o rosto dela sobreposto a um corpo nu. O medo de que a mentira se espalhasse como fogo era mais do que ela podia suportar.

A ligação caiu, deixando apenas o eco da risada cruel dele ressoando em seus ouvidos. Ela jogou o celular contra a parede, vendo-o se espatifar em pedaços de plástico e vidro. Seus olhos se estreitaram em fendas de fúria, o quarto de repente pequeno demais para conter a raiva que fervia dentro dela.

Alguém bateu à porta, o som invadindo o caos dela como uma pancada. Ela respirou fundo, o pulso latejando nas têmporas, e se levantou lentamente da cama. As batidas ficaram mais insistentes, ecoando pelo apartamento vazio como um tambor anunciando o fim. Seus pés descalços deslizaram silenciosamente pelo chão frio de madeira, o coração acelerando a cada passo.

Espiando pelo olho mágico, ela viu um homem no corredor, o rosto carregado de irritação. "Faz menos barulho, tá?" ele gritou, a voz rouca de sono. "Tem gente querendo dormir por aqui."

A mão dela apertou a maçaneta até os nós dos dedos ficarem brancos. A raiva dentro dela se aguçava, ganhando foco. Ela sentiu o desejo de sangue crescer, a vontade de fazer aquele homem pagar pelos pecados do chantagista. A mão deslizou da maçaneta para o trinco, girando-o com uma calma surpreendente. A porta se abriu, revelando o vizinho desavisado, cujos olhos se arregalaram de choque quando ela saiu para o corredor.

Com um rosnado que gelou a espinha dele, ela avançou. Suas unhas se transformaram em garras, cravando-se no pescoço do homem enquanto ela o derrubava com uma força recém-descoberta. O som da garganta dele sendo rasgada era estranhamente satisfatório, o jato quente de sangue cobrindo o rosto dela enquanto ela absorvia a vida dele. O gosto metálico e doce era inebriante, saciando uma sede que ela nem sabia que tinha. Ela largou o corpo sem vida, o sangue se espalhando em uma poça vermelha sob ele, e parou por um momento para saborear o poder que pulsava em suas veias.

Seus olhos, antes cheios de medo e desespero, agora brilhavam com uma fome predatória. O chantagista, sem querer, a colocou em um caminho sombrio de vingança, e a cada gole de sangue, sua humanidade escorregava, revelando o monstro por baixo. A garota que antes estremecia ao ver um corte de papel agora se deleitava com a beleza visceral do derramamento de sangue. Ela vagava pelas ruas à noite, uma criatura de sombra e raiva, caçando aqueles que a tinham prejudicado.

O carteiro foi o primeiro. A rotina diária dele era simples, um caminho de inocência e ignorância que ela passou a invejar. Quando o amanhecer rastejou pelo horizonte, ele organizava as cartas e pacotes com uma facilidade praticada. Seus olhos se arregalaram de horror quando ela surgiu do beco, os olhos dela ardendo com uma luz feroz que parecia perfurar a alma.

Com uma velocidade que desafiava sua forma humana, ela o atacou, suas garras rasgando o tecido do uniforme dele, os gritos dele interrompidos pelo estalo dos dentes dela cravando na carne macia do pescoço. O calor do sangue encheu sua boca, uma sinfonia de sabores que parecia ressoar em seus ossos. Era uma mistura inebriante de medo e adrenalina, um néctar impossível de replicar. Ela sentiu o poder da força vital dele pulsando através dela, a essência dele se tornando dela, alimentando a fera que agora habitava sob sua pele.

Enquanto bebia das veias dele, ela sentiu uma sensação estranha, uma conexão se formando entre ela e o chantagista. As memórias dele inundaram sua mente, uma cacofonia de intenções malévolas e segredos sombrios. Ela viu o sorriso torcido no rosto dele ao enviar a foto, a emoção do poder que o percorria ao sentir o desespero dela. Sua raiva cresceu, uma fogueira de fúria que ameaçava consumi-la. Mas também trouxe clareza. Ela sabia onde ele estava, onde ele se escondia esse tempo todo. O endereço estava gravado em sua mente, um farol na escuridão que chamava o monstro que ela havia se tornado.

Com um último gole selvagem, ela soltou o corpo do carteiro e tomou as ruas, os olhos fixos no prêmio. O sol era apenas um sussurro no horizonte, um fio de luz que não conseguia banir as sombras que se tornaram suas aliadas. Ela entrou no carro, os movimentos precisos e calculados, a fome por vingança guiando cada ação. Ligou o motor, o ronronar uma canção de ninar para a fera dentro dela. O mundo lá fora acordava, alheio aos horrores que espreitavam suas ruas.

Seu destino era claro: a casa do chantagista. Ela a viu nas memórias do carteiro, uma casa suburbana comum com uma cerca branca, a própria imagem da inocência. Mas ela sabia a verdade. O diabo morava ali, escondido à vista de todos. Ela pisou fundo no acelerador, os pneus cantando enquanto ela disparava pelas ruas vazias, o gosto de sangue ainda persistindo em seus lábios.

Ao parar na calçada, ela vislumbrou a luz da manhã refletindo na cerca. Um arrepio de excitação percorreu sua espinha, misturando-se ao medo que ainda a envolvia como uma segunda pele. Ela saiu do carro, os olhos fixos na porta da frente. Chega de se esconder. Chega de ser vítima. Era hora de tomar o controle.

O chantagista a esperava, um sorriso arrogante estampado no rosto. Ela podia sentir a confiança dele, a crença de que era intocável. Mas ela havia mudado. O doce sabor do sangue a transformara, tornara-a mais do que ele jamais poderia imaginar. Seus dedos se fecharam em punhos enquanto ela marchava em direção a ele, o corpo vibrando de antecipação.

Com um rugido súbito, ela saltou, os dentes à mostra. A expressão dele passou de arrogante para chocada, e ele cambaleou para trás, procurando algo às costas. Um brilho de aço chamou a atenção dela, e ela percebeu tarde demais o que ele planejava. O cara sacou uma espingarda calibre 12, o cano apontado para o peito dela. "Você acha que pode simplesmente entrar aqui e arruinar minha vida?" ele gritou, a voz tremendo de raiva.

"Olhe para mim," ela rosnou, a voz um grunhido feral que parecia reverberar pelo ar ao redor. "Você fez isso. Você me transformou nisso." Seus olhos mudaram, não mais as suaves poças castanhas de antes, mas agora orbes de um vermelho ardente e puro. Seus dentes eram afiados e pontiagudos, suas unhas alongadas em garras. Ela deu um passo à frente, indiferente à arma apontada para ela.

O dedo do chantagista apertou o gatilho, a mão trêmula. Ele podia ver a loucura no olhar dela, a raiva desenfreada que a transformara nessa... coisa. Ele engoliu em seco, tentando convencer-se de que era apenas o medo pregando peças. Ele tinha que fazer isso. Tinha que se proteger.

Com uma explosão repentina de velocidade, apesar de seu tremor, ele puxou o gatilho. O tiro ecoou pelo bairro silencioso, o som como um trovão na calmaria. O impacto acertou o peito dela em cheio, jogando-a alguns passos para trás. Mas, em vez de desabar como ele esperava, ela apenas rosnou mais alto, a dor parecendo alimentar sua fúria.

O corpo dela convulsionou, os músculos se movendo de uma forma que parecia impossível. O impacto da espingarda rasgou suas roupas e sua carne, deixando uma ferida aberta que deveria ser fatal. Mas, enquanto ele observava horrorizado, as bordas da ferida começaram a se fechar, a pele e os músculos se recompondo com uma eficiência grotesca. Seus olhos nunca deixaram os dele, as chamas vermelhas brilhando mais intensas do que nunca.

O chantagista recuou, o aperto na espingarda afrouxando. "O que... o que é você?" ele sussurrou, a voz pouco mais que um coaxar.

"Sua ruína," ela sibilou, avançando com uma graça predatória que parecia desafiar a agonia de seu corpo em regeneração. O cheiro de pólvora e sangue encheu suas narinas, uma mistura potente que só aguçava sua fome.

Ele tentou recuar, as pernas traiçoeiras virando gelatina sob seu peso trêmulo. Seus olhos estavam grudados na criatura aterrorizante que um dia fora uma garota, uma criatura que agora o perseguia com um propósito obstinado. A espingarda caiu no chão, inútil em suas mãos trêmulas. "Por favor," ele implorou, "eu não sabia."

A criatura que fora a garota parou de avançar, o peito arfando com o esforço da transformação lecture. Por um breve momento, uma faísca de dúvida dançou em suas feições. Será que poderia poupar esse homem patético? Será que encontraria dentro de si a capacidade de oferecer piedade? A fome rugia dentro dela, exigindo mais sangue, mais poder. Mas algo mais crescia, algo que sussurrava sobre compaixão, sobre a garota que ela fora.

Os olhos do chantagista procuraram os dela, o desespero gravado em cada linha de seu rosto. Ele podia ver a batalha dentro dela, a humanidade lutando para retomar o controle da fera. "Me desculpe," ele choramingou, a voz falhando. "Por favor, eu retiro tudo. Faço qualquer coisa."

O olhar dela não vacilou, o vermelho em seus olhos suavizando ligeiramente enquanto considerava as palavras dele. Então, com um rosnado súbito e selvagem, ela avançou. Suas garras rasgaram o peito dele, cortando a camisa e a carne como se fossem papel. Ele gritou, os olhos revirando na cabeça enquanto a dor atravessava seu corpo como um raio. Ela sentiu o jato quente de sangue contra a mão e soube que acertara o alvo.

A criatura dentro dela se deleitava com o medo e a dor que ela infligia, incitando-a a ir além, a arrancar o coração dele e se banquetear. Mas a garota que ela fora sussurrava sobre piedade e a santidade da vida. Por um momento, ela ficou dividida, as duas metades de sua alma em guerra. Então, ela tomou sua decisão. Prometera a si mesma eliminar cada pessoa má, equilibrar as escalas da justiça à sua maneira distorcida. E ele a machucara, tentara destruí-la. O monstro venceu, sua fome grande demais para ser negada.

Fim. 

O nome da criatura, aliás, é Downfall. 

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon