segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Levado para Cima

Eu desejava do fundo do coração poder ver as folhas caindo, mas as paredes de pedra bloqueavam a luz de fora.

O bunker foi lotado quase que imediatamente depois que a catástrofe aconteceu naquela fatídica manhãzinha. O povo entrou em pânico, alguns sem direção nenhuma. Eu diria que é seguro assumir que a maior parte da população da Terra foi arrancada do chão na hora, pelos ventos de quase mil quilômetros por hora. As árvores de outono foram desenraizadas. Casas explodiram em pedaços soltos de drywall e estuque. Arranha-céus não tombaram — simplesmente saíram voando do chão. Pelo menos um pouco de entulho, segundo as transmissões, conseguiu até alcançar a velocidade de escape, e os terremotos que estouraram a escala Richter não ajudaram. O mundo que se preparava pro inverno que vinha pela frente foi obliterado.

As pessoas viraram sacos de carne voadores sem rumo. Algumas se espatifaram contra paredes bem firmes, atravessaram ruas ou foram moídas nos restos de uma cerca de ferro. Os que tiveram sorte de sobreviver já estavam debaixo da terra ou debaixo d’água. Com o tempo, os restos da lei local e do exército nos tiraram dos esconderijos. Lembro de ver crianças sendo vendadas ao entrar pra não terem que ver os restos dos vizinhos cobertos pelas folhas marrons. Eu não tive essa sorte. Tudo que consegui foi guardar no bolso uma folha rasgada de alguma árvore caída. Talvez ela viesse de onde eu estava, ou talvez tivesse vindo de vários quilômetros de distância. Tanto faz.

O rádio virou o centro das noites de todo mundo. Dentro dos quartos apertados, ele ficava em cima de uma mesinha no meio, ligado a uma antena tosca em algum lugar lá em cima. Conseguimos sintonizar uma transmissão de notícias pra atualizações, mas ouvir cada uma delas ficava mais e mais pesado, e tenho certeza de que eu não era o único. Quando deixávamos ligado durante as noites sem dormir, eu via os ombros do meu vizinho de beliche subindo e descendo debaixo do cobertor fino enquanto ele fungava. Às vezes eu me pegava na mesma, encarando a folha que consegui pegar. A base dela subia até um topo fragmentado, as veias se esticando, sem conseguir sustentar nada.

Uma noite, eu tinha conseguido me ajeitar o suficiente pra quase cair no sono, mas o rádio chamou minha atenção. Ficou mais e mais claro com o tempo, tirando qualquer chance de dormir. Derrotado, desci a escada do beliche até a mesinha do centro. Ninguém parecia notar meus movimentos.

Embora tivesse clareado, a voz ainda chegava mal, mas era melhor que a maioria das noites de chiado incoerente do vento correndo. Girei o botão com cuidado.

“…mapeamento de toda a catástrofe… para o nosso entendi…”

O chiado cortou a fala dele. Parecia um pesquisador lá em cima. As palavras eram formais, ditas em voz alta tentando vencer o vento. Girei o botão de novo.

“…com nossos pontos de dados das equipes perdidas no marco zero, conseguimos mapear o formato da zona de impa… os pontos no mapa formam a imagem de um…”

Uma o quê? Tentei sintonizar melhor, mas o chiado não sumia. Depois de um tempo, o sinal clareou de novo.

“…asualties chegam aos milhares!”

“Merda!”

Ele já tinha passado adiante, e ouvindo mais, não explicou o que era aquilo. Afundei na cadeira rangente com os braços cruzados. O mundo acabou e a gente nem sabia o que causou.

“…torres de satélite recém-construídas voltaram com informações sobre o nascer e o pôr do sol esperados da Terra por área…”

Como isso ia ajudar? Virei na cadeira pra voltar pro beliche, mas a voz do pesquisador continuou, me parando.

“…nascer e pôr do sol não fazem mais parte da nossa transmissão porque os dados de telemetria mostram que a rotação axial parou completamente…”

Meu coração deu um pulo. A Terra parou de girar? Alguém mais tinha ouvido isso? Por que não descobriram antes? Isso com certeza tinha a ver com a tal zona de impacto, né? Era um meteoro? Outro planeta? A Lua?

“O sol não vai se m… da posição atual no céu! Fiquem dentro de casa nes… ti…”

O rádio perdeu o sinal de vez. Sentei de novo na cadeira, atônito. O teto pingava no meu rosto enquanto eu olhava pra cima. Eu queria mais que tudo voltar pra casa e ver as cores das folhas mudando. Queria voltar. Quando isso tudo acabasse, eu poderia voltar. Talvez quando nos dessem uma boa notícia, todo mundo pudesse voltar. Um frenesi subiu do meu estômago pros braços. Eu precisava saber mais. Estiquei a mão pro botão e girei rápido. O dial correu entre canais, parando num onde peguei sinal.

Não era o mesmo canal de antes. Esse estava muito mais claro. Uma voz grave e confiante falou pelo rádio, o chiado sumindo.

“…isso foi predito por gerações. Nossa hora chegou. Todos os fiéis a quem falo, não fraquejem, pois os medrosos são os pecadores. O tufão furioso da ira de Deus vai cessar. Não se enganem, pois Deus destruiu Sodoma e Gomorra pelos seus pecados, e hoje vemos a mão Dele. Esta estação, a estação da queda, tem esse nome por um motivo. Não estamos caídos? Fomos devolvidos ao pó da Terra, como Adão, e vamos nos erguer com um conhecimento mais alto e mais santo.”

“Que porra é essa?”, sussurrei.

“Precisamos ter fé, pois a mão de Deus está sobre nós! Ele veio buscar os fiéis para ficarem à Sua direita! A mão de Deus está sobre nós!”

Girei o dial mais uma vez; precisava do pesquisador de volta, não desse fanático. Mas esse era o único canal que pegava alguma coisa. Voltei pro chiado gritante do canal do pesquisador, a voz dele agora afogada no ruído.

“…zona de impacto… aproximadamente três milhas da estação de transmissão… localizada em… torre de rádio foi danifica… repito, estamos localizados em Dallas, Texas…”

Dallas? A gente tava perto. Senti a folha no bolso, lembrando das palavras do fanático. Eu tinha que ir ver. Se era manhã quando entramos, seria manhã quando eu saísse.

As portas do bunker rasparam no chão pavimentado e rachado, enganchando num pedaço de asfalto levantado. Me espremi entre as placas de metal.

O ar lá fora estava completamente parado, e o céu da manhã confirmou minha teoria. Tudo igual a quando entrei. Nada habitava o ar, nem a menor partícula de poeira. Olhei pro chão. Nem as pilhas de folhas se mexiam. Enquanto meus olhos vagavam, tive o lembrete infeliz de um cadáver completamente destroçado à minha esquerda. Quem quer que tivesse sido, já se foi há um tempo, comprovado pela cor mais escura do sangue. Não parecia estar com dor, porém. Parecia mais… derrotado — finalmente permitido descansar da catástrofe. O cabelo preto do cadáver não se mexia. Fiquei ali um instante antes de voltar a atenção pro ar ao meu redor mais uma vez.

Se o vento parou, ou melhor, se o ar ficou completamente imóvel, por que o sinal do pesquisador era tão ruim? Virei pra subir a colina onde o bunker foi cavado. Ao chegar no topo, me deparei com um pedaço de antena retorcida e quebrada. Toda a estrutura da torre de rádio tinha desabado sobre si mesma com o vento extremo. Apesar do cadáver da minha linha de vida com o mundo exterior estar aos meus pés, minha atenção virou bruscamente pro horizonte com o novo ponto de vista.

O sol ardente pairava logo acima do horizonte a leste, iluminando perfeitamente o contorno da Terra externa, mas com a forma humana do objeto de impacto. Uma mão gigantesca que esticava os dedos até cada extremidade do horizonte agarrava o solo com força incrível. Não se mexia, assim como o rescaldo da catástrofe que causou. Segui o contorno da ponta do indicador, subindo pelo dorso da mão e pelo braço que se esticava pro céu, tudo coberto por camadas cada vez mais densas de atmosfera.

Fiquei ali, pregado no lugar. Tirei a folha do bolso, dei uma última olhada nela antes de deixar cair. Não balançou nem rodopiou no ar. Não, caiu como peso morto. Direto pra baixo, na grama moribunda.

Meu crime de carnaval me condenou a rimar

Parece que tô fingindo, né? Por um crime tão pequeno assim. Aquele carnaval me mudou pra sempre, e agora só consigo rimar. Queria nunca ter ido naquele dia, que tivesse ficado em casa, quietinho. Mas agora que o meu destino tá selado, escrevo nesse tom novo.

O carnaval tava rolando na minha cidade, achei que ia ser divertido. Uns shows legais, comida porcaria aos montes. Sentei lá dentro da tenda e vi tudo acontecer. Paguei meus vinte dólares e não saí correndo.

Quando acabou, a galera foi saindo, rindo alto. O mestre de cerimônias tirou o chapéu e deu aquele olhar ensaiado. Agradeceu todo mundo por ter vindo, depois sumiu atrás da cortina. A tenda pareceu menor sem ele, mais escura, meio doente, pálida.

Fiquei ali onde a cortina se abria, só pra dar uma espiada nos bastidores. Só lona, cordas e formas sombrias balançando devagar. Uma voz atrás de mim sussurrou: “Senhor, a saída é à direita.” Fiz que sim com a cabeça, mas meus pés me traíram e me levaram pra noite.

Do lado de fora das tendas, o ar tava parado, os brinquedos não giravam mais. Uma névoa rastejou pelo gramado e escondeu o sol que tava se pondo. As barraquinhas de jogos pareciam dentes tortos, os prêmios rasgados e cinzentos. Um teatro de marionetes ainda cochichava falas, mas ninguém tava assistindo.

As marionetes se mexiam nas cordas emboladas, bocas pintadas escancaradas. Elas se curvavam diante de uma forma sombria que esperava perto do bar. Achei que era alguém, um funcionário esquecido. Mas quando virou, juro que vi: não tinha olhos humanos.

A forma preta subiu como fumaça, o rosto escuro como a noite. Só dois olhos furando o vazio, e um sorriso brilhante. Aqueles olhos cravaram na minha alma e fizeram meu coração desabar. Tudo que eu queria dali pra frente era estar bem longe.

Ele falou, ou talvez cantou, um zumbido grave e fundo. As palavras deslizaram pela borda da minha razão e se enterraram como sono. Disse meu nome em tons quebrados, depois riu, como se fosse piada. E das trevas, o mestre de cerimônias surgiu de colete vermelho.

“Você viu a parte do nosso show que não é pra humanos. Deu um passo além da cortina. E não vai voltar atrás.” Antes que eu me virasse, as cordas foram jogadas, as bonecas começaram a subir. Rostos sorridentes sussurrando baixo, me enrolaram na linha.

Me arrastaram pra uma tenda mais longe e me prenderam num carrinho. Ele ficava num trilho, de onde eu ia partir.

Gritei, berrei, me soltem, por favor! Mas meus gritos eles ignoraram. O mestre de cerimônias apareceu e soltou o discurso ensaiado.

“Você viu o que não devia. Não dá pra te deixar ir embora. Mas o quão pesado vai ser o castigo, só você vai descobrir. Vai jogar um jogo, talvez dois ou mais. Seu sucesso em cada um decide o que te espera. Então vem, o primeiro já tá chegando, hora de ver onde seu futuro vai parar.”

O carrinho disparou na escuridão, chiando e parando devagar. O holofote iluminou meu trem improvisado, revelando a tarefa, o primeiro jogo de habilidade. Pra piorar, uma multidão de seres apareceu, assistindo à minha maldição.

Na minha frente, bem alinhadas, dezenas de cabeças flutuando em potes. Cada uma acordada num líquido verde, me olhando de longe. Os olhos, distorcidos pelo vidro curvo, mostravam pena que eu sentia. Como se, se eu errasse, logo eu fosse o próximo. “Você tem três bolas pra jogar. Acerta uma dentro de um pote. É a sua vida que tá em jogo se não der o par.”

Mão tremendo, peguei a primeira. Fiz uma prece silenciosa. Levantei o braço e joguei, a bola voou pelo ar. Caiu na borda grossa de um pote e quicou pro escuro. Mais duas chances pra salvar minha vida. Tinha que acertar.

As caras nos potes viraram, as bocas começaram a zumbir. Um coral oco de bolhas que deixou meus dedos dormentes. Joguei com a mão trêmula, desviou, curvou torto. Bateu na tampa, rolou pelo lado e sumiu da minha vista. O mestre de cerimônias abriu os braços e disse: “Uma chance, lá vai.” A bola final parecia mais pesada, como se soubesse do meu crime. Sussurrei: “Deus, faz cair” e joguei pela última vez.

Ela arqueou no ar parado, ficou suspensa um segundo. Depois caiu dentro de um pote esperando. A multidão pulou de pé. Um grito ecoou, metade alegria, metade dor, pelo breu. As cabeças piscaram, afundaram devagar, cada uma sumindo no túmulo.

O mestre de cerimônias tirou o chapéu e se curvou com orgulho ensaiado. “Parabéns”, disse, “você vive por enquanto. Mas tem mais que tentaram.” Estalou a bengala, o carrinho deu um solavanco e sumiu pelo trilho. As risadas me seguiram na escuridão, me desafiando a não olhar pra trás.

“Você ganhou a vida, deve tá feliz, mas agora vamos ver se vai sair daqui com a sanidade.”

O jogo seguinte apareceu, meu ânimo caiu. Era aquele clássico do martelo e do sino.

“Se quiser manter a cabeça no lugar, escuta agora. Isso eu não repito. Pra cada centímetro que faltar, sua sanidade vai junto. Bate com força e não vacila, só tem uma tentativa. Pega o martelo e soca naquele ponto!”

Peguei o martelo, senti um choque. Como se a ferramenta nas minhas mãos estivesse me avaliando em silêncio. Minha mente ficou enevoada, controlei, e bati com tudo. Mantive o foco afiado na luz subindo.

Perdi o sino por um centímetro, mas achei que tinha ido bem. Mas senti vagamente a mudança, minha lucidez caiu. Só um pouquinho, não dá pra reclamar. Com um suspiro, segui pro jogo final.

“Você se saiu bem, te digo. O pior já passou. Mas pelo seu grave deslize, vai ter consequência. Ainda tá vivo, mente sã, pode achar que vai contar nosso segredo pro mundo e nos ferrar todos. Então algo temos que fazer, e você escolhe qual. Gira a roda ali na frente. Vamos acabar sem problema.”

A roda de madeira na minha frente, pintada e iluminada, cada espaço com uma maldição, uma bebida que eu ia ter que tomar. Olhei as opções e tremi de medo. Perderia a língua, os ouvidos, ou quem sabe a visão?

As escolhas eram horríveis, mas não tinha jeito. Pus a mão na roda e girei até rodar. Vocês sabem o que aconteceu depois, qual foi o meu destino. Mas comparado com as opções da roda, esse me aliviou.

“Você sobreviveu ao teste, com quase nada. Mas ninguém vai acreditar em você falando assim. Então se acha sortudo que só rima agora. Mas mais uma coisa: você trabalha aqui. Seu primeiro turno começa às nove.”

Então se encontrar o carnaval, fuja a todo custo. Quem vê o ato final nunca mais conta os perdidos.

domingo, 9 de novembro de 2025

Eu Fui Atingido por um Raio. Agora Eu Vejo o Que Se Esconde Acima de Nós...

Muitos que se depararem com essas palavras vão duvidar delas. Alguns vão descartar meu relato como o delírio de uma mente instável; outros podem até achar graça nas minhas confissões, e para esses, eu não ofereço protesto nenhum. Meu propósito não é convencer os céticos, nem implorar crença aos indiferentes. Eu escrevo na frágil esperança de que alguém — alguma alma solitária familiarizada com as camadas mais sombrias da existência — possa discernir no meu testemunho um padrão conhecido, e talvez oferecer ajuda, embora eu tema que tal ajuda não esteja mais ao alcance dos mortais.

Antes de tudo, eu preciso refutar a acusação fácil de loucura. Eu sei o que é loucura; eu a vislumbrei de tão perto que posso sentir sua respiração nos meus pensamentos, mas eu não me rendi a ela. Minha mente ainda é minha — abalada, sim, mas intacta. E porque eu preciso provar isso para mim mesmo tanto quanto para qualquer leitor, eu devo refazer o caminho espectral que me trouxe até aqui: passo a passo, de volta ao dia que rasgou o véu do mundo oculto.

Aquele dia — destinado a marcar o nascimento da minha nova vida — se tornou, em vez disso, o início da minha ruína. Foi quando as comportas se abriram, e tudo o que deveria permanecer invisível jorrou para fora. Daquela hora em diante, eu vivi à sombra de abominações vastas demais, obscenas demais, para terem sido concebidas pelo pensamento humano.

Há duas semanas, tudo começou — o dia que deveria ser de renascimento para mim e minha esposa. O dia do nosso casamento. Embora a união fosse, em essência, um laço legal, o significado desse fato pouco diminuía o peso extraordinário do dia. Era o dia em que começaríamos a viver juntos sem restrições, o dia que me permitia obter um titre de séjour e permanecer na França com ela.

Por mais de seis meses, nós tínhamos trabalhado à sombra da burocracia, viajando para lá e para cá em busca dos papéis necessários. E assim, no dia em si, nós pretendíamos não apenas prosseguir, mas saborear, esticar cada momento até a eternidade.

O sol nasceu, derramando sua luz dourada e dura sobre o mundo como se marcasse nossa união com aprovação cósmica. Minha esposa tinha se esforçado no nosso bolo de casamento, enquanto eu tinha me dedicado à refeição no dia anterior. Naquela manhã, tudo o que restava eram os toques finais no bolo — uma tarefa que ela assumiu com mãos que tremiam como asas frágeis.

Eu, enquanto isso, estava paralisado em uma névoa curiosa de distração. A realidade monumental do dia — o casamento em si — ainda não tinha penetrado o casulo de estresse e medo que me envolvia. Minha esposa, por outro lado, estava visivelmente ansiosa. Cada respiração balançava seu peito; seus dedos vacilavam enquanto traçavam palavras no bolo; e minúsculas gotas de suor se formavam contra sua pele apesar do ar fresco de outono, a dez graus. Sua beleza, radiante e inegável, não disfarçava o tremor no cerne do seu ser. Por um instante fugaz, eu senti uma pontada de ansiedade secundária — um eco do medo dela —, mas passou. Minha mente, sempre um santuário de dever, se recuperou, e eu me curvei mais uma vez às obrigações do dia, como se minhas mãos cuidadosas pudessem moldar não só o bolo, mas a realidade em si.

Nós tínhamos combinado revelar nossas roupas só no momento certo. Eu me preparei na solidão da casa do tio dela, enquanto ela se vestia sob o olhar atento da mãe. Raramente eu usava terno, e a estranha elegância da roupa pressionava contra mim com um peso desconhecido. Ainda assim, eu me vesti com cuidado meticuloso, arrumando a gravata sob o colarinho, alisando cada ruga, colocando o alfinete com sua gema preta e a flor azul-celeste na jaqueta como se realizasse um ritual. Por um breve e inebriante momento, eu acreditei que o terno me transformara, e com ele, o dia em si se tornava palpável, quase real.

Na prefeitura, os papéis oficiais aguardavam nossas assinaturas. Meus olhos caíram primeiro sobre ela, e naquele instante, o mundo se estreitou para a gravidade singular da presença dela. Eu senti meu amor por ela se reacender com a força súbita e inexorável de uma maré invisível. E no olhar dela, amplo de admiração, eu reconheci a mesma devoção renovada refletida de volta para mim — uma conexão frágil e luminosa em meio à maquinaria comum do procedimento civil. Ainda assim, sob aquela clareza luminosa, eu senti o tremor mais fraco de algo além da compreensão, uma sombra que pairava na periferia da percepção, sussurrando que o que começava hoje poderia não permanecer seguramente nos limites do entendimento humano.

Ela usava um vestido branco longo que parecia tecido da própria respiração do inverno. O tecido não ocultava sua forma, mas a revelava com graça digna — pronunciando sua silhueta sem transgressão. Uma única fenda no joelho permitia o movimento, enquanto sobre seus ombros repousava um casaco de pele imaculada, branco como as neves de alguma costa ártica esquecida. A pureza da roupa dela fazia sua palidez parecer quase espectral, e o leve rubor nos lábios e bochechas dava a impressão de calor se agarrando precariamente a algo divino demais, frágil demais, para ser mortal.

O casamento em si passou com uma brevidade desconcertante. Seis meses de turbulência, de trabalho incessante e esperança ansiosa, condensados em mal vinte minutos de assinaturas e cerimônia. Então estávamos livres — livres para rir, tirar fotos, imaginar nossas vidas começando de novo. Foi o dia mais feliz da minha vida. Foi também, embora eu não soubesse na época, o último dia da minha existência anterior.

Naquela noite, celebramos muito depois que o sol fugiu. Abrimos presentes, compartilhamos vinho e nos demoramos em uma alegria que parecia infinita. Quando por fim a hora ficou estranha e insone, decidimos caminhar juntos — um simples passeio pela floresta não longe da casa, para ficarmos sozinhos em meio ao sussurro úmido do outono.

A lua nos guiava, banhando o caminho em seu brilho prateado. O vestido dela captava a luz e cintilava com um brilho quase doloroso de se ver. Caminhávamos de mãos dadas, silenciosos na maior parte do tempo, nossos olhares dizendo o que as palavras não podiam. Mesmo agora — depois de tudo o que se seguiu —, meu amor por ela permanece a única brasa pura nas cinzas do meu ser.

A noite era nossa, mas o tempo tinha outras intenções. Sem aviso, o vento ficou cortante, e os céus começaram a murmurar. Nós rimos da intrusão da chuva, tolos acreditando que éramos invencíveis a inconvenientes mortais assim. Nós até nos beijamos debaixo do aguaceiro, como atores em uma cena sentimental demais para a vida, mas perfeita demais para resistir. Como fomos ingênuos em acreditar que a tempestade era uma coisa simples da natureza.

Eu trocaria toda memória daquele beijo para desfazer o que veio depois. A retrospectiva marca toda alegria com deboche. Pelos horrores que se revelaram desde então — nascidos daquela única indulgência impensada debaixo da tempestade —, nenhum prazer terreno poderia compensar.

Ela riu então, e sua risada, brilhante e inocente, ecoou contra as árvores. Eu me lembro de envolver sua cintura, sua breve resistência, a torção brincalhona que quebrou minha pegada. Ela recuou, olhos vivos de travessura. Sua saia erguida na mão; gotas escorrendo do cabelo para a bochecha, traçando seu sorriso antes de cair na terra. Por um instante, o tempo em si pareceu suspenso — um quadro de alegria emoldurado pelo murmúrio escuro.

Então, com um passo à frente, o mundo explodiu em luz. Os céus se partiram. Ela sumiu na brancura — devorada pela radiância —, e eu fui lançado em um abismo tão profundo que a luz em si se tornou uma memória alienígena.

Quando despertei pela primeira vez, fui recebido mais uma vez por aquela luz cegante — embora dessa vez ela não sumisse, mas diminuísse gradualmente, como se os céus em si se cansassem de seu brilho. O rosto da minha esposa surgiu acima de mim, sua beleza desfigurada pela angústia. A maquiagem nas bochechas carregava os traços fracos e brilhantes de lágrimas há muito derramadas, e quando ela falou, sua voz tremia com uma dor que parecia mais velha que seus anos. Eu me lembro do calor das lágrimas dela encharcando a camisola que me cobria.

Um médico logo chegou, um homem grave que, com solenidade ensaiada, me informou que eu tinha sido atingido por um raio. Ele falou de queimaduras e milagres, de sorte tanto cruel quanto divina. “O homem mais sortudo e azarado que já vi”, ele disse. Ah, se ele soubesse como suas palavras eram pitifulmente rasas ao lado do abismo que me aguardava.

Meu primeiro encontro com o profano aconteceu naquela mesma sala, sob o zumbido estéril das luzes do hospital. O horário de visitas tinha terminado, e minha amada tinha partido, prometendo voltar com o amanhecer. Eu jazia meio virado para a parede, minha mente vagando por corredores escuros de pensamento. A tinta branca à minha frente se dissolveu, e em seu lugar eu vi apenas a teia do meu próprio delírio — algum vasto padrão trêmulo tecido por uma aranha invisível equilibrada na beira da loucura.

Quando retornei daquele devaneio e deixei meus olhos caírem sobre a porta, algo mudou no ar. A aranha invisível escorregou — ou foi empurrada — de sua frágil posição, e naquele instante, minha mente parou toda tecelagem. Eu a vi.

Mesmo agora, a memória me enoja. Chamá-la de monstro é fazer deboche da palavra. Nenhuma linguagem, por mais antiga, pode capturar a blasfêmia daquela forma. Ela entrou pela porta como um adulto se curvando para entrar na casinha de brinquedo de uma criança, vasta e disforme, sua pele convulsionando com movimentos insalubres. A cor de sua carne era de um tom negado à humanidade — sujo, antigo, e ainda assim diferente de qualquer corrupção da terra. Ela rastejava, cambaleava e deslizava por turnos, seus incontáveis membros servindo nem graça nem propósito. Até a textura de sua superfície parecia violar as leis da matéria.

Ela flutuou pela sala, se curvando, tateando, demorando perto de mim. Eu prendi a respiração no peito, me forçando ao silêncio, rezando para que minha própria existência escapasse à sua atenção. Seus olhos — aquelas deformidades tortas e luminosas — passaram por mim repetidas vezes, mas pareciam ver algo além de mim, algo terrível e invisível.

Por fim, ela se retirou, se espremendo mais uma vez pela porta como vapor por uma fresta estreita. E então — ó céus misericordiosos! — enquanto saía para o corredor, a médica entrou. Ela passou através da monstruosidade como se fosse ar, sua figura intersectando o quadro impossível, inconsciente, intocada. Ela sorriu para mim, mas a visão do rosto dela contra aquela silhueta persistente congelou minhas veias.

Eu não disse nada do que vi. Meu horror ela confundiu com dor, e embora sua compaixão fosse genuína, minha língua estava presa por uma paralisia que palavras nunca poderiam romper. Pois mesmo se eu falasse, que sílabas poderiam transmitir aquilo que blasfema contra toda compreensão mortal? Então eu sorri fracamente, e sussurrei que tudo estava bem — embora minha mente já tivesse vislumbrado um mundo no qual nada jamais poderia estar.

Depois da partida da médica e do eco suave de seus passos se dissipando pelo corredor, eu fui deixado sozinho mais uma vez. Meus pensamentos, desguardados, retornaram àquela visita inominável. Por uma hora, minha mente trabalhou sob sua imagem, como se o ar ao meu redor ainda retivesse o contorno de sua forma. Eu contemplei aquela silhueta obscena até que sua memória começasse a se borrar — não por escolha, mas pela vontade misericordiosa de uma mente buscando refúgio de sua própria consciência. Há terrores tão vastos que o cérebro, em pura defesa, os dobra para a escuridão. Então eu a enterrei fundo, a nomeei delírio, e me convenci de que a sanidade nunca me deixara. Eu só queria que tivesse ficado enterrada.

Não muito depois de eu ter me acalmado com esse raciocínio frágil, minha esposa chegou para me levar para casa. Eu me lembro da alegria dela — o alívio trêmulo que suavizava seu rosto ao me ver de pé e respirando. Ela me abraçou forte; seu cheiro, quente e familiar, dissipou por um momento todos os fantasmas dos meus pensamentos. Ela acreditava, pobre alma, que tudo estava bem de novo. E eu também, intoxicado pela esperança dela, comecei a acreditar que a vida poderia continuar inquebrada. Como essa memória parece pitiful agora — como ver a luz do sol no convés de um navio afundando.

Saímos do hospital de mãos dadas, nossos passos ecoando fracamente pelos azulejos estéreis. A conversa veio fácil até passarmos pela sala de espera. Lá, minhas palavras morreram na garganta. O mundo à minha frente mudou. As cadeiras, os pacientes, a estação das enfermeiras — tudo se derreteu em uma cena tão profana que a mente mal conseguia reconciliar as duas realidades.

A sala de espera tinha se tornado uma câmara escura e pulsante — suas paredes respirando, brilhando com uma umidade que parecia exalar desespero. Uma colônia de moscas monstruosas, inchadas e fundidas, se contorcia em um canto como uma ferida infectada da criação. Algo vasto e invisível pressionava ao longo do teto, produzindo um som lento e úmido de estalos que parecia rastejar atrás dos meus olhos. E perto da porta — Deus, perto da porta — pairava a mesma abominação que eu vira no meu quarto, seus olhos tortos varrendo o chão como se procurassem o esquecido.

A voz da minha esposa me alcançou através de uma névoa, gentil mas distante. Eu não conseguia responder. Eu me lembro da pegada dela apertando no meu braço, suas palavras ficando urgentes, mas eu só conseguia olhar, congelado entre o real e o impossível. Quando por fim saímos, o mundo não se limpou daquela corrupção. Eles estavam por toda parte — espalhados como detritos de alguma catástrofe invisível, atravessando pessoas, flutuando através de paredes, deslizando entre árvores e luzes de postes.

Na viagem de carro para casa, a estrada se desenrolava como um rio negro sob as rodas, e eu tentava me dizer que era loucura — que minha mente não sobrevivera ao raio incólume. Ainda assim, mesmo enquanto pensava isso, um tamborilar rítmico começou no meu crânio. Não era só dor, mas um cadência — um pulso deliberado e alienígena, ressoando de alguma dimensão adjacente ao pensamento em si. Com cada batida, minha visão tremia, e eu sentia como se algo além do véu estivesse chamando — não para os meus ouvidos, mas para os meus nervos.

Eu fechei os olhos, esperando que a escuridão trouxesse silêncio. Não trouxe. O ritmo só ficava mais forte, como se em resposta.

Passei os primeiros dias em casa em uma calma inquieta. Eu tive sorte de não vislumbrar nenhum deles dentro ou ao redor da minha morada, mas sua ausência não era conforto. Ausência, afinal, pode ser só disfarce. A própria quietude do ar parecia carregada com uma presença à espera, como se as paredes em si soubessem o que mantinham do lado de fora. Aquele "e se" insistente crescia dentro de mim como uma febre. Mesmo agora, enquanto escrevo isso, eu não os vi aqui — mas sinto que o tempo está chegando quando isso vai mudar, e você logo vai entender por quê.

Minha esposa, com uma paciência nascida do amor, observou meu terror quieto no primeiro dia. Ela acreditava que eu me desabafaria com o tempo, como sempre fizera. Mas esse medo estava além da fala, pois palavras não podiam confinar o que eu vira. Quando por fim ela tocou no assunto, eu desabei diante dela e chorei como um homem condenado. Eu falei da visão — não tão claro quanto queria, mas o suficiente para ela espiar na névoa da minha loucura. Ela me segurou, tremendo, mas sem medo.

Ela não zombou nem duvidou. Em vez disso, raciocinou gentilmente, como alguém confortando uma criança depois de um pesadelo. Sua calma me deu uma coragem frágil, e sua crença de que eu poderia suportar essas visões me manteve amarrado à vida. As criaturas, eu disse a ela, nunca me tocaram. Elas atravessavam a matéria, alheias à minha presença. Talvez elas não pudessem nos perceber — ou talvez simplesmente não se importassem. O último pensamento me gelava mais fundo que qualquer malícia poderia.

Nos dias que se seguiram, comecei a recuperar algum resquício de existência. Comecei observando da minha janela. A cidade abaixo parecia inalterada, mas entre suas ruas e telhados rastejavam aquelas formas impossíveis. Cada uma uma heresia separada da criação — torcidas, inchadas, pitifulmente malformadas. Membros brotavam onde a lógica os proibia, rostos colapsavam em dobras de carne indistinguível, olhos fitavam em direções sem sentido. Uma zombaria da vida, obscena em sua falta de propósito. Se eu fosse o criador delas, eu também as esconderia da luz.

Quando finalmente resolvi sair de casa, o ato pareceu uma blasfêmia. Eu me lembro do peso do ar contra o meu corpo, grosso e viscoso, como se eu me movesse através de um pântano invisível. Cada passo era uma ofensa contra algum decreto invisível. Ainda assim, eu fui — para um pequeno mercado não longe de casa, para comprar algo trivial, uma bebida, uma prova de vida comum.

A rua parecia onírica, cada som distante e atrasado. Nenhum dos seres me reconheceu. Eles vagavam em sua procissão vazia, desatentos, como se engajados em alguma missão superior de entropia. E então a luz acima de mim escureceu.

Uma vasta sombra rolou pelo pavimento. Eu olhei para cima — e a vi.

Era como uma baleia, mas não uma baleia. Uma quimera monstruosa de baleia, água-viva e arraia, seus órgãos translúcidos drapejados como fitas de seda apodrecida. Ela flutuava pelos céus com o silêncio de um deus antigo, arrastando icor negro que chiava ao cair pelo ar. Sua presença poluía o próprio azul do céu. Era magnífica e repugnante, uma catedral de decadência à deriva no firmamento.

Minha tarefa foi curta — misericordiosamente curta. Voltei com mãos trêmulas, mas ileso. Os monstros, em seu desinteresse terrível, me deixaram em paz. Minha esposa se alegrou com o meu sucesso. Sua alegria encheu a casa com um calor que eu quase esquecera, e por um momento, eu acreditei. Acreditei que talvez pudesse viver com essa loucura, desde que ela não se aproximasse. Ah, como essas esperanças parecem tolas agora.

Dias depois, ela me incentivou a visitar a biblioteca — meu antigo refúgio. Ela achava que, ao retornar aos meus hábitos antigos, eu poderia retornar a mim mesmo. E assim eu concordei. Passei aquela noite me preparando, convencendo meu coração de que o conhecimento poderia me proteger.

Mas no fundo, outra parte de mim se agitava — a parte que sentira aquele tamborilar rítmico no crânio —, sussurrando que o que eu buscava nos livros já começara a me buscar.

A distância entre a biblioteca e minha casa era mais ou menos o dobro da minha primeira saída ao minimercado — uma medida pequena pela razão, mas no terror, parecia atravessar mundos. Era, em todos os sentidos, um passo duas vezes maior, duas vezes mais perigoso e duas vezes mais fatal que o primeiro.

Eu parti com a mente preparada para revelações — para visões que não tinham direito de existir na imaginação do Criador. E enquanto caminhava, me ocorreu que tais criaturas nunca foram destinadas a serem encontradas. Talvez elas tivessem sido seladas em alguma camada oculta da realidade — um cofre para a vida rejeitada. O raio, pensei, tinha rasgado algum caminho dormente na minha mente, despertando um sentido proibido à humanidade. Através dessa falha na percepção, eu agora espiava aquela dimensão arruinada — e testemunhava o que o universo tentara esquecer.

A caminhada passou sem dano, embora não sem horror. Cada passo adiante me trazia mais perto da compreensão, e a compreensão, aprendi, é sua própria danação. Minha mente começou a captar a lógica obscena dessas coisas, a analisar sua forma e hábito. Mas essa curiosidade, esse olhar irreverente, colocaria em movimento a cadeia de eventos que me condenou a este quarto — esta mão trêmula, estes olhos injetados. Mesmo agora, enquanto escrevo, sinto o frio daquele momento nos meus ossos.

Começou quando eu retornava para casa. As ruas fervilhavam de anatomias profanas — as malformadas, as inchadas, as inacabadas. Figuras como Nefilins gigantes se espremiam entre prédios, sua carne ramificando em arquiteturas impossíveis. Ao redor delas rastejavam quimeras, criaturas montadas do refugo de outras coisas vivas. Seus corpos carregavam olhos sobre olhos, mil pupilas mutantes que fitavam em nenhuma direção comum, cada uma um fragmento de uma mente descoordenada.

Eu quase chegara à minha porta quando fui notado. Tolo que fui, demorei para estudá-las — para testar se elas realmente me viam. Eu deveria ter desviado o olhar. Deveria ter baixado a cabeça e entrado. Mas não o fiz. Fiquei lá, e olhei. E então aconteceu.

Do outro lado da rua, uma delas se mexeu. Era menor que as outras, mas não menos obscena — seu crânio circundado por olhos de tamanhos e tons diferentes, uma coroa de visão. Por um momento, enfrentou os céus, reflexiva e imóvel. Então, com uma precisão nauseante, cada um de seus olhos se virou para mim.

Todos eles.
De uma vez.

A sensação não era medo como os humanos conhecem. Era uma violação total do ser — como se uma vasta inteligência fria tivesse se pressionado contra minha alma. Minha espinha se arqueou, meus membros convulsionaram. Não houve grito, pois a linguagem em si me desertou. Eu fugi, chave já na mão, tropeçando na porta com a graça desesperada de uma presa escapando de um deus.

Aquele momento se repete sem fim na minha mente. Eu vejo aqueles olhos sempre que fecho os meus, brilhando através da escuridão como sóis moribundos. Até então, eles me ignoravam — contentes em vagar seu purgatório secreto invisíveis. Mas meu olhar, minha fome de entender, rompera aquele véu sagrado.

Minha esposa e eu falamos pouco naquela noite. Ela chorou ao meu lado enquanto eu contava o que acontecera, e juntos chegamos à única conclusão possível: era meu escrutínio — minha necessidade de saber — que convidara sua atenção.

E desde então, o ar ao redor da nossa casa parece habitado. Há momentos, tarde da noite, quando sinto seus olhos nas janelas, procurando — pacientes, persistentes e horrivelmente familiares.

Eu nunca fui alguém feito de tecido fraco, e embora tivesse enfrentado horrores que zombavam da criação em si, ainda me agarrava à convicção de que viver era possível. Mas agora eu entendia: eles não eram cegos para nós. Eles sempre souberam da nossa existência — o que ignoravam era nossa ignorância.

Eles nunca pareciam capazes de interagir com a matéria. Deslizavam através de paredes, escalavam prédios e passavam uns pelos outros como se as leis da natureza os rejeitassem. Essa ilusão de distância me concedia uma coragem oca. Se não podiam tocar, não podiam ferir. Para sobreviver, eu simplesmente teria que ignorá-los completamente — andar como se fossem nada, e nunca mais permitir que meus olhos vagassem para o lado deles.

Então planejei outra saída, dessa vez para o minimercado mais uma vez. Eu não estava pronto para uma jornada mais longa.

Parecia absurdo, quase cômico, arriscar minha alma por uma garrafa de refrigerante. Ainda assim, eu fui. Meu olhar fixo no pavimento, vendo só o movimento dos meus próprios pés. As periferias da visão churnavam com movimento — silhuetas impossíveis convulsionando em silêncio. Eu caminhava com um andar trêmulo e desarticulado, cada passo uma defiance do instinto que implorava para eu fugir. O ar frio do outono pressionava sobre mim como um peso de ferro. Pensamentos se tornaram meu único refúgio; forcei minha mente a ficar em trivialidades, qualquer coisa menos o pageant obsceno se contorcendo logo além da visão. Algo vasto balançou à minha esquerda. Algo vicioso borbulhava à direita. Eu não olhei.

O minimercado, abençoado, estava vazio daquelas aparições. Dentro, a luz fluorescente parecia quase sagrada em sua normalidade. Eu exalei e ergui os olhos. A vendedora me olhou com aquele desinteresse opaco peculiar aos vivos, e por um momento, acreditei estar seguro de novo. Comprei minha bebida e saí.

Eu devo ter esquecido. Talvez quisesse me sentir humano de novo, ver o mundo em vez do chão. Qualquer que fosse o motivo, ergui o olhar — e congelei. Do outro lado da rua, a coroada esperava. A mesma entidade. A mesma coroa impossível de olhos.

Eles se fixaram em mim. Cada um deles.

Uma sensação me inundou que a palavra pavor não pode conter. Meus nervos se tornaram cordas de fogo. Meus ossos pareciam ocos. Eu sabia — de algum jeito — que ela me reconhecia, que meu terror existia vividamente na mente dela. Forcei meu olhar para baixo e comecei o retorno.

Eu me concentrei no movimento — no ritmo. Esquerda, direita, esquerda, direita, es—
Algo estava errado. O mundo parara. Sem movimento, sem som. O ar estava coagulado. Mesmo com os olhos no chão, eu os sentia... todos eles. Seus olhares pressionavam contra mim como calor de um forno invisível. Eu sussurrei para mim mesmo — Quase em casa, só continue andando. Eles não podem te tocar. Eles não podem te tocar.

Então algo roçou minhas costas.

Era duro. Grosso. Flexível. Como uma mão feita de cabelo.

Eu corri. Não me lembro das ruas, nem da porta, só do som do meu pulso devorando todo o resto. Tranquei-me dentro, sem fôlego, tremendo. Não saí desde então. Eles me viram agora. Eles me tocaram.

E eu temo que, mesmo se eu parar de vê-los, eles ainda me verão.
Pois como alguém se desfaz da memória de um Deus?

Algo Estava Batendo Debaixo do Meu Barco

A gente passava a maior parte dos verões na casa de praia da minha avó, no lago. Ela vivia pedindo pra gente ir mais vezes desde que o vovô morreu no ano anterior, mas era foda pros meus pais tirarem folga do trampo por mais de um dia ou dois de cada vez. A semana que a gente passava na casa dos avós era a única férias de verdade que qualquer um de nós tinha no ano inteiro.

Minha parte favorita daqueles verões era quando o vovô me levava no barco à noite. Eu amava o jeito que a água ficava no escuro, e a gente sempre pegava um monte doido de bagre. O melhor, porém, era o silêncio.

Eu não tinha permissão pra tirar o barco sozinho, como se eu conseguisse.

Uma noite, depois de passar o dia andando pela cidade, comendo em restaurantes locais e fazendo compras, meus pais e a vovó capotaram cedo. Eu fiquei acordado mais uma hora ou coisa assim, olhando o lago da margem, ouvindo as ondas batendo na areia e desejando poder tirar o barco.

Notei o velho barracão do vovô, bem do lado do cais. Ele nunca me deixou entrar lá quando eu era criança, dizendo que era perigoso. Mas, como eu não era mais criança, resolvi eu mesmo achar a chave do barracão numa das gavetas da cozinha e dar uma fuçada.

Eu torcia pra ter um barco a remo ou um caiaque. Puta merda, até um boia inflável daria pro gasto. Eu só queria fazer a única coisa que eu realmente curtia no lago.

Abri o barracão e logo entendi por que o vovô queria que eu ficasse longe. Tinha objeto cortante e ferramenta pesada pra caralho em todo canto. Lá no fundo, vi uma lona azul cobrindo um troço grande. Dei uma espiada por baixo e sorri.

Arrastei o velho barco a remo de madeira que encontrei pra fora do barracão e pra margem. Olhei pra trás, pro chalé, pra ter certeza que todo mundo tava dormindo, e vi que as luzes tavam todas apagadas, exceto a da varanda.

Empurrei o barco pra água e comecei a remar. O chalé sumiu atrás de mim enquanto eu ia cada vez mais longe. Logo, tudo o mais sumiu no céu noturno, e o único som era das ondinhas batendo no barco e dos insetos cantando.

Deitei de costas e deixei o balanço suave do barco me relaxar enquanto eu olhava as estrelas brilhando espalhadas pelo céu azul-escuro. Por um momento, todas as preocupações que eu tinha na época sumiram. Fechei os olhos e respirei fundo, desejando poder ficar ali pra sempre…

Toc, toc.

Foi leve no começo. Tão leve que eu pensei se uma onda não tinha empurrado um galhinho contra o lado do barco. Ignorei por um instante e tentei me concentrar de novo no som das ondas, mas a batida voltou mais alta.

Toc, toc.

Sentei e vasculhei a área pra achar de onde vinha o som, mas não vi nada suspeito. Pensei se não tinha algo preso debaixo do barco.

Toc, toc.

Meus olhos fixaram no meio do barco, onde parecia que o som tava saindo. O barco tremeu um pouco quando me movi pro centro. Ajoelhei e encostei o ouvido no fundo.

Toc, toc.

Caí pra trás, quase virando pro lado, mas consegui me equilibrar. Ficou em silêncio por uns minutos. Pensei que o que quer que fosse tinha se soltado, ou, Deus me livre, nadado embora. Mexi no assento, percebendo que tava com medo de me mexer.

Toc, toc, toc, toc, toc, toc…

Peguei o remo e enfiei fundo na água enquanto a batida continuava. Tentei remar por uns segundos antes de perceber que não tava me movendo. O barco ficou parado, como se tivesse enroscado em algo. Remei com toda força, tentando soltar, mas nada.

A batida parou por um momento.

Toc, toc.

Algo espirrou a uns metros do meu barco. Não vi, mas o que quer que fosse era grande, pelo menos do tamanho de um bagre grande. Me movi pro lado oposto do barco e trouxe os joelhos pro peito. Abaixe o rosto pros joelhos e comecei a rezar.

Toc, toc.

“Ele quer que você pergunte quem é”, disse uma voz.

Minhas mãos tremiam, e a respiração acelerou. Não queria erguer a cabeça, mas sabia que não ia conseguir me defender se não fizesse. Respirei fundo antes de erguer a cabeça e ver uma figurinha pequena do outro lado do barco. Era um menininho, de uns 7 ou 8 anos, com roupa encharcada como se tivesse nadado até o barco e subido.

“Que porra você tá fazendo?”, perguntei, a voz tremendo mais do que eu esperava.

Toc, toc.

“Ele quer que você pergunte quem é”, o garoto repetiu. O rosto dele não mostrava emoção nenhuma.

As batidas voltaram, aumentando de velocidade e volume a cada vez.

Toc, toc, toc, toc, toc…

Toc, toc, toc, toc, toc…

“Pergunte quem é”, acho que o menino disse, embora eu mal conseguisse ouvir.

Tampei os ouvidos, mas não parou o som. Era como se a batida estivesse dentro da minha cabeça.

Toc, toc, toc, toc, toc…

Toc, toc, toc, toc, toc…

“Quem é?!”, gritei.

Parou…

Abri os olhos e vi que o menino tinha sumido. O lago tava calmo. Vasculhei a área, mas não vi sinal do menino nem de ninguém. Respirei aliviado, escolhendo acreditar que tinha imaginado tudo.

Coloquei o remo na água e comecei a remar. O barco avançou, me permitindo relaxar um pouco.

Eu tava a poucos metros da margem quando o barco parou de repente, quase me jogando pra frente. Caí enquanto o barco balançava violentamente, como se estivesse numa tempestade braba. A água ao redor borbulhava como se estivesse numa panela fervendo.

Gritei o mais alto que consegui. O barco parou de balançar quando a água se acalmou. Vasculhei a área por mais um momento quando notei algo pálido se movendo debaixo. Quase rompeu a superfície antes de afundar de novo.

Algo bateu no fundo do barco, e vi a silhueta pálida se mover pelo outro lado. Aconteceu várias vezes antes de eu perceber que tinha mais de uma coisa na água.

Todas pararam ao mesmo tempo e flutuaram logo abaixo da superfície.

Contei sete delas. Eram de cores diferentes, mas todas pareciam tufos de alga ou alguma vegetação fina e esvoaçante.

Uma por uma, romperam a superfície, e percebi que o que eu via era cabelo preso a algumas das crianças mais pálidas que já vi.

Só as cabeças flutuavam acima da água, e todos os olhos fixavam em mim. Fechei os olhos com força, torcendo pra que fosse um pesadelo, mas quando abri de novo, as crianças ainda me encaravam. Meus lábios tremiam enquanto lágrimas caíam dos meus olhos.

“Não chora, sr. Bryson”, disse uma menininha de cabelo escuro, que nadou mais perto do barco. “Eu fiz tudo que você mandou.”

“Conta outra piada de toc toc, sr. Bryson”, disse um menino. “Isso vai te fazer se sentir melhor!”

Todas as crianças gritaram “É!” em uníssono.

“Eu não…”, comecei.

“Outra piada de toc toc!”, gritaram de novo.

“Eu não sei nenhuma”, disse, a voz tremendo.

“Sabe, sim”, disse a menina de cabelo escuro antes de se aproximar mais do barco até bater no lado. Os dedinhos dela se enrolaram na borda enquanto ela se puxava pra cima e olhava fundo nos meus olhos. Só agora eu via, mas os olhos dela eram azul-claros, como quando um cachorro tem catarata. Veias roxas serpenteavam pela pele. Ela usava um macacão azul e sapatos rosa, ambos cobertos de lama e alga.

“Você contou uma pra gente antes de amarrar a gente num saco e jogar no lago”, disse ela.

Minha boca se abriu, e a respiração parou.

Toc, toc.

As crianças nadaram pro barco e subiram. Tentei me encostar num canto, mas elas invadiram o barco em questão de minutos. Senti as mãos frias e úmidas delas cobrirem meu corpo enquanto eu tentava gritar, mas nenhum som saía da minha boca…

Quando acordei, o sol tava no meio do céu. Cobri os olhos antes de sentar e enxugar o suor da testa. Vasculhei a área por qualquer sinal do que tinha acontecido na noite anterior, mas não achei nada.

Respirei um pouco pra me acalmar e organizar os pensamentos antes de remar de volta pra margem. Tinha que ter sido tudo um sonho, pensei enquanto arrastava o barco do vovô pra terra.

Ao colocar o barco de volta onde achei, notei uma pequena gravação no lado. Era o nome do vovô, Henry, com o ano 1973 embaixo. Imaginei que foi quando ele e o bisavô construíram o barco.

Comecei a ir pra entrada do barracão quando notei algo debaixo de uma das bancadas laterais. Era um saco de aniagem grande. Tinha vários.

Olhei mais de perto e vi algo rosa e branco encostado na parede. Tirei um sapatinho pequeno, enterrado numa camada de poeira. Larguei na hora. Tampei a boca enquanto me ajoelhava mais perto, percebendo que era o mesmo sapato que a menina usava no barco…

Passei a maior parte daquela semana fuçando o barracão e o antigo escritório do vovô enquanto meus pais e a vovó dormiam. O vovô era bom em esconder coisas de todo mundo, até da vovó. Consegui achar uma chave na escrivaninha dele que abria um cofre enterrado no fundo do barracão, debaixo de caixas de revista.

Dentro, encontrei fotos de crianças, a maioria das quais eu reconheci do barco. Tinha recortes de jornal e cartazes de crianças desaparecidas, que imaginei que ele guardava como troféus. Tinha coisas ainda mais tristes lá dentro, como pulseiras e braceletes.

Fiquei pensando por um tempo se valia a pena contar pra polícia, já que provavelmente não sobrava nada dos corpos. Pelos recortes de jornal, os corpos tavam debaixo d’água há décadas.

Não conseguia tirar os rostos delas da cabeça. Via elas, encharcadas e pálidas, toda vez que tentava dormir. Meus pais notaram a mudança em mim, embora eu negasse. Depois de um tempo, jurei que via as crianças em todo lugar que ia. Não aguentava mais…

Eles dragaram o lago algumas semanas depois. As únicas coisas que restavam eram esqueletinhos minúsculos de alguns deles. Alguns foram identificados por registros dentários. Uma delas era a menininha dos sapatos rosa.

Vi a família dela na TV. Falaram o quanto ela era uma alma linda e que monstro o meu avô era. Não dá pra discordar.

Minha avó nunca mais nos convidou pro lago. Não sei como ela se sentiu com o vovô depois disso, mas sei que odiava a atenção que aquilo trouxe.

Sinto falta daqueles verões no lago, mas sei que não seria a mesma coisa sabendo o que o vovô fez com tantas crianças, e fico muito feliz que ele nunca tenha me contado uma piada de toc toc.
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