quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Não olhe para a Aurora Boreal

A aurora boreal tem dançado sobre esses céus do Kansas nas últimas noites. É de tirar o fôlego, algo que eu nunca imaginei que teria a chance de ver. Não achava que seria uma das últimas coisas que eu veria, porém.

Não recomendo que você olhe, se ela estiver sobre você.

Veja bem, há uma hora eu tava assistindo uma série de drama de terror, fumando um baseado, feliz da vida. Meu labrador preto, o Shadow, começou a arranhar a porta do porão – é o sinal dele de que precisa fazer xixi. Meu baseado já tava no fim mesmo, então apaguei, pausei o streaming e joguei o celular no sofá.

Eu tinha ouvido falar que as Luzes do Norte tavam chegando até nossos céus. Vi fotos dos meus amigos, mas ainda não tinha conseguido ver com meus próprios olhos. Quando saí pro quintal dos fundos, tava quase pitch black. Nada novo, considerando que todos os vizinhos, exceto o que mora colado, têm filhos e vão dormir cedo. Todo mundo tem cerca viva de árvores e mato bem crescido, o que ajuda a bloquear qualquer luz.

O Shadow disparou pro canto do quintal, como sempre faz. O ar tava gelado, então puxei o moletom mais pra perto do corpo, e foi aí que eu vi. As luzes rosas dançando ao longe. Não tavam bem em cima da minha cabeça, mas se eu ficasse num ponto específico, dava pra ver.

No começo, quase chorei. Era lindo. Ondulava e dançava e me fez agradecer por estar vivo, por estar nesse planeta, por poder viver coisas assim. Fiquei olhando pro céu por uma eternidade, até o barulho da grama e um latido me chamarem a atenção. Gritei o nome do cachorro enquanto voltava pra porta dos fundos, pronto pra deslizar ela aberta.

Ouvi os passos do Shadow vindo na minha direção em disparada. Deslizei a porta pra ele, mas tentei espiar pelas folhas da nossa árvore redbud pra dar uma última olhada no fenômeno raro antes de entrar. A coleira dele tilintou bem quando ele passou correndo por mim pra dentro de casa. Mesmo tendo ouvido os passos, ele pareceu surgir do nada, das sombras, direto pra aquele momento de luz. Tava correndo tão rápido que era só um borrão preto enquanto subia as escadas. Meu coração deu um pulo, mas culpei a ansiedade da maconha.

Tranquei a porta, fechei as persianas e voltei pro sofá pra continuar derretendo, mas parei no meio da escada. O Shadow tava parado no meio da sala me encarando. Dei risada de mim mesmo e mandei ele parar de ser creepy. Achando que a gente merecia um agrado, passei por ele e fui pra cozinha. Um picolé pra mim, uma orelha de porco pro Shadow.

Normalmente o barulho do saco já faz ele vir correndo. Eu já tinha guardado tudo e ele ainda não tinha vindo pegar o prêmio. Chamei de novo, depois espiei pra sala. O picolé na minha mão caiu no chão enquanto um grito rasgava minha garganta.

O Shadow parecia o Shadow, mas agora tava se transformando ativamente numa versão esticada e distorcida dele. Ouvi estalos enquanto ele crescia de um jeito impossível, bem rápido, aliás, até o pescoço ficar longo demais pra se sustentar. A cabeça caiu no chão de madeira com um baque. Meu cachorro – ou o que tinha sido meu cachorro – sorriu, depois, com os membros recém-alongados, começou a empurrar o corpo ainda explodindo na minha direção, rápido demais.

Acho que nunca corri tão rápido na vida. A escada pro sótão, onde fica meu quarto, dá sorte de sair da cozinha. Disparei escada acima, direto pro quarto e bati a porta bem na hora que patas grandes demais subiam atrás de mim. Sempre amei que meu quarto tem portas de correr escondidas, mas agora não tô tão fã.

Mal virei o ferrolho minúsculo, a porta começou a tremer no trilho enquanto a versão explodida do meu cachorro batia nela. Me achei um gênio por escolher o quarto em vez do escritório ou do armário, já que esse é o único dos três com janela.

A primeira coisa que fiz foi correr pra janela. Ela abre direto pro telhado da garagem anexa, o que daria uma fuga relativamente fácil. Já tava no meio do caminho, sentindo as telhas ásperas nos pés descalços, quando olhei pra cima e vi meu vizinho do lado, o Hunter, me encarando da janela dele direto pra minha.

Gritei o nome dele, dizendo que precisava de ajuda, mas ele só ficou lá, me olhando. Sorriu rápido, ergueu as mãos por um instante, depois o sorriso sumiu enquanto as mãos desciam devagar. Fez de novo, e de novo, e na terceira vez eu já tava apavorado. Piorou na quarta, quando ele manteve as mãos erguidas e o sorriso colado na cara.

Me encarou, depois mexeu os dedos. Se as luzes do quarto dele não estivessem acesas, seria impossível ler os lábios. Mas tavam, e quando li “Te peguei!”, ele também começou a estalar e se esticar em algo desumano. Corri pro canto do telhado, e bem antes de pular, uma figura sombria no meio da rua se mexeu, raspando o cascalho embaixo dela.

Congelei e fiquei olhando por um instante. Quando não começou a explodir, senti alívio, que sumiu tão rápido quanto veio quando a figura começou a correr na minha direção. Gritei de novo e olhei de volta pro quarto. A porta tava aguentando firme, mas batendo no trilho que nem louca. Mais uma olhada pro Hunter, ainda na janela me espiando, mostrou que ele não lembrava mais nada humano.

Me lembrou daqueles fogos de artifício de cobra que você acende e eles só crescem, crescem até virar cinza e apagar. Toda cor tinha sumido da pele dele, os olhos tavam fundos, e ele só esticava. Pensei “foda-se” e rastejei de volta pro quarto. Foi aí que as batidas na porta pararam e o canto começou.

Estou bem alegre, mas aqui ao contrário, por que não me deixa entrar?

Não tenha medo, serei rápido, deixo você viver, prometo que só quero sua pele!

Por que não me deixa entrar?

Demorei quase um minuto inteiro procurando meu celular até lembrar que deixei no sofá. Ainda bem que meu notebook tem um restinho de bateria. O problema é que nenhuma mensagem sai. Não consigo mandar chat, e-mail, nada. Acabaram as opções, então vou tentar postar isso como último recurso.

Não sei o que fazer. Alguém mais passou por essa merda? Que porra eu faço? Essa coisa que tomou meu cachorro não para de cantar a mesma coisa sem parar, embora a letra tenha mudado nos últimos segundos.

Por que não me deixa entrar? Me deixa entrar? Me deixa entrar?

Me deixa entrar! Me deixa entrar!

ME DEIXA ENTRAR!

ME DEIXA ENTRAR.

A maconha que fumei tava no fim do estoque e nunca tive uma experiência assim nas outras vezes, então dá pra descartar. Se eu não sobreviver à noite, e descobrirem que me encontraram encolhido, um cocô cinzento, por favor, levem a sério esse aviso.

O que quer que esteja deixando esses céus do meio-oeste rosa e vermelho não é a Aurora Boreal. Acho que é algo maligno. Se você der uma espiada, talvez queira deixar eles entrarem. Porque agora, esse é o único pensamento na minha cabeça.

Isso, e uma musiquinha que tá ficando insistente o suficiente pra eu começar a cantarolar.

Ao contrário, estou aqui e bem alegre, acho que vou deixar eles entrarem!

Não vou ter medo, serão rápidos, deixam eu viver, só querem minha pele!

Acho que vou deixar eles entrarem!

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Sussurros Através das Paredes

É o começo do meu semestre na faculdade e eu tô ficando na casa de um cara chamado Elijah. Não devia chamar de “cara” – ele tem um ano a mais que eu. Parecia um sujeito bem normal. Disse que era cristão, e eu não tinha problema nenhum com isso. Nunca tentou enfiar religião goela abaixo, o que eu curtia e respeitava. Em troca, eu rezava a bênção na mesa quando a gente dividia as refeições. No geral, não era um colega de quarto ruim.

Mas, durante as férias de inverno do semestre, eu me remexia inquieto na cama, os olhos saltando pros números brilhantes do meu relógio: 3h07 da manhã… Eu preferia mil vezes ter ficado acordado até as 3h do que acordar às 3h. Só fiquei lá deitado, torcendo pra que o sono voltasse a me invadir os ossos. Nunca voltou. As paredes pareciam prender a respiração, ouvindo os sussurros suaves que vinham do outro quarto. Elijah. Virei pro lado, enfiei a cabeça no travesseiro tentando abafar o silêncio ensurdecedor da noite misturado com aquelas canções de coral esquisitas que ele cantarolava. Normalmente ele recitava versículos da Bíblia ou orações aleatórias, mas as músicas cantaroladas eram raras e sempre me deixavam arrepiado.

A ansiedade cravou as garras tão fundo no meu estômago naquela noite que achei que ia vomitar. O desconforto pairava no ar. Toda noite, aquele psicopata do caralho voltava de sei lá onde, arrastando terra e murmurando orações crípticas. Já tava mais irritante do que qualquer outra coisa. Fazia semanas que eu não pregava o olho direito por causa daquele sussurro filho da puta.

Porra, nem sei como me meti nessa merda. Claro, sou um estudante universitário quebrado e precisava desesperadamente de um teto… Mendigo não escolhe, né?

Ultimamente, ele tem trazido objetos manchados de lama – penas tingidas, cruzes de madeira grosseiras e páginas rasgadas e úmidas da Bíblia – que parecem se multiplicar toda vez que eu olho pra coleção. O nascer do sol não trazia respostas, só mais perguntas. Nunca perguntei nada. Tem gente que tem hobbies esquisitos e não é como se ele estivesse machucando alguém.

Continuei resistindo à vontade de confrontar o Elijah. Tinha medo do que poderia desabar se eu abrisse a boca. O pensamento ficava ali: o que ele tá fazendo de verdade com aquelas coisas?

Mas a curiosidade cravou as garras compridas nas dobras mais profundas do meu cérebro. A falta de respostas pras perguntas que eu nem fazia virou insuportável e acabou me consumindo.

Numa noite, decidi ficar acordado, de ouvido colado pro barulhinho característico dos pés arrastando. Devagar, e com o cu na mão, rastejei até a porta do meu quarto, que separava meu canto do resto da casa. O coração disparou quando entreabri a porta e espiei pro quarto mal iluminado, sombras dançando com a luz de uma única vela tremeluzente. Meu colega de quarto, Elijah, estava ajoelhado no meio da coleção bizarra, murmurando versículos com uma intensidade frenética. Os olhos arregalados de um fervor que me congelou no lugar.

Limpei a garganta de leve, o suficiente pra quebrar o encanto sem assustar. Minha curiosidade rompendo as amarras do desconforto.

“O que você tá fazendo?” perguntei, voz baixa no silêncio opressivo.

Elijah encarou meus olhos, uma calma sobrenatural no olhar, seguida de uma pausa desconfortavelmente longa.

“Construindo uma ponte entre o céu e a terra”, respondeu como se isso explicasse tudo.

Hesitante, saí do quarto, cruzando o limiar pro santuário de segredos. “Por que os objetos estranhos…?” insisti, olhando pra eles com uma mistura de fascínio e pavor.

Elijah inclinou a cabeça, como se tentasse enxergar uma verdade que eu não via. “Ferramentas”, entoou, “pra guiar os perdidos e prender os caídos.”

O ar ficou mais pesado, carregado de algo intangível que parecia vibrar entre a gente. Hesitei de novo, inquieto mas intrigado com a resposta críptica. “…e quem você tá guiando? Quem você prende?” sussurrei, precisando entender. Morrendo de vontade de entender um pouco dos comportamentos bizarros do meu colega de quarto. Maldita essa minha necessidade de saber tudo, por que eu tenho que ser tão enxerido?

O sorriso do Elijah era enigmático, insondável. “Aqueles que vagam nas trevas”, foi tudo o que deu, os dedos deslizando por uma das cruzes de madeira.

Estremeci sem querer, as palavras mandando um calafrio descer pela espinha. “Que trevas?” insisti, feito idiota, impulsionado por uma mistura de terror e curiosidade mórbida.

Os olhos do Elijah brilhavam de intensidade. “Eles estão ao nosso redor. Invisíveis, mas perto”, sussurrou, a voz tanto um cântico quanto um aviso.

Vacilei, atordoado com a realidade e a loucura se sobrepondo. Queria correr, mas meus pés continuaram plantados, como se tivessem criado raízes no assoalho de madeira. “Você pelo menos… tá nos protegendo?” arrisquei, olhando pros itens sinistros espalhados sob a nova luz.

Elijah assentiu, fechando os olhos como em transe. “De jeitos que você nem imagina”, garantiu. Por algum motivo, aquilo soou qualquer coisa menos tranquilizador.

Algo mudou no ar, frio e ofegante, sussurrando segredos sombrios demais pra compartilhar. Meu olhar foi atraído pra uma boneca manchada de lama no meio daquele monte macabro. Os olhos dela reluziam sob a luz da vela, parecendo vivos. Tremendo, dei um passo em direção à boneca pra ver melhor, o quarto pulsando com uma energia invisível, uma força tão antiga quanto maligna. De repente, uma sombra disparou pela parede, sem pertencer a nenhum de nós.

Recuei de supetão, o coração martelando contra as costelas como um pássaro preso. A sombra se contorcia de forma antinatural, inchando e comprimindo como se testasse os limites deste mundo.

“Você tá vendo agora?” A voz do Elijah vagou num zumbido grave, ressonante e solene.

Assenti, a garganta seca. Eu via e queria não ter visto. Fala sério, cético virando crente na marra.

O ambiente estalou com eletricidade, denso com a presença de algo invisível mas inegavelmente poderoso.

“O que eles querem?” consegui perguntar, quase inaudível, sentindo os pelos da nuca se eriçarem.

Os olhos do Elijah continuavam fechados, as mãos unidas em súplica fervorosa. “Buscam o que todos os andarilhos desejam: salvação”, murmurou, as palavras pingando uma devoção perturbadora.

Engoli em seco, o peso da revelação me esmagando. Agora eu entendia, pelo menos um pedaço do quadro torto pintado pelos rituais bizarros e falas crípticas do meu colega de quarto. Mas que preço essa salvação ia cobrar, e quem, de fato, estava sendo salvo?

De repente, Elijah falou, arrancando-me dos pensamentos: “A porta tem que se abrir”, confessou, a voz como correntes de seda, prendendo mas suave. O desespero arranhou minhas entranhas, uma avalanche de pavor soterrando cada pensamento. Achei que ia botar o jantar pra fora.

“Não dá pra impedir?” implorei, procurando nos olhos fervorosos do meu colega de quarto um pingo de humanidade, um lampejo de redenção. Mas só vi devoção desconectada de qualquer noção moral.

Elijah balançou a cabeça, uma tristeza resignada piscando rápido antes de sumir. “Não cabe a nós parar”, respondeu, cada palavra um sino pesado. Lá fora, o vento uivava, ecoando o tumulto dentro da minha cabeça. Me sentia preso, um rato numa maquinação divina distorcida, além do meu controle ou compreensão.

“O que acontece quando a porta abrir?” sussurrei, temendo a resposta mas incapaz de fugir daquela dança macabra.

“Eles vêm”, Elijah respondeu, olhos distantes, vendo horrores que deviam ficar invisíveis.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Eu sei o que vi, e ninguém vai tirar isso de mim

Tinha acabado de sair da sexta série quando meu irmão mais velho, Jonathan, morreu. Acordei num dia de verão e encontrei meus pais na cozinha com os olhos vermelhos e inchados. Preparei um cereal e sentei. Antes que eu começasse a comer, minha mãe se aproximou.

— Querido, eu não sei como te dizer isso… o Jonathan morreu ontem à noite num acidente grave.

Na verdade, eu não lembro desse momento — é o que meus pais me contaram. Depois disso nunca mais fui o mesmo. Não conseguia me concentrar nos estudos e perdi todo interesse pelo futebol. No primeiro ano do ensino médio meu GPA caiu para 2,1 e, de alguma forma, me formei com 1,6. Acho que a escola forçava formaturas para manter o financiamento. Meses depois, com mais tempo livre, eu continuava igual: dormia o dia todo e só acordava por volta das 18h. Numa noite meus pais me chamaram.

— Escuta, a gente te ama, mas não podemos manter você aqui por muito mais tempo. Você tem que arrumar um lugar até conseguir um emprego e começar a ajudar.

Dias depois liguei para meus avós. Eles, sendo bondosos, me deixaram ficar até eu me reerguer. Comecei a mandar currículos pela cidade e, uma semana depois, uma lojinha familiar me chamou para uma entrevista. Três dias depois fui com uma calça social e uma camisa. O dono, Terry, andava devagar e me perguntou:

— Você é o Ryan? Para a entrevista?

Fui levado até o fundo da loja. O lugar cheirava a desinfetante e estava impecável. Terry perguntou sobre minha disponibilidade; eu disse que estava livre sempre. Ele explicou que precisava de alguém para o turno da madrugada, porque não achavam ninguém. Eu disse que podia e, sorrindo, ele apertou minha mão.

— Esteja aqui amanhã às 22h.

Ao sair, percebi que estava menos nervoso do que imaginava. Ainda tinha dificuldade de concentração e tontura de vez em quando, mas falava mais claro do que antes. Voltei para a casa dos meus avós. Ao entrar, ouvi barulho no meu quarto: minha avó parecia falar com alguém. Abri a porta e não havia ninguém. Associei aquilo a truques da minha cabeça — qualquer coisa para não encarar a verdade. Mal dormi, até pegar no sono e acordar apenas no início da tarde seguinte. Fui à cozinha fazer café e não encontrei meus avós. Havia um bilhete:

"Vovô e eu fomos visitar seus primos em Ixon. Voltamos na sexta."

O problema era que eles tinham saído antes do meu turno.

No primeiro dia de trabalho cheguei às 21h55 — meu pai dizia que "a tempo é tarde demais". No balcão encontrei Melinda, esposa do Terry. Perguntei do treinamento.

— Querido, só precisa passar as compras no caixa. Não há treinamento.

Quando fui ao fundo, vi Terry "ao telefone", falando com o ar. Achei estranho e perguntei. Ele me respondeu como se eu tivesse interrompido algo. Melinda comentou, meio en passant, que ele tinha um tipo de demência ou esquizofrenia não diagnosticada. Fiquei chocado, perguntei se nunca o tinham levado a um médico; ela deu de ombros. Ela me mostrou o básico e foi embora. Estava cansado, encostei no balcão.

Depois de meia hora, um zumbido no ouvido começou, fraco no começo e crescendo até quase me incomodar. Uma hora depois entrou um cliente; quando eu o atendi, ele disse que eu parecia estar fingindo limpar — que parecia que eu movia o ar. Olhei para o balcão: estava limpo, embora eu jurasse de ter tirado coisas dele segundos antes. Fiquei desconcertado. Então avistei, pela vitrine, uma figura do outro lado da rua, só observando. Era uma silhueta. Desviei e, quando olhei de novo, ela estava colada ao vidro. Travei de medo e a encarei por um tempo que pareceu uma eternidade.

Acordei em casa no dia seguinte com dor de cabeça e sem lembrar como fui parar ali. Liguei para o Terry. Ele me acusou de ter saído pela porta dos fundos às 2 da manhã, com o carro deixado no estacionamento — eu não lembrava de nada disso. De repente ouvi passos do lado de fora do meu quarto. Minha avó entrou, me mandou lavar e disse que eu tinha que trabalhar. Era 20h e eu ainda estava com o uniforme. Liguei para o Terry e disse que não iria; ele me sugeriu tirar a semana de folga. Deitei tentando esquecer tudo. Acordei no meio da noite em paralisia do sono e vi a silhueta do lado de fora da janela, me observando. Levantei suando, e no chão havia um abajur quebrado que não estava lá antes.

Duas semanas depois, descansando na casa dos meus avós, achei que estava melhor — só dores de cabeça esporádicas e objetos fora do lugar. Voltei ao trabalho porque precisava do dinheiro. Melinda me abraçou e perguntou se eu estava bem. Terry não veio naquele turno. Depois de um tempo ouvimos barulho na despensa; fui conferir, mas não havia sinal de ninguém. Fiquei apavorado e liguei o telefone da loja, deixando o 911 pronto. O zumbido voltou. Olhei a vitrine e vi a silhueta de novo, maior, vindo em minha direção. Ao me mover, derrubei prateleiras e tentei escapar pela porta dos fundos, mas ela estava trancada. Havia um bilhete de Melinda: "Tranquei por sua própria segurança. Espero que entenda." A porta da frente, contudo, estava aberta. Sem saída, vi uma sombra se materializar e parar mais à frente. Ela falou o meu nome numa voz que eu conhecia.

— Ryan.

Olhei. Era Jonathan.

A polícia me encontrou desacordado no fundo da loja minutos depois. Estou escrevendo isto caso minha memória falhe novamente: não sou louco e sei o que vi. Esta é a minha declaração oficial, para que não atribuam tudo a uma condição mental. Eu sei o que vi, e ninguém vai tirar isso de mim.

Assombração Desumana

Eu morei num lugar que preenchia os requisitos de uma cidadezinha de Wisconsin: pelo menos duas igrejas, três bares e um silo de grãos. Essa cidade era mais sorteada que a maioria — tinha uma fábrica de móveis da qual você provavelmente já ouviu falar e uma indústria de processamento de frango que você provavelmente não conhece — então havia onde trabalhar depois do ensino médio, se sua ambição não te levasse pra outro lugar. Se um jovem enjoasse naquela cidade pequena e não quisesse ir a um dos três bares, sempre tinha bastante natureza por perto.

Meu plano pro dia era empacotar um sanduíche e duas garrafas de Root Beer da A&W na mochila e procurar pontas de flecha num lugar que os locais chamavam de Barnes Bluff. Barnes Bluff era o ponto mais alto do vale e dizia a lenda que a tribo local Winnebago costumava posicionar vigias lá em cima pra observar a região. Era uma caminhada curta até Barnes Bluff; ficava a uma milha depois de onde a Barnes Road acabava e virava pasto de vacas. O penhasco ficava mais ou menos a uma milha além disso. Sem trilha. Sem placas. Não havia outra estrada nem caminho pra Barnes Bluff. Soube que tava chegando quando passei pelo que um dia fora a cabana de um colonizador. A casa tinha desabado sobre si mesma décadas atrás, sobrando só a sombra das madeiras podres e das plantas invasoras. Mas o poço ainda estava lá.

O poço fora coberto por tábuas de madeira, a maior parte já apodrecida há muito tempo, sobrando só pedaços nas bordas. Tinha uns cinco pés de diâmetro, fundo e escuro. Olhar pra dentro era inquietante; as paredes eram revestidas de pedra e, ao olhar pra baixo, escurecia quase imediatamente, de modo que o fundo não era visível. Joguei uma pedra e, depois de um segundo, ouvi ela bater na água lá embaixo com um ker-thump profundo que ecoou enquanto o som subia de volta. Um frio subiu do poço — não um frescor agradável como o do ar-condicionado num dia quente, mas o frio que entra na casa quando o aquecedor pifa à noite no inverno e você ainda tem que tomar banho de manhã.

Eu estava perdido em pensamentos, imaginando quando a casa fora construída e como devia ser a área naquela época, quando um grande sapo marron me assustou ao pular debaixo de uma das tábuas podres do outro lado do poço. Ele me observou por um segundo, inclinou a cabeça e pareceu coçar o céu da boca com uma das patinhas. Depois deu um pulo pequeno pra ficar me encarando direto, a cerca de uma polegada da beirada do poço.

Ficamos nos encarando por uns sessenta segundos e, claro, me deu vontade de pegá-lo. Deixei a mochila no chão e dei a volta pra ir por trás, mas enquanto eu fazia isso ele deu outro pulo pequeno pra me encarar novamente. Beleza, pensei, esse bicho não parece querer ir a lugar nenhum, então com os olhos no sapo me adiantei um pouco mais rápido pra agarrá-lo. Só que, com a atenção nele, não reparei numa pedra solta mal presa em concreto esfarelando. Pisei nela e a pedra imediatamente descolou e caiu no poço. Achei que conseguiria pôr meu peso no chão firme, mas não rolou — então, com um resignado "ope", caí na escuridão fria do poço.

Depois de cair por um tempo que pareceu absurdo, a água me tirou o ar dos pulmões. Afundei, depois voltei à tona, ofegante e piscando. O céu era agora só um círculo pálido, do tamanho de uma bola de softball e mais distante do que eu achava que devia estar. Não havia chão sob meus pés. As paredes ao redor eram lisas, escorregadias, sem nada pra me apoiar. E assim, eu fiquei preso no poço, e ninguém sabia que eu estava ali.

Isso é ruim, ninguém sabe que eu tô aqui. Ninguém vem aqui. Como alguém saberia procurar por mim neste lugar? A primeira coisa que notei foi como minha respiração soava alta e ecoava. E como gritar era inútil. O som não ia a lugar nenhum. Fiquei boiando por um tempo que pareceu horas, chutando devagar pra me manter à tona, os braços raspando nas paredes arredondadas sempre que chegava perto demais. A ponta dos dedos apalpava a pedra, mas não achava apoio. As paredes tinham sido moldadas à mão há muito tempo, assentadas com cuidado, e agora estavam polidas pela água, pela lama e pelo tempo.

Meus olhos se acostumaram à pouca luz. Os pés procuravam algo pra firmar, mas não havia nada, só o frio das pedras escorregadias e a água. Olhei pra cima quando uma nuvem passou na frente do sol e o poço ficou visivelmente mais escuro e mais frio. Quando o céu abriu novamente e a luz voltou, notei algo que tinha deixado passar: havia arranhões nas paredes. Por toda parte e tão alto quanto eu alcançava, arranhões. Isso era um mau sinal — eu não seria o primeiro a cair ali? Seria o segundo? Um entre muitos? Quantos corpos estavam debaixo de mim naquele momento? Eu já estava com frio, mas tremei só de pensar nisso.

O tempo passou. Eu não consigo te dizer quanto. A água grudava na roupa e sugava o calor do meu corpo. Virei de costas pra boiar, cruzei os braços e fechei os olhos. Então senti algo tocar minha perna. Não era alga nem galho. Era mais lento, mais intencional. Esfregou o lado de fora da minha coxa e se afastou. Congelei. Um momento depois, uma bolha veio à superfície. Outra. O cheiro de metano bateu no ar. Era só gás de pântano subindo lá debaixo. Era só isso. Dei uma risadinha trêmula, fina e oca. Mais bolhas subiram, fazendo pequeninas ondulações quando estouravam — irritantes talvez, mas não perigosas.

Com o tempo as bolhas ficaram mais difíceis de ver, enquanto nuvens cobriam o sol e a abertura do poço parecia do tamanho de uma bola de baseball agora, estranho. Parecia uma incoerência menor perto do aprieto em que eu me encontrava. Então aconteceu: vi um redemoinho na água que não era seguido por bolhas estourando. A água era preta, eu não conseguia ver o que havia abaixo da superfície, mas algo se mexeu por baixo — não bolhas, algo como a cauda de um peixe grande. Observei com os olhos arregalados, pressionando meu corpo contra o lado oposto do poço, e então senti algo que eu não podia ver, algo frio e sólido que bateu no meu pé.

O medo do que eu não podia ver tocando-me por baixo e o medo de me afogar ou de ser puxado para o escuro frio foram demais; virei no ar e tentei arranhar a parede, não conseguia segurar nada nas superfícies lisas, o que só aumentou a frenética ânsia das minhas mãos tentando agarrar algo, qualquer coisa, sem que meu cérebro sequer pedisse. Então a água atrás de mim subiu um pouco, como se algo empurrasse de baixo. Ouvi um barulho. Um sopro. Não era meu. A água bateu nas paredes. E então eu vi: subindo devagar do centro do poço.

Primeiro apareceu o topo da cabeça, longos fios de cabelo negro grudados num couro cabeludo acinzentado. Depois um rosto, ou o que um dia fora um rosto. A pele estava encolhida, frouxa sobre os ossos. A boca pendia aberta, cheia d’água e sem nada que pudesse ser chamado de língua. Os olhos eram o pior. Brilhavam em vermelho, não forte, mas constante, e mostravam uma inteligência mortal por trás deles. Ao redor do pescoço pendia um colar de garras de urso. Amarrada à garganta, uma bolsinha preta, encharcada, caindo e gordurosa — um indício do que havia dentro. A pele dos braços parecia couro velho, as mãos torcidas em garras que se esticavam devagar na minha direção, provocando, como se soubessem que eu não tinha pra onde correr.

Eu não conseguia processar o que acontecia, não naquele pasto comum, cercado por aquelas árvores normais, naquela colina parecida com milhares de outras. Meu cérebro começou a falhar e minha garganta soltou um som que a linguagem não comportava — o terror primal da presa pega, vulnerável, numa armadilha sem saída. Senti um zumbido nos ouvidos e notei que estava escurecendo, e então ouvi lá de cima: “Ei, tudo bem aí embaixo?” A normalidade daquela pergunta, comparada ao que eu via bem ao meu lado, me deixou zonzo. Olhei pra cima e vi um homem com uns cinquenta e poucos anos olhando pra dentro do poço: camisa xadrez, jardineira, um boné verde da John Deere e óculos grossos, curioso e preocupado. “Você me escuta? Tá bem?” ele perguntou de novo. Onde houvera o horror agora só havia uma ressaca d’água; eu ainda sentia aquilo, mas nada mais — eu estava sozinho.

Aquele homem, Haines era o nome dele, um sujeito do povo, trabalhador e bom, estava passando com o gado pela região, viu minha mochila junto ao poço e foi ver do que se tratava. Ele me tirou de lá e me levou pro hospital quando percebeu que eu não conseguia falar. Disse que eu tive sorte porque estava nublando, e ele não queria mover a manada na tempestade, então resolveu adiantar o serviço.

Anos depois, eu estava de passagem pela região em uma viagem de negócios no começo dos anos 2000 e vi um evento cultural Ho-Chunk (o nome mais apropriado pros Winnebago), então fui. O evento rolava no pátio da feira, com música e dança, vendedores locais e um estande com o selo da Nação Ho-Chunk. Fiquei um tempo parado lá no fundo, até que um homem notou que eu estava olhando e acenou pra eu me aproximar. Parecia ter uns sessenta anos. Rosto vincado. Olhos que mediam as coisas antes de falar. Contei a história. Ele ouviu com atenção. Quando terminei, não sorriu nem riu. Só perguntou: “Onde ficava o poço?” Descrevi. Ele assentiu. “Não temos histórias assim. Isso não é nosso.” Eu pisquei. “Mas os Ho-Chunk estiveram lá, certo?” “Estivemos. E antes de nós, outros. Os construtores de montes, os povos Mississipianos. Antes deles, não sabemos. Talvez alguém mais.” Ele olhou por cima do meu ombro, para a linha de árvores distante. “Essa terra é mais velha que a memória. Mais velha que nós.” Então ele se inclinou. “Alguns lugares não são assombrados pelos nossos mortos. Alguns são ocupados por algo mais antigo.”

Soube que o Haines morreu de AVC alguns anos atrás, mas que colocou uma tampa de metal no poço pra evitar mais acidentes. Mas o poço ainda está lá, intacto, ao lado de uma cidadezinha com duas grandes fábricas, no pé da colina mais alta da área. Estou escrevendo tudo isso porque, há duas noites, eu estava sentado no meu pátio e notei uma mancha sem forma no tijolo ao lado do meu pé. Quando me inclinei pra ver o que era, vi que era um sapo grande e, enquanto eu o encarava, ele deu uma espécie de meio pulo pra me encarar diretamente. Usou a patinha pra coçar o céu da boca, que estava escancarada. Não sei o que fazer — não tenho dormido desde então.
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