domingo, 1 de março de 2026

Suicídio Quântico

Disseram que o experimento ia mudar vidas.

Disseram isso como se fosse um presente, como se não fosse uma sentença.

Tudo o que eu vi foi branco.

Uma sala tão limpa que não parecia um lugar. Nenhum canto guardava sombra. Nenhuma emenda no chão. A luz não vinha de lugar nenhum que eu conseuisse apontar. Ela só existia, achatada em cima de tudo, até meus olhos parecerem esfolados, ardendo.

Eles não tinham me dado uma cadeira. Eu tava em pé desde que me conduziram pra dentro, e minhas pernas já sabiam alguma coisa que eu não sabia.

No centro, tinha um pedestal, liso e na altura da cintura, com um botão preto fosco em cima. Perfeitamente redondo. Perfeitamente comum. Uma palavra impressa nele, em letrinhas pequenas e limpas: PLEXUS. Tipo um botão de emergência de elevador que se perdeu e foi parar num lugar onde não tinha a menor chance de estar.

A única outra coisa identificável na sala era a porta. Não a porta inteira. Só um retângulo pequeno de vidro encaixado nela, na altura dos olhos, a única prova de que o mundo ainda tinha um lado de fora.

Ela estava ali, emoldurada por ele.

Dra. Halden. Cabelo loiro preso pra trás, bem apertado; sobrancelhas claras; aquele rosto brilhante e limpo que as pessoas ganham quando dormem em horários normais e acreditam no que fazem. O uniforme dela era cinza, com uma faixinha azul fina na gola. Tudo coberto por um jaleco padrão de laboratório. Postura calma. Uma calma que é ou bondade, ou prática.

A voz dela veio pelo interfone:

— Há uma presença radioativa na sala. Ela não faz nada até você apertar o botão.

Eu encarei o botão.

— E depois?

— Depois, ela tem cinquenta por cento de chance de ativar. Pode ser que ainda não faça nada. Também pode te matar. Na hora.

Eu esperei ela dar uma suavizada. Ela não suavizou.

— Eu... — eu murmurei. — Eu vou sentir?

— Teoricamente, não. Você não vai ver, nem ouvir, nem sentir. — Uma pausa. — Mas observadores do lado de fora podem registrar alguma coisa. Esse é o ponto.

Eu olhei pra ela através do vidro. Ela olhou de volta, paciente, como se isso estivesse indo exatamente do jeito que ela queria.

Meu dedo pairou sobre o botão. Ele não zumbia. Não brilhava.

Toquei.

Nada.

Sem clarão. Sem calor. Sem desabar. A sala continuou branca, teimosa e vazia. Meu coração nem chegou a hesitar.

— Isso é consistente — disse a Dra. Halden. — De novo.

Toquei.

— Nada?

Talvez eu esteja tocando fraco demais?

— Segura — ela disse, rabiscando alguma coisa. — De novo.

Eu quase ri. O som que saiu não foi bem risada.

Toquei.

Nada mudou na sala.

Mas, quando eu olhei de novo pra Dra. Halden, tinha alguma coisa diferente no uniforme dela.

O corte era idêntico. O crachá ficava no mesmo lugar. A faixinha da gola ainda estava lá. Mas as cores estavam erradas: verde-escuro onde antes era cinza; amarelo-claro onde antes era azul.

Meu corpo inteiro gelou.

— Sua roupa — eu disse, mais alto do que eu pretendia.

Ela piscou.

— Minha o quê?

— Seu uniforme. Era cinza. Agora tá verde.

Os olhos dela se estreitaram, mas ela não pareceu alarmada.

— Interessante.

— Eu não tô imaginando.

— Não — ela disse. — É isso que eu tenho usado o dia inteiro.

Meu coração bateu uma vez, alto demais.

— Desde o estágio, inclusive.

Estágio? Como se a minha memória é que estivesse dando pau.

Minha boca tinha gosto de metal. Minhas mãos não paravam de tremer.

Eu toquei de novo, precisando que o mundo se comportasse.

Nada mudou. Ela continuou em verde e amarelo. Cabelo loiro ainda preso. Rosto ainda limpo e convicto.

O alívio bateu forte o bastante pra virar som.

— Beleza. Beleza. É aleatório, é só—

— Segura — ela disse.

A voz dela ficou mais dura no meu ouvido.

— O que que você— Isso é a primeira tentativa.

Eu encarei ela.

— O quê?

— Essa é a tentativa um.

— Mas eu já apertei quatro vezes.

Ela me olhou pelo vidro como se conseguisse ver a minha versão do tempo e simplesmente não reconhecesse.

— Você acredita que apertou.

Minha mão se mexeu mesmo assim. Com raiva agora. Apavorado agora.

Toquei.

O uniforme continuou verde e amarelo. O crachá continuou no mesmo lugar. A postura continuou calma.

Mas quem estava vestindo era um homem.

O mesmo cabelo loiro, só que cortado mais curto. As mesmas sobrancelhas claras. Os mesmos olhos vivos e afiados. O mesmo rosto, refeito. Como se alguém pegasse ela, virasse uma única decisão ao contrário e deixasse todo o resto seguir igual.

— Onde está a Dra. Halden? — As palavras rasparam pra sair de mim.

O homem se inclinou pro vidro. Quando ele falou, era a mesma voz que eu vinha ouvindo o dia inteiro, só que meio tom mais grave, como se tivesse caído dentro de um corpo diferente sem reclamar.

— Eu sou o Dr. Halden.

Eu recuei do pedestal. Meus joelhos cederam e eu fui pro chão, me arrastando pra trás até meu ombro encontrar... nada, porque a sala não oferecia nada pra me apoiar.

— Que porra tá acontecendo?

— Interessante — ele disse, baixo e satisfeito.

Eu me atirei de volta e bati no botão.

Apertei. A sala branca ficou azul.

Merda.

Apertei. Apertei. Apertei.

Meu dedo bateu até a pele ficar dormente.

Eu agarrei o ar. Olhei pra baixo. Uma alavanca, fina e inclinada, onde o botão tinha estado. Minha mão fechou nela antes de eu decidir.

Eu puxei.

O vidro escureceu. Sem médico. Sem rosto. Sem prova do lado de fora. Só um brilho além dele, grosso e sem cor, pressionando contra a borda como uma coisa que esperou por muito tempo.

Eu não conseguia parar.

Me tira daqui.

Puxa. Puxa. Puxa.

Meu braço queimava com isso. Meu corpo inteiro tremia, como se o único jeito de continuar vivo fosse continuar fazendo o mundo se mexer primeiro, continuar sendo quem mexia nele.

Acaba com isso.

Puxa, puxa, puxa, puxa, puxa, puxa.

Eu me ouvi fazendo sons, não palavras, só o ar rasgando do jeito errado. Minha garganta em carne viva. Meus olhos não achavam nada pra se agarrar. A sala piscava cores que não tinham nome. O chão virou ângulos.

Eu olhei pra baixo, e a alavanca tinha sumido. Um painel liso e vazio no lugar. Minha palma bateu nele mesmo assim.

Esmaga. Esmaga. Esmaga.

O painel se abriu numa emenda, num volume, em nada; a sala tentando engolir o próprio mecanismo inteiro.

Esmaga, esmaga, esmaga, esmaga—

Eu tentei contar. Eu não conseguia segurar o próximo número na cabeça. Eu bati do mesmo jeito. E de novo. E de novo.

Em algum ponto, eu parei de ser alguém que contava.

Eu não sei o que veio depois. Eu tentei de novo. O próximo número ainda não vinha. Pode ser que o tempo tenha passado. Não parece uma coisa que aconteceu comigo, tanto quanto uma coisa que aconteceu ao meu redor enquanto eu tava ocupado apertando.

Quando eu olho pra baixo, minhas mãos não parecem mãos.

Não errado de um jeito que eu consiga nomear. Errado de um jeito que faz nomear parecer um jogo que crianças brincam e depois esquecem. Eu tinha dedos uma vez. Eu tenho quase certeza disso. O formato do meu próprio polegar. A lembrança fica começando e nunca termina. Eu não sei quantos. Eu não sei como eu pareço. Eu parei de conseguir imaginar isso em algum lugar lá no meio dos apertos e, agora, quando eu tento, não vem nada; só um borrão onde uma pessoa costumava estar.

A sala é todas as cores ao mesmo tempo, dobrando em cima de si. Sem paredes, não de verdade. Sem chão, não exatamente. Só planos se deslocando, se rearrumando toda vez que eu pisco; cor se quebrando em padrão, em textura, em uma coisa que eu quase consigo sentir o gosto, mas não consigo falar. Às vezes, o chão é um som. Às vezes, eu solto o ar e sai alguma coisa junto que não é ar, se arrastando pro caleidoscópio e se dissolvendo antes de eu conseguir olhar direito.

A porta é uma luz. Um retângulo duro de luz, brilhante demais pra encarar direto, definido demais pra ignorar. Como se a sala tivesse mantido um limite só pra ter uma coisa pra esfregar na minha cara.

E a doutora ainda está lá.

Ela não mudou muito. Não recentemente. Não faz um tempo maior do que eu sei medir.

É isso que eu me digo. Eu seguro isso como se significasse alguma coisa.

Ela tem pelos. Não pelos macios. Não uma coisa que pertença a algo quente. Eles rastejam pelo contorno dela em ondas lentas, como estática com paciência, como um casaco costurado da ideia de um gato. Eles pegam as cores da sala e entortam elas em algo que se mexe como se estivesse vivo e parece que não está.

Eu engasgo. Nada sobe. Minha garganta tenta mesmo assim.

E as orelhas. Altas na cabeça dela, certinhas demais, precisas demais. Tremendo. As únicas coisas que sobraram que ainda parecem intenção. Elas são a coisa mais horrível que eu já vi na vida. Eu sei disso com clareza, mesmo agora, mesmo com todo o resto sem clareza.

Horrível.

A palavra ainda funciona. É uma das últimas que funcionam.

Ela me observa através da luz onde a porta costumava ser, do mesmo jeito que me observou no começo disso, seja lá quando foi. Paciente. Fascinada. Como se eu ainda fosse só um resultado que talvez saia limpinho se ela esperar tempo suficiente.

Ela tem essa aparência há mais tempo do que eu sei. Ela é a coisa mais familiar que sobrou.

Eu não sei há quanto tempo eu estou aqui. Eu perdi o número, e eu perdi o formato dos dias, e eu perdi, eu acho, várias coisas cujos nomes eu nem sei mais.

Eu só sei que eu cansei de ficar em pé faz um, puta, de um tempo agora.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Eu Trabalho com Cuidados Paliativos, e Estamos Escondendo o que Realmente Acontece Depois que Você Morre...

Preciso deixar isso registrado em algum lugar.

Eu trabalho com cuidados paliativos. Se você imagina uma unidade de cuidados paliativos como um lugar quieto e na penumbra, onde as pessoas partem suavemente em camas limpas com suas famílias segurando suas mãos, você está imaginando a versão que ainda vendemos nos folhetos. Você não está imaginando o trabalho real que fazemos, que é o gerenciamento de tempo.

Notei o problema pela primeira vez quando os pacientes pararam de chegar sentindo dor. Isso soa como uma coisa boa, certo?

Cerca de um ou dois anos atrás, mudamos nosso fluxo de admissão para pacientes em fim de vida. Transferências mais rápidas e escalonamento mais rápido de ordens de "apenas medidas de conforto". A linguagem que usamos é "redução do sofrimento". O que realmente queremos dizer é "redução de desperdício".

O que mudou clinicamente é simples. Ficamos muito bons em desligar órgãos. Eu só não entendia o que acontecia depois.

O primeiro paciente que me fez prestar atenção foi um homem na casa dos oitenta anos com câncer pancreático metastático. Ele parou de responder a estímulos às 2:11 da manhã. Às 2:18, seus sinais vitais estavam quase ilegíveis. Às 2:25, ele atendeu aos critérios para a fase ativa da morte. Às 2:27, seu prontuário já estava sinalizado para transferência expressa aos serviços pós-morte. Ele nunca acordou.

Fui designado para ficar sentado com ele enquanto sua família saía para falar com a assistência social. É uma prática comum. Chamamos de "cuidados de presença". Fiquei de pé do lado direito dele e li silenciosamente seu monitor.

E então eu vi.

Uma lágrima escorreu de lado pelo canto do olho esquerdo dele. Documentei que foi reflexo. É o que fomos treinados a escrever. Então, vi ele levantar lentamente dois dedos. Dois dedos. Apenas o tempo suficiente para eu ver suas unhas. A linguagem dos prontuários é muito indulgente. Você pode explicar quase qualquer coisa. Mas quando isso continua acontecendo, em diferentes diagnósticos, diferentes idades, deixa de ser coincidência.

O que ninguém te conta sobre trabalhar em cuidados paliativos é que a maior parte do seu trabalho não é cuidar de pessoas morrendo. É proteger o sistema daquilo que as pessoas morrendo complicariam.

Nós não testamos realmente a consciência após a falência dos órgãos. Testamos a resposta. Essas não são a mesma coisa. Existe uma janela estreita entre o momento em que o corpo não consegue mais se sustentar e o momento em que o cérebro para de manter a consciência interna. A janela costumava ser pequena o suficiente para ninguém se importar. A dor e o pânico faziam o trabalho por nós.

A medicina moderna de fim de vida mudou isso. Nós estabilizamos apenas o tempo suficiente para desligar todo o resto gentilmente. O que nunca reprojetamos foi a suposição de que a consciência entra em colapso junto com o corpo. Ela não entra. Ela persiste. Provamos isso por acidente.

Uma unidade de pesquisa em outra ala estava testando o monitoramento contínuo de EEG para otimização da sedação. Nem era sobre a morte, mas sobre reduzir custos de medicação e encurtar os cronogramas médios de cuidados de conforto. Precisamos ganhar dinheiro de algum jeito, eu acho.

Um paciente entrou em falência múltipla de órgãos completa durante o monitoramento. A máquina continuou rodando. Um médico notou atividade padronizada sustentada muito tempo após o colapso respiratório. Por quase três dias inteiros.

A revisão interna rotulou isso como "sinal pós-falência não interpretável". Essa frase agora é oficial. Não interpretável.

Eu vi o memorando interno porque eu assino os protocolos de conforto. Foi enviado aos chefes de departamento com uma recomendação clara. "Não alterar as definições de morte voltadas ao público". Não expandir o monitoramento. Não documentar hipótese de consciência residual. Não discutir com as famílias.

Se redefinirmos a morte para incluir o fim da consciência em vez do fim da função dos órgãos, tudo desmorona. O agendamento de transplantes entra em colapso. O cronograma dos seguros de saúde entra em colapso. O próprio sistema de saúde entra em colapso, porque essa indústria é financiada e auditada em torno da eficiência com que as pessoas deixam de ser faturáveis. Precisávamos de uma maneira de projetar a espera para ser invisível.

É isso que o cronograma de sedação realmente faz. Oficialmente, é titulação baseada no conforto. Não oficialmente, alinha-se com as janelas de pico. Existe um padrão previsível agora. Entre doze e dezoito horas após a falência sistêmica total, a atividade cortical residual aumenta. Em outras palavras, a consciência. A habilidade de reconhecer. É quando os movimentos começam, as lágrimas, os dedos. É quando somos instruídos a aumentar a dose, não porque os pacientes estão sofrendo, mas porque estão se tornando detectáveis.

Eu não aceitei totalmente isso até ficar tempo suficiente com uma paciente para ver a repetição.

O nome dela era Maribel. Insuficiência cardíaca em estágio terminal. Suporte respiratório retirado, apenas medidas de conforto. O marido dela ficou sentado com ela a maior parte do dia, apenas segurando a mão dela. Quando ele foi embora, eu assumi o turno da noite.

À 1:42 da manhã, ela levantou o dedo indicador direito.

À 1:44, de novo.

À 1:46, de novo.

Ela não estava tendo espasmos, ela estava marcando o tempo.

Na noite seguinte, um paciente diferente. Três movimentos curtos da mandíbula. Pausa. Mais três movimentos curtos da mandíbula. Pausa.

É impressionante a rapidez com que o cérebro humano procura por padrões quando você se permite vê-los. Nós fazemos rodízio de equipe agressivamente na nossa unidade. Quanto mais tempo você fica com um paciente, maior a probabilidade de notar a consistência. Quanto mais tempo você fica no mesmo corredor, maior a probabilidade de notar que a consistência se espalha.

Porque os pacientes conseguem ouvir, mesmo quando não conseguem responder. Mesmo quando seus corpos já estão sendo tratados como objetos logísticos. A consciência não desaparece quando seus órgãos param. Ela fica presa dentro de um corpo que não se move mais. A espera não é pacífica. Você sente o tubo de sucção. Você sente a cama se ajustar. Você ouve seu nome sendo dito cuidadosamente, do jeito que a equipe fala quando acredita que você não está lá. Você ouve sua família sendo informada de que você está confortável. Você ouve o silêncio depois. E você espera.

Nós não contamos isso às famílias. Contamos o que somos legalmente autorizados a contar: que seu ente querido está descansando. Contamos que o corpo está se desligando naturalmente. Não contamos que a mente ainda está rodando com oxigênio emprestado e química residual.

Finalmente quebrei o protocolo três semanas atrás. Uma mulher na casa dos quarenta. Glioblastoma. Envolvimento neurológico grave. A irmã dela estava sentada ao lado da cama e sussurrou: "Se você consegue me ouvir, aperte minha mão". Nada aconteceu, mas eu já tinha aprendido a parar de olhar para as mãos.

Eu observei a mandíbula dela.

Abre, Fecha.

Pausa.

Abre, Fecha.

Pausa.

Inclinei-me para perto e falei baixo. "Se você consegue me ouvir, mova sua mandíbula uma vez."

Abre, Fecha.

Foi tão pequeno que quase me convenci de que era movimento de ar. A irmã dela viu também. Falei para ela ir pegar um café.

Documentei agitação no prontuário. Aumentei a sedação. É isso que me mantém empregado. É isso que mantém a unidade operando.

Existe um problema agora, cuidados paliativos em casa são mais baratos. As famílias estão instalando câmeras. Câmeras minúsculas com visão noturna e sensibilidade sonora. As pessoas estão assistindo agora, dando replay. Elas agora conseguem ver o mesmo levantar de dedo. Os mesmos padrões de mandíbula. Os mesmos rastros de lágrimas. Elas estão postando perguntas em grupos de cuidadores. Estão usando palavras como "espasmo" e "reflexo" e "provavelmente nada". No começo, mas depois elas comparam. A espera tem um ritmo.

Estou escrevendo isso porque li as projeções internas. Assim que isso atingir um certo limite de reconhecimento público, a resposta não será reforma, será automação. Mais sedação, sedação mais cedo, sedação mais profunda. Não para reduzir o sofrimento, mas para reduzir a detecção.

Eles não entram em pânico quando há um problema moral. Eles só entram em pânico quando há um problema de agendamento. O dinheiro precisa continuar circulando.

Nós resolvemos a morte, nós a otimizamos. Fizemos com que ela coubesse perfeitamente dentro de contratos, ciclos de faturamento e softwares de gerenciamento de leitos. O que criamos acidentalmente é algo muito mais difícil de gerenciar. Uma população de pessoas que ainda está aqui, e não tem para onde ir, e nenhuma maneira de dizer quanto tempo a espera realmente dura.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Eu sei quem roubou a sua alma

A gente costuma assumir que as nossas almas (se é que a gente acredita em alma) ficam em algum lugar dentro de nós — mas a gente não podia estar mais enganado.

Faz mais ou menos um mês que o Jerry se mudou pra casa ao lado. Eu moro numa comunidade pequena de aposentados há dez anos e sempre tento ser um bom vizinho. Apesar da idade, eu ainda tenho o corpo relativamente inteiro, e gosto de me fazer útil pros moradores menos afortunados. Eu estava esperando fazer um novo amigo e ajudar no que precisasse.

Bati na porta, ele atendeu, e eu vi um homem baixo, curvado, com um cabelo branco fino que caía na frente de uns olhos azuis penetrantes. O Jerry parecia incrivelmente velho — mais velho do que qualquer pessoa que eu já tinha visto. Eu pensei comigo mesmo que, se eu tenho 85 anos, esse homem devia ter 115.

Eu me apresentei e ele me convidou pra entrar. Apesar do corpo aparentemente decrépito, ele se locomovia quase tão bem quanto eu. A gente trocou um pouco de conversa fiada, e eu perguntei se ele precisava de ajuda pra se ajeitar.

“Não, já tá tudo no lugar, obrigado. Mas você faria um favor pra mim? Você podia passar aqui todo dia, mais ou menos a essa hora, e pegar aquele pote pra mim?”

Ele apontou pra um vidro grande de conserva, em cima dos armários da cozinha. Eu era alto o bastante pra alcançar, mas ele precisaria de uma escadinha — e eu tenho certeza de que ele não queria correr esse risco.

“Se você não se importar, claro. Ia me ajudar muito. É muito precioso pra mim, e eu nunca me perdoaria se deixasse cair tentando pegar.”

Eu disse que ajudaria sempre que ele precisasse. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha quando eu concordei, e eu achei que aquilo tinha um quê… sinistro.

“Você se importaria de pegar agora pra mim?”

Eu peguei o pote e coloquei em cima da mesa da cozinha. Dentro tinha uma camada de algum tipo de areia, com o que pareciam milhões de bolinhas minúsculas e coloridas por toda parte e por cima dela. Olhando pra dentro do vidro, eu me senti quase imediatamente hipnotizado por como aquelas pequenas esferas de luz mudavam de uma cor absurdamente vibrante pra outra, e por como elas se mexiam e pulsavam na areia, aparentemente por vontade própria. Espantado, eu perguntei o que era.

“É uma coleção minha. Não existe nada igual no universo. Você não acha?”

Eu concordei e perguntei do que era a coleção.

“Acho que você poderia chamar de ovos. Quando eu era jovem, eu era uma espécie de explorador. Eu encontrei esses aqui numa das minhas viagens pra um lugar bem remoto. Você nunca teria ouvido falar — muito menos conseguiria achar num mapa. Ha! Pouquíssimos já puseram os olhos nisso, e ninguém além de mim pode dizer que encostou em um deles.”

Foi uma resposta muito estranha, e eu queria saber mais, mas decidi não insistir se ele não quisesse explicar. O Jerry pegou outro pote no armário da cozinha, cheio de um líquido escuro, meio arroxeado. Ele colocou esse pote ao lado do pote com as esferas na mesa, enfiou o dedo no líquido e mexeu. Quando o dedo já estava bem molhado, ele tirou e deixou pairando sobre o outro pote, deixando pingos daquele fluido desconhecido caírem sobre as esferas e a areia. Ele repetiu esse processo três vezes, então guardou o pote do líquido de volta no armário. Eu perguntei por que ele precisava fazer aquilo com os ovos.

“É uma solução nutritiva, pra manter eles saudáveis. Eu só preciso fazer mais uma coisa, e aí eu peço pra você devolver o pote pro lugar.”

Ele enfiou a mão no vidro, pegou uma pitada das esferas, colocou na boca e engoliu. Eu soltei um suspiro alto, e ele deu uma risadinha. Chocado, eu perguntei por que ele faria aquilo, se a coleção dele era tão rara e preciosa quanto ele dizia.

“Não se preocupe, vai ter mais. Eu preciso manter o equilíbrio. Devolve pro lugar agora, pode ser?”

Eu fiz o que ele pediu e inventei alguma desculpa pra ir embora. Aquilo tudo tinha sido muito esquisito e perturbador, e eu me arrependi de ter concordado em fazer aquilo todos os dias. Ele se despediu, e eu fui pra casa.

Todos os dias na semana seguinte, eu passei na casa dele pra pegar o pote estranho pra ele poder alimentar os ovos e comer uma pitada. Se eu fazia alguma pergunta, ele me dava uma resposta vaga e insatisfatória, então eu parei de tentar. As esferas no pote brilhavam, e eu só ficava ali, em silêncio, encarando, até o ritual acabar.

O acidente aconteceu pouco depois da primeira semana. O Jerry estava com o dedo pairando sobre o pote com areia, como sempre, mas o braço dele tremeu e ele acabou virando o recipiente. O que parecia milhares daquelas esferas misteriosas rolou pelo chão. Eu fiquei parado, congelado, sem conseguir respirar, enquanto via todas aquelas luzes se apagarem, uma por uma. Um rio de palavrões e palavras numa língua que eu não reconhecia jorrou da boca do Jerry. Os ovos no chão desapareceram diante dos meus olhos, sem deixar qualquer vestígio de que um dia tinham estado ali.

“De agora em diante, eu preciso que você fique de olho em mim enquanto eu faço isso”, disse Jerry, agora com uma calma… antinatural. “Isso não era pra ter acontecido. Não agora.”

Eu nem tive coragem de perguntar o que aquilo significava. Só balancei a cabeça, concordando, e a gente continuou de onde tinha parado.

Mais tarde naquela noite, eu liguei a TV no jornal. Tinha acontecido um terremoto extremamente inesperado numa cidade da Ásia, que tinha causado milhares de mortes. Eu não sei por quê, mas um pensamento macabro me veio à cabeça: será que tinha alguma ligação entre a queda das esferas e aquele desastre natural? Rindo sozinho, eu descartei a ideia na hora. Como o que eu tinha visto na casa do Jerry poderia ter causado um fenômeno perfeitamente explicável?

Eu continuei acompanhando o ritual na casa do Jerry pela semana seguinte, e aquele pensamento estranho não saía da minha cabeça. Por fim, eu decidi fazer alguma coisa pra testar a teoria. Enquanto o Jerry esticava a mão pra pegar o pote do líquido e estava de costas, eu enfiei a mão rápido no pote com areia, peguei um punhado de ovos e esmaguei na minha mão. Um segundo depois, eu abri o punho e vi o que eu esperava: absolutamente nada. O Jerry não desconfiou de nada e seguiu a rotina como sempre. Eu fui embora quando ele terminou e corri pra casa o mais rápido que um velho como eu conseguia.

No jornal, outra calamidade. Um arranha-céu tinha desabado e destruído um quarteirão inteiro. De novo, milhares de mortos. Eu não conseguia entender como, mas aquelas esferas luminosas estavam, com toda certeza, ligadas àquelas mortes de algum jeito.

No dia seguinte, eu fui na casa do Jerry como de costume. Mas, quando eu vi ele dessa vez, ele parecia ainda mais velho do que o normal. Se antes ele parecia ter 115, agora parecia ter 200. A pele dele grudava nos ossos com tanta força que eu conseguia ver o contorno do crânio por trás do rosto. Caminhando devagar na minha direção, ele apontou um dedo torto e trêmulo pro meu coração.

“O que você fez? O que você fez?”, ele sussurrou pra mim.

Eu tentei disfarçar. Eu disse que não tinha feito nada além do que ele tinha mandado.

“Mentiroso. Você mexeu no meu pote. Você destruiu o que era meu pra destruir. Eles são meus, entendeu? Você não tem direito. Direito nenhum! Você vai pagar por isso. Espere e você vai ver.”

O Jerry virou as costas e entrou na cozinha, e eu fui atrás, devagar. Ele esticou o corpo pra alcançar o pote misterioso, e o tronco dele se torceu e se esticou pra cima até o objeto ficar na mão dele. Atônito, eu vi o tronco dele se desenrolar parcialmente e trazer o rosto do Jerry ao nível do meu. Agora já não tinha pele nenhuma nele — era só osso. A mandíbula dele batia num movimento de deboche sinistro, fora de sincronia com as palavras, enquanto ele me dizia: “Seu idiota… você é meu pra destruir. Eu consegui esse poder pagando um preço. Você não tem direito nem à própria vida, muito menos à dos outros.”

Ele enfiou a mão no pote e segurou uma única esfera de luz, infinitesimalmente pequena, entre os ossos que um dia foram seus dedos. O Jerry — ou seja lá o que aquela criatura era — respondeu à pergunta que eu estava apavorado demais pra fazer: “Eu sou o anjo da morte.”

Eu não lembro exatamente o que aconteceu depois. Toda a coragem que ainda me restava subiu até ferver, e, num rompante cego de instinto de autopreservação, eu me mexi pra salvar a minha vida. De algum jeito, eu consegui arrancar a esfera da pegada esquelética dele e escapar — mas não sem levar alguns cortes feios e queimaduras inexplicáveis pelos braços e pelo rosto. Eu saí correndo da casa o mais rápido e o mais longe que eu pude, o que não era nem muito rápido nem muito longe, mas, quando eu fiquei sem fôlego, percebi que não tinha ninguém me seguindo. Devagar, com cuidado, eu voltei pra comunidade de aposentados. Quando eu cheguei na casa do Jerry, ela estava vazia, limpa. Não havia qualquer sinal de que ele já tivesse morado ali, e tanto o pote de almas quanto o pote do líquido que nutria as almas tinham sumido.

Meus ferimentos precisam de atendimento médico, mas eu não posso me arriscar a ir ao hospital. Eu tenho que cuidar da esfera e garantir que nada aconteça com ela. É a minha vida. Eu consegui trazer ela pra casa sem deixar cair nem esmagar na mão e agora deixei ela dentro de um pote com um pouco de terra. Todo dia, a luz dela fica um pouco menos forte, as cores um pouco menos vivas. Eu estou morrendo. Sem um jeito de conseguir o fluido nutritivo, não vai demorar muito. Eu estou morrendo. A gente acredita que tem controle sobre a própria alma, mas não tem. Roubaram elas de nós. Eu estou morrendo.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade...

Sou entomólogo, o que quer dizer que eu me dedico ao estudo dos insetos. Falar do meu trabalho costuma entediar as pessoas até quase chorarem, mas as crianças ficam absolutamente fascinadas com o que eu faço; por isso comecei a dar palestras educativas para escolas que visitam o museu local de história natural. Eu adorava inspirar a garotada sobre a classe biológica mais fascinante do reino animal.

Fascínio e terror não são coisas que se excluem, como eu aprendi seis meses atrás, e estou começando a desejar que meus amigos e minha família — sempre tão desinteressados — estivessem certos.

Seria melhor pra todo mundo se, de fato, não houvesse nada de extraordinário nos insetos.

Depois de uma das minhas palestras no museu, no fim do verão, um garoto esperou o professor se distrair com os colegas dele, aí se afastou do grupo e, meio tremendo de medo, me contou sobre a descoberta de um inseto novo: um com asas de um “branco esquisito” e que fazia um “zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção”.

Ele não foi a primeira criança empolgada (nem o primeiro adulto, inclusive) a achar, por engano, que tinha descoberto uma espécie nova — mas com certeza foi o primeiro a estar apavorado. O medo dele atiçou minha curiosidade, então quando ele mandou eu ir embaixo do píer da praia da cidade pra ver com meus próprios olhos o inseto de asas brancas, foi exatamente o que eu fiz.

Eu estava a uns bons 90 metros de distância quando avistei pela primeira vez os bichinhos de asas brancas. Eles emitiam um zumbido nauseantemente íntimo, como papel amassando dentro dos meus canais auditivos, como se estivessem mais perto de mim do que pareciam. Eu disse a mim mesmo que deviam ser moscas-brancas de estufa, mas insetos sugadores de seiva assim não teriam nada a ver com um píer de madeira caindo aos pedaços.

Além disso, a verdade é que não pareciam moscas-brancas.

Eram umas quatro vezes maiores do que deveriam ser, e aquele branco não era branco como eu já tivesse visto antes. “Branco esquisito”, como o garoto tinha chamado. Ainda assim, descartei isso como coisa da minha cabeça privada de sono, do mesmo jeito que descartei aquele som alienígena de papel enrugando — diferente de qualquer inseto que eu já tivesse ouvido. Um zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção. O garoto estava certo de novo. Eu já tinha atravessado aquele píer dezenas de vezes e provavelmente nunca ouvi os bichinhos, apesar de passar bem por cima deles. Só agora, que eu estava procurando e ouvindo com intenção, foi que eu tinha percebido.

E mesmo que eu tentasse ignorar todas essas estranhezas, tinha uma coisa impossível de ignorar: o jeito que eles fugiam.

Os insetos mergulharam no mar.

Eu devo ter ficado pálido. Eu nunca tinha visto nada parecido. Insetos suicidas? Eu levantei essa hipótese, mas fui até a água lambendo a beira da praia e não vi um único inseto afogado boiando na superfície. Os insetos voadores tinham nadado por baixo d’água e sumido.

Meus colegas riram da minha história de “inseto voador aquático”, e eu me peguei rindo junto. O mais perturbador é que a lembrança já estava ficando turva na minha cabeça. Era um tipo de letargia diferente de tudo que eu já tinha sentido. Eu sinceramente acredito que, se aquele garoto não tivesse voltado ao museu com os pais uma semana depois, meu cérebro teria apagado qualquer conhecimento do que eu vi e ouvi.

Os pais deram risadinhas enquanto o filho falava daquele inseto “novinho em folha”. Disseram que ele tinha imaginação demais, e eu dei um sorrisinho, concordando, mas aí o garoto disse uma coisa que gelou minha pele.

“Você já esqueceu, né? É isso que eles fazem.”

O pai bufou, debochado. “São só insetos, campeão. Tenho certeza de que o doutor Farrow consegue identificar a espécie.”

Os pais pediram desculpa por tomarem meu tempo e puxaram o garoto pra longe, mas as palavras dele desenterraram aquela memória abafada da minha visita ao píer. Eu me lembrei de ouvir um som impossível de descrever. Eu me lembrei de ver insetos, de uma cor impossível, mergulharem na água e desaparecerem.

Claro que, como cientista com os pés ainda fincados na realidade, eu achei que talvez estivesse tendo um surto psicótico. O único jeito de ter certeza era voltar ao píer mais tarde naquele mesmo dia.

Eu fui até a praia, parei à minha distância “segura” de uns 90 metros e observei as pessoas caminhando ao longo da passarela elevada do píer. Lá embaixo, não havia insetos — só uma mulher parada com o rosto esticado pra cima, tentando espiar pelas frestas entre as tábuas do píer acima dela. Ela se debatia de um jeito errático, movendo os membros duros e estalando os lábios, como um peixe dourado, como se estivesse tendo uma conversa muda com alguém. Eu segui a linha do olhar dela até uma mulher no píer; ela conversava com as amigas e gesticulava com entusiasmo, mexendo os braços.

A mulher lá embaixo estava imitando a mulher lá em cima.

Eu decidi que era como ver um bebê aprendendo com um adulto — só que aquilo era uma mulher adulta aprendendo com outra mulher adulta. Ela é uma mulher? veio um pensamento horrível quando eu encarei a imitadora embaixo do píer, e isso arrancou de mim um gemidinho involuntário de terror, lá do fundo. Foi um som baixo. Baixo demais pra alguém a 90 metros de distância ouvir. Mesmo assim, a mulher que imitava congelou na hora, como se estivesse brincando daquela brincadeira infantil de estátua.

Não passou nem um segundo, e ela virou o rosto na minha direção num estalo.

Os olhos dela eram inteiramente brancos; só esclera, sem pupilas. Um branco impossível, como o tom que eu só tinha visto uma vez na vida. E quando pedacinhos da pele dela começaram a se soltar, descamando, carregados pelo vento na minha direção, eu percebi que eram insetos.

Eu percebi que ela era insetos.

Eu disparei pro estacionamento da praia, sem fôlego demais até pra gritar. Mas quando eu virei pra olhar pra trás, não tinha nada além de um pedestre preocupado — provavelmente tentando entender por que eu estava tão desesperado pra chegar no meu carro. Não havia insetos de asas brancas. Não havia mulher.

A partir daquele dia, eu me esforcei de verdade pra evitar aquela cidade litorânea e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Esquecer os insetos. Esquecer o garoto. Voltar pra ignorância feliz, por mais que isso fosse contra meus princípios científicos. Meu medo engoliu minha curiosidade.

Esquecer funcionou — até certo ponto. Aquele lodo misterioso voltou pra minha cabeça, afogando minhas memórias; sempre acreditei que era um mecanismo de defesa dos insetos.

Mesmo assim, algumas semanas depois, enquanto eu dirigia por uma cidade próxima, eu vi ela atravessando a rua: a mulher debaixo do píer. Quando eu parei, ela parou também, e virou a cabeça pra me mostrar os olhos — que não eram mais vazios brancos. Tinham pupilas castanhas por cima do branco. Ela parecia humana, se movia como humana, e eu tinha certeza de que também soaria humana. Mas eu vi a falsidade daqueles olhos e o sorriso embaixo deles, e quando eu realmente escutei, eu ouvi de novo: aquele som de papel amassando, se enfiando pelas frestas da lataria do meu carro pra afogar o interior do veículo.

O zumbido enlouquecedor dos insetos aquáticos de asas brancas parecia quase carregar, escondido no chiado, um aviso; parecia quase carregar palavras.

A gente se vê.

Por um instante, eu achei que ela ia se jogar com o corpo em cima do capô. Minha garganta inchou e quase fechou de terror enquanto eu esperava ela fazer isso — e ela com certeza comunicou essa vontade com os olhos. Graças a Deus, ela terminou de atravessar a rua, então eu pisei fundo no acelerador, acreditando que tinha escapado dela ileso mais uma vez. Aí eu olhei no retrovisor e soltei um soluço apavorado.

Sangue estava escorrendo dos meus ouvidos.

As palavras sussurradas dela, de papel, tinham me cortado.

Eu consegui esquecer de novo, porque aquele lodo preto de memória era uma bênção tanto quanto era um horror. Mas não dá pra esquecer pra sempre. Acho que, como aquele garoto no museu, eu abri a Caixa de Pandora. Não importa quantas vezes eu enterrasse os insetos e a mulher, alguma coisa sempre vinha com uma concha e puxava o lodo pra servir a verdade de novo. Aquele som de papel amassando me perseguia, e sempre que eu ia atrás da fonte, eu acabava vendo alguém que não parecia totalmente certo: escleróticas meio encardidas e movimentos estranhamente ensaiados.

Foi quando eu parei de me esconder disso. Eu gravei áudio daquele som estranho de papel enrugando em público e tirei fotos às escondidas de desconhecidos com olhos estranhos. Eu enchi o saco de outros cientistas com o que eu tinha encontrado, e bastou uma semana pra o instituto me mandar embora, alegando uma suposta “preocupação com seu bem-estar mental”.

Alguns colegas prometeram, com um ar de desculpas, que não estavam sendo teimosos nem fazendo de conta que não viam. Eles também estavam inquietos com meus dados sobre essa espécie de inseto não classificada, mas algum “chefão” do instituto tinha ameaçado que eles largassem isso pra lá — ou seriam mandados embora comigo.

Um colega chegou a dizer que tinha cavado um pouco e descoberto incidentes parecidos em outros institutos científicos. “Meu conselho? Para de cavar agora, doutor Farrow. Agradece pelo que você ainda tem. Já ouvi falar de pesquisadores tendo destinos piores do que uma demissão forçada.”

Eu me senti justificado. Claro que não era só um garotinho que sabia dos insetos.

Gente poderosa está encobrindo isso.

Gente que, eu temo, talvez nem seja gente.

Olha só: nos últimos cinco meses, eu venho torrando minhas economias numa caça por respostas. Tenho viajado de continente em continente, país por país, cidade por cidade, e município por município. Tenho estudado pessoas por horas todos os dias: gravando, fotografando e chegando perto de assediar, eu admito. Eu quase não dormi. Quase não comi. E depois de compilar dados de 36.794 “pessoas” ao longo de 189 dias, sabe o que eu descobri?

3.707 indivíduos tinham olhos com uma coloração estranha ou, quando eu realmente escutava, emitiam aquele zumbido de papel amassando; e eram sempre as “pessoas” que me encaravam com sorrisos duros, inabaláveis, e a maior desconfiança. Muitos paravam onde estavam e sussurravam ameaças horríveis com suas vozes de papel, fatiando meus canais auditivos e fazendo o sangue escorrer livre. Uma ou duas vezes, os mais ousados chegaram a avançar pra cima de mim, e eu saí correndo, morrendo de medo.

Eu encontrei 3.704 não humanos que pareciam humanos.

10%.

10% das pessoas vêm do mar como insetos de asas brancas, imitam nossos comportamentos e depois viram a gente.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon