sábado, 16 de maio de 2026

A Era da Iluminação

Meu pai não era lá muito bom em ser pai.

Não tô dizendo que ele era o próprio Satanás encarnado, ele só tinha um mau gênio, só isso. Éramos cinco irmãos, e depois que a mãe morreu ele ficou preso criando a gente sozinho, então ele tinha que manter a ordem com mão de ferro. Do contrário a gente não seria nada além de vagabundos encrenqueiros.

Eu era a segunda mais velha, minha irmã Naomi era a mais velha, e aí tinha a Abby, a Caroline e o Liamzinho. No momento em que a Naomi entrou no ensino médio ela ficou responsável por cuidar da casa e garantir que todo mundo estivesse em ordem até o pai chegar em casa.

Ela era super mandona com isso, mas ela só não queria ver o Pai bravo. E ele era bem assustador quando ficava bravo — jogava coisas contra as paredes, gritava que a gente era tudo um bando de pirralhos egoístas que não respeitavam ele, às vezes a gente levava uns tapas, mas era mais os gritos mesmo. Naomi ficou bem aliviada quando eu entrei no ensino médio — significava que ela não era mais a única que tinha que ser mandona.

A gente se esforçava, sabe — limpávamos a casa, fazíamos a lavanderia, todo mundo fazia o dever de casa e quando o pai atravessasse a porta o jantar melhor estiver pronto ou quase pronto e a mesa posta.

Como eu disse, a gente se esforçava. Nem sempre a gente conseguia, porque as crianças ficavam mal-humoradas ou não queriam limpar ou escondiam o dever de casa da gente. Não dava pra esconder dever do pai, porém. Ele quase conseguia cheirar o negócio.

Foi nas férias do Dia de Ação de Graças que eles apareceram na nossa porta.

A gente se saiu bem naquele dia, o Pai nem parecia bravo quando a gente sentou pra jantar. E aí a campainha tocou.

Dava pra ver a veia saltar na testa dele do outro lado da mesa. Eu quase afundei no chão, a gente tinha se saído tão bem naquele dia e alguém tinha que interromper o jantar do pai. Pouca coisa o deixava mais puto do que isso.

Inicialmente ele ignorou, resmungando algo sobre vendedores, mas a gente todo mundo ficou tenso. A Caroline ficava empurrando as ervilhas pelo prato em vez de comer e o Liam chupava o dedão, aos quatro anos ele já era velho demais pra isso, mas era um hábito nervoso que a gente ainda não tinha conseguido tirar dele. Eu rezei em silêncio pra que as pessoas na porta entendessem a deixa e fossem embora.

Outro ding-dong depois e eu soube que a gente não tinha tanta sorte assim.

O Pai empurrou o prato pra longe e saiu pisando forte até a porta enquanto xingava pra caralho. A Naomi gemeu e enterrou o rosto nas palmas das mãos. Todo o nosso esforço tinha sido arruinado agora por uns babacas interrompendo o jantar.

Já que a gente já tava fodido, eu imaginei que não podia piorar se eu esgueirasse atrás do Pai e espiasse pela parede pra ver quem tava na porta.

Meu pai abriu a porta e soltou um "O QUÊ?!" furioso pros de fora.

Obviamente não eram vizinhos, a maioria sabia que não era bom vir na nossa casa, mas também dava pra perceber que não eram vendedores. Era um casal, um homem e uma mulher. A mulher tinha cabelo castanho cacheado e um sorriso largo, o homem tava ficando careca precocemente e era mais sério. A mulher ofereceu a mão pro meu pai, completamente perdida pro fato de que ele parecia prestes a explodir. "Oi, eu sou a Ann, esse é meu marido Kennen. A gente veio da igreja lá da frente. Podemos entrar?"

Eu jurei que o rosto do Pai ficou mais vermelho que um tomate, antes de ele simplesmente rir na cara deles. "Caiam fora da minha varanda, não vou comprar porra nenhuma dos seus livros malditos nem ir em porra nenhuma de reunião maldita." Ele foi bater a porta na cara deles... ou teria batido, se o Kennen não tivesse enfiado o pé na porta.

A porta bateu de volta aberta e o Kennen conseguiu disfarçar a careta com uma tosse. A Ann ainda tava sorrindo, oferecendo um panfleto pra frente. "Entendo que o senhor provavelmente é um homem ocupado, mas ninguém não tem tempo pra verdade. A que horas o senhor vai estar disponível pra uma conversa?"

Meu pai arrancou o panfleto, amassou e jogou no lixo bem do lado da porta. "Nunca. Eu trabalho em tempo integral e tenho cinco pirralhos pra criar sozinho," ele rosnou.

"Ah, sinto muito ouvir isso, mas se o senhor estiver procurando apoio, a igreja oferece creche e tem serviços de aconselhamento pra quem precisa de uma ajudinha no dia a dia —"

Meu pai bateu a porta de novo, dessa vez o Kennen não tentou impedir. Eu escorreguei de volta pra sala de jantar pra não ser pega longe da mesa, mas não adiantou. O Pai voltou furioso, gritou com a Caroline por brincar com a comida e mandou todo mundo ir pros quartos, agora mesmo. Eu não tinha dado mais que uma mordida no bolo de carne, mas não importava — ninguém merecia jantar agora.

O negócio com um pai rígido é que você aprende a dar um jeito nele. Mesmo que o preço fosse alto a pagar, eu sabia como me esgueirar pelo meu pai pra roubar alguma coisa pra comer. Eu não conseguia dormir com meu estômago roncando daquele jeito.

Depois de me empanturrar com o bolo de carne frio e gorduroso que ainda tava na mesa, eu voltei pro meu quarto só pra parar na lata de lixo.

Eu quase voltei pro meu quarto, sabendo que se o meu pai acontecesse de perceber que eu roubei o panfleto do lixo eu ia levar uma surra e ficar de castigo. Mas minha curiosidade pesou mais que meu medo e eu cuidadosamente levantei o papel amassado do lixo antes de correr pro meu quarto, cuidadosa pra não pisar em nenhum piso que rangia. Eu tinha aprendido onde cada um ficava ao longo dos meus anos de esgueirar por aí.

Antes que você faça uma suposição, isso não era dos Testemunhas de Jeová. Ou de qualquer outra igreja que eu já tivesse ouvido falar antes.

Essas pessoas eram dos Iluminados. O panfleto não era nada demais, papel branco com impressão preta e uma figura cartunesca de uma lâmpada na frente, provavelmente algum tipo de arte de clipart sei lá. Mas as palavras de dentro... elas fizeram algo por mim. Eu ainda tenho as primeiras frases decoradas... "A era da iluminação está sobre nós. A razão por trás de tudo existe conosco."

Eu devorei as poucas páginas por dias, escondendo o panfleto no meu travesseiro pra poder ler toda noite antes de dormir. Eles diziam tudo que eu queria ouvir — como a gente tá todo mundo aqui pra se ajudar, como a vida deveria ser sobre amar e respeitar os outros... era verdadeiramente iluminador.

Eu desejei tanto que a Ann e o Kennen voltassem, eu tinha tantas perguntas que queria fazer pra eles. Eu ainda tava um pouco cética, naquela época, mas logo depois que a gente chegou da escola teve aquela batida na porta. Eu atendi e lá estavam eles. O Kennen agora tava com uma muleta, aparentemente o Pai quebrou o pé dele, mas não tinha mágoa.

"Eu li o panfleto," eu soltei antes que eles pudessem dizer alguma coisa. A Ann piscou algumas vezes antes de sorrir de orelha a orelha.

"Eu esperava que alguém lesse," ela disse, pegando minha mão na dela e apertando com força, "Podemos entrar? Só por alguns minutos."

Eu os convidei pra entrar, servi limonada e a gente conversou. Eles explicaram tudo.

Os Iluminados reverenciavam algo chamado Seres. Eles não deviam ser adorados, apenas respeitados e consultados por orientação. Os Seres estavam aqui quando a gente chegou pela primeira vez, depois que a gente nadou pelas estrelas como peixes. O inferno de fato ficava no sol, ou bem, um portal pro inferno ficava. A gente teve sorte de ter conseguido e não ter sido distraído pelo calor.

O Ser que o Kennen e a Ann reverenciavam mais se chamava Riesis, e Riesis pediu pra eles virem na minha casa. Eles sabiam que alguém ia se interessar em ouvi-los falar. E embora sim, naquela época a parada dos Seres parecesse boba, o Kennen e a Ann eram legais. A gente todo mundo gostava deles, até a Naomi, que ficou ainda menos impressionada pelos Seres do que eu. O Liam praticamente tava enrolado no colo da Ann quando o Pai chegou em casa.

Nem uma tarefa tinha sido feita, o dever de casa nem tinha sido tocado, e a Naomi tinha esquecido completamente de começar o jantar quando a porta bateu aberta. Isso significava que o dia do Pai no trabalho tinha sido uma merda, então a gente melhor tinha feito tudo que precisava ser feito. O que. A gente não tinha feito.

Quando ele viu a Ann e o Kennen na nossa sala, o rosto dele foi do branco pro vermelho pro roxo tão rápido que eu pensei que ele tinha tido um derrame.

"Que porra eles tão fazendo na nossa casa?" A raiva dele imediatamente se virou pra Naomi, que começou a tremer.

Eu não podia deixar ela levar a culpa, não dessa vez, então eu levantei e falei a verdade. "Eu convidei eles, Pai, eles são legais —"

Eu não consegui contar pra ele tudo que eu sabia agora, como eu tinha me tornado iluminada. Antes que eu pudesse, ele me deu um tapa tão forte na cara que eu acho que quase perdi um dente.

"Você é burra?!" Cuspitinho voou dos lábios enfurecidos dele enquanto ele apontava pro casal. "Esses malucos nem são de uma igreja de verdade!"

Pela primeira vez, eu vi a Ann parecer levemente irritada. Os lábios dela se apertaram numa linha firme enquanto ela se levantava. "A princípio eu pensei que o senhor fosse só cínico, mas agora eu vejo que o senhor é tão mente-fechada quanto a maioria do mundo. A iluminação tá chegando, senhor, queira o senhor ou não."

"Voltem pras suas histórias de peixe, sua vadia louca," meu pai escarneceu, "E saiam da minha casa antes que eu chame a polícia e diga que vocês e seu marido tavam fazendo umas merdas esquisitas com meus filhos."

Meu rosto ficou vermelho com a implicação e a Ann gaguejou de raiva antes de respirar fundo e o sorriso voltar pro rosto dela, um sorriso que não chegava nem perto de parecer feliz. "Tudo bem. Bom dia, senhor," ela andou até a porta, o marido mancando logo atrás dela.

Depois que eles saíram de casa eu levei a pior surra da minha vida. Meu pai me fez devolver o panfleto e ele o rasgou em pedacinhos minúsculos. Eu nunca mais seria capaz de lê-lo. Eu nem conseguia deitar de costas na cama naquela noite de tão dolorida que eu tava. Meus irmãos foram ameaçados com coisa pior se alguém mencionasse os Iluminados de novo.

Eu dormi chorando porque nunca mais seria capaz de sentir aquela felicidade que eu senti com a Ann.

No meio da noite eu acordei com alguém desabando contra a minha porta. Me caguei de medo, quase caí da cama.

Eu ouvi um gorgolejo e contra o meu bom senso, eu me levantei e fui até a porta e abri.

Lá estava meu pai, caído no chão, a frente toda encharcada de sangue jorrando de um ferimento irregular na garganta. A Naomi tava parada bem atrás dele, segurando uma faca de carne tão apertada na mão manchada de vermelho que tava tremendo.

Eu olhei em branco pro meu pai morrendo, que levantou a mão pra mim num gesto silencioso de socorro. Eu olhei pra minha irmã. Algumas gotas de sangue estavam secando nas bochechas pálidas como osso dela. Eu estendi a mão. "Mano, me dá a faca," eu disse.

Não precisei pedir duas vezes, ela entregou tão fácil. Eu olhei pro meu pai, que parecia tão aliviado porra... até que eu levantei a faca e enfiei bem no peito dele com tanta força que a lâmina quebrou do cabo.

Meu pai conseguiu um último suspiro antes de desabar morto. Eu olhei pra cima, pra Naomi, que deu uma fungada e enxugou as lágrimas das bochechas. "Ele... ele veio até mim no meu sonho. O Riesis. Ele me disse... que isso era o que eu precisava fazer pra que a gente todo mundo pudesse se juntar aos Iluminados." Pela primeira vez que eu me lembro, ela sorriu. Minha irmã mais velha era sempre tão séria, tão mal-humorada e mandona. Agora ela finalmente parecia livre.

"Vai ligar pra polícia e se limpar. Não se preocupa, eu vou limpar a faca pra não ficar suas digitais. Vai."

Minha irmã levou toda a culpa. Disse que tava de saco cheio da merda do meu pai e finalmente explodiu. Acho que ajudou que todo mundo na comunidade sabia que meu pai era um babaca e ela tinha só dezesseis anos. Ela vai sair da prisão daqui a mais ou menos sete anos, a gente tá planejando fazer uma festona quando ela sair.

Ajudou que o Kennen era um ótimo advogado também. Acontece que apesar de raramente dizer uma palavra fora do tribunal, uma vez que entrava nele ele era um mestre das palavras. Ele representou a Naomi pro bono, não foi gasto um centavo na defesa dela e a gente deve a ele pra sempre por isso. E pra adicionar a esse final feliz, a gente foi adotado pelo Kennen e pela Ann.

O Riesis disse a eles que eles eram pra ser nossos pais, acontece. A Ann não podia ter filhos, mas ele veio nos sonhos deles e disse pra eles irem na minha casa, e voltarem quando nosso pai não tivesse em casa. Originalmente o plano era convencer a gente a ir junto antes que ele chegasse em casa, mas desse jeito ainda funcionou. A Ann é uma mãe quase perfeita.

Eu agora tenho dezoito anos. Muito melhor do que eu estaria se meu pai ainda estivesse vivo. Hoje à noite eu vou me dedicar ao serviço de Riesis.

Em troca ele vai me ensinar como sussurrar nos ouvidos das pessoas enquanto elas dormem, pra dizer às pessoas o que ele manda. Eu vou ser a voz dele agora, junto com o Kennen e a Ann.

Cuidado com as Lobisomens Góticas

Tentei gritar por ajuda no beco vazio, embora soubesse que os prédios abandonados engoliriam cada som. Minha voz saiu rouca e fraca, quase perdida sob os rosnados graves e roucos que se aproximavam por trás.

A mais alta saltou por cima de um contêiner de lixo enferrujado com uma graça aterradora, pousando levemente na minha frente e cortando minha fuga. Seu delineador preto pesado emoldurava olhos que brilhavam num verde vívido e antinatural. A pele pálida contrastava fortemente com seu batom escuro e os anéis de prata que perfuravam seu lábio inferior. Suas presas haviam se alongado o suficiente para espreitar por entre os lábios quando ela sorriu; suas narinas se dilataram enquanto ela aspirava meu cheiro. Aqueles íris verdes brilhantes capturavam feixes dispersos dos postes distantes e piscantes e os refletiam em pontos afiados, como agulhas.

Bati meu ombro contra uma porta tapada com tábuas, desesperado por qualquer caminho de passagem. Minhas mãos encontraram apenas madeira sólida. Ela não se apressou. Em vez disso, o resto da matilha surgiu das ruas laterais, seus corpos atléticos formando um semicírculo cada vez mais apertado de sombra e calor que me prendia contra a parede de tijolos em ruínas. A batida rápida e pesada de seus corações ecoava no espaço estreito, cada pulso forte e deliberado, muito mais rápido do que meu próprio pulso em pânico. Senti a tensão no ar: aquele ritmo firme e imparável falando de fome mantida a duras penas sob controle.

Ela deu um passo mais perto. Sua respiração lavou meu rosto em ondas lentas e deliberadas, quente. Estremeci quando a ponta de uma presa afiada roçou minha bochecha, deixando uma ferroada fina.

— Você deveria ter ficado nas ruas principais — ela murmurou, sua voz baixa e aveludada, porém áspera. — A maioria dos homens ouve os uivos e acelera o passo em direção às luzes. Você escolheu o atalho pelo nosso território como um idiota que achava que a cidade pertencia a ele.

Empurrei-a para passar, tentando romper a brecha entre duas das outras. Os músculos das minhas pernas ardiam com o esforço. A mão dela agarrou meu braço com força fácil e me puxou de volta contra a parede. Dedos longos envolveram meu bíceps enquanto suas unhas pretas pressionavam levemente contra minha pele. Eu sabia que um flexionar rápido rasgaria através do músculo. Ela me estudou da maneira como um caçador avalia uma presa em luta, decidindo por quanto tempo deixá-la lutar.

Deveria ter confiado nos meus instintos no momento em que ouvi o primeiro uivo distante ecoar entre as fábricas abandonadas. Deveria ter me lembrado dos avisos sussurrados sobre esses distritos esquecidos depois do anoitecer, onde pessoas desapareciam e nunca eram encontradas inteiras. Em vez disso, a curiosidade e um desejo teimoso de provar que as histórias estavam erradas me puxaram mais fundo no labirinto de ruas vazias. Agora o beco parecia uma armadilha se fechando. O brilho fraco dos poucos postes funcionando parecia escurecer, como se a própria cidade estivesse virando as costas. Sombras se alongavam nas janelas quebradas lá em cima, e eu imaginava mais olhos verdes brilhantes observando dos telhados.

Ela mudou de postura. Um braço poderoso prendeu meu peito contra os tijolos. Uma cauda longa e preta, que eu mal notara antes, se enrolou em volta da minha perna como uma corrente viva. A ponta em tufo apertou o suficiente para me prender no lugar. Sua mão livre traçou a linha da minha garganta até minha clavícula. Ela pressionou ali, sentindo o martelar frenético por baixo. Um ronronar suave e satisfeito subiu em seu peito, quase um ronronado.

— Que coração acelerado — ela disse. — Ele vai arder tão intensamente quando nós o perseguirmos até o fim.

Torci violentamente, o instinto puro me guiando. Meu joelho conectou com sua coxa. O golpe aterrissou forte, ainda assim ela apenas soltou um suspiro curto e divertido. As outras se aproximaram com ímpeto; seus corpos ágeis e musculosos tensos, bloqueando cada possível saída e espalhando vidro quebrado pelo pavimento. Ela prendeu meus pulsos numa só pegada poderosa e os forçou acima da minha cabeça contra a parede áspera. Tijolos frios arranharam meus nós dos dedos. Sua força fluía sem esforço, quase casual em sua potência avassaladora. Senti o abismo enorme entre meus limites humanos e a força bruta que fluía pelos membros delas.

— Continue lutando — ela sussurrou perto do meu ouvido. — Quanto mais você luta, mais doce a perseguição se torna. Seu medo cheira incrível no ar da noite.

Sua língua se projetou, mais longa do que deveria ser, traçando o pulso no meu pescoço em passadas lentas que deixavam trilhas molhadas para trás. Cada passada enviava um choque confuso através de mim: terror puro misturado com a estranha emoção de ser caçado. Meu corpo ainda se lembrava do som distante de suas risadas que primeiro me atraíram para fora do caminho seguro; ainda me traía com arrepios que não tinham a ver apenas com o frio. Ela notou. Seus lábios escuros se retrairam, revelando a curva completa de suas presas.

Tentei falar de novo. — Me solte. As palavras quebraram na minha garganta. Ela riu, baixo e líquido, o som ressoando nas paredes de tijolos como se a cidade vazia estivesse se juntando à diversão.

— Me solte — ela ecoou zombeteiramente. — Depois que você veio procurando encrenca em nossas ruas? Você achou que os uivos eram um convite? Você acreditou que poderia vagar por essas ruínas e sair ileso?

Ela soltou meus pulsos apenas para agarrar meus ombros e me girar, pressionando meu peito de encontro à parede. Minha bochecha arranhou contra os tijolos frios. Ela me prendeu ali com o corpo, sua estrutura forte moldando-se contra minhas costas. A matilha se fechou de ambos os lados, seus olhos verdes brilhantes refletindo nas poças a nossos pés. A escuridão engoliu o beco exceto pelo calor de suas formas poderosas e o ritmo lento e deliberado de sua respiração.

Ela se inclinou. A curva firme de seu corpo pressionou contra minhas costas através de sua renda preta rasgada. Sua boca encontrou o lado do meu pescoço. Presas roçaram a pele, testando a pressão sem rompê-la, ainda. Senti a promessa em cada raspada cuidadosa, o conhecimento certo de que ela poderia encerrar a caçada com uma mordida decisiva.

— Vou te contar um segredo — ela murmurou contra meu ouvido. Sua voz caiu num registro que vibrava através do osso. — Todo homem que achou que essas ruas estavam vazias aprendeu a mesma lição. A cidade não perdoa intrusos. E nós também não.

Sua língua traçou a linha rígida da minha espinha e desceu pelas minhas costas. Meus músculos travaram. Não conseguia dizer se ainda estava lutando para me libertar ou simplesmente me preparando para o que viria a seguir. A confusão se retorcia dentro de mim. Ela sabia disso. Ela se alimentava disso.

Quando sua boca alcançou a base das minhas costas, ela pausou. Senti-a inalar profundamente, tragando meu cheiro em seus pulmões até que parecia que ela poderia sugar a força do meu corpo. Então ela mordeu. Não fundo. O suficiente apenas para romper a pele. A dor explodiu branca e quente. Sangue jorrou. Ela o lambia em passadas lentas e luxuriantes que transformavam a agonia em algo pior, algo que confundia tormento e a emoção escura da perseguição.

Gaspalhei bruscamente, um som quebrado que mal reconheci. Ela me acalmou gentilmente, seus dedos acariciando meu cabelo com uma ternura surpreendente. O contraste cortou mais fundo do que suas presas.

— Shhh, amor — ela disse. — A caçada está quase no fim.

Ela me girou de volta para encará-la mais uma vez. A força estava drenando das minhas pernas. Eu desabei contra a parede. Sangue escorria pelas minhas pernas, manchando minhas calças. Ela se aproximou, montando uma das minhas coxas para me manter de pé e preso. As outras permaneceram por perto, seus olhos verdes brilhantes observando com fome paciente. Seus anéis de prata e unhas pretas capturavam a luz fraca dos postes e a refletiam em lampejos esmeraldas opacos.

— Olhe para mim — ela ordenou.

Obedeci porque a resistência estava sumindo. Seus olhos verdes brilhantes preencheram minha visão. Dentro deles eu me vi, encurralado, sem fôlego, já marcado. Ela sorriu, lábios escuros se retrairam para mostrar suas presas e o violeta escuro de suas gengivas.

— Você correu tão bem — ela disse.

Sua cabeça desceu. A primeira mordida de verdade aterrissou na junção do pescoço e do ombro. Presas afundaram fundo. Músculo se partiu com um som molhado que eu nunca esqueceria. Dor rugiu através de mim. Meu corpo se sacudiu. Um grito rasgou-se livre apenas para ser abafado contra seu ombro enquanto ela me segurava perto. Sangue inundou sua boca. Ela bebia em goles longos e gananciosos. Cada puxada enviava nova fraqueza se espalhando pelos meus membros.

O mundo se estreitou ao ritmo de sua alimentação. Sugar. Engolir. Respirar. Meu batimento cardíaco falhou, tentou manter o ritmo, então vacilou. A visão escureceu nas bordas. Os sons ficaram distantes: o gotejar distante de água de um cano quebrado, os uivos fracos de mais irmãs ecoando pelo distrito, os sons molhados e lentos de meu sangue em sua língua.

Ela ergueu a cabeça por fim. Carmesim brilhava em seus lábios pretos e gotejava em gotas quentes sobre meu peito. Ela os limpou com cuidado lento, saboreando cada traço. Seus olhos brilhantes suavizaram, quase arrependidos.

— Vou sentir sua falta, meu amor — ela sussurrou.

Ela me beijou e eu quase beijei-a de volta voluntariamente, eu podia sentir meu próprio sangue quando ela se afastou.

Meu peito se ergueu mais uma vez, raso e irregular. Tentei falar, ou talvez apenas implorar. Nenhum som saiu. Ela se inclinou uma última vez. Seus lábios escuros roçaram meu ouvido.

— Durma agora, bonitão. As ruas vão cuidar de você.

Suas presas encontraram minha garganta de novo. Desta vez ela rasgou um corte profundo. Uma explosão de dor brilhante e quente, então nada. A escuridão invadiu rápida e completa. A última coisa que senti foi o toque gentil de sua mão atravessando minha bochecha esfriando, o canto suave de sua voz sumindo na névoa.

As ruas abandonadas mantiveram seu silêncio depois. Mais adiante no quarteirão, um poste solitário ainda piscava fracamente. Mais fundo nas ruínas, uma sirene distante uivou uma vez, lamentosa e sozinha. Meu último pensamento é tudo o que restou antes de eu desmaiar: — Eu acho que a amo.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Kraken

Fora do alcance auditivo dos nossos pais, nós brincávamos que o tubarão de Tubarão tinha voltado para se vingar ou talvez que o monstro do Lago Ness tinha decidido visitar a América. Lulu, armada com conhecimento do Animal Planet e Zoo Tycoon, afirmava que era um hipopótamo que vagueava com uma vingança mortal.

Eles nos contaram sobre o primeiro desaparecimento, um garoto de nove anos, que tinha levado o barco a remo sozinho até a pequena baía do lago em busca de vitórias-régias e represas de ratos-almiscarados. Quinze minutos depois, o pai dele foi recebido com um barco vazio. Horas depois, um vizinho encontrou o colete salva-vidas do garoto flutuando contra uma represa de rato-almiscarado. O corpo dele nunca foi encontrado, o que era estranho, mas não impossível, especialmente considerando a turbidez e a profundidade da baía com o fundo lamacento do lago. Geralmente se assumia que o garoto tinha pulado no lago vestindo o colete, mas o removeu para mergulhar fundo e puxar o caule da vitória-régia; era uma prática comum o suficiente e, embora a criança fosse uma boa nadadora e houvesse poucas ondas, sabe-se que qualquer coisa pode acontecer debaixo d'água.

É claro, nossos pais e todos aqueles no lago estavam muito preocupados, fomos palestrados sobre segurança na água toda manhã, almoço e intervalo, e apesar de todos nós sermos nadadores extremamente fortes, coletes salva-vidas eram obrigatórios o tempo todo na água e no cais.

As pessoas seguem em frente, no entanto, e as regras ficam frouxas.

Apenas 19 dias depois, o segundo afogamento ocorreu. Uma adolescente de 14 anos, que tinha entrado para o time principal de natação da escola aos 12, pulou da balsa da família, amarrada a meros 18 metros da costa, à vista da irmã mais velha e do namorado dela. Ela nunca voltou à superfície, mas seus sapatos de água flutuantes foram encontrados presos em rochas na costa oposta.

A irmã e o namorado tinham estado bebendo, como a maioria dos jovens adultos faz nos lagos, e rapidamente se assumiu que a adolescente também tinha estado bebendo. Todo mundo ficou satisfeito com essa narrativa, dada a variedade de bebidas na costa, e a embriaguez dos dois jovens adultos, era razoável assumir que a garota tinha bebido demais quando mergulhou (ou caiu, minha avó sussurrou alto para o grupo dela de bridge), fazendo com que ela se debatesse na água. Onde ela pode ter nadado na direção errada, em direção ao centro do lago ou outra costa, levando-a a se afogar, ou simplesmente flutuou e foi puxada pelas ondas. Talvez, comentou o grupo local de motoristas, o corpo dela esteja preso contra uma rocha no centro profundo do lago ou enterrado sob camadas de lama e lodo.

Com o álcool culpado, esse afogamento foi usado como um conto de advertência para os adolescentes, e um tópico evitado com as crianças mais novas.

Novamente, no entanto, parece que a tragédia só é lembrada por aqueles mais próximos ao seu centro.

Apenas quatro dias depois, os lamentos da nossa vizinha nos acordaram, crianças, às 8:00 da manhã. Os gêmeos pequenos dela, um garoto e uma garota de cinco anos, tinham sido puxados para baixo enquanto nadavam perto do cais. A família dela estava no lago há gerações, então ela conhecia as regras. As crianças tinham coletes salva-vidas, e o marido dela estava sentado a 60 centímetros de distância, e o labrador de dois anos deles estava nadando a 15 centímetros delas. O marido agiu rápido quando eles afundaram, mas ainda assim não conseguiu encontrar os gêmeos. No entanto, ele encontrou o corpo mutilado, mastigado do labrador deles.

Dessa vez, o lago inteiro foi fechado para a busca; o acesso público foi bloqueado e ninguém podia entrar ou ir para a água. Nós, crianças, fomos informados que esgoto tinha vazado acidentalmente no lago, mas não foi difícil descobrir a verdade. Velhos surdos, como o nosso avô e o amigo dele, não são exatamente difíceis de bisbilhotar.

Na manhã seguinte, bem cedo, o nosso avô, um homem de 68 anos, tirou o pai dele de 104 anos do asilo.

O bisavô Ole nasceu na Noruega em 1902, no mesmo ano em que o pai dele decidiu seguir o irmão mais velho dele para as terras agrícolas de Minnesota. Apenas o bebê Ole sobreviveu à jornada; grande parte do navio deles tinha sido destruída ao longo da costa norueguesa, mas por um golpe de sorte ele sobreviveu em um bote salva-vidas com um grupo de crianças.

A saúde dele tinha sido ruim por um tempo, ele estava em oxigênio, o coração dele estava falhando, e tudo o mais parecia estar desmoronando. Mas ele estava lá e com um tom resignado ele nos contou por quê.

"Como vocês podem saber, eu nasci na Noruega no ano de 1902. Eu era o caçula de quatro crianças, Leif, Kari, Ingrid e eu, Ole. Nossos pais não eram ricos, e eles tinham decidido algum tempo antes seguir os irmãos mais velhos do meu pai para as vastas terras agrícolas do Alto Meio-Oeste da América. Finalmente, o dinheiro tinha chegado, e a jornada deles em direção ao Sonho Americano começou quando eu tinha apenas quatro semanas de idade. Esse sonho dos meus pais nunca chegou muito longe. Eu não sei onde ou quando a água começou a borbulhar, e as ondas começaram a alcançar cada vez mais alto sobre a proa do navio. Mas, aconteceu, e o navio afundou com o meu pai, a minha mãe e a Kari, junto com tantos outros e seus sonhos simples. De alguma forma, pela graça de Deus, os meus tios disseram depois, três de nós, crianças, junto com outro pequeno grupo de viajantes, sobrevivemos. Leif tinha apenas 13 anos e agora era o homem da casa, que deveria nos liderar através do oceano imperdoável. Ingrid teve o pior, no entanto, aos 11 anos ela estava encarregada de um bebê pequeno.

Sete meses depois, nós tentamos a jornada novamente, dessa vez com a irmã da minha mãe e o marido dela, que estavam indo para Minnesota nos passos do único filho vivo deles, um garoto de 17 anos. Leif era alto, forte e um trabalhador árduo, e a minha tia sempre tinha querido uma filha, então eles prontamente acolheram nós três sob a asa deles. Como o destino teria, a doença atacou e nenhum dos dois chegou à costa.

A nossa herança norueguesa tornou a Ilha Ellis mais fácil do que para a maioria, e nós chegamos à fazenda do nosso tio mais velho. Foi lá que a disposição de Leif e Ingrid foi notada. Ambos muito mais pálidos e quietos do que tinham sido na Noruega, Ingrid mal falava uma palavra para a prima dela, Martha, com quem ela tinha sido inseparável de volta em casa. Eu também era quieto, raramente eu chorava ou balbuciava.

Leif parecia assombrado, como se tivesse visto o próprio diabo, a minha prima me contou depois. A nossa jornada tinha sido difícil, no entanto, e nós estávamos em uma nova terra, então os nossos problemas foram deixados de lado, e o trabalho começou.

O tempo aliviou alguns dos problemas enfrentados pelos meus irmãos e eu, especialmente para mim, mas mesmo décadas depois, ainda estava claro que tanto Leif quanto Ingrid tinham passado por horrores horríveis.

No dia do meu 16º aniversário, eu finalmente descobri por quê.

Leif e eu tínhamos viajado para a fazenda de Ingrid e do marido dela, onde, depois de uma refeição curta e celebração, nos reunimos, sozinhos, junto à lareira.

Ele, pois Leif tinha feito a maior parte da conversa, contou sobre a manhã em que partimos da Noruega pela primeira vez. O tempo tinha sido perfeito, quase inacreditavelmente, mas algo parecia muito estranho. Uma vez no navio, essa sensação se intensificou a ponto de a minha mãe quase ter tentado tirar a gente de lá.

"Eu queria que ela tivesse", Ingrid murmurou, antes de Leif retomar o controle novamente.

É claro, eles não podiam pagar para sair, então apesar dos nervos, nós ficamos.

Apenas um dia depois de zarpar do porto final, foi quando aconteceu. Tentando pegar o máximo de ar fresco possível, Leif e Ingrid tinham me levado para o convés, enquanto os outros permaneciam, bastante enjoados, embaixo. Ingrid notou as bolhas e o que parecia ser uma mancha avermelhada na água.

Segundos depois, a tragédia atingiu.

A criatura era maior que a vida. E mais louca que o diabo.

A tripulação fez o melhor que pôde para proteger o navio e evacuar os passageiros. Não adiantou muito — o navio foi destruído, e a criatura desapareceu de onde veio. Apenas alguns botes salva-vidas solitários permaneciam à tona no oceano gelado.

Leif, então, parou, abaixou a cabeça e chorou — foi então que eu soube que eu acreditava neles, pois Leif era um homem duro, um que eu nunca tinha visto expressar emoção ou medo, nem mesmo quando partiu para a Grande Guerra, ou quando voltou coberto de cicatrizes.

Ingrid terminou então, "Nós nunca mais os vimos, mas eu juro pelas tumbas deles, que nós os ouvimos, os gritos deles nos assombraram até chegarmos à costa."

Suspirando profundamente, Leif continuou, "Nós estávamos prontos para ir na segunda vez — Ingrid e eu, não havia mais nada na Noruega e nós não tínhamos medo da morte, simplesmente significava que estaríamos com a Mor, o Far e a Kari novamente."

"Era uma saída do porto que nós sentimos. Aquela mesma sensação horrível no ar, dessa vez, no entanto, também parecia que estávamos sendo seguidos, com olhos perfurando as nossas costas. Cada vez que íamos para cima para pegar ar no navio, a água ficava agitada, com ondas fortes e bolhas incomumente grandes. Então nós paramos de ir para cima, e eventualmente chegamos à costa da América. A vida continuou para nós, como vocês sabem, mas nós sempre sentimos que algo terrível estava nos observando, e essa sensação só era amplificada perto da água.

Leif parou novamente, "Ele nos quer, Ole", ele sussurrou.

Quando aquele conto terminou, todos nós chegamos à realização de que não foi por acaso que Ingrid e Leif ambos se afogaram em corpos d'água maiores na velhice. Ole tinha passado os últimos 20 anos evitando qualquer coisa maior do que uma poça depois que o barco de pesca dele virou, mas isso só o deixou com raiva. A vingança dele continuou a crescer, e as pias começaram a borbulhar para Ole.

Ele não tinha sabido sobre as mortes no lago até uma semana atrás — ele esperou que fosse uma coincidência, ele transmitiu, com a cabeça baixa, mas o desaparecimento recente dos gêmeos e o cachorro mutilado, o tinham convencido do contrário.

Naquela noite os pulmões dele se encheram de água e ele retornou para os pais, irmãos, esposa e amigos dele. Não houve mais afogamentos naquele verão, e os meus primos e eu aproveitamos o lago mais uma vez.

Treze anos depois e todos nós crescemos. Tudo mudou, exceto, é claro, o lago. Os nossos vizinhos passaram as propriedades deles para os filhos ou primos mais novos; as casas foram reconstruídas, mas as estradas permanecem de cascalho. TV a cabo e telefones fixos são comuns, mas Wi-Fi continua raro.

Cada verão todos nós ainda vamos para o lugar dos meus avós, nós nos atualizamos, bebemos cerveja gelada, comemos centenas de salsichas e hambúrgueres, e relembramos. Não tenho certeza de quanto tempo isso vai continuar, no entanto.

Recentemente, eu notei que a água fica mais agitada quando eu me aproximo, e eu penso em como, muitos anos atrás, eu costumava fazer natações matinais, às vezes brincando com os gêmeos dos vizinhos.

Quando chegar a hora, eu sei o que vou ter que fazer.

Sou Paramédico. Fomos Chamados na Casa de uma Mulher Grávida Fora da Cidade

Nosso turno já estava bem avançado. Doze horas de pressão sem parar. Por sorte, a noite estava se mostrando quieta, pelo menos tão quieta quanto pode ficar quando você é paramédico. Até então, tínhamos tido apenas duas chamadas.

Uma idosa escorregou na banheira e fraturou o fêmur. Chamados assim eram sempre difíceis. Os idosos são indefesos. Vulneráveis. Felizmente, o marido dela ligou para o 911 a tempo.

A outra foi um acidente de trânsito. Sem ferimentos graves, afortunadamente. Um dos motoristas ainda teve de ser transportado ao hospital para observação.

Depois disso, nada. Nenhuma outra chamada. Paramos num posto de gasolina para tirar uma folga. Só eu e a Ruby.

A Ruby era quase dez anos mais nova que eu. Quando a recebi como novata, não estava animado. Treinar uma mulher jovem, ser aquele que tinha de mostrar as coisas que o corpo humano pode fazer consigo mesmo quando quebra... não era algo que eu estava ansioso para fazer.

Mas quatro anos haviam se passado desde então. E a Ruby se adaptou. A atravessar sangue. A chegar tarde demais. Ou cedo demais. Ao silêncio que se instala depois que o turno acaba.

Essas coisas se tornaram rotina para nós. Nossas cruzes a carregar. Nós as carregávamos. E além um do outro, não havia realmente mais ninguém em quem pudéssemos confiar.

"Ambulância dezoito, temos uma chamada." O rádio crepitou e ganhou vida, me tirando dos meus pensamentos. "Uma mulher grávida desmaiou."

"Aqui é a dezoito," respondi imediatamente, agarrando o rádio. "Qual é a situação?"

"Temos informações limitadas," disse a despachante. "O marido fez a ligação. Podem responder e verificar?"

"Copiado," eu disse, ligando a sirene para sinalizar a Ruby, que estava lá fora junto à bomba de gasolina, bebendo o café dela. "Estamos a caminho."

Atravessamos as ruas com as sirenes gritando. A adrenalina sempre me atingia como uma onda em momentos assim. Estávamos voando, porque na nossa linha de trabalho, o tempo é tudo. Até então, eu conhecia a maioria das rotas por instinto.

O terminal móvel de dados nos guiou até a beira da cidade. A estrada ficou áspera e desigual, e o GPS começou a nos dar posicionamentos cada vez mais pouco confiáveis.

"Ruby, pede ao despacho um endereço mais preciso," eu disse, mantendo os olhos na estrada esburacada.

"Despacho," a Ruby se inclinou mais perto do rádio. "Aqui é a Ambulância 18. Podem confirmar a localização exata?"

"Copiado, Ambulância 18," a despachante respondeu, a voz dela crepitando através do estático. "O marido diz que se seguirem a estrada velha, a primeira estrada de terra à esquerda leva até lá. Primeira mansão por aquele caminho."

"Copiado, despacho," a Ruby disse, lançando um olhar para mim.

"O que foi?" eu perguntei, escaneando a escuridão em busca da estrada de terra.

"Uma mansão?" A Ruby me lançou um olhar de soslaio. "Estamos indo para gente rica, Jacob. Espero que você tenha se vestido com classe."

Deixei escapar uma risada cansada e finalmente virei para a estrada de terra. Mais à frente, o contorno de um prédio imenso começou a emergir. Na escuridão, mal se revelava, como uma montanha adormecida.

"Gente rica não mora mais em lugares assim, Ruby," eu disse, gesticulando em direção à velha estrutura. "Esse tipo de coisa saiu de moda."

A Ruby apenas sorriu.

A mansão parecia ao mesmo tempo antiga e imponente. Suas paredes imensas se estendiam para cima, rumo ao céu noturno. Cada janela estava fechada com postigos, mas uma luz fraca vazava por trás delas, como os olhos de alguma criatura enorme nos observando.

"Isso é arrepiante," a Ruby disse de forma lisa.

"Um pouco..." respondi enquanto parava a ambulância em frente à mansão.

As luzes piscando vermelhas e azuis banharam as paredes sujas e gastas pelo tempo da mansão. Sombras se retorciam e se esticavam como fantasmas. Por um breve momento, o pensamento me passou pela cabeça de que eu não queria entrar.

Então, como se algo tivesse sentido nossa hesitação, a imensa porta da frente se abriu.

Um garoto jovem correu para fora em nossa direção, acenando freneticamente.

"Depressa! Depressa!" o garoto gritava aterrorizado, e quando chegou à ambulância, começou a bater no lado dela com os punhos pequenos.

A Ruby pulou para fora sem dizer uma palavra, e ouvi as portas traseiras da ambulância se abrirem.

Eu também desci. No momento em que minhas botas tocaram o chão enlameado, o garoto agarrou meu braço e começou a me sacudir para lá e para cá como um boneco de pano.

"Por favor, depressa!" ele gritou. "Depressa! Minha irmã! Por favor, depressa!"

O garoto vestia roupas simples feitas de tecido velho e pesado. Parecia que tinha saído de outra era, mais como um camponês medieval ou uma criança amish do que um garoto do mundo moderno.

As luzes piscando vermelhas e azuis distorciam o rosto dele em algo grotesco. Ele não podia ter mais de dez anos, e mesmo assim era óbvio que havia algo de errado com ele. Por mais cruel que seja admitir, meus olhos passaram por ele com uma careta reflexiva.

"Depressa!" o garoto quase gritou. "Está quase chegando! Depressa, por favor!"

"Onde estão seus pais?" eu perguntei enquanto começava a me mover com ele em direção à mansão.

Ele puxava meu braço, cuspe escorrendo da boca na excitação dele, me puxando em direção à porta da frente aberta.

A Ruby nos alcançou. A bolsa de emergências médicas pendia do ombro dela enquanto ela observava a cena se desenrolar entre eu e o garoto, a expressão dela tensa e inquieta.

"Edmund!" uma voz de repente ecoou da porta. "Saia daí! Você não tem nada melhor para fazer?"

Só então eu olhei para cima.

Um homem estava parado na porta. Como uma aparição. Era difícil distinguí-lo na escuridão, mas luz quente derramava-se por trás dele, vindo de dentro da mansão. Ele era careca, mais velho, provavelmente por volta dos sessenta, e vestia uma longa peça de lã preta, como uma batina de padre.

Ao som da voz do homem, o garoto congelou e ficou em silêncio. Ele ainda segurava minha mão, balançando levemente de um lado para o outro.

"Jacob?" a Ruby perguntou com cautela.

Sem aviso, o garoto me soltou e saiu correndo, como um cachorro escapando da coleira. Ele desapareceu na noite escura, entre as árvores, gritando por socorro. Gritando sobre a irmã dele.

"Por favor, entrem," o homem disse calmamente. "Perdoem o Edmund. Ele é um caso difícil. Não deu muito certo..."

A frase dele se perdeu.

A Ruby e eu trocamos um olhar.

Subimos apressados os degraus da mansão, e de repente eu estava parado em frente a uma imensa porta de madeira preta com quase três metros de altura. Calor e luz jorravam de dentro.

O homem virou-se e entrou.

A Ruby e eu o seguimos.

O homem vestido como padre não parecia ter nenhuma pressa. Eu já podia dizer que a Ruby estava tensa, ela parecia que queria sair correndo, assim como fomos treinados. Chegar ao paciente o mais rápido possível. Avaliar quem está doente, o quão grave é, quanta ajuda é necessária. Mas o homem apenas andava num passo despreocupado, quase de lazer. Talvez fosse a idade dele. Ou talvez ele não achasse que a situação fosse tão séria.

A Ruby e eu o seguíamos em silêncio comedido.

A mansão parecia ainda maior por dentro do que por fora. E assim como eu havia suspeitado, estava vazia. Sem móveis. Sem decorações. Sem quadros nas paredes. Apenas uma cripta vazia. Só as luzes estavam acesas, brilhando amarelo, opacas e sem vida. Mansões assim não eram mais habitadas pela velha aristocracia.

Nossos passos ecoavam pelo espaço vasto, do tipo salão, enquanto atravessávamos. A Ruby lançou um olhar para mim enquanto andávamos. Eu apenas olhei de volta para ela brevemente, não queria que ela pensasse que eu estava tão inquieto quanto ela. Precisávamos manter a calma.

"Com licença, senhor," a Ruby finalmente quebrou o silêncio, a impaciência se infiltrando na voz dela. "Não deveríamos estar nos movendo um pouco mais rápido? Nos disseram que uma mulher grávida não está bem."

O homem careca e magro parou de repente, como se genuinamente surpreso. Então, como um robô, ele virou-se devagar e deliberadamente para encarar-nos. Ele tentou sorrir gentilmente, mas no rosto cansado e afundado dele, a expressão era inquietante. Seus olhos cinzentos e profundos não se fixaram na Ruby. Eles travaram em mim. Como se eu tivesse sido quem falou.

"Agora que vocês estão aqui," o padre disse calmamente, "ela vai ficar bem."

Ele nos lançou um sorriso largo. Seus dentes amarelos e desgrenhados se destacavam fortemente contra o rosto pálido dele. Não consegui evitar a careta que cruzou o meu rosto, havia algo profundamente desagradável sobre a presença do homem. Então ele se virou e arrastou os pés para a frente pelo mesmo caminho de antes.

"Que porra?" a Ruby sussurrou, caindo um passo atrás. "Jacob, isso está ruim. Esse cara, a mansão, o garoto... tudo isso."

"Eu sei... eu sei," eu disse baixinho, tentando acalmá-la. "Mas é para cá que nos mandaram. Temos que verificar a mulher."

"Pff. Não seja ingênuo," a Ruby resmungou. "Não tem nenhuma mulher aqui."

"Ela está aqui," o padre cortou, parando ao lado de uma longa escada semicircular que levava ao segundo andar.

A Ruby encarou o velho. Eu podia dizer que ele estava lhe irritando, mas não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.

"Ela está lá em cima?" eu perguntei, em parte para tranquilizar a Ruby, em parte para me convencer.

O homem sorriu para nós de novo, mostrando os dentes.

"Sim..." ele disse docemente. "Lá em cima. Ela precisa de ajuda."

Lancei um olhar de soslaio para a Ruby. Era óbvio que ela não tinha absolutamente nenhum desejo de subir lá.

"Você não vem com a gente?" eu insisti.

Eu estava nervoso agora. Eu tinha uma forte sensação de que algo aqui estava profundamente errado. Não tínhamos como saber se havia realmente alguém lá em cima que precisasse de ajuda.

"Ah... minhas pernas não são mais o que costumavam ser," o homem disse, ainda sorrindo.

Eu não respondi. Apenas o estudei. A batina dele pendia até o chão. Pés em chinelos espreitavam por baixo, e ele ficou parado ali como se tivesse sido cravado no chão.

"Padre!" uma voz chamou de cima, do topo da escada.

A Ruby e eu ambos erguemos o olhar ao mesmo tempo. O padre não se moveu.

Um jovem estava parado no último degrau. Ele vestia um smoking, antiquado, mas elegante. O cabelo dele estava penteado com esmero, o bigode fino cuidadosamente aparado. Parecia um daqueles cavalheiros refinados de velhas séries de televisão britânicas.

"Deixe comigo," o jovem disse. "Eu os acompanharei."

Com isso, ele desceu apressado as escadas.

Parou na minha frente e, sem um momento de hesitação, estendeu a mão macia dele.

"Reginald," ele disse, apertando a minha gentilmente. "Um prazer, e obrigado por virem. Por aqui, por favor. Minha esposa não está se sentindo muito bem."

Lancei um olhar de volta para a Ruby. O rosto dela dizia tudo, eu tinha certeza de que se eu não insistisse, ela já estaria de volta na ambulância, chamando reforços.

Mas tínhamos que subir lá.

Tínhamos que descobrir o que estava acontecendo com a mulher.

Sim, essas pessoas eram estranhas. Como se estivessem algumas centenas de anos atrasadas em relação ao resto do mundo. Mas não estávamos em perigo... Ainda não.

O Reginald se movia pelos corredores e quartos vazios como um fantasma. Ainda não estávamos nos movendo tão rápido quanto normalmente faríamos, mas o tamanho da própria mansão parecia antinaturalmente vasto, como se ela continuasse se esticando mais e mais quanto mais fundo íamos.

Estávamos atravessando um longo corredor quando uma das velhas portas de madeira ao nosso lado de repente rangeu ao se abrir. O Reginald reagiu instantaneamente, dando um passo à frente dela como se bloqueasse nossa visão.

"Vivian, por que você está aqui fora?" ele repreendeu, o tom afiado e desdenhoso.

A Ruby se aproximou mais do meu lado, tentando ver por cima do Reginald e captar um vislumbre do que eu estava vendo.

Uma garotinha loira estava parada na porta. O cabelo dela estava bagunçado, apenas metade contido por baixo de um lenço branco. Da luz fraca lá dentro, parecia que o quarto era algum tipo de dormitório.

"Eu... eu pensei que já era a hora," a garota murmurou baixinho.

"Ainda não, querida," o Reginald disse, acariciando gentilmente a bochecha dela.

Por mais fofa que a garota pudesse ser, o lábio leporino dela tornava sua aparência profundamente inquietante. Na escuridão atrás dela, outra figura pequena com uma cabeça desproporcionalmente grande se sentou na cama, espiando curiosa.

"Já chega, crianças!" o Reginald elevou a voz. "De volta para a cama. Todos vocês!"

Com um movimento firme e inquestionável, ele fez a garota voltar para o quarto e fechou a porta atrás dela.

"Crianças..." o Reginald resmungou, balançando a cabeça teatralmente.

"É..." eu disse, fazendo uma careta.

O Reginald não respondeu. Ele apenas testou a maçaneta mais uma vez para ter certeza de que estava trancada, então continuou sem oferecer nenhuma explicação.

"Jacob, isso não está certo..." a Ruby sussurrou de novo. "Deveríamos chamar o despacho. Mandar a polícia para cá."

"Por quê, Ruby?" eu sibilei de volta. "Não tem nada concreto para chamar a polícia. Sim, eles são esquisitos, e esse lugar todo me dá arrepios, mas o que eu vou dizer? Que tem crianças esquisitas num quarto?"

A Ruby me lançou um olhar duro. Eu sabia que ela estava certa. Eu podia sentir, no ar, nas paredes, que algo aqui estava muito errado. Mas o que eu podia fazer?

"Vocês vêm?" o Reginald chamou, já bem à nossa frente. "Estamos quase lá. Minha esposa realmente precisa de vocês."

A Ruby não tirou os olhos de mim. O olhar dela era ao mesmo tempo autoritário e desesperado.

"Estamos indo!" eu chamei de volta. Então, mais baixinho, "Vamos, Ruby. Vamos pelo menos verificar a mulher. Se alguma coisa ficar ainda mais suspeita do que isso, chamamos reforço."

Os lábios da Ruby tremiam. Eu sabia que ela queria dizer alguma coisa, discutir, protestar, mas não havia tempo. Eu só queria acabar com isso e deixar esse lugar para trás.

"E... aqui estamos," o Reginald disse ao virar à esquerda no fim do corredor.

Paramos em frente a uma porta. Parecia igual a todas as outras que tínhamos passado, exceto pelo homem imenso e de olhos mortos parado ao lado dela, fazendo guarda.

"Olá," eu disse quando notei o brutamontes.

"Ugh," ele resmungou em resposta.

Ele vestia suspensórios enormes e tortos por cima das roupas. As cicatrizes no queixo dele sugeriam que ele havia saído da adolescência há pouco tempo, mas seu tamanho e o rosto sujo e borrado o faziam parecer muito mais velho.

O homem grande encarava o nada com a boca aberta. A Ruby se pressionou contra mim, escaneando tudo com a tensa alerta de um gato assustado.

"Ah, certo," o Reginald disse, colocando a mão na maçaneta. "Antes de entrarmos, por favor, coloquem luvas e máscaras. Vocês têm com vocês, não é?"

"Claro que temos," eu respondi desconfiado. "Teríamos colocado luvas de qualquer jeito."

"Sim, sim," ele assentiu brincalhão. "Vocês sabem, patógenos e tudo mais. Tentamos manter o quarto estéril lá dentro..."

Parei de prestar atenção no blá-blá-blá do Reginald. A Ruby pôs a bolsa dela no chão e tirou um par de luvas médicas. Nós dois mantivemos os olhos no homem de mente lenta enquanto ela fazia isso.

Ele estava encostado no batente da porta, casualmente catando o nariz, depois comendo o que havia acabado de tirar de lá.

Tanto faz esterilidade.

Depois que coloquei minha máscara médica também, o Reginald assentiu satisfeito, quase alegremente, então apertou a maçaneta sem nenhum aviso. Esperamos, quase prendendo a respiração, finalmente esperando alcançar a pessoa por quem tínhamos sido realmente chamados.

Mas o milagre não veio.

De novo.

A porta se abriu para uma antecâmara. Papel de parede cinza, um cheiro úmido e mofado. O lustre lançava uma luz quente sobre o quarto, e de repente eu tive a mesma sensação que costumava ter quando era mais jovem, ajudando em reuniões dos Alcoólicos Anônimos.

Cadeiras alinhadas nas paredes. Cadeiras de plástico velhas. Pessoas estavam sentadas nelas. Os homens todos vestiam roupas de tecido escuro e pesado; as mulheres usavam saias longas pretas. Parecia algum tipo de círculo de discussão amish.

Mas os rostos deles estavam errados.

Narizes derretidos. Olhos turvos. Bocas sem lábios. Narizes ou orelhas faltando.

Uma congregação aberrante e retorcida realizando uma reunião em grupo.

A Ruby estava praticamente pisando nos meus calcanhares. Mesmo assim, eu podia ver o terror no rosto dela. A mão dela tremia perto do rádio preso na camisa branca do uniforme dela. Eu tinha a nítida sensação de que se mesmo um único deles se movesse, a Ruby estaria pronta para acionar imediatamente.

"Parece que muita gente mora aqui," eu disse para o Reginald, que gentilmente nos fez avançar mais para dentro do quarto.

"Ah, eles não moram aqui," o Reginald explicou. "Eles são... eles são apenas parte da família. Vocês sabem... vieram por causa do bebê."

"Claro..." a Ruby murmurou nervosamente.

A reunião retorcida nos encarou. Eles nos observaram sem expressão enquanto o Reginald se movia por entre eles como um cavalheiro, e nós o seguíamos atrás devagar, mal respirando.

O Reginald caminhou até a porta seguinte e a abriu mais uma vez. O quarto além estava escuro. Apenas uma pequena luminária estava acesa, delineando a forma de uma cama escondida atrás de algum tipo de cortina. Como uma cama com dossel.

"Jacob?" a Ruby sussurrou atrás de mim, a voz dela tremendo de medo.

"Sim, Ruby..." eu sussurrei de volta, o mais baixinho que pude. "Eu também ouço."

O gemido dolorido de uma mulher flutuava para fora do quarto. Era fraco, um tipo de dor que gemia, como alguém tentando falar enquanto ardia de febre.

"Por aqui," o Reginald disse da porta. "Ah, está tão escuro aqui dentro..."

Com isso, ele acendeu a luz.

Agora não era apenas a silhueta da cama atrás da cortina. Algo enorme jazia sobre ela. Como uma pilha de travesseiros empilhados num único monte.

A Ruby e eu ficamos paralisados na porta. Cada instinto em mim gritava para eu me virar, agarrar a Ruby, e correr para fora daquela mansão mal-assombrada o mais rápido que pudesse.

"Minha querida," o Reginald disse, dando um passo em direção à cortina. "Os médicos estão aqui. Ou o que quer que sejam. Eles vieram ajudar."

Então ele puxou a cortina para o lado.

Eu já vi muita coisa na minha vida, mas nem a Ruby nem eu estávamos preparados para isso.

Uma mulher jazia se debatendo na cama. Ela se movia com dificuldade, a cabeça dela cambaleando de um lado para o outro. Apenas os remanescentes das roupas dela cobriam o corpo dela, o suficiente para sugerir que ela já havia trabalhado num bistrô ou em algum lugar similar. As mãos dela estavam amarradas à cama, como as de uma escrava.

E a barriga dela...

A barriga dela era do tamanho de um saco imenso. A pele dela estava esticada fina como papel, as veias por baixo parecendo que estavam prestes a romper. A luz refletia nela como uma membrana tensa e translúcida.

Era tão grande que um homem adulto poderia caber dentro.

Eu não conseguia falar. Apenas fiquei parado ali, encarando. E eu desejo, meu Deus, eu desejo... que a Ruby tivesse ficado paralisada também.

"Que porra..." a Ruby suspirou de horror.

Eu estendi a mão para a mão dela, tentando impedi-la de se mover, mas ela recuou de medo. Pelo canto do olho, eu a vi recuar em direção à multidão atrás de nós. Enquanto estávamos ali, atordoados pela mulher na cama, aquelas coisas de fora haviam se esgueirado atrás de nós.

"Vai se foder! Me solta!" a Ruby gritou.

O caos se soltou.

Tudo se acelerou.

Eu me virei, agarrei o braço da Ruby e a puxei para perto de mim. Com a outra mão, empurrei para longe uma figura baixa e sem lábios que investiu em nossa direção. A multidão ficou agrupada na porta, imóvel. Eu continuei segurando a Ruby, recuando tanto da porta quanto da mulher grotescamente inchada.

"Certo! Todo mundo, para trás!" eu gritei, tentando disfarçar meu terror.

"Calma agora..." o Reginald disse calmamente do lado da cama. "Apenas ajudem minha esposa. Nada de mal vai acontecer. É seu dever ajudar os necessitados."

"Como se fosse!" eu retruquei. "Não sei que porra vocês estão fazendo aqui, mas nós vamos embora. Agora."

O Reginald me encarou, olhos arregalados. O choque tomou conta do rosto dele, como se nunca lhe tivesse ocorrido que eu pudesse recusar.

"Vocês não podem fazer isso!" ele explodiu. "Esta mulher carregou o Senhor dos Mundos por três anos! Vocês não podem abandoná-la agora!"

A Ruby e eu continuamos recuando até quase estarmos contra a parede. A multidão respondeu ao argumento se empurrando mais para dentro do quarto.

"Jacob..." a Ruby sussurrou ao meu lado, apontando para a mulher na cama.

Só então eu também vi, e assim fez o Reginald, que estava ao lado dela.

A barriga da mulher se ondulou. O rosto dela se contorceu em agonia, gotas de suor brotando na testa enquanto a pele dela ficava pálida. Os sinais eram inconfundíveis.

Estava começando.

"Não! Não!" o Reginald gritou em pânico. "Ainda não!"

Ele pressionou a cabeça contra a membrana esticada da barriga dela, escutando movimento lá dentro.

"Aaaahhh!" a mulher amarrada gritou de dor.

Sangue explodiu de entre as pernas dela, jorrando para todo lado. Saiu com tanta força que os lençóis amarelos e encharcados de suor instantaneamente ficaram vermelhos. Fios finos de sangue derramaram-se no chão, fluindo da cama como uma nascente.

A Ruby e eu não conseguíamos nos mover. A cena era puro horror.

"Porra..." o Reginald sussurrou.

Ele de repente pulou para longe da mulher como se algo estivesse o perseguindo, então disparou por uma porta na extremidade distante do quarto, fechando-a com força atrás de si.

A multidão irrompeu em lamentações, como enlutados num funeral. Eles arranhavam os próprios rostos e cabeças, gritando e soluçando.

A Ruby ficou paralisada, mas não podíamos ficar ali. Eu cutuquei o ombro dela gentilmente e gesticulei em direção à porta por onde o Reginald havia fugido.

Eu tentei me esgueirar entre a cama e a multidão enquanto eles estavam perdidos em sua histeria coletiva.

Então algo apareceu.

Entre as pernas da mulher morta, uma mão emergiu, agarrando a coxa dela e puxando-se para fora.

Uma figura começou a rastejar para fora. Não tinha pele. Sua carne brilhava vermelha, com ossos visíveis em alguns lugares, como um corpo humano meio digerido.

Metade dele já estava para fora dela. A multidão gritou.

A Ruby e eu estávamos vivenciando o pior pesadelo de nossas vidas.

"Jacob... me ajuda..." a coisa disse, a voz dela vindo do corpo da mulher.

Foi quando o pânico tomou conta.

Tínhamos que correr. Agora.

Eu disparci para a porta, arrastando a Ruby comigo. A multidão avançou, derramando-se atrás de nós como uma maré viva. Tudo ficou borrado, girando fora de controle.

Eu bati na porta.

Trancada.

Eu capturei um olhar aterrorizado da Ruby.

Então me atirei contra ela de novo. A madeira podre cedeu, e eu arrebentei para dentro do quarto seguinte. A Ruby tropeçou entrando atrás de mim.

Mas algo estava errado.

A Ruby cambaleou. Sangue se espalhou pelo uniforme branco dela. Uma faca estava cravada no lado dela. O rosto dela ficou pálido, e talvez impulsionada pela adrenalina, ela conseguiu mais alguns passos antes de desabar no meio do quarto.

"Não!" eu gritei.

Uma figura de rosto de porco e olho único estava parada na porta, me encarando. Eu bati nele com tanta força que vi sangue jorrar do nariz dele na moldura da porta.

A multidão continuava empurrando para a frente. Uma mulher imensa sem nariz investiu contra mim, eu a chutei bem no peito. Ela voou para trás, derrubando outros com ela. Eu pulei de volta para dentro do quarto e bati a porta.

Eu a escorei, então avistei um armário pesado bem ao lado dela. Eu o empurrei para frente da porta.

"Me ajuda, Jacob!" uma voz gritou do outro lado. Era a coisa que acabara de nascer.

Eu me inclinei no armário, segurando a porta fechada enquanto punhos batiam nela de fora. Eles uivavam e martelavam como animais.

Meus olhos caíram sobre a Ruby deitada no chão. A poça de sangue debaixo dela continuava crescendo. O pânico me inundou.

"Ruby!" eu gritei. "Ruby, acorda! Não me faz isso!"

Ela não se moveu. A faca estava cravada fundo no lado dela.

Eu deixei a porta e corri para ela.

O pulso dela estava quase inexistente. O rosto dela estava ficando mais pálido a cada segundo. Sangue escorria em volta da lâmina. A bolsa de primeiros socorros ainda estava ao lado da cama no outro quarto.

"Despacho! Aqui é a Ambulância dezoito!" eu gritei no meu rádio. "Mandem reforço! Qualquer um! Polícia, ambulâncias! Uma paramédica está caída!"

O rádio crepitou, então morreu.

Sem resposta.

"Despacho!" eu gritei, já chorando.

A porta rangeu enquanto o armário era empurrado para o lado. Mãos se forçavam pelo vão. Um rosto vermelho de sangue de um homem tentava se espremir por ali, gritando e rosnando.

"Ruby, por favor... não me faz isso..." eu solucei.

Não consegui terminar.

A porta arrebentou. As figuras retorcidas inundaram o quarto.

Um homem alto e magro investiu contra mim. Eu o arranquei de cima e o esmaguei no chão. Instinto de sobrevivência e raiva pura lutavam juntos dentro de mim.

Eu errei o cálculo de um golpe e esmaguei a garganta de uma mulher. Ela desabou, engasgando. Outro homem se chocou contra meu lado e me derrubou. Um terceiro desferiu um golpe pesado no meu rosto. Eu cambaleei, mas permaneci de pé. Eu tinha que ficar.

Outra figura agarrou minha garganta com as duas mãos e começou a me estrangular. Eu enfiei meu punho no estômago dele. Ele se dobrou, apertando-se.

Dois homens investiram contra mim de uma vez. Um arranhou meu rosto como um animal, unhas imundas rasgando minha pele. O outro se agarrou a mim como peso morto.

Eu recuei.

Na luz fraca, não vi a mulher que eu havia golpeado antes, se contorcendo no chão. Eu tropecei nela e me chocuei direto contra a janela. Sob o peso combinado de três corpos, o vidro se estilhaçou, e nós caímos através dele.

Eu bati no chão enlameado com um impacto brutal. Um deles se enroscou na calha, pendurado ali como uma decoração empalada pelo pescoço. Outro caiu por perto, de cabeça numa pedra.

Eu fiquei ali, mal respirando, encarando a noite escura. Não conseguia me mover. Dor pulsava pelo meu corpo enquanto sentia meu braço deslocado começar a latejar.

"O Reginald estragou tudo de novo," uma voz infantil disse gentilmente.

O Edmund se agachou ao meu lado. Ele estava segurando um caracol na mão, estudando calmamente meu corpo quebrado.

"Mas eu tenho certeza de que ele vai recomeçar," o garoto disse, então esmagou o caracol entre os dedos nus dele.

E então tudo ficou preto.

Quando voltei a mim, o amanhecer já estava rompendo.

Meu corpo doía, pulsava, eu tinha certeza de que não havia um único osso em mim que não tivesse sido danificado. Mas minhas pernas, por mais que doessem, ainda funcionavam. Eu me esforcei para ficar de pé. Minha mão estava roxa de machucada, meus dedos dobrados em ângulos antinaturais. Eu só conseguia respirar em arfadas irregulares, e uma dor aguda perfurava meu lado.

Eu alcancei meu rádio, mas meus dedos roçaram contra plástico irregular.

Estava em pedaços. Nem me lembro de quando quebrou.

Comecei a me mover devagar, arrastando os pés. Mas não em direção à ambulância. Não para chamar por ajuda.

Eu voltei para dentro da mansão.

Eu não podia deixar a Ruby lá em cima. Eu tinha que vê-la. Eu tinha que saber o que aconteceu com ela.

Mas para meu choque, todos dentro estavam mortos.

Encontrei o padre também. Ele estava sentado nas escadas, os olhos dele revirados, espuma ressecada com tonalidade de sangue crostada no canto da boca dele. Encontrei um quarto cheio de crianças deformadas também. Elas tinham acabado igual a ele. Cada uma delas.

Quando finalmente cheguei ao quarto horrível lá em cima, o mundo girava ao meu redor. Mas não havia pessoas vivas lá também. Cada corpo jazia esparramado pelo chão, a cama, ou qualquer superfície em que tivessem desabado.

A Ruby tinha sumido.

Apenas uma imensa poça de sangue permanecia, marcando onde ela havia estado.

Mas ela não era a única que faltava.

Entre os mortos, o Reginald não estava em lugar nenhum. Foi quando as palavras do Edmund ecoaram através de minha mente atordoada:

"Mas eu tenho certeza de que ele vai recomeçar..."
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon