quarta-feira, 20 de maio de 2026

Meu Pai Me Deixou Uma Única Regra: Deixe Água na Mesa de Cabeceira

Eu estou com medo de ir para casa.

Na verdade, eu acho que nunca mais vou voltar. Não me importo que tudo que eu tenha esteja lá, nem que é a casa da minha infância — eu nunca mais vou voltar. Faz apenas alguns meses que eu recebi a ligação que mudaria minha vida. Eu estava sentada no meu dormitório, estudando para uma prova de psicologia, quando o chiado monótono do meu celular rompeu o silêncio tranquilo.

"Alô?" Eu atendi em branco.

"Sim, estou falando com a Erin?" Uma voz grossa e masculina rompeu pelo alto-falante.

"Hum, sim, sou eu. Com quem estou falando?"

"Bem, senhorita, eu sou o Xerife Waterson, de Centerville. Seu pai é o Roger, correto?"

Minha voz quebrou enquanto eu sussurrava: "Sim. Está tudo bem?"

Um suspiro pesado e dolorido veio pelo telefone.

O funeral do papai foi mais difícil que o da mamãe. O da mamãe era algo que se esperava há muito tempo; o câncer havia saqueado o corpo dela por anos, ele ria de alegria enquanto envenenava o sangue dela e a deixava uma casca oca meses antes do último suspiro. Mas o papai tinha se afogado. Não em um lago, não em uma piscina — dentro da própria casa. Eles me disseram que ele adormeceu na banheira. Três dias depois da ligação do xerife, eu estava na pequena e tradicional capela wesleyana. Enquanto eu ficava em frente ao caixão simples, vestida de preto, eu percebi que agora eu era órfã. Mais tarde naquela noite, o advogado do papai me sentou para me explicar o testamento.

Eu sentei ali no sofá em um choque induzido pelo luto. O jargão jurídico que saía do advogado me sobrecarregava como uma enchente. Muito poucas de suas palavras chegavam à minha mente. Mas uma de suas últimas declarações rompeu meu torpor.

"...E, finalmente, seu pai lhe deixou a totalidade de seu patrimônio, incluindo a casa."

"Espera, o que você disse?" Eu perguntei ao advogado seco.

"Seu pai lhe deixou a casa, assim como a maioria de seus bens terrenos." Ele respondeu como se fosse a declaração mais mundana do mundo.

"Ah" foi tudo que eu consegui dizer.

"Além disso, seu pai lhe deixou isto", ele disse enquanto me entregava um pequeno e simples envelope que trazia meu nome.

"Obrigada", eu disse enquanto o enfiava na minha bolsa.

Os dias se passaram cheios de casseroles (1), abraços e assinaturas desleixadas em documentos legais. Vários membros da família aconselharam que eu vendesse a casa para pagar minha faculdade. Mas como eu poderia? Como eu poderia vender a primeira e única casa que meus pais compraram? Como eu poderia vender a casa que abrigou minha infância? Em vez disso, eu a mantive, tranferi (2) para um programa online e, antes que eu percebesse, eu estava mudando as poucas caixas do meu dormitório para a casa que agora era minha.

Algumas semanas depois, eu me vi sozinha na casa pela primeira vez desde que o papai morreu. Ninguém te diz como é barulhento depois do funeral, nem como é silencioso depois que todos vão embora. O silêncio trouxe à tona cada boa memória do meu papai, embora estivessem manchadas pela perda. Não haveria mais memórias compartilhadas, nem abraços felizes quando eu me formasse na faculdade, nem risos emocionados enquanto ele me levasse ao altar. Eu tinha cada memória do meu papai que eu jamais teria, e, conforme eu envelhecesse, elas desapareceriam, eventualmente sumindo completamente. Então o meu papai estaria realmente morto.

Enquanto lágrimas suaves escorriam pelas minhas bochechas, uma memória de um bilhete escondido na minha bolsa veio à mente. Pegando minha bolsa, eu pesquei a carta que trazia meu nome na caligrafia trêmula, porém elegante, do meu pai. Uma única lágrima umedeceu o envelope enquanto eu o abria delicadamente. Meu coração aguardava ansiosamente pela sabedoria que ele poderia conter, mas, para minha surpresa, ele tinha apenas uma única frase:

"Sempre deixe um copo d'água na mesa de cabeceira"

Eu não sei quanto tempo eu fiquei olhando para aquela frase solitária, mas, enquanto eu olhava, a raiva fervilhou dentro de mim. E, antes que eu percebesse, eu gritei.

"É só isso?? Esse é o melhor conselho de merda que você conseguiu pensar? Nossa, obrigada, papai, eu vou sempre estar hidratada à noite! E quanto a 'eu te amo' ou 'tenho orgulho de você'?" Eu gritei para uma casa vazia enquanto escorregava para o chão e chorava.

"Por que você teve que ir embora? Por que você me deixou?"

Naquela noite eu me embebedei. Um coquetel de raiva e luto abasteceu minha ida até a loja de bebidas local, onde eu comprei álcool suficiente para abastecer qualquer fraternidade (3) por uma semana. Depois de várias rodadas com Jack Daniels, eu finalmente desabei na minha cama em um estupor etílico. Era por volta das 3 da manhã quando eu me acordei tossindo e engasgando; parecia que meus pulmões estavam cheios de água. Eu me sentei rapidamente, com medo de que estivesse engasgando no meu próprio vômito. Mas, quando eu me lancei para cima, a sensação passou. Minha via aérea se abriu e eu aspirei avidamente o máximo de ar que pude. Minhas mãos tremiam descontroladamente enquanto eu tentava me acalmar. Levantando-me, eu caminhei até o banheiro principal e me inclinei sobre a pia para jogar um pouco de água fria no rosto. Olhando para cima, eu vi minha pobre reflexão no espelho, e, por um momento, no reflexo, eu vi movimento.

Foi sutil, mas ali, no reflexo da escuridão boquiaberta que era a porta do meu quarto, havia movimento — o tipo de movimento que seus olhos notam um segundo tarde demais. Os cabelos da minha nuca se eriçaram enquanto as implicações me alcançavam. Lentamente, eu virei e encarei o vazio escuro que costumava ser meu quarto. Armada apenas com uma escova de cabelo, eu entrei cautelosamente no quarto.

"Alô?" Eu disse, tentando disfarçar o medo na minha voz.

"Tem alguém aí?"

O quarto estava vazio; não havia ninguém lá, e logo eu voltei minha atenção para a porta do corredor. Espreitando minha cabeça no corredor, eu olhei para os dois lados, e, enquanto eu fazia isso, por trás de mim eu ouvi o gotejar suave de água. Minha jornada de volta ao banheiro pareceu levar horas; eu ficava esperando que algo me tocasse vindo da escuridão. Mas logo eu estava parada completamente na luz branca baixa do banheiro; diante de mim estava a pia. Um fino fio de água escorria da torneira. Minha mente ofereceu dezenas de explicações, mas a que eu aceitei foi que, no meu medo, eu falhei em fechar a torneira completamente e não percebi até que meu terror tivesse passado.

"Não é nada, só o álcool", eu sussurrei em voz alta para mim mesma enquanto trancava a porta do quarto e voltava para a cama.

Na manhã seguinte, eu acordei em uma estranha mistura de exaustão sonolenta e esperança quieta. Eu me vi de certa forma envergonhada sobre a noite anterior, tanto pela bebedeira quanto pelo medo. E, embora eu ainda estivesse de luto, eu me disse que não deixaria mais a perda me controlar. Naquela manhã eu comecei a desfazer as malas e limpar. O trabalho era bom para mim; mantinha minha mente longe de ficar remoendo a perda. Logo eu voltei aos meus estudos, o que me trouxe algum prazer. Pela primeira vez em dias, eu senti fome. Então eu caminhei alguns quarteirões até a pizzaria, a mesma onde eu trabalhei no ensino médio. Billy, o dono, me cumprimentou calorosamente com um abraço enquanto me dizia como sentia muito pela minha perda.

"Obrigada, Billy, isso significa muito", eu respondi.

"Nós te amamos, garota, e você sempre tem um emprego aqui se quiser."

Eu sorri. "Se você está falando sério, sim, isso seria ótimo; eu poderia realmente usar uma distração agora."

Ele assentiu. "Comece quando estiver pronta; nós te aceitamos a qualquer hora."

"Que tal amanhã?"

Ele deu uma palmadinha nas minhas costas. "Amanhã é ótimo."

Alguns momentos depois minha pizza grande de pepperoni estava pronta, e, enquanto Billy a entregava para mim, ele disse: "Por conta da casa, garota; é o mínimo que podemos fazer."

Eu agradeci e carreguei meu jantar de volta para casa.

Eu gostaria de poder dizer que aquela noite foi normal, mas o que eu achava que era apenas uma reação etílica ao luto acabou sendo algo maior. Todas as noites daquela semana, às 3 da manhã, eu acordava sentindo que estava me afogando; todas as noites a sensação ficava mais intensa e durava mais que a noite anterior. Depois de uma semana inteira de sono inquieto, eu não aguentava mais. Não sabendo o que mais fazer, eu mandei um e-mail para um dos meus professores e perguntei se poderíamos marcar uma videochamada. O Dr. Martin era um dos meus professores favoritos; ele encorajava calorosamente meus desejos de me tornar psicóloga, e, depois de algumas conversas banais, eu me abri com ele. Eu contei sobre a morte do meu pai, como ele se afogou; eu contei sobre meus pesadelos e o terror que eu sentia enquanto meus pulmões enchiam de água imaginária. O tempo todo ele ouviu atentamente.

Quando meu relato chegou ao fim, o Dr. Martin encarou intensamente a câmera, claramente mergulhado em pensamentos; um momento depois ele falou:

"Honestamente, Erin, parece muito com paralisia do sono desencadeada pelo luto."

"Paralisia do sono?" Eu repeti.

"Sim, parece que seu subconsciente tomou esse luto e o internalizou na forma de uma experiência de paralisia que imita os momentos finais do seu pai."

Eu fiquei olhando por um momento enquanto essa notícia afundava em mim. "Bem, tem algo que ajudaria?" Eu perguntei.

"Bem, se você quiser ir pela via da medicação, eu teria que te encaminhar para alguém, mas, se me perguntar, medicação pode não ser necessária. Talvez tudo que sua mente precise seja alguma forma de encerramento."

Eu pensei por um momento antes de assentir. "Obrigada, doutor; você tem sido muito útil."

"Claro, Erin; feliz em ajudar."

Fechando meu laptop, eu sentei ali na ponta da minha cama, tentando o meu melhor para digerir o que eu acabava de ouvir. O que seria um encerramento? Momentos depois me acertou: o bilhete. O bilhete estúpido de uma frase que meu papai me deixou, o bilhete que estava atualmente escondido no fundo da minha gaveta de tranqueiras. Logo eu me vi encarando o pedaço de papel amassado. Tudo que dizia era:

"Sempre deixe um copo d'água na mesa de cabeceira"

Por que ele escreveria isso? O pensamento quicava na minha mente repetidamente, mas, no final das contas, não importa; se ouvir o bilhete daria encerramento à minha mente, eu faria o que quer que ele dissesse. Naquela noite, antes de dormir, eu coloquei um copo alto de água clara na mesa de cabeceira; eu encarei o copo enquanto minhas pálpebras ficavam pesadas e, logo, eu estava profundamente dormindo.

Eu acordei de manhã chocada; não apenas eu tinha dormido a noite toda, mas foi um dos sonos mais revigorantes que eu já tive. Eu me senti relaxada e energizada, pronta para o dia que vinha. Meu sorriso raramente deixou meu rosto o dia todo; mais tarde naquela tarde Billy comentou:

"Você está de bom humor hoje, Erin; fico feliz em ver isso."

Eu ri levemente. "Sim, finalmente parece que eu posso seguir em frente com minha vida."

Ele sorriu e assentiu enquanto voltávamos ao trabalho.

Naquela noite, eu despejei o copo e o enchi até a borda com água fresca. Pulando na cama, eu silenciosamente esperava que aquela noite fosse tão boa quanto a noite anterior. Novamente, a manhã chegou, e, com ela, a energia renovada de uma noite revigorante. Eu acordei com um sorriso no rosto, mas, pelo canto do olho, eu notei que algo estava diferente. Era o copo; estava meio cheio. Eu fiquei olhando para ele por um momento. Eu lembrava vividamente de tê-lo enchido completamente na noite anterior, mas agora não estava cheio. Levou um momento para me convencer de que eu simplesmente tinha bebido um gole no meio da noite e simplesmente não lembrava.

"Estranho", eu disse em voz alta enquanto forçava um encolher de ombros.

Apesar dos meus esforços, uma sensação de desconforto grudou em mim o dia todo. O dia em si foi um borrão; eu não conseguiria te dizer uma coisa sobre aquele dia, apenas que eu passei cada momento me perguntando o que aconteceu com a água. Novamente, a noite chegou, e eu me vi enchendo o mesmo copo com água fresca. Enquanto eu o colocava na mesa de cabeceira, eu tomei um momento para notar a quantidade exata de água que o copo continha. Levou mais tempo para adormecer naquela noite, mas, eventualmente, o sono me levou.

Novamente, eu acordei revigorada e feliz, mas isso durou apenas um momento enquanto eu olhava para a mesa de cabeceira e via que o copo estava um pouco mais que meio cheio, definitivamente menos que na noite anterior. Naquele dia minha mente foi consumida por uma coisa: a água. Será que eu bebi e simplesmente não lembro? Eu devo ter. Mas por que eu não lembro? Para onde mais a água poderia ter ido?

"Tudo bem, garota?" A voz de Billy rompeu através das minhas perguntas.

"Ah, sim, desculpe; só muita coisa na cabeça."

"Bem, se precisar conversar sobre qualquer coisa, é só falar."

Eu assenti enquanto tentava me distrair com o trabalho.

Naquela noite eu tive uma ideia. Depois de encher o copo, eu peguei um marcador vermelho e marquei a linha d'água. De manhã não haveria dúvida sobre quanta água eu tinha colocado. Na manhã seguinte o copo estava completamente vazio. Num acesso de raiva e medo, eu joguei o copo através do quarto; ele se estilhaçou ao bater na parede.

"Que porra está acontecendo?" Eu gritei para a casa vazia.

Naquela tarde, enquanto eu caminhava para o trabalho, eu percebi que, antes de exagerar na reação, eu precisava ter certeza de que eu não estava bebendo a água. Por tudo que eu sabia, eu poderia estar sonâmbula. Se eu pudesse ver que estava bebendo a água, isso poria um fim nisso. Eu sabia que meu celular não gravaria a noite toda, e eu não tinha tempo hoje para dirigir até a cidade vizinha e comprar uma câmera de segurança; então, se eu não podia gravar vídeo, talvez eu pudesse gravar áudio. Eu frequentemente usava um aplicativo de memo de voz para gravar palestras da faculdade para ajudar nos estudos, e eu sabia que não havia limite para quanto tempo o aplicativo gravaria. Quando eu entrei na pizzaria, eu já tinha decidido. Naquela noite, eu gravaria tudo.

Quando a noite caiu, eu tomei outra decisão. Eu decidi encher quatro copos em vez de apenas um; se acontecesse que isso era apenas eu engolindo água enquanto andava dormindo, quatro copos d'água certamente me fariam ter que ir ao banheiro, e o desconforto me acordaria. E então, com quatro copos d'água na mesa de cabeceira e meu celular gravando cada barulho no quarto, não levou muito para eu adormecer.

Quando a consciência retornou de manhã, eu virei rapidamente para a mesa de cabeceira, e um arrepio frio percorreu meu corpo enquanto eu via quatro copos vazios. Com uma mão suada, eu peguei meu celular e comecei a reproduzir a gravação de oito horas. Nas primeiras horas nenhum som além de meu leve ronco foi ouvido. Eu acelerei a reprodução ainda mais, até por volta das 3 da manhã, quando, de repente, um novo som veio pelo celular. Foi um som assustador; o tipo de som que apenas a inalação pesada de água pode criar. Parecia que um cavalo sedento estava violentamente lambendo água de um bebedouro. Durou cerca de 30 segundos, e, tão rápido quanto veio, se foi. O resto da gravação era apenas meu ronco.

Eu estava horrorizada; aquilo não podia ter sido eu, eu não poderia ter feito aqueles sons, mas eu não ousava considerar a outra opção, a opção que dizia que algo mais estava bebendo a água. Eu não tinha ouvido passos, nenhuma outra respiração, nada — apenas o lambido desumano da água. Eu não tinha outra escolha; ouvir não era o suficiente, eu precisava ver o que estava acontecendo. Eu liguei para o Billy e cancelei meu turno naquela tarde; eu disse a ele que estava doente, ele me desejou uma rápida recuperação. Pouco depois eu pulei no meu carro e saí para comprar uma câmera.

Centerville não era grande o suficiente para ter lojas que vendessem o tipo de câmera que eu precisava. A loja mais próxima que tinha ficava a 45 minutos de distância. Eu entrei na loja e rapidamente encontrei a seção de tecnologia. O jovem atrás do balcão de ajuda olhou para cima enquanto eu me aproximava; com um sorriso, ele disse:

"Oi, posso te ajudar?"

"Hum, sim, pode", eu respondi rapidamente. "Estou procurando uma câmera de segurança residencial que tenha visão noturna e que eu possa acessar pelo meu celular."

"Claro, temos algumas opções bem ali, se quiser me acompanhar."

De quatro opções eu escolhi a mais barata.

"Esse é um bom modelo", ele disse. "O aplicativo da câmera funcionará desde que seu celular tenha Wi-Fi."

"Ótimo", eu respondi.

Depois que o funcionário me mostrou a progressão de configuração e as funções do usuário, eu voltei para o meu carro e segui para casa. Quando a casa do meu pai veio à vista, eu fui surpreendida por como ela parecia estranha para mim. Ela não era mais a casa que me protegia quando criança, não era mais a casa que enchia minha mente com boas memórias e paz. Em vez disso, era alguma versão distorcida daquele lugar. Eu queria ir embora e nunca mais voltar; eu realmente queria. Era a casa que matou meu pai, mas, se eu fosse embora, então o papai estaria realmente morto. Quando eu entrei, eu não senti nada: nenhum amor, nenhuma nostalgia, nenhum conforto — apenas medo.

Eu montei a câmera o mais rápido que pude; eu não aguentava mais ficar no quarto. A única coisa que me mantinha indo era o desejo de saber a verdade. Depois de montar a câmera e garantir que estava conectada ao meu celular, eu caminhei até a farmácia local. Eu entrei no lugar pequeno e empoeirado iluminado por luzes fluorescentes fracas que emitiam um brilho verde piscante. Não levou muito para encontrar os comprimidos para dormir que eu estava procurando; eu duvidava que conseguiria adormecer sozinha naquela noite, uma ajuda seria bem-vinda.

Um velho frágil estava atrás do balcão e me ofereceu um sorriso gomoso enquanto eu me aproximava.

"Olá, jovem; encontrou tudo que precisava?"

"Sim, senhor; obrigada."

Ele olhou para os comprimidos enquanto os colocava em uma sacolinha pequena.

"Problemas para dormir, senhorita?"

Com um aceno eu disse: "Sim, acho que pode-se dizer isso."

"Bem, espero que isso ajude; se cuida."

"Você também", eu disse enquanto saía.

A noite caiu. Com mãos trêmulas, eu enchi um copo até a borda com água. Verifiquei mais uma vez que a câmera estava funcionando e apontando tanto para a cama quanto para a mesa de cabeceira, e tomei dois comprimidos. Meu coração batia rápido enquanto eu subia na cama e, com um suspiro, eu apaguei a lâmpada. A manhã chegou e eu posso dizer honestamente que foi a melhor noite de sono que eu já tive. Com um espreguiçar e um bocejo, eu me levantei da cama, feliz e pronta para o dia, mas bastou um olhar no copo vazio para todo o medo e apreensão caírem de volta sobre meus ombros. Eu nem me incomodei em trocar de pijama enquanto eu pegava meu celular e saía para a varanda.

Depois de conectar à câmera, eu vi meu quarto às 23h30 da noite anterior; o infravermelho da câmera iluminava meu quarto com um brilho branco e cinza sinistro. Eu me vi dormindo em velocidade tripla, e, entre 23h30 e 3h da manhã, nada aconteceu; o quarto estava quieto e pacífico. Mas o que eu vi às 3h01 tirou o fôlego dos meus pulmões.

De debaixo da minha cama rastejou uma forma tão quieta e suave quanto a neblina deslizando sobre picos de montanhas; era impossivelmente alto, e, quando finalmente se ergueu, ele teve que se curvar para que sua cabeça e ombros encostassem no teto. Suas costas, que encaravam a câmera, estavam úmidas e nojentamente magras; cada vértebra de sua coluna era visível. Seus braços alcançavam abaixo dos joelhos. Ele não se movia como um predador com pressa. Ele se movia como algo que já possuía o quarto. A coisa lentamente alcançou o copo d'água, que parecia minúsculo em suas mãos massivas. Ele ergueu o copo até os lábios e sugou a água ruidosamente, e, depois que terminou, seu pescoço virou a cabeça para mim, enquanto eu dormia pacificamente na minha cama. Enquanto ele me encarava dormindo, ele ergueu uma mão e gentilmente passou os dedos pelos meus cabelos, e, eventualmente, pelo lado do meu rosto, onde uma de suas garras pressionou contra minha bochecha com força suficiente para romper a pele. Com isso, eu comecei a me mexer; eu murmurei por um momento, então minha boca adormecida falou as palavras:

"Papai? É você?"

A criatura me encarou; então, seu corpo tremeu com uma risada engasgada e úmida. E então, com uma voz rangente e desumana, ele respondeu zombeteiramente:

"Sim, sou eu"

"Sinto sua falta tanto, papai."

Ele então se curvou e beijou minha testa, antes de rastejar silenciosamente de volta para debaixo da cama.

Eu não conseguia respirar. Meu estômago revirou enquanto eu tropeçava da varanda para o quintal. Eu não conseguia me fazer olhar de volta para a casa. Eu só queria ir embora, colocar tantas milhas quanto possível entre eu e aquela coisa. Então, eu entrei no meu carro e dirigi. Estou a horas de distância agora, escrevendo isso de um quarto de hotel em outro estado. Eu nunca mais vou voltar. Eu acho que ele sabe que eu fui embora. Eu tenho assistido a transmissão da câmera, e, trinta minutos atrás, ele rastejou de debaixo da cama. Desde então, ele não se moveu. Os olhos dele estão travados na câmera o tempo todo. São olhos horríveis. Puramente negros, com pupilas brancas minúsculas. Ele não piscou uma única vez.

Está ficando tarde agora; eu não quero dormir, eu tenho medo de que eu me afogue.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Conheci um Homem que Sabia Demais...

Eu sei como isso pode soar; pode soar como se eu estivesse exagerando, e que saber demais não deveria ter uma conotação negativa — mas tem. Eu sei disso muito bem. Agora eu sei que conhecimento demais não é um dom. É uma praga corrosiva e inescapável na mente. E essa é uma praga em mim, uma doença pesada e implacável, e agora, muitos outros terão que lidar com o pesado e paralisante peso dela daqui até nossa última respiração rouca e estertorante neste planeta. Cada momento único é manchado por isso. Agora escute com atenção, eu não sei quanto tempo ainda tenho até os últimos resquícios da minha sanidade se esvaírem por completo, até eu ser reduzido a nada mais do que uma casca vazia e esvaziada do meu antigo eu, encarando o espaço vazio com olhar vazio.

Eu me lembro — eu me lembro daquele dia muito bem — o dia em que ele veio à nossa pequena e pitoresca cidadezinha. Ele se apresentou como uma espécie de turista, embora nós, é claro, tenhamos achado isso um pouco estranho desde o início. A razão pela qual achamos tão peculiar, tão absolutamente bizarro, era que nossa pequena cidade não tinha absolutamente nenhum contexto histórico importante, nenhum ponto turístico famoso e nenhuma atração única; nós éramos praticamente a definição de livro didático do meio do nada. Não havia nada aqui além de estradas empoeiradas e vazias que se estendiam até o horizonte e o zumbido interminável e enlouquecedor das cigarras vibrando no calor sufocante do verão. No entanto, apesar da nossa confusão, ainda assim recebemos o homem em nossa cidade de braços abertos, e alguns de nós fizemos o melhor possível para mostrar a cidade para ele, caminhando com ele pelas fachadas empoeiradas e descoloridas pelo sol da Rua Principal e levando-o à antiga biblioteca que sempre cheirava a baunilha e decadência. Enquanto mostrávamos o pouco que podíamos, ele apenas sorria e assentia, soltando um comentário ocasional e desconexo que deixava um silêncio desconfortável em seu rastro. Seus olhos, frios e escuros como águas profundas, pareciam olhar diretamente através de nós, como se nem estivéssemos ali parados.

O homem tinha uma aparência incrivelmente única e perturbadora. Ele era excessivamente limpo — não havia uma única mancha, ruga ou marca em sua pele antinaturalmente pálida — e ele usava um terno pesado e escuro no meio do calor sufocante do verão sem derramar uma única gota de suor. Um cheiro tênue e agudo de ozônio misturado com poeira velha o acompanhava por onde quer que fosse, e seu sorriso não chegava aos olhos, que pareciam engolir e extinguir a luz ao seu redor. No entanto, o que achamos mais profundamente perturbador era como ele falava: era surpreendentemente formal, porém arrepiantemente casual ao mesmo tempo. Suas palavras saíam com uma precisão medida e rítmica, cada sílaba carregada de um peso quieto e ominoso que fazia os pelos da nuca se eriçarem toda vez que ele abria a boca.

Depois do que pareceram dias arrastando-o pelas nossas ruas vazias, ele finalmente parou no meio do caminho, ofereceu um pequeno sorriso frio e fez uma única pergunta. Um arrepio afiado subiu pela minha espinha, um medo quieto e pesado assentando-se profundamente nos meus ossos enquanto suas palavras vazias ecoavam claramente em nossos ouvidos.

"Se o conhecimento para os humanos é poder, então o que ele é para um deus?"

Nós congelamos instantaneamente, o grupo inteiro parando no meio do movimento enquanto um medo frio e paralisante subia por nossas espinhas, pesado e sufocante como lã molhada. O ar pareceu ficar denso. O homem estudou nossos rostos um por um, nos fixando com um sorriso predatório e de olhos mortos, e lentamente inclinou sua cabeça pesada para baixo antes de se afastar para o calor. Parado congelado exatamente naquele ponto pelo que pareceu uma eternidade absoluta, eu podia sentir meu coração batendo violentamente contra minhas costelas. Uma confusão emaranhada e avassaladora de pensamentos frenéticos corria pela minha cabeça, colidindo uns nos outros. Quando finalmente voltei à realidade e olhei para as pessoas ao meu lado, percebi que os outros estavam chorando silenciosamente em terror absoluto. Eu toquei lentamente minha própria bochecha, e com certeza, meus dedos saíram molhados de lágrimas que eu nem sequer tinha percebido que estavam caindo.

O sol se arrastou lentamente para baixo, a luz laranja brilhante engolindo gradualmente a linha das árvores em um brilho pesado e úmido que parecia sufocante. O estalo seco e afiado de cascalho seco sob minhas botas era o único som na noite quieta enquanto eu caminhava sozinho em direção ao meu apartamento. As palavras de despedida do homem roíam minha mente, mastigando meus pensamentos como uma matilha de animais raivosos rasgando carne. Eu finalmente parei de pensar demais, tentando forçar o barulho da minha cabeça, e segui pelos degraus rangentes até meu prédio de apartamentos desgastado. A porta da frente pesada rangia alto e dainosamente enquanto eu a empurrava para abrir, entrando no corredor escuro. O cheiro familiar e velado de café queimado e carpete úmido me atingiu imediatamente, misturado com o ronco tênue e rítmico de um trem passando vibrando suavemente pelas tábuas de madeira antigas sob meus pés.

"E aí, Brantley, onde você estava tão tarde?"

Eu olhei para cima abruptamente e fui recebido pelo rosto amigável e familiar do meu senhorio. Precisando rapidamente inventar uma desculpa — uma que não me fizesse soar completamente delirante e excessivamente paranoico — eu busquei freneticamente na minha mente as palavras certas para dizer.

"Hum, eu-eu estava apenas dando uma caminhada, para pegar um ar fresco." A desculpa era incrivelmente vaga, mas era crível o suficiente para satisfazê-lo.

"Bem, você devia ter cuidado, o calor do verão vai te matar."

Eu dei um aceno firme e um sorriso fraco e forçado, então subi rapidamente as escadas até meu apartamento. Eu destravei a porta, gemendo baixinho enquanto ela se abria, e o cheiro abafado e confinado de gesso seco e aromatizador barato atingiu meu nariz. Eu respirei fundo, tentando acalmar meu pulso acelerado, e segui em direção ao meu quarto, meus passos pesados ecoando afiadamente nas tábuas de madeira desgastadas a cada passo. Ao entrar no quarto, meu coração deu um pulo e parou completamente.

"Olá, Sr. Brantley Puckett, por favor, sente-se. Temos muito o que discutir."

Lá, sentado quietamente na própria borda do meu colchão, estava o homem estranho. De alguma forma, de algum jeito, sem arrombar nenhuma fechadura, ele tinha entrado no meu apartamento trancado. O cheiro afiado e avassalador de ozônio e lã molhada pairava pesadamente no ar, denso e sufocante de respirar, e o único som no silêncio mortal era o clique suave e rítmico de suas unhas contra a cabeceira de madeira da minha cama.

"Co—" Antes que eu pudesse terminar a palavra, o homem me cortou instantaneamente.

"Sr. Puckett, por favor, sente-se, eu só quero conversar." Seu tom permanecia perfeitamente calmo, porém profundamente exigente.

Um arrepio súbito e gelado varreu violentamente meu corpo, levantando a carne de galinha ao longo de meus braços descobertos. Eu fiquei completamente paralisado na porta, encarando em descrença absoluta o intruso, que sentava excessivamente confortável na borda da minha cama.

"Como você sabe meu nome completo? Como você entrou na minha ca—"

Mais uma vez, antes que a frase pudesse sair dos meus lábios, ele me cortou.

"Eu sei muitas coisas, Sr. Puckett, mais do que você poderia começar a compreender." O homem sorriu, sua postura permanecendo antinaturalmente imóvel e rígida. Ele começou a falar novamente, sua voz enchendo o quarto pequeno. "Por exemplo, Sr. Puckett, você sabia que se uma coisa acontecesse, um fragmento, um pequeno erro, você deixaria de existir? Bem, você junto com tudo no universo inteiro."

O homem sorriu para mim novamente. Eu tentei falar, gritar, mas as palavras se transformaram em guinchos inúteis e engasgados na minha garganta. Aterrorizado até o âmago, eu recuei da porta do quarto e corri desesperadamente em direção à minha porta da frente. Eu arranquei a tranca com mãos trêmulas, mas antes que eu pudesse sair para o corredor para escapar, uma sombra escura se materializou da escuridão bem na minha frente. O homem estava lá completamente imperturbável, bloqueando sem esforço minha única saída do prédio.

"Saindo tão cedo?" ele perguntou, uma risada fria e zombeteira ecoando alto pelo apartamento vazio.

Em pânico, eu me virei e corri direto de volta ao quarto, e lá estava ele, ainda sentado na borda da minha cama como se nunca tivesse se movido um centímetro sequer.

"Como... QUE PORRA VOCÊ É!" Eu gritei para ele no topo dos meus pulmões, exigindo uma resposta.

O homem soltou uma risada leve e quieta. "Agora, se eu te dissesse isso, Sr. Puckett, você perderia a cabeça, completamente." Seu tom de repente ficou muito mais frio, despojando qualquer pretensão casual. Ele olhou para cima em mim, me fixando no lugar com aqueles olhos vazios, e fez uma última pergunta antes que o mundo inteiro ficasse preto ao meu redor. "Agora, antes que eu vá embora, deixe-me fazer uma última pergunta. Que deus realmente ouve suas orações desesperadas?"

No momento em que ouvi as palavras, meu corpo inteiro ficou completamente dormente e desabou pesadamente no chão com um baque alto e surdo.

Quando abri os olhos, a luz pálida da manhã estava filtrando-se lentamente no quarto. Eu ainda estava no chão, mas o homem não estava mais sentado na minha cama. Uma leve camada de suor frio cobria minha pele, deixando uma silhueta úmida e escura no chão onde eu tinha deitado a noite toda. Eu forcei meu corpo dolorido a se levantar, meus músculos doloridos por causa das tábuas de chão duras. Finalmente em pé, eu ainda conseguia sentir o cheiro tênue e azedo de ozônio pairando pesadamente no ar, mas o quarto estava completamente vazio. Eu caminhei para o corredor e tomei nota cuidadosa de qualquer coisa suspeita, mas não havia nada nem remotamente estranho ou fora do lugar. Era como se tudo o que eu tinha experimentado fosse apenas um sonho terrível, ou melhor, um pesadelo vívido.

Buscando a segurança do lado de fora, eu saí do prédio, o sol da manhã cega meus olhos doloridos. Mas mesmo através de minha visão embaçada e lacrimejante, eu o vi parado bem ali no asfalto, o mesmo sorriso arrepiante no rosto.

"Bom dia, Sr. Puckett," o homem disse, seu tom levemente zombeteiro.

Eu não respondi a ele. Eu apenas o encarei, uma tempestade de emoções frenéticas fervendo violentamente dentro de mim. Parte de mim queria gritar com ele — até atacá-lo fisicamente — mas eu não conseguia nem me forçar a manter contato visual com aqueles olhos profundos. Eu apenas recuei lentamente, como um animal aterrorizado encurralado por um predador. E ele notou cada pedacinho disso.

"Sr. Puckett, você me teme? Hehehe."

Movido por pura e inadulterada desesperação, eu dei um passo à frente e desferi um soco. Meu punho conectou-se de cheio no rosto dele, mas parecia como bater em pedra sólida — mal fez qualquer coisa nele. Ele apenas continuou sorrindo sem nem piscar, e uma onda sufocante daquele cheiro afiado de ozônio me dominou completamente.

"Sr. Puckett, eu aplaudo sua tentativa," ele disse calmamente, os cantos de sua boca tremendo com diversão. "No entanto, deixe-me compartilhar um segredo com você. Mesmo que você consiga me matar, eu simplesmente voltaria. Eu usaria um rosto diferente, habitaria um corpo completamente diferente — e você nunca saberia."

As palavras atingiram como gelo, desencadeando uma súbita e cegante onda de paranoia total. Eu tentei fugir, me arrancar desse pesadelo acordado, mas cada passo em pânico que eu dava me levava de volta exatamente ao mesmo ponto no asfalto. A própria realidade tinha travado em um sulco, repetindo infinitamente em um único e agonizante quadro.

Exausto, meu peito ofegante por ar, eu finalmente cedi à paralisia. Ele riu baixinho, um som rouco e baixo que vibrava pelo ar antes de se inclinar perto do meu rosto, seus lábios curvados em um sorriso lento e vazio.

Então, ele se inclinou ainda mais perto e sussurrou a verdade.

É uma realização que agora escava profundamente na medula da minha mente, afundando suas garras mais fundo a cada segundo que passa. Eu não ouso falar essas palavras em voz alta, mas finalmente entendo a realidade horrível: os humanos são para os deuses o que os insetos são para nós. Para eles, somos meros brinquedos, completamente desprovidos de propósito na grandiosa e indiferente arquitetura do universo.

Lembre-se disso — não há nenhum poder superior esperando para ouvir suas orações. Seus gritos desesperados serão apenas um eco tênue no vazio, caindo em ouvidos surdos e completamente indiferentes.

Eu consigo ver a Morte

A primeira vez que a gente se encontrou eu estava no segundo ano. A escola que eu estudava tinha dividido o refeitório em duas salas extras, então todo mundo almoçava nas salas de aula mesmo. Eu estava sentado numa mesinha redonda pequena com dois dos meus amigos, trocando salgadinhos e combinando qual brincadeira a gente ia fazer no recreio no parquinho. Eu estava prestes a morder um dos meus salgadinhos quando outro garoto veio correndo.

“Esses são biscoitos de pasta de amendoim?!”

Eu pisquei uma vez de surpresa e dei um aceno pequeno com a cabeça.

“Quer trocar? Eu tenho Starburst!”

Esse moleque não fazia ideia do que estava fazendo. Starburst por uns biscoitinhos de pasta de amendoim? Era tipo trocar um diamante por um pedaço de carvão. Sendo o esperto do segundo ano que eu era, enfiei o pacotinho na mão dele todo animado enquanto ele jogava quatro Starburst na minha lancheira. Fiquei sorrindo praquela pilhadinha colorida enquanto ele saía saltitando pra mesa dele. Desembrulhei um rosa — o meu favorito — e enfiei na boca. Mal tinha dado duas mastigadas quando um grito explodiu pela sala inteira. As crianças da mesa do canto estavam de pé, todas amontoadas em volta de um menino que tinha caído no chão.

O garoto que tinha trocado comigo.

Ele estava estirado no chão se contorcendo igual minhoca que acabou de ser jogada no sol. As mãozinhas arranhavam a garganta vermelha enquanto lágrimas escorriam pelas bochechas que já estavam inchando. A professora atravessou a sala correndo e se ajoelhou do lado dele enquanto todo mundo se aproximava formando um círculo.

“James!” ela gritou, envolvendo ele com as mãos pra tentar levantar. “O que aconteceu? O que você comeu?”

Um gemido sufocado saiu da garganta do James enquanto uma mãozinha tremendo apontava na direção da mesa. A professora olhou por cima do ombro, segurando ele no colo com uma mão enquanto a outra pegava o pacotinho de biscoitos que ele estava comendo. Leu o rótulo e a cara dela ficou branca que nem papel.

“Meu Deus do céu”, ela sussurrou, levantando o James contra o peito enquanto se colocava de pé. “Ele é alérgico a amendoim!”

E saiu voando dali; correu porta afora com o menino nos braços gritando pela enfermeira. A sala ficou em silêncio, só com alguns soluços de crianças chorando. Exatos dois minutos depois outra professora entrou e começou a mandar todo mundo de volta pras salas. Eu fiquei no fundão da fila só pra olhar mais um pouco pra mesa. Pra olhar pro pacotinho de biscoitos que eu tinha dado pro James.

Eu me virei. Ia me esconder atrás da minha mochila no escaninho. Eles não iam chamar a polícia por causa de uma criança do segundo ano, mas na hora eu não sabia disso. Eu só sabia que o James podia estar morrendo e que a culpa era toda minha. Parei no meio do caminho quando minha mão já estava empurrando a mochila pro lado.

Tinha outra pessoa ali.

Cabelo preto igual tinta arrastava devagar pelo piso de linóleo. Pele branca que parecia quase transparente debaixo das luzes fluorescentes. Ela usava um terno todo preto, exceto pela camisa cinza-escura por baixo e a gravata vermelho-sangue. Formal. Séria. Sapatos sociais brilhantes batiam ritmadamente no chão enquanto ela dava a volta na mesa do canto. Uma mão pálida pegou um dos biscoitos, levantando pra inspecionar a mordida que tinha sido dada. A mordida que o James tinha dado. A mordida do biscoito que eu dei pra ele.

Em pânico, eu corri e puxei a barra da calça dela.

“Eu… eu sinto muito!” eu engasguei, a voz saindo chorosa e entrecortada enquanto minha mão apertava mais o tecido. “Eu… eu não sabia!”

Ela não olhou pra mim de imediato. Estava concentrada na mordida do biscoito, o polegar traçando devagar a borda da marca. Não fez nenhum som.

Finalmente, depois de um minuto inteiro de eu chorando e fungando no tecido da calça dela, ela colocou o biscoito de volta na mesa e se agachou pra colocar as mãos nos meus ombros. Levantei a cabeça e dei um pulo pra trás com o que vi.

Ela não tinha boca. Nem nariz. O rosto era só um par de olhos escuros. Não estou falando só das pupilas — os olhos inteiros eram pretos. Não tinha nem pupila! Eram buracos negros sem alma, sem emoção. Só… coisas. Espaços vazios. Como se fosse uma boneca que ainda não tinha recebido pintura.

Nenhum de nós falou nada por um tempo longo. Ela me segurava firme pelos ombros e eu era obrigado a encarar. Só quando comecei a me remexer querendo soltar que ela me soltou e se levantou. Os “olhos” dela varreram a sala uma vez, como um predador procurando presa, antes de ela se dirigir pra porta aberta. Ela abaixou a cabeça e curvou o corpo pra passar pela porta. Quando conseguiu ficar de pé lá fora, seguiu pelo corredor.

Eu fui atrás.

Encontrei ela parada na porta da enfermaria. Estava olhando pela janelinha pequena, os olhos acompanhando os movimentos das pessoas lá dentro. Eu conseguia ouvir a professora chorando do outro lado da porta, se culpando por não ter prestado mais atenção. Mas não era culpa dela. Os pais do James nunca tinham falado da alergia; ninguém tinha como saber que isso ia acontecer.

Eu me escondi embaixo de um banco quando a porta abriu.

“Vou fazer mais uma ligação pros pais.” A professora fungou, secando os olhos com um lenço. “A ambulância deve chegar logo pra buscar ele.”

Um murmúrio veio de dentro, provavelmente a enfermeira, antes dela sair pelo corredor com o telefone na mão. A mulher entrou no quarto bem na hora que a porta ia fechar e eu saí rastejando debaixo do banco pra correr atrás. A porta fechou com um clique suave. Encontrei a mulher parada ao lado do leito onde o James estava sentado com as costas encostadas na parede.

A respiração dele estava pesada, mas mais calma do que antes. Uma das mãos descansava numa parte da coxa, o polegar esfregando o lugar. Os olhos dele estavam grudados na mulher. Ele também conseguia vê-la.

James tentou se afastar quando ela chegou mais perto; uma mão com unhas afiadas tocou de leve a bochecha inchada dele. A outra mão foi pro cabelo, enroscando nos fios num carinho lento. Pra minha surpresa, ele relaxou e se encostou no toque carinhoso. Uma lágrima rolou pela bochecha enquanto ele piscava.

“Eu quero”, uma pausa. Ele lutou pra falar. “minha mamãe.”

Ela respondeu se inclinando. A parte onde a boca deveria estar encostou de leve no meio da testa dele. Um beijo. O peito dele subiu e desceu num suspiro longo.

Eu fiquei ali, olhando enquanto ela acariciava o cabelo dele e o mantinha calmo até os paramédicos chegarem. Vi quando levaram ele embora pela sala e pelo corredor. Vi quando ela entrou na ambulância junto e sentou perto dele.

O James nunca voltou.

A segunda vez foi no quinto ano. Eu estava no meio de um círculo de crianças em cima do trepa-trepa onde duas irmãs estavam discutindo quem era a mais corajosa. As duas viviam se desafiando. Na semana passada tinha sido quem aguentava comer a mistura mais nojenta que o Tyler conseguia inventar. Teve muito vômito naquele dia.

Agora uma das irmãs, Tanya, estava de mãos na cintura com um sorrisinho convencido na cara.

“Eu consigo ficar em pé no topo das barras!”

“Prova!” a irmã dela, Marjorie, gritou.

Tanya, fiel à palavra, subiu a escadinha das barras e se arrastou até o topo. Depois de andar até o meio, ela parou na barra central com as pernas tremendo. Todo mundo começou a bater palma, impressionado com o equilíbrio dela naquela barra escorregadia. O pé da Marjorie bateu com força nas aparas de madeira do chão, braços cruzados enquanto Tanya descia.

“É?! Pois então”, ela olhou em volta, os olhos varrendo o campo até que de repente brilharam. “Eu consigo subir a fera!”

Um “ooooh” coletivo passou pela galera. A “fera” era um carvalho gigante de uns doze metros lá no canto mais afastado do campo. O tronco era grosso e impossível de escalar. Quem tentava geralmente escorregava, mas se a Marjorie conseguisse ao menos alcançar o primeiro galho, ela entraria pra história da escola.

Tanya deu uma risadinha debochada. “Aposto que não consegue!”

“Aposto que sim!”

E com isso Marjorie saiu correndo morro abaixo em direção à árvore. Demorou um segundo pra galera entender e todo mundo correu atrás. Ninguém queria perder isso!

Todo mundo se juntou em volta do tronco. Algumas meninas torciam pela Marjorie enquanto ela se preparava pra subir, alguns meninos gritavam que ela não ia conseguir. O pé esquerdo dela testou o tronco duas vezes. Quando achou um ponto de apoio, ela amarrou o cabelo num coque e pulou na árvore. A gente ficou olhando enquanto ela subia devagar, sapatos e mãos cravando na casca toda vez que começava a escorregar. Quando ela estava na metade do tronco, um arrepio subiu pela minha nuca. Olhei por cima do ombro.

A mulher estava parada no fundo da multidão, braços cruzados atrás das costas, olhos fixos na Marjorie. Engoli em seco, olhei rápido pra árvore e abri caminho pela multidão. Quando cheguei na frente dela, fiz um barulho de pigarro pra chamar atenção. Não funcionou. Tentei de novo. Nada. Estiquei a mão e puxei de leve a barra do paletó.

“Oi.”

A cabeça dela abaixou e eu tremi quando aqueles buracos pretos encontraram meus olhos. Minha mão caiu e ficou batendo desajeitada na minha própria coxa.

“Gostei da sua… gravata.”

Nada; nem um leve movimento de cabeça. Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, decidi virar de volta pra árvore bem na hora que a Marjorie estava esticando o braço pro primeiro galho. As pontas dos dedos dela roçaram a parte de baixo. Um suspiro coletivo passou pela galera. Ela bufou e se jogou pra frente. As duas mãos agarraram o galho e ela ficou pendurada ali por exatos dez segundos antes de se puxar pra cima e sentar no galho. Outro suspiro. Todo mundo começou a gritar, pular e comemorar que ela tinha conseguido. Marjorie era a primeira criança a subir a fera.

Com uma risada cheia de orgulho, ela olhou feio pra Tanya, que estava fervendo de raiva.

“Eu disse que conseguia. Na verdade…”

Ela se ajeitou pra ficar de pé e a mulher do meu lado deu um passo à frente. Eu olhei de canto pra ela enquanto Marjorie pegava o próximo galho, depois o próximo. Tanya ficou mais brava ainda, gritando pra ela descer. Ela estava gritando tão alto que um professor finalmente percebeu pra onde todo mundo tinha ido e parou no topo do morrinho.

“O que vocês estão fazendo aí embaixo? Subam aqui agora mesmo, faltam cinco minutos pro recreio acabar!”

Alguns tentaram argumentar, mas o professor balançou a cabeça.

“Eu disse pra sair de perto da árvore!”

Algumas crianças resmungaram e reclamaram, mas como ninguém queria levar bronca, todo mundo começou a subir o morro devagar. Eu mantive os olhos na mulher que ainda estava olhando a Marjorie subir cada vez mais alto.

Algo estava errado.

“Marjorie!” eu gritei, jogando a cabeça pra trás pra ver ela alcançar outro galho. “Você tem que descer!”

“De jeito nenhum!” ela se puxou com um grunhido. “Vou chegar no topo!”

Pensei em subir na árvore pra buscar ela, mas não sabia se eu ia me machucar ou pior no processo. Se eu gritasse pro professor, ia demorar muito pra ele descer e impedir antes que acontecesse alguma coisa. Então, num impulso desesperado, agarrei o braço da mulher e puxei.

“Você tem que parar ela, por favor!”

Ela olhou pra mim.

“Você… você tem que fazer alguma coisa!”

O outro braço dela subiu, a palma virada na minha direção. Os dedos pálidos foram se fechando devagar. Cinco, quatro, três, dois…

Marjorie bateu no chão com um baque nauseante.

Uma série de gritos explodiu do grupo no morro enquanto eu virava a cabeça pra olhar o corpo. Uma das pernas estava torcida pro lado errado e um osso do antebraço esquerdo tinha furado a pele rasgada. Sangue escorria devagar de uma das orelhas e uma folha parecia grudada num dos olhos ainda abertos.

Minhas mãos caíram ao lado do corpo. A mulher ao meu lado se moveu, agachou do lado do corpo da Marjorie e deixou a mão deslizar pela bochecha ainda quente. Ficou ali um tempo enquanto a cabeça dela baixava e os olhos escuros se fechavam. Era como se estivesse dando um momento de paz pra morte dela. Uma aceitação. E parecia que o tempo tinha desacelerado pra não permitir interrupções.

Depois do que pareceu uma eternidade (mas provavelmente não passou de um minuto inteiro), os olhos dela se abriram devagar e ela se levantou completamente. A cabeça virou na minha direção. Minha respiração travou quando ela abaixou só um pouquinho antes de voltar a subir. Um aceno. Reconhecimento. Quis falar alguma coisa, fazer alguma coisa. Mas fiquei pregado no lugar e só consegui olhar enquanto ela passava por trás da árvore grande e desaparecia.

Fecharam a escola por duas semanas pra cortar a árvore. Não queriam arriscar outro acidente.

A gente continuou se encontrando ao longo dos anos enquanto eu ia ficando mais velho. O quarterback estrela morreu num acidente de carro bêbado na noite do baile de formatura. Presenciei um acidente de carro no caminho pra faculdade. Alguém foi desafiado a pular do telhado da fraternidade numa festa; ainda lembro do som do crânio batendo na borda da piscina.

Uma noite, poucos dias antes da formatura, meu pai me ligou. Minha avó estava doente e internada há algumas semanas. Ele disse que ela estava piorando. Mais pálida, mais fraca, uma casca da mulher vibrante que ela já tinha sido. Ele não precisou falar muito; eu já estava arrumando uma mala.

Fiquei de lado enquanto meus pais conversavam com o médico, pegando pedaços da conversa. “Ela não está melhorando.” “Não falta muito.” “Não criem muita expectativa.” Eu sempre soube que esse dia ia chegar. Minha avó tinha 92 anos, o sistema imunológico era frágil e a força quase não existia mais. Ela simplesmente não aguentava. Minha mãe começou a chorar. Saiu correndo pelo corredor com meu pai gritando pra ela voltar enquanto ia atrás. Eu entrei no quarto. A porta fechou com um rangido suave enquanto meus olhos encontravam o leito.

Ela já estava lá.

A mulher, sentada numa cadeira ao lado da cama da minha avó, observava o rosto adormecido dela. Os polegares batiam um no outro no mesmo ritmo das respirações lentas do corpo. Parei do outro lado da cama, ombros tensos.

“Ela tem que ir mesmo?”

Os polegares pararam por uma fração de segundo antes de continuarem.

“Quanto… tempo ainda?”

Não tive resposta; embora eu já esperasse isso. Era raro ela responder minhas perguntas ou sequer dar um oi de volta. Normalmente minhas palavras só recebiam um olhar fixo.

Ao longo dos anos eu tinha criado várias teorias sobre quem ela poderia ser. Talvez fosse um fantasma preso na Terra que escolhia passar o tempo observando quem estava morrendo. Uma vez eu até pensei que podia ser uma alucinação. Um truque da minha mente pra tentar se confortar toda vez que eu via uma morte. Parecia a teoria mais óbvia já que eu era o único que conseguia vê-la, mas sempre voltava pro primeiro encontro.

O James tinha visto ela. Tinha falado com ela. Ela era real.

Minha avó começou a tossir. A mulher ao lado dela foi rápida, levantou da cadeira e pegou a ponta do cobertor fino que cobria as pernas dela. Puxou até os ombros, ajeitando os lados pra manter ela aquecida. Uma mão limpou o suor da testa enquanto a outra alisava o cabelo grisalho pra trás. Cada gesto era feito com um cuidado extremo, como se a pessoa sendo cuidada fosse feita da porcelana mais frágil do mundo.

A mão esquerda dela desceu e parou em cima do coração da minha avó. Os ombros dela caíram por um instante antes de voltarem pra postura séria de sempre. Eu já tinha visto aquela expressão antes. Era a única vez rara que eu via qualquer emoção nela, um vislumbre de como humana ela podia ser.

Agora eu estava vendo de novo. Agora eu via a percepção de que o tempo estava acabando.

A cabeça da mulher baixou, a parte de baixo do rosto roçando a testa da minha avó naquele beijo silencioso de sempre. O queixo subiu e desceu; quase como se estivesse falando. Mas não tinha som. Só o bipe ocasional do monitor cardíaco. A respiração da minha avó começou a falhar. Os dedos da mão direita se fecharam apertando o tecido do cobertor. O peito se expandiu com uma inspiração funda antes de desabar devagar enquanto o último suspiro escapava pelos lábios entreabertos. Ela ficou imóvel. Silenciosa.

O bipe contínuo do monitor foi ensurdecedor.

Abaisei a cabeça pra acompanhar o breve momento de silêncio que a mulher sempre fazia depois de cada morte. Quando finalmente levantei os olhos, ela estava de pé me encarando. Meu lábio inferior tremeu.

“Obrigado.”

Saí do quarto, mas não fui longe. Sentei na guia da entrada do hospital com um cigarro entre os lábios. Acendi o isqueiro bem na hora que a mulher sentou do meu lado. Minha mão congelou no ar, os olhos indo dela pra chama. Baixei o isqueiro.

“Obrigado”, tirei o cigarro da boca e fiquei girando ele entre os dedos, “de novo.”

As mãos dela se dobraram direitinho sobre um dos joelhos, os polegares batendo três vezes antes de formarem um “x”. Foquei no rosto dela; no jeito que os olhos estavam fixos nas estrelas lá em cima. Ela não tinha envelhecido um dia desde a primeira vez que nos vimos. O cabelo ainda era longo, saudável. Até o terno estava impecável. Sem uma dobra sequer; nunca. Era quase impossível imaginá-la desarrumada. Meu polegar passou pelo isqueiro que agora estava na guia.

“Por que eu consigo te ver?”

O queixo dela abaixou. As mãos se apertaram uma vez antes de relaxarem.

“Você… tem um nome?”

Bat. Bat. Bat.

Meu Deus como eu odiava quando ela me ignorava.

“Por favor?”

Os dedos dela se soltaram. Uma mão flexionou, os ossos do pulso estalando enquanto dobrava pra trás demais, depois apontou um dedo longo pra cima. Levantei a cabeça pra olhar o céu. Estava escuro como breu, só com poucas estrelas; tipo espinhas na pele.

“Lua?” Olhei de canto pra ela. A mão dela desceu e eu sorri. “Gostei desse nome.”

Silêncio conhecido. Não tentei preencher. Na verdade eu tinha começado a gostar desses momentos breves que a gente dividia. Momentos que não eram cobertos por morte e sangue; mas uma paz calma.

Mas eu tenho a boca grande e tinha que estragar tudo.

“Então… quantos anos eu vou tirar da minha vida se fumar um cigarro?” Dei uma risadinha com a piada horrível.

Ela não riu. A mão subiu de novo mostrando três dedos. Meu sorriso caiu.

“Entendi.” Olhei pro estacionamento. “Vou morrer por causa de cigarro?”

Os olhos dela se estreitaram na minha direção. Dei de ombros. “Só perguntando.”

Fiquei em silêncio por exatos um minuto.

“E acidente de carro?”
“Assassinato?”
“Incêndio em casa?”

Parei. “Combustão espontânea?”

Ela apertou a pele entre os olhos e eu ri. “Que foi? É uma possibilidade real.”

Deixei os ombros relaxarem enquanto a burrice das minhas perguntas se dissipava no ar. Não era como se eu estivesse esperando respostas de verdade; ela nunca falava. Nem podia, na real; não tinha boca. Mas era bom conseguir algum tipo de emoção da mulher que basicamente me assombrava desde o primário. Ela virou pra mim de novo com um olhar que não era exatamente irritação. Era mais… diversão. Me fez sentir um calorzinho gostoso por dentro; como se tivesse ganhado um tapinha de aprovação nas costas. Ela estava se acostumando comigo, dava pra sentir.

Por isso eu não entendi essa sensação estranha de pavor que começou a coçar a nuca. Era insistente, tentando forçar caminho até a frente da minha mente. Era algo que já tinha acontecido várias vezes antes. Todo mundo tem aquela vozinha na cabeça que faz a gente pensar no pior. Era só precaução. Não era nada.

Então por que doeu tanto quando eu perguntei—

“Eu vou me matar?”

O silêncio que veio depois foi diferente. Ensurdecedor. A mulher ficou completamente imóvel. Nem os dedos estavam batendo do jeito que costumavam quando eu esperava resposta. Era quase um código Morse particular dela; a linguagem dela. Era o jeito dela falar comigo sem usar palavras. Mas agora não tinha nenhum som.

As sobrancelhas dela se juntaram no meio da testa. A cabeça inclinou só um centímetro pro lado esquerdo e o corpo se curvou pra frente o suficiente pra ser perceptível. Era o olhar que se dá pra uma criança que caiu de repente no chão e está procurando consolo. Como se a pessoa estivesse esperando um sinal pra se aproximar, pra fazer “psiu” e acolher.

E isso, por si só, já foi toda a resposta que eu precisava.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sem Rastro

Abro os olhos com a luz que se infiltra pelas minhas cortinas. Não importa quanto tempo fiquei deitado ali, nem quanto tempo passei bebendo — eu estava com medo demais de dormir e descobrir que pesadelos minha mente poderia conjurar. Todos os meus pensamentos estavam nele. No meu filho. Parei de me afundar na própria miséria, me arrastei para fora da cama e me preparei para voltar lá fora.

Naquela manhã, quando ele foi embora, eu não fazia a menor ideia de que poderia ser a última vez que eu o veria. Ele estava tão animado — tinha planejado aquela viagem com os amigos durante meses, se dedicou nos estudos, arrumou um emprego de meio período pra ajudar com as contas. Ele era, é, um bom garoto. E eu sou um pai horrível por ter deixado ele ir lá fora. Para dentro da floresta.

Ele só tinha sumido por uma noite quando aquele aperto no estômago começou. Tentei me convencer de que era só o nervosismo falando mais alto. Eu devia ter ouvido esse instinto. Se tivesse ouvido, talvez eu não estivesse parado aqui no corredor agora, engolindo seco, olhando pras fotos dele na parede. Todas elas parecem diferentes agora. Manchadas. Quando olho nos olhos dele em cada foto, sinto julgamento, culpa, tristeza — tudo misturado numa bola enorme de ódio por mim mesmo. Se eu não voltar lá fora, não terei como me chamar de pai. Muito menos de homem. Mas antes de ir, preciso deixar alguma coisa registrada. Por precaução.

Meu filho saiu numa viagem de acampamento com os amigos depois de terminar o ensino médio. Era o assunto de semanas. Acampamos juntos quando ele era pequeno, e depois que pegou gosto pelo ar livre, eu mal conseguia botar o pé em casa quando a gente voltava — ele já estava perguntando: "Quando a gente vai de novo, pai?" Mas com o tempo, fui ficando sem tempo livre pra passar com ele. Isso nunca foi cobrado de mim. Eu nem o culparia se fosse, mas depois de trabalhar a madrugada toda, ele já estava saindo pra escola quando eu desabava na cama. Ainda assim, me esforcei pra todo aniversário a gente ir lá pra fora juntos — só pra ver ele sorrir.

Naquela manhã, antes de ele ir, eu dei um presente pra ele. Não era grande coisa, mas tinha mais valor sentimental do que qualquer outra coisa. Era um relógio que meu pai me deu há muito tempo, mais ou menos na idade dele — estava deteriorado pelos anos, mas depois de gastar um dinheiro, fui lá e mandei consertar, fazendo ele brilhar pela primeira vez em décadas. Então, justo antes de ele sair, eu o surpreendi com o relógio, e a expressão no rosto dele não tinha preço. Ele me abraçou, agradecendo pelo presente, enquanto eu passava as regras com ele mais uma vez. "Lembra de—" ele me cortou com a lista mental que eu tinha preparado com ele: "Acampar num lugar seguro com sinal, deixar o celular ligado e te ligar pelo menos uma vez por dia." "Isso. E tenta não beber muito, tá? Não quero você voltando aqui fedendo o lugar todo." "Não vai ter bebida, pai", ele disse com uma cara meio convincente. "É, é isso mesmo. Vai com calma, tá bom?" Ele deu aquele meio sorriso. "Pode deixar, pai." Passei a mão no cabelo dele e o mandei embora pela porta.

Eu não contei pra ele.

Eu devia ter contado.

Quando o sol começou a se pôr naquele sábado ensolarado, meu celular tocou."E aí, filho, tudo bem?" Eu conseguia sentir o entusiasmo dele irradiando pelo telefone. "Tá ótimo, pai, só ligando pra avisar que cheguei bem e as barracas tão montadas. Você tinha que ver isso aqui — a floresta tá incrível, fez fresco o dia todo." Ele devia ter achado um lugarzinho e tanto lá no meio das árvores. "Apostei. Toda essa sombra deve ser ótima — eu tava suando os colhões aqui o dia inteiro!" Ouvi ele dar uma risada. "Bom, obrigado pelo aviso. Olha, amanhã eu chego no fim da tarde. Tava pensando em pedir comida?" "Ótimo. Pode ir se divertir. Se diverte muito, filho." "Tchau, pai."

Tchau, filho.

Na manhã seguinte, levantei e comecei a resolver tudo que tinha deixado de lado no dia anterior, enquanto ficava pensando no que pedir pra jantar mais tarde — cogitei passar na pizzaria quando ele chegasse. Horas se passaram enquanto eu esperava o celular tocar, alguma atualização sobre quando exatamente ele estaria de volta. Mas quando aquele fim de tarde foi avançando e virando o início da noite, aquele nó no estômago foi apertando até que eu cedi ao sentimento e liguei pra ele.

Existe um ponto entre quando algo terrível já aconteceu e um ponto quando você ainda está vivendo na ignorância. Se eu soubesse que fiquei nessa ignorância por horas, teria ido lá antes. Talvez eu pudesse ter… O sinal chamou, pedindo pra eu deixar uma mensagem. Deixei uma dizendo pra me avisar quando ele chegasse. Uma hora se passou. "Por favor, deixe uma mensagem." Vinte minutos se passaram. "Por favor, deixe uma mensagem." Os segundos pareciam dias. "Por favor, deixe uma mensagem."

Liguei para os outros pais cujos filhos também estavam lá, perguntando se tinham recebido algum contato. Cada um com quem falei tinha a mesma situação que a minha. "Por favor, deixe uma mensagem." Os outros pais tentavam me tranquilizar tanto quanto tentavam se tranquilizar. "Eles tão bem, são bons garotos — provavelmente pararam pra jantar em algum lugar no caminho de volta." Mas o tom, algo escapava quando falavam — eu conseguia ouvir a fachada que estavam erguendo. A mesma que eu estava erguendo, com piadas e sorrisos sobre como eles provavelmente não queriam ser incomodados pelos pais velhos nem por uma vez. Mas todos nós sentíamos. Algo estava errado.

Liguei pra polícia pra registrar pessoas desaparecidas à meia-noite.

Por que a gente faz isso — esperar até o último momento possível pra tentar resolver alguma coisa? Até a polícia da minha cidade tem aquela regra idiota. "Sinto muito, senhor, só podemos registrar um desaparecimento depois de quarenta e oito horas." Tentaram me dar as mesmas garantias — que ele é um adolescente, acabou de fazer dezoito anos, deixa ele se divertir um pouco, ele vai ficar bem.

Entrei no carro, sentindo o nó no estômago apertar. Ignorando a dor, saí na madrugada em direção ao acampamento, tentando afastar da cabeça os piores cenários. Mas no final, não adiantou nada.

Minha mente nem chegou perto.

Ao chegar na beira da floresta, parei num espaço ao lado de um carro que reconheci muito bem. Ele só tinha carteira há alguns meses, mas estava cheio de confiança desde que passou no teste. Então, ao olhar pro carro que comprei pra ele, minha armadura de confiança, minha fachada de que tudo ia ficar bem, foi se despedaçando — rasgando como um tecido gasto. Eu estava me desfazendo só de olhar pro carro dele.

Saí do carro de um salto com minha lanterna, me arrastando como um bicho pela trilha, chamando por ele repetidamente na mata, ligando pra ele sem parar no celular. Não sei quanto tempo se passou antes de ouvir. Fraco, mas ainda lá. O som de um celular tocando. Corri em direção ao barulho, me permitindo deixar a esperança entrar um pouco. Mas quando atravessei as árvores, aquela fração de esperança de que meu filho estava bem explodiu em pó — me deixando aqui, na chuva, encarando o celular do meu filho. "Por favor, deixe uma mensagem."

Fiquei lá por horas, gritando o nome dele, procurando por ele. Implorando a algum poder maior que o trouxesse de volta pra mim. Procurando um sinal.

Sem rastro.

Os dois policiais de plantão praticamente deram um salto quando eu chutei a porta, exigindo uma equipe de busca — assim como todos os outros pais que liguei no caminho de volta. Estávamos todos com raiva, apavorados e exigindo tudo o que podíamos. Pela manhã, a história estourou nos noticiários. Se espalhou rapidamente pelo país, e nos dias seguintes, a pequena equipe de busca cresceu para centenas de pessoas vasculhando a floresta atrás de qualquer vestígio dos rapazes e do meu filho.

Sem rastro.

Com o passar das semanas, a história parecia "sem mais o que explorar" — esse foi o termo que ouvi um repórter usar de passagem. Precisou de dois homens pra me arrancar dele. Sem mais o que explorar. Como se não houvesse mais nada a retirar da história do meu filho — nada sobrando além dos ossos dele. Parasitas, todos eles — sugando nossa dor e desespero. Menos gente foi aparecendo nas buscas por causa disso. Outros perderam a esperança conforme as semanas viraram meses. E assim que a última família me disse que era "hora de enterrar meu filho", me virei e fui embora, deixando-os de luto.

Eu não conseguia fazer isso. Enterrar o quê? Uma caixa vazia? Não. Vesti minha capa de chuva e voltei a entrar.

Onde eu finalmente encontraria um rastro do meu filho.

O acampamento estava completamente pisoteado — a essa altura os policiais tinham parado de se preocupar com a cena do crime, o caso tinha esfriado oficialmente na semana passada, e a estação também esfriara. Uma névoa fria e fantasmagórica começou a rastejar enquanto eu entrava hoje, tornando a busca ainda mais difícil, afastando as últimas famílias e esmagando os restos de esperança que ainda tinham — me deixando exatamente de onde eu havia partido. Na floresta. Sozinho.

Examino os mesmos lugares que já examinei mil vezes antes. Só que dessa vez, eu me sentia diferente. Os pelos da nuca estavam arrepiados.

Algo estava me observando.

Eu não era estranho a essa sensação — ela tinha me acompanhado em cada busca. A sensação de ser zoado à distância, como se alguém soubesse algo que você não sabia, uma piada doentia da qual você não fazia parte. Mas agora que eu estava de volta aqui sozinho, aquela sensação de escárnio se transformou em algo mais sombrio. Maligno. Algo fundo no meu cérebro que estava lá há milhões de anos de evolução — aquele instinto de luta ou fuga, a sensação de ser caçado.

Estalo.

Me virei de supetão e vi uma sombra disparar de volta pelas árvores. "Ei!" foi tudo que consegui gritar antes de sair no encalço. Correndo pelas árvores da melhor forma que conseguia, vi a figura lá na frente parar de vez. Ao me aproximar, comecei a entender o que estava vendo. Meus ombros baixaram quando a realidade bateu. Um veado. Era só um veado. Eu provavelmente assustei o bicho pra caralho quando fui atrás dele. Me aproximei devagar, pensando em como, quando eu era criança, meu pai me levava pra caçar. Pensei em ensinar meu filho também, mas dava pra ver claramente que ele não conseguia machucar nem uma mosca, e eu não ia forçar. Em vez disso, pegamos uma abordagem diferente — trouxemos binóculos pra observar a floresta ao invés de fazer mal a ela.

Tirei os binóculos, já que estava tão perto, só pra sentir algo diferente daquele nó por um momento. Olhei por eles, com zoom no veado, e ele ainda estava na mesma posição. Estava tão perto que conseguia ver nos olhos dele. Aqueles olhos pobres e inocentes. As pupilas estavam dilatadas — ele estava apavorado. Abaixei os binóculos bem na hora de ver os longos fios escuros de cabelo descendo pela névoa com um pescoço se estendendo junto. Um rosto mais comprido que o de um cavalo atravessou o cabelo negro, olhos brancos e pequenos no alto do crânio, focando sua intenção assassina pura e horripilante numa das coisas mais inocentes que já vi.

Devagar, a mandíbula desencaixou com um estalo, e o queixo inferior saltou pra frente, engolindo o veado inteiro como uma cobra, em menos de um segundo. Os gritos que o bicho soltou foram uma paulada no estômago. Nenhum osso estalando, nenhum sangue — era como se o veado nunca tivesse existido. E assim que ela fechou a boca, os gritos do veado cessaram também.

Minhas mãos estavam tremendo. Ver algo que não cabe na sua realidade é suficiente pra mandar qualquer homem pro limite. Sem tirar os olhos dela, dei pequenos passos pra trás — mas no meu tropeco desajeitado, senti minhas costas empurrarem um galho fraco, estalando-o, fazendo o menor barulho do mundo soar como uma bomba explodindo. Encolhi com o barulho, vendo que agora os olhos brancos dela tinham caído sobre mim. Só de encarar de frente, dava pra ver que a linha reta da boca tinha puxado levemente pra cima, dando a ela um ar de prazer. Num piscar de olhos, o rosto comprido se recolheu, subindo de volta pras copas das árvores, onde eu o perdi de vista. Mas logo acima, ouvi galhos quebrando — era quase ensurdecedor conforme os sons avançavam rapidamente em minha direção. Virei e corri.

Com o medo e a confusão, eu mal conseguia distinguir onde estava ao correr pela névoa densa — tinha apenas as poucas marcas de trilha espalhadas pra me guiar. Minhas pernas bombeavam como pistões, gritando de dor, mas tudo o que eu conseguia ouvir eram os barulhos lá em cima e o sangue trovejando nos meus ouvidos — e tudo isso veio a um brusco fim quando colidi com um galho atravessado na trilha, me jogando de costas no chão. Foi então que eu vi. Vi tudo.

Primeiro vi os braços de preguiça que ela usava pra se mover pela floresta — suas garras longas envolviam cada árvore grande com facilidade, se mantendo suspensa acima do chão. O corpo era mais uma bolsa de fluidos do que qualquer outra coisa, com a barriga transparente, me deixando ver seus conteúdos repugnantes. Conseguia ver o veado lá dentro, flutuando inerte, sufocado nos sucos do estômago dela, sendo absorvido lentamente. Toda essa informação horrorosa foi sendo gravada na minha mente enquanto olhei pra ela por apenas alguns segundos — antes de rolar pro lado e desviar da boca em forma de cobra que desceu pra me pegar e me mergulhar naquele saco escuro. Depois de rolar, me empurrei do chão e dei uma última corrida desesperada em direção à beira da floresta, que agora estava à vista, enquanto tentava expulsar da cabeça aquele último detalhe condenatório.

Mas eu vi.

Atravessei a beira da floresta e me joguei contra o carro, mãos tremendo com as chaves, lágrimas escorrendo pelos olhos. Mas agora não importava mais — o monstro tinha ficado sem espaço pra se mover. Tudo o que restava era ir embora. Mas fiquei parado ali ao perceber que não estava em perigo. Me virei pra encarar a floresta de novo e olhei alto pras copas das árvores. Conseguia ver ela, mal e mal. Dois olhos brancos me olhando lá de cima. Senti a raiva fervendo no peito. O último clarão que vi quando olhei pra dentro dela. Meu último presente pro meu filho.

O relógio que dei a ele estava flutuando na bile dela.

Gritei.

Gritei e chorei o caminho todo pra casa, socando o volante — mãos roxas, nós dos dedos sangrando. Minha mente fica repetindo todas aquelas viagens lá fora com todo mundo. Todo esse tempo.

Por que eu não olhei pra cima?

Escrevo isso agora porque planejo voltar lá fora, e quero que as pessoas saibam o que aconteceu com aqueles rapazes, com o meu filho. Toda vez que fecho os olhos, vejo aquele sorriso maligno da coisa. Ela sabe quem eu sou. Essa criatura não mata só pra sobreviver — ela sente prazer nisso, e leva seu tempo porque consegue digerir a comida devagar. Ela é paciente. Mas eu não sou. Vou atualizar quando voltar, mas por enquanto, estou pegando meu rifle de caça e voltando pra recuperar a última coisa que ainda consigo tirar dela.

Um pedaço do meu filho.

Um rastro.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon