sábado, 23 de maio de 2026

Espectadora

Já odiou alguém?

Não estou falando sobre aquele ódio mesquinho de hoje em dia; tipo ser obrigada a sentar do lado daquele colega de classe barulhento ou ter inveja do melhor aluno da sua turma. Estou falando sobre ódio de verdade; a raiva fria, profunda e insensível por alguém ou algo que é tão forte que você poderia ver a pessoa morrer bem na sua frente e não sentir nada além de uma satisfação amarga, em vez do horror de ter visto alguém morrer?

Porque eu já senti isso. Quando eu tinha oito anos, minha família se mudou para uma cidade pequena, mas aconchegante, no Texas. Era quase perfeita. Quase. Se não fosse pelos vizinhos que moravam do outro lado da rua.

Gertrude era a mãe; uma mulher de aparência horrenda, com olhos fundos em um rosto esquelético acoplado a um corpo frágil e esguio. Que tinha quatro filhos descontrolados, nenhum marido, e estava presa de corpo e alma em uma vida de miséria, com uma voz que faria uma megera morrer de inveja.

Lembro de pensar que a existência dela era equivalente a uma espinha; uma aberração repugnante que não trazia nada além de dor, cuja única utilidade era produzir gosma nojenta que você tinha que lavar. Ainda assim, algo que você era aconselhado a simplesmente ignorar. A "Deixar em paz."

Como se aquela família demente deixasse alguém em paz.

Como se dois dos filhos mais novos dela não fossem vistos atirando pedras em pássaros, carros ou qualquer outra coisa desgraçada que cruzasse a mira deles.

Como se a filha mais velha, Paula, não fosse vista na casa do Sr. Wilson aos 15 anos "fazendo recados."

Como se o filho mais velho, Connor, não tivesse sido visto cortando os pneus do carro do professor dele por tê-lo reprovado pela terceira vez.

Mas, infelizmente, provavelmente por causa da pobreza da Gertrude (ou do fato de meus pais nunca terem visto pessoalmente o comportamento incorrigível dos filhos dela), isso significava que não podíamos falar mal deles.

"Eles não precisam de decoração de Halloween, era só a Gertrude ficar do lado de fora que eles ganhavam o prêmio de casa mais enfeitada."

Meu irmão soltou essa piada um dia no jantar, antes de minha mãe calá-lo com um olhar matador.

"Não diga isso, a pobre Gertie está passando por dificuldade, ela já tem a vida difícil do jeito que é. Ela não precisa que algum pirralho comece a insultá-la."

Pobre Gertie.

Eu não disse nada, mas concordei com meu irmão. Mesmo sendo uma criança obediente, eu me recusava a ficar perto da Gertrude ou da família dela, apesar de ser gritada por ser "desrespeitosa" milhares de vezes. Tinha algo de muito errado com eles.

Mas, para minha vergonha, eu tinha adotado a mentalidade ingênua dos meus pais de ser uma mera espectadora, estupidamente acreditando que estava isenta da crueldade deles por não ser uma vítima direta.

Eu não apenas estava errada, como também paguei um preço alto por isso.

Quando meu nono aniversário chegou, um dos dias mais felizes da minha vida de criança. Não só porque eu estava cercada de bolo, pizza, família e amigos. Mas porque era o meu primeiro dia com ela.

Uma caixinha foi colocada no meu colo, e dentro estava uma gatinha tabby cinza olhando de volta para mim, que agora tinha nove anos. Uma coisinha minúscula com olhos que tinham uma tonalidade de verde tão linda, que me lembrou na hora das preciosas pedras de Jade, que virou o nome dela.

Jade.

A gente fazia tudo juntas; ela me seguia até o ponto de ônibus para a escola, esperava na porta pela minha volta. Ela dormia na minha cama, sentava do meu lado enquanto eu fazia o dever, mesmo quando mal conseguia manter os olhos abertos.

Jade não era só minha gata. Ela era minha melhor amiga, minha alma gêmea, minha irmã presa num corpinho peludinho.

Eu deveria ter sido mais cuidadosa.

Então um dia, ela não estava em casa. Eu pensei que ela tinha simplesmente saído para ver os peixes num riacho próximo ou brincar no nosso quintal, como fazia direto nos dias quentes de verão. Mas ela não estava lá também.

Aí... eu ouvi.

Risadas. Vindo de trás de um arbusto grande, seguidas por vozes abafadas e o som de gente fugindo. Movida por uma curiosidade cautelosa, fui para trás daquele emaranhado de plantas para investigar de onde vinha o som.

Eu queria poder dizer que era o Connor enfiando bombinhas em formigueiros de novo, ou o irmãozinho dele, John, esmagando caracóis com a bota.

Mas não era.

O que eu encontrei atrás do arbusto era a Jade; o corpo dela retorcido e desfigurado além do que se pode imaginar. A pelagem linda dela toda enlameada e molhada de ter sido pisoteada. Ela tinha sido espancada e depois afogada, as garras dela ainda cheias de terra de quando tentou escapar.

Me desculpa, Jade.

Segurando o corpo da minha gata assassinada, fui até meus pais chorando e gritando. Eles foram solidários, mas dava pra ver que não acreditavam que os filhos da vizinha fossem os culpados.

"Deve ter sido um coiote, ou um carro deve ter atropelado ela." Disseram eles, acariciando meu cabelo gentilmente.

Eles estavam errados, eu sabia que a morte dela não foi acidente, nem foi obra de coiotes que eu nunca vi. Foi o Connor. Ele tinha matado minha gata, minha melhor amiga e minha irmã no corpo de uma gata. Ele nunca ia ser punido, nem pelos meus pais, nem pela mãe dele, aquela desgraçada.

Eu ouvi ele rindo disso na escola no dia seguinte. Ele se deliciando com o fato de ter matado a gata da vizinha de nove anos e se gabando de mais bichos que tinha matado pros irmãos, pros amigos, pra qualquer um que quisesse ouvir. Se gabando de que estava se saindo impune. E ele estava, por causa da inércia deles.

Eu fiquei fervendo de ódio nos dias seguintes. Eu fantasiava com o Connor ou os irmãos dele sendo atropelados por carros ou despedaçados por coiotes. Era tudo conversa de criança; planejar matar, machucar, mas nunca realmente fazer nada. Porque o que uma menina de nove anos poderia fazer pra matar um garoto de 13 anos, que dirá uma família inteira?

Nada. Absolutamente nada.

Quando a pior enchente repentina da minha região atingiu a cidade e eu vi o carro da Gertrude lutando para sair à tona no rio local. Eu não pedi ajuda nem contei a ninguém o que vi.

Eu não fiz nada.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Sou um tetraplégico e estou sendo devorado vivo

Há 3 anos, tive um acidente no melhor dia da minha vida. Eu tinha acabado de ganhar na loteria.

50 milhões de dólares.

Depois de mandar meu chefe controlador e meus colegas de trabalho abusivos se foderem, saí daquele estacionamento que, graças a Deus, nunca mais veria e atravessei em disparada uma movimentada interseção, onde um caminhão-trailer de 10 toneladas colidiu com meu sedã minúsculo a 60 milhas por hora.

Quando acordei, tudo era de um branco ofuscante e eu não conseguia me mover nem sentir nada. Lembrava da loteria, do acidente, conseguia ver a luz do solar refratar nas janelas até o teto da ala do hospital. No começo, achei que fosse apenas paralisia do sono, mas passou um minuto, depois vários minutos, depois uma hora. Um médico entrou para me dizer o que eu já sabia: eu estava permanentemente paralisado do pescoço para baixo.

Levou um ano de depressão suicida e terapia, mas eu aceitei a situação. Nunca fui de ficar remoendo minha desgraça e, além disso, eu era rico. Só precisava do ambiente perfeito para lidar com minha condição. Meu pagamento da loteria me permitiu construir uma casa que me atendesse perfeitamente. Começou com uma equipe de meia dúzia: um chef, uma empregada, um fisioterapeuta, alguns assistentes e meu gato. Livrei-me de todos os espelhos para nunca ter que me ver e livrei-me de todo acesso direto à internet para não ter que ver o que estava perdendo. Quando tudo estava pronto, comecei a otimizar. Não gostava de ver outras pessoas andando com tanta facilidade quando eu mal conseguia virar a cabeça. Felizmente, a tecnologia moderna de casa inteligente me permitiu substituir cada um deles aos poucos.

Minha comida era encomendada com base nos requisitos nutricionais ideais todos os dias e entregue a um robô na porta. Eu tinha um enxame de robôs aspiradores e robôs de limpeza, podia falar e controlar as luzes, a temperatura e o chuveiro. E o melhor de tudo: eu tinha uma cadeira motorizada de um milhão de dólares, feita sob medida, que também servia de cama. Eu podia usá-la para ir a qualquer lugar da casa e ela massageava meu corpo flácido para garantir que eu não desenvolvesse escaras de decúbito, além de gerenciar meus dejetos e trocar minhas roupas. O único que mantive por perto foi meu gato, Simba.

A vida estava razoável no começo. Eu lia livros, assistia a filmes antigos, escrevia algumas ficções noir, com Simba fielmente no meu colo me fazendo companhia. E aí comecei a notar manchas vermelhas estranhas. Minha cadeira ou um robô aspirador deixava um traço vermelho no carpete, pegadas vermelhas e pálidas por onde Simba andava, manchas vermelhas na minha roupa. Não dei muita importância, talvez alguma especiaria numa refeição que eu tinha comido recentemente ou alguma lama do jardim, mas aí ficou mais estranho.

Eu não consigo olhar para baixo, minha cadeira sustenta meu pescoço e coluna, então só consigo descrever o que acho que vejo na minha periferia e à distância. Os traços vermelhos ficaram maiores e mais vermelhos. Isso definitivamente não era lama. No carpete, no piso de madeira, na escada, traços escarlate que iam desbotando lentamente enquanto os robôs aspiradores os esfregavam até virarem água rosada e ensaboada e os aspiravam. E em todo o resto estavam as pegadas, no balcão de mármore, nos sofás, nas mesas e escrivaninhas. E quando Simba subia para sentar no meu colo, escalando para me lamber o rosto, eu conseguia sentir pelo cheiro de seus dentes, pelo e hálito que não era açafrão nem páprica — isso era sangue, sangue fresco.

Então pensei: talvez Simba esteja caçando ratos, ou pássaros, mas nunca havia pelo nem penas, e a coisa só piorava. Logo os robôs aspiradores não conseguiam acompanhar, o piso estava permanentemente manchado de rosa, todas as superfícies eram borrões vermelhos que coagulavam em um bordô escuro e depois desbotavam, ofuscadas por pegadas frescas. Eu me sentia como se estivesse vivendo em algum tipo de galeria de arte macabra.

Aí comecei a me sentir estranho, fraco e tonto. Minha IA de nutrição ficava me bombardeando com comidas ricas em ferro e suplementos com base nas minhas leituras de saúde. O que finalmente rompeu minha ignorância autoimposta, o véu que eu tinha pendurado para me manter são, foi notar que a força que eu sentia puxando contra meu pescoço quando a cadeira me massageava estava diminuindo. Era como se houvesse menos massa para empurrar, quase como se não houvesse nada abaixo dos meus joelhos. Soube naquele momento que Simba estava me comendo.

Não tenho família, insultei todos que me conheciam, seja quando ganhei na loteria ou quando deitei naquela ala do hospital desejando estar morto. Ninguém me procura porque eu gosto assim, mas agora percebo que vou morrer aqui. Construí para mim mesmo um caixão e Simba vai garantir que nem mesmo um cadáver reste. A casa inteira é autossustentável e todas as minhas contas são pagas automaticamente. Tenho visões dessa casa sendo visitada daqui a 10 ou 20 anos e tudo o que resta é um esqueleto numa cadeira e um gato velho e bem alimentado vivendo de entregas automáticas de comida.

Esta manhã, um robô aspirador empurrou um dedo do pé decepado contra a perna da mesa de centro. Reconheci a cicatriz em forma de meia-lua na unha. Estou digitando isso usando meu software de rastreamento ocular, o mesmo programa que uso para escrever meus livros. Ele sincroniza diretamente com a nuvem da minha editora. Eles provavelmente vão achar que isso é apenas meu mais recente manuscrito de terror. Quando você estiver lendo isso, eu provavelmente já estarei morto. Se for esse o caso, só tenho um pedido: por favor, cuidem do meu gato Simba. Eu o amo e tenho certeza de que ele não quis me fazer mal nenhum.

Agora eu entendo o que ele costumava dizer....

Meu pai costumava dizer que segredos apodrecem as pessoas por dentro para fora. Na época eu achei que era apenas outra frasezinha amarga murmurada entre cigarros e uísque, o tipo de coisa que velhos dizem quando passaram tempo demais decepcionados com a vida. Agora eu acho que ele sabia exatamente o que queria dizer.

Ele morreu há duas semanas de câncer de pulmão. Ninguém ficou surpreso. Ele fumava desde a adolescência e bebia como um homem tentando se apagar devagar. No final ele mal parecia humano — apenas pele esticada sobre osso, dedos amarelos tremendo sempre que estendia a mão para outro cigarro que estava fraco demais para acender. Os médicos falavam sobre tratamentos, sobre estender seu tempo, mas ele ignorou todos. Meu pai nunca teve medo de morrer. Na verdade, sempre parecia que ele estava esperando por isso.

Ele era um homem difícil de se conviver. Quieto. Frio. O tipo de pessoa que conseguia deixar uma sala inteira desconfortável sem dizer uma palavra. As crianças do bairro morriam de medo dele quando eu era criança. Até os adultos o evitavam quando podiam. Naquela época eu assumi que era por causa da aparência dele — alto, ombros largos, sempre com cara de exausto, com olhos escuros que nunca pareciam totalmente acordados. Pensando bem agora, eu me pergunto se as pessoas sentiam outra coisa nele. Algo enterrado bem fundo por baixo da superfície.

Na semana passada minha irmã e eu fomos limpar a casa dele. O lugar cheirava exatamente como eu me lembrava: tabaco velho, madeira úmida, e algo mais antigo por baixo, algo mofado e azedo que parecia incrustado nas próprias paredes. Minha irmã ficou principalmente no andar de cima, reclamando da poeira e tentando não tocar em nada, enquanto eu trabalhava no porão. Estava lotado do chão ao teto de tralha. Ferramentas quebradas, torres de jornais amarelos amarrados com barbante, latas enferrujadas, caixas de papelão apodrecendo e desabando sobre si mesmas. Parecia menos um depósito e mais como alguém tentando enterrar partes da própria vida debaixo da terra.

Foi ali que eu encontrei o baú.

Era pequeno o suficiente para carregar com as duas mãos, feito de madeira escura reforçada com tiras de ferro enferrujadas, escondido atrás de um antigo aquecedor de água debaixo de um monte de jornais. Poeira cobria cada centímetro dele. O que quer que contivesse tinha ficado intocado por anos. Minha irmã me disse para não abrir lá embaixo, brincando que alguma coisa poderia sair rastejando de dentro, mas havia algo no baú que imediatamente me deixou tenso. Um cadeado pesado pendia na frente, embora quando eu olhasse mais de perto percebesse que a fechadura tinha sido vedada com cola ou plástico derretido. Não trancado — vedado. Como se meu pai quisesse ter certeza absoluta de que ninguém jamais o abriria de novo.

Isso deveria ter sido aviso suficiente. Em vez disso, eu peguei um martelo de uma prateleira próxima e comecei a destruir o cadeado enquanto minha irmã gritava para eu parar antes de derrubar o teto. Depois de várias pancadas fortes o metal finalmente se partiu e bateu no chão do porão com um estrondo metálico pesado que ecoou pelo cômodo.

Dentro havia fotografias antigas, cadernos, papéis soltos, recortes de jornal amarrados com barbante. Tudo cheirava seco e antigo, como folhas mortas presas num sótão por décadas. A primeira fotografia que eu peguei mostrava meu pai na adolescência em pé ao lado de outro garoto mais ou menos da mesma idade. Eles eram parecidos o suficiente para que eu entendesse imediatamente quem ele deveria ser.

Meu tio.

Exceto que eu nunca tinha ouvido falar dele antes na minha vida inteira.

Nenhuma história. Nenhuma fotografia exposta em lugar nenhum da casa. Nenhuma menção em reuniões de família. Nada. Era como se o homem nunca tivesse existido.

Quanto mais eu vasculhava o baú, mais estranho tudo ficava. Vários dos cadernos estavam cheios de desenhos — esboços grotescos e violentos feitos a lápis e nanquim. Corpos dilacerados. Figuras penduradas em árvores. Uma mulher deitada nua no chão com a garganta cortada tão fundo que a cabeça quase estava destacada. Os desenhos eram amadores, mas perturbadoramente detalhados em alguns pontos. Quem quer que os tivesse feito sabia como o sofrimento real se parecia.

Os papéis soltos acabaram sendo recortes de jornal sobre desaparecimentos datando de mais de vinte anos. Homens, mulheres, adolescentes. Pessoas desaparecidas. Casos não resolvidos. Cada recorte tinha um número escrito nele com caneta azul, numerados de um a quinze. A essa altura meu estômago já tinha começado a apertar de pavor, mas as coisas só pioraram quando eu descobri o fundo falso escondido debaixo do baú.

Por baixo havia um mapa dobrado.

Eu o abri sobre a mesa da sala de jantar lá em cima. O mapa mostrava a região onde meu pai tinha crescido, e espalhados por ele haviam círculos marcados com os mesmos números dos recortes de jornal. Não precisava ser um gênio para entender o que eu estava vendo. Locais de enterro. Minha mente imediatamente construiu a explicação que fazia mais sentido: meu tio tinha sequestrado e assassinado aquelas pessoas, e meu pai tinha descoberto a verdade anos depois. Talvez fosse por isso que ele o apagou completamente da família.

Mas havia um detalhe que não encaixava.

Junto aos números um a quinze, havia outra marca.

Zero.

Diferente dos outros, não estava escondido na floresta ou próximo a estradas isoladas. Apontava diretamente para uma propriedade no meio de uma vila quase abandonada a várias horas de distância.

Na manhã seguinte eu pesquisei online tudo que consegui encontrar sobre os desaparecimentos. A maioria dos artigos estava incompleta ou mal arquivada, mas eventualmente eu encontrei o local marcado com o zero no Google Maps. A imagem era de anos atrás. Mostrava uma casa em decomposição na beira de uma vila moribunda, com janelas tapadas e uma cerca desabada engolida por ervas daninhas.

Eu passei o dia inteiro pensando nisso antes de finalmente me convencer a ir.

A viagem levou quase quatro horas. Quando eu cheguei o sol já estava começando a se pôr atrás das colinas. A vila parecia meio morta. Ruas vazias, asfalto rachado, casas com janelas estilhaçadas e telhados desabando. Alguns prédios ainda mostravam sinais de vida, mas a maioria parecia abandonada há muito tempo.

Então eu vi a casa.

Mesmo telhado das fotografias. Mesma varanda. Mesmo balanço enferrujado pendendo torto no quintal.

Só que agora parecia algo deixado para trás depois do fim do mundo.

A entrada da frente e as janelas tinham sido tapadas com tábuas, então eu contornei a propriedade até encontrar uma brecha na cerca grande o suficiente para passar. O quintal dos fundos tinha se fundido quase completamente com a vegetação selvagem ao redor. Arbustos espinhosos e ervas daninhas rastejavam por tudo, engolindo os restos do jardim e da varanda igualmente. Finalmente encontrei uma janela lateral parcialmente coberta com compensado podre e quebrei o vidro com uma pedra.

O cheiro de dentro quase me fez vomitar.

Poeira. Podridão. Madeira úmida.

E algo mais por baixo de tudo.

Algo doce e podre.

A casa parecia errada desde o momento em que eu entrei. O silêncio não era pacífico — parecia pesado, quase vigilante. Mofo se espalhava pelas paredes em manchas pretas, e partes do teto tinham desabado no chão. Cada passo que eu dava fazia a madeira gemer debaixo de mim. Eu subi as escadas com cuidado até chegar ao segundo andar, onde encontrei uma porta de quarto pendendo parcialmente fora das dobradiças.

Dentro, deitado na cama, estava a última vítima.

Pelo menos era o que eu acreditava na época.

A maior parte do corpo tinha se decomposto até os ossos e a pele de couro, mas as roupas permaneciam mais ou menos intactas. A camisa correspondia exatamente à das fotografias antigas — tecido escuro desbotado com listras brancas finas atravessando o peito. Havia rasgos longos nela, cortes profundos consistentes com facadas. Ao lado da cama, um telefone pendia do fio, balançando levemente como se tivesse sido perturbado apenas recentemente.

Por um momento eu o imaginei deitado ali sangrando até morrer, desesperadamente tentando pedir ajuda enquanto alguém ficava de pé ao lado dele e observava.

Eu corri.

Eu mal me lembro da viagem de volta. Apenas fragmentos de estradas vazias, faróis passando, e o som da minha própria respiração dentro do carro. Naquela noite eu esvaziei o conteúdo do baú pelo chão da minha sala e me forcei a passar por tudo de novo, mais devagar dessa vez. Cada página. Cada anotação. Cada desenho.

E aí eu notei o detalhe que de alguma forma tinha passado despercebido antes.

Os diários não foram escritos pelo meu tio.

Eles estavam escritos na letra do meu pai.  Aqui está o texto revisado e corrigido em português brasileiro, com todas as correções aplicadas:

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Agora eu entendo o que ele costumava dizer....

Meu pai costumava dizer que segredos apodrecem as pessoas por dentro para fora. Na época eu achei que era apenas outra frasezinha amarga murmurada entre cigarros e uísque, o tipo de coisa que velhos dizem quando passaram tempo demais decepcionados com a vida. Agora eu acho que ele sabia exatamente o que queria dizer.

Ele morreu há duas semanas de câncer de pulmão. Ninguém ficou surpreso. Ele fumava desde a adolescência e bebia como um homem tentando se apagar devagar. No final ele mal parecia humano — apenas pele esticada sobre osso, dedos amarelos tremendo sempre que estendia a mão para outro cigarro que estava fraco demais para acender. Os médicos falavam sobre tratamentos, sobre estender seu tempo, mas ele ignorou todos. Meu pai nunca teve medo de morrer. Na verdade, sempre parecia que ele estava esperando por isso.

Ele era um homem difícil de se conviver. Quieto. Frio. O tipo de pessoa que conseguia deixar uma sala inteira desconfortável sem dizer uma palavra. As crianças do bairro morriam de medo dele quando eu era criança. Até os adultos o evitavam quando podiam. Naquela época eu assumi que era por causa da aparência dele — alto, ombros largos, sempre com cara de exausto, com olhos escuros que nunca pareciam totalmente acordados. Pensando bem agora, eu me pergunto se as pessoas sentiam outra coisa nele. Algo enterrado bem fundo por baixo da superfície.

Na semana passada minha irmã e eu fomos limpar a casa dele. O lugar cheirava exatamente como eu me lembrava: tabaco velho, madeira úmida, e algo mais antigo por baixo, algo mofado e azedo que parecia incrustado nas próprias paredes. Minha irmã ficou principalmente no andar de cima, reclamando da poeira e tentando não tocar em nada, enquanto eu trabalhava no porão. Estava lotado do chão ao teto de tralha. Ferramentas quebradas, torres de jornais amarelos amarrados com barbante, latas enferrujadas, caixas de papelão apodrecendo e desabando sobre si mesmas. Parecia menos um depósito e mais como alguém tentando enterrar partes da própria vida debaixo da terra.

Foi ali que eu encontrei o baú.

Era pequeno o suficiente para carregar com as duas mãos, feito de madeira escura reforçada com tiras de ferro enferrujadas, escondido atrás de um antigo aquecedor de água debaixo de um monte de jornais. Poeira cobria cada centímetro dele. O que quer que contivesse tinha ficado intocado por anos. Minha irmã me disse para não abrir lá embaixo, brincando que alguma coisa poderia sair rastejando de dentro, mas havia algo no baú que imediatamente me deixou tenso. Um cadeado pesado pendia na frente, embora quando eu olhasse mais de perto percebesse que a fechadura tinha sido vedada com cola ou plástico derretido. Não trancado — vedado. Como se meu pai quisesse ter certeza absoluta de que ninguém jamais o abriria de novo.

Isso deveria ter sido aviso suficiente. Em vez disso, eu peguei um martelo de uma prateleira próxima e comecei a destruir o cadeado enquanto minha irmã gritava para eu parar antes de derrubar o teto. Depois de várias pancadas fortes o metal finalmente se partiu e bateu no chão do porão com um estrondo metálico pesado que ecoou pelo cômodo.

Dentro havia fotografias antigas, cadernos, papéis soltos, recortes de jornal amarrados com barbante. Tudo cheirava seco e antigo, como folhas mortas presas num sótão por décadas. A primeira fotografia que eu peguei mostrava meu pai na adolescência em pé ao lado de outro garoto mais ou menos da mesma idade. Eles eram parecidos o suficiente para que eu entendesse imediatamente quem ele deveria ser.

Meu tio.

Exceto que eu nunca tinha ouvido falar dele antes na minha vida inteira.

Nenhuma história. Nenhuma fotografia exposta em lugar nenhum da casa. Nenhuma menção em reuniões de família. Nada. Era como se o homem nunca tivesse existido.

Quanto mais eu vasculhava o baú, mais estranho tudo ficava. Vários dos cadernos estavam cheios de desenhos — esboços grotescos e violentos feitos a lápis e nanquim. Corpos dilacerados. Figuras penduradas em árvores. Uma mulher deitada nua no chão com a garganta cortada tão fundo que a cabeça quase estava destacada. Os desenhos eram amadores, mas perturbadoramente detalhados em alguns pontos. Quem quer que os tivesse feito sabia como o sofrimento real se parecia.

Os papéis soltos acabaram sendo recortes de jornal sobre desaparecimentos datando de mais de vinte anos. Homens, mulheres, adolescentes. Pessoas desaparecidas. Casos não resolvidos. Cada recorte tinha um número escrito nele com caneta azul, numerados de um a quinze. A essa altura meu estômago já tinha começado a apertar de pavor, mas as coisas só pioraram quando eu descobri o fundo falso escondido debaixo do baú.

Por baixo havia um mapa dobrado.

Eu o abri sobre a mesa da sala de jantar lá em cima. O mapa mostrava a região onde meu pai tinha crescido, e espalhados por ele haviam círculos marcados com os mesmos números dos recortes de jornal. Não precisava ser um gênio para entender o que eu estava vendo. Locais de enterro. Minha mente imediatamente construiu a explicação que fazia mais sentido: meu tio tinha sequestrado e assassinado aquelas pessoas, e meu pai tinha descoberto a verdade anos depois. Talvez fosse por isso que ele o apagou completamente da família.

Mas havia um detalhe que não encaixava.

Junto aos números um a quinze, havia outra marca.

Zero.

Diferente dos outros, não estava escondido na floresta ou próximo a estradas isoladas. Apontava diretamente para uma propriedade no meio de uma vila quase abandonada a várias horas de distância.

Na manhã seguinte eu pesquisei online tudo que consegui encontrar sobre os desaparecimentos. A maioria dos artigos estava incompleta ou mal arquivada, mas eventualmente eu encontrei o local marcado com o zero no Google Maps. A imagem era de anos atrás. Mostrava uma casa em decomposição na beira de uma vila moribunda, com janelas tapadas e uma cerca desabada engolida por ervas daninhas.

Eu passei o dia inteiro pensando nisso antes de finalmente me convencer a ir.

A viagem levou quase quatro horas. Quando eu cheguei o sol já estava começando a se pôr atrás das colinas. A vila parecia meio morta. Ruas vazias, asfalto rachado, casas com janelas estilhaçadas e telhados desabando. Alguns prédios ainda mostravam sinais de vida, mas a maioria parecia abandonada há muito tempo.

Então eu vi a casa.

Mesmo telhado das fotografias. Mesma varanda. Mesmo balanço enferrujado pendendo torto no quintal.

Só que agora parecia algo deixado para trás depois do fim do mundo.

A entrada da frente e as janelas tinham sido tapadas com tábuas, então eu contornei a propriedade até encontrar uma brecha na cerca grande o suficiente para passar. O quintal dos fundos tinha se fundido quase completamente com a vegetação selvagem ao redor. Arbustos espinhosos e ervas daninhas rastejavam por tudo, engolindo os restos do jardim e da varanda igualmente. Finalmente encontrei uma janela lateral parcialmente coberta com compensado podre e quebrei o vidro com uma pedra.

O cheiro de dentro quase me fez vomitar.

Poeira. Podridão. Madeira úmida.

E algo mais por baixo de tudo.

Algo doce e podre.

A casa parecia errada desde o momento em que eu entrei. O silêncio não era pacífico — parecia pesado, quase vigilante. Mofo se espalhava pelas paredes em manchas pretas, e partes do teto tinham desabado no chão. Cada passo que eu dava fazia a madeira gemer debaixo de mim. Eu subi as escadas com cuidado até chegar ao segundo andar, onde encontrei uma porta de quarto pendendo parcialmente fora das dobradiças.

Dentro, deitado na cama, estava a última vítima.

Pelo menos era o que eu acreditava na época.

A maior parte do corpo tinha se decomposto até os ossos e a pele de couro, mas as roupas permaneciam mais ou menos intactas. A camisa correspondia exatamente à das fotografias antigas — tecido escuro desbotado com listras brancas finas atravessando o peito. Havia rasgos longos nela, cortes profundos consistentes com facadas. Ao lado da cama, um telefone pendia do fio, balançando levemente como se tivesse sido perturbado apenas recentemente.

Por um momento eu o imaginei deitado ali sangrando até morrer, desesperadamente tentando pedir ajuda enquanto alguém ficava de pé ao lado dele e observava.

Eu corri.

Eu mal me lembro da viagem de volta. Apenas fragmentos de estradas vazias, faróis passando, e o som da minha própria respiração dentro do carro. Naquela noite eu esvaziei o conteúdo do baú pelo chão da minha sala e me forcei a passar por tudo de novo, mais devagar dessa vez. Cada página. Cada anotação. Cada desenho.

E aí eu notei o detalhe que de alguma forma tinha passado despercebido antes.

Os diários não foram escritos pelo meu tio.

Eles estavam escritos na letra do meu pai.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Jantar de Garota

Tínhamos começado a noite com uma garrafa de Merlot caro que eu pedi da carta de vinhos. Monica sempre adorava quando eu tomava a iniciativa desse jeito e a poupava do incômodo de ter que vasculhar as opções ela mesma. Além do mais, depois de seis meses de namoro, eu tinha certeza de que conhecia as preferências dela na ponta da língua. Quando a garrafa chegou, apontei o rótulo para ela.

"Sabia que Merlot é 'melro' em francês?" perguntei enquanto nosso garçom nos servia duas taças. Estávamos em nossa mesa de sempre, no terraço, com uma vista panorâmica da cidade.

"Não sabia disso," reconheceu Monica. Eu sempre conseguia perceber que ela ficava grata quando eu lhe ensinava algo novo. Fiquei aliviado quando ela não perguntou sobre o resto do rótulo. Provavelmente teria conseguido entender se eu me esforçasse. Sempre fui bom em captar pistas pelo contexto.

"Sabe, falando em pássaros, li algo interessante outro dia," comentei enquanto girava minha taça. "Acabaram de divulgar um estudo que descobriu que pássaros na cidade têm mais medo de mulheres do que de homens. Você pensaria que seria o contrário."

"Quem diabos paga por esses estudos?" perguntou-se Monica. Ela me surpreendeu quebrando um pedaço de pão — Monica nunca comia pão —, mas foi só para despedaçá-lo e espalhar as migalhas perto de sua cadeira.

"Parece que você não tem dificuldade em se fazer querer." Dei um sorriso torto enquanto observava um pardal pular até lá e bicar as migalhas com cautela. "Acho que estou namorando uma princesa da Disney da vida real."

"Talvez se um pousar em mim você possa dizer isso," ela brincou com uma risada. "Ou se eu de repente começar a cantar."

"Eu até gostaria de ouvir isso."

Ela enrugou o nariz de um jeito que eu achava adorável. "Me leva no karaokê da próxima vez."

Próxima vez. Se dependesse de mim, haveria muitas próximas vezes. Eu ia casar com essa garota sentada na minha frente, observando aquele passarinho pular ao redor de seus calcanhares. Ela era engraçada, inteligente, linda e, a julgar por sua concentração intensa, fascinada pelas maravilhas do mundo natural. Ela observava aquele pássaro como os casais nas mesas vizinhas observavam as telas brilhantes de seus aparelhos. Não fazia mal que ela não arruinasse minha conta toda vez que a levava para sair e insistia em pagar tudo para ela. Ela quase não comia, pelo que eu conseguia perceber. É, eu definitivamente era um cara de sorte.

"Ei, vou no banheiro rapidinho." Deixei meu guardanapo de lado, ainda sorrindo, e me levantei. Monica olhou para cima, saindo do pássaro, e me lançou um sorriso radiante. Meu Deus, ela era deslumbrante. Na verdade, eu queria chamar nosso garçom sem levantar suspeitas dela e ver se havia algo especial que eu pudesse fazer por ela naquela noite. Talvez eu pudesse mentir e dizer que era aniversário dela, para que fizessem uma grande celebração. Tinha quase certeza de que ela adoraria isso, e os garçons sempre pareciam se divertir naqueles momentos. Às vezes eu os via sendo chamados a mesas diferentes cinco ou seis vezes em uma única noite. Nunca tinha trabalhado no ramo de serviços, mas parecia um emprego divertido.

Nunca localizei nosso garçom. A caminho de volta do banheiro, parei na entrada do deck, surpreso, ao avistar Monica ainda sentada sozinha em nossa mesa. Ela tinha algo na mão, mas aquele algo não era o celular dela. Percebi que era o pássaro que ela estava alimentando antes. Ela segurava seu corpinho agarrado em uma mão, e massageava suavemente a cúpula frágil da cabeça dele com a ponta de um dedo. Seus olhinhos miúdos estavam semicerrados em... era aquilo contentamento? Ou medo? Uma sensação desconfortável me dominou, mas eu a afastei. Não, parecia que ele estava sendo embalado para dormir pela carícia dela. Me perguntei como ela tinha conseguido pegá-lo. Claramente ele confiava nela o suficiente para ser segurado.

Minha namorada, a princesa da Disney. Comungando com a natureza. Fiquei parado e observei um momento com um sorriso condescendente no rosto. Provavelmente eu parecia um idiota romântico, algo de que nunca fui acusado, mas não resisti. Observei enquanto Monica trazia o pássaro mais perto de seus lábios. Achei que ela fosse dar um beijo nele antes de soltá-lo, uma ideia pela qual eu me sentia menos entusiasmado.

Pensamentos sobre germes aviários, piolhos, parasitas voaram da minha mente no instante seguinte. Eu conseguia ver o pássaro visivelmente se debatendo agora no punho de Monica, sua pele empalidecendo de branco com a ferocidade de sua pegada. Ela abriu a boca, e era muito mais do que um beijo. Seus lábios se abriram amplos, mais amplos, até eu pensar que sua mandíbula ia se deslocar — e então pareceu se desarticular, e continuar se abrindo cada vez mais, fios de saliva escorrendo entre seus dentes superiores e inferiores, a coroa de sua cabeça praticamente afundando de volta na nuca. O pássaro deu uma última luta aterrorizada em sua mão, mas era tarde demais, enquanto sua cabeça desaparecia dentro da boca da minha namorada.

Ela não o terminou de uma só vez, embora pudesse facilmente. Seus dentes, muito mais longos do que eu conhecia, com os lábios retraídos, mordiscaram, arrancando a cabeça do pássaro de sua espinha, como Saturno devorando seu filho, uma pintura de Goya que eu uma vez descrevi para ela em grandes detalhes em nosso primeiro encontro, de um jeito que a impressionou o suficiente para concordar com um segundo. Eu tinha deduzido desde o início que Monica preferia um homem de cultura. Mas estava começando a me perguntar o que eu realmente sabia sobre as preferências de Monica.

Sua boca se abriu uma segunda vez, como se o ato de comer fosse automático, desprovido de consciência, sua língua a esteira entregando o resto do pássaro (ainda batendo as asas, como diabos ainda batia as asas?) para o abismo bocejante de sua garganta. Suas mandíbulas se fecharam com estalo, seus lábios se pressionaram bem juntos, e eu observei o nódulo se contorcendo deslizar sob sua pele e desaparecer abaixo da gola Peter Pan engomada de seu vestido.

Pensei em dar o fora. Nunca tinha comido e vazado na minha vida; mas Monica não tinha sido a única a jantar até esse ponto? Minha visão estava em túnel, e ainda assim eu permanecia enraizado no lugar, luta ou fuga (o pássaro não tentara ambas e perdido?) cedendo lugar ao paralisamento. Monica olhou para cima então e me avistou, e não havia como escapar de volta ao restaurante sem ser notado. Caminhei lentamente até nossa mesa e me sentei.

Nosso garçom reapareceu em instantes para anotar nosso pedido. "Só a salada da casa com molho à parte para mim," disse Monica, fechando o cardápio. Eu encarei algo preso em seus dentes. Ela notou, e fechou os lábios abruptamente, apalpando, sua língua criando uma protuberância em seu lábio inferior antes de varrer para o lado, em direção à bochecha. Ela se remexeu assim por um tempo, depois arrancou o detrito e o colocou bem arrumadinho ao lado de seu prato. "Sabe o que dizem sobre garotas que conseguem amarrar cabinhos de cereja em nós com a língua," ela disse maliciosamente. "Não dizem que são princesas da Disney."

"Ééé." Ela não tinha bebido nenhum Shirley Temple que eu soubesse, e o troféu retorcido que ela produziu para mim definitivamente não era um cabinho de cereja.

Quando nossos pratos principais chegaram, observei ela sorver vinho e remexer folhas pelo prato enquanto prosseguia de forma agradável. Pelo menos ela estava dando a impressão de comer. Eu nem tinha tocado meu Frango à Parmegiana. Estava ocupado demais lançando olhares furtivos para todas as outras mulheres que jantavam — sozinhas, em duplas, reunidas em grupos — e notando as saladas da casa idênticas postas diante delas com molho à parte. Eu poderia jurar que várias delas estavam me olhando. O sol tinha acabado de se pôr abaixo do horizonte, e tanto as sombras alongadas quanto seus olhares avaliativos faziam minha pele arrepiar. Não havia mais pássaros pulando ao redor de nossos pés. Talvez todos tivessem voado embora?

"O quê?" perguntei quando percebi que Monica estava aguardando uma resposta.

"Só estava pensando, quando nos mudarmos juntos, a gente devia instalar um comedouro de pássaros," ela repetiu. "Ou até uma casinha de passarinho ou um banho. Podemos deixar bem acolhedor para todos os pássaros urbanos do bairro. Assim, eles vão saber que eu não sou alguém de quem precisam ter medo."

"Ééé."

Ela sorriu de novo, depois deu uma batidinha na boca com o canto do guardanapo. Parecia estar com alguma indigestão.

Me levantei sem querer. "Acho que preciso ir no—"

De repente fui cercado por uma multidão de pessoas. Voltei a me sentar, suando frio, encurralado de todos os lados. Alguém deslizou uma fatia de bolo na minha frente, bem ao lado de minha refeição intocada, e uma frota de garçons começou a bater palmas e cantar em uníssono. Um par de mãos me enforcou com um elástico enquanto um chapéu cônico era afixado em cima da minha cabeça.

"Quando você estava no banheiro antes, eu disse a eles que era seu aniversário!" exclamou Monica triunfante.
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