segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Criatura nos Esgotos

Era noite, e eu caminhava para casa por uma rua deserta. Nas mãos, segurava meu celular, assistindo a um vídeo novo. O ar fresco da noite roçava meu rosto, e os postes de luz piscavam de vez em quando enquanto eu me concentrava totalmente na tela.  

Completamente absorto no que acontecia no vídeo, não percebi o asfalto cedendo sob meus pés. No começo, nem entendi o que tinha acontecido. Caí pelo chão. Agarrei as bordas de um bueiro aberto com as mãos e um dos pés. Meu celular, ainda tocando o vídeo, despencou. Um splash marcou sua queda nas águas do esgoto. Minhas mãos e pernas doíam pelo impacto, enquanto a outra perna balançava dentro do poço. Sentia o metal frio cortando minha pele, e o eco de água pingando me envolvia.  

Eu xinguei alto. Não queria perder meu celular.  

Uma luz fraca brilhava lá embaixo. De um lado do poço, havia degraus de metal descendo. Me movi com cuidado e comecei a descer para recuperar o telefone.  

Os degraus de metal estavam molhados. Minhas botas escorregaram várias vezes. O fedor do esgoto enchia minhas narinas.  

Mais ou menos na metade do caminho, outro cheiro se misturou ao fedor do esgoto. Era algo... como uma podridão desconhecida, um cheiro de coisa estragada. Um arrepio correu pela minha espinha enquanto eu tentava me equilibrar contra a parede úmida.  

Ao chegar ao fundo, olhei ao redor. Na luz fraca de uma lâmpada acima, vi um túnel se estendendo adiante. O chão estava submerso em um líquido sujo. Do outro lado, uma cavidade na parede revelou algo que gelou meu sangue. Um monte de corpos humanos. Alguns sem braços ou pernas, outros apenas pedaços de corpos, rasgados nas bordas como se algo os tivesse devorado. O cheiro de podridão que eu sentira antes vinha dali. Cambaleei para trás, meu coração disparado, incapaz de desviar os olhos daquela visão macabra.  

Enquanto eu encarava, horrorizado, a pilha de corpos, ouvi respingos de líquido sujo atrás de mim.  

Me virei, apavorado, e vi uma figura alta e magra parada no crepúsculo do túnel, a uns dez metros de distância.  

Os pelos da minha nuca se arrepiaram de medo. Não era humano. Sua cabeça careca estava inclinada para o lado. Dois pontos de fogo brilhavam em suas órbitas oculares. Braços longos, com dedos alongados e garras, se estendiam para a frente, como se estivesse pronto para atacar sua próxima vítima — e parecia que, dessa vez, a vítima era eu. Um suor frio escorreu pelas minhas costas enquanto a adrenalina pulsava em minhas veias.  

Me joguei nos degraus de metal e subi freneticamente. Não sei como cheguei ao topo. Parecia que eu tinha voado.  

Deitado no asfalto, recuperei o fôlego. De repente, uma dor ardente atravessou minha perna. Virei-me e vi uma garra longa e azul agarrando minha perna, logo acima da bota. Ela saía do bueiro. O crânio careca da criatura emergiu de dentro. As luzes flamejantes em suas órbitas me encaravam com ódio. A garra aterrorizante começou a me puxar para o bueiro aberto. Gritei de horror e chutei desesperadamente, tentando me soltar. Alguns dos meus chutes acertaram o alvo e distraíram a criatura por um instante. Sua garra me soltou.  

Levantei-me e corri.  

Nos dias seguintes, evitei aquela rua, voltando para casa por outros caminhos. Fiquei com uma ferida na perna, como se fosse uma queimadura. Demorou muito para cicatrizar e deixou uma cicatriz bem visível.  

Comprei um celular novo. Meu aparelho antigo tinha se perdido de vez na sujeira do túnel do esgoto — ou pelo menos era o que eu pensava... até recentemente.  

Estranhamente, recebi uma mensagem do meu número antigo, aquele do celular que se afogou no esgoto.  

A mensagem dizia:  
"Estou caçando você."  

domingo, 7 de setembro de 2025

O Que Não Deixa Dormir

Toda noite, o Martín acordava exatamente às 2h43 da manhã, com uma sensação nojenta na garganta, como se tivesse passado a noite gritando nos sonhos. O problema é que ele não lembrava de porra nenhuma de pesadelo. Não havia barulho nenhum na casa. Só aquele silêncio filha da puta, que parecia esconder algo muito pior.

A primeira vez que ele notou isso foi depois que se mudou. Um apartamentinho cagado num prédio velho pra caralho, com janelas enormes e uma vista direta pros telhados mofados dos prédios vizinhos. Ele até curtia o silêncio, ou pelo menos achava que curtia. Isso até começar a ouvir os passos.

Eram passos leves. Lentos. Não vinham do corredor, nem do teto, mas de dentro do apartamento, cacete, no sétimo andar! Martín verificou mil vezes. Não tinha ninguém. Não tinha nada. Ele fechou as persianas. Cobriu as janelas com lençóis. Forçou-se a dormir.

Mas os passos continuavam, porra.

Até que uma noite, já de saco cheio, ele resolveu ficar acordado. Olhou pro relógio: 2h42. Respirou fundo. O coração batendo como um tambor no peito. Às 2h43, os passos começaram. Dessa vez, sem pensar duas vezes, ele virou e abriu a cortina.

E lá estava.

Uma figura careca, com a pele quase transparente, magra pra caralho, tipo um cadáver seco. Olhava ele do outro lado do vidro. Os olhos completamente brancos. E aquele sorriso… meu Deus, aquele sorriso que parecia não acabar nunca.

Martín gritou. Cambaleou pra trás. Mas a criatura não se mexeu. Só ficou lá, encarando. Até que, bem devagar… levantou a mão e apontou pra dentro. Direto pro Martín.

Ele acendeu todas as luzes. Ligou pra polícia, desesperado. Quando eles chegaram, não tinha porra nenhuma. Nenhuma marca de arrombamento. Mas havia uma marca no vidro: cinco dedos compridos e imundos.

Desde então, a figura voltava toda noite.

Nunca fazia nada. Só ficava lá, olhando. Mas o Martín já não dormia mais. Não comia. Não saía. Só ficava sentado na cama, noite após noite, esperando.

Até que um dia ela parou de aparecer.

Só que agora, toda vez que o Martín pisca… ele vê a figura. Refletida nos espelhos. Na tela preta da TV. Até nos sonhos, porra. Sempre quieta. Sempre sorrindo.

Hoje, às 2h43 da manhã, o Martín não grita mais. Não corre. Só fica sentado na cama, como uma criança que levou bronca, esperando a hora em que a figura vai atravessar a janela.

E levá-lo com ela.

Porque ela não tá mais do lado de fora.

Ela tá dentro da casa.

sábado, 6 de setembro de 2025

A Travessia

Quando criança, fui a um acampamento de verão bem estranho. Acho que algo horrível aconteceu lá.

Sou formado na universidade e voltei para minha cidade natal. Recentemente, tomei um café com uma velha amiga, que vou chamar de S, pago com os cupons que consegui graças à minha bolsa na sociedade histórica local. Ultimamente, temos feito isso com frequência, nos encontrando no centro para colocar o papo em dia e trocar histórias sobre nossas infâncias aqui.

Meu trabalho principal é digitalizar fitas do arquivo da cidade e catalogá-las, cruzando informações com jornais e moradores locais, se ainda estiverem vivos. Recentemente, encontrei uma fita.

Também tenho tentado montar uma linha do tempo da minha própria história aqui. Excursões escolares. Fogueiras. Aulas de natação. Tudo fica meio embaçado quando me concentro demais em uma memória específica, como se alguém estivesse suavemente fechando as cortinas. Faço o meu melhor para prestar total atenção quando S fala, gravando suas palavras na memória. Sempre posso anotar depois.

Às vezes, fico preocupado que ela pense que só voltei a falar com ela para conseguir as respostas que quero. É verdade que esse foi o motivo inicial para procurá-la, mas, fora as circunstâncias e investigações, tem sido um tempo bem agradável.

Então, estávamos lá, tomando nossos cafés. Uma pausa na conversa. Ao nosso redor, alguns outros clientes digitavam em seus teclados ou conversavam em pequenos grupos. Finalmente, perguntei:

“Lembra do acampamento de verão?”

Os olhos dela brilharam. Ela deu um longo gole no latte antes de colocá-lo na mesa.

“Qual parte?”

“Sei lá… tudo, acho.”

S apertou os olhos e me olhou por cima do nariz, com a cabeça inclinada. Ela fazia essa cara muito quando éramos crianças. Geralmente, quando eu dizia algo meio idiota ou estranho. Ou quando tentava mentir, o que, para ser honesto, nunca foi meu forte.

“Foi o Graves que te mandou perguntar isso?”

“Não.” Eu nem tinha contado ao meu chefe que estava falando com S ultimamente. “Eu só queria…” Saber o que aconteceu? Conseguir respostas? Muito direto. “…relembrar.” S arqueou uma sobrancelha, mas pareceu aceitar.

“Lembra da Travessia?” disse S, rindo. “Aquilo era foda.”

Eu lembrava.

No Acampamento Crepúsculo, todo campista precisava ser um nadador competente antes de participar de qualquer atividade no lago. A Travessia era o teste final. Era uma medalha de honra e a fonte do meu mais absoluto pavor. Nas primeiras horas da manhã, depois que os monitores nos reuniam nos píeres em grupos de cinco, mergulhávamos. Nosso monitor nos tranquilizava com um sorriso cheio de dentes, dizendo que estaria de olho caso algo desse errado. Isso não ajudava em nada a aliviar minha ansiedade.

Ele apitava, e o teste começava.

Não me lembro de quanto nadamos. Parecia quilômetros. Parecia uma eternidade.

Eu não sou um bom nadador nem agora. Naquela época, era péssimo. Não importava quantas horas eu passasse praticando com meus colegas de chalé, eles sempre pareciam estar muito à frente. Em algum momento, mudei para o nado de lado, mas até isso ficou difícil de sustentar à medida que meus braços ficavam cada vez mais exaustos. Eu tinha certeza de que, a qualquer momento, meus músculos iriam ceder e eu afundaria como uma pedra.

Quando joguei a cabeça para trás, olhando para a margem, seja para pedir ajuda ou para me orientar, percebi que não conseguia mais ver os píeres. Vi apenas uma faixa distante de areia, tingida de cinza na luz suave da manhã. Estava deserta.

Olhei para a frente novamente e vi apenas as águas calmas e vazias do Lago Abel se estendendo até a névoa, imóveis e silenciosas como sempre. Não conseguia ver S nem os outros três garotos do nosso grupo. Será que estavam tão à frente assim? Estiquei o pescoço, batendo as pernas na água, tentando avistar cabeças balançando ao longe.

Nada. O pânico me envolveu em garras apertadas. Eu estava perdendo força a cada braçada. Se não fizesse mais nada, pelo menos precisava manter a boca e o nariz acima da água.

Algo agarrou meu tornozelo esquerdo.

Era uma pegada fria e firme, que me segurava no lugar como uma âncora, mas, estranhamente, macia ao toque.

Parecia dedos.

Quando me puxou para baixo, engoli água sem querer, fria e áspera contra a garganta.

E eu estava me afogando.

Por um momento terrível e interminável, meu mundo escureceu. Uma escuridão difusa fechava as bordas da minha visão. Pensei, distante, se iria morrer ali em silêncio, falhando no meu teste de natação.

Me debati uma, duas vezes, até que finalmente consegui me soltar com um chute. Os dedos afrouxaram o aperto, mas senti unhas cravando na minha pele com força suficiente para deixar marcas.

Subi à superfície, meus pulmões ardendo, meu corpo cheio de água gelada.

Lembro de gritar algo. Acho que pode ter sido o nome da S. De qualquer forma, foi ela quem vi nadando de volta na minha direção, surgindo da névoa. Foi ela quem passou as mãos por baixo dos meus braços, batendo os pés para nos manter na superfície até que eu conseguisse respirar fundo novamente.

Recontando isso, S fez uma careta. “Nossa. Eu tinha esquecido completamente como isso foi traumático pra você. Não devia ter começado por essa.”

Eu disse que estava tudo bem. Lembrar era bom. Era uma coisa boa.

“Espera, e qual foi a história de você ser agarrado?”

Fiquei paralisado. “Algum garoto fazendo uma brincadeira, provavelmente.”

“Nossa, sim, acho que foi aquele garoto, o Cain. Ele era um babaca naquela época.”

Nisso, a gente concordava.

“Enfim, estou tirando um ano sabático pra me focar antes de ir pra pós-graduação. E você com essa vibe de arquivista? Olha só a gente!” Percebi que S queria mudar de assunto, então acompanhei, assentindo e dando meu discurso de sempre sobre a sociedade histórica.

“Parece que você tá bem empolgado com esse projeto,” ela disse.

“É,” respondi, surpreendendo a mim mesmo. Era verdade. Desde que abri aquele armário empoeirado nos fundos do escritório da prefeitura e digitalizei a primeira fita, esse trabalho parece mais uma missão. Era algo que precisava ser feito. Até aquele momento, eu não tinha percebido que realmente gostava de ser quem fazia isso.

É mais fácil conversar com S do que com outras pessoas. É legal. Por algum motivo, minha mente fica mais calma perto dela, mais inteira. Quase consigo imaginar que estamos de volta à escola. Por um momento, ela está com o uniforme de corrida dos Carneiros Dourados, falando sobre seu recorde pessoal, e eu estou com meu moletom largo e jeans rasgados, um caderno de desenho cheio de adesivos no colo, um demônio silencioso no ombro, e nada mudou.

Sonhei com a Travessia ontem à noite. Eu estava lá, batendo as pernas no meio de um lago vasto e calmo, lutando para respirar. Havia muitas mãos. Agarrando meus membros como tornos. Me puxando para baixo até meus pulmões colapsarem.

Dessa vez, S não estava lá.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Ei, alguém sabe de uma série com um homem de terno?

Eu sei que esse título parece meio bobo e estranho, mas preciso de ajuda porque assisti algo ontem à noite. Eu estava lá, tranquilo, cozinhando, quando o filme que eu estava vendo terminou. Aí, a TV começou a rodar automaticamente outra coisa, e apareceu um cara de pé numa sala, com uma luz forte brilhando sobre ele, de costas pra câmera.

Ele ficou assim por um minuto, talvez mais. Depois, ele se ajeitou e virou de frente pra câmera. Estava vestindo um terno chique, com gravata, e tinha um cabelo meio desgrenhado. Não dava pra ver o rosto dele. Não era como se ele não tivesse rosto, dá pra entender? Dava pra ver os lábios, mas a iluminação da sala, tipo um holofote de palco, não deixava ver direito.

Aí ele começou a falar. Eu não consegui lembrar de muita coisa, porque parecia um monte de conversa desconexa. Ele começava num assunto e, do nada, pulava pra outro. Era meio desorientador, sabe?

Eu já estava pensando em desligar a TV quando ele começou outro discurso.

“Eu me lembro de quando a vi pela primeira vez. Ela era tão perfeita. Naquele momento, eu soube que ela seria o meu lar. Alguém sem quem eu não poderia viver.” Um sorriso de alegria apareceu no rosto dele.

“As primeiras vezes que nos esbarramos foram por acaso. A gente trabalhava no mesmo lugar. Ela estava começando, e eu já estava lá há um tempo. O sorriso dela era mágico. Eu comecei a inventar jeitos de cruzar com ela de propósito. Ela era o meu pedacinho de céu.” Ele estava esfregando o dedo anelar, onde fica a aliança.

“Demorei um tempo pra convencer ela a sair comigo. Ela estava preocupada com como isso poderia afetar o trabalho, o que as pessoas iam pensar, essas coisas normais. Quando finalmente saímos, levei ela pra um restaurante chique no centro. Era lindo, perfeito. Eu sabia que ela ia amar… e ela amou mesmo. Dava pra ver no rosto dela, na dancinha animada que ela fazia. Pedimos umas comidas sofisticadas, tipo filé e lagosta. Coisas que pesam no bolso, sabe? Mas eu faria qualquer coisa por ela. Depois do jantar, levei ela pra ver as estrelas. Eu tinha encontrado um lugar perfeito, não muito longe da cidade. Era o lugar ideal pra um primeiro beijo.” Ele tropeçou nas palavras por um segundo.

“Ela era tão linda. Eu ficava olhando mais pra ela do que pras estrelas. Acho que ela sabia, mas não ligava. Em um momento, ela olhou pra mim, e tudo que eu conseguia ver eram os lábios dela. Eles me chamavam. Talvez eu estivesse meio bêbado de vinho e empolgado, mas fui em frente. O eu sóbrio nunca teria coragem. Pensando bem, eu dei sorte. Ela me beijou de volta, e a partir daí, foi história.” A empolgação na voz dele era tipo uma criança ganhando um brinquedo novo.

“A gente saiu mais vezes. Ficou mais ousado no trabalho. Até que decidimos ir pra casa e… bom, transar. Foi como estar no paraíso. Nunca senti nada melhor.” A euforia no rosto dele estava crescendo absurdamente nesse ponto.

“Mas não durou muito. Eu esqueci de uma coisa. Uma coisa simples. Que minha esposa não tinha ido trabalhar naquele dia e só estava deixando as crianças na escola. Dava pra ver o ódio nos olhos dela antes de ela balançar o machado. Ele me acertou primeiro, bem na parte de trás da cabeça. Não senti dor. Morri na hora. A outra mulher, por outro lado, não teve tanta sorte. Dizem que ainda estão encontrando pedaços dela pelo bairro.” Ele deu uma risadinha com esse comentário.

“Minha esposa se entregou à polícia, mas só depois de afogar nosso filho. Disse que esse foi o único crime dela… Eles me encontraram alguns dias depois. Sem cabeça e com o pênis cortado. Acho que foi o último ‘vai se foder’ dela pra mim.” Ele fez uma pausa, e o sorriso sumiu.

“4 de setembro de 2025, 8h da manhã”, ele disse, antes de a TV voltar pra algum filme antigo. Fiquei confuso, pra dizer o mínimo. As coisas pioraram quando acordei na manhã seguinte e vi no grupo de trabalho que o chefe tinha sido assassinado. Que a esposa dele enlouqueceu ou algo assim. Não sabemos todos os detalhes, só que há mais duas vítimas. Uma é o filho deles, e a outra é desconhecida.

Eu só quero saber se fui o único que viu isso. 

Obrigado pelo tempo de vocês.
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