sábado, 4 de outubro de 2025

Afogando no Som Deles

Meu nome é Alex. Sou o primeiro clarinetista da banda avançada da escola. Já toquei em bandas de honra estaduais, pratico horas por dia e sei direitinho como fazer uma sala inteira vibrar com o som.

Eu precisava de um lugar pra ensaiar meu solo de audição — algum canto bem quieto. Um amigo falou dessa piscina velha e abandonada no meio da mata, onde ele e o camarada dele iam pra fumar escondido. Achei que, se era tão isolado assim, ia ser perfeito pro meu som.

Então, numa tarde, peguei meu clarinete e caminhei uns quinze minutos pela trilha entre as árvores até achar o lugar.

O ar tava pesado e azedo, tipo água velha misturada com cloro mofado. A piscina ficava afundada no centro de um deque de concreto rachado, a superfície toda rabiscada com grafites que não pareciam... normais. Tinha formas que mais pareciam pintadas do que sprayadas — traços de pincel visíveis, como se o artista tivesse surtado no meio do trampo. Ondas de preto e roxo se enroscando no fundo, e nas paredes, símbolos que pareciam de outra era. Palavras em X vermelhos e xingamentos cercando tudo, como se estivessem zombando de algo sagrado.

Quando entrei, a acústica era surreal. Toquei uma nota de afinação, e o som floresceu ao meu redor — afiado, puro, ecoando de volta como se a piscina quisesse cantar junto comigo. A reverberação era impecável. Perfeita. Quase... viva.

Não resisti — dei um sorriso. Esse era o tipo de espaço que eu amava.

Abri na minha peça favorita, o Canon em Ré. É escrito em tempo cortado, devagar e gracioso, mas quando eu tô no fluxo, acelero um pouco. Levei o clarinete aos lábios e deixei a primeira nota escapar.

O eco veio como uma onda.

Cada nota quicava de volta pelo ar, me envolvendo, inchando. A reverb crescia até eu sentir no peito. Minhas pernas formigavam, as mãos tremiam, e a cada frase, eu me afundava mais no som — como se a piscina estivesse enchendo, nota por nota.

No meio da primeira passada, um arrepio subiu pela minha espinha. O ar ficou grosso, pesado, úmido. Parei um segundo pra ajustar a palheta e vi algo brilhando nas minhas mãos. Água.

Aí veio os passos.

Suaves. Molhados. Bem atrás de mim.

Virei tão rápido que o aro do bocal quase voou — mas não tinha ninguém. O som parou, mas o ar ainda ondulava com a presença dele. Convenci a mim mesmo que era só o eco, talvez um reflexo atrasado. Forcei uma respiração trêmula, levantei o clarinete de novo e continuei tocando.

Ideia péssima.

Quanto mais rápido eu tocava, pior ficava. A acústica não soava natural mais — ela me seguia, dobrando meu ritmo como se algo estivesse tocando junto. A reverb batia cedo demais, pesada demais, e o ar me pressionava. Tentei desacelerar, mas meus dedos não paravam. Meu corpo não obedecia.

Quando o solo chegou na parte rápida, minha respiração engasgou. Parecia que eu tava debaixo d'água, pulmões ardendo, mas eu não conseguia parar de soprar no instrumento. Cada inspiração era um suspiro rouco — cada expiração, um engasgo. As escalas viravam uma frase infinita, um ritmo de afogamento. Meus pés chapinhavam em algo frio.

Olhei pra baixo.

O chão da piscina tava molhado. A água subia devagar, o suficiente pra cobrir meus sapatos — depois os tornozelos — depois as canelas. Mas não tinha de onde vinha. Nenhum ralo, nenhum vazamento. Só subia, água silenciosa.

Aí eu vi — movimento dentro do reflexo. Algo se mexendo no ritmo das minhas notas. A água não tava só subindo; ela tava escutando.

Meu som rachou, e por um segundo, o eco parou de responder. Depois voltou — não como o meu som, mas como o de outra coisa. Uma nota mais grave. Um rosnado embaixo da melodia, como se algo cantasse do fundo.

Larguei o clarinete e corri pra parede, escorregando na superfície lisa. A água avançou mais rápido agora, batendo nos meus joelhos. Arranhei a borda, mas o peso dela me puxava pra baixo — cada vez mais pesado, como se quisesse me prender ali.

E aí eu percebi — a água tava respirando. Puxava quando eu expirava, avançava quando eu ofegava, me acompanhando como um pulmão vivo. O pulso dela era firme, paciente. Faminto.

Os ralos explodiram, jorrando cascatas que enchiam a piscina mais rápido do que eu conseguia escalar. Chegou na minha cintura. Depois nas costelas. Chutei contra a inclinação, músculos gritando. A pressão da água engrossava a cada segundo, me arrastando pro centro. Senti mãos — frias, líquidas — se enrolando nos meus braços, pressionando minhas costas. Não invisíveis. Sem forma. A própria água me segurava.

Gritei, mas saiu em bolhas. Por um instante, achei que era o fim — que eu viraria um som, preso no eco.

Não sei como, mas escapei. Por pouco. Minhas palmas rasparam na borda enquanto eu me arrastava por cima dela. Quando rolei pro pavimento rachado, vi — meu clarinete. Ainda de pé no centro da piscina, intocado.

Aí ele caiu.

A água o jogou pra cima, lançou pra fora da piscina. Bateu no chão do meu lado com um baque molhado, sino primeiro.

Corri. Nem lembro onde larguei o clarinete, só que arranquei a jaqueta encharcada no meio da corrida porque parecia que ela me puxava de volta. Quando cheguei na estrada principal, não ouvia nada além do meu coração martelando.

Em casa, tirei o resto da roupa molhada e joguei do lado da porta.

Se você achar um lugar desses — uma piscina que canta de volta — não toque pra ela.

Porque quando eu me virei... as roupas tinham sumido. E aí ouvi a porta da frente ranger abrindo, e os sons de pés molhados se aproximando da minha porta.

Minha cidade mudou em um mês, e eu não a reconheço mais

Juro que não estou louco. Mas tenho observado minha cidade se transformar, e parece que me jogaram cem anos no futuro.

Quando eu era garoto, as ruas eram de terra batida, e as crianças jogavam beisebol de taco até o anoitecer. Você conseguia ouvir o estalo das tacas e o riso dos vizinhos de um canto da Rua Principal até o outro. Fazendeiros vendiam ovos e maçãs na beira da estrada. Cavalos trotavam passando, carroças rangiam, e o prédio mais alto da cidade era a biblioteca, três andares imponentes com vitrais no topo.

Todo mundo andava a pé. Era a coisa mais simples do mundo. Até a padaria, à igreja, ao armazém. Você cumprimentava metade da cidade só dando um rolê de duas quadras.

Mas aí, de repente, as coisas começaram a mudar.

Na primeira semana, as estradas de terra foram raspadas e cobertas com asfalto preto. A calçada debaixo dos bordos, aquela que todo mundo usava pra ir ao mercado, foi aplanada. “Progresso”, o prefeito chamou. O mercado em si foi reconstruído mais pra longe. Ninguém se importou, exceto eu, quando percebi que a caminhada tinha dobrado de tamanho.

Na segunda semana, a estrada dobrou de largura, depois dobrou de novo. Ontem, duas carroças cabiam lado a lado; hoje, seis faixas rugindo de máquinas zumbem passando. Atravesar virou tipo ficar na frente de um pelotão de fuzilamento. Um garoto chamado Samuel não conseguiu atravessar. Os motoristas só buzinavam, como se ele não tivesse o direito de estar ali.

Os prédios mudaram em seguida.

A biblioteca, que um dia teve janelas de vidro colorido no terceiro andar. Lembro de subir as escadas com meu pai. Mas uma manhã, era só uma caixota de tijolos baixa, sem graça e sem janelas. A casa da Margaret perdeu o segundo andar da noite pro dia. As pessoas só deram de ombros.

E aí alguns prédios não só encolheram; eles sumiram. O correio. A farmácia. O velho teatro. Uma noite eles tavam lá. De manhã, os lotes tavam lisos, pintados com listras. Ninguém nem comentou a perda.

A Rua Principal não lamentou também.

Os negócios de família foram pro brejo, um por um: o alfaiate, a padaria, a loja de brinquedos. Eu pensei que ia rolar uma tristeza, mas em vez disso as pessoas sorriram. Elas diziam: “Tudo bem, tem uma loja maior a vinte minutos daqui”. Diziam como se fosse uma boa notícia, como se facilitasse a vida. Até os donos das lojas, com as caras pálidas nas vitrines vazias, forçavam sorrisos durinhos e assentiam, como se fosse tudo pro bem maior.

Foram os sorrisos que me deixaram mais encucado.

A vendinha da esquina rolou diferente.

Eu acordei uma noite e vi uma multidão parada do lado de fora. Eles não gritavam. Não discutiam. Só encostavam as mãos no tijolo. As paredes rangiam como se algo vivo estivesse se contorcendo de dor. Ao nascer do sol, a loja tinha sumido. O chão tava liso e preto. O Sr. Alvarez também. Quando perguntei por ele, as pessoas viravam a cara pro outro lado.

Até as casas começaram a se torcer.

Onde antes tinha calçadinhas levando das portas da frente pra rua, os caminhos dobraram pro lado da noite pro dia. Agora eles só levam pras garagens. Sai pela porta e você é guiado direto pro carro. As casas em si parecem se afastar um pouquinho mais pra trás a cada noite. Dez metros. Vinte. Em alguns casos, você mal consegue vê-las da rua. As vozes não carregam tão longe assim.

E os gramados não param de se esticar.

Lembro quando o Sr. Dawson empurrava a cortadeira assobiando, e a Sra. Henson manejava a foice como o pai dela antes. Os quintais eram pequenos, o trampo rápido. Agora parecem campos. Ninguém mais corta a grama a pé. Eles andam em máquinas pequenas por gramados infinitos que não eram tão grandes ontem. De longe, os caras pilotando parecem brinquedos rodando em círculos sem fim.

As crianças sumiram também; não sumiram, mas se esconderam.

Elas costumavam jogar beisebol de taco na rua, linhas de giz rabiscadas no asfalto, gritos ecoando pelo quarteirão. Agora, toda vez que um motor ronca, as mães saem correndo e puxam elas pra dentro. Portas batem, cortinas se fecham de supetão. O jeito que a rua esvazia me lembra daqueles Westerns antigos, bem antes da troca de tiros. Só que isso rola todo dia.

O momento mais esquisito foi quando eu tava voltando pra casa uma noite.

Eu vi os Dawson na varanda deles. Quando me viram descendo a rua, congelaram. A Sra. Dawson apertou o braço do marido. A cara dele tava dura de medo até eu chegar perto o suficiente pra ele me reconhecer.

“Ah”, ele disse, quase rindo. “É só você. Achamos que era outra pessoa.”

Eles não disseram quem. Mas o jeito que entraram correndo depois, trancando a porta, eu soube. Por aqui, qualquer um andando a pé é tratado como uma ameaça.

Eu tentei andar até a beira da cidade na semana passada, pra ver se as fazendas ainda tavam lá.

O Sr. Whitaker costumava vender maçãs e ovos de uma barraca na beira da estrada. Meus filhos adoravam as frutas dele. Mas quando cheguei no ponto, só tinha casinhas arrumadinhas e garagens. Sem curral. Sem barraca. Nem um poste de cerca. Um cara regando o gramado franziu a testa quando me viu demorando.

“Você se perdeu”, ele disse, seco. Aí virou e a porta da garagem dele fechou atrás.

E meus amigos também estão mudando.

O James, que um dia andava pra todo lado com a filha, apontando as velhas lojinhas. Era a alma mais gentil que eu conhecia. Mas da primeira vez que o vi no volante, ele quase me acertou na faixa de pedestre. Não acenou. Não pediu desculpa. Buzinou forte e acelerou tão perto que eu senti o calor do motor dele. Não era mais o James.

Na quarta semana, eu era o único que sobrou andando a pé. As ruas rugiam com ferro e fumaça. As árvores sumiram. As varandas esvaziaram.

Até o velho caminho de terra pro centro da cidade foi apagado. Onde ele começava, uma placa nova tá lá: PROIBIDA A ENTRADA. ISSO É PRA VOCÊ. Eu conseguia ver o centro ali do outro lado do gramado, perto o suficiente pra tocar. Mas não dava pra chegar.

E agora tá na minha porta.

Esta manhã, a calçada sumiu. Meus degraus levam direto pra doze faixas de trânsito.

Se eu quiser comer, vou ter que tentar atravessar.

Não sei se volto vivo.

A coisa mais estranha é que todo mundo parece feliz.

Se você um dia ouvir obras do lado de fora da janela, se acordar e encontrar a rua mais larga do que ontem, não fique. Corra.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Eu descobri algo bem perturbador na minha casa...

Pra você realmente entender essa parada, acho que precisa saber como é o estado mental quando você tá caindo no sono. Sabe como é, você ainda tá consciente o suficiente pra perceber as coisas que rolam ao seu redor, mas não o bastante pra reagir ou pensar nelas de verdade – só uns pensamentos meia-boca que não fazem muito sentido?

Foi nesse estado que a maior parte disso começou a acontecer comigo.

Eu moro com minha esposa e minha filha. Ela dorme lá embaixo, e a gente dois dorme num quarto lá em cima. O nosso quarto é o primeiro depois da escada. Nos anos que a gente mora aqui, eu aprendi a reconhecer os sons da minha esposa e da minha filha subindo a escada, cada uma com o jeitinho dela, claro que soam diferentes.

O lance estranho é que, em algum momento, eu comecei a ouvir um conjunto diferente de passos subindo a escada. Minha esposa dorme na mesma cama que eu, então não podia ser ela, e minha filha não tem problema nenhum pra dormir, pelo menos que eu saiba, então acho que não era ela também.

É meio difícil passar por texto o quanto isso parecia uma bobagem na época. Veja bem, isso rolava quando eu tava nesse estado de caindo no sono que eu falei antes. Eu ouvia, mas não tava totalmente acordado, então nem pensava muito na coisa. Eu ouvia, aí vinha um pensamento vago tipo "quem foi esse aí?", e logo em seguida eu apagava.

Mas, se eu soubesse o que descobri esses dias, provavelmente eu acordava na hora que ouvisse aquilo.

Isso se arrastou por uns dias, acho. Minhas memórias desses incidentes eram bem nebulosas e cheias de sonho, tenho quase certeza de que, depois das primeiras noites, eu acabei dispensando tudo como se fosse só um sonho. Eu nem pensava nisso durante o dia. Talvez uns pensamentos fugidios no trampo ou em casa, antes da minha mente pular pra outra coisa. Agora que eu parei pra refletir de verdade, eu sinto que tava ignorando algo que eu devia ter levado bem mais a sério. Mas, de novo, não dá pra enfatizar o suficiente como o horário da noite atrapalhava minha capacidade de raciocinar direito sobre isso.

Depois de mais ou menos uma semana, um dos meus colegas de trabalho comentou de leve sobre um sonho que ele teve, e isso me lembrou do que tava rolando à noite. Foi a primeira vez que eu comecei a considerar de verdade o que diabos tava acontecendo. O fato de que aquilo já tava rolando há tanto tempo e de forma tão constante provavelmente também me deu o toque de que não era só um sonho esquisito.

Eu montei o cenário na minha cabeça: mais ou menos no mesmo horário toda noite, eu ouço alguém subindo a escada quando eu duvido seriamente que possa ser qualquer um da casa. Eu não tava... preocupado, exatamente. Mais curioso mesmo. Eu ficava pensando nisso de vez em quando pelo resto do dia no trampo. Quando cheguei em casa, minha esposa e minha filha já tavam lá. Eu perguntei pras duas se elas tinham levantado e feito alguma coisa na noite anterior, e nenhuma disse que sim.

Eu ponderei as possibilidades, e nenhuma delas me preocupava de verdade. Eu duvidava seriamente que tivesse um intruso arrombando a casa sem nenhum outro sinal, só pra subir a escada no meio da noite. Isso me deixou bem menos preocupado do que eu provavelmente devia ter ficado. Mas é, eu pensei no que fazer pelo resto do dia. Eu tive um pensamento engraçado e rápido sobre aquele cara da Bíblia que jogou farinha no chão pra pegar pegadas de alguém, aí veio uma ideia parecida de instalar um fio de tropeço.

No final das contas, eu cheguei à conclusão de que, se isso tava mesmo acontecendo, eu podia simplesmente gravar. Eu tenho um celular velho que ainda funciona, mas que eu não uso mais porque não pega as torres de celular modernas ou sei lá o quê, então pensei em abrir o app de gravação de áudio e deixar rodando a noite toda. Eu não queria usar meu celular atual, porque eu uso ele como despertador e não queria esquecer de desligar ou algo assim. Isso acabou me dando uma visão bem importante das coisas.

Eu acordei e tinha esquecido completamente da história toda. Lembrei que o gravador tava rodando no caminho pro trampo, mas percebi que ia me atrasar se voltasse pra pegar. Eu me perguntei rapidinho por quanto tempo aquela porcaria podia gravar. Não achava que ia encher a memória e travar o celular ou algo do tipo, mas ainda assim era esquisito de pensar.

Quando cheguei em casa, depois de dar um oi pra família, a primeira coisa que fiz foi subir e ouvir a gravação. Ela tinha, de fato, gravado a noite toda e o tempo inteiro que eu tava no trampo. Eu pulei entre períodos longos de silêncio procurando os sons da noite anterior. E eu encontrei mesmo o som de alguém subindo a escada tarde da noite. Nada mais. Nenhum barulho de quem quer que fosse mexendo em coisas ou fazendo algo que desse ruído.

Olha, é aqui que o fato de eu ter usado o celular velho vira algo importante. Como não era o meu atual, eu esqueci dele e deixei rodando, como eu disse, gravando até o momento em que eu subi pra pegar. Ao pular pela gravação, eu acabei deixando tocar uns segundos que capturaram antes de eu pegar o aparelho. Todo mundo na casa tem um som um pouco distinto quando sobe a escada, tenho certeza de que você já notou a mesma coisa se conviveu com as mesmas pessoas passando pelo mesmo lugar de um prédio repetidas vezes.

Isso, claro, me incluía. Eu só nunca tinha ouvido porque, óbvio, eu tava na escada toda vez que fazia esse barulho. Essa gravação foi a primeira vez que eu ouvi de verdade, apesar de minha esposa e minha filha terem ouvido incontáveis vezes. Algo que eu nem sei se já tinha parado pra pensar antes. E é essa parte que me deixa realmente preocupado, e me faz perceber que eu devia ter ficado apavorado o suficiente com o que tava rolando pra instalar uma câmera ou algo assim, em vez de só gravar como se fosse uma esquisitice boba: o som de mim subindo a escada pra pegar o celular era idêntico ao som que eu tava ouvindo à noite.

Tom Voyeur

Cara, a cadeia é uma merda mesmo. Acabei de sair, me soltaram, mas ainda tenho que ir a julgamento, e aquilo na corte foi só a audiência de acusação. Eu nem sabia o que isso significava até estar lá de pé, mãos geladas, tentando não olhar pra ninguém. O promotor leu a acusação: "Voyeurismo em Primeiro Grau".

Soou pior do que eu imaginava. Tipo, como se eu fosse um predador de verdade. Queria explicar, dizer que não era nada disso, mas meu advogado me mandou ficar na minha.

O juiz perguntou se eu entendia a acusação. Eu disse: "Sim."

Aí eles falaram de fiança, e meu advogado defendeu pra me soltarem sob palavra. Disse que eu não era fugitivo, que morava no mesmo prédio há doze anos, que não tinha ficha criminal. Ele não mencionou que eu era o dono do prédio. Acho que foi pra me proteger.

O promotor mencionou, sim. Disse que a vítima morava no meu prédio, que eu tinha acesso. Que eu tinha violado a confiança. Meu estômago revirou. Não olhei pra ela. Não olhei pra ninguém.

O juiz topou me soltar, mas com condições. Não posso chegar a cinquenta pés do apartamento dela. Tive que entregar todas as chaves. Fiquei proibido de entrar na escada leste, na lavanderia, no porão ou em qualquer lugar onde ela possa estar. Agora uso uma tornozeleira eletrônica. Ela apita se eu cruzar as linhas invisíveis que eles traçaram em volta do espaço dela.

Tenho que pagar vinte dólares por dia pra usar essa porcaria, e vou ter que usar até o julgamento. Meu advogado diz que, dadas as circunstâncias, provavelmente vou pegar uma pena reduzida, se é que vão me condenar por alguma coisa.

Essa é a minha chance de me explicar, de limpar meu bom nome.

Acabei de reler o que escrevi aí embaixo, e parece loucura, mas juro que é tudo verdade. Aquela coisa existe mesmo, e ainda tá solta por aí.

Meu primeiro encontro com o entupimento de cabelo foi, bem, como um entupimento mesmo, tipo, no ralo.

Eu tirei ele pra Sra. Peachtree, e lá estava. Fiquei olhando por um segundo, sentindo de algum jeito que ele tava me olhando de volta. Eu tremi, sentindo o quão errado aquilo era.

O entupimento balançava na ponta do gancho do arame, parecendo quase uma peruca de cabelo escuro e comprido. Tinha bolotas de gosma, fiapos brancos, emaranhados torcidos, e pingava um líquido cor de chá. O cheiro era horrível, e eu engasguei com ele e o troço escorregou do gancho. Eu vomitei no vaso ao lado enquanto a massa embolada caía de volta na banheira.

Lá se foi, deslizando – não, rastejando, sim, ele rastejou – pro ralo e sumiu fácil. Eu fiquei pasmo, e despejei mais desentupidor. Tentei pescar de novo com o arame, tateando atrás dele, mas parecia que tinha ido pro ralo mesmo.

"Tudo bem aí, Sr. Thomas?" a Sra. Peachtree perguntou. Eu estremeci, sentindo o primeiro frio na espinha daquele primeiro encontro. Acenei que sim, mas me senti esquisito. Nunca tinha visto nada igual, e eu nem curto essas paradas sobrenaturais.

Mais tarde naquele dia, a filha dela, Ruth, veio visitar a mãe. Já conhecia a Ruth; ela costumava passar o verão com a mãe. Agora ela tá toda crescida – na real, acho que não devia comentar nada sobre a aparência dela, considerando essa fama injusta de pervertido que me colaram. Eu te juro, não sou assim, de verdade, não sou.

Ruth veio correndo pelo corredor, gritando em pânico total. Quando eu a peguei, ela me acertou e, com os olhos arregalados, berrou, histérica: "Ela morreu!"

Tinha um jeito estranho de dizer "morreu", como se fosse a primeira vez na vida que ela usava a palavra. Não que ela nunca tivesse dito antes, mas assim.

Eu fui ver, depois de passar a Ruth pra Caroline (a mesma suposta vítima do meu voyeurismo). Ela abriu a porta de toalha, e sim, eu dei uma olhada e ela fez cara feia pra mim, mas não foi de propósito. A toalha tava pequena demais, e quando eu virei, ela tava ali parada. Não fiquei olhando de propósito.

Mesmo assim, pelo olhar dela, dava pra ver que ela ficou ofendida com o meu, porque eu levantei a cabeça e cruzei os olhos dela. Depois que ela pegou a Ruth, que tava soluçando e tremendo, eu fui checar a Sra. Peachtree.

A professora aposentada de ensino fundamental tava morta, esparramada do lado de fora do chuveiro, onde tinha caído de cara. Achei que era acidente, então cobri ela antes que mais alguém visse daquele jeito, jogando umas toalhas em cima da bunda. Eu tinha desviado o olhar até conseguir cobrir, e aí olhei melhor, me abaixei pra checar o pulso no pescoço.

Foi aí que notei a marca funda na garganta, tipo se alguém tivesse enforcado ela e tirado a corda, deixando só as marcas. Meus dedos saíram do pescoço dela com um fio comprido de muco viscoso, e cheirava a Drano e aquele fedor horrível do entupimento que eu tinha tirado.

Por um instante, eu só fiquei ali sentado, em choque e pavor. Aí senti aquilo, o pavor total de uma coisa maligna te observando. Virei e olhei, o rosto e os olhos varrendo tudo até que olhei pro alto, no canto do chuveiro, atrás de mim. Lá tava ela.

Parecia uma teia de aranha suja e enegrecida. Tinha tentáculos de cabelo espalhados pra todo lado, se segurando no lugar pela tensão e pela viscosidade. Eu fiquei apavorado, porque o que diabos era aquilo? O que era? Aí ela caiu na banheira com um som molhado nojento e se contorceu pro ralo.

Eu gritei em pânico, tentando me afastar e caindo em cima da Sra. Peachtree. Enquanto me debatia pra sair de cima dela, todas as toalhas caíram e minhas mãos escorregavam na pele molhada dela enquanto eu tentava me levantar pra fugir daquela merda.

Naquele exato momento, a Caroline entrou, e ela só me viu todo em cima da Sra. Peachtree, me arrastando pra ficar de pé.

"Você viu isso?" eu perguntei, o rosto vermelho e suado.

"Sai de cima dela, seu doente nojento!" a Caroline rosnou pra mim.

"Ela morreu", eu implorei, como se a morte tivesse prioridade sobre o que tava deixando ela louca. Ela recuou de mim, agora de roupão.

"Você é nojento." Ela cuspiu.

Alguém no corredor chamou os paramédicos, mas eu tenho certeza que ela já tava bem morta. Levaram ela embora numa maca, e a Ruth ficou destruída. Eu me senti péssimo pela coitada, eu tinha visto ela crescer, conhecia ela e a mãe. Ver ela assim partiu meu coração.

No dia seguinte, a Caroline me ligou porque o ralo dela tava entupido. Fui pro apartamento dela, e ela tava me fuzilando com o olhar, mas disse: "Eu não quis gritar com você. Eu tava em choque."

"Tá tudo bem. Eu entendi que você deve ter me visto rolando em cima dela. Eu levei um susto quando percebi que ela tava morta." Eu ficava dizendo "percebi", mas por algum motivo escorreguei duas vezes e falei "olhos reais". A Caroline piscou, e acho que foi um lapso freudiano, porque eu realmente sentia que o olhar dela era sincero. Naquele momento, ela tava me vendo como eu sou, e não como o tarado que ela acha que eu sou agora.

Comecei mergulhando o ralo da banheira dela, porque tava totalmente bloqueado. Senti um frio na barriga, porque eu tava com medo que aquela coisa ainda estivesse se mexendo pelos canos, caçando outra vítima pra enforcar.

Por um tempão agonizante, eu fiquei ansioso, achando que ela ia explodir do ralo e me envolver o rosto. Continuei trabalhando, mas o medo era real pra caralho.

Consegui desentupir o ralo dela, e ela disse que era bom porque senão ia se atrasar pro banho e pra sair.

Ela não me levou até a porta, e como eu tava morrendo de medo do que poderia acontecer com ela, na real eu não saí do apartamento. Não tinha plano nenhum, tava tão abalado e paranoico que ela podia pegar ela, que eu só bati a porta como se tivesse ido embora. Aí rastejei de volta pro banheiro.

Quando a água começou a correr e eu ouvi alguém entrando na banheira, o rangido da cortina do chuveiro fechando, eu entreabri a porta. Olhei, só um pouquinho, a menor frestinha possível. De onde eu tava, dava pra ver quase o buraco do ralo, mas ela tava escondida atrás do resto da porta. Nem me deu vontade; eu tava lá pra garantir que nada pegasse ela.

De repente, ela começou a gritar em pânico total. Eu arrombei a porta, mas não tinha monstro de cabelo atacando ela. Em vez disso, ela tava completamente nua e apontando pra mim, gritando uma mistura de terror e raiva.

Eu recuei, e a porta do banheiro fechou e trancou. Ela berrava pra eu sair do apartamento dela, e eu saí. Fui pro meu canto.

Lá sentei e esperei. Não demorou pro polícia chegar. Agora eu não sei o que fazer, não dá pra proteger ninguém com esse monitoramento. Ouvi que nos prédios vizinhos teve mais duas mortes, enforcamentos ou assassinatos. A polícia não tem pista nenhuma.

Mais seis semanas e eu fico livre da tornozeleira e do julgamento. Eu estoquei desentupidores, serpentina de encanador, fura-ralos e uma roto-rooter motorizada. Vou caçar essa porra, limpar meu nome e vingar a Sra. Peachtree.

Eu ainda tô apavorado com essa coisa, mas vou pegar esse terror todo e lutar de volta, pra reconquistar minha liberdade.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon