segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Limiar

Eu não durmo bem mais. Não é o trampo – embora ser investigador criminal por quase uma década quebre qualquer um. Você vê coisas, arquiva elas, constrói uma casca grossa na alma. Ou tenta, pelo menos. Mas tem umas coisas... umas coisas que não vão pro arquivo. Elas cavam por baixo da casca e infeccionam tudo.

Isso começou há quatro anos. Me botaram numa investigação num condomínio chique, daqueles fechados nas colinas de uma cidadezinha rica e quieta. O tipo de lugar com gramados impecáveis e garagens pra três carros, onde o único barulho à noite é o zumbido do ar-condicionado central. Um vizinho finalmente ligou reclamando – um cheiro, uma podridão doce e doente que tava piorando há dias, saindo de uma casa enorme e moderna no final de uma rua sem saída.

A polícia local fez o de sempre: bater na porta, tentar falar com o dono, checar com corretores. Nada. No final, não tiveram escolha a não ser arrombar a porta. O que acharam lá dentro fez policiais veteranos vomitar no piso de azulejo importado, branquinho. O chamado veio pra mim na hora.

Meu nome é Mark. Sou analista de investigações criminais. Meu serviço não é só juntar provas; é entrar na cabeça do monstro que deixou aquilo pra trás. Eu achava que tinha visto o pior que a humanidade podia oferecer. Estava enganado pra caralho.

O cheiro me acertou primeiro, um soco no estômago mesmo com o Vicks esfregado embaixo do nariz. Era cheiro de morte, sim, mas por baixo tinha outra coisa... metálico, como cobre, e um aroma enjoado de ervas, tipo sálvia queimada misturada com leite azedo. O ar tava gelado, de um jeito anormal, como se o ar-condicionado da casa tivesse sido ligado no mínimo por semanas.

Aí eu vi a cena na sala de estar.

Meu cérebro, treinado pra reconhecer padrões, travou. Por uns dez segundos inteiros, se recusou a montar as peças num quadro que fizesse sentido.

Nove mulheres. Todas grávidas.

Elas tavam arrumadas num círculo perfeito no piso de madeira escura, os corpos virados pra dentro. Cada uma tinha sido... aberta. Os fetos, pequenos e terríveis, tavam colocados do lado delas. Cada corpinho minúsculo tinha sido decapitado, o coração arrancado. As cabeças e os corações sumiram. O horror era metódico, uma progressão. A primeira mulher, pelo relatório de forense depois, tava de um mês. A próxima, dois meses. Depois três. E assim foi, um calendário grotesco, até oito meses.

No centro desse círculo infernal tinha uma nona mulher. Ela tava crucificada num X grande de madeira bruta, os braços abertos, a cabeça tombada no peito. Ela não fazia parte da sequência. O legista depois determinou que o bebê dela, quase no fim da gestação e viável, tinha sido removido post mortem. Sumiu. Não tava com os outros. Só... sumiu.

Todas as mulheres tinham a garganta cortada, um corte fundo e final. E na testa de cada uma, um símbolo tinha sido entalhado. Não cortado a esmo, mas entalhado com uma precisão doida.

Meus olhos, ardendo com o fedor e a visão, foram atraídos pro chão em volta do círculo. Desenhados no que eu primeiro pensei ser sangue, tavam cinco sigilos grandes e intricados. Eles formavam um pentagrama, com cada símbolo marcando um ponto. Meus estudos em criminologia, minhas mergulhadas no esotérico e no oculto pra casos passados, entraram em ação. Eu reconheci eles. Mammon. Belial. Moloch. Lilith. Paimon. Demônios. Entidades que representam ganância, rebelião, sacrifício de crianças, sexualidade torcida e conhecimento proibido. O sangue usado pra desenhar eles já tava descascando, virando um marrom opaco e enferrujado.

Senti um frio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado se infiltrar nos meus ossos. Isso não era só um assassinato. Era uma invocação.

A investigação foi uma parede de tijolos. Identificamos as mulheres. Todas de famílias antigas e podres de ricas, de estados diferentes, três no total. Quando avisamos as famílias, a reação foi... arrepiadora. Não era luto. Nem raiva. Uma aceitação quieta e resignada. Um pai, um cara com voz de cascalho e bolsos cheios de grana, me disse ao telefone: “A gente sabia que isso era uma possibilidade. Meu conselho, rapaz? Deixa pra lá. Foca em outra coisa. Você vai dormir melhor. Viver mais.”

A linha caiu. Eu fiquei ali, o fone zumbindo na mão, sentindo um tipo novo de pavor. Não era medo de um assassino, mas medo de um sistema, de um mundo tão podre que uma atrocidade dessas podia ser recebida com um dar de ombros.

Minha vida começou a desmoronar. Eu sempre fui firme, minha mente era minha ferramenta mais afiada. Mas agora, as bordas tavam borrando. Eu tava escrevendo um relatório e ouvia um som fraco, úmido, de rasgar vindo do corredor. Virava, e nada. Meus reflexos tavam mais lentos. Minha atenção se desfazia. Me botaram em outros casos, rotina pura, mas meu desempenho tava uma merda. As imagens daquela casa tavam queimadas na parte de trás das minhas pálpebras.

O ponto de ruptura veio numa parada de trânsito. Uma besteira simples. Eu tava de folga, preso no engarrafamento. Um carro deu um tiro – daqueles de escapamento. Na fração de segundo, meu treinamento devia ter identificado o som. Em vez disso, minha mente ferrada gritou TIRO. Eu saquei minha arma. Foi um milagre que eu não atirei. A investigação interna me limpou – o outro motorista tava apavorado, mas ileso. Mas o estrago tava feito. Minha instabilidade agora era oficial. Me botaram na geladeira.

A pressão tava crescendo, um grito preso no crânio. Pra limpar a cabeça, resolvi correr até a casa de um amigo a uns quilômetros dali. Era um caminho por um bairro suburbano quieto, ladeado de carvalhos velhos e casas de dois andares. Coloquei os fones, liguei o som no talo e tentei correr mais rápido que o ruído na minha cabeça.

Mas os sons furaram. Um soluço de mulher, gutural e sofrido, entrelaçado nas notas de uma música de rock. O corte úmido, cirúrgico, de uma lâmina por baixo do baixo. Eu arrancava os fones, o coração martelando no peito, e só achava o canto dos pássaros e o zumbido distante de um cortador de grama.

Foi aí que eu o vi.

Ele tava encostado numa parede de tijolos no meio do quarteirão, uma figura alta e magra num casaco longo e escuro. Era uma noite quente, o casaco tava fora de lugar. Mas era a postura dele – uma imobilidade absoluta, sobrenatural. A maioria das pessoas se mexe, muda o peso, checa o celular. Ele era como uma estátua. Quando passei correndo, senti um ponto frio no ar em volta dele, e uma onda de medo puro, animal, me invadiu. Não era medo de um cara perigoso. Era medo de algo que nem era gente.

Acelerei, a respiração saindo em golfadas irregulares. A sensação de ser observado era um peso físico entre as omoplatas. Olhei por cima do ombro.

Ele tava lá. Atrás de mim. Encostado em outra parede, uns cinquenta metros pra trás. Imóvel. Silencioso. De um jeito impossível, ele tinha se movido sem fazer barulho.

Comecei a correr de verdade, minha corrida virando uma disparada em pânico. Toda vez que eu ousava olhar pra trás, ou pegava um vulto no canto do olho, ele tava lá. Encostado numa árvore. Desabado numa balanço de varanda escura. Sempre na mesma distância, sempre com aquela imobilidade perturbadora.

Aí eu olhei pra frente.

Ele tava no meio da calçada, a vinte pés na minha frente.

Eu parei derrapando. Minha música cortou de repente, os fones emitindo um chiado vazio e morto. O rosto dele tava na sombra, mas eu vi a boca. Ela se esticava num sorriso. Mas tava errado. Tava largo demais, rasgando as bochechas, distorcendo até os ossos da cara. Era um riso de caveira, daqueles que não deviam existir.

O medo virou uma raiva cega, primal. Não sei de onde tirei a coragem – ou a burrice. Não pensei. Só rugi e parti pra cima dele, querendo derrubá-lo no chão.

Meus braços não fecharam em volta de um corpo. Fecharam em volta de uma nuvem densa, vibrante. Teve um zumbido ensurdecedor, e o que eu achava ser um casaco escuro se dissolveu numa massa rodopiante de moscas pretas. Elas explodiram pra fora, o zumbido enchendo a rua silenciosa, rastejando no meu rosto e braços antes de se espalhar no ar crepuscular.

Eu fiquei ali, sozinho, ofegante, os braços abraçando o nada.

Finalmente cheguei na casa do meu amigo. Tropecei pela porta dele, encharcado de suor e fedendo a pânico. Ele perguntou se eu tava bem. Forcei um sorriso, os músculos da cara doendo com o esforço. “Tô ótimo”, eu grasnei. “Só forcei demais na corrida.” Sentei no sofá dele, trocando conversa fiada, fingindo sanidade enquanto minha realidade toda rachava. Não contei pra ele. Como eu poderia?

Pouco depois, uma agência federal com jurisdição sobre meu departamento caiu matando. Declararam eu e minha equipe “incompetentes” e tomaram o caso. Uns meses depois, ouvi pelos corredores que tinha levado um encobrimento total. Fechado. Enterrado.

Mas a coisa que me seguiu pra casa não recebeu o memorando.

A descida final foi quieta, insidiosa. No meio da noite, eu deitava na cama e ouvia o concreto da fundação da casa rangendo, como se algo enorme estivesse mudando de posição do lado de fora da janela. As tábuas do piso vibravam com um zumbido baixo e ressonante. Bem na beira do sono, um grito rasgava o silêncio – um som de agonia pura, sem filtro – e eu acordava sobressaltado, encharcado de suor, o eco morrendo nos meus ouvidos.

Aí vieram as luzes. Não faróis. Eram círculos doentios de verde fosforescente, que flutuavam pelas minhas persianas fechadas e deslizavam pelas paredes. Elas se moviam em padrões lentos e deliberados, traçando os sigilos que eu tinha visto entalhados naquelas testas.

Minha mente quebrou. Caí numa depressão tão funda e escura que não via saída. Terapia, remédios... nada funcionava. O mundo tinha virado uma casca fina, e a verdade horrenda do que espreitava por baixo sangrava pra dentro.

A única coisa que me jogou uma corda, a única coisa que as moscas zumbindo e as luzes rastejantes pareciam evitar, foi Deus. Não sou pregador. Não tô aqui pra converter ninguém. Mas tô te dizendo que, quando comecei a rezar, quando eu realmente, desesperadamente, estiquei a mão pra uma luz maior que aqueles círculos verdes na parede, a pressão na casa diminuiu. Os sons sumiram. Os pesadelos ficaram menos frequentes.

Demorou dois anos. Dois anos de oração, de me forçar a fazer o bem, a ajudar os outros, a encher o buraco que o horror tinha cavado em mim. Agora eu funciono. Voltei pro batente. Sou tão feliz e tranquilo quanto um cara no meu ramo pode ser.

Mas ainda não durmo bem. Porque eu sei o que tá lá fora. Eu sei o que pode ser convidado pro nosso mundo com sangue e crença. E sei que, seja lá o que eles tavam tentando invocar naquela casa, uma parte escapou. E ainda tá procurando um lar.

Meu amigo morreu em uma pegadinha horrível. Eu queria nunca ter descoberto o que deu errado...

As piores mortes, na minha opinião, são as acidentais.

Eu li na semana passada sobre uma mãe que se virou em cima do bebê recém-nascido e o sufocou. Todo ano, crianças pequenas morrem esquecidas em carros quentes. E aí você ouve histórias de moleques brincando, tipo um garoto que se escondeu em um freezer desligado e se asfixiou durante o esconde-esconde.

Dá pra imaginar? Dá pra imaginar ser a pessoa responsável por qualquer uma dessas situações?

Pra mim, isso é muito mais aterrorizante do que qualquer coisa paranormal. Eu prefiro mil vezes ser assombrada por um fantasma do que carregar a culpa de ter machucado alguém sem querer!

Meu marido, Wade, é o oposto total. Ele não liga pra acidentes, mas fica apavorado com filmes de terror sobre demônios ou fantasmas vingativos. Mas, como eu disse pra ele, nada disso é real, então por que ter medo? Ele rebate que acidentes não têm maldade, então não são tão assustadores quanto fantasmas assassinos que talvez sejam reais.

Acho que ele tem razão. Sobre a falta de maldade, não sobre os fantasmas que "talvez" sejam reais — eu sei que não são, porque se fossem, minha melhor amiga com certeza estaria me assombrando.

Acho que, de certa forma, ela está.

É que, toda vez que eu leio sobre uma pegadinha que deu errado... eu paro de respirar por um instante.

A culpa me sufoca. Depois de todos esses anos, eu ainda não sei se foi culpa minha. Nunca me processaram e meus amigos insistem que eu preciso parar de me culpar. Mas como? Como eu sigo em frente, sem saber se foi por causa de mim?

Rosa entrou na mala sozinha. Lakisha e eu ajudamos. A gente tava tudo bêbado, rindo pra caramba. Ela ia surpreender Bolin. Ela tinha uma queda enorme por ele.

Deixa eu voltar um pouco. Deixa eu tentar explicar.

A gente tava numa festa. Nosso grupo de amigos se conhecia há anos, e a gente alugou essa cabana. Eu, meu marido Wade — que na época era só o cara por quem eu babava —, os amigos dele Bolin, Tucker e JB. E as meninas que eram minhas melhores amigas — Lakisha, Rosa e Kay. Teve também uns outros amigos que passaram lá, que a gente conheceu mais cedo no dia enquanto andava de trilha — não lembro mais os nomes deles. O que eu lembro é que todo mundo bebeu pra caralho.

E a Rosa... ela tava na fase de paquera total.

Rosa era minha melhor amiga. Mas ela não era perfeita. Era tipo uma borboleta que pousa em toda flor. Uma verdadeira quebra-corações. Linda e intensa. Eu ficava um pouquinho com inveja da atenção que ela recebia, e ao mesmo tempo admirava pra cacete. Quem quer que estivesse com ela caía de pau, como se ela fosse o amor da vida da pessoa. Mas ela nunca se comprometia de verdade. Tava saindo de vez em quando com o JB, depois seduziu o Wade (o que foi uma sacanagem porque ela sabia que eu gostava dele). Até flertou com bi curiosidade com a Kay.

Agora, os olhos dela tavam no Bolin.

Não lembro de quem foi a ideia dela se esconder na mala — minha ou dela.

Toda a bagagem tava no porão porque era lá que os caras tinham largado quando chegamos na cabana. Lakisha falou algo tipo: "A mala do Bolin é grande o suficiente pra esconder um corpo!" E aí a Rosa — ou eu — teve a brilhante ideia de ela se esconder dentro. E a Rosa resolveu apimentar a pegadinha vestindo lingerie. Quando o Bolin pegasse a mala pro quarto dele e abrisse, ia encontrar uma surpresa sexy.

A gente foi burro, burro, burro. Nenhuma de nós tinha juízo. Ainda mais porque tava todo mundo meio alto.

Assim que a Rosa se espremeu lá dentro, reclamando que o cabelo dela tava preso no zíper, Lakisha e eu fomos encher o saco dos caras pra levarem as malas pros quartos. Lembro que o Bolin entregou a minha — eu tava ficando do lado de fora, numa barraca com a Kay. A cabana não tinha quarto pra todo mundo, e a gente queria dormir debaixo das estrelas. A Kay não fazia ideia da pegadinha e ficou confusa quando eu ficava cutucando o Bolin pra ele entrar e checar a mala dele (piscadela, piscadela). Depois que ele saiu, eu contei pra ela sobre a Rosa. E como a Kay tava sóbria de verdade, ela me disse pra ir dar uma olhada e garantir que a Rosa não tinha ficado presa lá.

Então eu fui checar pra ver se a mala ainda tava no pé da escada.

Pelo menos, acho que fui.

Mas eu tava bêbada.

Enquanto todo mundo tava sentado do lado de fora vendo fogos de artifício mais tarde, eu notei que o Bolin tava sumido e perguntei pro Wade onde ele tinha ido. O Bolin tinha subido pro quarto dele mais cedo. Como ele não voltou, Lakisha e eu achamos que a Rosa tava lá com ele e que a jogada da lingerie tinha colado. Na real, a gente ficou cochichando sobre isso a noite toda (baixinho, pra não deixar os caras com ciúmes).

De manhã, quando o Bolin desceu, Lakisha e eu perguntamos sobre a noite anterior, cheias de sorrisinho maroto. Ele parecia um completo perdido. Aí a Lakisha perguntou onde tava a Rosa e ele continuou perdido. Mas e a mala dele? Ele não tinha aberto? Ele disse que alguém tinha enfiado todas as roupas dele no armário, empilhadas. Ele não sabia por quê, achou que era pegadinha ou algo assim e nem tinha visto a mala.

"Então você nunca abriu?", perguntou a Lakisha.

O pavor brotou na minha barriga. Meu Deus, eu pensei. Meu Deus, meu Deus. A Lakisha tava contando pra ele como a gente tinha tirado as roupas dele e a Rosa tinha se escondido lá dentro pra surpreender ele de lingerie, e o Bolin ficou vermelho e disse que era gay. Gay? Mas a saída dele do armário mal registrou na minha cabeça porque cadê a Rosa? Ninguém sabia. A gente correu pra acordar todo mundo, torcendo pra alguém ter visto ela na noite anterior.

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu chequei. Não chequei? Eu juro que chequei.

Orações passavam pela minha cabeça. Mas eu tava bêbada. Não tinha certeza se tinha checado mesmo. Desci pro porão...

... lá tava a mala, ainda enfiada no pé da escada.

Estava exatamente onde a gente tinha deixado quando fechamos o zíper com a Rosa dentro na noite anterior.

Ninguém queria abrir a mala. Os caras discutiram sobre quem tinha deixado ela lá. O JB disse que tinha levantado, mas notou o quão pesada tava e pediu pra outra pessoa levar. Cada um achava que o outro ia pegar. O Bolin nem pensou em checar porque achou as roupas empilhadas no armário.

Eu me envergonho de dizer, mas eu saí pra fora quando a Lakisha foi puxar o zíper. O Wade veio e se juntou a mim. Ele me disse que corpos mortos, sangue, coisas assim o aterrorizavam. Enquanto os outros checavam o conteúdo da mala, eu e o Wade ficamos sentados lá fora. Quando a gente ouviu os suspiros e os sussurros de "Meu Deus", os dedos dele apertaram os meus com força, e eu enterrei a cabeça nas mãos e chorei.

Ela tinha se asfixiado, claro. Mas demorou um tempão. A polícia ficou se perguntando por que nenhuma de nós ouviu ela ofegando pedindo ajuda, mas a Kay, envergonhada, contou sobre os fogos de artifício.

Uma pegadinha que deu errado, concluíram as autoridades.

Meus amigos disseram na época, e ainda dizem agora, que no fundo a Rosa era a mais responsável pela própria desgraça. Que ela tinha tomado as próprias decisões. Que todos nós tínhamos um pouquinho de culpa, mas ninguém era totalmente responsável por um acidente trágico.

Mas...

... Foi a minha mão que fechou o zíper.

Eu fico deitada na cama, pensando nela ofegando por ar... Por que ela não gritou? Por que a gente não ouviu nenhum grito abafado?

Eu imagino ela, espremida na escuridão enquanto os pedidos de socorro dela ficam sem resposta, e eu não consigo respirar.

Mas o motivo real de eu estar escrevendo isso é porque essa manhã eu vi uma notícia sobre uma mulher de calcinha encontrada estrangulada na praia. Meu marido trocou de canal na reportagem, e quando eu perguntei por quê, ele pareceu surpreso e disse que achou que podia me abalar.

"Por quê?", eu perguntei. Não era uma pegadinha.

"Achei que podia te lembrar da Rosa. Sabe, a lingerie."

Suponho que essa parte era parecida. Pra ser honesta, essa parte da tragédia nunca tinha me marcado tanto. Mas agora... agora, eu fico pensando em como a gente parou de falar dela depois. Como a morte dela foi só uma notinha rápida na notícia. Nenhum detalhe foi divulgado. No nosso grupo de amigos, a morte da Rosa virou um tabu. Quase como se ela nunca tivesse estado com a gente.

A gente tacitamente concordou em esquecer ela.

Mas quanto mais eu penso nessa reportagem, mais eu sinto aquela sensação daquele dia. Aquela sensação de topo da escada. Tipo olhar pra baixo e ver algo que você não quer ver. Aquele sentimento de Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus de pavor iminente.

E eu tô prestes a passar mal.

Porque o Wade namorou ela também. E amou ela. E eu tô cada vez mais certa de que olhei escada abaixo antes dos fogos e não tinha mala lá. E agora eu tô me perguntando... Se o Wade nunca viu o que tinha na mala, nunca pegou ela, abriu ou mexeu nela, como ele sabia que ela tava de lingerie quando morreu?

domingo, 5 de outubro de 2025

O Efeito dos Navios

Cidades gigantescas sobre os mares — é assim que muita gente descreve os navios da nossa época. E eu mal posso culpá-los. São colossos de verdade, que fazem lembrar o próprio Zeus. Mas eles deixam uma marca diferente em cada alma. Alguns mal notam o precioso subir e descer do navio ao ritmo da respiração do oceano. Outros sentem a ameaça à espreita lá embaixo, uma sombra de perigo — até o reflexo no espelho fica inquieto. Mas a história que eu lembro é de outro tipo.

Foi uma viagem pelas profundezas da noite. À primeira vista, nada de especial — uma travessia do Porto de Dover até Calais, na França, voltando de uma viagem escolar pelo sul da Inglaterra. Mas na meia-noite em ponto, algo fora do comum aconteceu. Eu não estava sozinho; conhecia muita gente a bordo — colegas de escola, na maioria. Tinha um deles, o Vladislav, de quem eu vou falar. Um garoto cheio de força, determinação, amizade e esperteza — mas faltava uma coisa crucial: a capacidade de controlar o seu id quando tomava cafeína. E isso, como se viu, virou o pecado fatal dele.

No tic-tac fatídico do relógio, como se a própria Morte tivesse puxado a medula do pescoço dele, ele desabou. Nem devagar, nem rápido — caiu de joelhos, depois de lado, rolando de costas como uma baleia enorme ofegando em água doce. Ficou ali deitado, quase imóvel — mas respirando. Aí veio a risada. Não aquela risadinha suave, que nasce do coração com alegria ou inocência — mas a risada de um demônio, misturada com o choro de anjos. Ele ria e ria, mas não de alma — dava pra ouvir isso clarinho. Talvez viesse das profundezas do abismo aquático, ou dos cantos escuros da mente inquieta dele.

Ele tentou se levantar — de verdade, tentou. Mas por um bom tempo, não conseguiu. Se contorcia de um lado pro outro como uma galinha sem cabeça. Cobria o rosto como um palhaço apavorado, chutava as pernas como uma criança lutando pra chegar à superfície de um mar implacável.

A agonia dele durou uns quinze minutos, talvez mais. Mas, como o tamanho dessa história sugere, o tormento de Belzebu ainda não tinha acabado. Só que o poder dele estava enfraquecendo; o aperto da cafeína começava a soltar.

Vladislav conseguiu ficar de pé — resistiu ao chamado do mar lá embaixo. Mas a mente dele não estava livre. Ele não estava confuso — não como a gente esperaria. Sabia quem era, de onde vinha. Pelo contrário, parecia que algum conhecimento superior tinha se aberto dentro dele — ou, melhor dizendo, uma visão mais alta. Ele via o invisível. Quando olhava pra você, não olhava pra você — mas pra figura parada na sua frente. Que figura? A figura dos mortos — aqueles que os olhos mortais não conseguem enxergar. Alguns chamariam de alucinação. Ele chamava de espírito.

Ele começou a falar — numa língua que não nasce de gargantas mortais. Falava com aquelas figuras espectrais dos não-vivos. De repente, virou, deu dois passos em direção à parede e parou. Estendeu a mão com um suspiro. "Eles têm medo de mim", os lábios dele sussurraram. "Eles fogem."

A gente queria ajudar, mas o assombro e o terror nos congelaram no lugar. Ninguém se mexeu. Ninguém ousou.

Ele começou a balançar. De um lado pro outro. Não ao acaso — no ritmo, com o suave subir e descer do navio. Se movia junto com ele, um com o próprio casco. A gente não o seguiu. Tinha medo do poder dele. Só ficamos olhando, pra não deixar que ele virasse vítima de si mesmo.

Ele deu três voltas pelo convés antes de a gente ser forçado a descer pros decks de baixo, levando o corpo do Vladislav junto. Ele ainda respondia, andava sozinho, nos ouvia — mas não era mais ele. Era como se os pensamentos dele fossem governados por outro.

Apavorados, sentamos nos nossos assentos do ônibus no porão. Os olhos dele piscaram uma vez — e ele apagou. Segundo as palavras dele depois, dormiu a travessia inteira. Não lembrava de nada — como se alguém tivesse apagado a memória dele. Ou talvez alguém tivesse adicionado algo à nossa.

O que fica certo é isso: a mente dele tinha vagado pra algum lugar bem além do resto de nós.

A Verdade Está no Pudim

Dizem que a prova está no pudim; eles nem imaginam o quão certos estão. Faz quase 60 anos desde aquele dia fatídico. Eu era um garoto de 6 anos e ganhei meu primeiro copinho de pudim. Lembro da textura delicada e cremosa, e do sabor rico de chocolate que derretia na minha língua. Acima de tudo, lembro da voz: doce como néctar e macia como seda. Ela me chamou lá do abismo escavado pela minha colherzinha de plástico, tão fundo e escuro, parecendo se estender além do fundo do copo. "Verdade... está... no... pudim". E, naquele instante, aquilo se queimou na minha mente como um propósito. Um que eu conseguia recordar perfeitamente em cada hora acordado de cada dia, mas que eu não podia compartilhar, porque era uma tarefa só minha. A chave da minha salvação.

Nas décadas seguintes, me dediquei ao estudo das artes da confeitaria. Eu sabia que precisava aperfeiçoar minha arte, afiar minhas habilidades até o ponto de poder cumprir minha missão. Sacrifiquei meus laços com o mundo, rejeitei o amor e a companhia da família em nome de perseguir meu objetivo final. Rodei o mundo inteiro, caçando o conhecimento de cada pudim que eu conseguia encontrar; estudei com os Mestres do Pudim, sem nunca deixar ninguém saber das minhas verdadeiras intenções. Depois de uma vida inteira de estudos e buscas, bem quando eu comecei a achar que todo o meu esforço tinha sido em vão, finalmente encontrei: a chave da minha obsessão vitalícia.

Na noite da minha vitória final, eu me sentei diante do meu prêmio. As obras completas de confeitaria de Pudzuzu, o Maior de Todos os Custardmancers, encadernadas e escritas na pele mais fina de pudim, com tinta de fudge escuro como breu. Joguei o livro aberto e virei direto pra página gravada no fundo da minha mente. Ali, no pergaminho de tapioca, estava a receita que eu sabia que ia estar. Um pudim pra rasgar a realidade ao meio e me levar pros Planos Brûlée, onde o Grande Pudzuzu mora. Meu verdadeiro lar na existência.

Com um fervor danado, eu arrolei as mangas da minha túnica e comecei o trabalho. Primeiro, adicionei o leite comum, açúcar, amido de milho e manteiga pra formar a base do Urpudim. Depois, joguei na panela uma porrada de espécimes exóticos que eu cultivei durante anos de viagens. Olhos de Yorkshire, essência diabética, três almas de coco e o coração de um dos Banana-Homens esquivos, pra citar só alguns. Por fim, adicionei a última peça da receita na panela: duas xícaras do meu próprio sangue. "Hmm-hmm... pudim de sangue", eu murmurei pra mim mesmo, transbordando de expectativa enquanto colocava o pudim no fogo. Quando ferveu, joguei a cabeça pra trás e gritei as palavras inscritas no livro de Pudzuzu: "AKVAR GERN PU'DING!" e me atirei de cabeça na panela. Senti meu corpo inteiro afundar no Urpudim sem fundo, e enquanto minha pele queimava no açúcar derretido, a escuridão me levou.

Acordei de costas, nu e coberto de queimaduras, olhando pro céu claro e ocre. Enquanto me endireitava, ouvi o som inconfundível de rachaduras, tipo vidro se partindo. Olhando pra baixo, vi que eu tava sentado numa camada brilhante e marrom-escura de açúcar queimado, pegajosa ao toque. Ela rachou devagar sob meu peso, revelando um creme amarelo-claro logo abaixo da superfície, mas aguentou firme e me deixou pisar com segurança em cima. Olhando em volta, me vi perto da base de um platô de flan enorme, uns 150 metros de altura, com vários outros pontilhando o horizonte distante, silhuetados pelo sol de chocolate se pondo. Um grito de êxtase puro escapou dos meus lábios. Eu tinha conseguido. Finalmente cheguei aos Planos Brûlée, o trabalho da minha vida tinha valido a pena.

Um som de esguicho chamou minha atenção, e eu me virei pro platô de flan atrás de mim. Uma fenda vertical tava se abrindo no lado dele, subindo uns três quartos da altura. Da fenda, uma forma surgiu: grande, lisa e de composição caramelo, com dois longos talos de olhos saindo da frente e um par de tentáculos mais curtos embaixo. Meu fôlego travou na garganta e eu caí de joelhos em reverência, o chão afundando uns centímetros com o impacto repentino. O que eu achava que era um platô na verdade era uma Lesma de Flan, uma das grandes criaturas mencionadas nos textos dos primeiros Custardmancers; achada como mera lenda. Seus talos de olhos me fitaram por o que pareceu eras, até que finalmente abriu a boca. Da abertura yônica, uma língua de fudge derretido escuro desceu na minha direção, parando a poucos centímetros. Devagar, ela ganhou a forma vaga de um tronco de corpo, e eu consegui ver uma rede de veias vermelhas e azuis pulsantes nas dobras que mudavam o tempo todo. Da cabeça, um par de olhos vítreos borbulhou à superfície, junto com um monte de dentes grandes e tortos.

Os olhos da criatura se fixaram em mim, e os dentes começaram a se mexer como se falassem, mas sem som nenhum. Em vez disso, ouvi as palavras ecoando na minha mente. "Eu... sou... Pudzuzu. O Maior... de... Todos", a voz disse, e eu percebi que o sussurro doce não me era estranho. "Grande Pudzuzu", eu falei, com lágrimas de alegria enchendo meus olhos. "Eu ouvi suas instruções, cheguei aqui, até você. Completei minha tarefa." Pudzuzu me olhou por um momento, os olhos sem piscar penetrando na minha alma. "Não", eles disseram, "Ainda... não." Sem mais uma palavra, eles esticaram e me pegaram pelos braços, a carne fudge fluindo por cima da minha e queimando. Devagar, a Lesma de Flan começou a recolher a língua de volta pra boca, e eu fui erguido no ar. Enquanto nos aproximávamos da entrada da bocarra da grande besta, a cabeça de Pudzuzu se esticou e balançou por um instante antes de se grudar nos meus olhos abertos. Eu gritei enquanto a dor me dominava, uma sensação como se meus nervos tivessem pegado fogo; então, toda sensação parou.

Acordei de supetão no chão da minha cozinha, tomado por uma onda de raiva e tristeza. E minha lugar nos Planos Brûlée? E minhas décadas de trabalho? Eu não tinha sacrificado tudo pra completar minha tarefa!? Foi aí que comecei a notar a mudança. Meu corpo tava macio e liso demais pro minha idade. Sentei e olhei pra panela de cozinhar. No reflexo dela, vi a massa gelatinosa de amarelo-claro que eu tinha virado, com um olho solitário protuberante do creme. Veias pulsantes despontavam da superfície que se mexia o tempo todo do meu novo corpo. Eu tinha alcançado minha salvação! Senti o propósito inundar minha mente de novo. Uma nova tarefa. Não, a verdadeira tarefa. Criar um pudim ainda maior. Um pra rivalizar até com o trabalho do Grande Pudzuzu. Me levantei do chão, estendendo minha forma gloriosa nova pra cima. Logo, todos serão salvos. Logo, todo mundo vai saber que a verdade está no pudim.
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