quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A Parada

Era uma cidadezinha chamada Grindsworth.

Grindsworth era considerada uma cidade sortuda pra caralho. Nunca tinha tempo ruim, quase zero crime, terras agrícolas ótimas e a cidade vivia ganhando recursos de presente do prefeito.

Muitas famílias de cidades vizinhas se mudavam pra Grindsworth justamente por causa dessa sorte dela.

Mas a cidade tinha uma regra estranha que todo mundo que morava lá precisava seguir.

Ninguém podia sair de casa na Noite da Parada.

Todo dia 9 de cada mês, durante a noite, uma parada passava pela cidade tocando música até o sol nascer. Ninguém explicava o motivo de não poderem ver a parada, mas mesmo assim todo mundo obedecia a regra.

Eu moro em Grindsworth desde pequeno. Quando eu era criança, meus pais eram perfeitos. Nunca brigavam, nunca me trataram mal. Eram os pais que qualquer um sonharia em ter.

Mas depois que minha mãe morreu, há três anos, meu pai virou alcoólatra. Ele gritava comigo se eu não estivesse em casa antes do pôr do sol. Eu não podia fazer porra nenhuma à noite sem levar bronca. Mesmo assim, às vezes eu saía escondido quando ele apagava cedo.

Uma noite, meus amigos resolveram se encontrar justamente na Noite da Parada. Eu fiquei na dúvida no começo, mas depois de uma briga feia com meu pai, decidi ir junto.

Depois que meu pai desmaiou no sofá da sala, eu saí de fininho pra encontrar a galera.

Mais ou menos duas horas antes do pôr do sol, me encontrei com o Fritz, o Alan e a Hannah. Sou amigo do Fritz e do Alan desde o ensino fundamental. Da Hannah eu não sabia quase nada — só que ela estava namorando o Alan há uns meses.

A gente se reuniu na casa do Alan e começou a jogar Monopoly. A mãe dele estava em viagem de negócios a semana toda, então ele estava cuidando da casa sozinho. Enquanto a gente jogava, as sirenes de tornado da cidade não paravam de tocar, lembrando todo mundo pra ficar dentro de casa na Noite da Parada.

Na hora eu não sabia, mas meus amigos na verdade queriam ver a parada. Eu achava que ia ser só mais um sleepover normal, como sempre.

O Fritz falou que já tinha saído durante a Noite da Parada antes e que era tudo balela, uma farsa.

O Fritz sempre foi aquele cara doido pra caralho, vivia fazendo merda só pra se mostrar. O estranho é que ele quase nunca se machucava de verdade.

A única vez que eu lembro dele se ferrando feio foi quando quebrou o braço tentando escalar o playground da escola ainda no fundamental. Fora isso, quando não estava fazendo besteira, ele era um amigo foda.

O Alan ficou interessado na hora e topou ir junto com o Fritz. Só eu e a Hannah éramos contra. Mas o Alan acabou convencendo a Hannah a entrar na onda também.

Eu não queria ir de jeito nenhum, mas fiquei com medo do que poderia acontecer se eu deixasse eles sozinhos. E se desse merda e eles precisassem de mim?

Acabei concordando. Antes de sair, peguei escondido uma faca da cozinha do Alan e guardei na minha mochila.

Uns 10 minutos antes do pôr do sol, as sirenes de tornado tocaram o último aviso antes da Noite da Parada.

O Fritz nos levou pra um beco perto da praça central. No beco tinha duas lixeiras gigantes. Ele mandou a gente arrastar elas pro fundo do beco pra gente ter onde se esconder durante a parada.

Naquele momento meu coração estava batendo tão forte que parecia que ia explodir. Minhas mãos tremiam pra caralho. A vida inteira me falaram pra nunca olhar a parada… e ali estava eu.

Isso é tão idiota. Porra, por que caralho eu tô fazendo isso?

De repente, a gente ouviu o som de música e passos de marcha vindo de longe…

A gente viu várias pessoas de uniforme vermelho vivo marchando pela rua, todas sincronizadas. A maioria carregava instrumentos e tocava aquela música de banda que ecoava pelas ruas. Alguns faziam truques — malabarismo com pinos, acrobacias, esse tipo de coisa.

E bem no meio do grupo tinha um carro alegórico. Parecia que era pra ser uma ovelha.

Meus amigos estavam boquiabertos, impressionados pra caralho. Mas eu notei uma coisa estranha: todos os integrantes da parada tinham cordas ligando eles ao carro alegórico.

De repente, um berro ensurdecedor saiu de dentro do carro alegórico. A parada parou na hora. Todo mundo ficou congelado.

No canto da minha orelha eu ouvi a Hannah sussurrando: “Que porra foi—”

Olhei pro lado e vi o Fritz em pânico total tapando a boca dela com a mão. Nunca na vida eu vi o Fritz com tanto medo.

Olhei de volta pra parada e… eles estavam olhando direto pra gente.

O Fritz gritou: “CORRE!”

A gente saiu correndo do beco atrás dele. Enquanto corríamos, a música voltou a tocar, só que agora mais rápida, mais agressiva, mais intensa.

Eu ouvia gritos atrás de mim. Na hora eu estava em pânico total e nem percebi que o Alan e a Hannah não estavam mais comigo.

De repente, um dos membros da parada passou o braço no meu pescoço e tapou meus olhos com a outra mão. Eu me debati pra caralho tentando me soltar, mas o filho da puta não largava.

Enquanto ele me arrastava, eu ouvia meus amigos gritando e um rosnado horrível, gutural. Tentei me debater mais ainda e ouvi um barulho nojento de osso esmagando, junto com a Hannah gritando e chorando desesperada. Consegui finalmente tirar a mão dele dos meus olhos e vi o que estava rolando.

Na minha frente tinha uma coisa humanóide grotesca de uns 6 metros de altura. O corpo parecia velho, mas era musculoso e completamente deformado. O rosto era uma aberração: olhos cinza saltados, dentes podres, boca sem lábios nenhum.

A parte de baixo do corpo dela era onde todas aquelas “cordas” se conectavam aos membros da parada. Não eram cordas… eram cordões umbilicais.

Nas mãos dela estava o corpo do Alan, já meio comido. Ao lado da criatura, caído no chão, estava o carro alegórico que ela usava como casca.

Eu me debati pra cacete até conseguir me soltar do membro que me segurava, peguei a faca na mochila e enfiei no peito dele. Ele caiu. Corri até a Hannah e comecei a esfaquear várias vezes o membro que segurava ela, mas a porra não reagia nem um pouco.

Em puro desespero, agarrei o cordão umbilical que conectava o membro e cortei ele no meio. O cara soltou a Hannah na hora, começou a gritar feito um animal e, segundos depois, explodiu em chamas, virando só um corpo carbonizado.

O resto dos membros recuou de nós. A gente aproveitou o momento e correu pra porra toda. Olhei pra trás enquanto corria e vi que eles não estavam mais nos perseguindo.

A criatura rastejou de volta pra baixo do carro alegórico e a parada continuou marchando pela rua. O sol finalmente estava nascendo.

A Hannah acabou ligando pra polícia e contou tudo o que rolou. Ela insistiu pra eu ficar e esperar os policiais, mas eu só queria voltar pra casa.

Cheguei correndo, encontrei meu pai ainda largado no sofá. Tentei acordar ele pra contar o que tinha acontecido.

Ele não acordava. Chequei o pulso… Ele tinha morrido dormindo.

Anos depois, eu moro agora com minha tia e meu tio em outro estado. Ninguém nunca mais soube do Fritz desde aquela noite. Ele simplesmente sumiu.

Tentei falar com a Hannah algumas vezes, mas ela ficou muito deprimida depois daquilo.

Recentemente fiz mais pesquisa sobre a cidade e descobri algumas coisas.

1. Isso já aconteceu várias vezes desde que a cidade foi fundada. Por que ninguém nunca tentou matar aquela coisa?

E 2. Aparentemente, quem vê a parada fica amaldiçoado com azar o resto da vida. Será que eu causei a morte do meu pai só por ter visto aquilo?

Eu perdi tudo naquela noite. Vou descobrir que porra era aquela criatura e, de algum jeito, vou matar ela. Se você souber qualquer coisa sobre a Parada, por favor me avisa.

Minha experiência jogando com o tabuleiro Ouija...

Desde que a gente se conheceu, a gente sempre curtiu pra caralho contar histórias de fantasma. Na real, foi isso que nos uniu de verdade. Quando a gente era criança, ficava acordado até altas horas nas festinhas do pijama trocando histórias assustadoras. Eu poderia ter escrito um livro inteiro com todas as lorotas que eu contava pra ela, pro irmão e pra irmã dela. A satisfação que eu sentia vendo eles grudados em cada palavra minha, com aqueles olhos arregalados de medo...

Conforme a gente foi crescendo, isso virou assistir vídeo no YouTube de atividade paranormal e fenômenos bizarramente inexplicáveis. Depois a gente saía pra fazer nossas próprias caçadas a fantasma. Eu lembro que eles moravam no segundo andar, no apartamento dos fundos de um prédio antigo de dois andares no bairro Back of the Yards, em Chicago. Agora era a vez dela me contar histórias de fantasma. Só que dessa vez as dela eram de verdade.

Elas sempre envolviam o quartinho bem no fundo da casa. Um cômodo pequeno demais pra caber uma cama, então era onde ficava o computador da família. Era ali que a gente passava a maior parte do tempo vasculhando o YouTube atrás dos vídeos mais apavorantes que a gente conseguia achar. Ela vivia falando de como ouvia vozes. Aquele chiado de sussurros bem no ouvido dela quando estava sozinha. Até a mãe dela jurava que já tinha ouvido vozes estranhas saindo do quarto dos fundos.

Então, sempre que eu ia lá pra ficar, as histórias que eles contavam ficavam martelando na minha cabeça, me deixando com o ouvido ligado e olhando por cima do ombro o tempo inteiro.

Na maior parte do tempo eu nunca tinha vivido nada. Mesmo depois de todos aqueles vídeos sinistros que a gente assistia juntos, eu ainda não tinha presenciado porra nenhuma com meus próprios olhos. Isso até uma noite no verão de 2005. Ela me chamou pra ir lá depois da aula. A gente estudava na mesma escola. Normalmente o irmão e a irmã dela estavam por perto pra entrar na brincadeira macabra, mas acho que era sexta-feira, então eles deviam estar saindo com os amigos deles dessa vez.

Éramos só nós dois. Foi aí que minha amiga me mostrou que tinha comprado um tabuleiro Ouija. A gente sempre falava como seria foda pra caralho brincar com um, então ter um de verdade pra testar me deixou animadíssimo. Isso foi antes de todo mundo ter celular no bolso, então nas nossas caçadas a fantasma a gente geralmente filmava com a câmera digital Canon dela ou com o gravador de voz. Nessa noite a gente decidiu ir com o gravador de voz.

Era um dia quente pra porra em Chicago, máximas nos 80s. Quando entramos no quarto, eu lembro que estava abafado e úmido pra caralho, então minha amiga abriu uma fresta na janela pra deixar entrar uma brisa que simplesmente não existia. A gente limpou uma mesinha pequena, montou o tabuleiro e colocou o gravador de voz bem do lado. Os nervos já começaram a subir. A gente tinha passado a tarde toda maratonando nossos vídeos amadores de encontro com fantasma e fenômenos estranhos inexplicáveis, então o clima já estava tenso pra cacete. Ela colocou as mãos no planchette e eu fiz o mesmo. Ela explicou as regras: “A gente traça um oito três vezes e depois faz uma pergunta. Não solta até a gente dizer tchau pro tabuleiro, não importa o que aconteça.”

Minhas mãos já estavam suando frio. A gente fez o oito três vezes como ela mandou e deixou o planchette bem no meio do tabuleiro, com as nossas mãos descansando levemente em cima. “Vai, pergunta alguma coisa.” Ela me olhou com um sorrisinho de canto de boca; dava pra ver que ela também estava nervosa. “Tá bom. Tem alguém aqui nessa sala com a gente?” O silêncio era ensurdecedor. Eu lembro de conseguir ouvir meu coração batendo forte pra caralho no peito. Nada. “Tem alguém aqui? Fala com a gente.” A gente ficou sentado ali por um minuto inteiro, mas nada rolou. Minhas mãos estavam encharcadas de suor, segurando aquele planchette de plástico que brilhava fraquinho na luz baixa do quarto. Foi aí que eu tirei as mãos pra enxugar na calça... e aconteceu. Eu nunca vou esquecer essa merda.

Minha amiga ficou sentada ali, imóvel que nem estátua, mãos nunca saindo do planchette triangular. O cabelo dela caía na cara, fazendo sombra, mal dava pra ver o rosto dela. Ela falou. Mesmo estando bem na minha frente, eu não consegui entender porra nenhuma do que ela disse. “Quê?”, eu perguntei. Ela falou de novo, mas agora dava pra distinguir só um monte de besteira nessa voz rouca, gorgolejante, gutural pra caralho. Eu comecei a ficar apavorado de verdade. Chamei o nome dela: “Eu não tô entendendo nada do que você tá falando, para de brincar.” De repente eu senti a brisa mais gelada do mundo, tipo gelo puro, invadindo o quarto inteiro. Depois vieram aqueles estalos altos pra cacete de todos os cantos do quarto, igual quando a casa range de noite, só que nunca tinha sido tão alto e vindo de todo lado ao mesmo tempo.

Eu pirei completamente e pulei da cadeira. “Que porra tá acontecendo?!” Chamei o nome dela de novo. “Para de porra de brincar, eu tô com medo pra caralho!” Ela finalmente voltou a si. “Diz tchau. Você tem que dizer tchau”, ela me falou. Eu agarrei o planchette e a gente puxou ele pra baixo, até onde estava escrito “Goodbye” no pé do tabuleiro. Eu lembro de estar em pânico total, olhos enchendo de lágrima. “Tô fora, cara, eu não vou mexer com essa merda nunca mais”, eu falei. “Que porra aconteceu?! Você tá bem?” Eu nem conseguia firmar as mãos, tremendo pra caralho. “O que você tava falando? Você soava super estranha e eu não entendia nada do que você dizia.” Ela só me olhou, confusa. “Eu só tava fazendo a pergunta, tem alguém aqui com a gente.”

A gente ficou conversando sobre o que tinha rolado. Ela confirmou tudo que eu senti: o quarto ficou gelado do nada e ela também ouviu as paredes estalando e rangendo. Sobre ela ter começado a falar em línguas de repente, ela não tinha muita explicação. Tudo que eu sei é que ela estava falando sério pra caralho quando disse que não estava brincando. A única coisa que ela tinha perguntado foi exatamente aquela pergunta. Eu já tinha tido o suficiente. Estava tarde. Eu fui embora pra casa. Foi a caminhada de volta mais apavorante que eu já fiz na vida inteira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Os Insetos Estão Ficando Maiores

"Você percebeu que os insetos estão ficando maiores, ou sou só eu?"

Não lembro quem disse isso no trabalho, mas a frase ficou martelando na minha cabeça enquanto eu terminava minhas tarefas. Foi uma frase tão casual, tipo um pensamento bobo de última hora. Eu já odiava insetos do jeito que eles são agora, exceto talvez as joaninhas, que até são legais. Só de pensar na frase eu já tremi e segui com meu dia. Empurrei aquilo pra fora da mente e pensei em outras coisas. O que eu ia fazer pro jantar, o que eu deveria escrever no meu diário, coisas desse tipo. Qualquer coisa pra manter minha cabeça longe de insetos gigantes.

Não posso dizer que sou a pessoa mais observadora do mundo, mas algumas semanas atrás eu vi uma aranha-saltadora na minha entrada de carro do tamanho de uma moeda de um dólar. Olha, onde eu moro elas normalmente são só do tamanho de centavos. Ver uma daquele tamanho me assustou pra caralho. Mantive distância, mas a última coisa que eu queria era aquele filho da puta peludo pulando na minha perna e me fazendo gritar tão alto que acordasse os vizinhos. Era grande, sim, mas não era nada fora do comum pra mim. Na minha opinião, todas as aranhas parecem ‘grandes demais’.

No dia seguinte, meu vizinho George bateu na minha porta e falou:

"Você não vai acreditar nisso."

"O que foi?", eu perguntei.

Ele estava com um sorriso enorme no rosto, quase eufórico. Tipo criança que acabou de encontrar algo que não devia. Ele acenou pra eu ir junto:

"Vem cá, me segue. Cara, espero que ele ainda não tenha voado!"

Calcei minhas chinelas e fui atrás dele pro quintal da casa dele. Assim que ele abriu o portão e apontou, meu queixo caiu ao ver um grilo do tamanho de um filhote de cachorro. O inseto gigante estava devorando o pé de tomate dele. As pernas traseiras esfregavam uma na outra fazendo um som de chirp surpreendentemente metálico e alto.

"Legal, né?"

"Legal se você acha que insetos nojentos são legais."

"Você acha que se eu começar a dar comida pra ele, ele fica por aqui, tipo um bicho de estimação?"

"Faça o que quiser, cara."

Naquela noite, os sons suaves normais dos grilos foram substituídos por um monte de chirps altíssimos, tão descarados quanto o grasnar de patos ou gansos. Enfiei tampões de ouvido e coloquei a música ambiente no volume máximo.

Acordei com um cachorro gritando, um som que gelava o sangue de qualquer um. Era um latido agudo, cheio de medo. Saí da cama e olhei pela janela do quarto pra ver o cachorro da outra vizinha, a Clara — um buldogue — se contorcendo na grama. Alguma coisa brilhante e preta estava enrolada nele, com pinças gigantes cortando a nuca dele.

Era a porra de uma centopeia.

Corri da cama, calcei os sapatos e saí correndo pra fora. Aquele cachorro podia até me acordar no meio da noite às vezes, mas nenhum animal de estimação merece aquela merda. Pulei a cerca e corri até o cachorro. A centopeia estava cravando as pinças no pelo, as centenas de pernas finas como lápis acariciando o corpo dele freneticamente. Quando eu agarrei ela, a sensação foi muito errada.

Quando você pega um inseto normal, ele parece estranho porque os animais geralmente são peludos ou têm textura dura. Insetos são diferentes: duros como pedra mas leves como uma pena. Quando peguei a centopeia, ela tinha peso, parecia que eu estava levantando uma cobra.

Ouvi uma voz:

"Que porra é essa?!"

Era a Clara, olhando em pavor pra mim enquanto eu arrancava aquele inseto do cachorro dela. Juro que, enquanto eu puxava, as pinças afundavam ainda mais no pelo. O sangue tingia o pelo branco do cachorro. Com um último puxão forte, arranquei ela do cachorro e as pinças levaram junto um pedaço de carne. Enquanto eu segurava aquilo nas mãos, ela se contorcia loucamente, as pernas se mexendo pra cima e pra baixo. Levantei ela acima da cabeça e joguei por cima da cerca na direção da rua, torcendo pra algum coitado passar por cima e ter que limpar as rodas.

Clara correu pro lado do cachorro e olhou os ferimentos.

"Que porra foi aquela?", ela gritou, "Pelo amor de Deus, o que era aquilo?"

"Eu não sei!", respondi, "Deve ter sido algum tipo de centopeia mutante ou sei lá o caralho!"

"Escuta… Obrigada, Burt!"

"Tranquilo, só leva ele pro veterinário agora mesmo!"

Ela assentiu e saiu correndo pro carro, deixando um rastro de sangue de cachorro pra trás.

No dia seguinte, antes de ir pro trabalho, eu estava cuidando do meu jardim e, embaixo da terra, alguma coisa enorme se mexeu. A pele rompeu a superfície da terra solta e eu vi um corpo grande, viscoso e cheio de anéis. Era claramente uma minhoca, mas também era algo gigantesco. Pensei em tocar nela, mas aí ela afundou de volta na terra.

Quando voltei pro trabalho, todo mundo estava reunido numa reunião discutindo como marketear um novo desodorante com cheiro de árvore Bradford Pear. Perguntei se alguém já tinha sentido o cheiro de uma árvore Bradford Pear e eles disseram que não. Quando eu contei como era o cheiro, eles piraram pensando em como vender aquilo. Fizemos um breve intervalo e, enquanto eu estava sentado perto de uma janela checando e-mails, ouvi um helicóptero passando. Só quando olhei pra fora que não vi helicóptero nenhum, mas ouvi o barulho pesado das hélices.

Aí eu vi o besouro-de-junho, com a casca verde-azulada brilhando sob o sol quente. A princípio parecia de tamanho normal, até eu perceber que ele estava bem longe. As asas batiam tão alto que pareciam um helicóptero. Levantei o celular pra tirar uma foto e foi aí que ele voou na minha direção. Não era pra me atacar, por assim dizer, ele só estava voando sem rumo. Quando passou perto da janela, o tamanho real ficou óbvio. Ele pairou do meu lado; as asas subiam e desciam rápido e barulhentas, fazendo as janelas tremerem. O besouro-de-junho era mais ou menos do tamanho de um urubu, a envergadura era absurdamente grande, e de perto dava pra ver aquelas pernas gigantes penduradas como pêndulos. Ele olhou pro reflexo dele por um segundo e depois zumbiu embora.

Quando eu estava dirigindo de volta pra casa, vi luzes piscando em volta de um acidente de carro. Na pista, tinha um carro virado e, do lado, um besouro-rinoceronte do tamanho de um cavalo, cheio de buracos de bala. Pus esverdeado escorria dos furos e pingava no asfalto. Baixei o vidro e perguntei pra um policial:

"Ei, que porra aconteceu aqui?"

O policial olhou pra trás pro cenário e voltou os olhos cansados pra mim:

"Estamos recebendo chamados assim a semana toda, mas os caras da delegacia achavam que era algum tipo de pegadinha elaborada. Aí recebemos uma ligação sobre um besouro virando um carro. Quando chegamos, não esperávamos ver aquela coisa correndo por aí. Ele partiu pra cima da gente e nós só abrimos fogo."

"Tem outros… desse tipo?"

"Insetos grandes? Não sei… talvez."

Ele fez sinal pra eu seguir e eu fui pra casa.

Tive muita dificuldade pra dormir, por razões óbvias. Eu não fazia ideia do que caralhos estava acontecendo com o mundo ao meu redor. Aqueles insetinhos insignificantes que se arrastavam debaixo dos nossos pés estavam simplesmente ficando maiores e maiores a cada dia. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi alguma coisa empurrando e abrindo minha porta. Olhei por cima dos lençóis e vi algo me encarando da porta. Aquilo preenchia todo o batente, o corpo era imenso, e no escuro eu não conseguia identificar o que era. Coloquei meus óculos e peguei o celular. Acendi a lanterna e iluminei aquela forma escura gigantesca na minha frente… e queria não ter feito isso.

A aranha-saltadora tinha voltado.

Tudo por algumas garrafas de vinho

Caramba, isso não era nem um pouco o que eu esperava. Quando ouvi o Sam falando sobre um velho dirigível na floresta, achei que ele estava zoando. Só o tamanho da coisa já era de tirar o fôlego. Mesmo de longe não parecia real. Parecia algo que alguém tinha editado na paisagem por engano.

Era fim de tarde quando chegamos lá. A floresta estava presa naquele estranho lusco-fusco dourado, onde tudo fica laranja e silencioso. As árvores eram altas e finas, e a luz passava por entre elas em longos feixes. Poeira e pólen flutuavam no ar, brilhando levemente. O lugar todo parecia mais lento, como se estivesse prendendo a respiração.

No começo, eu estava bem cético sobre ir com o Sam. Ele tinha falado que era uma caminhada de 5 quilômetros mata adentro, e eu não sou muito fã de trilha. Quando chegamos perto, minhas pernas estavam doendo e a camisa grudada nas costas de suor. Mas no segundo em que vi o dirigível entre as árvores, esqueci tudo isso.

Era enorme. A carcaça de metal estava rasgada de um lado, como se algo tivesse cravado as garras nela. O tecido que um dia cobria a estrutura pendia em tiras do esqueleto, desbotado e quebradiço. Partes da carenagem externa tinham desabado para dentro, e cipós já começavam a subir pelas costelas quebradas da estrutura. Musgo se espalhava pela superfície em grandes placas, verde vibrante contrastando com o cinza opaco do metal.

Pelo que parecia, ele tinha caído direto na floresta. Várias árvores ao redor estavam partidas ao meio. Outras inclinavam em ângulos estranhos, como se tivessem tentado sair do caminho tarde demais. O chão estava irregular, coberto de galhos e pedaços de metal meio enterrados na terra. O estranho era que, embora o local do acidente estivesse selvagem e bagunçado, o interior parecia quase… arrumado com cuidado.

A gente passou por um rasgo grande no casco. O ar lá dentro estava mais fresco. Cheirava a ferrugem, madeira úmida e algo levemente doce, talvez tecido velho. A maior parte da estrutura agora parecia oca. As paredes curvavam sobre nossas cabeças, com costelas de metal arqueando como o interior de um esqueleto gigante. A luz entrava por fendas e buracos, formando formas pálidas no chão.

Havia destroços por todo lado, mas não parecia caótico. Os bancos estavam soltos, mas não destruídos completamente. Caixotes tinham rachado, mas o conteúdo ainda estava agrupado por perto. Papéis, agora amarelos e frágeis, formavam pequenas pilhas em vez de estarem espalhados para todo lado. Quase parecia intencional. Como se alguém tivesse arrumado tudo depois do acidente e depois simplesmente ido embora.

O metal estava enferrujando feio. Quando toquei de leve numa superfície, flocos saíram e grudaram nos meus dedos. Alguns painéis estavam amassados para dentro, outros retorcidos. Fios pendiam soltos do teto. Em alguns pontos o chão cedia um pouco sob nosso peso, fazendo um som oco e abafado.

Considerando o tempo que aquilo devia estar ali, não seria surpresa se tivesse virado casa de todo tipo de bicho. E tinha mesmo. Insetos andavam pelas vigas. Roedores disparavam entre as sombras. Eu até vi sapos descansando em pequenas poças formadas nas depressões rasas do chão. Por fora estava coberto de musgo, mas por dentro estava mais limpo do que eu imaginava. Empoeirado, sim. Velho, com certeza. Mas não completamente dominado pela natureza.

O Sam e eu tínhamos nossas lanternas e uma mochila pequena com suprimentos. Éramos imprudentes, mas não completamente idiotas. Os feixes de luz cortavam o interior escuro, iluminando a poeira que flutuava. Todo som que fazíamos parecia mais alto do que deveria. Nossos passos. Nossa respiração. Até o leve arrastar dos nossos sapatos no metal.

Foi aí que eu encontrei o caixote.

Ele estava guardado perto do que parecia ser uma área de armazenamento. A madeira tinha apodrecido e rachado, mas dentro havia várias garrafas cheias de líquido vermelho. Algumas tinham quebrado, e o conteúdo secou há muito tempo, manchando o chão. Outras estavam intactas e perfeitamente lacradas, cobertas por uma fina camada de sujeira.

Limpei uma com a manga da camisa e li o rótulo. Vinho tinto. Zinfandel. Chamei o Sam. Ele deu um assobio baixo.

Como dizem que vinho fica melhor envelhecido, achamos que podíamos levar algumas das garrafas intactas. Parecia que tínhamos achado um tesouro. Algo normal e valioso no meio de toda aquela estranheza.

Depois que guardamos algumas garrafas na mochila, decidimos que era hora de cair fora. A floresta lá fora estava ficando mais escura. A luz laranja tinha dado lugar a algo mais cinzento e fraco. As sombras dentro do dirigível se alongavam, preenchendo as paredes curvas.

Voltamos com cuidado por entre os destroços. O interior parecia mais silencioso do que antes. Até os insetos estavam menos ativos. Ou talvez a gente só estivesse prestando mais atenção.

Foi nesse momento que o Sam parou.

— Ei, Arch — disse ele, sem se virar. — Este zepelim voava com a ajuda de um piloto, né?

— É — respondi. — Provavelmente precisava até de uma equipe de pilotos.

— E devia ter passageiros também.

— É, provavelmente alguns.

De repente, uma barata voou direto na minha cara. Pulei para trás, me contorcendo de nojo. Minha lanterna piscou na minha mão, a luz enfraquecendo e fortalecendo de forma irregular. O interior ao nosso redor pareceu ficar mais escuro por um segundo.

Enquanto eu tentava consertar a lanterna, o Sam falou de novo, a voz mais baixa agora:

— Se tinha gente neste dirigível… por que não tem nenhum corpo ou esqueleto por aqui?
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