sábado, 3 de janeiro de 2026

Ninguém se lembra do meu vizinho, mas eu o vi há apenas uma semana

Não sei com quem mais falar sobre isso. Acho que só preciso falar com alguém que… não more aqui.

Tudo isso começou algumas semanas atrás. A Vigilância do Bairro da minha região sempre foi mais uma piada do que qualquer outra coisa. É um subúrbio tranquilo, então, tirando o avistamento ocasional de um coiote, não costuma haver muito motivo para alarme. Mesmo assim, isso faz os moradores mais velhos se sentirem mais seguros e dá aos caras da vigilância uma sensação de propósito.

Sempre que vemos o pessoal da Vigilância por aí, oferecemos uma bebida gelada ou talvez um lanche, conversamos sobre a vida; é um bairro bem unido, então tentamos cuidar uns dos outros. Eles são, em sua maioria, aposentados; um deles já fez parte da polícia aqui da cidade, e isso o conforta, faz com que ele sinta que ainda está cumprindo seu papel de manter o bairro seguro. O nome dele é Jim. Os outros são Donny, Carl e Deon. Donny monta aviões em miniatura no tempo livre, Deon tem cinco netos e trabalhava nos correios, e Carl é um teórico da conspiração. Você acaba sabendo dessas coisas quando vive numa comunidade tão próxima assim. Todo mundo aqui se conhece. É isso que torna tudo isso tão estranho.

Cerca de três semanas atrás, a Vigilância do Bairro recebeu uma chamada de uma família quieta que morava uma ou duas ruas depois da minha, reclamando de barulhos estranhos vindos de fora da casa deles. Eu estava do lado de fora fumando um cigarro quando vi Donny passando apressado no carrinho de golfe dele, com um senso de urgência que eu raramente vejo por aqui. Perguntei qual era o problema, e ele me disse que os Millers tinham ligado, parecendo um pouco em pânico. Os Millers quase sempre ficavam na deles, então me surpreendeu saber que tinham recorrido à vigilância do bairro por causa disso. Ele seguiu com o trabalho dele, e eu apaguei o cigarro e fui dormir.

No dia seguinte, vi Donny fazendo a ronda perto do pequeno parque do bairro enquanto eu voltava das compras do mercado. A curiosidade falou mais alto, então encostei o carro para perguntar sobre o que tinha acontecido.

— Ei, Donny! — acenei pela janela, e ele acenou de volta, todo animado. — Vocês encontraram alguma coisa na casa dos Millers ontem à noite?

O sorriso de Donny desapareceu, dando lugar a um olhar vazio, com as sobrancelhas franzidas de confusão.

— Como é que é, Adam?

— Você estava investigando uma reclamação de barulho na casa dos Millers ontem à noite, lembra? — eu ri meio sem jeito, sem esperar aquela reação.

— Quem diabos são os Millers? — ele riu também, como se estivesse de fora de alguma piada.

Eu pausei, me perguntando se as faculdades mentais de Donny não estariam começando a se deteriorar com a idade. Aquilo seria devastador.

— Os Millers. Você sabe, a família da casa de esquina na Carmen Ave?

Ele me encarou por um longo momento, com uma expressão que dava a entender que ele achava que era eu quem estava perdendo a cabeça.

— Adam, aquela casa está vazia. Ninguém mora lá.

Abri a boca e depois fechei. Eu não sabia bem como interpretar o que estava acontecendo naquela conversa, mas não parecia que ela ia chegar a algum lugar produtivo.

— Ok, Donny, talvez eu tenha me confundido. Obrigado por cuidar do bairro!

Subi o vidro e comecei a dirigir para casa, mas havia um peso no meu estômago que não estava ali antes. Eu não conseguia identificar exatamente o porquê, mas algo na certeza dele parecia errado. Desconfortável. Passei direto pela minha garagem e fui direto até a casa de esquina na Carmen Ave. Não havia nenhum carro estacionado do lado de fora, como geralmente havia. Caminhei até a porta e toquei a campainha, ensaiando desculpas inventadas na minha cabeça para justificar estar ali.

Ninguém atendeu. Esperei um pouco e toquei de novo. Talvez eles só não estivessem em casa, isso explicaria a ausência do carro. Suspirei, balancei a cabeça diante da minha própria paranoia e voltei para casa.

Quando minha namorada chegou do trabalho, decidi falar com ela sobre isso.

— Laura, a coisa mais estranha acabou de acontecer. Lembra que eu te contei que o Donny ia dar uma olhada na casa dos Millers ontem à noite?

Ela me olhou como se eu tivesse acabado de acusá-la de adultério.

— Quem são os Millers?

Pisquiei.

— Os Millers, Laura, com os três filhos pequenos. Eles moram no terreno de esquina, uma rua depois da nossa. Eles trouxeram pão de banana pra gente no Natal uma vez.

Ela me encarava horrorizada.

— Do que você está falando? Isso é alguma piada com pegadinha? Ninguém nunca trouxe pão de banana pra gente no Natal e ninguém mora naquela casa.

Eu murchei um pouco. Ela começou a guardar as coisas, mas com uma expressão de quem estava tão confusa quanto eu.

Ao longo da semana seguinte, perguntei a mais algumas pessoas sobre isso, mas todas concordaram que nunca existiu uma família chamada Miller morando naquela casa. Na verdade, elas nem conseguiam se lembrar da última vez que aquela casa tinha sido ocupada. Comecei a me perguntar se eu tinha imaginado tudo, se tinha imaginado Donny falando sobre ir lá naquela noite. Caí num buraco de pesquisa na internet sobre o Efeito Mandela. Dormi muito mal por alguns dias, mas acabei jogando tudo na conta de “só uma dessas coisas estranhas” pela minha própria sanidade e tentei seguir em frente.

Consegui me sustentar nessa explicação por cerca de uma semana. Uma noite, minha namorada chegou tarde do trabalho com uma expressão claramente preocupada. Perguntei o que tinha acontecido, e ela comentou que tinha encontrado Deon no caminho para casa; ele estava indo às pressas para a casa do Alex e da Tanya, depois que eles relataram barulhos estranhos do lado de fora da casa deles. Eu percebi que ela estava perturbada.

— Adam, você não disse que o Donny te contou a mesma coisa sobre alguma outra família na semana passada? Os Miltons ou algo assim? — ela perguntou, incrédula, mas desconfortável com a familiaridade da situação.

— Os Millers — suspirei. — Só que ele não se lembra de isso ter acontecido, e todo mundo está me dizendo que os Millers não existem.

Os lábios dela se apertaram.

— Eu nunca vi uma família naquela casa e não conheço ninguém chamado Miller, mas é estranho… é estranho que eu tenha acabado de ter praticamente a mesma conversa com o Deon. — Ela engoliu em seco. — Você acha que talvez tenha sonhado com isso? Talvez tenha sido uma… uma, sei lá… premonição?

— Eu estava completamente acordado, Laura — minha voz quase falhou, derrotada por ela ainda questionar o que eu vivi naquela noite. — Não foi um sonho, mas eu… eu não sei o que foi. Eu sou a única pessoa que acha que isso aconteceu.

Minha mente começou a correr. Alex era um grande amigo meu. A gente fazia trilhas juntos e sempre ia ao bar assistir futebol durante os playoffs. Laura adorava a Tanya; elas trocavam receitas e serviam de cobaias uma para a outra quando testavam algo novo. Também trocavam recomendações de livros; Laura estava lendo, naquele momento, um livro que a Tanya tinha emprestado a ela alguns dias antes, quando nos convidaram para jantar. Eu não conseguia afastar essa paranoia crescente de que algo ruim ia acontecer com eles.

— Será que a gente não devia ir lá ver se está tudo bem? Só por garantia? — perguntei, sabendo como aquilo soava.

— Tenho certeza de que o Deon dá conta; ele é durão pra caralho — ela respondeu, mas com uma preocupação distante na voz. — Vamos ligar pra eles amanhã, só pra ter certeza de que está tudo bem.

Ela me deu um beijo no rosto e começou a se arrumar para dormir. Eu fiquei um tempo sentado na cozinha, digerindo tudo o que estava passando pela minha cabeça. Quando subi, ela tinha adormecido lendo o livro que pegou emprestado da Tanya. Coloquei-o com cuidado na mesa de cabeceira e me enfiei na cama. Foi mais uma noite inquieta.

No dia seguinte, tudo parecia normal. Nós dois estávamos de folga, então fiz um café da manhã tardio e cantei músicas idiotas, inventadas na hora, para o nosso gato enquanto cozinhava. Laura me aguenta bem demais. Depois de panquecas meio queimadas e ovos com a gema mole, fiz a pergunta sem pensar muito.

— Vou ligar pro Alex. Você quer ligar pra Tanya também, só pra garantir?

Ela me lançou aquele olhar de novo, como se eu tivesse crescido três cabeças a mais.

— Quem é a Tanya?

Eu fiquei realmente puto, mas tentei me controlar.

— Não fode comigo assim, Laura, isso não tem graça.

Ela ficou visivelmente abalada. Estava chocada com a minha linguagem, mas ao mesmo tempo parecia tentar resolver uma equação invisível na cabeça.

— Desculpa, o quê? — ela quase engasgou. O rosto dela estava sério. Laura sempre teve uma péssima cara de pôquer, e eu comecei a me preocupar que ela não estivesse brincando comigo. De algum jeito, isso era ainda pior.

— A gente viu eles dois dias atrás — eu gaguejei, incrédulo.

— Adam, isso não é engraçado — ela respondeu, aflita. As posições tinham se invertido. Agora nós dois estávamos igualmente descrentes um do outro.

Olhei para o livro que ela tinha trazido do quarto para ler enquanto eu cozinhava.

— Se você não conhece a Tanya, então de onde veio esse livro? — perguntei, apontando para ele de um jeito agressivo demais.

Os olhos dela percorreram a capa, e a boca ficou levemente aberta. Ela estreitou os olhos. Inclinou a cabeça.

— Eu não lembro — murmurou, claramente perturbada. — Talvez eu sempre tenha tido esse livro.

Dava pra ver que ela mesma não acreditava muito nisso e que também estava questionando a realidade naquele momento. Decidi deixar pra lá por enquanto e testar o resto do bairro. Uma vez podia ser “só uma dessas coisas estranhas”, mas duas vezes em poucas semanas era algo que eu não conseguia engolir.

Vesti o casaco e saí de casa, parando cada pessoa que via na rua para perguntar sobre Alex e Tanya. Todas diziam a mesma coisa. Não sabiam quem eram e ninguém morava naquela casa. Aquilo estava me enlouquecendo. Eu me sentia completamente fora de mim.

Fui até a casa do Alex e da Tanya, e o carro deles não estava lá. Bati na porta. Ninguém atendeu. Fiquei batendo de tempos em tempos por uns 20 minutos, como se eles fossem aparecer magicamente e abrir a porta. Não apareceram.

Pulei a cerca e entrei no quintal dos fundos. O triciclo do filho deles ainda estava estacionado perto da porta de trás. Aquilo me deixou, ao mesmo tempo, aliviado e horrorizado. Olhei pelas janelas e, tirando isso, a casa parecia abandonada. Passei cerca de uma hora andando pela propriedade, procurando qualquer prova de que eles tinham existido, mas tudo o que encontrei foi o triciclo. Invadir o quintal já tinha sido demais. Esse bairro fala. Eu nunca mais ouviria o fim disso se arrombasse a casa. Eu ainda não tinha certeza absoluta de que aquilo não estava só na minha cabeça, então fui embora e comecei a bater de porta em porta, perguntando às pessoas. Todo mundo me olhava como se eu fosse louco. Fiquei nisso por várias horas.

No começo, eu estava desnorteado. Isso é pouco. Eu estava furioso. Ficava repetindo para todos que tinha visto Alex dois dias antes, e eles só me encaravam com aquele olhar de quem acha que você perdeu completamente a sanidade. Aos poucos, comecei a me desgastar. Parei de tentar convencer as pessoas. Apenas agradecia pelo tempo delas e seguia em frente. A fúria foi lentamente dando lugar a uma tristeza e um luto esmagadores. Eu amava o Alex, e o mundo parecia simplesmente tê-lo apagado da existência, como se fosse um erro de digitação. Talvez eu nunca mais o visse. Como eu poderia entrar naquele bar durante os playoffs num mundo que nem se lembra de que ele existiu?

Quando o sol começou a se pôr, passei pelo pequeno escritório onde a Vigilância do Bairro se reúne todas as noites entre as rondas. Perguntei se eles tinham algum registro de eventos do bairro e fiquei desanimado ao descobrir que não mantinham nenhum, já que quase nunca acontecia nada. Perguntei sobre Alex e Tanya por hábito, mas já não fiquei surpreso quando disseram que não sabiam quem eram e que ninguém morava naquela casa.

Insisti em entrar para a Vigilância do Bairro. E se isso acontecesse de novo? Eu precisava saber o que estava acontecendo. Alguém que soubesse que isso estava acontecendo tinha que estar disponível para investigar, e parecia que eu era a única pessoa. Eles ficaram surpresos, mas dava pra ver que aquilo significava muito pra mim, e eles são caras legais, então me deram um colete e não questionaram demais.

Estou nisso há cerca de uma semana, e nada de mais aconteceu até literalmente agora há pouco. Recebemos uma ligação da Laura dizendo que há barulhos estranhos vindo do lado de fora da casa. Estou a caminho agora mesmo, apavorado com o que posso encontrar, mas ainda mais apavorado com a possibilidade de amanhã eu ter que continuar vivendo em um mundo que não acredita que Laura jamais existiu. Eu não sei se é preciso estar em casa para ser afetado por isso. Talvez eu nem esteja aqui amanhã. Isso talvez fosse até melhor. Se eu tiver sorte, talvez consiga descobrir o que está causando isso e acabar com tudo. Desejem-me sorte. Espero que todos vocês se lembrem disso amanhã.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Meu Melhor Amigo Está Morto

Eu venho lutando com isso há um tempo. Tenho certeza de que ninguém mais pode fazer nada para me ajudar, pelo menos não até eu estar pronto para me ajudar sozinho, mas eu precisava tirar tudo isso do peito. E agora eu não tenho mais ninguém com quem conversar. Só o meu computador.

Nunca fui uma pessoa sociável, nem mesmo quando era bem novo, mas finalmente consegui fazer um amigo. As coisas foram boas por um tempo. Ele era alegre e gentil; uma presença incansavelmente otimista que rompia o zumbido aparentemente infinito de melancolia que eu aprendi a conhecer. Nunca tinha convidado outra pessoa para entrar na minha casa antes, mas ele vinha me visitar com frequência, especialmente quando eu passava por crises de desespero que me mantinham trancado em casa por dias seguidos.

Não sei direito como ele morreu. Nem lembro quem me contou, mas ele se foi. Mesmo se ninguém tivesse me avisado, eu teria percebido. Minha campainha não toca há semanas. Os óculos dele ainda estão no parapeito da janela da última vez que ele veio aqui. Ele sempre foi tão distraído, e eu vivia reclamando disso. Agora, eu queria que ele tivesse esquecido mais coisas aqui.

Não saí de casa desde que soube. A porta da frente simplesmente parece intimidante demais pra mim. Talvez porque eu fique esperando que ele apareça na varanda e diga que foi tudo um engano. Ainda estou esperando que ele venha me tirar dessa tristeza, mesmo sabendo que não vai. Pelo menos, não do jeito que eu queria.

Eu tentei de verdade lembrar de tudo que ele me dizia. Mesmo nunca tendo visto nenhuma prova de vida após a morte ou de mortos interagindo com os vivos, eu ficava procurando pequenos sinais; tipo quando acordei com a luz do sol batendo na janela de um jeito perfeito que jogou um arco-íris pequeno no meu rosto.

Mas não parou nos detalhes pequenos assim. E nem todos são tão doces ou reconfortantes. Toda vez que ele vinha aqui, eu servia o mesmo chá na mesma caneca pra ele. Um dia eu fiz aquele chá, mesmo nunca tendo gostado dele. Não consegui mexer na caneca dele. Mas enquanto eu estava de costas pro armário, que eu tinha certeza de que tinha fechado, a caneca se jogou sozinha da prateleira e se espatifou no chão.

Fiquei horas parado ali olhando praquilo, como se meu coração tivesse se espalhado pelo azulejo no lugar do cerâmico desbotado com arco-íris. Pedi uma nova pela internet. Eu precisava substituir ou seria o mesmo que admitir que ele não ia voltar. Essa também caiu do armário, e a terceira também. Desmontei o armário inteiro tentando descobrir por que elas escorregavam, mas nunca entendi. Nenhum outro prato meu quebrou.

Eu tinha pegado no sono no chaise longue da sala de visitas menor e acordei com a televisão ligando de repente no volume máximo, tocando a música tema do desenho favorito dele. Mas enquanto eu ficava ali sentado, respirando em golfadas curtas e rápidas, algo deu errado. A imagem se dissolveu em blocos caóticos de cor borrados na tela e o áudio virou um chiado mecânico misturado com gritos. Não respondia ao controle remoto nem aos botões, então tive que desligar da tomada.

As coisas foram piorando até eu começar a ouvir a voz dele em cômodos vazios e ver vultos de roupa colorida pelo canto do olho. A presença dele não é nada reconfortante. Ele parece agitado e frustrado. Parece que está preso nessa casa comigo. E eu o conheço. Se não existir outro plano pra alma dele e os mortos ainda andarem pela Terra, ele preferiria muito mais vagar pelo mundo do que ficar parado num lugar só, mesmo que fosse com um amigo. Tenho medo de que minha fixação nele esteja mantendo ele preso aqui.

Por algum motivo, a atividade dele é mais forte no quarto do computador. Acho que deve ser porque passávamos muito tempo ali juntos quando ele era vivo. Ele jogava videogame enquanto eu escrevia meus romances. Às vezes jogávamos juntos.

Ele gostava dos consoles retrô que eu tenho, especialmente o Atari que está ligado num monitor CRT no fundo do quarto. Ele ainda senta na frente daquele computador antigo, olhando direto pra frente sem se mexer. Eu sei porque vejo ele no reflexo do vidro. Ele parece tão triste e eu queria poder ajudar.

O Atari liga sozinho em horários aleatórios, o computador também, e a tela plana na outra parede. Não preciso estar lá pra ele ligar. Imagino que ele esteja entediado, querendo jogar os jogos favoritos dele, mas parece que não consegue. Ele só liga. Ou só senta e chora. Nunca vi ele chorar em vida.

Eu quero ir embora. Quero deixar ele ir. Mas simplesmente não consigo. Em vez disso, todo dia eu sento na frente daquele monitor antigo e grosso, olhando praquela imensidão cinza-escura e vendo ele onde deveria estar o meu reflexo.

Não é como mofo comum

Eu nunca planejei postar isso online. Sou pesquisador, não contador de histórias. Eu catalogo coisas. Rotulo amostras. Escrevo relatórios de incidentes que acabam soterrados por carimbos de classificação e linguagem jurídica.

Mas o que encontrei há três meses não fica enterrado. Ele cresce. Ele se espalha.

Por isso estou escrevendo isso aqui.

Eu trabalhava numa instalação privada de pesquisa biomédica no sul da Europa. Não posso dizer o nome, pelos motivos que vão ficar óbvios, mas ela era especializada em fungos extremófilos. Mofo que prospera em lugares onde nada mais deveria sobreviver. Sistemas de resfriamento de reatores. Naufrágios no fundo do mar. Bunkers abandonados selados desde a Guerra Fria.

A gente se convencia de que era pela medicina. Antibióticos. Estruturas regenerativas de tecido. A gente dizia um monte de coisas.

A amostra que fodeu tudo chegou num caixão de transporte de aço marcado MYC-117 / HELIX STRAIN. Essa era a designação oficial. Informalmente, os técnicos do laboratório chamavam de Mofo Espiral por causa da forma como crescia. Não para fora em florescimentos fofos, mas para dentro, enrolando, perfurando qualquer coisa que tocasse.

Veio de um prédio de apartamentos condenado depois que um inquilino reclamou que “as paredes estavam respirando”. A reclamação foi zoada até três moradores sumirem e um ser encontrado catatônico na escada, com os pulmões cheios de algo que não devia estar lá.

Meu papel era observação e mapeamento de respostas neurais. O que significa que eu via o que aquilo fazia com tecido vivo.

Nosso principal sujeito de teste era rotulado PACIENTE ECHO-9. Nome real censurado, mas eu vi uma vez num formulário de admissão antes dele sumir no triturador. Uns 30 e poucos anos. Homem. Ex-trabalhador da construção civil. Exposição estimada em seis semanas antes da recuperação.

Quando eu o conheci, já era difícil dizer onde o paciente terminava e a contaminação começava.

Echo-9 ficava numa câmara de isolamento com pressão negativa, paredes revestidas de polímeros antimicrobianos que custavam mais que meu apartamento. Tubos enfiados no peito, na coluna, no crânio dele. O mofo tinha colonizado o sistema nervoso sem matá-lo. Isso era o milagre, segundo os chefes.

Ele mantinha o cara vivo.

Vivo demais.

A primeira coisa que notei foi que ele acompanhava movimentos com os olhos mesmo sedado. Não só pessoas. Sombras. Reflexos no vidro. Uma vez, quando as luzes piscaram, as pupilas dele dilataram tanto que eu não via mais o branco.

Registramos vocalizações no começo. Sons úmidos. Estalos. De vez em quando algo que quase parecia fala, mas em nenhuma língua que eu conhecesse. Eu me convenci de que era só disparo neural aleatório.

Não devia ter me convencido.

O encontro aconteceu durante uma verificação noturna programada de integridade. Só eu e Lena, outra pesquisadora, rodando diagnósticos nos sistemas de contenção depois de um alerta de flutuação de pressão. O mofo era sensível a interferência eletromagnética, e uma tempestade estava passando.

Às 02:17, Echo-9 sentou.

Não quero dizer que ele se debateu contra as amarras ou deu um espasmo. Quero dizer que ele sentou como uma pessoa saudável acordando do sono. As tiras não arrebentaram. Elas deslizaram dele, escorregadias com um crescimento cinza-preto que não estava ali uma hora antes.

Lena congelou. Eu lembro do zumbido das máquinas ficando mais alto, ou talvez minha audição tenha se estreitado em torno dele. Echo-9 inclinou a cabeça, juntas estalando como madeira velha encharcada de água.

Aí ele olhou direto pra mim.

Dentro dos olhos dele tinha movimento. Não reflexos. Não moscas volantes. Algo girando, devagar, como uma escada em espiral afundando na escuridão.

Ele falou.

“Eu sei onde você termina”, ele disse. A voz veio de muitos lugares ao mesmo tempo, em camadas, como se o som estivesse viajando através dele em vez de sair dele.

Lena gritou. As luzes apagaram.

O vermelho de emergência inundou o ambiente. O vidro entre nós e a câmara embaçou na hora, não de condensação, mas de crescimento. Filamentos se espalharam por ele em espirais apertadas e deliberadas, sem formar palavras, mas sugerindo intenção.

Echo-9 encostou a mão no vidro.

Onde a pele dele tocou, o mofo floresceu para fora, atravessando falhas microscópicas, provando o ar do nosso lado. Eu senti cheiro de terra molhada e podre e algo metálico, tipo sangue em cima de uma bateria.

O interfone estalou e ligou. Não com segurança. Com respiração.

Echo-9 sorriu. A boca dele abriu mais do que deveria, e eu não consegui olhar por tempo suficiente pra entender como.

“Vocês já nos carregam”, ele disse. “A gente só precisa que vocês percebam.”

Lena correu. Eu não culpo ela. As luzes do corredor piscavam enquanto os alarmes finalmente alcançavam a realidade. Eu fiquei porque vi algo no meu tablet.

Os escaneamentos neurais ainda estavam rodando.

O mofo não estava só reagindo ao cérebro do Echo-9.

Estava sincronizando com os nossos.

Os padrões na tela batiam com minhas leituras basais da semana anterior. Marcadores de estresse. Picos de recuperação de memória. A Cepa Helix não estava infectando o corpo primeiro.

Estava mapeando a mente.

Os protocolos de contenção finalmente entraram em ação. Espuma automatizada. Inundação de ultravioleta. Fogo químico. Eu vi Echo-9 desabar enquanto o mofo calcificava, travando ele numa estátua de carne enegrecida e crescimento endurecido.

Antes dos olhos dele ficarem opacos, ele articulou uma última coisa sem som.

“Obrigado.”

Oficialmente, o incidente foi contido. A ala foi selada. Echo-9 foi declarado terminado. A Cepa Helix foi registrada como neutralizada.

Eu ganhei licença médica por tempo indeterminado.

Se você está lendo isso e já viu mofo que cresce como se estivesse pensando, não toque nele. Não limpe. Não olhe por tempo demais.

Ele não está se espalhando do jeito que você acha.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Neste lugar, qualquer um sem nome é baleado na hora. Eu sou obrigado a fingir que ainda me lembro do meu nome

Eu me lembro de cambalear pela floresta à noite.

Estava de quatro no chão. A pistola tinha caído da minha mão e eu sentia a terra e a neve entre os dedos. Não muito longe, havia uma luz fraca. Eu semicerrava os olhos, tentando focar no chão abaixo de mim.

Naquele momento, ouvi um som.

Um farfalhar e um estalo a pouca distância. Parecia que estava se afastando.

Era impossível focar. Eu não fazia ideia de onde o barulho vinha, pra onde ia ou o que estava causando, mas estava perto.

Meus dedos roçaram num objeto duro de metal. A pistola — eu tinha encontrado. Peguei ela e me levantei. Quando me ergui, a luz já não estava mais visível.

Eu me encolhi de repente.

Um tiro.

Vi um clarão de luz lá longe. Escutei com atenção. Veio outro estrondo, seguido rapidinho por mais quatro em sequência, manchando a cena por instantes com manchas de luz. Depois ouvi outro som, um grito selvagem, desesperado. Ele foi calado poucos momentos depois.

Eu não dava a mínima pro tiro, pro grito ou pros sons sinistros ao meu redor; eu precisava sair daquele frio do caralho. Comecei a andar na direção do grito — na direção do lugar onde a luz agora estava apagada.

Andei e logo me vi na beira de uma clareira. No meio da clareira tinha uma cabana de madeira pequena e decadente. A cabana parecia inclinar pra direita, depois pra esquerda, e ficar em foco e desfocar. Estava ficando difícil permanecer consciente, mas eu precisava continuar andando. Tropecei na porta. Assim que entrei, os sons da floresta cortaram de vez, e eu caí pra frente.

Isso é tudo que me lembro daquela noite. Isso é tudo que me lembro, ponto final; a memória de onde eu estava ou como tinha chegado ali me escapa completamente.

Acordei no chão frio de madeira, de bruços. Meu rosto doía e meus músculos estavam tensos pra caralho. Sentei e olhei ao redor.

A cabana era um único cômodo e uma bagunça completa. Livros velhos, papéis e objetos diversos espalhados por todo lado. Tinha carvão na lareira, parte queimado, o resto jogado no chão da chaminé como se alguém tivesse tentado apagar o fogo às pressas.

Tinha uma mochila encostada na parede ao lado da lareira. Era um modelo padrão verde e marrom, com dezenas de itens variados amarrados nas laterais, coisas grandes demais pra caber direito no compartimento principal: um rolo grande de tecido, uma panela de metal e um machadinho pequeno pendurado atrás. Examinei os itens rapidamente, depois peguei o zíper e abri.

Joguei o conteúdo no chão.

Vi roupas enroladas bem apertadas, sacos e garrafas, latas e pacotes. Nada disso era útil imediatamente; nada me dizia onde eu estava ou quem eu era, porra.

Peguei um bolso menor na parte de fora da mochila. Dentro tinha um livro. Finalmente, pensei, informação.

Tirei o livro e olhei a capa dura de couro.

Alex

Não tinha título, nem datas, e, além do nome na capa, era totalmente sem enfeites. Julgando pelo equipamento de sobrevivência na mochila, quem quer que fosse esse Alex, a situação dele devia ser bem parecida com a minha. Só podia torcer pra que esse livro tivesse informação útil. Abri a primeira página.

“Um sobrevivente sem nome deve ser baleado na hora.”

Era um ponto absurdamente vago, mas fez os pelos da minha nuca arrepiar. Meu nome era a coisa que mais me escapava. Minha vida e minhas experiências eram borrões incompreensíveis de movimento, mas pelo menos eu reconhecia as emoções pelo que eram. Minha identidade, porém, era um vazio completo.

Qual podia ser o propósito daquele aviso? Pensei. Talvez uma pessoa que não dissesse o nome não pudesse ser confiável. Não — não podia ser tão simples assim.

A lista continuava por uma quantidade absurda de páginas, e cada anotação parecia mais louca que a anterior. Em algum momento, parei de ler o caderno de vez e só tentava entender do que se tratava. Os pontos eram todos sobre ficar seguro, não confiar nas pessoas e evitar “infecção”. Alguns eram senso comum, tipo saber onde fica o norte, mas outros eram bem mais estranhos, como só cortar o cabelo ao ar livre e sempre cortar o mais curto possível pra evitar “contaminação”. Meu cabelo estava bem curto, e me perguntei se essa regra tinha sido conhecimento comum pra mim em algum momento. Mas por que eu não lembrava?

Fechei o livro e me encostei pra trás. Olhei pra capa de couro.

Alex. Pensei comigo mesmo. Meu nome é Alex.

Era simples, na verdade; se eu não tivesse nome, ia pegar um pra mim até lembrar o verdadeiro. Alex. Servia tão bem quanto qualquer outro. Aí, se alguém perguntasse meu nome, eu podia dizer, e a regra estaria satisfeita. Qualquer que fosse o motivo da anotação, eu sabia que era importante ter um nome.

“Alex.” Falei em voz alta pra ver o quão natural conseguia soar. “Alex”, repeti. “Qual é o seu nome?”, disse, falando como se fosse pra um estranho. “É Alex.”

Olhei de novo pro caderno. Alex não era meu nome; era o deles — do dono da mochila. Meu nome verdadeiro estava perdido. Seria bom saber qual era, mas pelo menos eu podia me dar um. Podia começar por algum lugar.

Quem quer que fosse o verdadeiro Alex, ele estava morto, e lá estava eu, fuçando as coisas dele e roubando o nome. Disse pra mim mesmo que não importava mais.

Fui assustado de repente.

Uma batida na porta, depois mais três.

Levantei num pulo e corri pra entrada, procurando a pistola que tinha deixado cair na noite anterior. Achei e segurei firme no cabo, mas antes que eu pudesse me levantar, a porta abriu.

“Seu nome, qual é?” Uma voz disse da entrada.

Virei devagar, erguendo os olhos pra ver a mulher na porta. Eu via pelo cano de uma espingarda grande pra caralho. O dedo dela tensionou enquanto eu hesitava em falar.

“Alex!”, disse, “É Alex.”

Vi o aperto dela afrouxar um pouco, e o cano baixou.

“Qual é o seu nome?”, disse, tentando soar natural.

“Anna”, ela respondeu. Passou pela porta com um passo rápido e fechou atrás de si. “Você chegou cedo.”

Ela olhou o cômodo com uma cara de nojo leve, a espingarda ainda solta nos braços, apontando pro chão.

“Por que o fogo apagou?”

Pensei um segundo. “Teve… teve um problema ontem à noite. Fui obrigado a apagar.”, disse.

Ela me deu um olhar de desprezo. “Seu nome bate, então suponho que você seja o Alex que eu devia encontrar. Se não fosse por isso, você estaria morto, mas não pense que eu não vou ficar de olho em você. Temos muito pra conversar.”

No que eu tinha me metido? O que eu devia fazer? Eu não sabia quem era Alex, nem por que Anna esperava encontrar ele. Tinha que fingir.

Andei até onde Anna estava.

“Você já tem acesso à cidade?”, ela disse.

Tinha que me colocar no lugar do Alex, mesmo sem saber quem ele era ou onde ficava a cidade. Pensei na noite anterior — nos tiros, no grito.

“Não… não tenho.”

“Que bom que eu tô aqui, então.”

Não disse nada.

De repente, meu braço tremeu violentamente. Entrei em pânico e segurei com a outra mão pra parar. Minha respiração travou na garganta. Não sabia o que era o tremor, mas o que quer que fosse, Anna já estava desconfiada o suficiente. Olhei pra ela, esperando ver pelo cano da arma de novo.

A espingarda ainda apontava pro chão, e o olhar dela estava fixo na lareira. Ela não tinha visto o movimento repentino.

O tremor — o que tinha sido aquilo?

Anna olhou pro chão por alguns instantes, depois falou. “Vamos pra cidade assim que o sol se pôr. Você teve sorte deles terem decidido te dar acesso, Alex.”

Minha mente focou de novo. Tentei esquecer o tremor.

A cidade? Que cidade?

“É, suponho que sim.”

“A segurança tá bem rigorosa ultimamente; não me surpreende. As taxas de infecção estão subindo”, ela disse.

“Não posso culpar eles”, disse, embora não fizesse ideia do que estava falando.

“É”, Anna disse, “se um deles entrar, acabou tudo. Fico feliz que você entenda.”

Dessa vez, senti vindo antes de acontecer. Outro tremor. Senti subindo pelo pescoço como um inseto. Tive que balançar pra afastar.

Mas se Anna visse, e aí? Não sabia o que era o tremor, mas duvidava que fosse algo bom. Não podia deixar ela ver.

“Vou guardar minhas coisas de volta na mochila”, disse, tentando esconder a ansiedade.

“Claro.”

Assim que me afastei, sacudi a cabeça violentamente pro lado. O tremor forte foi seguido por uma sensação estranha de formigamento na garganta. Ainda bem que Anna não viu.

Antes de começar a juntar os itens da mochila, procurei loucamente o diário. Assim que achei, virei pra página que tinha lido por último.

Como se respondesse minhas dúvidas, a primeira frase da página dizia:

“Qualquer um que faça movimentos repentinos sem explicação deve ser baleado na hora.”

Fiquei com nojo de mim mesmo. O diário… era sobre gente como eu, e quanto mais eu lia, mais óbvio isso ficava.

“Amnésia é sinal certo de infecção.” Dizia a última frase da página.

Eu era o inimigo naquele diário. Mas por quê? Por que eu era perigoso? O livro não explicava nada.

Terminei de arrumar a mochila e me levantei, indo até onde Anna estava.

“Pronto, Alex?”

“Sim.”

“Estou convencida que você não é um deles, então acho que podemos seguir. Vou te dar acesso à cidade, mas você tem que me prometer uma coisa primeiro”, ela disse.

“Claro.”

“Se sentir qualquer sintoma, qualquer um mesmo, mete uma bala na cabeça antes de pôr o pé na cidade.”

Meu corpo tensionou.

“Alex, você tem que entender o que aconteceria se um deles entrasse. A cidade é o único lugar que sobrou; se ela cair, não vai ter mais nenhum lugar no mundo pra se esconder. Você promete?”

Eu não queria morrer. Com certeza tinha outro jeito… tinha que ter.

“Alex? Você ouviu?”

Não… eu não ia desistir. Não podia morrer ainda, não quando meu passado era um borrão de memória. Pelo jeito que eu via, minha vida tinha acabado de começar. Por que tinha que começar nesse pesadelo do caralho?

Antes que eu pudesse falar, ouvimos um barulho do lado de fora da cabana.

Um suspiro repentino, como se alguém tivesse emergido depois de ficar muito tempo debaixo d’água.

Anna correu pra fora antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo. Eu a segui rápido.

Demos a volta na cabana até chegar na parede de onde veio o som.

Ali, encostado na parede da cabana, estava um homem coberto de sangue e neve com um rifle no colo. As feridas eram brutais e irregulares. Os olhos arregalados e o rosto pálido. Ele parecia apavorado.

“Que porra…”, Anna sussurrou.

O homem ofegava por ar.

A ficha caiu como um trem.

Os tiros, o grito.

Ele estava vivo.

“Alex, você conhece esse cara? Sabe o que aconteceu?”, Anna virou pra mim.

O homem olhou pra ela, depois devagar virou e olhou pra mim.

“Eu… eu não sei”, disse. “Ele deve ter chegado antes de mim.”

O homem sustentou meu olhar, e tinha algo mais nos olhos dele. Algo inconfundível e inegável. Raiva. Ele sabia.

Esse era Alex — o verdadeiro Alex. Se ele revelasse a verdade, seria o meu fim.

Ele abriu a boca.

“Não…”, ele chiou. “Eu sou…”

“Ele é um deles!”, gritei, abafando as palavras do homem antes que ele revelasse quem era. Eu nem sabia quem eram “eles”; só precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa.

O homem ferido não disse nada; só ficou me encarando com os mesmos olhos silenciosos e julgadores. Parecia triste de algum jeito.

Vi ele tensionar o braço em volta do rifle no colo.

Um som ensurdecedor ecoou. Virei o rosto enquanto meus ouvidos zuniam. O barulho me pegou desprevenido, e demorei pra me recuperar.

Quando olhei de novo, a parede atrás do homem estava coberta de sangue fresco.

“Merda, por que ele tinha que tentar pegar o rifle?”, Anna disse. Fumaça saía do cano da espingarda dela. “Mas acho que você tá certo; ele já era carne morta mesmo.”

Meu estômago revirou. A culpa era minha. O verdadeiro Alex estava morto, e lá estava eu com o nome dele e sabendo que, se ele tivesse revelado quem era, Anna teria metido uma bala no meu peito.

Pelo menos o verdadeiro Alex está morto, pensei, e a informação foi com ele.

Mas o homem ainda respirava.

Anna tinha mirado baixo. A barriga dele era uma bagunça, mas ele ainda respirava.

Ele abriu a boca.

“Não… eu sou… Alex…”

Curto, quase inaudível, mas incriminador mesmo assim.

Um momento de silêncio horrível.

Não tinha saída.

“Seu filho da puta!”, Anna gritou.

Assim que vi o cano da espingarda apontado pro meu peito, me abaixei. O tiro ecoou e espalhou estilhaços ao meu redor.

Corri pra trás do canto da cabana e voei pra porta. Precisava pegar minha pistola.

Alex tinha levado um tiro de espingarda na barriga por minha causa, e agora Anna ia fazer o mesmo comigo. Me sentia um merda, mas não tinha tempo pra questionar minha decisão. Invadi pela porta no exato momento em que ouvi outro disparo de espingarda. Vidros explodiram dentro da cabana.

Pulei em direção à mesa onde estava minha pistola, segurando nela enquanto minhas costas batiam no chão.

Anna entrou correndo pela porta e atirou, mas meu corpo já estava no chão, e ela tinha mirado alto demais.

O gatilho não se mexeu quando apertei.

Mesmo sendo minha arma, eu não lembrava como usar.

Anna ajustou a mira. A arma dela clicou, mas nada aconteceu. Ela estava sem munição.

Girei um botão na lateral da minha pistola. Meu dedo estava tão tenso no gatilho que ela disparou imediatamente e sem esperar. Meus ouvidos zuniram, e virei a cabeça do clarão. Mais três tiros saíram, embora eu não tenha olhado pra ver onde acertaram.

Quando a fumaça da pistola baixou, ergui a cabeça.

A porta estava escancarada, e Anna tinha sumido.

Levantei num salto e corri pra porta, mas antes de sair, vi ela.

Anna estava deitada na neve lá fora. A espingarda dela apontava pra mim. Clicava inutilmente de novo e de novo.

Sangue escorria pela boca dela.

Depois de me encarar por alguns instantes, ela largou a espingarda e levou as mãos ao pescoço. Parecia que só um dos meus tiros tinha acertado.

Sangue jorrava entre os dedos dela.

Tropecei pra trás e caí no chão. Não aguentava. O que eu tinha feito? Eu nem entendia o que estava acontecendo — o que eu tinha feito pra merecer isso. Tinha agido por instinto; nunca quis matar ninguém. Disse pra mim mesmo várias vezes que não tive escolha.

Estou escrevendo isso agora nesse diário amaldiçoado — aquele que avisa sobre gente como eu.

Mas talvez eu realmente seja o inimigo. Afinal, eu sou responsável pelos corpos lá fora. Mas que escolha eu tinha? Eu precisava sobreviver.

O verdadeiro Alex está morto, e mesmo não tendo sido eu que apertei o gatilho, o sangue dele está nas minhas mãos. Talvez Anna estivesse certa; ele ia morrer mesmo.

Anna carregava um mapa e, mais importante, um cartão. Acesso aos portões da cidade, diz.

Os tremores pioraram; agora são quase incontroláveis. E tem uma fome crescendo dentro de mim, embora eu não saiba o que é nem o que ela quer. Será essa a infecção que o livro mencionava?

Talvez lá, na cidade, eles possam me ajudar.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon