terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Tudo por algumas garrafas de vinho

Caramba, isso não era nem um pouco o que eu esperava. Quando ouvi o Sam falando sobre um velho dirigível na floresta, achei que ele estava zoando. Só o tamanho da coisa já era de tirar o fôlego. Mesmo de longe não parecia real. Parecia algo que alguém tinha editado na paisagem por engano.

Era fim de tarde quando chegamos lá. A floresta estava presa naquele estranho lusco-fusco dourado, onde tudo fica laranja e silencioso. As árvores eram altas e finas, e a luz passava por entre elas em longos feixes. Poeira e pólen flutuavam no ar, brilhando levemente. O lugar todo parecia mais lento, como se estivesse prendendo a respiração.

No começo, eu estava bem cético sobre ir com o Sam. Ele tinha falado que era uma caminhada de 5 quilômetros mata adentro, e eu não sou muito fã de trilha. Quando chegamos perto, minhas pernas estavam doendo e a camisa grudada nas costas de suor. Mas no segundo em que vi o dirigível entre as árvores, esqueci tudo isso.

Era enorme. A carcaça de metal estava rasgada de um lado, como se algo tivesse cravado as garras nela. O tecido que um dia cobria a estrutura pendia em tiras do esqueleto, desbotado e quebradiço. Partes da carenagem externa tinham desabado para dentro, e cipós já começavam a subir pelas costelas quebradas da estrutura. Musgo se espalhava pela superfície em grandes placas, verde vibrante contrastando com o cinza opaco do metal.

Pelo que parecia, ele tinha caído direto na floresta. Várias árvores ao redor estavam partidas ao meio. Outras inclinavam em ângulos estranhos, como se tivessem tentado sair do caminho tarde demais. O chão estava irregular, coberto de galhos e pedaços de metal meio enterrados na terra. O estranho era que, embora o local do acidente estivesse selvagem e bagunçado, o interior parecia quase… arrumado com cuidado.

A gente passou por um rasgo grande no casco. O ar lá dentro estava mais fresco. Cheirava a ferrugem, madeira úmida e algo levemente doce, talvez tecido velho. A maior parte da estrutura agora parecia oca. As paredes curvavam sobre nossas cabeças, com costelas de metal arqueando como o interior de um esqueleto gigante. A luz entrava por fendas e buracos, formando formas pálidas no chão.

Havia destroços por todo lado, mas não parecia caótico. Os bancos estavam soltos, mas não destruídos completamente. Caixotes tinham rachado, mas o conteúdo ainda estava agrupado por perto. Papéis, agora amarelos e frágeis, formavam pequenas pilhas em vez de estarem espalhados para todo lado. Quase parecia intencional. Como se alguém tivesse arrumado tudo depois do acidente e depois simplesmente ido embora.

O metal estava enferrujando feio. Quando toquei de leve numa superfície, flocos saíram e grudaram nos meus dedos. Alguns painéis estavam amassados para dentro, outros retorcidos. Fios pendiam soltos do teto. Em alguns pontos o chão cedia um pouco sob nosso peso, fazendo um som oco e abafado.

Considerando o tempo que aquilo devia estar ali, não seria surpresa se tivesse virado casa de todo tipo de bicho. E tinha mesmo. Insetos andavam pelas vigas. Roedores disparavam entre as sombras. Eu até vi sapos descansando em pequenas poças formadas nas depressões rasas do chão. Por fora estava coberto de musgo, mas por dentro estava mais limpo do que eu imaginava. Empoeirado, sim. Velho, com certeza. Mas não completamente dominado pela natureza.

O Sam e eu tínhamos nossas lanternas e uma mochila pequena com suprimentos. Éramos imprudentes, mas não completamente idiotas. Os feixes de luz cortavam o interior escuro, iluminando a poeira que flutuava. Todo som que fazíamos parecia mais alto do que deveria. Nossos passos. Nossa respiração. Até o leve arrastar dos nossos sapatos no metal.

Foi aí que eu encontrei o caixote.

Ele estava guardado perto do que parecia ser uma área de armazenamento. A madeira tinha apodrecido e rachado, mas dentro havia várias garrafas cheias de líquido vermelho. Algumas tinham quebrado, e o conteúdo secou há muito tempo, manchando o chão. Outras estavam intactas e perfeitamente lacradas, cobertas por uma fina camada de sujeira.

Limpei uma com a manga da camisa e li o rótulo. Vinho tinto. Zinfandel. Chamei o Sam. Ele deu um assobio baixo.

Como dizem que vinho fica melhor envelhecido, achamos que podíamos levar algumas das garrafas intactas. Parecia que tínhamos achado um tesouro. Algo normal e valioso no meio de toda aquela estranheza.

Depois que guardamos algumas garrafas na mochila, decidimos que era hora de cair fora. A floresta lá fora estava ficando mais escura. A luz laranja tinha dado lugar a algo mais cinzento e fraco. As sombras dentro do dirigível se alongavam, preenchendo as paredes curvas.

Voltamos com cuidado por entre os destroços. O interior parecia mais silencioso do que antes. Até os insetos estavam menos ativos. Ou talvez a gente só estivesse prestando mais atenção.

Foi nesse momento que o Sam parou.

— Ei, Arch — disse ele, sem se virar. — Este zepelim voava com a ajuda de um piloto, né?

— É — respondi. — Provavelmente precisava até de uma equipe de pilotos.

— E devia ter passageiros também.

— É, provavelmente alguns.

De repente, uma barata voou direto na minha cara. Pulei para trás, me contorcendo de nojo. Minha lanterna piscou na minha mão, a luz enfraquecendo e fortalecendo de forma irregular. O interior ao nosso redor pareceu ficar mais escuro por um segundo.

Enquanto eu tentava consertar a lanterna, o Sam falou de novo, a voz mais baixa agora:

— Se tinha gente neste dirigível… por que não tem nenhum corpo ou esqueleto por aqui?

Ele Salvou Minha Vida Oito Anos Atrás. Acho Que Ele Planejou Tudo...

A parada da gratidão é que ela te desarma. É pra isso mesmo.

Oito anos atrás eu tinha vinte e quatro anos, tinha acabado de me mudar pra Chicago e não conhecia ninguém. Estava voltando pra casa do trem numa noite de quarta-feira em novembro quando escorreguei numa placa de gelo bem no topo da entrada de uma escadaria subterrânea — aquelas que descem pra um nível de rua mais baixo: oito degraus de concreto com um corrimão enferrujado que não estava parafusado direito. Eu passei por cima do corrimão. Não lembro da queda. Lembro do gelo debaixo da minha mão e, logo depois, de um homem agachado do meu lado no escuro, dizendo meu nome.

Na hora eu nem registrei essa parte. Ele disse meu nome. Eu estava com concussão, apavorada, e não registrei.

Ele ligou pro 911, ficou até a ambulância chegar, deu depoimento pro paramédico e sumiu antes que eu conseguisse agradecer direito. Tive uma concussão leve, duas costelas trincadas e um corte feio no antebraço esquerdo que precisou de onze pontos. A enfermeira do pronto-socorro falou que eu tive sorte de alguém estar ali. Aquela escadaria não era lugar de muito movimento. Já passava das dez da noite. Eu podia ter ficado ali horas.

Pensei nele de vez em quando durante algumas semanas, daquele jeito que a gente pensa num estranho que muda sua vida pra sempre — uma gratidão sem forma e sem endereço pra mandar. Depois parei de pensar. Segui a vida.

Ele se apresentou direito seis meses depois, numa cafeteria no Logan Square. Ele me reconheceu, disse ele, daquela noite. Tinha ficado preocupado comigo, disse. Ficou feliz de me ver bem.

O nome dele era Daniel. Tinha trinta e um anos, bonito de um jeito comum, aquele rosto que demora umas duas ou três vezes pra você gravar. Trabalhava com seguro. Tinha um jeito tranquilo, sem pressa, e uma forma de escutar que fazia você sentir que qualquer coisa que você estivesse falando era a coisa mais interessante que ele tinha ouvido na semana inteira.

A gente namorou dois anos.

Eu terminei por motivos que na época pareciam claros e que depois parei de confiar.

Ele não era cruel. Não era controlador do jeito que avisam as mulheres pra tomar cuidado. Não me isolava dos amigos, não ficava checando meu celular nem mandando no que eu vestia. Era atencioso, paciente, e quando eu dizia que precisava de espaço ele dava espaço. Quando eu dizia que estava infeliz ele fazia perguntas e escutava as respostas. Eu não conseguia apontar uma única coisa concreta.

Eu só sabia, daquele jeito que às vezes a gente sabe antes de conseguir provar, que tinha alguma coisa errada. Não nas coisas que ele fazia, mas na textura por baixo delas. O jeito como a consideração dele sempre parecia um pouco ensaiada. O jeito como o instinto dele sobre o que eu precisava era bom demais, consistente demais — como se ele não estivesse reagindo a mim, mas executando um plano pra mim que tinha desenhado em outro lugar.

Eu falei pra mim mesma que eu era quebrada. Tinha saído de um relacionamento ruim antes dele e falei pra mim mesma que estava sabotando uma coisa boa porque não acreditava que merecia. Falei isso na terapia. Minha terapeuta na época concordou que era possível.

Eu terminei mesmo assim. Ele aceitou sem discutir, o que deveria ter sido um alívio e, em vez disso, piorou tudo.

Não tive notícia dele por três anos. Me mudei pra outro bairro, troquei de emprego, reconstruí minha vida num formato que parecia meu. Pensava nele de vez em quando do mesmo jeito que pensava na queda: como um capítulo que tinha sido fechado.

Então, dois anos atrás, ele salvou minha vida de novo.

Não uso essa frase à toa. Eu estava numa faixa de pedestres perto do meu trabalho quando desci da calçada e um carro furou o sinal em alta velocidade. Daniel me puxou de volta pelo braço. Com força, as duas mãos, o peso dele contra o meu. O carro passou exatamente onde eu estava segundos antes e nem parou.

Eu tremia tanto que tive que sentar na calçada. Daniel agachou do meu lado e disse meu nome de novo, exatamente do mesmo jeito que tinha dito na escadaria oito anos antes. Quando olhei pra ele, ele também parecia abalado, pálido embaixo dos olhos, a respiração irregular.

“Você precisa tomar mais cuidado”, ele disse.

“O que você tá fazendo aqui?”

“Trabalho a dois quarteirões daqui. Comecei tem mais ou menos um mês.”

Eu acreditei. Agradeci. Deixei ele me pagar um café e fiquei sentada de frente pra ele até minhas mãos pararem de tremer. Ele não forçou nada. Não sugeriu a gente se reconectar. Me acompanhou até a porta do escritório e disse que estava feliz que eu estava bem. Depois foi embora.

Pensei naquilo duas semanas antes de fazer qualquer coisa.

Quero deixar bem claro o que me fez começar a investigar, porque eu sei como isso soa. Sei que soa como uma mulher que não consegue aceitar que um homem a amava e inventou um motivo pra transformar isso em algo sinistro. Eu mesma pensei isso, por bastante tempo.

O que me fez começar a investigar foi a coisa que ele disse na escadaria. Meu nome. Ele tinha dito meu nome antes de eu falar qual era. Eu nunca tinha contado isso pra ninguém. Tinha me convencido de que tinha me apresentado, que a concussão simplesmente apagou o momento. Mas dois anos atrás, parada naquela calçada, repassei tudo pela primeira vez com a cabeça limpa.

Eu não tinha me apresentado. Ele disse meu nome, esperou a ambulância, sumiu e reapareceu seis meses depois como um estranho que reconhecia meu rosto.

Ele sabia quem eu era antes mesmo de eu cair.

Quero contar o que eu descobri. Quero, mas preciso que vocês entendam que o que eu descobri não é prova de crime. Não é prova de nada, no sentido legal. Sei disso porque conversei com um advogado e com um detetive que é amigo de um amigo, e os dois falaram a mesma coisa com palavras diferentes.

Eu encontrei registros dele na minha vida antes da escadaria. Não muitos, nada óbvio. Um comentário num post público de rede social cinco meses antes da queda. Uma foto de uma festa de um amigo em comum, tirada meses antes da queda, na qual eu apareço ao fundo e ele também. Eu nunca tinha ido a uma festa onde conhecia ele. Perguntei pra minha amiga. Ela não lembrava dele estar lá. Ele aparecia ao fundo em três fotos daquela noite — exatamente no mesmo fundo onde eu também estava.

Voltei pra escadaria no Google Maps e passei duas horas no Street View olhando os ângulos.

O corrimão que eu passei por cima ficava do lado direito. Eu só teria batido nele vindo de uma direção específica, aproximando do oeste. Eu sempre voltava pra casa pela saída oeste da estação de trem. Todo santo dia, mesma rota. Ele teria que saber disso. Teria que ter sabido.

Tem um bar do outro lado da rua da escadaria. Liguei pra eles. As câmeras externas, que ficavam de frente pra entrada da escadaria, estavam quebradas durante as seis semanas em torno da minha queda. Tinham quebrado desde uma tempestade em outubro. Foram consertadas em janeiro.

Não estou dizendo o que estou dizendo. Quero ser cuidadosa. Estou só colocando o que encontrei e deixando ali.

Contei pra uma amiga. Ela escutou um tempão e depois falou: mas por quê. Por que alguém faria isso. Por que alguém ia planejar uma queda numa escadaria, ficar tempo suficiente pra chamar o 911 e voltar seis meses depois.

Pensei bastante nisso.

Acho que existem pessoas que precisam ser necessárias de um jeito que a vida comum não consegue satisfazer. Acho que existem pessoas que não suportam a ideia de alguém sobreviver sem elas. Acho que existem pessoas que decidem, por motivos que ninguém consegue mapear direito, que uma pessoa específica é delas pra salvar, e que o ato de salvar em si é uma espécie de posse, e que a única forma de segurar alguém é continuar sendo o motivo de ela estar viva.

Acho que Daniel me observou por meses em 2016, escolheu um dia e um lugar, soltou um corrimão que já estava quase caindo, e depois ficou parado no escuro esperando. Quando eu caí, ele estava lá antes de eu chegar no chão.

Acho que ele esteve nas margens da minha vida desde então, observando da distância que precisava, e quando eu me afastei demais da história que ele tinha escrito pra mim, ele arrumou um motivo pra se colocar no meu caminho numa rua movimentada e esperou o sinal abrir.

Acho que ele acredita que me ama. Acho que pode até estar certo, na definição de amor que permite isso.

Eu me mudei. Não vou dizer pra onde. Variei minhas rotas, não mantenho horário fixo e não postei nada público desde que encontrei as fotos.

O detetive me falou pra documentar tudo, e é isso que estou fazendo escrevendo aqui. Ele disse que sem uma ameaça direta não tinha muito que ele pudesse fazer — a mesma coisa que me falaram todas as vezes que tentei explicar isso pra alguém em posição de ajudar.

Aqui está o que eu não contei pro detetive porque ainda não consegui falar em voz alta.

A faixa de pedestres foi há dois anos. Passei dois anos olhando por cima do ombro e não encontrei nada. Nenhum contato, nenhuma aparição, nenhum sinal.

Dois meses atrás fui diagnosticada com uma arritmia cardíaca. Leve, controlável, pega cedo por uma cardiologista que me falou que eu tive sorte de ter ido naquele momento. Exatamente o momento certo. Ela disse que se tivesse ficado sem diagnóstico mais seis meses, os riscos aumentavam muito.

Nunca tive problema de coração antes. Não fui na cardiologista por causa do coração. Fui porque minha nova médica de família flagrou alguma coisa num exame de sangue de rotina e me encaminhou.

Minha nova médica de família veio super recomendada. Encontrei ela num fórum do bairro ano passado, quando estava me instalando num lugar que ele não sabia que eu tinha me mudado.

Pesquisei quem tinha postado a recomendação.

A conta tinha nove meses de existência. Três posts, todos recomendações de serviços locais. Sem foto, sem histórico.

O nome de usuário era uma sequência de letras aleatórias que não significavam nada… até eu olhar por tempo suficiente.

Eram minhas iniciais e minha data de nascimento numa sequência que só alguém que me conhecesse há oito anos pensaria em juntar.

Fechei o laptop e fiquei um tempão sentada na cozinha.

Ele não está mais só observando das margens.

Ele esteve dentro da história o tempo todo.

Estou escrevendo isso porque não sei mais o que fazer com essa história. A polícia precisa de um crime. Meus amigos precisam de algo que consigam imaginar. Meu advogado precisa de prova que aguente um processo.

Tudo que eu tenho é um homem que salvou minha vida duas vezes. Um homem atencioso, paciente, que planeja as coisas com muita antecedência e nunca, em momento nenhum, levantou a voz, fez ameaça ou fez qualquer coisa que parecesse alguma coisa pra quem não soubesse exatamente o que estava olhando.

Fico pensando no que ele falou, parado naquela calçada com as mãos nos meus braços e o carro já longe.

“Você precisa tomar mais cuidado.”

Na hora achei que era alívio misturado com susto. Achei que era preocupação.

Fiquei repassando e não consigo chegar em alívio. Não consigo chegar em preocupação.

Soa como instrução. Soa como algo que você fala pra alguém cuja sobrevivência você decidiu que é sua responsabilidade.

Soa como uma promessa.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma Noite, Quando Eu Era Adolescente, o Diabo Me Atacou num Cemitério Enquanto Eu Tentava Salvar um Fantasma

Uma névoa densa cobria o velho cemitério, as lápides cobertas de musgo tomadas por mato e grama alta. O ar da primavera estava frio, mas agradável, as folhas só começando a brotar nas árvores altas que pendiam sobre a cerca toda quebrada. Eu percebia que o Quincy estava ficando nervoso. Ele apertava o Rosário que eu tinha dado pra ele bem junto do peito, enquanto a respiração pesada dele virava fumaça no ar.

“Não sei não, cara.” A voz dele era um sussurro que escondia o medo por trás de um véu de preocupação.

“Relaxa, mano.” Eu disse calmamente, me apoiando de boa na pá que tinha trazido. Nós dois éramos adolescentes mais velhos na época. Eu sempre agia como se tivesse tudo na mão. Só quando você fica mais velho é que começa a ver o quanto, na real, você não sabe porra nenhuma.

Sob a luz da lua cheia, um espectro começou a se formar. No começo ela apareceu como névoa no vento, algo que qualquer cético podia facilmente falar que era truque de luz. Mas devagar a forma dela foi aparecendo. Cabelo longo, vestido vitoriano e aqueles olhos que pareciam tão desesperadamente vivos, mesmo sendo de fantasma.

“Puta merda.” Quincy tremia nos joelhos, apertando o crucifixo na ponta do Rosário com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. “Você não tava mentindo. Ela é de verdade.”

A primeira vez que eu vi a dama de branco eu tinha treze anos. Eu cresci com meus avós depois que meus pais morreram num acidente de carro. Nem preciso dizer que não rolava supervisão nenhuma na minha criação. Eu saía escondido de casa de madrugada pra encontrar meus amigos delinquentes. Uma noite eu peguei um atalho pra casa pelo meio do mato e acabei tropeçando nesse cemitério antigo que guardava aquela figura misteriosa.

No começo eu fiquei de longe, observando a aparição andar de um lado pro outro no cemitério através dos galhos das árvores retorcidas. Ela chorava com o rosto nas mãos, mas nenhuma lágrima saía dos olhos dela. Eu voltava noite após noite, me aproximando aos poucos da cerca dilapidada. A primeira vez que ela me viu, eu corri, mas quando olhei pra trás tinha um olhar triste pra caralho no rosto dela. Ela estava sozinha. Eu me aproximei com cuidado. Os olhos dela cravaram em mim com uma tristeza profunda, impossível de descrever. Eu não fazia a menor ideia de como algo tão morto podia ter olhos que queimavam com tanta emoção.

“Claro que ela é real.” Eu me virei pra pegar a bolsa que tinha deixado atrás de mim. Os ossos lá dentro chacoalharam quando eu joguei no ombro. “Lembra do plano. Pelo amor de Deus, não fode tudo.”

Eu comecei a andar na direção da dama, a forma transparente dela flutuando suave na minha direção. Um sorriso quente se abriu nos lábios dela enquanto a mão se estendia pra tocar meu rosto. Estava gelada pra porra. Eu fiz o meu melhor pra retribuir o sorriso. Os dedos dela entraram flutuando no meu crânio de qualquer jeito, mandando calafrios ricocheteando pelas minhas entranhas.

“Que tipo de rolo você tem com essa morta, cara?”

A pergunta do Quincy era chata, mas não era inesperada nem sem razão. Com o tempo eu tinha criado um relacionamento estranho pra caralho com a aparição. A dama olhou pro Quincy com desconfiança.

“Tá tudo bem.” Eu disse. “Ele veio pra ajudar.”

“Você tá tranquilizando um fantasma pra ele não achar que eu sou problema?”

Eu não tinha energia nem saco pra responder a preocupação do Quincy. A dama flutuou mais pra dentro do cemitério e nós fomos atrás.

Levou um tempão pra eu descobrir quem era a dama. Passei horas da minha adolescência fuçando os arquivos locais da biblioteca. Não era exatamente o que a gente imagina pros anos de adolescente. Mas no final eu descobri a identidade dela e o que precisava fazer pra ela descansar em paz. Foi por isso que levei o Quincy naquela noite. Ele não era exatamente a pessoa mais esperta do mundo, mas era o único amigo de verdade que eu tinha. Pensando agora, se ele fosse um pouquinho mais esperto não teria me seguido até lá naquela noite. Por outro lado, se eu fosse um pouquinho mais esperto não teria levado ele.

Quincy olhou pra bolsa que eu carregava no ombro. “Isso aí é o que eu tô pensando?”

“É.” Eu disse na boa, usando a pá como bengala enquanto a gente andava.

“Como você achou o filho dela?”

Eu suspirei. “Nem pergunta.”

No final chegamos no túmulo. O fantasma olhou pra própria lápide. Tanto tempo tinha passado que o nome dela tinha corroído e agora era só uma placa de pedra coberta de musgo. Eu me virei pro Quincy.

“Quando eu começar a cavar, você começa a rezar o Rosário. Não para por nada, não importa o que aconteça. Sacou?”

“É, cara, saquei.”

“Promete?”

“Prometo, cara.” Eu comecei a cavar e o Quincy começou a rezar.

O nome da morta era Abigail Witherspot. Até hoje eu não sei a história inteira. O filho dela foi assassinado e ela morreu logo depois. Por motivos que eu só posso imaginar que eram malignos pra caralho, ela foi enterrada absurdamente longe do filho. Eu tive que dirigir até outro estado pra pegar o corpo dele. Foi foda explicar pros meus avós, eu tive que usar o carro deles.

Alguém realmente maligno se esforçou pra cacete pra manter os dois separados. A alma dela não conseguia descansar tão longe do filho e eu senti que era meu dever ajudar. Eu entrei nessa de cabeça, sem fazer a menor ideia do mal de verdade que espreitava naquele cemitério antigo.

O maior erro que eu cometi naquela noite foi fazer o Quincy rezar o Rosário. Ele não era um crente de verdade, eu era. Eu pensei que assim que ele visse o fantasma ia ter que acreditar, simples assim. Acho que fé não funciona desse jeito. Puta que pariu, os apóstolos continuaram duvidando de Cristo mesmo depois de ver ele andando sobre as águas. Nós humanos somos volúveis pra caralho, duvidamos de tudo, menos das mentiras que contamos pra nós mesmos.

Não sei quanto tempo levou pra eu chegar no corpo. A pilha de terra do lado do túmulo estava ridiculamente grande e, apesar da noite fria, o suor encharcava minha roupa. A voz do Quincy já estava rouca de tanto rezar sem parar. Ele não tirava os olhos da Abigail, que flutuava em círculos em volta do túmulo enquanto eu trabalhava. No final os ossos dela apareceram. Eu limpei a terra e arrumei do jeito mais respeitoso que consegui. Fico imaginando como deve ter sido pra ela olhar pros próprios ossos.

As coisas deram errado quando eu ouvi o Quincy tropeçar na oração. Eu virei a cabeça rápido e gritei: “Eu te falei pra não parar!”

Sem eu saber, ele tinha visto uma figura bem longe no mato. Ela tinha um sorriso mais escuro que a noite, com dentes brancos o suficiente pra refletir o luar pálido. Dizem que o Maligno toma muitas formas. A forma que ele assumiu naquela noite fica gravada na minha cabeça até hoje.

O Quincy tentou voltar a rezar, mas já era tarde. Eu estiquei a mão rápido pra pegar a bolsa com os ossos que tinha deixado na beira do túmulo, mas uma raiz enorme brotou da terra e enrolou no meu tornozelo. Acho que a mesma coisa rolou com o Quincy, porque ouvi ele gritar.

A forma fantasmagórica da Abigail mostrou pânico, mas ela estava completamente impotente. Eu cravei as unhas na borda gramada do buraco enquanto as raízes começavam a me puxar. O Maligno pairava acima de mim como se fosse parte do céu, a boca um buraco escancarado mais escuro que os cantos mais negros da noite mais profunda. A risada dele era sedosa e sobrenatural, tipo o eco infinito de sinos numa caverna gigantesca.

Eu consegui agarrar a ponta da bolsa e arrastei ela pro túmulo junto comigo. Os ossos se espalharam na terra enquanto meus tornozelos afundavam no solo. A risada continuava enquanto a forma encurvada do Maligno pairava sobre o buraco aberto. A manifestação dele era realmente indescritível, parecia meio humano mas totalmente desencarnado. Minhas mãos procuravam freneticamente dentro do túmulo aberto enquanto meus joelhos entravam na terra que devorava tudo. Meus dedos passaram por cima dos restos da Abigail e do filho dela até eu achar o pequeno frasco de vidro. Eu tinha colocado ele na bolsa junto com os ossos. Era água benta, essencial pra última parte do ritual.

Antes que eu conseguisse tirar a tampa, mais raízes brotaram e se enrolaram nos meus dois pulsos. A risada chegou no auge enquanto meus braços eram puxados pro chão, minha coluna arqueando pra trás. Com toda a força que eu tinha, apertei o frasco e quebrei o vidro.

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!” Eu joguei a água benta em cima dos ossos. Alguns cacos de vidro voaram junto, outros ficaram cravados na minha palma. Houve um silêncio ensurdecedor enquanto as raízes pararam imóveis. Eu ofegava, a adrenalina ainda correndo solta no meu corpo.

“Ron!” Eu ouvi o Quincy gritar. “Me ajuda!”

Eu me livrei das raízes que agora estavam paradas. Ignorando o vidro cravado na mão, saí engatinhando do buraco. O Quincy estava quase com o pescoço enterrado, um braço visível arranhando a grama desesperado. Apesar de tudo, eu ri da cena.

“Isso não tem graça nenhuma!” Ele reclamou enquanto conseguia tirar o outro braço da terra e lutava pra subir.

“Obrigada.”

As palavras doces e suaves me pegaram de surpresa. Eu me virei e vi a Abigail. Cor tinha voltado pro que agora parecia mais carne do que fantasma. Ao mesmo tempo, a forma dela estava sumindo, como névoa se dissipando numa manhã de nevoeiro. Os lábios vermelhos dela sorriram com uma alegria tão grande enquanto ela segurava a mão do filhinho. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eles desapareciam de vista, os dois acenando tchau.

“Eu nunca mais vou sair com você.” Quincy ofegava enquanto finalmente ficava de pé.

“É,” eu disse, fazendo careta enquanto tirava os cacos de vidro da palma da mão. “Não te culpo.”

Muitos anos já se passaram desde aquela noite. Hoje eu sou caçador de fantasmas e exorcista, especializado em espíritos que não conseguem descansar. Eu penso naquela noite com frequência. Meu maior arrependimento foi ter levado o Quincy junto. O conhecimento do sobrenatural pesou demais na consciência dele. Ele começou a beber e acabou morrendo num acidente de carro que, estranhamente, foi igualzinho ao dos meus pais. Às vezes eu me pergunto se essas coincidências esquisitas são o Maligno zoando comigo, tentando me tirar do caminho. Mas eu não vou vacilar. Assim como os apóstolos, eu tenho meus momentos de dúvida, mas depois que você viu o mal de verdade, não tem outra escolha senão colocar toda a sua fé no bem.

Vem Dançar, É Só Natural...

Eu estava sentado num estacionamento antigo, vendo as chamas consumirem o que restava desse lugar maldito, com meu namorado maravilhoso, o Dan, bem do meu lado, me puxando pra perto dele. Os bombeiros deram tudo de si pra apagar o que tinha sido incendiado, os policiais tagarelando sem parar enquanto o Dan fazia sua mágica conversando com eles.

Eu ficava olhando a fumaça preta subindo, dançando como um vazio sem forma... bem parecido com o vazio sem forma que eu tinha visto lá dentro daquele lugar.

A escuridão... Isso tudo começou mais ou menos quatro semanas atrás. O Dan me falou: “Lonny, a gente precisa de mais emoção nas nossas vidas.” Eu ri e comecei a pensar se ele não tinha razão — e caralho, ele tinha mesmo. O Dan trabalha no hospital da cidade e eu trabalho de casa num suporte técnico.

A gente tinha caído naquela rotina chata que quase todo casal de longo tempo acaba caindo, ficando confortável demais e sem graça pra porra.

Eu e o Dan somos viciados assumidos em histórias de fantasma e filme de terror, então naturalmente nossos interesses vão pras coisas mórbidas e pros lugares assombrados que esse mundo tem pra oferecer. Eu comecei a pesquisar lugares curiosamente sombrios pra fazer um bate-volta, porque nossos dias de folga são poucos e bem espaçados.

Infelizmente, as únicas opções eram uma biblioteca creepy duas cidades pra lá e um centro recreativo no condado vizinho onde uns moleques tinham sido atacados no começo dos anos 90.

Eu adoraria ter ido pra cabana do massacre de Wood Creek, mas isso ficava lá pro norte do estado, longe pra caralho. Achei que não tinha mais jeito até tropeçar num lugar bem no nosso quintal: um nightclub abandonado chamado The Royal Club.

Eu nunca tinha ouvido falar, mas fiquei imediatamente fisgado enquanto fuçava a história do lugar. Começou como um acampamento de lenhadores nos anos 1850, onde um dos caras pirou uma noite e cravou um machado na cara de outro só porque ele trapaceou no carteado. Eles enforcaram o doido na hora.

Avança uns 60 anos e vira um speakeasy nos anos 20. Nada demais, só uns overdoses acidentais de heroína e morfina, nada muito violento.

Nos anos 30 virou ponto de parada pra criminosos e contrabandistas exibirem suas mercadorias sujas e fecharem negócios. Aparentemente rolou uns desaparecimentos de gangue.

Aí por volta de 1960 mudou de dono por uma mixaria e foi reformado num point bombado chamado Royal Club, que bombou até 1967. Numa noite quente de verão estourou um incêndio depois que alguém jogou um cigarro aceso num vaso sem ver que estava cheio de plantas de plástico.

O fogo se espalhou rapidinho, incendiando as decorações secas que pegaram como palha, e sem sistema de sprinklers moderno o interior virou cinza. Quando acabou, trinta pessoas tinham assado que nem peru de Ação de Graças. Mais uma vez o clube mudou de dono, e em 1981 outro cara reformou tudo e deixou funcionando de novo.

Tudo parecia tranquilo até 1996, quando a tragédia bateu de novo: um ex-funcionário pegou uma espingarda calibre 12 e surtou, metralhou o lugar, matou doze pessoas e depois se matou. Depois disso o lugar foi fechado pra sempre e abandonado completamente assim que a polícia terminou de recolher as provas e tirar os corpos.

O estranho pra caralho é que mal se falava de qualquer uma dessas coisas. A maioria dos artigos era curtinha, sem nada na mídia nacional. Alguém tinha grana pesada ou chantagem nas pessoas certas pra manter tudo abafado. De qualquer jeito, eu estava completamente vidrado nisso. Liguei pra minha irmã mais velha, que é millennial raiz, e perguntei se ela tinha ouvido falar do clube.

Depois que eu terminei de falar sem parar no telefone, ela ficou quieta um segundo: “Lonny, só você mesmo pra pensar na coisa mais mórbida possível e sair correndo atrás.” Eu respondi: “Me processa, eu gosto dessa merda. Então, você lembra desse lugar ou não?”

Ela ficou mais um tempinho em silêncio e falou: “A gente era novo demais pra entrar quando estava aberto, mas depois de toda aquela merda a gente ficava bem longe. Tinha uma vibe tão sinistra não importava o que acontecia. Só me promete que vai tomar cuidado quando for, tá? Por mim?” Eu suspirei: “Claro, mana, valeu pela info! Vou levar o Dan comigo, então a gente deve ficar de boa. Te amo, mana!”

Na noite seguinte, comendo comida chinesa, contei tudo pro Dan e joguei minha ideia. “Parece divertido, mas eu só quero olhar, nada de invasão que nem aqueles urbex do YouTube.” Eu sorri enquanto enchia a colher de arroz frito com porco: “Claro que sem invasão, mas eu quero tirar umas fotos boas por lá.”

Eu tinha guardado dinheiro o ano inteiro pra comprar uma câmera top de linha, mas ainda não tinha usado direito. Achei que não tinha hora melhor que esse final de semana que a gente planejou. Escolhemos o sábado seguinte porque o Dan finalmente tinha folga, embora aquela frase da minha irmã tivesse me deixado um pouco inquieto.

Mesmo assim, o dia chegou e a gente saiu no fim da manhã, câmera na mão, prontos pra uma aventura de verdade. Eram só uns vinte minutos de carro até o Royal Club, na saída da cidade, mas a gente estava bem relaxado.

Paramos pra pegar um almoço cedo pra encher o tanque e eu ainda tirei umas fotos saindo da cidade. Peguei mais umas da paisagem rural enquanto a gente se aproximava do lugar.

A gente pegou um caminhozinho de terra esburacado saindo da estrada principal, mas não demorou até aparecer o estacionamento antigo do clube, o asfalto todo rachado e esburacado de tanto abandono. “Tá pronto pra isso?”, perguntou o Dan. “Tô, só me dá um segundinho...” Precisei trocar o cartão SD por um vazio.

Quando desci do carro, dei uma boa olhada no Royal Club: um prédio baixo, cinza desbotado, com uns detalhes art déco, mas fora isso bem sem graça.

As janelas estavam cobertas de compensado, mas algumas tinham caído, deixando ver o vidro quebrado. Dava pra ver a placa de neon escrito “ROYAL”, só que o Y e o A tinham despencado, os pedaços jogados no chão bem na frente das portas principais.

Eu comecei a fotografar com calma, pegando ângulos diferentes, luzes diferentes, tentando capturar a alma daquele lugar.

Enquanto eu chegava mais perto, um vento forte subiu e me deu um calafrio que desceu até a espinha. Ele soprou as portas da frente abrindo, com as fitas de isolamento da polícia rasgadas balançando na brisa. “Ei Dan, olha isso.” O Dan se virou: “Foi você que abriu essas, Lon?”

Eu olhei pra ele: “Não, o vento veio e elas se abriram sozinhas.” A gente se aproximou pra espiar lá dentro: só um vórtice negro onde a luz morria.

Eu e o Dan trocamos um olhar. “A gente deve...?” “Você disse que...” O Dan deu mais um passo: “Eu sei, mas tá tentador demais pra não entrar, né?” Eu assenti e a gente entrou. Assim que cruzamos a porta, uma sensação ruim apertou meu estômago.

Quando os olhos acostumaram com a escuridão, a gente viu o lugar direito: um monte de cadeiras empilhadas em cima das mesas, algumas caídas no chão.

Tinha uma pista de dança enorme com luzes penduradas em cima, um bar vazio à direita e duas portas marcadas MEN e WOMEN — obviamente os banheiros. O ar estava meio mofado, com um leve cheiro de pólvora e álcool velho.

O lugar tinha a cara e a vibe dos anos 90 com certeza, tipo uma cápsula do tempo sinistra congelada em 1996. “Lonny, esse lugar é... puta merda, esse lugar é louco.”

Eu comecei a tirar fotos: “Eu sei, eu sei, e tem uma energia pesada pra caralho, bem... opressiva.” O Dan foi até uma porta à esquerda da pista marcada STAFF ONLY e espiou: “Parece a cozinha aqui.”

Eu me aproximei da pista de dança gasta, curioso pra ver como estava depois de trinta anos de abandono. Surpreendentemente não parecia estragada, até parecia... polida.

Tirei umas fotos enquanto o Dan foi pro bar, pegou um livrinho de fósforos antigo: “Olha só isso.” Eu baixei a câmera e pisei por cima de um pedaço de carpete com uma mancha enorme — provavelmente sangue.

“Bem, é um livrinho de fósforos, Dan. O que tem de especial?” Ele virou nas mãos: “Tá quase novinho. Depois de trinta anos você esperaria que tudo aqui estivesse bem mais... acabado, né?”

Eu peguei da mão dele e olhei de perto. O nome ROYAL CLUB em letras brilhantes parecia recém-saído da caixa. “Você pensaria que pelo menos teria poeira...” O Dan passou o dedo no balcão e levantou: “Aqui também não tem...” Achei estranho pra caralho não ter nem poeira, mas coisas mais estranhas já aconteceram.

Olhei ao redor do salão inteiro e não conseguia parar de sentir que tudo ali parecia... montado, sabe? Como se estivesse esperando alguém chegar pra usar o espaço pra dançar e se divertir como era pra ser, mas tinha algo errado, tipo cenário de peça de teatro, tudo certinho demais.

Meu arrepio não passava nem com o Dan ali. Normalmente eu vivo pra esse tipo de coisa, mas meus alarmes internos estavam tocando baixinho no fundo da cabeça. Distraidamente guardei o livrinho de fósforos no bolso e tirei mais umas fotos.

O Dan andava pela sala absorvendo tudo e eu juro que ouvi uns sons fracos de música, talvez até risada. “Dan, você tá ouvindo isso?”

Ele se virou pra mim, já parado no meio da pista. Olhou ao redor confuso e me deu um olhar estranho. “Acho que sim... pode ser o vento? Tipo aquele de antes?”

Eu olhei ao redor nervoso, a inquietação já batendo forte: “Quero tirar mais umas fotos e vazar daqui.” O Dan, sentindo meu desconforto, tentou aliviar o clima fazendo uma pose idiota de He-Man: “Aqui uma foto de gostosão premiada pra você, amor!”

Eu ri e respondi seco: “Tão gostoso, mal posso esperar pra comer essa delícia mais tarde.” O Dan riu, se endireitou e veio andando na minha direção quando parou de repente no meio da pista, o olhar mudando totalmente.

“Antes de ir embora, você dança um pouquinho comigo, Lonny?” Eu fiquei olhando pro Dan, pronto pra dizer não, vamos cair fora... mas algo bem lá no fundo de mim foi puxado de repente pra pista, de um jeito demoníaco.

Meus pés me levaram pra frente sozinhos, não por minha vontade, mas por algo maior, algo sobrenatural e irresistivelmente sedutor. Quando minhas mãos se entrelaçaram com as dele, as luzes de cima acenderam sozinhas, banhando a gente num brilho estranho e suave.

Eu ouvia a música de antes, só que bem mais alta agora — uma mistura louca de melodias e letras diferentes se sobrepondo, mas ainda assim estranhamente agradável.

A gente começou devagar, mas logo entrou num ritmo que batia certinho com aquela música esquisita. Olhar nos olhos do Dan e ele nos meus nesse transe estranho era eufórico pra caralho, parecia um cobertor quentinho nos envolvendo enquanto dançávamos.

Pelo canto do olho eu via outras pessoas dançando também, todos compartilhando a pista sem nunca se esbarrar.

Eu e o Dan continuamos assim por não sei quanto tempo até a música virar um caos total e os movimentos ficarem frenéticos. Foi quando ouvi um toque agudo e estridente. Era meu celular, graças a Deus — aquilo nos arrancou do transe na hora. Tudo parou de repente.

As luzes ainda nos banhavam naquele brilho sinistro enquanto eu via direito nossos parceiros de dança ao redor.

Pessoas de todos os tipos, roupas de quase cem anos de moda diferentes, uma parada macabra de rostos fantasmagóricos e ferimentos horríveis.

Eu soltei um grito quando vi uma flapper com seringa pendurada no braço dançando com um lenhador que tinha um machado cravado na cabeça. Um cara de jeans folgados dos anos 90 com um terço da cabeça faltando dançava com uma mina de botas go-go cujo lado direito inteiro do corpo estava carbonizado.

Tinha um monte de cadáveres furados de bala e queimados ao nosso redor, sentados nas mesas e no bar. Um homem de terno risca-de-giz com a garganta cortada me deu um sorriso que sabia demais. Meu estômago despencou e um calafrio gelado subiu pela minha coluna enquanto eu falava o mais calmo que consegui: “Dan, vamos dar o fora daqui agora, porra.”

A gente saiu da pista correndo pras portas da frente, mas elas bateram com tudo e algumas mesas voaram na nossa frente, bloqueando o caminho. A gente se virou e viu a multidão inteira nos encarando, olhos mortos nos chamando pra entrar na festa do inferno.

Foi aí que eu vi de relance aquela coisa preta sem forma no canto — um vazio do mal mais profundo e escuro, e estava “olhando” pra gente. “Dan... que porra é essa?” O Dan olhou na mesma direção: “Caralho...”

A gente ficou paralisado. Meu corpo inteiro gelou, pele arrepiando sem controle. A coisa sombra se retorceu e se moldou até virar um rosto demoníaco que nos deu um sorriso que eu nunca mais vou esquecer.

Meu instinto de luta ou fuga ligou no talo. Olhei desesperado pra qualquer saída daquele buraco do inferno. Agarrei o Dan e corri pras portas da cozinha enquanto garrafas vazias e cadeiras voavam passando por nós, quebrando tudo.

A gente irrompeu pela porta e tentou barricar na hora, mesmo sabendo que aquelas coisas entrariam se quisessem.

O Dan viu a porta dos fundos antes de mim e me puxou pra lá. Estava bloqueada por um armário pesado: “Empurra, Lonny!” “Tô tentando!” O barulho lá fora virou um caos de risadas, gritos, música berrando — puro som do inferno solto.

Eu me virei e vi as portas da cozinha chacoalhando, luz vazando pelas frestas e tentáculos pretos se enfiando por baixo.

Olhei pra tudo desesperado, procurando qualquer coisa. Vi uma janela acima da pia suja, corri, subi, mas a porra da janela estava emperrada. O Dan veio correndo com um extintor velho.

“Sai da frente!” Com um smash perfeito ele estourou o vidro e limpou o caminho. Estendeu a mão: “Vem!” Não sei de onde veio o pensamento — se era meu ou não —, mas só conseguia pensar: QUEIMA, QUEIMA TUDO!

“Lonny, que porra você tá fazendo?!” Eu corri pro armário, procurando qualquer coisa inflamável. Achei uma garrafa de licor de alta prova. Peguei uma toalha nojenta, fui pro fogão industrial, abri todas as válvulas de gás (ainda estava ligado, graças a Deus).

Corri pro Dan, subi na pia enquanto o cheiro forte de gás tomava a cozinha. O Dan pulou primeiro e me puxou pra baixo. Eu escorreguei e caí de costas. Ele me levantou na hora e eu peguei o livrinho de fósforos do bolso.

Transformei a toalha velha e a garrafa num molotov improvisado. Acendi aquela filha da puta e, com um grito desesperado final, joguei aquela bola de fogo de volta pela janela aberta, torcendo pra acabar com aquele lugar horrível de uma vez por todas.

Ouvi o vidro quebrar e um “whoosh” quando o álcool pegou fogo. Tudo pareceu ficar em câmera lenta enquanto o Dan me agarrou e a gente correu pra caralho antes da explosão inevitável nos derrubar. Ainda bem que estávamos longe o suficiente pra não virar picadinho.

A gente ouviu um grito sobrenatural de raiva que me fez olhar pra trás. Atrás da gente as chamas subiram enlouquecidas, uma luz forte subindo pro céu. Juro que vi pessoas... subindo direto pro céu.

Eu quase desmaiei, mas segurei firme. A gente tinha que voltar pro carro, ligar pras autoridades e combinar nossa história.

A gente cambaleou de volta pro carro, sem fôlego e mentalmente destruídos. “Que porra a gente conta pros policiais? Que a gente cometeu incêndio criminoso porque viu fantasma?”

O Dan pegou o celular e começou a discar: “Eu conheço um cara na delegacia do xerife. Vou falar que a gente estava fazendo trilha, tirando fotos da natureza, viu fumaça e tentou ajudar. Tomara que engulam...”

Eu abri a porta do carro e troquei o cartão SD de novo — pelo menos as fotos que tirei antes podiam ajudar na história.

E agora a gente voltou pro começo: sentado no mesmo estacionamento, vendo o resto desse lugar maligno ser consumido pelo fogo. Só chegamos em casa de noite. Os policiais engoliram nossa história furada de “passeio na natureza”. Pensando bem, um passeio na natureza teria sido bem melhor.

Eu não consegui dormir direito nos dias seguintes, nem o Dan. A gente ainda estava assombrado pra caralho por aquele lugar. Estávamos tentando voltar à normalidade, então enquanto eu fazia roupa suja achei o cartão SD que tinha enfiado no bolso.

Com o coração na mão, coloquei no laptop e comecei a ver as fotos do Royal Club.

As fotos pareciam normais até eu olhar melhor. Todas as fotos tiradas lá dentro tinham uma mancha escura. Todas, porra. Em algum canto do quadro, sempre ali, escondida à vista de todos.

Isso me fez pensar que aquela coisa estava esperando a gente o tempo todo, esperando pra levar a gente e nos manter lá como todos aqueles pobres coitados.

Depois que apagaram o fogo e começaram a investigar, concluíram que foi um “vazamento acidental” de gás que iniciou o incêndio. O que realmente me aterroriza é que, enquanto tiravam os escombros, levantaram o chão da pista de dança e acharam pilhas de ossos embaixo.

Eram ossos ligados a desaparecimentos da região nos últimos 30 anos. Então essa coisa deve ter ficado protegida dentro do clube abandonado, sugando almas por sabe-se lá qual motivo.

Acho que perdi isso na minha pesquisa. Ultimamente tenho tido uma sensação horrível de que seja lá o que morava lá agora está solto por nossa causa.

Está livre pra vagar por onde quiser e se instalar num lugar novo. Então se você tiver vontade de explorar um prédio abandonado ou uma casa velha, toma cuidado.

Se seus amigos te chamarem pro clube pra curtir, redobre a atenção. Você nunca sabe quando vão te chamar pra entrar na dança...
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