sábado, 28 de fevereiro de 2026

Eu Trabalho com Cuidados Paliativos, e Estamos Escondendo o que Realmente Acontece Depois que Você Morre...

Preciso deixar isso registrado em algum lugar.

Eu trabalho com cuidados paliativos. Se você imagina uma unidade de cuidados paliativos como um lugar quieto e na penumbra, onde as pessoas partem suavemente em camas limpas com suas famílias segurando suas mãos, você está imaginando a versão que ainda vendemos nos folhetos. Você não está imaginando o trabalho real que fazemos, que é o gerenciamento de tempo.

Notei o problema pela primeira vez quando os pacientes pararam de chegar sentindo dor. Isso soa como uma coisa boa, certo?

Cerca de um ou dois anos atrás, mudamos nosso fluxo de admissão para pacientes em fim de vida. Transferências mais rápidas e escalonamento mais rápido de ordens de "apenas medidas de conforto". A linguagem que usamos é "redução do sofrimento". O que realmente queremos dizer é "redução de desperdício".

O que mudou clinicamente é simples. Ficamos muito bons em desligar órgãos. Eu só não entendia o que acontecia depois.

O primeiro paciente que me fez prestar atenção foi um homem na casa dos oitenta anos com câncer pancreático metastático. Ele parou de responder a estímulos às 2:11 da manhã. Às 2:18, seus sinais vitais estavam quase ilegíveis. Às 2:25, ele atendeu aos critérios para a fase ativa da morte. Às 2:27, seu prontuário já estava sinalizado para transferência expressa aos serviços pós-morte. Ele nunca acordou.

Fui designado para ficar sentado com ele enquanto sua família saía para falar com a assistência social. É uma prática comum. Chamamos de "cuidados de presença". Fiquei de pé do lado direito dele e li silenciosamente seu monitor.

E então eu vi.

Uma lágrima escorreu de lado pelo canto do olho esquerdo dele. Documentei que foi reflexo. É o que fomos treinados a escrever. Então, vi ele levantar lentamente dois dedos. Dois dedos. Apenas o tempo suficiente para eu ver suas unhas. A linguagem dos prontuários é muito indulgente. Você pode explicar quase qualquer coisa. Mas quando isso continua acontecendo, em diferentes diagnósticos, diferentes idades, deixa de ser coincidência.

O que ninguém te conta sobre trabalhar em cuidados paliativos é que a maior parte do seu trabalho não é cuidar de pessoas morrendo. É proteger o sistema daquilo que as pessoas morrendo complicariam.

Nós não testamos realmente a consciência após a falência dos órgãos. Testamos a resposta. Essas não são a mesma coisa. Existe uma janela estreita entre o momento em que o corpo não consegue mais se sustentar e o momento em que o cérebro para de manter a consciência interna. A janela costumava ser pequena o suficiente para ninguém se importar. A dor e o pânico faziam o trabalho por nós.

A medicina moderna de fim de vida mudou isso. Nós estabilizamos apenas o tempo suficiente para desligar todo o resto gentilmente. O que nunca reprojetamos foi a suposição de que a consciência entra em colapso junto com o corpo. Ela não entra. Ela persiste. Provamos isso por acidente.

Uma unidade de pesquisa em outra ala estava testando o monitoramento contínuo de EEG para otimização da sedação. Nem era sobre a morte, mas sobre reduzir custos de medicação e encurtar os cronogramas médios de cuidados de conforto. Precisamos ganhar dinheiro de algum jeito, eu acho.

Um paciente entrou em falência múltipla de órgãos completa durante o monitoramento. A máquina continuou rodando. Um médico notou atividade padronizada sustentada muito tempo após o colapso respiratório. Por quase três dias inteiros.

A revisão interna rotulou isso como "sinal pós-falência não interpretável". Essa frase agora é oficial. Não interpretável.

Eu vi o memorando interno porque eu assino os protocolos de conforto. Foi enviado aos chefes de departamento com uma recomendação clara. "Não alterar as definições de morte voltadas ao público". Não expandir o monitoramento. Não documentar hipótese de consciência residual. Não discutir com as famílias.

Se redefinirmos a morte para incluir o fim da consciência em vez do fim da função dos órgãos, tudo desmorona. O agendamento de transplantes entra em colapso. O cronograma dos seguros de saúde entra em colapso. O próprio sistema de saúde entra em colapso, porque essa indústria é financiada e auditada em torno da eficiência com que as pessoas deixam de ser faturáveis. Precisávamos de uma maneira de projetar a espera para ser invisível.

É isso que o cronograma de sedação realmente faz. Oficialmente, é titulação baseada no conforto. Não oficialmente, alinha-se com as janelas de pico. Existe um padrão previsível agora. Entre doze e dezoito horas após a falência sistêmica total, a atividade cortical residual aumenta. Em outras palavras, a consciência. A habilidade de reconhecer. É quando os movimentos começam, as lágrimas, os dedos. É quando somos instruídos a aumentar a dose, não porque os pacientes estão sofrendo, mas porque estão se tornando detectáveis.

Eu não aceitei totalmente isso até ficar tempo suficiente com uma paciente para ver a repetição.

O nome dela era Maribel. Insuficiência cardíaca em estágio terminal. Suporte respiratório retirado, apenas medidas de conforto. O marido dela ficou sentado com ela a maior parte do dia, apenas segurando a mão dela. Quando ele foi embora, eu assumi o turno da noite.

À 1:42 da manhã, ela levantou o dedo indicador direito.

À 1:44, de novo.

À 1:46, de novo.

Ela não estava tendo espasmos, ela estava marcando o tempo.

Na noite seguinte, um paciente diferente. Três movimentos curtos da mandíbula. Pausa. Mais três movimentos curtos da mandíbula. Pausa.

É impressionante a rapidez com que o cérebro humano procura por padrões quando você se permite vê-los. Nós fazemos rodízio de equipe agressivamente na nossa unidade. Quanto mais tempo você fica com um paciente, maior a probabilidade de notar a consistência. Quanto mais tempo você fica no mesmo corredor, maior a probabilidade de notar que a consistência se espalha.

Porque os pacientes conseguem ouvir, mesmo quando não conseguem responder. Mesmo quando seus corpos já estão sendo tratados como objetos logísticos. A consciência não desaparece quando seus órgãos param. Ela fica presa dentro de um corpo que não se move mais. A espera não é pacífica. Você sente o tubo de sucção. Você sente a cama se ajustar. Você ouve seu nome sendo dito cuidadosamente, do jeito que a equipe fala quando acredita que você não está lá. Você ouve sua família sendo informada de que você está confortável. Você ouve o silêncio depois. E você espera.

Nós não contamos isso às famílias. Contamos o que somos legalmente autorizados a contar: que seu ente querido está descansando. Contamos que o corpo está se desligando naturalmente. Não contamos que a mente ainda está rodando com oxigênio emprestado e química residual.

Finalmente quebrei o protocolo três semanas atrás. Uma mulher na casa dos quarenta. Glioblastoma. Envolvimento neurológico grave. A irmã dela estava sentada ao lado da cama e sussurrou: "Se você consegue me ouvir, aperte minha mão". Nada aconteceu, mas eu já tinha aprendido a parar de olhar para as mãos.

Eu observei a mandíbula dela.

Abre, Fecha.

Pausa.

Abre, Fecha.

Pausa.

Inclinei-me para perto e falei baixo. "Se você consegue me ouvir, mova sua mandíbula uma vez."

Abre, Fecha.

Foi tão pequeno que quase me convenci de que era movimento de ar. A irmã dela viu também. Falei para ela ir pegar um café.

Documentei agitação no prontuário. Aumentei a sedação. É isso que me mantém empregado. É isso que mantém a unidade operando.

Existe um problema agora, cuidados paliativos em casa são mais baratos. As famílias estão instalando câmeras. Câmeras minúsculas com visão noturna e sensibilidade sonora. As pessoas estão assistindo agora, dando replay. Elas agora conseguem ver o mesmo levantar de dedo. Os mesmos padrões de mandíbula. Os mesmos rastros de lágrimas. Elas estão postando perguntas em grupos de cuidadores. Estão usando palavras como "espasmo" e "reflexo" e "provavelmente nada". No começo, mas depois elas comparam. A espera tem um ritmo.

Estou escrevendo isso porque li as projeções internas. Assim que isso atingir um certo limite de reconhecimento público, a resposta não será reforma, será automação. Mais sedação, sedação mais cedo, sedação mais profunda. Não para reduzir o sofrimento, mas para reduzir a detecção.

Eles não entram em pânico quando há um problema moral. Eles só entram em pânico quando há um problema de agendamento. O dinheiro precisa continuar circulando.

Nós resolvemos a morte, nós a otimizamos. Fizemos com que ela coubesse perfeitamente dentro de contratos, ciclos de faturamento e softwares de gerenciamento de leitos. O que criamos acidentalmente é algo muito mais difícil de gerenciar. Uma população de pessoas que ainda está aqui, e não tem para onde ir, e nenhuma maneira de dizer quanto tempo a espera realmente dura.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Eu sei quem roubou a sua alma

A gente costuma assumir que as nossas almas (se é que a gente acredita em alma) ficam em algum lugar dentro de nós — mas a gente não podia estar mais enganado.

Faz mais ou menos um mês que o Jerry se mudou pra casa ao lado. Eu moro numa comunidade pequena de aposentados há dez anos e sempre tento ser um bom vizinho. Apesar da idade, eu ainda tenho o corpo relativamente inteiro, e gosto de me fazer útil pros moradores menos afortunados. Eu estava esperando fazer um novo amigo e ajudar no que precisasse.

Bati na porta, ele atendeu, e eu vi um homem baixo, curvado, com um cabelo branco fino que caía na frente de uns olhos azuis penetrantes. O Jerry parecia incrivelmente velho — mais velho do que qualquer pessoa que eu já tinha visto. Eu pensei comigo mesmo que, se eu tenho 85 anos, esse homem devia ter 115.

Eu me apresentei e ele me convidou pra entrar. Apesar do corpo aparentemente decrépito, ele se locomovia quase tão bem quanto eu. A gente trocou um pouco de conversa fiada, e eu perguntei se ele precisava de ajuda pra se ajeitar.

“Não, já tá tudo no lugar, obrigado. Mas você faria um favor pra mim? Você podia passar aqui todo dia, mais ou menos a essa hora, e pegar aquele pote pra mim?”

Ele apontou pra um vidro grande de conserva, em cima dos armários da cozinha. Eu era alto o bastante pra alcançar, mas ele precisaria de uma escadinha — e eu tenho certeza de que ele não queria correr esse risco.

“Se você não se importar, claro. Ia me ajudar muito. É muito precioso pra mim, e eu nunca me perdoaria se deixasse cair tentando pegar.”

Eu disse que ajudaria sempre que ele precisasse. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha quando eu concordei, e eu achei que aquilo tinha um quê… sinistro.

“Você se importaria de pegar agora pra mim?”

Eu peguei o pote e coloquei em cima da mesa da cozinha. Dentro tinha uma camada de algum tipo de areia, com o que pareciam milhões de bolinhas minúsculas e coloridas por toda parte e por cima dela. Olhando pra dentro do vidro, eu me senti quase imediatamente hipnotizado por como aquelas pequenas esferas de luz mudavam de uma cor absurdamente vibrante pra outra, e por como elas se mexiam e pulsavam na areia, aparentemente por vontade própria. Espantado, eu perguntei o que era.

“É uma coleção minha. Não existe nada igual no universo. Você não acha?”

Eu concordei e perguntei do que era a coleção.

“Acho que você poderia chamar de ovos. Quando eu era jovem, eu era uma espécie de explorador. Eu encontrei esses aqui numa das minhas viagens pra um lugar bem remoto. Você nunca teria ouvido falar — muito menos conseguiria achar num mapa. Ha! Pouquíssimos já puseram os olhos nisso, e ninguém além de mim pode dizer que encostou em um deles.”

Foi uma resposta muito estranha, e eu queria saber mais, mas decidi não insistir se ele não quisesse explicar. O Jerry pegou outro pote no armário da cozinha, cheio de um líquido escuro, meio arroxeado. Ele colocou esse pote ao lado do pote com as esferas na mesa, enfiou o dedo no líquido e mexeu. Quando o dedo já estava bem molhado, ele tirou e deixou pairando sobre o outro pote, deixando pingos daquele fluido desconhecido caírem sobre as esferas e a areia. Ele repetiu esse processo três vezes, então guardou o pote do líquido de volta no armário. Eu perguntei por que ele precisava fazer aquilo com os ovos.

“É uma solução nutritiva, pra manter eles saudáveis. Eu só preciso fazer mais uma coisa, e aí eu peço pra você devolver o pote pro lugar.”

Ele enfiou a mão no vidro, pegou uma pitada das esferas, colocou na boca e engoliu. Eu soltei um suspiro alto, e ele deu uma risadinha. Chocado, eu perguntei por que ele faria aquilo, se a coleção dele era tão rara e preciosa quanto ele dizia.

“Não se preocupe, vai ter mais. Eu preciso manter o equilíbrio. Devolve pro lugar agora, pode ser?”

Eu fiz o que ele pediu e inventei alguma desculpa pra ir embora. Aquilo tudo tinha sido muito esquisito e perturbador, e eu me arrependi de ter concordado em fazer aquilo todos os dias. Ele se despediu, e eu fui pra casa.

Todos os dias na semana seguinte, eu passei na casa dele pra pegar o pote estranho pra ele poder alimentar os ovos e comer uma pitada. Se eu fazia alguma pergunta, ele me dava uma resposta vaga e insatisfatória, então eu parei de tentar. As esferas no pote brilhavam, e eu só ficava ali, em silêncio, encarando, até o ritual acabar.

O acidente aconteceu pouco depois da primeira semana. O Jerry estava com o dedo pairando sobre o pote com areia, como sempre, mas o braço dele tremeu e ele acabou virando o recipiente. O que parecia milhares daquelas esferas misteriosas rolou pelo chão. Eu fiquei parado, congelado, sem conseguir respirar, enquanto via todas aquelas luzes se apagarem, uma por uma. Um rio de palavrões e palavras numa língua que eu não reconhecia jorrou da boca do Jerry. Os ovos no chão desapareceram diante dos meus olhos, sem deixar qualquer vestígio de que um dia tinham estado ali.

“De agora em diante, eu preciso que você fique de olho em mim enquanto eu faço isso”, disse Jerry, agora com uma calma… antinatural. “Isso não era pra ter acontecido. Não agora.”

Eu nem tive coragem de perguntar o que aquilo significava. Só balancei a cabeça, concordando, e a gente continuou de onde tinha parado.

Mais tarde naquela noite, eu liguei a TV no jornal. Tinha acontecido um terremoto extremamente inesperado numa cidade da Ásia, que tinha causado milhares de mortes. Eu não sei por quê, mas um pensamento macabro me veio à cabeça: será que tinha alguma ligação entre a queda das esferas e aquele desastre natural? Rindo sozinho, eu descartei a ideia na hora. Como o que eu tinha visto na casa do Jerry poderia ter causado um fenômeno perfeitamente explicável?

Eu continuei acompanhando o ritual na casa do Jerry pela semana seguinte, e aquele pensamento estranho não saía da minha cabeça. Por fim, eu decidi fazer alguma coisa pra testar a teoria. Enquanto o Jerry esticava a mão pra pegar o pote do líquido e estava de costas, eu enfiei a mão rápido no pote com areia, peguei um punhado de ovos e esmaguei na minha mão. Um segundo depois, eu abri o punho e vi o que eu esperava: absolutamente nada. O Jerry não desconfiou de nada e seguiu a rotina como sempre. Eu fui embora quando ele terminou e corri pra casa o mais rápido que um velho como eu conseguia.

No jornal, outra calamidade. Um arranha-céu tinha desabado e destruído um quarteirão inteiro. De novo, milhares de mortos. Eu não conseguia entender como, mas aquelas esferas luminosas estavam, com toda certeza, ligadas àquelas mortes de algum jeito.

No dia seguinte, eu fui na casa do Jerry como de costume. Mas, quando eu vi ele dessa vez, ele parecia ainda mais velho do que o normal. Se antes ele parecia ter 115, agora parecia ter 200. A pele dele grudava nos ossos com tanta força que eu conseguia ver o contorno do crânio por trás do rosto. Caminhando devagar na minha direção, ele apontou um dedo torto e trêmulo pro meu coração.

“O que você fez? O que você fez?”, ele sussurrou pra mim.

Eu tentei disfarçar. Eu disse que não tinha feito nada além do que ele tinha mandado.

“Mentiroso. Você mexeu no meu pote. Você destruiu o que era meu pra destruir. Eles são meus, entendeu? Você não tem direito. Direito nenhum! Você vai pagar por isso. Espere e você vai ver.”

O Jerry virou as costas e entrou na cozinha, e eu fui atrás, devagar. Ele esticou o corpo pra alcançar o pote misterioso, e o tronco dele se torceu e se esticou pra cima até o objeto ficar na mão dele. Atônito, eu vi o tronco dele se desenrolar parcialmente e trazer o rosto do Jerry ao nível do meu. Agora já não tinha pele nenhuma nele — era só osso. A mandíbula dele batia num movimento de deboche sinistro, fora de sincronia com as palavras, enquanto ele me dizia: “Seu idiota… você é meu pra destruir. Eu consegui esse poder pagando um preço. Você não tem direito nem à própria vida, muito menos à dos outros.”

Ele enfiou a mão no pote e segurou uma única esfera de luz, infinitesimalmente pequena, entre os ossos que um dia foram seus dedos. O Jerry — ou seja lá o que aquela criatura era — respondeu à pergunta que eu estava apavorado demais pra fazer: “Eu sou o anjo da morte.”

Eu não lembro exatamente o que aconteceu depois. Toda a coragem que ainda me restava subiu até ferver, e, num rompante cego de instinto de autopreservação, eu me mexi pra salvar a minha vida. De algum jeito, eu consegui arrancar a esfera da pegada esquelética dele e escapar — mas não sem levar alguns cortes feios e queimaduras inexplicáveis pelos braços e pelo rosto. Eu saí correndo da casa o mais rápido e o mais longe que eu pude, o que não era nem muito rápido nem muito longe, mas, quando eu fiquei sem fôlego, percebi que não tinha ninguém me seguindo. Devagar, com cuidado, eu voltei pra comunidade de aposentados. Quando eu cheguei na casa do Jerry, ela estava vazia, limpa. Não havia qualquer sinal de que ele já tivesse morado ali, e tanto o pote de almas quanto o pote do líquido que nutria as almas tinham sumido.

Meus ferimentos precisam de atendimento médico, mas eu não posso me arriscar a ir ao hospital. Eu tenho que cuidar da esfera e garantir que nada aconteça com ela. É a minha vida. Eu consegui trazer ela pra casa sem deixar cair nem esmagar na mão e agora deixei ela dentro de um pote com um pouco de terra. Todo dia, a luz dela fica um pouco menos forte, as cores um pouco menos vivas. Eu estou morrendo. Sem um jeito de conseguir o fluido nutritivo, não vai demorar muito. Eu estou morrendo. A gente acredita que tem controle sobre a própria alma, mas não tem. Roubaram elas de nós. Eu estou morrendo.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade...

Sou entomólogo, o que quer dizer que eu me dedico ao estudo dos insetos. Falar do meu trabalho costuma entediar as pessoas até quase chorarem, mas as crianças ficam absolutamente fascinadas com o que eu faço; por isso comecei a dar palestras educativas para escolas que visitam o museu local de história natural. Eu adorava inspirar a garotada sobre a classe biológica mais fascinante do reino animal.

Fascínio e terror não são coisas que se excluem, como eu aprendi seis meses atrás, e estou começando a desejar que meus amigos e minha família — sempre tão desinteressados — estivessem certos.

Seria melhor pra todo mundo se, de fato, não houvesse nada de extraordinário nos insetos.

Depois de uma das minhas palestras no museu, no fim do verão, um garoto esperou o professor se distrair com os colegas dele, aí se afastou do grupo e, meio tremendo de medo, me contou sobre a descoberta de um inseto novo: um com asas de um “branco esquisito” e que fazia um “zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção”.

Ele não foi a primeira criança empolgada (nem o primeiro adulto, inclusive) a achar, por engano, que tinha descoberto uma espécie nova — mas com certeza foi o primeiro a estar apavorado. O medo dele atiçou minha curiosidade, então quando ele mandou eu ir embaixo do píer da praia da cidade pra ver com meus próprios olhos o inseto de asas brancas, foi exatamente o que eu fiz.

Eu estava a uns bons 90 metros de distância quando avistei pela primeira vez os bichinhos de asas brancas. Eles emitiam um zumbido nauseantemente íntimo, como papel amassando dentro dos meus canais auditivos, como se estivessem mais perto de mim do que pareciam. Eu disse a mim mesmo que deviam ser moscas-brancas de estufa, mas insetos sugadores de seiva assim não teriam nada a ver com um píer de madeira caindo aos pedaços.

Além disso, a verdade é que não pareciam moscas-brancas.

Eram umas quatro vezes maiores do que deveriam ser, e aquele branco não era branco como eu já tivesse visto antes. “Branco esquisito”, como o garoto tinha chamado. Ainda assim, descartei isso como coisa da minha cabeça privada de sono, do mesmo jeito que descartei aquele som alienígena de papel enrugando — diferente de qualquer inseto que eu já tivesse ouvido. Um zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção. O garoto estava certo de novo. Eu já tinha atravessado aquele píer dezenas de vezes e provavelmente nunca ouvi os bichinhos, apesar de passar bem por cima deles. Só agora, que eu estava procurando e ouvindo com intenção, foi que eu tinha percebido.

E mesmo que eu tentasse ignorar todas essas estranhezas, tinha uma coisa impossível de ignorar: o jeito que eles fugiam.

Os insetos mergulharam no mar.

Eu devo ter ficado pálido. Eu nunca tinha visto nada parecido. Insetos suicidas? Eu levantei essa hipótese, mas fui até a água lambendo a beira da praia e não vi um único inseto afogado boiando na superfície. Os insetos voadores tinham nadado por baixo d’água e sumido.

Meus colegas riram da minha história de “inseto voador aquático”, e eu me peguei rindo junto. O mais perturbador é que a lembrança já estava ficando turva na minha cabeça. Era um tipo de letargia diferente de tudo que eu já tinha sentido. Eu sinceramente acredito que, se aquele garoto não tivesse voltado ao museu com os pais uma semana depois, meu cérebro teria apagado qualquer conhecimento do que eu vi e ouvi.

Os pais deram risadinhas enquanto o filho falava daquele inseto “novinho em folha”. Disseram que ele tinha imaginação demais, e eu dei um sorrisinho, concordando, mas aí o garoto disse uma coisa que gelou minha pele.

“Você já esqueceu, né? É isso que eles fazem.”

O pai bufou, debochado. “São só insetos, campeão. Tenho certeza de que o doutor Farrow consegue identificar a espécie.”

Os pais pediram desculpa por tomarem meu tempo e puxaram o garoto pra longe, mas as palavras dele desenterraram aquela memória abafada da minha visita ao píer. Eu me lembrei de ouvir um som impossível de descrever. Eu me lembrei de ver insetos, de uma cor impossível, mergulharem na água e desaparecerem.

Claro que, como cientista com os pés ainda fincados na realidade, eu achei que talvez estivesse tendo um surto psicótico. O único jeito de ter certeza era voltar ao píer mais tarde naquele mesmo dia.

Eu fui até a praia, parei à minha distância “segura” de uns 90 metros e observei as pessoas caminhando ao longo da passarela elevada do píer. Lá embaixo, não havia insetos — só uma mulher parada com o rosto esticado pra cima, tentando espiar pelas frestas entre as tábuas do píer acima dela. Ela se debatia de um jeito errático, movendo os membros duros e estalando os lábios, como um peixe dourado, como se estivesse tendo uma conversa muda com alguém. Eu segui a linha do olhar dela até uma mulher no píer; ela conversava com as amigas e gesticulava com entusiasmo, mexendo os braços.

A mulher lá embaixo estava imitando a mulher lá em cima.

Eu decidi que era como ver um bebê aprendendo com um adulto — só que aquilo era uma mulher adulta aprendendo com outra mulher adulta. Ela é uma mulher? veio um pensamento horrível quando eu encarei a imitadora embaixo do píer, e isso arrancou de mim um gemidinho involuntário de terror, lá do fundo. Foi um som baixo. Baixo demais pra alguém a 90 metros de distância ouvir. Mesmo assim, a mulher que imitava congelou na hora, como se estivesse brincando daquela brincadeira infantil de estátua.

Não passou nem um segundo, e ela virou o rosto na minha direção num estalo.

Os olhos dela eram inteiramente brancos; só esclera, sem pupilas. Um branco impossível, como o tom que eu só tinha visto uma vez na vida. E quando pedacinhos da pele dela começaram a se soltar, descamando, carregados pelo vento na minha direção, eu percebi que eram insetos.

Eu percebi que ela era insetos.

Eu disparei pro estacionamento da praia, sem fôlego demais até pra gritar. Mas quando eu virei pra olhar pra trás, não tinha nada além de um pedestre preocupado — provavelmente tentando entender por que eu estava tão desesperado pra chegar no meu carro. Não havia insetos de asas brancas. Não havia mulher.

A partir daquele dia, eu me esforcei de verdade pra evitar aquela cidade litorânea e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Esquecer os insetos. Esquecer o garoto. Voltar pra ignorância feliz, por mais que isso fosse contra meus princípios científicos. Meu medo engoliu minha curiosidade.

Esquecer funcionou — até certo ponto. Aquele lodo misterioso voltou pra minha cabeça, afogando minhas memórias; sempre acreditei que era um mecanismo de defesa dos insetos.

Mesmo assim, algumas semanas depois, enquanto eu dirigia por uma cidade próxima, eu vi ela atravessando a rua: a mulher debaixo do píer. Quando eu parei, ela parou também, e virou a cabeça pra me mostrar os olhos — que não eram mais vazios brancos. Tinham pupilas castanhas por cima do branco. Ela parecia humana, se movia como humana, e eu tinha certeza de que também soaria humana. Mas eu vi a falsidade daqueles olhos e o sorriso embaixo deles, e quando eu realmente escutei, eu ouvi de novo: aquele som de papel amassando, se enfiando pelas frestas da lataria do meu carro pra afogar o interior do veículo.

O zumbido enlouquecedor dos insetos aquáticos de asas brancas parecia quase carregar, escondido no chiado, um aviso; parecia quase carregar palavras.

A gente se vê.

Por um instante, eu achei que ela ia se jogar com o corpo em cima do capô. Minha garganta inchou e quase fechou de terror enquanto eu esperava ela fazer isso — e ela com certeza comunicou essa vontade com os olhos. Graças a Deus, ela terminou de atravessar a rua, então eu pisei fundo no acelerador, acreditando que tinha escapado dela ileso mais uma vez. Aí eu olhei no retrovisor e soltei um soluço apavorado.

Sangue estava escorrendo dos meus ouvidos.

As palavras sussurradas dela, de papel, tinham me cortado.

Eu consegui esquecer de novo, porque aquele lodo preto de memória era uma bênção tanto quanto era um horror. Mas não dá pra esquecer pra sempre. Acho que, como aquele garoto no museu, eu abri a Caixa de Pandora. Não importa quantas vezes eu enterrasse os insetos e a mulher, alguma coisa sempre vinha com uma concha e puxava o lodo pra servir a verdade de novo. Aquele som de papel amassando me perseguia, e sempre que eu ia atrás da fonte, eu acabava vendo alguém que não parecia totalmente certo: escleróticas meio encardidas e movimentos estranhamente ensaiados.

Foi quando eu parei de me esconder disso. Eu gravei áudio daquele som estranho de papel enrugando em público e tirei fotos às escondidas de desconhecidos com olhos estranhos. Eu enchi o saco de outros cientistas com o que eu tinha encontrado, e bastou uma semana pra o instituto me mandar embora, alegando uma suposta “preocupação com seu bem-estar mental”.

Alguns colegas prometeram, com um ar de desculpas, que não estavam sendo teimosos nem fazendo de conta que não viam. Eles também estavam inquietos com meus dados sobre essa espécie de inseto não classificada, mas algum “chefão” do instituto tinha ameaçado que eles largassem isso pra lá — ou seriam mandados embora comigo.

Um colega chegou a dizer que tinha cavado um pouco e descoberto incidentes parecidos em outros institutos científicos. “Meu conselho? Para de cavar agora, doutor Farrow. Agradece pelo que você ainda tem. Já ouvi falar de pesquisadores tendo destinos piores do que uma demissão forçada.”

Eu me senti justificado. Claro que não era só um garotinho que sabia dos insetos.

Gente poderosa está encobrindo isso.

Gente que, eu temo, talvez nem seja gente.

Olha só: nos últimos cinco meses, eu venho torrando minhas economias numa caça por respostas. Tenho viajado de continente em continente, país por país, cidade por cidade, e município por município. Tenho estudado pessoas por horas todos os dias: gravando, fotografando e chegando perto de assediar, eu admito. Eu quase não dormi. Quase não comi. E depois de compilar dados de 36.794 “pessoas” ao longo de 189 dias, sabe o que eu descobri?

3.707 indivíduos tinham olhos com uma coloração estranha ou, quando eu realmente escutava, emitiam aquele zumbido de papel amassando; e eram sempre as “pessoas” que me encaravam com sorrisos duros, inabaláveis, e a maior desconfiança. Muitos paravam onde estavam e sussurravam ameaças horríveis com suas vozes de papel, fatiando meus canais auditivos e fazendo o sangue escorrer livre. Uma ou duas vezes, os mais ousados chegaram a avançar pra cima de mim, e eu saí correndo, morrendo de medo.

Eu encontrei 3.704 não humanos que pareciam humanos.

10%.

10% das pessoas vêm do mar como insetos de asas brancas, imitam nossos comportamentos e depois viram a gente.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade.

Os cervos não gostam de mim...

Eles têm me encarado.

Pra contextualizar, eu moro numa cidadezinha pequena em West Virginia. Uma velha cidade mineradora de carvão com tipo umas mil pessoas. Sou sortudo pra caralho porque tenho uma grana depois de trabalhar um tempo em tech, então consigo viver confortavelmente enquanto os outros estão se ferrando. Então eu tenho uma casa bem decente na saída da cidade, onde moro com minha esposa.

As matas ao nosso redor são lindas pra porra. Na real, a gente escolheu esse lugar pela beleza natural das colinas. É quieto aqui, quase quieto demais, que era exatamente o que a gente queria depois de passar anos em San Fran. Um cantinho só nosso pra curtir um pouco de paz.

Quer dizer… Nosso vizinho mais próximo fica tipo meio quilômetro de distância. Jason, um cara ótimo. Ou era, pelo menos.

Eu tava sentado na varanda dos fundos outra noite com ela, a gente curtindo uma cerveja e batendo papo (a gente já tem essa rotininha de fim de dia), e foi aí que eu ouvi pela primeira vez.

Tinha tipo um som. Não sei bem como descrever. É tipo um rangido, um gemido, ou um zumbido. Meio os dois? Vinha lá do fundo da mata e parecia bem distante. Ela e eu brincamos que eram aliens e não pensamos muito nisso, sinceramente. Quer dizer, coisas estranhas acontecem na mata às vezes, então a gente ficou nas cadeiras de balanço, tomou nossas cervejas e só escutou um tempo.

Depois de uns 30 minutos, parou, e foi isso. A gente entrou, foi pra cama e deu o dia por encerrado. Tudo ficou quieto por um tempo depois disso.

Passa mais ou menos uma semana e as coisas estão normais. Mas uma noite, enquanto eu voltava da loja pra fazer nossa coisinha na varanda, eu ouço de novo. Aquele rangido, aquele gemido de zumbido. Obviamente eu olhei pra trás pras matas, mas não consegui ver nada além de um dos cervos que perambulam pela área. Ele me olhou e saiu correndo, e eu entrei.

Eu lembro de ter contado pra minha esposa que tinha ouvido de novo, e ela disse algo tipo:  
— Talvez seja maquinaria velha de mineração.

Eu perguntei o que ela queria dizer, e ela falou:  
— Bom, eles mineravam carvão na área antigamente. Tem um monte de minas por aqui, talvez alguma coisa esteja acontecendo com as máquinas que eles usavam.

Ela não tá errada; tem um monte de minas de carvão velhas na área. Não que eu soubesse muita coisa sobre isso, mas eu sabia quem saberia. Lembra do Jason? O cara mora aqui a vida inteira, e eu tinha o número dele, então liguei do celular.

Não consegui falar com ele. O sinal tava ruim. Acho que acontece às vezes, mas eu senti uma sensação estranha, rastejante no estômago. Então eu disse pra minha esposa que ia fazer uma visita pra ele, e ela falou que ia manter a cerveja gelada pra mim.

Eu entrei na minha caminhonetinha e fui na direção dele. Agora, Jason é tipo um grandalhão montanhoso, e a esposa dele é uma mulherzinha magrinha que tá sempre do lado dele. Mas quando eu cheguei na entrada de terra da casa dele, eu fui parado pelos faróis.

Ele parou o carro e saiu. Eu fiz o mesmo.

— E aí? — perguntei pra ele. — Tá meio tarde pra tá saindo, né?

E ele só meio que me encara e balança a cabeça.  
— Você ouviu isso?

Eu assumi que ele tava falando do zumbido, então eu disse que sim e perguntei o que era.

Em resposta, ele aponta pras matas, pra um cervo que tá nos encarando direto. No momento que a gente trava o olhar com ele, o cervo sai correndo. Eu achei que era whatever, mas o Jason parecia pensar diferente.  
— Não é normal — ele disse.

— O que não é normal?

E ele cospe e vai:  
— Os cervos. Eles não tão se comportando direito.

— O quê, você acha que o barulho tá assustando eles?

Eu achei que ele ia dizer sim, mas ele só meio que encarou de novo pras matas, onde o cervo tava antes. Depois de um momento ele olhou de volta pra mim e disse:  
— Os cervos não fazem isso.

— Encarar?

Ele assente.  
— Eles não encaram assim.

Eu não faço ideia do que ele tá falando, então eu meio que dei pra ele um olhar de confusão. Mas antes que eu pudesse pedir clareza, ele me diz:  
— É melhor você ir pra casa.

— Por quê?

— Porque cervos não encaram assim.

O-kay? Eu achei melhor deixar ele em paz, ele não parecia bem essa noite. Então eu dei meia-volta e fui embora, cheguei em casa e abri uma cerveja com minha esposa.

Eu contei pra ela o que ele disse, e ela falou:  
— Bom, eu tenho notado mais cervos ultimamente. E eles ficam meio que encarando.

Eu perguntei o que ela queria dizer.

— Eu tava na cidade ontem e vi dois cervos me encarando pelo canto do olho, e quando eu olhei pra eles, eles só meio que saíram correndo.

Huh. Bom. Eu não sabia o que dizer pra isso. Então a gente foi pra cama depois de um tempo de silêncio, salvo pelo zumbido, claro. Isso parou lá pelas dez da noite.

No dia seguinte, eu acordei e desci pra fazer café. Eu tava incrivelmente grogue, como de costume, e então eu não notei de primeira, mas… bom, eu senti essa sensação afundando de estar sendo observado. E pelo canto do olho, eu vi um cervo me encarando direto pela janela da cozinha.

No momento que eu olhei nos olhos dele, eu soube que tinha alguma coisa errada. Ele tava me observando como se estivesse pensando. E assim que eu percebi isso, eu senti um calafrio que me fez tremer, como se eu não estivesse olhando pra um animal de verdade. E então ele só… saiu correndo.

Foda-se o café. Eu peguei as chaves e a carteira, entrei no carro e fui direto pra casa do Jason. Eu literalmente *bati* na porta tipo às oito da manhã. E quando ele atendeu, ele tinha esse olhar nos olhos, um olhar cansado, exausto. Olhos vermelhos, olheiras, um ar de esgotamento total.

Ele me puxou pra dentro rápido.

— Que porra tá acontecendo — eu perguntei.

E ele me leva pra cozinha e me diz:  
— Os cervos não tão certos.

Foi aí que eu notei que ele tem uma espingarda no balcão. E uma perto da porta. E uma 9mm na cintura.

— O que isso significa?

E ele balança a cabeça e diz:  
— Você e sua esposa deviam dar o fora daqui. Os cervos não gostam de você.

— Quem se importa se os cervos não gostam de whatever — eu disse. — Eles são só cervos.

Assentindo, ele meio que morde o lábio, então diz:  
— É, bom, aquele barulho não é só um barulho.

Eu sinto que ele tá super reservado, e eu só sinto um desconforto profundo me invadir. Como se eu não fosse bem-vindo. Isso vindo de um cara que só foi bondade com minha esposa e comigo, então era bem notável.

— Tá bom, bom, então eu vou indo — eu digo pra ele. Mas ele põe a mão no meu braço enquanto eu vou saindo.

— Não sem isso você não vai. — E ele me entrega a espingarda do balcão. Também me dá dois cartuchos — só dois. — Agora vai.

Eu não conto nada pra minha esposa o dia todo, mas acabo cedendo naquela noite quando a gente tá na varanda dos fundos ouvindo o zumbido de novo. Eu despejo tudo pra ela: os cervos, o “aviso” que o Jason me deu, a espingarda… e ela me encara boquiaberta.

Mas antes que ela pudesse falar, eu vejo outro cervo filho da puta na mata dos fundos, só me encarando. Ele não tá se mexendo, mal tá respirando. Só tá nos encarando. E na luz da varanda refletida nos olhos dele, eu consigo ver alguma coisa… humana. Ou pelo menos inteligente. Não sei descrever de outro jeito.

Mas onde eles normalmente saem correndo quando eu noto eles, esse aí só continuou encarando. E encarando. E encarando. Eu olho pra minha esposa, que tá encarando de volta.

— O que tem de errado com ele? — ela me pergunta.

— Não tenho certeza. Mas eu não gosto disso.

A gente entra e eu pego a espingarda, decidindo que já cansei. E eu volto pra fora, e agora tem dois cervos lá, bem fora do círculo de luz da varanda, encarando. Nem fodendo, penso eu, então eu armo a arma e atiro neles.

Eu juro que acertei um bem no corpo. Ele devia ter caído morto ali mesmo, mas não caiu, e em vez disso só saiu correndo. Como se o chumbo tivesse atravessado ele. Eu corri atrás um pouco, na direção da fonte do zumbido, só um pedaço, mas não vi nenhuma marca nas árvores nem nada. Eu *sei* que acertei aquele cervo.

Sem sangue, nem nada.

Então eu corro de volta pra dentro. Agora tem alguma coisa errada, isso eu sei, mas quando eu entro, minha esposa tá na janela da frente me chamando.

— Amor — ela diz —, tem mais cervos lá na frente.

Eu corro pra olhar e com certeza, tem três cervos lá fora, encarando *direto* pra gente. E eu não sei se tô imaginando, mas juro que vi um deles formar a palavra “Shaun” com a boca.

Meu nome é Shaun.

A gente tranca todas as portas e sobe pro quarto, onde a gente se barricada usando um baú velho do pé da nossa cama. Pela janela, eu consigo ver mais cervos se juntando lá fora.

Todos eles encarando direto pra cima, pra gente.

O zumbido tá ficando mais alto também.

Eu digo pra minha esposa que a gente devia revezar pra dormir e ela concorda, e a gente decide cair fora de manhã. Ela dorme primeiro. Os cervos ficam lá a noite toda.

Por volta da uma da manhã, eu acordo ela pra trocar. A gente faz isso, e eu caio no sono, mas acordo de novo tipo às três. E ela sumiu. A porta tá aberta, e ela sumiu.

Mas na fresta da porta, um cervo filho da puta tá me encarando com aqueles olhos humanos. Eu gritei. Eu gritei como nunca gritei antes.

Isso pareceu assustar ele e eu pulei da cama e acendi todas as luzes. Eu chamei pela minha esposa, e não tive resposta. O zumbido parou. Tudo ficou quieto. E eu me senti mais sozinho do que nunca na vida. Sozinho e com medo.

Eu fico acordado até o sol nascer, e começo a procurar minha esposa. Já estamos no hoje nesse ponto. Eu tento ligar pro Jason de novo, e dessa vez tenho sinal.

— Minha esposa sumiu! — eu choro pra ele quando ele atende.

E ele literalmente só diz:  
— Os cervos não gostam de você — e desliga.

Agora eu tô sozinho na minha casa, e tenho que encontrar minha esposa. Nossa caminhonete ainda tá aqui então ela não deve ter ido longe… então eu me armo e vou pra onde o zumbido tá vindo. Não sei o que mais fazer…

Depois de tipo 30 minutos de estrada de terra ruim e pedregosa, eu encontro com certeza: uma mina velha cercada por uma cerca de arame enferrujada. Tá bem quieto aqui, mas em algum lugar lá no fundo, em algum lugar obscuro, eu consigo ouvir. Aquele rangido zumbido. Tipo engrenagens mecânicas chorando por óleo.

A cerca é resistente, mas a frente da minha caminhonete é mais. Eu bati naquela coisa com força total, e acabei numa encosta de mina com poços de madeira velhos e correias transportadoras que provavelmente não são usadas desde os anos 60.

Fodeu a caminhonete pra caralho, porém. Eu peguei a espingarda do banco, um cartucho sobrando, me sentindo impotente e morrendo de medo pra cacete.

— Amor? — eu chamei.

Nada.

Nada além do zumbido, lá no fundo da Terra.

Eu vasculhei o lugar todo, de cima a baixo, antes de encontrar a entrada da mina em si. E eu conseguia ouvir, aquele barulho horrível, lá no fundo.

— Amor?!

Ecoou nas paredes, ricocheteou pra dentro e através. E nesse momento, o zumbido parou. Simplesmente parou completamente. Eu encarei o poço da mina, parado na frente das portas de metal abertas, um cartucho na câmara.

E então eu vejo eles. Os olhos dos cervos. Não um. Não dois. Mas dezenas de cervos, todos piscando pra existência dentro da escuridão lá dentro. O da frente, porém, embora eu não conseguisse ver o corpo dele…

Bom, eu sei como são os olhos da minha esposa.

Eu gritei. Eu corri e gritei.

Eu entrei de volta na caminhonete tão rápido e tentei ligar o motor, mas acho que minha manobra com o portão fodeu o motor pra valer. Eu consegui fazer ele pegar, e mal e mal saí de lá com meu juízo, mas na metade do caminho pra casa ele pifou em mim.

E agora estamos aqui. Tá escurecendo, eu tô na mata, e tenho um cartucho de espingarda sobrando. Tentei ligar pro Jason, mas não tenho sinal de novo. Eu tô chorando. Não tem como eu voltar andando à noite nesse ponto.

E eu consigo ouvir o zumbido gemido ficando mais alto enquanto o sol continua a se pôr.

Eu consigo ver eles. Olhos de cervo nas árvores. Eles tão me encarando. Acho que eles tão esperando.

Não sei o que mais fazer. Mas tenho um cartucho de espingarda, e vou fazer ele valer. Tô com medo, mas não vou cair assim. Os cervos não vão me pegar.

Eu tô escrevendo isso pra avisar as pessoas. Quando alguém disser “os cervos não gostam de você”, não fica pra descobrir por quê. Por favor. Eu imploro.

Porque esses não são cervos.

E eles não gostam de mim.

Eles acabaram de piscar pra mim.

Vou fazer esse cartucho valer.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Diabo Está Vivo no Mississippi

Quando eu era só um moleque, minha mãe me deu um violão no meu décimo aniversário. Ela pegou aquele velho acústico de segunda mão, gastou todo o dinheiro das gorjetas do restaurante nele. A coisa estava gasta pra caralho e não segurava um tom porra nenhuma. Ele ficava estranho no meu colo pequeno, grande demais pra um garoto da minha idade, mas era um presente da minha mãe e eu amava minha mãe, então eu amava ele. Eu tocava todo santo dia.

“Continua tocando, garoto, e um dia você vai fazer algo grande de si mesmo”, ela costumava dizer enquanto eu me atrapalhava no braço do violão.

A gente não tinha dinheiro pra aulas, então conforme eu fui crescendo, ia pro centro da cidade pra ver os músicos de rua tocando. Se eu tivesse um dólar, colocava no jarro de um deles e pedia dicas. Eu era determinado. Eu nunca quis ser uma estrela do rock e aprender violão não mudou isso. Eu não ligava muito pra ideia de ficar famoso, só queria ser bom em alguma coisa.

A necessidade muda um homem. Conforme eu envelhecia, a vida tinha me tratado mal, e isso era quase tudo culpa minha. Eu nunca fui muito de estudar, consegui passar no ensino médio por um triz, mas faculdade estava fora de questão. Segurar um emprego das nove às cinco? Porra, isso também não era pra mim. Eu não tinha ética de trabalho nem motivação acadêmica, mas o que eu tinha era a música. Pra meu crédito, eu nunca parei de tocar aquele violão e agora, eu tocava pra caralho de bom.

A música não estava me deixando rico, mas estava colocando comida na mesa. Eu tocava nas ruas e em bares e restaurantes locais. Atrai multidões grandes o suficiente pros estabelecimentos continuarem me chamando de volta e, entre comida e bebida de graça e as gorjetas, eu estava ganhando a vida.

Eu soube que o Sr. Carwile era problema no segundo em que ele se aproximou de mim. O olhar nos olhos dele quando apertou minha mão disse tudo. Ele não estava olhando pra um igual, mas pra uma ferramenta, uma oportunidade. Eu deveria ter mandado ele se foder, mas meu set tinha acabado, eu estava com algumas cervejas na cabeça e num humor amigável, então escutei o que ele tinha a dizer.

O Sr. Carwile e seus sócios eram donos de um pequeno clube e cassino na cidade e ele me disse que eu podia ser o músico residente do lounge deles. Eu tocaria várias noites por semana, sempre que não tivesse algum artista de fora agendado. Tenho que admitir que parecia ótimo. Eu ainda ia ganhar comida e bebida de graça, mas finalmente teria a promessa de um pagamento fixo todo mês, além das gorjetas. O Wesley disse que eu ainda ganhava um bônus mensal em fichas da casa pra usar no cassino. Aquela merda era uma armadilha óbvia e eu caí direitinho.

Jogar era um vício que eu não tinha habilidade pra controlar. Eu queimava meus bônus como fogo em mato seco todo mês. Logo comecei a colocar meu próprio dinheiro no cassino, estava viciado. Eventualmente o Sr. Carwile me ofereceu um adiantamento, e como um idiota eu aceitei. Minha dívida foi se acumulando e, quando eu finalmente percebi que era um problema, eles puxaram o tapete debaixo de mim. Um dia o lounge precisava de um músico, no outro dia não precisava mais. Me informaram que, como eu não era mais funcionário, precisava pagar tudo o que devia imediatamente. Quando eu não consegui, uns filhos da puta apareceram na minha casa e me deram uma surra da porra. Um filho da puta feio com olho preguiçoso me segurou em cima da minha própria mesa da cozinha e enfiou meus dedos numa tesoura de cortar carne. Eu chorei lágrimas de verdade pela primeira vez em uma década e implorei pra ele não cortar meus dedos. Aqueles caras riram da minha desgraça e levaram tudo de valor que eu tinha. Me deram um mês e me deixaram sem nada. Só as roupas do corpo e o violão da minha mãe.

No interior do Mississippi, quando toda esperança acaba e um homem está realmente no fundo do poço, só resta uma coisa pra ele fazer. Numa encruzilhada poeirenta, eu fiquei no meio da noite e ofereci a única coisa que me restava, derramando meu sangue na terra.

A Bíblia diz que o Diabo vem como um leão que ruge, mas o que apareceu pra mim tomou a forma de uma sombra sorridente. Ele respondeu meu chamado com um olhar de divertimento no rosto. Eu estendi aquele velho violão acústico e implorei. Eu queria a fama, eu precisava da fama, sem ela eu era um homem morto. Uma gargalhada explodiu como trovão rolando pelo vale enquanto aquela velha Serpente rejeitou minha proposta. Minha mãe, que Deus a tenha, tinha me batizado quando eu era bebê. Desgraçado que eu era, eu já estava comprometido. Ele não quis nada comigo. Meu problema era só meu.

Eu estava tocando na rua em frente a um pub local quando eles me pegaram de novo. Diabo ou não, eu tentei pra caralho recuperar o que devia, mas ainda não era suficiente. Meus punhos estavam cerrados enquanto eles me chutavam e pisoteavam contra o meio-fio. Eles podiam quebrar meu corpo, mas eu não podia deixar eles pegarem meus dedos. Talvez minha cabeça estivesse rodando por causa da surra, mas enquanto aqueles gorilas me enchiam de porrada, eu juro que vi aquela sombra atrás deles, observando e rindo.

Eu fiz uma oração infernal silenciosa, oferecendo um último pedido, um acordo final com as forças além do véu, antes de me prostrar aos pés dos meus agressores.

“Espera, por favor… só… só me deixa tocar mais uma vez”, eu resmunguei, com a voz rouca e a respiração falhando por causa do que eles tinham feito nas minhas costelas. “Mais um show, me deixa tocar mais uma vez e eu juro que consigo recuperar o que devo, por favor.”

A ganância falou mais alto que a maldade naquele dia e me rendeu um adiamento da execução.

Eu estava andando mancando quando subi no palco do lounge. Só levou um segundo pra eu perceber que estava num covil de leões. O Sr. Carwile e seus associados estavam na plateia, junto com os capangas deles e alguns amigos e apostadores grandes que tinham ganhado as graças deles. Não tinha um único cliente pagante na plateia. Uma piada final à minha custa. Eu manquei até o equipamento da casa e peguei a Les Paul preta do suporte.

“Calma aí, garoto”, o Sr. Carwile me chamou, com um sorrisinho de deboche no rosto. “Você não trabalha mais aqui, isso é equipamento da casa, você tem que usar o seu.”

Eu vi a sombra no fundo da sala, sorrindo.

Ela acenou com a cabeça pra mim e um sorriso determinado surgiu no meu rosto. Eu peguei o violão da minha mãe e comecei a tocar.

Eu soltei uma linha pesada nas cordas graves, a linha mais pesada que eu já tinha tocado na vida. O ritmo grave rangia e rosnava, distorcendo conforme eu queria. Eu estava tocando o velho acústico da minha mãe, mas não importava, meu desejo tinha sido concedido. O ritmo explodia pelo lounge como se tivesse um sistema de som completo por trás. Agora eu tinha um demônio nas minhas cordas e ia soltar ele. Os olhos da plateia se arregalaram com a minha performance. O ritmo se infiltrava na mente deles, nas almas deles.

Um cara jovem na primeira fila foi o primeiro a se animar, recém-saído da faculdade, cheio de vida, comprando o caminho pro topo com o dinheiro do pai. Ele tinha uma garota bonitinha no braço e os dois estavam cheios de desejo, dava pra ver nos olhos deles. Eles se agarraram e rasgaram as roupas um do outro e subiram no palco. Ele comeu ela ali mesmo, sem camisinha, bem aos meus pés, fodendo como um cervo no cio enquanto eu aumentava o tempo. Gemidos de prazer se misturavam com os lamentos dos meus dedos dedilhando enquanto eu tocava uma melodia, levando o casal cada vez mais perto do clímax. Eu cortei o orgasmo deles com um pinch harmonic abrupto. O violão guinchou e um som profano ecoou pela sala inteira. Os gemidos de prazer do casal viraram gritos de dor. O cara jovem cedeu aos desejos mais sombrios e passou os braços em volta do pescoço da garota e começou a apertar.

Eu voltei pro meu riff de baixo. A mulher gritou e arranhou ele, o desejo dela se transformando em ódio. Ela revidou com ferocidade, furando os olhos dele e destruindo o rosto dele antes que ele esmagasse a traqueia dela.

A sala toda estava em transe, mas os capangas e pistoleiros foram os próximos a se perder completamente no meu feitiço. Meus dedos sangravam enquanto eu rasgava um arpejo triste por cima da multidão. Toda a ganância e as mentiras, a violência e as traições, tudo aquilo fervia dentro deles e transbordava. Seus piores eus sendo forçados à superfície conforme eu tocava. O demônio que eu soltei apertava as almas deles e sussurrava blasfêmias nas mentes, forçando eles a agirem conforme seus desejos mais baixos.

Aqueles homens malignos que sentiam prazer distorcido em quebrar ossos e rasgar carne em nome do dólar todo-poderoso agora viravam aquela raiva uns contra os outros. Com facas e punhos nus, eles se despedaçaram e decoraram meu palco com sangue. Eu nem precisava mais improvisar, só mantinha o ritmo grave vindo, a sala já estava perdida demais.

Eu dei um passo pro lado quando dois caras rolaram pro palco. Os mesmos filhos da puta que tinham me espancado na rua agora lutavam um contra o outro, se agarrando e se contorcendo pelo controle, com intenção clara de matar nos olhos. Eu sorri quando o filho da puta do olho preguiçoso que tinha gostado tanto das minhas lágrimas perdeu o controle e ficou por baixo. O outro homem montou nele e transformou o rosto dele numa polpa irreconhecível, batendo os nós dos dedos até sangrar no crânio do olho preguiçoso no ritmo do meu violão.

Fumaça de pólvora encheu o ar. Os executivos e os chefões estavam se virando uns contra os outros, gerações de traição nojenta, agora convencidos de que precisavam eliminar a concorrência. Eu assisti quando o crânio de um velho explodiu por trás, uma ponta oca se fragmentou no crânio dele e espirrou a sala com pedaços de osso e massa cinzenta. Seu sócio de negócios que virou executor riu de prazer, só pra encontrar o mesmo destino nas mãos de outro na fileira de trás.

O Sr. Carwile se levantou e se aproximou do palco. Um homem que nunca me viu como pessoa, um homem que não teria me deixado lamber a merda do sapato dele nem se isso me salvasse da fome, agora se ajoelhava no meu altar de depravação. Eu deixei o violão uivar enquanto ele cortava a própria garganta aos meus pés.

Eu continuei tocando até que todos eles caíssem pela música, parando só quando restamos eu e a sombra. O silêncio parecia denso enquanto eu olhava para o massacre do palco. O lounge tinha virado um matadouro profano. O sangue deles, as lágrimas deles, o sêmen deles; eles tinham derramado tudo por mim e agora jaziam em ruínas. O diabo pode não ter me querido, mas eu ofereci a ele um acordo diferente. Quando ele me seguiu naquele poço de pecado e viu o mal que habitava no coração daqueles homens, bom, ele simplesmente não conseguiu resistir. Eu senti a sala esfriar enquanto a sombra oferecia uma única rodada de aplausos, o sorriso se abrindo mais largo do que nunca. Eu inclinei a cabeça num cumprimento educado e saí do palco.

O diabo levou as almas dele, e eu dei o fora.

Eu ainda não sou famoso, nosso acordo foi de uma única vez, ou pelo menos era o que eu pensava. Às vezes quando estou tocando consigo ver aquele olhar começando a voltar em certos rostos na plateia. Eu tive que cortar tantas apresentações no meio que agora só toco nas ruas. Dizem que você nunca sabe o que realmente tem dentro de uma pessoa, mas eu sei, e a verdade é feia. O diabo paira sobre mim como um urubu, esperando pra pegar a carniça que eu deixo pra trás. Às vezes, quando tem uma plateia especialmente podre, eu termino meu set e alimento o velho desgraçado. Talvez esse seja o poder que ele tem sobre mim, torcendo meu próprio ódio só o suficiente pra eu fazer o papel de juiz.

Eu sei que tenho sorte de ainda ter minha alma, mas eu quero ser livre de novo. Acho que tem um pouco dessa ganância em todos nós. Eu nunca fui muito de livros ou computadores, mas agora tô aqui fazendo minha pesquisa. Um homem santo de verdade é mais difícil de encontrar do que você pode imaginar. Vou continuar procurando e qualquer ajuda que vocês puderem dar é bem-vinda. Até lá, se vocês ouvirem um cara tocando nas ruas do Mississippi, coloquem um dólar no jarro dele, vocês podem estar me pagando o almoço. Não é o ideal, mas vou continuar seguindo em frente, com o diabo nas minhas costas e um demônio nas minhas cordas.

Não consigo lembrar onde eu tô...

Meu nome é Travis. Tô postando isso aqui porque, estranhamente, é a única coisa no meu celular que parece estar funcionando agora. Tô encolhido debaixo de uma pilha de casca de árvore numa vala. Tá tão frio aqui… Nada disso faz o menor sentido… Vou começar do começo na esperança de que alguém consiga refazer meus passos e me encontrar. Se é que eu posso ser encontrado… Nem tenho mais certeza se eu ainda existo…

Eu saí com todo o equipamento essencial pra acampar: barraca, comida e o resto, não vou ficar listando tudo. Não é importante mesmo. Entrei no meu carro e dirigi até aqui. Sou campista experiente, já fiz várias viagens de acampamento disperso sozinho. Não fiz nada doido. Simplesmente estacionei o carro no começo da trilha e fui andando até achar um lugar bom pra montar acampamento.

Eu até te contaria a localização exata, mas por algum motivo não consigo lembrar pra onde caralho eu decidi ir. Tudo que sei é que tô em algum lugar nas montanhas do leste dos Estados Unidos. Quanto mais eu tento lembrar, minha cabeça dói pra caralho. Lateja como se tivesse um prego cravado direto na lateral da minha têmpora. Nem sei se essa informação tá certa…

Nem acho que esse post vai subir. Mandei um teste antes e vi que carregou, mas não tem nada que eu possa marcar nem ninguém pra mandar mensagem. Espero que os mods não tenham deletado, eu preciso de ajuda pra caralho…

Tudo isso começou só porque eu queria fazer uma porra de uma viagem de acampamento. Um pensamento fica apodrecendo na minha cabeça sem parar, tipo uma podridão doente e corrompida me levando pro que parece loucura pura. “Tudo que você fez foi andar uma milha pela trilha”… e foi só isso que eu fiz, porra! Estacionei o carro no começo da trilha e entrei… Acho…

Andei uma milha pela trilha, estiquei as pernas e montei acampamento. Joguei a mochila no chão, puxei a barraca e montei em minutos. Juntei umas pedras e fiz uma fogueira improvisada. Tirei carne moída e cozinhei em cima de uma pedra no fogo. Quando minha barriga tava cheia, rastejei pra dentro da barraca pra dormir.

Logo apaguei e tive uma noite incrível de descanso que eu tava precisando pra caralho. Acordei com o alarme do meu relógio de pulso. 6:30 da manhã, brilhando direto nos meus olhos. Limpando os restos de sono, a primeira coisa que notei foi como tava escuro pra porra lá fora.

O sol já devia ter nascido, é meio do verão. Sem falar que tava um frio do caralho, parecia fácil uns 20 graus negativos. Não pensei muito nisso, afinal tô nas montanhas. Decidi me agasalhar com a jaqueta mais pesada e as calças que eu trouxe justamente prevendo que podia esfriar. O frio, não sei que porra é essa.

Enrolei o saco de dormir, enfiei na mochila, abri o zíper da barraca. Rastejei pra fora e levantei devagar. Com as mãos na cintura, olhando ao redor, soltei um suspiro profundo.

Tá escuro… Tipo, ESCURO mesmo. Já eram quase 7 da manhã e ainda não tinha sol. Nada. Nem um pingo de luz no céu do sol aparecendo por cima da montanha. Parecia meia-noite. Não conseguia ver lua nem estrelas também. Só absorvi aquela atmosfera fria e escura pra caralho.

Chequei o celular pra ver se tinha sinal. Claro que não. Tô nas montanhas, óbvio. Enfiei o celular no bolso e cocei a cabeça, já meio irritado, pensando que porra eu ia fazer agora.

Ignorando a ansiedade que crescia na minha barriga. Olhei pras brasas ainda fumegando da noite anterior. Decidi que ia acender o fogo de novo. Achei que podia planejar o próximo passo depois de me aquecer.

Sentado na fogueira, agora já devia ser quase meio-dia. Segurei a cabeça com as mãos. No começo falei pra mim mesmo que talvez o relógio tivesse me acordado cedo demais, talvez o celular tá quebrado e com hora errada também, sei lá. Meu cérebro tava agarrando qualquer explicação normal possível nesse ponto.

Esperei até as toras virarem cinza e a luz começar a sumir. Finalmente decidi que era melhor voltar pro carro. Adeus “plano de ataque”. Só conseguia pensar em como tudo aquilo era desconfortável pra caralho. Alguma coisa não tava certa e eu precisava ver como o resto do mundo tava reagindo. Achei que ia conseguir sinal se saísse da floresta.

Enquanto andava, vi a fitinha amarela marcada numa árvore pra indicar pros outros caminhantes onde fica a trilha.

“Ótimo”, falei pra mim mesmo, com uma faísca de esperança subindo na barriga.

Olhei pra esquerda e pra direita tentando lembrar pra que lado eu tinha vindo. Meio que chutei e segui a trilha. Provavelmente não foi a jogada mais inteligente, mas eu tava tão nervoso que só dei um tiro no escuro. Literalmente.

Depois de mais ou menos uma hora andando, chutei um galho na minha frente. Ele fincou reto no chão, apontando pro ar como um homem implorando pra alguém puxar ele de um penhasco impossível.

Soltei uma risadinha comemorativa pra mim mesmo e continuei. Uns 5 minutos depois, outro galho apareceu na escuridão, saindo do chão do mesmo jeito sinistro do primeiro que eu tinha chutado.

Olhei pra cima e examinei os arredores. Claro que tinha galhos quebrados na árvore de cima.

Enquanto continuava, ouvia os sons dos grilos e sapos — uma cacofonia sussurrante de barulhos noturnos. Sapos berravam, grilos chiavam. Sentia a brisa gelada batendo no rosto, deixando meu nariz vermelho de frio.

“Espera aí”, falei pra mim mesmo. “Não…” Conforme eu chegava mais perto desse galho normal pra caralho na minha frente, me abaixei e olhei bem de perto. Outro graveto saindo do chão.

Musgo do lado direito, pelado do esquerdo. “Tá bom”, falei estudando o graveto. “Sabe de uma coisa…” Tirei a faca e serrei a ponta dele. Peguei a cabeça do graveto e finquei no chão bem do lado direito dele.

“Tô paranoico…” As palavras saíram da minha boca num tremor rouco e fraco. Levantei, sacudi a terra das mãos.

“Beleza, vamo dar o fora daqui, porra”, falei pra mim mesmo e continuei.

Enquanto ouvia os sons da floresta, notei que tinha alguma coisa errada com os chamados dos sapos. Parei morto no lugar e prestei atenção. Levou um ou dois minutos pra eu finalmente sacar o que tava errado. Era tipo uma coceirinha no fundo do cérebro. Quando identifiquei, me acertou como um tijolo na cara.

Todos soavam exatamente iguais. Claro que sapo repete o barulho à noite, mas parecia um áudio em loop. Os grilos também, assim que prestei atenção de verdade. O vento soprava a cada 2 minutos, exatamente pelo mesmo tempo. Que porra tá acontecendo?

Meu coração afundou… Pânico começou a fermentar no peito. Despersonalização batendo forte, um véu fino cobrindo minha mente pra proteger minha psique que já tava enfraquecendo. “De jeito nenhum. Não, não, não, não, não…” Falei correndo pro graveto.

Musgo direito, pelado esquerdo, ponta serrada e fincada no chão. “NÃO!” gritei de raiva e medo. “ISSO NÃO TÁ CERTO, PORRA, NÃO!” berrei como se estivesse discutindo com algum ser superior. Levantei e disparei em linha reta pela trilha. Três minutos de corrida depois, o mesmo galho apareceu de novo. Passei correndo por ele uma, duas, três vezes. Finalmente caí de joelhos na frente do graveto.

“O que tá acontecendo”, falei com lágrimas enchendo os olhos. “Tô dando voltas esse tempo todo? Não, impossível. Corri em linha reta por 10 minutos, andei PORRA DE UMA HORA E MEIA!” Bati no chão como criança raivosa. “GRRRAAAHHH! PORRA!” Levantei de novo.

Derrotado e completamente confuso, voltei pro lugar onde tinha montado acampamento no dia anterior. Não demorou nada, óbvio. Eu não tinha ido pra porra nenhuma.

Encontrei a mesma clareira, mas o sinistro pra caralho foi que a fogueira que eu tinha feito não tava mais lá. As pedras tinham voltado pro lugar exato de antes de eu mexer nelas. E não tinha resto de fogo nenhum.

“Por quê…” falei exausto com toda aquela loucura crescente. Joguei as mãos pro lado e comecei a pegar as pedras de novo.

Depois de colocar elas de volta no mesmo lugar, fiz outra fogueira. “De volta à estaca zero…” falei com um suspiro longo e pesado. Chequei a hora: agora eram 23h. Já tinha sido um dia inteiro. Nesse ponto a gravidade da situação nem tinha começado a cair pra mim de verdade.

Eu sabia três coisas:

Tá escuro.  
Eu tô completamente preso.  
E nada funciona como deveria.

Me deitei de novo no chão frio da floresta e fiquei olhando pro céu. Estiquei os braços, soltei um suspiro fundo. Cobri os olhos com as mãos e soltei um gemido longo de frustração.

“ALÔ!?”

Levantei num pulo e virei a cabeça na direção da voz. Alguém tava me chamando? Meu coração disparou, assustado e finalmente com uma esperança.

“ALÔ!?”

“EI!!” gritei de volta, desesperado.

“ALÔ!?”

Depois da terceira vez, uma onda de adrenalina percorreu meu corpo inteiro. Dessa vez eu ouvi de verdade: uma voz humana grotesca, molhada, borbulhante. Alguma coisa entre homem e mulher, não dava pra distinguir. Quase como um cara tentando forçar a voz mais grave do que ela é, mas com um tom feminino. Não soava certo. Nada nisso tava certo. Por que porra eu gritei de volta?

Me arrastei pelo chão da floresta e me joguei atrás de uma árvore. Fiquei sentado, respirando pesado, esperando qualquer coisa. Ouvi galhos estalando longe, mato sendo arrastado enquanto alguma coisa se puxava desesperadamente na direção do meu acampamento.

“Hahhhh… hahhhh… hahhhh… alô…” A voz saiu mais baixa agora, bem na beira da luz da minha fogueira.

Entre os arranhões no chão e a respiração daquela coisa, eu só ouvia meu próprio coração martelando nos ouvidos. Meu batimento acelerou enquanto eu escutava como aquela coisa… existia…

A respiração parecia alguém engasgando por ar, como se os pulmões estivessem cheios de um líquido viscoso, grosso e podre. Tentando desesperadamente puxar qualquer ar, dava pra ouvir um gorgolejo fraco… Os ossos raspando uns nos outros, estalos secos, como se só se mexer já doesse pra caralho naquela coisa. Dois baques altos, como se estivesse procurando apoio. Agarrou o solo duro, apertando com toda força pra se arrastar. Galhos e pedras estalavam e viravam pó com a força da pegada.

Fiquei surpreso pra caralho de como ela chegou rápido. Parecia que tava a pelo menos uma milha de distância. Nem achei que meu grito ia ser ouvido.

Segurei a respiração torcendo pra que aquela merda passasse… Apertei o peito tentando controlar a respiração. Não fazia ideia do que era aquela coisa. O que eu sabia era que não queria me entregar de jeito nenhum.

Meus dedos do pé se cravaram no chão, pronto pra correr o mais rápido possível. Cada célula do meu corpo gritava pra dar o fora dali. Queria correr, mas lá no fundo eu sabia que não era a escolha certa.

“alô…” disse com um tom triste, quase decepcionado por não ter encontrado nada.

Escutei a respiração ofegante dela sumindo devagar. Ouvi ela ir embora depois do que pareceu horas.

Esperei até não ouvir mais nada. Não queria ver o que quer que estivesse fazendo aqueles sons. Quando tive certeza máxima de que tava seguro, esperei ainda mais. Fiquei sentado até minha bunda ficar dormente. Depois andei bem devagar na direção oposta daquela abominação nojenta.

Encontrei uma vala um pouco maior que eu, funda o suficiente pra dar algum abrigo. Não quis ficar na barraca — isso não ia proteger porra nenhuma. Acendi a lanterna segurando a mão por cima pra não iluminar muito. Só usei quando precisei. Desempacotei a barraca, estendi ela plana e finquei no chão cobrindo a vala. Achei cascas de árvore grandes o suficiente pra colocar por cima. Achei que isso ia me manter camuflado do que quer que estivesse me caçando. Agora pelo menos eu conseguia me sentir um pouco seguro ali.

Rastejei pro meu lar improvisado. Fiquei deitado, pensando no que fazer em seguida. Tá escuro, e tentar achar saída já tinha se provado inútil. Finalmente com um tempo pra relaxar e organizar os pensamentos, lembrei que tinha trazido meu PLB. Por que caralho não usei essa coisa antes!

Pensa nisso como um botão de emergência pra trilheiros — manda um sinal pro satélite avisando as pessoas certas que ajuda é necessária.

Tirei da mochila, mexi rápido com ele nas mãos. Apertei o botão certo… e nada. Nada aconteceu. Sem bip, sem som nenhum indicando que o sinal foi enviado… Nada. Joguei o negócio inútil pro outro lado da vala.

Fiquei olhando pro canto escuro do meu abrigo improvisado. Sentindo que toda esperança tinha ido embora, decidi fazer a única coisa que ainda me dava algum senso de controle nesse pesadelo: pensar.

Eu podia mapear o lugar? Descobrir onde diabos eu tô? Quer dizer, devo estar no mesmo lugar que cheguei, né? Teria que ficar quieto. Chequei a bateria do celular: ainda 87 %, bom. Desliguei pra economizar. Minha lanterna tá ótima, troquei as pilhas antes de sair. Tenho faca pra proteção e roupa quente, então isso é positivo.

Deitei o corpo de volta na vala e soltei uma risadinha baixa. Pelo menos vim preparado. Então, se alguém estiver vendo esse post, tenho comida suficiente pra durar pelo menos uma semana. Com certeza dá tempo pra quem estiver lendo isso me encontrar.

Então primeiro de tudo: vou explorar a área ao redor e ver que porra tem aqui.

Se esse post subir, vou colocar uma atualização assim que der. Por favor, me desejem sorte.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Estou preso em um loop temporal por um demônio. Hoje é o meu post número cinco mil

Vou começar com alguns avisos, porque o título desse post é um pouco enganoso. Primeiro, não tenho 100% de certeza da contagem. Durante um bom tempo eu tinha, mas agora tenho que admitir que existe uma margem de erro de pelo menos ±5. Isso apesar de todos os meus esforços pra lembrar, e isso me deixa inquieto pra caralho, porque é prova de que minha cabeça tá escorregando. Mais sobre isso depois. Apesar dessa incerteza toda, tenho marcado os últimos posts meus como “dia cinco mil”. Eles parecem performar melhor quando o título tem um número redondo. Não sei bem por que eu me importo com uma merda dessas; talvez só faça bem fingir que ainda sou humano o suficiente pra caçar atenção. Também ajuda imaginar que eu tenho algum controle sobre o tamanho da audiência que lê meu testemunho. Ajuda ainda mais fantasiar que um dia alguém com conhecimento esotérico/oculto vai responder com um método de fuga. Claro que tudo isso é só meu jeito de lidar com a situação. Já faz tempo que aceitei meu destino.

Segundo, tô só chutando quando uso a palavra “demônio”. Eu poderia ter dito “Estou preso em um loop temporal por uma entidade de outro mundo”, mas não tem o mesmo impacto. Além disso, o post não bomba tanto quando eu descrevo como “demônio” ou “diabo”. Eu tenho um monte desses joguinhos. Outro é rastrear quais frases/detalhes atraem quais tipos de comentadores. Tem um cara que só responde se eu mencionar a cidade onde moro; outro só fala alguma coisa se eu mentir e escrever que tô preso há 1000 anos. Novidade virou um recurso raro necessário pra minha sobrevivência, então desculpa qualquer detalhe aleatório nesse post — faz parte do meu protocolo regimentado de sanidade.

Como eu estava dizendo, não faço a menor ideia se meu captor é realmente um demônio ou qualquer coisa do tipo. Dito isso, acho que o termo não tá totalmente fora de lugar. Não sou religioso (e especialmente não sou mais), mas essa coisa definitivamente encaixa na descrição do que eu imaginaria que um demônio pareceria e agiria. Pensei nisso pra caralho, e “parasita demoníaco” é a melhor explicação que consigo dar pra identidade da criatura que tá parada no canto do meu quarto agora mesmo. Mas nunca vou saber com certeza. Pode ser um alienígena, um fantasma, ou algum experimento de laboratório que escapou, pelo que eu sei. Não é como se ele fosse me contar. Ele só falou um punhado de vezes, e nenhuma delas me fez acreditar que tem a menor intenção de se explicar pra mim.

Sei ainda menos sobre como ele me encontrou e me prendeu no loop pra começo de conversa. Não explorei nenhum templo antigo abandonado e fui amaldiçoado, não é o resultado trágico de algum pacto faustiano com um estranho enigmático nem o backfire irônico de um desejo de pata de macaco. Na real, sempre tive como regra vaga não mexer com coisas que não entendo. Sou uma pessoa cautelosa por natureza e passei a vida pegando toda oportunidade pra reduzir riscos ou evitar me meter em qualquer coisa perigosa. Mas no final não significou porra nenhuma. A única explicação que consigo dar de como acabei aqui não é explicação nenhuma, é um fato bruto. Eu sou profundamente azarado. Passei anos pensando naquele dia, neste dia, e não consegui apontar absolutamente nada que, se eu tivesse mudado, teria me salvado desse destino. Eu ter sido selado no tempo foi só um acidente bizarro, igualzinho a um acidente de avião ou um tsunami. Se criaturas como essa existem — e elas existem —, significa que algum pobre coitado vai acabar na mira delas por puro acaso. Só consigo imaginar que eu estava pisando em alguma falha psíquica extradimensional no lugar errado na hora errada, e agora fui engolido inteiro por algo horrível. Uma criança que coloca a língua pra fora durante uma nevasca está fadada a pegar pelo menos um floco de neve, mesmo que milhões de outros cheguem ao chão em segurança. Só que o floco derrete rápido, poupando ele de um destino como o meu.

Muita coisa do começo tá ficando nebulosa, mas ainda lembro do primeiro loop com clareza total. Na real, não percebi que tinha algo errado nas primeiras horas do dia. Acordei bem cedo, então minha cabeça ainda tava meio enevoada e não reconheci que a data no meu celular era do dia anterior. No meu trajeto matinal pro campus, comecei a apertar os olhos enquanto admirava o nascer do sol pela janela do trem na minha frente. O jeito que o sol refletia na água parecia estranhamente familiar, como se eu tivesse visto em um sonho ou filme. Esse déjà vu vago só endureceu virando um terror quieto quando cheguei na biblioteca. Como estudante de mestrado, eu tava lá pra adiantar um pouco da minha tese antes da primeira aula do dia. Ao abrir o documento, porém, não tinha nenhuma das adições que eu tinha feito na noite anterior. Apavorado achando que tinha perdido todo aquele progresso, chequei o histórico de edições e descobri que a edição mais recente era da noite retrasada. Antes que eu pudesse reagir direito a isso, fui interrompido pelo meu amigo Jon vindo na minha direção.

“De volta aqui tão cedo? Você realmente não consegue parar de queimar a vela pelas duas pontas assim”, ele disse com um sorrisinho, puxando uma cadeira ao meu lado. “Acho que posso te fazer companhia.”

Meus olhos se arregalaram de choque enquanto eu virava a cabeça devagar pra encarar ele. Ele tinha dito isso ontem. Isso tinha acontecido ontem. Esse momento, essa troca, aquelas palavras naquela ordem. Meu coração começou a bater mais rápido devagar enquanto eu murmurava algo quase incoerente e fazia sinal de que ia levantar. Depois de correr direto pra porta pra pegar ar fresco e me acalmar, respirei fundo umas vezes antes de checar o celular. 8:37 da manhã, 24 de fevereiro. Aquelas respirações fundas não serviram pra nada quando comecei a hiperventilar. Hoje era pra ser o dia 25. Eu sabia disso com mais certeza do que de outros dias, porque o 25 é o aniversário do meu pai. Eu tinha passado a noite anterior editando um vídeo de todos os meus familiares desejando feliz aniversário pra ele. Era pra eu mandar isso hoje. Mas hoje era ontem. Eu desabei no chão, meu corpo se revoltando contra essa verdade nojenta. Por entre respirações irregulares, só um pensamento ficava martelando na minha cabeça: Isso não pode estar acontecendo.

Mas estava acontecendo. Passei as próximas horas lutando contra um surto psicótico enquanto andava pela cidade lotada, perguntando pras pessoas a data periodicamente. Era 24 de fevereiro toda vez, sem exceção. Cada confirmação piorava aquela sensação de aperto e ardor bem fundo no peito. No final resolvi que isso podia ser só um glitch solitário no estilo “falha na matrix”. Era só um soluço isolado, e eu ia voltar pro fluxo do tempo quando acordasse amanhã de manhã. Esses sonhos foram esmagados quando acordei no 24 de fevereiro seguinte, segurando a cabeça nas mãos por horas depois de checar o celular.

É aqui que as coisas começam a ficar borradas. Lembro dos meus primeiros meses em traços largos, mas os detalhes estão sumindo. Sei que minha primeira fase de luto diante da eternidade, a negação, consistiu em tentar descobrir que lição eu precisava aprender pra me libertar do que eu ainda acreditava ser algum castigo cósmico. Meditei, voltei pra igreja, liguei pra ex-namoradas, qualquer coisa que eu conseguisse pensar que pudesse levar a alguma reconciliação. Nada disso fez merda nenhuma. Depois de um tempo, acreditar que eu podia me libertar pelos meus próprios esforços virou uma maldição sufocante em vez de um farol de esperança.

Em vez disso, comecei a me entregar pro loop, explorando as novas avenidas de entretenimento que tinham se aberto pra mim. Descobria exatamente quais sequências de palavras faziam o Jon, meus professores ou até a garota sentada do meu lado no trem rir, chorar ou se apaixonar por mim. Descobri como convencer eles de que eu tava preso num loop e sentia um prazer doentio vendo os rostos deles se contorcerem em expressões distorcidas de horror e luto. No começo era um pouco nojento saber mais sobre essas pessoas do que os próprios entes queridos mais próximos, mas superei esse peso moral. Superei um monte de pesos morais. Nadar em tempo profundo faz isso com você. Meu entretenimento naqueles primeiros meses e anos ia muito além de esgotar todas as opções de diálogo com as pessoas no meu caminho. Meu corpo resetando todo dia significava que eu podia experimentar qualquer droga sem criar tolerância ou vício químico. O medo de overdose também não era limite, porque toda vez que eu exagerava, simplesmente acordava na minha cama no começo de mais um 24 de fevereiro. Devo ter passado pelo menos seis meses experimentando heroína pela “primeira” vez. Olho pra trás com carinho, mesmo que embaçado, daqueles dias.

Em vez de bater de frente com vício, foi o tédio que cortou meu uso de drogas. Era uma experiência surreal olhar pra uma seringa de heroína com nada além de apatia no coração. Devo ser o único humano vivo que já enjoou de narcóticos pesados. Hedonismo é só escapismo no fundo, e escapismo só vale a pena quando você tem uma crença razoável de que pode realmente escapar do que tá tentando evitar. Sem essa possibilidade disponível pra mim, até as atividades que pareciam mais cheias de adrenalina acabavam virando chatas e até irritantes. Talvez alguns de vocês conseguissem se picar pra eternidade, mas eu enjoei. Enjoei de violência também. Você só consegue dar um soco na cara do seu professor no meio da aula ou assassinar o prefeito um número limitado de vezes antes de ficar dessensibilizado e enjoar da coisa toda. Humanos são puxados naturalmente pro significado, e quanto mais tempo passava por cima de mim, mais eu percebia que esse dia nublado de fevereiro não tinha absolutamente nada pra me oferecer.

Minha memória é mais falha na próxima fase do meu aprisionamento. Quando a busca por emoção deu lugar a uma névoa melancólica, parei de me importar com a minha situação. Sem tentar mais escapar nem curtir minha nova vida, simplesmente me recusei a interagir com ela de qualquer jeito. Passei o que devem ter sido décadas só deitado na minha cama, mal pensando em qualquer coisa. Você sabe como é ficar tanto tempo sem nenhuma vontade de comer? Sem a menor vontade de levantar a cabeça do travesseiro? Eu já estava morto pro mundo no momento em que fiquei preso, mas agora eu estava completamente morto pra mim mesmo. Eu tinha tentado suicídio antes de me prender voluntariamente na cama, mas toda queda livre de 150 metros pro concreto terminava do mesmo jeito: com meu alarme me acordando num grito gutural. Essa era minha próxima melhor alternativa. Eu planejava ficar ali deitado indefinidamente, torcendo pra que quanto mais nada eu experimentasse, menos consciente eu ficasse. Perto do fim, estava começando a funcionar. Comecei a me sentir menos como uma criatura senciente e mais como a memória de alguém sobre uma. Era quase como se minha própria consciência estivesse sendo sugada, como se eu estivesse perdendo o que me fazia saber que eu podia perder coisas.

Em algum momento durante esse declínio cognitivo autoinduzido, porém, algo primal dentro de mim se agarrou aos aglomerados de sombras no canto do meu quarto. Pareceu instintivo, como se minha amígdala tivesse identificado uma ameaça pela primeira vez em uma eternidade. Fazia um tempo impossivelmente longo desde que eu tinha focado conscientemente minha visão em qualquer coisa, mas esse surto repentino de atividade cerebral me devolveu pra um estado em que eu queria desfocar minha visão e focar naquelas sombras. Meus olhos se arregalaram de terror quando finalmente consegui ver o que realmente estava parado a poucos metros de mim.

Era uma figura alta, musculosa, humanóide, com pele cinza carvão áspera. Com a cabeça a poucos centímetros do teto, ela estava virada pra mim, bloqueando a porta do meu quarto. Não usava nada além de um pano preto grosso amarrado na cintura. Mesmo quando foquei os olhos, o contorno da criatura ainda parecia borrado, como se estivesse sempre na minha visão periférica. Não tinha olhos. No topo da cabeça tinha só uma grande mancha de pele enrugada, tipo de cotovelo, só que as linhas eram bem mais profundas. Apesar da falta de olhos, eu tinha certeza de que ela estava intensamente focada em mim. Não tinha nariz também, só um sorriso enorme de orelha a orelha revelando fileiras de dentes pretos irregulares. Babava pela boca sorridente, fios grossos de saliva pendurados nos lábios. Deve ter percebido que eu estava olhando pra ela, porque soltou quatro palavras numa voz baixa e ofegante:

“Volta a dormir.”

Embora as palavras fossem quase sussurradas, era como se cada uma penetrasse minha alma com uma intenção maliciosa pura. Eu sabia por que ele estava babando. Entendi ali na hora que isso era um predador, e eu era a presa. Não obedeci o comando; acho que nem conseguiria, mesmo se quisesse nesse ponto. A onda de choque e sensação percorrendo meu corpo depois de eras de nada parecia um balde de água gelada no meu sistema nervoso inteiro. Fiquei ali sentado, paralisado, olhos arregalados de horror fixos na coisa. Mas enquanto eu continuava laser-focado na criatura, ela começou a ficar cada vez mais borrada. Era como se estivesse se dissolvendo quanto mais eu encarava. Isso continuou até virar só o estranho aglomerado de sombras que eu tinha identificado no começo. Depois de ficar na cama o que pareceu horas, finalmente juntei coragem pra atravessar elas. Não aconteceu nada.

Comecei a viver de novo depois desse primeiro encontro. Não tinha certeza total do motivo, talvez porque o escapismo voltou à moda depois que eu tive uma experiência que eu faria qualquer coisa pra esquecer. Tentei imaginar que era só consequência da minha mente derretendo, que era só o último suspiro do meu subconsciente. Mas lá no fundo eu sabia a verdade. Era real, e minha intuição me dizia que eu devia minhas décadas de tormento pra criatura no canto do meu quarto. Mas por que eu nunca tinha visto ele antes? Por que ele não simplesmente colhia minha alma ou me arrastava pro inferno ou pra nave-mãe dele ou pra onde quer que fosse e acabava logo com isso?

Aqui está o que eu sei. Essa criatura, esse demônio, não come no sentido tradicional. Parece não ter interesse nenhum no corpo da vítima; só se importa com a mente. Além disso, só se interessa por mentes desoladas e inativas. Essa é a única forma de eu fazer sentido daquele primeiro encontro e das aparições seguintes. Agora, você imaginaria que a refeição ideal dele seria um paciente em coma num hospital, né? Mas não pode ser. Eu era um intelectual em ascensão fazendo mestrado em antropologia evolutiva, e mesmo assim ele preferiu me desgastar em vez de se banquetear com uma mente já quebrada. Então tenho que concluir que esse demônio não é um necrófago. Ele caça, e o loop é o jeito.

Na minha vida antiga, passei muito tempo pesquisando a origem da humanidade. A maioria das pessoas atribui nosso sucesso evolutivo e domínio sobre o mundo natural à nossa inteligência aprimorada, mas isso é só parte da história. Humanos primitivos eram caçadores de resistência. Tínhamos a maior stamina de qualquer mamífero terrestre do mundo. Perseguíamos nossa presa sem descanso, sem dar a ela chance de recuperar o fôlego ou se curar de ferimentos contínuos. Éramos uma força opressora total de morte e desespero pra qualquer pobre coitado que cruzasse nosso caminho. Não importava o que você fizesse; a gente te pegava no final. Eu antes achava que isso era um nicho evolutivo único, que éramos as únicas criaturas que caçavam desse jeito. Agora eu sei melhor.

Até psicopatas podem ser torturados com confinamento solitário. Um espaço sem nenhuma novidade ou propósito eventualmente leva a mente à loucura. O loop é minha cela. É o mecanismo pelo qual o demônio pretende esvaziar meu crânio, me levar a uma morte cerebral funcional. Não tenho como saber se isso é algo necessário pro processo digestivo dele, tipo cozinhar carne crua, ou algo opcional pra dar sabor, tipo tempero. De qualquer forma, é assim que ele escolhe caçar, e quase conseguiu.

Claro, isso é só minha teoria de trabalho sobre o que está acontecendo. Mas ela é sustentada pelo que aconteceu desde nosso primeiro interação. Depois que voltei pro mundo fora do meu quarto, comecei a notar mudanças na sequência normal de eventos que eu estava acostumado. Era sutil no começo, mas quando você vive o mesmo dia milhares de vezes, capta cada detalhe imperceptível. O Jon andava um pouco mais devagar na minha direção na biblioteca, ou o sol ficava um pouco mais baixo e mais fraco no céu do que deveria no meu trajeto de trem. Isso piorou com o tempo, as coisas ficando cada vez mais vazias e sem graça. Eu pegava um livro novo na biblioteca só pra descobrir que todas as páginas estavam em branco. Tentava gritar obscenidades pra um estranho pra ter reação, e ele simplesmente passava reto. O céu, os prédios e as árvores começaram a desbotar pra um cinza escuro.

O tempo todo, eu continuava vendo aglomerados de sombras nas bordas da minha visão periférica, tomando forma mais sólida se eu continuasse ignorando eles. Pelo que entendo, o demônio está apertando o cerco no loop depois de falhar em me matar no quarto. Está reduzindo a largura de banda de tudo, removendo sistematicamente qualquer fonte de estímulo que eu possa usar pra me manter são. Ele odeia quando tô distraído, quando tô absorvido em qualquer coisa que me deixe esquecer minha situação por um segundo que seja. Eu estava lendo um dos livros que ainda tinham texto um dia, bem preso no monólogo interno do personagem principal. Não cheguei ao fim da página antes de ouvir uma única palavra sussurrada bem atrás de mim. Ainda num tom baixo, mas bem mais forte do que da primeira vez que ouvi ele falar.

“Para.”

É assim que cheguei à conclusão de que ele me quer dócil e sem cérebro. No mesmo dia, escrevi meu primeiro post aqui. Foi curto e mais um grito de socorro do que um testemunho, mas fiz de novo no dia seguinte. Foi bom dar voz à minha luta. E isso nos traz até agora. Passei os últimos 5000 (mais ou menos) dias fazendo tudo que posso pra adiar o declínio mental inevitável, com meus posts diários sendo uma parte chave do meu protocolo de sanidade. O protocolo é simples, mas sigo ele à risca. No fundo é só passar cada dia buscando o máximo de estímulo novo possível. Livros, filmes, escrita criativa, e até lendo todas as suas experiências aqui. Entrei em cada prédio da minha cidade e explorei tudo. Sei falar 10 línguas (no momento tô aprendendo islandês). Tenho um domínio de nível de mestrado em física quântica. Se eu voltasse pro fluxo normal do tempo, eu seria um polímata de verdade. Mas não vou voltar. Sou um condenado no corredor da morte.

O protocolo teve que sofrer algumas alterações conforme menos e menos fontes de novidade ficam disponíveis. Um dia acordei e descobri que entrar na URL de qualquer serviço de streaming devolvia só uma tela preta. O mesmo com a Wikipedia, que foi uma perda particularmente brutal. Tive que recorrer a mídia analógica pra maior parte do meu estímulo. Discos de vinil, fitas VHS, o pacote completo. Sempre gostei de coisa antiga mesmo, e tem várias lojas na minha cidade que vendem equipamentos vintage (hoje em dia o caixa nem fala nem faz nada se eu roubar na cara dura). Sou grato que esse site ainda funciona e que consigo continuar compartilhando meu testemunho. Escrever minha história ocupa várias horas de cada dia, mas é essencial. É como eu retenho minhas memórias do que aconteceu e de quem eu sou. Sem a repetição diária da minha situação, eu teria enlouquecido há muito tempo.

Mas não consigo manter isso pra sempre. Eu sei. Eventualmente o demônio vai sacar, e meus discos não vão emitir som nenhum. Eventualmente todo livro que eu abrir vai estar em branco. Posso até perder a cabeça antes disso acontecer. Rachaduras estão se formando no último ano. Não queria admitir por um tempo, mas a perda recente da contagem desses posts finalmente me fez encarar. Alguns dias demora mais do que deveria pra eu lembrar o nome do Jon, ou pra lembrar que “amanhã” é o aniversário do meu pai. Meu Deus. Meu Deus. O nome dele não se escreve assim; é John. Porra, caralho, eu realmente tenho escrito assim esse tempo todo? Caso em ponto. Tô escorregando. Ele vai vencer no final, e ele sabe. Mesmo agora, consigo ver o contorno fraco de um sorriso na minha visão periférica. Aquele sorriso nojento, presunçoso do caralho.

Chegou um ponto nesse ciclo em que eu quis morrer, sumir. Mas quanto mais eu entendia o que realmente estava acontecendo comigo, maior ficava a vontade de lutar. Isso não aconteceu comigo do nada; eu devo o que calculo ser quase um século de sofrimento a esse demônio. A culpa é dele. Não faço ideia de quantas pessoas ele já condenou a esse destino doente no passado, nem quanto tempo levou pra todas elas quebrarem. Mas eu não vou quieto. Vou cuspir no carpete enquanto me arrastam pro inferno. Vou alongar esse processo o máximo que puder. Se tudo que posso fazer diante desse mal de outro mundo é incomodar ele, então é isso que vou fazer. Eu sou Sísifo e a pedra me odeia. Mas eu odeio a pedra ainda mais.

O que a mosca fica pensando enquanto se dissolve na boca da planta carnívora? Ela realmente acredita que tem chance de lutar? Acho que nunca vamos saber. Vejo vocês todos amanhã.

A Parada

Era uma cidadezinha chamada Grindsworth.

Grindsworth era considerada uma cidade sortuda pra caralho. Nunca tinha tempo ruim, quase zero crime, terras agrícolas ótimas e a cidade vivia ganhando recursos de presente do prefeito.

Muitas famílias de cidades vizinhas se mudavam pra Grindsworth justamente por causa dessa sorte dela.

Mas a cidade tinha uma regra estranha que todo mundo que morava lá precisava seguir.

Ninguém podia sair de casa na Noite da Parada.

Todo dia 9 de cada mês, durante a noite, uma parada passava pela cidade tocando música até o sol nascer. Ninguém explicava o motivo de não poderem ver a parada, mas mesmo assim todo mundo obedecia a regra.

Eu moro em Grindsworth desde pequeno. Quando eu era criança, meus pais eram perfeitos. Nunca brigavam, nunca me trataram mal. Eram os pais que qualquer um sonharia em ter.

Mas depois que minha mãe morreu, há três anos, meu pai virou alcoólatra. Ele gritava comigo se eu não estivesse em casa antes do pôr do sol. Eu não podia fazer porra nenhuma à noite sem levar bronca. Mesmo assim, às vezes eu saía escondido quando ele apagava cedo.

Uma noite, meus amigos resolveram se encontrar justamente na Noite da Parada. Eu fiquei na dúvida no começo, mas depois de uma briga feia com meu pai, decidi ir junto.

Depois que meu pai desmaiou no sofá da sala, eu saí de fininho pra encontrar a galera.

Mais ou menos duas horas antes do pôr do sol, me encontrei com o Fritz, o Alan e a Hannah. Sou amigo do Fritz e do Alan desde o ensino fundamental. Da Hannah eu não sabia quase nada — só que ela estava namorando o Alan há uns meses.

A gente se reuniu na casa do Alan e começou a jogar Monopoly. A mãe dele estava em viagem de negócios a semana toda, então ele estava cuidando da casa sozinho. Enquanto a gente jogava, as sirenes de tornado da cidade não paravam de tocar, lembrando todo mundo pra ficar dentro de casa na Noite da Parada.

Na hora eu não sabia, mas meus amigos na verdade queriam ver a parada. Eu achava que ia ser só mais um sleepover normal, como sempre.

O Fritz falou que já tinha saído durante a Noite da Parada antes e que era tudo balela, uma farsa.

O Fritz sempre foi aquele cara doido pra caralho, vivia fazendo merda só pra se mostrar. O estranho é que ele quase nunca se machucava de verdade.

A única vez que eu lembro dele se ferrando feio foi quando quebrou o braço tentando escalar o playground da escola ainda no fundamental. Fora isso, quando não estava fazendo besteira, ele era um amigo foda.

O Alan ficou interessado na hora e topou ir junto com o Fritz. Só eu e a Hannah éramos contra. Mas o Alan acabou convencendo a Hannah a entrar na onda também.

Eu não queria ir de jeito nenhum, mas fiquei com medo do que poderia acontecer se eu deixasse eles sozinhos. E se desse merda e eles precisassem de mim?

Acabei concordando. Antes de sair, peguei escondido uma faca da cozinha do Alan e guardei na minha mochila.

Uns 10 minutos antes do pôr do sol, as sirenes de tornado tocaram o último aviso antes da Noite da Parada.

O Fritz nos levou pra um beco perto da praça central. No beco tinha duas lixeiras gigantes. Ele mandou a gente arrastar elas pro fundo do beco pra gente ter onde se esconder durante a parada.

Naquele momento meu coração estava batendo tão forte que parecia que ia explodir. Minhas mãos tremiam pra caralho. A vida inteira me falaram pra nunca olhar a parada… e ali estava eu.

Isso é tão idiota. Porra, por que caralho eu tô fazendo isso?

De repente, a gente ouviu o som de música e passos de marcha vindo de longe…

A gente viu várias pessoas de uniforme vermelho vivo marchando pela rua, todas sincronizadas. A maioria carregava instrumentos e tocava aquela música de banda que ecoava pelas ruas. Alguns faziam truques — malabarismo com pinos, acrobacias, esse tipo de coisa.

E bem no meio do grupo tinha um carro alegórico. Parecia que era pra ser uma ovelha.

Meus amigos estavam boquiabertos, impressionados pra caralho. Mas eu notei uma coisa estranha: todos os integrantes da parada tinham cordas ligando eles ao carro alegórico.

De repente, um berro ensurdecedor saiu de dentro do carro alegórico. A parada parou na hora. Todo mundo ficou congelado.

No canto da minha orelha eu ouvi a Hannah sussurrando: “Que porra foi—”

Olhei pro lado e vi o Fritz em pânico total tapando a boca dela com a mão. Nunca na vida eu vi o Fritz com tanto medo.

Olhei de volta pra parada e… eles estavam olhando direto pra gente.

O Fritz gritou: “CORRE!”

A gente saiu correndo do beco atrás dele. Enquanto corríamos, a música voltou a tocar, só que agora mais rápida, mais agressiva, mais intensa.

Eu ouvia gritos atrás de mim. Na hora eu estava em pânico total e nem percebi que o Alan e a Hannah não estavam mais comigo.

De repente, um dos membros da parada passou o braço no meu pescoço e tapou meus olhos com a outra mão. Eu me debati pra caralho tentando me soltar, mas o filho da puta não largava.

Enquanto ele me arrastava, eu ouvia meus amigos gritando e um rosnado horrível, gutural. Tentei me debater mais ainda e ouvi um barulho nojento de osso esmagando, junto com a Hannah gritando e chorando desesperada. Consegui finalmente tirar a mão dele dos meus olhos e vi o que estava rolando.

Na minha frente tinha uma coisa humanóide grotesca de uns 6 metros de altura. O corpo parecia velho, mas era musculoso e completamente deformado. O rosto era uma aberração: olhos cinza saltados, dentes podres, boca sem lábios nenhum.

A parte de baixo do corpo dela era onde todas aquelas “cordas” se conectavam aos membros da parada. Não eram cordas… eram cordões umbilicais.

Nas mãos dela estava o corpo do Alan, já meio comido. Ao lado da criatura, caído no chão, estava o carro alegórico que ela usava como casca.

Eu me debati pra cacete até conseguir me soltar do membro que me segurava, peguei a faca na mochila e enfiei no peito dele. Ele caiu. Corri até a Hannah e comecei a esfaquear várias vezes o membro que segurava ela, mas a porra não reagia nem um pouco.

Em puro desespero, agarrei o cordão umbilical que conectava o membro e cortei ele no meio. O cara soltou a Hannah na hora, começou a gritar feito um animal e, segundos depois, explodiu em chamas, virando só um corpo carbonizado.

O resto dos membros recuou de nós. A gente aproveitou o momento e correu pra porra toda. Olhei pra trás enquanto corria e vi que eles não estavam mais nos perseguindo.

A criatura rastejou de volta pra baixo do carro alegórico e a parada continuou marchando pela rua. O sol finalmente estava nascendo.

A Hannah acabou ligando pra polícia e contou tudo o que rolou. Ela insistiu pra eu ficar e esperar os policiais, mas eu só queria voltar pra casa.

Cheguei correndo, encontrei meu pai ainda largado no sofá. Tentei acordar ele pra contar o que tinha acontecido.

Ele não acordava. Chequei o pulso… Ele tinha morrido dormindo.

Anos depois, eu moro agora com minha tia e meu tio em outro estado. Ninguém nunca mais soube do Fritz desde aquela noite. Ele simplesmente sumiu.

Tentei falar com a Hannah algumas vezes, mas ela ficou muito deprimida depois daquilo.

Recentemente fiz mais pesquisa sobre a cidade e descobri algumas coisas.

1. Isso já aconteceu várias vezes desde que a cidade foi fundada. Por que ninguém nunca tentou matar aquela coisa?

E 2. Aparentemente, quem vê a parada fica amaldiçoado com azar o resto da vida. Será que eu causei a morte do meu pai só por ter visto aquilo?

Eu perdi tudo naquela noite. Vou descobrir que porra era aquela criatura e, de algum jeito, vou matar ela. Se você souber qualquer coisa sobre a Parada, por favor me avisa.
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