quarta-feira, 11 de março de 2026

Não consigo parar de pensar em como meu marido diz que vê duas de mim...

São 2 da manhã e meu bebê está dormindo no meu colo, a respiração dela tão leve e doce que eu tenho medo até de me mexer, e eu me pego pensando em como meu marido diz que vê duas de mim. Eu tenho pensado muito na outra ultimamente. Na outra eu.

Talvez seja a privação de sono. Todo mundo avisa sobre aqueles primeiros meses (ou anos?) com um bebê — os despertares constantes, as mamadas no meio da noite, o balançar, balançar, balançar pra fazer dormir. Aqui estou eu, com medo de me mexer, medo de piscar, medo de respirar. Se ela acordar, começa tudo de novo: mamar, cantar, contar de trás pra frente de cem até zero na minha cabeça pra ter certeza absoluta de que ela pegou no sono de verdade e eu posso parar de balançar.

Meus olhos já se acostumaram com todas as variações de preto que enchem o quarto dela (que antes era o meu estúdio, ai como eu sinto falta do meu estúdio). Consigo ver a mãozinha minúscula dela como se a luz viesse de dentro dela mesma. Os cílios descansando na bochecha. Meu mundo inteiro aqui no meu colo. Não faz tanto tempo assim que ela estava dentro de mim, essa mesma pessoa, só uma camada fina de pele separando, com cotovelos pontudos e joelhos afiados como faca. Ela é o meu mundo inteiro. E o que era o meu mundo antes? Eu tinha uma vida que não girava em torno dela, mas agora não sobrou espaço pra nada. Foi tudo empurrado pro fundo do armário e enterrado embaixo de paninhos de boca e brinquedos de banho.

Mais cedo eu vi alguma coisa no canto — um deslize escorregadio —, mas quando olhei melhor percebi que era só o saco de dormir pendurado na porta do armário. Tenho feito isso bastante ultimamente… ver alguma coisa pelo canto do olho e depois descobrir que não era nada. Até de dia. E no meio da noite, quando não consigo dormir, tenho começado a pensar em como o Rick diz que existem duas de mim.

A primeira vez que aconteceu foi há vários anos. Estávamos de férias e ele tinha acabado de me dizer que me amava. Meu marido nem era meu namorado ainda, só um cara que eu queria conhecer de todas as formas possíveis. Um mês antes, quando eu estava fora da cidade a trabalho, a gente se conheceu num app, tomou uma cerveja e descobriu que trabalhava na mesma empresa. Parecia ao mesmo tempo uma idiotice e coisa do destino. O fato de eu e o Rick trabalharmos juntos deu pro nosso quase-namoro um começo sexy e secreto que fazia cada olhar parecer proibido e cada beijo roubado uma explosão.

Depois de um mês eu voltei pra casa e a gente percebeu que sentia falta um do outro. Decidimos nos encontrar no Havaí por uma semana — ideia que minhas amigas acharam irresponsável, pra não dizer completamente pirada. Eu já estava me apaixonando pelo Rick, então o ar com cheiro de abacaxi e café de Maui, a água do mar na temperatura do corpo, os mai tais sem fundo me fizeram despencar do precipício. Eu me sentia segura com o Rick, docemente calma e confiante na gente, feliz pra caralho de um jeito todo bagunçado. O sexo era incrível. Tudo era suave, cheirando a protetor solar e raspadinha de gelo.

A gente estava hospedado numa casinha pequena a uns dois quarteirões da praia. Ficava no terreno de uma casa maior ocupada por um casal que abria latão de cerveja antes do café da manhã e tinha aqueles sorrisos iguais de abóbora de Halloween. Naquela primeira noite, quando voltamos de uma noite de rum, sashimi, beijos cheios de vontade e pôr do sol, eu me peguei olhando embaixo da cama e atrás da cortina do chuveiro. Empurrei o trinco de segurança, com medo dos vizinhos sem motivo nenhum, mas esqueci a ansiedade rapidinho quando o Rick chegou perto e tirou o cabelo da minha testa. Mal sabia eu que a ameaça não vinha de fora. Antes que eu percebesse, a gente caiu na cama, roupas esquecidas no chão frio de azulejo.

Não sei que horas eram naquela primeira noite quando eu acordei. Estava um breu total e eu precisava fazer xixi. Os suspiros profundos do Rick bagunçavam os cabelinhos da minha nuca e faziam meu coração bater mais rápido. Dava pra ver um fiozinho de luar embaixo da porta do banheiro. Saí do calor dele, meus pés atravessaram o azulejo gelado. Fechei a porta atrás de mim, fiz xixi com gosto de piña colada, limpei, dei descarga. Fiquei olhando meu cabelo de sexo no espelho e sorri pra mim mesma.

Apaguei a luz e captei um movimento pelo canto do olho.  

Porra! Que porra é essa?

Era eu. No espelho. Eu parecia diferente no escuro.

Saí do banheiro e fui me esgueirando pra cama. Foi aí que eu ouvi. Movimento. Um farfalhar frenético.

O Rick esbarrou na mesinha de cabeceira, tateando atrás do abajur. Acendeu a luz e eu vi ele sentado na cama, me olhando em puro terror.

“Onde você estava?”, ele perguntou.

“Eu estava no banheiro.”

Ele olhou pro meu lado da cama. Os olhos dele vasculharam o quarto, procurando alguma coisa. Eu não consegui evitar e olhei também, forçando a vista nas sombras. Não dava pra saber se ele estava realmente acordado, parecia com os olhos vidrados e a boca aberta.

“O que foi?”, perguntei. Parte de mim queria ir até ele, colocar a mão nas costas dele, confortar. Outra parte queria recuar, voltar pro banheiro e trancar a porta.

O Rick se levantou, tentando montar um quebra-cabeça quando claramente faltavam peças.

Ele disse: “Eu acordei e você estava sentada na cama, sorrindo pra mim. Como se estivesse me observando dormir.”

Ele viu o olhar no meu rosto. “Tô falando sério. E aí eu ouvi a porta do banheiro e virei e você estava saindo do banheiro. Olhei de novo e você ainda estava lá, na cama. Sorrindo pra mim. Eu até pensei que a que estava saindo do banheiro era coisa da minha cabeça porque você estava tão real. Bem aqui do meu lado.”

Eu olhei pro lugar ao lado dele. Não tinha ninguém.

Meu riso saiu oco: “Você estava sonhando.”

“Não, eu não estava.” A voz dele estava pesada. “Eu não estava.” Ele olhou pra mim, olhou através de mim. “Tinha duas de você.”

“E aí o que aconteceu?”, perguntei.

“Nada. Eu acendi a luz e…” Ele para no meio da frase, olha o quarto mais uma vez. “Devo ter sonhado.”

Eu ri dessa vez com mais vontade. Ele balançou a cabeça, mas um sorriso apareceu na barba. Abriu os braços e eu me enfiei no calor sonolento dele. A gente começou a se beijar e a outra eu foi rapidamente esquecida.

Acabei de ver de novo agora, enquanto estava digitando isso. Um leve movimento pelo canto do olho — tipo uma sombra passando do lado de fora da janela, jogando sua escuridão escorregadia na parede perto da estante cheia de bichinhos de pelúcia e sapatinhos minúsculos. Aquela estante antes guardava coisas de adulto, coisas de arte, coisas da vida que eu tinha antes dessa criaturinha minúscula vir pro mundo. Eu me inclinei pra frente, apertando os olhos na escuridão leitosa, mas o quarto está vazio. O corpinho quentinho no meu colo está se mexendo e soltando uns barulhinhos baixinhos, tipo ar saindo devagar de um balão.

Vou tentar a temida transferência pro berço e ver se consigo dormir um pouco hoje à noite. Porque eu não tenho dormido quase nada. E sono é importante. É só no meio da noite, quando estou amamentando ou balançando, balançando, balançando, que eu penso na outra eu.

Ou na coisa que eu nunca contei pro Rick. Que ele não foi o primeiro namorado a ver ela.

Se isso já aconteceu com mais alguém, eu adoraria saber. Às vezes fica tão solitário aqui, nessa cadeira de balanço.

terça-feira, 10 de março de 2026

Não há honra em vencer o seu visitante

O Apostador é uma daquelas lendas urbanas que fazem todo mundo parar pra conversar. Se você lembra da loucura da Bloody Mary de uns anos atrás, o Apostador teve um efeito igualmente contagioso na gente, os jovens. A história de como essa lenda urbana específica surgiu varia bastante dependendo de quem conta, mas o jeito certo de invocar e o ritual que vem depois são basicamente idênticos, não importa pra quem você pergunte. Não importa se o Apostador é do tipo “mulher de branco”, um poltergeist vingativo ou o próprio diabo. A única coisa que realmente importa é o que ele faz dentro do contexto desse ritual.

Olha só, existem certas coisas que a mente humana foi feita pra esquecer. A consciência é o oposto do que não dá pra entender, então faz todo sentido a gente não saber direito o que se esconde no escuro justamente por causa dessa incompreensibilidade. Eu sou a única pessoa que conheço que já venceu o Apostador, e mesmo assim a verdadeira natureza dele continua um mistério pra mim. Claro que eu poderia só contar tudo isso, pedir pra você confiar na minha experiência e depois pedir sua confiança de volta de que você não vai mexer com essas coisas. Mas eu também já fui curiosa pra caralho. Depois de tudo que rolou, eu sei que a única forma de impedir mais tragédia é contar exatamente o que aconteceu comigo.

Mesmo que quase todo mundo que conhece o ritual saiba mais ou menos a versão certa, pouca gente entrega a informação de bandeja. Embora isso pareça contraditório, eu vou te passar o processo exato de invocação e as regras que eu usei pra vencer, só pela documentação:

O jogo que você escolher tem que ser colocado do seu lado do limiar de um possível “portal”, mas o espaço entre o tabuleiro ou o baralho não pode passar de um pé, senão a invocação não funciona. Nota importante: espiritualmente, limiar costuma ser porta, espelho ou janela. Eu usei uma janela.

Duas velas têm que ser colocadas do seu lado do limiar, uma na esquerda e uma na direita. Às vezes o Apostador é um péssimo perdedor, então isso é sua proteção; se você fizer certo, ele não consegue cruzar a linha invisível que surge entre as velas. Só que se as velas ficarem muito perto do limiar, o Apostador não vai conseguir jogar direito o seu jogo porque não alcança as peças dele, mesmo que o resto do ritual esteja perfeito. Lembra: isso significa que as suas próprias mãos vão ficar expostas pra ele durante a sua vez.

Seu jogo tem que ser de estratégia. Damas, xadrez e alguns jogos de carta funcionam bem. A sorte tem que ser o mínimo possível, porque é uma força que o Apostador manipula fácil, igual um poltergeist mexe no mundo físico.

Você começa o jogo falando “Eu não consigo jogar isso sozinho, senta aí no limiar da minha casa” três vezes.

Você termina o jogo apertando a mão do Apostador. Pra mim, esse foi o passo mais foda de todos, porque você é obrigado a enfiar parte do corpo pra além das velas. Se você vencer, o Apostador tem que estar calmo o suficiente pra você finalizar o jogo e selar o limiar. Se você sair sem fazer esse passo final, ele pode ir atrás de você assim que as velas apagarem.

Você não pode sair até o ritual estar completamente cumprido. Cuidado: olhar pra trás também conta como sair.

Não há honra em vencer o seu visitante, e existem consequências pra quem perde pra ele.

Entender essas regras e saber por que você deve temer quebrar qualquer uma delas é essencial pra você sobreviver. É por isso que eu vou te dar todo o contexto agora.

No verão antes do primeiro ano do ensino médio, minhas melhores amigas Abigail, Brynn e eu mesma revezávamos fazendo um monte de noites do pijama e outros rolês gerais. Depois do fundamental, as duas iam pra escola pública do bairro enquanto meus pais pagavam pra eu estudar numa escola só de meninas. Eu tava morrendo de medo que elas fossem me esquecer, então garanti que a gente passasse o máximo possível daquele verão grudado uma na outra. Hoje, olhando pra trás, vejo que foi um desespero absurdo da minha parte, mas quem pode me julgar? Eu tinha treze anos. Abigail, Brynn e eu formamos uma espécie de irmandade pra aguentar as merdas do ensino fundamental. Aquele apoio todo estava prestes a ser arrancado de mim.

Enfim, como a gente passava tanto tempo junto e meu nome era Charlotte, nossos pais começaram a chamar a gente de “as ABCs”. Sacou? Abby, Brynn e Charlie. As ABCs. Um trio icônico pra caralho.

Alguns dias a gente passava no shopping, só olhando vitrine e experimentando roupa porque tinha treze anos e dinheiro era pouco. Outros dias a gente ia nadar na piscina pública. Quando não tinha mais ninguém, a gente brincava de sereia escondido. Com treze anos já, a gente teria levado a maior zoação se alguém descobrisse. Entre outras coisas daquele verão, a gente conversava. Conversava tanto que quase não sobrava mais assunto. Nós três passamos tanto tempo juntas que os dias derretiam uns nos outros que nem pote de plástico cheio de sopa grossa no micro-ondas. No finalzinho, a gente tava só arrastando os últimos dias de férias. Eu te conto tudo isso pra você entender o quanto a gente tava entediada pra valer.

Um daqueles dias virou uma noite de pijama na minha casa. Foi a Brynn que sugeriu que a gente testasse uns jogos sobrenaturais. Depois de discutir um pouco, a gente sabia que clássicos da internet tipo o Jogo da Meia-Noite estavam fora porque não tínhamos nada preparado. Ouija também tava fora porque eu não tinha tabuleiro. Abigail falou do jogo do Livro Vermelho, mas não achamos nenhum livro vermelho de capa dura, então ficou fora também. No fim, a gente decidiu pela Bloody Mary.

Primeiro a gente se apertou toda no banheiro. Porta fechada, luz apagada, todas nós falamos “Bloody Mary” três vezes de olhos fechados. Quando abrimos, ficamos completamente decepcionadas. Eu sugeri que talvez funcionasse se fizesse uma de cada vez, porta fechada — metade porque parecia uma boa ideia e metade porque ouvir minhas amigas se cagando de medo sozinhas ia ser hilário. Elas toparam. Brynn foi primeiro, sem medo nenhum. Abigail e eu ficamos escutando na porta, mas só ouvimos ela falando “Bloody Mary” três vezes. Depois era a vez da Abigail, mas ela se acovardou, então eu fui na frente dela. Igual eu imaginei que tinha rolado com a Brynn, não vi porra nenhuma. Mesmo que eu e a Brynn jurássemos que nada aconteceu, a Abigail ainda não quis fazer sozinha. A gente não forçou.

Uns quinze minutos depois, a Brynn sugeriu que a gente tentasse o Jogo do Apostador. Ela explicou as regras pra mim mais ou menos como eu acabei de explicar pra você. Como só uma pessoa pode jogar de cada vez, ela me escolheu pra ir primeiro porque eu era a melhor em jogos de estratégia das três.

Começamos a juntar o material: velas do estoque da minha mãe, caixa de fósforo da gaveta da cozinha e o jogo de xadrez de mármore dos meus pais. As velas foram fáceis, só estavam num armário no quarto deles. O fósforo também foi moleza porque meus pais estavam vidrados no seriado favorito deles aquela noite. Eu mandei a Brynn e a Abigail arrastarem minha escrivaninha pra frente da janela enquanto eu pegava o tabuleiro de xadrez — que foi a única parte complicada da operação. Eu não tive coragem de levar o tabuleiro inteiro de uma vez pra não arriscar derrubar nada. Por isso, acabei levando as peças de duas em duas pro meu quarto. Só quando todas as peças estavam seguras na escrivaninha é que eu trouxe o tabuleiro.

Depois que tudo estava montado, eu expulsei minhas amigas do quarto. Elas riram, reclamaram, mas acabaram obedecendo. Quando finalmente fiquei sozinha, sentei e recitei as palavras.

Por um segundo eu achei que o ritual não tinha funcionado. Na escuridão fraquinha da noite, eu soltei o nervoso do corpo. A ansiedade voltou multiplicada por dez quando todos os postes de luz da minha rua pareceram ser apagados de uma vez só. O silêncio que veio depois mostrava que a energia não tinha caído; aquele zumbido baixo de eletricidade que a gente aprende a ignorar ainda tava lá. Eu percebi que não era que as luzes tinham sumido — era como se todas as luzes externas da minha vizinhança tivessem sido cobertas ou sentadas por um manto gigante. Um único pensamento martelava na minha cabeça: quem diabos estaria usando um manto daqueles?

Eu forcei a vista pro breu total e comecei a ver rostos surgindo, então fechei os olhos rápido e virei o rosto. Quando abri de novo, evitei olhar direto pra boca escancarada da janela aberta.

Aí eu vi um único peão branco se mover uma casa pra frente. Precisei olhar bem pra conseguir ver de relance uma mão escura segurando o topo dele pra mover. Do lado de fora da janela estava tão preto que eu não conseguia distinguir o céu da coisa que eu tinha desafiado.

Os detalhes do resto do jogo de xadrez não importam, exceto o momento em que eu usei meu cavalo pra dar um garfo no bispo e na torre dele. Da escuridão veio um rosnado baixo que ecoou pela rua inteira. Pelo canto do olho vi a luz debaixo da porta piscar. Ouvi minhas amigas gritando de algum lugar da casa. Isso me deixou em pânico total; ninguém tinha me avisado que o Apostador conseguia fazer isso. Mesmo sem saber se ele estava realmente machucando elas ou se era só teatro ou efeito colateral da raiva dele, eu era muito supersticiosa. Eu não ia quebrar as regras e ir checar minhas amigas nem se elas estivessem sendo torturadas um pouquinho. Sim, era exatamente assim que eu pensava na época. Eu era um pesadelo pra criar.

O Apostador moveu a torre dele pra segurança, eu peguei o bispo com meu cavalo e ele pegou meu cavalo com a rainha. Uma troca limpa, mas que ainda valia alguma coisa.

Quando eu finalmente venci, o Apostador tentou se mandar na hora. Eu vi a luz dos postes voltando e o céu ficando um preto um pouco mais claro. Foi aí que eu entendi — ele estava tentando vazar sem terminar o ritual! Eu estiquei o braço por cima do tabuleiro e entrei naquele mar escuro que era o ar na minha frente. Estiquei, estiquei, agarrei, agarrei. Tropecei pra frente, caí de quatro e me arrastei pela janela. Não adiantou. A luz voltou e eu fiquei sozinha de novo.

Pois é, eu tinha ganhado o jogo… mas não tinha terminado o ritual. Só isso já deixou minha vitória completamente inútil.

A partir daquele dia, a sorte virou minha inimiga. É isso que o Apostador faz. Hoje, mais velha, eu nem consigo contar quantos pets morreram, quantos empregos perdi, quantas cirurgias deram errado e outras merdas do tipo. É como se ele conseguisse enfiar a mão nos cantos da realidade e mudar o número da sorte de uma pessoa. Hoje à noite eu tô tentando reconquistar a minha vida.

Se eu voltar vitoriosa ou se for arrastada pro fundo do inferno, presta atenção nas minhas últimas palavras: a lição que você tira da minha história não é que eu acho que você tem que ficar longe de feitiçaria ou bruxaria pra sempre. Você só precisa entender e aceitar as consequências das suas ações. Esse ritual não é só uma ligação pro outro lado — é um convite pra o outro lado vir fazer uma visita domiciliar na sua casa.

Tenho alguns minutos antes do meu voo embarcar. Preciso que alguém saiba o que aconteceu...

Como conselheira familiar, já vi a humanidade no seu pior absoluto.

Pais alcoólatras descontando a frustração em crianças indefesas. Adolescentes com dismorfia corporal que mal chegam aos quarenta quilos e estão convencidas de que são obesas. Garotos atolados em subculturas obscuras da internet se cortando os pulsos com canivetes. Mães que tentam suicídio depois de sobreviver uma década de amor não correspondido só pra serem trocadas por uma versão mais nova.

Eu poderia entrar em detalhes absurdos sobre casos específicos que você nem acreditaria, e depois disso você nunca mais conseguiria andar por uma rua de subúrbio sem ficar imaginando o que diabos está acontecendo por trás daquelas cortinas. Mas não vou. Vou poupar sua imaginação. Em vez disso, deixa eu te contar sobre a minha visita domiciliar mais recente — que, por acaso, tenho certeza que vai ser a última da minha vida.

Estacionei em frente ao jardim de uma casa bem comum e chequei minha prancheta. Com a caneta, risquei o último endereço da lista e desci do carro. Levantei a aldrava de bronze em formato de esquilo e bati as patinhas traseiras dela três vezes contra a placa de metal. Uma senhora baixa, sorridente, de cabelo acobreado e pés de galinha ao redor dos olhos me recebeu e me fez entrar. O resto da família recomposta já estava sentado ao redor da mesa de mármore da sala de jantar. Sentei no lugar que me ofereceram e olhei um por um para cada membro daquele grupo.

Na cabeceira da mesa tinha um homem grandalhão, cabeça raspada, que me fuzilava por trás de óculos de armação fina. Ao lado dele, uma menina de doze anos de cabelo escuro cujo olhar captava cada tique e cada movimento nervoso dos outros. Atenta, mas calada, ela parecia uma lebre escondida num tufo de grama-das-dunas, torcendo pra raposa passar em paz. O jovem adulto na frente dela era um espetáculo triste pros meus olhos treinados. Pálido, magro feito um varapau, com o olhar baixo de quem já se considera condenado. A mulher que me recebeu — que só podia ser a mãe do rapaz por causa da cor de cabelo idêntica — fechou a porta e sentou.

A sessão começou com aquelas formalidades de sempre e esclarecimento de detalhes rotineiros. Confirmei que o motivo do encaminhamento ainda era válido: a família realmente precisava de ajuda pra lidar com desentendimentos e mal-entendidos, principalmente entre o padrasto e o enteado.

— Então — eu disse, abrindo meu caderno. — Quem quer começar?

Um silêncio ensurdecedor tomou conta. Eu estava prestes a cutucar o grandalhão pra dar a versão dele quando o adolescente abatido falou de repente.

— Eu posso, se estiver tudo bem.

— Claro. Pode falar — respondi, clicando a caneta e encostando na página.

— Teve um incidente ontem à noite em que eu senti que minha privacidade foi invadida — ele disse. O grandalhão jogou a cabeça pra trás feito uma bola de rúgbi e suspirou pesado.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Eu cheguei do trabalho e—

— Ryan, se você não gosta, vai morar com o seu pai — cortou o grandalhão.

A esposa dele e eu pedimos calmamente pra ele esperar, o que fez ele bufar e revirar os olhos. Depois de um segundo pra se recompor, Ryan contou o que rolou na noite anterior. Quando terminei de anotar tudo, pigarreei e perguntei pro grandalhão se ele queria dar a versão dele. Ele ficou lá, emburrado, de braços cruzados bem alto no peito.

— Se ele não gosta das regras, pode ir morar com o pai dele — repetiu.

Vale notar aqui que, em vez de me chamar pelo título e sobrenome como o enteado tinha feito e como a esposa dele havia feito por telefone mais cedo, ele me chamou pelo primeiro nome. Eu não tinha me apresentado assim. Era firmemente “Senhora Sobrenome”. Mas esse cara decidiu que podia fazer o que quisesse. Era revelador. Achando que ele devia ter visto meu nome no crachá pendurado no pescoço, enfiei ele de volta pra dentro do cardigã. Com esses filhos da puta que são arrastados pra terapia familiar aos berros, eles tentam inventar motivos pra fazer a parceira cancelar a sessão. Na hora, eu pensei que ele estava tentando um joguinho de poder pra me desestabilizar, na esperança de que eu me ofendesse ou corrigisse ele. Se eu fizesse isso, ele ia dizer que eu estava sendo parcial e que a coisa toda era inútil. Eu não ia dar essa vitória pra ele. Em vez disso, fiz uma pergunta direta.

— A sugestão de ele ir morar com o pai é um pedido razoável?

— Sim — ele afirmou.

Virei pra senhora de cabelo acobreado e fiz a mesma pergunta. Ela mastigou as palavras por um segundo antes de responder:

— A gente não tem notícia do meu ex-marido… pai do Ryan… faz muito tempo.

Dessa vez foi Ryan quem interrompeu:

— Eu literalmente não vejo ele desde os quatro anos. Não conheço ele. Não sei onde ele está.

Na hora, os olhos fundos do grandalhão incendiaram a lateral da cabeça de Ryan.

— Isso não é problema meu, né? Eu sou o provedor dessa casa, então se você quer morar aqui, VAI FAZER O QUE EU MANDO, PORRA!

Chamei rápido pra calma e virei pra menina assustada, abrindo meu melhor sorriso.

— E você, como está hoje à noite?

— Bem — ela respondeu.

— Imagino que você nunca tenha passado por uma situação parecida com a do seu irmão postiço, né?

A menina fez bico e bateu o dedo no queixo.

— Uma vez eu deixei um doce no quarto quando não podia — disse.

— Alguma medida disciplinar foi aplicada nesse caso?

O olhar da menina correu pela mesa, torcendo pra pergunta ir pra outro lugar.

— Uhh… não lembro — falou.

— Não — disse Ryan. — Ele faz vista grossa pra ela.

O grandalhão se inclinou pro enteado.

— Ela é criança. Você é adulto — sibilou.

Sorri de novo pra menina.

— O que você acha da situação?

— Sobre o doce ou da situação em geral?

— Em geral.

Ela pensou antes de responder.

— Acho que o que a gente tem aqui são duas pessoas com ideologias diferentes — disse.

Ryan caiu na gargalhada, o pai da menina explodiu numa raiva cheia de bile e a madrasta implorou pra todo mundo, pelo amor de Deus, não ser tão provocativo. Admito que fiquei bem chocada de ver uma menina tão nova usando uma palavra tão sofisticada, mas no meu ramo a gente aprende a esperar o inesperado.

— Não! Ele está errado e eu estou certo. É simples assim! — berrou o grandalhão, apertando aquelas mãos enormes até virarem marretas de carne. Fiz uma anotação rápida da reação dele, mas quando ele viu que eu estava escrevendo, abriu os punhos e se acalmou. Quebrei o silêncio que ele tinha imposto falando direto com a menina.

— Sabe de uma coisa? Acho que essa foi a resposta mais inteligente que ouvi hoje. Você está certa. Acho que todo mundo aqui faria muito bem em seguir o seu exemplo.

O grandalhão bufou, mas ignorei e me dirigi agora pra mesa inteira.

— Ela digeriu a pergunta e respondeu de forma objetiva. Quer dizer, ela tirou a emoção da equação e olhou de cima pra baixo. Assim ela conseguiu dar um passo atrás pra realmente pensar como cada lado se sente na briga. Em outras palavras, ela empatizou. Acho que se todo mundo nessa mesa, inclusive eu, vivesse o dia a dia com um pouquinho mais de empatia, o mundo seria um lugar muito melhor.

As crianças balançaram a cabeça concordando com meu discurso e a senhora de cabelo acobreado colocou a mão delicada em cima da pata do grandalhão. Depois disso não teve mais tensão na sessão, e quando nossa hora acabou, levantei e confirmei que voltaria na mesma hora na semana que vem.

Só queria agora que eu não tivesse feito essa promessa. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.

Entrei no carro fingindo que não tinha escutado o grandalhão me chamar de “vadia idiota” depois que fechou a porta. No fim de um dia longo fuçando a vida dos outros, minha cabeça foi pras coisas práticas da minha própria vida. Será que meu marido lembrou de comprar alguma coisa pro jantar? Será que levou as crianças pro balé no horário? Será que eu ia ter tempo de fazer a roupa e pendurar antes de dormir?

Assim que a sola do meu mocassim marrom encostou no acelerador, um homem se ergueu de baixo dos bancos de trás do meu carro que nem uma cobra saindo da cesta do encantador.

— Ah — foi só o que eu disse. Gosto de me ver como uma mulher inteligente e capaz. Não tive a melhor infância, e isso gerou um monte de emoções desconfortáveis no começo da vida. Aprendi a descartar instinto e impulso em favor de decisões calculadas. Infelizmente, nessa ocasião teria sido bem melhor ouvir aqueles sinos de alarme distantes tocando na parte animal do meu cérebro que eu achava que tinha dominado.

O rosto longo do estranho encheu o retrovisor: bochechas fundas, queixo fraco, olhos cor de lama. Usava uma camisa xadrez azul, aberta no pescoço, por baixo de um fleece da cor de algas sem oxigênio. Um brilho de diversão apertou os músculos nos cantos dos olhos dele e um dedo pálido subiu pra pressionar aqueles lábios finos feito minhoca no pedido universal de silêncio.

Ele inclinou o pescoço pra frente e sussurrou uma série de palavras sem sentido no meu ouvido, fazendo a língua estalar em todos os cantos da boca. Quando terminou, afundou no couro do banco de trás e ficou olhando pela janela. Tentei falar, mas minha garganta estava selada. Só conseguia respirar pelo nariz. As vértebras e músculos do meu pescoço e ombros me fizeram virar de volta pro volante, e meu pé afundou no acelerador. O assobio rouco do ar entrando e saindo do meu nariz ficou mais alto enquanto eu começava a entrar em pânico. Minhas mãos giravam o volante sem que eu mandasse, e antes que eu me desse conta, chegamos na minha casa. As luzes da cozinha estavam acesas e eu via mãos acenando e cabelo loiro balançando enquanto minhas filhas praticavam a coreografia que tinham aprendido juntas naquela noite, e meu marido provavelmente desviava delas em algum lugar fora de vista com panelas e assadeiras.

A porta do carro abriu e meu passageiro desceu. Fiquei olhando ele andar gingando pela entrada da garagem. As mãos e os pés dele eram absurdamente grandes e as pernas engoliam o chão à frente. Ele inclinou a cabeça longa pra frente e sumiu nas sombras do meu corredor. Não demorou muito pra ele reaparecer, limpando sangue dos cantos da boca. Voltou pro carro e soltou um arroto baixo. Na mão, cuspiu um punhado de dentes de criança e um tufo de cabelo loiro. Um gemido escapou do meu pescoço estrangulado e os olhos divertidos do estranho encontraram os meus no retrovisor.

Ele se inclinou pra frente.

Senti o bafo quente dele fazendo cócegas na minha nuca.

Segurando os dentes com arte na mão de aranha, ele levantou até minha orelha e apertou. Suores quentes explodiram pelo meu corpo inteiro enquanto os dentes da minha filha mordiam carne e cartilagem. Quando ele tirou a mão, sangue escorria livremente pelo meu pescoço, mas ele ainda não tinha acabado. Pegou alguns fios soltos de cabelo e enfiou debaixo da alça do meu sutiã.

— Uma lembrancinha — disse com uma voz suave e culta.

Tentei gritar.

Tentei lutar.

Tentei correr.

Tudo em vão. Qualquer que fosse o feitiço que ele tinha me lançado, segurou firme.

Me dissociando da máquina que meu corpo tinha virado, só voltei pro momento presente quando parei em frente à casa onde tinha feito a sessão de terapia mais cedo naquela noite. Um braço branco e longo arrancou a prancheta de onde estava no banco do passageiro e soltou o crachá do meu pescoço.

— O patriarca daquela casa ali é o resultado de um projeto de gerações meu — sussurrou a voz no meu ouvido. — Eu odiaria que você desfizesse todo o meu trabalho duro.

Se eu conseguisse falar, teria prometido qualquer coisa pra ele me soltar, mas ele pareceu antecipar isso.

— Não sobrou nada pra você aqui agora que sua família sumiu. Só implicações.

Pensei na minha orelha mordida. No cabelo plantado em mim. Sinais de luta. Estavam me incriminando pelo assassinato da minha família.

— Hora de você começar do zero, eu acho. Eu cuido das coisas aqui.

Em vez de devolver minha lista de clientes, ele deixou cair delicadamente uma passagem de avião pra um país do outro lado do mundo no banco do passageiro. Depois desceu, fechou a porta e deu duas batidinhas no teto do meu carro. Fiquei olhando ele ficar menor, parado ali com minha prancheta encostada na barriga, enquanto eu dirigia embora, lágrimas escorrendo pelo rosto.

Agora, aqui na sala de embarque do aeroporto, digitando isso, estou testando os limites da minha autonomia. Como eu disse, ainda consigo chorar. No caminho pra cá, no meio de um ataque de pânico louco, descobri que minha bexiga ainda consegue esvaziar se meu nível de medo chegar num certo ponto. Os seguranças do raio-X torceram o nariz pro cheiro de urina seca, mas só me mandaram pros portões.

Consigo usar o celular, mas não consigo ligar pros serviços de emergência. Meu cérebro manda o sinal, mas o dedo não mexe. É bizarro. Até tentei digitar o número de emergência de outros países, mas não consigo fazer isso também.

Acabaram de anunciar que meu voo está embarcando, então vou digitando enquanto ando.

Pensando bem, é meio estranho eu ainda estar assim.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Meu chefe escoteiro nos mandou numa missão suicida sem nem perceber

É uma merda que a gente, os moleques, tenha que resolver o que adultos despreocupados deviam ter resolvido sozinhos. Foi exatamente isso que meteu eu e o Kurt na merda desde o começo.

A gente tava no acampamento de verão dos escoteiros. Dois dos moleques mais novos, o Dylan e o Joey, tinham saído pra ganhar a insígnia de mérito de “sobrevivência na natureza”, que consistia em passar 24 horas no mato sem contato com ninguém. Deram pra eles uns itens pra ajudar: duas facas de bolso, umas garrafinhas de água, algumas barrinhas de proteína, duas lanternas e um rolo de barbante.

Eram duas da manhã quando o Dylan voltou correndo pro acampamento. Foi direto pra barraca do chefe escoteiro Rusty e acordou o cara. Aí o Rusty veio direto pra nossa barraca e acordou a gente.

“Vocês dois precisam se levantar e descobrir o que aconteceu com o Joey. Ele tá apavorado com alguma coisa”, disse o Rusty, com a voz rouca e cansada.

Eu me sentei e esfreguei os olhos. “Hã? O que a gente tem que fazer?”

“Vão lá e encontrem ele. Certifiquem-se de que tá tudo bem. O Dylan disse que encontrou uma aranha grande e… bem, vocês sabem como ele é com essas coisas.” Ele olhou pra nós dois.

O Kurt murmurou baixinho que o Joey era uma putinha.

Eu falei rápido pra cobrir o comentário do Kurt. “Isso não ia desclassificar ele da insígnia de mérito? E cadê o Dylan?”

“Ele não quer admitir, mas acho que ele também se assustou. Agora não sai mais da barraca.” O Rusty apoiou a mão na testa vermelha e enrugada. “De qualquer jeito, o Joey não pode ficar lá sozinho. Insígnia de mérito que se foda.”

Foi só isso. Botamos as botas e nossos pés já tavam andando no meio do mato fechado. O Kurt tava mais puto com a situação do que eu, achando que o sono dele valia mais que dois adolescentes chorões de 15 anos. Pra um quase-18, um escoteiro mais novo era basicamente uma formiga.

Enquanto seguíamos a trilha até onde devia ser o abrigo deles, a floresta foi se abrindo e a vegetação baixa virou um chão pelado de agulhas de pinheiro. As árvores altas tavam espaçadas o suficiente pra gente ver um pouco do luar, mas não o bastante pra confiar só nele. Quando as lanternas iluminaram um tronco grande e podre que servia de marco pro abrigo, a gente saiu da trilha principal e andou perpendicular a ela, bem fundo no mato sem marcação.

“Esse moleque sempre me irrita pra caralho, cara. Juro por Deus”, soltou o Kurt.

“Ele não tem 14 anos? Você também era um pé no saco nessa idade.” Minha voz ecoou entre as árvores.

“Joey e aquele suéter amarelo feio pra porra.” Ele me olhou com nojo. “Foda-se. Tudo isso por causa de uma aranha só… que idiotice.”

“A gente só pega ele e volta, fácil. Não vai dar nem 20 minutos”, eu disse, tentando me convencer de não ficar puto também.

Depois de quase 15 minutos andando fora da trilha — bem mais do que a gente esperava —, a lanterna do Kurt finalmente parou num telhado baixo de galhos e folhas de pinheiro. Mal ficava de pé, sustentado por um pinheiro fino no meio. Tava bem na nossa frente.

“Joey?” A gente chamou os dois ao mesmo tempo.

Nenhuma resposta.

Iluminando o abrigo de longe, a gente viu que tava vazio. Varremos a área com os cones amarelos de luz, chamando pelo Joey. Enquanto o Kurt agachava pra olhar alguma coisa, eu me aproximei do abrigo.

O Kurt gritou: “Que porra é essa? Acabei de achar a lanterna do Joey, tá morta! Só tá largada aqui no chão!” Ele tava uns 6 metros do abrigo.

Eu abaixei a lanterna, fiquei de quatro e entrei engatinhando no abrigo escuro. No breu, ouvi um barulhinho de arranhado. Tipo folhas farfalhando com vento leve. Quando eu tava bem lá dentro, apontei a lanterna pra frente de novo.

Tinha uma bola grande no chão do abrigo, com uma faca de bolso aberta do lado. Tamanho de bola de futebol, e a superfície parecia areia endurecida. Tinha três cortes visíveis em cima do negócio. Dois rasos e tímidos, e um mais longo e bem fundo que mostrava o interior oco. Eu peguei a faca.

Quando um monte de pernas pretas e finas saiu do buraco, eu me assustei. Várias aranhas começaram a jorrar dali, como se tivessem reagido à invasão da luz. Pelo que eu sabia na época, pareciam só aranhas de porão inofensivas.

Aí eu senti uma coceira. Olhei pra baixo. Uma tava andando pela minha mão enquanto eu segurava a faca. Levantei a mão e dei um pulo, batendo a cabeça no teto do abrigo. Dezenas delas caíram das folhas sacudidas lá de cima, chovendo em cima de mim. Eu gritei de susto e tentei voltar engatinhando pra saída.

Enquanto recuava, apontei a lanterna pro interior do abrigo. Praticamente toda superfície tava coberta por uma bagunça emaranhada de patinhas pretas. Elas tavam em todo lugar. Nas paredes, no chão, tudo.

Eu gritei e rolei pra fora do abrigo, levantei rapidinho e comecei a me bater freneticamente. O Kurt correu pra ver o que tava acontecendo.

“Não me diz que você viu uma aranha”, ele falou de brincadeira, a lanterna dele me cegando.

“Por que você não olha com seus próprios olhos, seu filho da puta!” eu berrei.

O Kurt apontou a lanterna pra dentro do abrigo, revelando a massa enorme de aranhas. Ele deu um pulo e abaixou a lanterna pro chão, mostrando as ondas de aranhas saindo do abrigo e vindo na nossa direção. Elas já tavam nas nossas pernas.



A gente saiu correndo e chutando desesperadamente pra longe do abrigo. Só ouvia o barulho das nossas botas esmagando e a nossa respiração pesada.

No fim, a gente juntou coragem pra parar.

O Kurt balançou a lanterna em volta. “Onde caralho a gente tá?” Ele olhou pra mim.

“Onde tá o Joey?” eu gaguejei, curvado pra recuperar o fôlego.

A gente percebeu no mesmo segundo o quanto tava fodido. O abrigo já não tava mais à vista. Nenhuma marca de trilha, nenhum marco, nada. A gente sentou.

“Vamos pensar. Ele não tava no abrigo, né? E eu achei a lanterna dele, então ele não tem mais luz. Quanto tempo ele ficou sozinho mesmo?” O Kurt coçava o tornozelo com força.

“Demorou uns 30 minutos pra gente chegar aqui… pelo menos 30 pro Dylan voltar pro acampamento… quer dizer, ele deve ter ficado lá mais de uma hora”, eu disse, girando a faca entre os dedos.

“O Rusty vai ficar puto pra caralho!” Os dedos dele afundaram na terra.

Eu não consegui parar de olhar pras mãos do Kurt. “Acho que os dois devem ter encontrado um ovo de aranha gigante. Um deles abriu, os dois piraram e o Dylan não aguentou.”

Ele apertou os olhos pra mim. “Então… o quê? Você acha que ele foi comido pelas aranhas? Sério?”

Snap!

A gente virou a cabeça pro escuro. As lanternas iluminaram só mato vazio.

“Você ouviu isso, né?” disse o Kurt, coçando o tornozelo de novo.

“Ouvi.” Minha voz saiu baixa. “Por que você tá se coçando assim?”

Ele abaixou a meia. “Eu… acho que uma me mordeu. Nojento, né?” O tornozelo tava inflamado e rosado, com um pontinho vermelho no meio vazando sangue fresco.

“Caralho. A gente resolve isso quando voltar”, eu sussurrei, olhando pros dedos finos dele. Eram tão longos.

A gente ficou em silêncio uns minutos, tentando se recuperar depois das aranhas. Quando ficou mais confortável, apagamos as lanternas pra ver melhor o céu.

Eu vi um movimento pelo canto do olho.

Olhei direto pro Kurt. No escuro, mal dava pra ver uma coisa grande, enorme, bem atrás dele. Minha nuca formigou. Peguei minha lanterna, acendi e apontei pra ele.

“Porra! Que merda foi essa?!” gritou o Kurt, levantando a mão pra proteger os olhos da luz.

A figura pulou pra longe da luz e do barulho, revelando só uma perna preta e peluda antes de sumir.

Eu pulei de pé. “Você viu aquela coisa?!” Minhas mãos tavam tremendo. “Que porra era aquela?”

O Kurt virou, não viu nada. “O quê? Ver o quê?” Ele acendeu a própria lanterna e vasculhou atrás. “Você tá me zoando? Eu te mato, cara!”

“Não tô brincando! Tinha alguma coisa atrás de você. Correu quando acendi a luz”, eu disse, notando os pelinhos pretos finos saindo do dorso das mãos do Kurt.

Ele não acreditou. Achou que eu tava só zoando ele, do mesmo jeito que ele faria comigo. Mesmo assim, isso nos colocou de pé e andando de novo.

A escuridão lá fora parecia opressiva. Invasiva. Como se pudesse nos engolir inteiros a qualquer momento. Eu imaginava o Joey sendo puxado pro escuro por uma mão invisível. Pro nada. Como se ele nunca tivesse existido de verdade. Eu estremeci.

De repente, a lanterna do Kurt apagou. A escuridão engoliu ele.

“Merda!” ele berrou, batendo a lanterna com a palma da mão.

Eu virei minha lanterna pra ele. Meu estômago deu um nó doente.

Seis olhos pretos, bulbosos e brilhantes refletiram a luz, olhando direto pra baixo pro Kurt. Um par de presas pretas e peludas mirava bem atrás dos ombros dele, prestes a atacar. A coisa tava pendurada na árvore atrás dele.

Eu gritei.

Os olhos do Kurt se arregalaram e ele olhou pra cima bem na hora de ver as mandíbulas se fecharem, perfurando as costas dele e saindo pelo peito, jorrando sangue em mim. O corpo dele foi erguido do chão e puxado pra cima da árvore num piscar de olhos.

“Argh! Jesus, meu Deus, ME AJUDA!” As palavras saíram pra mim em explosões curtas e gritadas da escuridão lá em cima. “ME AJU—”

Os gritos pararam. O som de mastigação molhada tomou o lugar. Por mais alto que eu apontasse a lanterna, a luz sumia antes de achar a fonte.

Alguma coisa caiu da árvore e bateu no chão na minha frente com um baque nojento.

A cabeça pálida e horrorizada do Kurt, sem corpo. Tinha sido arrancada do pescoço. Tiras de carne e gosma se espalhavam pra fora por baixo, tipo tentáculos de água-viva.

Meu mundo girava. Eu ia vomitar. Corri o mais rápido que consegui. Não importava pra onde.

Não sei quanto tempo corri até achar. As agulhas de pinheiro deram lugar a uma trilha estreita de terra e pedra. Achei um marcador reflexivo neon numa árvore. Diminuí o passo e recuperei o fôlego.

Alívio.

Enquanto andava, repassei os eventos da noite na cabeça. Imaginei que o Joey tinha acabado do mesmo jeito que o Kurt. Pensei na lanterna dele. Morta. Foi o que aconteceu com a do Kurt também. Pensei no ovo. Como elas saíram quando eu acendi a luz.

Tava em algum lugar, me esperando, na escuridão. Esperando minha luz apagar. Pra eu perder minha tábua de salvação.

Parei de repente. Olhei pra frente na trilha, pro breu além da minha lanterna. Opressivo. Invasivo. Uma mão invisível…

Girei nos calcanhares, olhando pro outro lado da trilha e iluminando.

Era enorme.

Oito pernas grossas, peludas e monstruosas saíam pra todos os lados de um tronco absurdamente pesado. Os seis olhos pretos me encaravam sem um pingo de consciência. As mandíbulas ensanguentadas tavam prontas pra atacar. O corpo era largo o suficiente pra bloquear mais que a trilha inteira.

Tava perto o bastante pra eu ver o muco vermelho-escuro pingando da boca.

A lanterna caiu da minha mão. A besta pulou pra frente e eu agarrei a faca de bolso do short.

Caí no chão e mergulhei na escuridão total.

Sem ver nada, balancei a faca e senti ela afundar em carne macia e peluda. A criatura soltou um guincho horrível e agudo. O peso do corpo era imenso enquanto as pernas com espinhos prendiam meus outros membros no chão. Um líquido podre pingava no meu rosto.

Esfaqueei de novo e de novo. Senti o bafo quente da criatura chegando perto do meu rosto. Uma dor queimando irradiou na minha bochecha quando uma mandíbula atravessou a pele fina, o espinho duro quebrando meus dentes. Puxei a faca do esterno e cortei a cabeça numa última tentativa, sentindo a morte bater na porta.

De repente, um jorro de líquido quente caiu em cima de mim, encharcando minha roupa e os poros da pele. Tinha gosto de sangue. Metal. Cobre. Quente e nojento. Cuspi, junto com pedaços de dente. Senti as pernas dela ficarem moles.

Me arrastei pra fora de baixo da massa, as unhas quebrando enquanto cravava no cascalho. Peguei minha lanterna e levantei nas pernas cansadas.

O corpo enorme da aranha tava amassado e sangrando. Os olhos tavam turvos e sem vida. As pernas todas esticadas pra fora feito uma estrela de oito pontas. Foi só então que reparei.

Uma faixa longa de tecido amarelo, pendurada numa das pernas da frente.

Um suéter amarelo?

Não. Não podia ser. Corri direto pro acampamento, com a boca destruída e doendo pra caralho.

Eram 5h20 da manhã quando voltei. O Rusty tinha sido acordado pelo Dylan mais ou menos uma hora depois que a gente não voltou. Ele tava com medo que algo tivesse dado errado. Depois disso, o acampamento inteiro acordou enquanto os boatos se espalhavam entre a tropa sobre onde a gente tava, ficando cada vez mais desesperadores e apavorantes conforme as horas passavam.

O Rusty não saiu do acampamento pra procurar a gente, mas ligou pro telefone de emergência dos guardas florestais pra reportar nosso desaparecimento. Eles ainda tavam varrendo a floresta quando eu voltei.

Tentei contar pra ele o que realmente aconteceu, mas tudo saiu embolado e sem sentido por causa dos dentes quebrados. Não que importasse. Ele não teria acreditado na história mesmo.

Já faz uns dias. O psicólogo designado pro meu caso me pediu pra escrever tudo isso porque eu ainda não consigo falar. A polícia estadual entrou no caso depois que acharam a cabeça do Kurt. Não encontraram o Joey. Eu sei que não vão encontrar.

Eles não acreditam na minha história. Ainda não. Mas vão acreditar. Eu vou ser a prova viva.

Já consigo ver os pelinhos pretos crescendo no dorso das minhas mãos.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon