quinta-feira, 12 de março de 2026

Meu avô fez coisas terríveis e cruéis na vida. Agora que ele está morto, eu finalmente entendo por quê

Ele ficou preso numa instituição mental, determinado por lei, durante toda a minha vida. Eu nunca tive permissão pra visitá-lo. Por isso, nunca cheguei a conhecê-lo de verdade como pessoa. Só ouvi as histórias.

Ataques aleatórios contra pessoas. Quebrar objetos. Ser um incômodo pra sociedade. O que o mandou embora de vez foi quando ele atropelou treze pessoas com o carro. A maioria morreu. Eles acham que foi o início de uma doença cognitiva grave causada por anos de encefalopatia traumática crônica do tempo que ele passou no exército. Eu sei que não foi isso.

Me deram o relógio dele no funeral. Não sei exatamente por que meu pai me deu aquilo. Acho que ele pensou que seria um gesto legal. O peso era leve na minha mão. Barato. Um relógio automático simples, prateado, com pulseira de couro surrado.

Tinha algo gravado na parte de trás.

Um sigilo. Tipo daqueles de filme de possessão. Dois triângulos se cruzando, como a Estrela de Davi, mas o canto do triângulo que aponta pra cima foi substituído por um quadrado. Tudo cercado por um círculo. Permanentemente entalhado no fundo de metal.

Embora eu não fosse muito de usar relógio, coloquei ele nos dias seguintes. Era uma sensação boa ter algo com história comigo o tempo todo.

Uma manhã, quando acordei e olhei a hora, alguma coisa mudou.

Enquanto eu estava sentado ali, as linhas minúsculas que formavam os números ao redor da borda do mostrador começaram a se mexer. Eu aproximei o relógio dos meus olhos cansados. Elas se moviam rápido, se reorganizando no centro do relógio pra formar palavras.

SEGURE A RESPIRAÇÃO

Eu fiquei perplexo. Achei que devia estar sonhando. Não segurei a respiração. Só fiquei ali sentado, olhando, boquiaberto.

De repente, uma dor lancinante irradiou pelo meu pulso. Parecia que estavam me espetando com um monte de agulhas. Eu me encolhi e apertei o lugar com a outra mão. Durou só uns segundos. Quando olhei de novo pro relógio, ele tinha voltado ao normal.

Com o pulso ainda latejando, tentei tirar o relógio. As pulseiras soltaram fácil, mas a caixa não. Quando eu levantei, a pele de baixo veio junto, doendo pra caralho. Parecia que minha pele tinha sido colada com supercola no fundo.

Depois de tentar todas as opções que consegui pensar pra tirar aquilo, desisti e deixei no braço. Eu precisava ir pra aula.

No final da primeira aula do dia, logo quando o professor dispensou todo mundo, senti uma vibração fraca no pulso. Olhei pra baixo.

As letras se reorganizaram.

TROPECE NA PRÓXIMA PESSOA NO CORREDOR

Eu ri alto da absurdidade daquilo. Tropeçar em alguém? Olhei pros alunos começando a se levantar e descer pelo corredor. A primeira pessoa estava prestes a passar por mim, já que eu estava na ponta da fileira. Pensei por um segundo em realmente fazer aquilo, mas meu pé hesitou.

Ela passou por mim sem nada acontecer.

Ouvi um clique baixo e um rangido curto vindo do relógio. Antes que eu conseguisse olhar pra baixo, uma dor intensa de facada subiu pelo meu antebraço a partir do pulso. Parecia que estavam me esfaqueando. Meu maxilar travou e eu tentei manter uma cara normal.

Quando a dor parou, uns quinze segundos depois, a pele ao redor do meu pulso tinha ficado pálida. Olhando mais de perto, agora eu conseguia ver umas linhas escuras e fracas saindo em jatos debaixo da minha pele, partindo da caixa do relógio.

Eu saí rápido da sala.

Durante a segunda aula do dia, sentado num auditório gigante, ouvindo o professor falar sem parar sobre cálculo, senti outra vibração. Olhei pra baixo.

ROUBE A CARTEIRA DELA

Virei pra direita. Uma garota estava sentada do meu lado, com o rosto virado pra baixo, provavelmente dormindo. A carteira dela estava bem ali na mesa. Imaginando a dor intensa debaixo do relógio, minha mão direita começou a tremer. Eu precisava pegar aquela carteira. Que se foda as consequências. Não era tão grave assim, né?

Logo quando eu estava a um centímetro de tocar nela, ela acordou com um susto. Minha mão recuou por instinto.

Droga. Se eu conseguisse só—

Meu pensamento foi interrompido pelo disparo rápido de todos os nervos do meu pulso e da mão. Foi tão absurdamente ruim que eu não consegui segurar um gemido de dor que escapou da minha boca. Minha pele parecia que estava sendo esfolada e o osso por baixo esmagado até virar pó.

Eu agarrei a borda da mesa pra me apoiar enquanto balançava com as ondas de sofrimento. Dessa vez não parou por vários minutos. Já tinha uma camada de suor frio na minha testa.

Inspecionando o relógio, vi que a pele ao redor das pulseiras de couro tinha crescido por cima das bordas. Ou talvez o couro estivesse afundando na pele. Difícil dizer. Mas quando puxei levemente a pulseira, ficou claro que estava completamente fundido em mim.

Minha cabeça disparou.

Se eu conseguisse só chegar em algum lugar privado…

O horário no relógio me dizia que eu nem estava na metade da aula ainda. Tentei só ficar sentado e me concentrar no conteúdo da matéria. Torci pra acabar logo.

Logo antes do fim do horário da aula, a vibração veio de novo. Meu estômago caiu.

ESFAQUEIE ELA

Percebi então que eu estava apertando um lápis apontado com força na mão direita. A garota do meu lado tinha a mão esquerda aberta e plana na mesa.

Meu coração começou a bater forte. Sem tempo pra racionalizar. Eu não aguentava mais aquilo. Minha mão tremia de expectativa enquanto eu me preparava mentalmente pra sair correndo da sala. Levantei a mão.

O lápis desceu num golpe rápido, atravessando a carne macia da mão da garota como se fosse manteiga. Ficou cravado na madeira embaixo. Um grito violento e um filete de sangue caindo na minha mão me disseram que eu precisava cair fora. Peguei minha mochila e corri da sala.

Cheguei em casa logo depois. No meio da correria toda, nem percebi dor nenhuma no pulso. Visualmente, não parecia diferente do que estava antes daquela tarefa horrível. Uma onda doentia de alívio passou por mim.

Pensando agora, percebo que não foi a decisão certa. Mas naquela noite, depois de horas sem nada do relógio, eu me senti mais seguro. Comecei a preparar o jantar, o que envolvia cortar um tomate enquanto a água fervia numa panela no fogão.

Eu estremeci e errei o trajeto da facada quando uma nova vibração me fez pular. Apertei a faca de cozinha com a mão direita e fiz uma careta enquanto olhava pro mostrador do relógio.

CORTA FORA UM DEDO

A adrenalina subiu pela minha espinha e eu considerei minhas opções. Por mais que eu não quisesse fazer aquilo, imaginei as possíveis consequências. Me vi sem o mindinho.

Nem fodendo. Isso não é uma troca justa.

Enfiei a faca no tabuleiro de corte. Achei que perder um dedo era pior do que o relógio ficar ainda mais preso do que já estava. Me preparei.

Metal derretido encharcou minha pele e entrou nas minhas veias. Tudo queimou numa dor branca incandescente pior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido antes. Eu desabei no chão em agonia e comecei a chorar.

O metal prateado do relógio estava se espalhando pela minha pele, crescendo e se enraizando. Virando parte do meu braço. Gemidos mecânicos, cliques e zumbidos ecoavam nos meus ouvidos. Eu gritei.

Meu grito alertou meu colega de quarto. Ele correu pra cozinha pra ver o que estava acontecendo. Me encontrou encolhido no chão de azulejo, chorando e apertando o pulso.

Eu mandei ele sair. Mas ele não quis escutar.

Depois de meia hora, a dor foi diminuindo aos poucos. Ele se recusou a sair do meu lado, não querendo me deixar sozinho porque eu não deixei ele chamar uma ambulância. Eu conseguia ver que a visão do meu braço tinha deixado ele apavorado.

Bzzzt.

Meus dentes teriam se quebrado se eu tivesse apertado o maxilar mais forte quando senti aquilo. Olhei pro meu braço mecânico se contorcendo.

JOGA ÁGUA FERVENDO NELE

Eu não tive nenhum escrúpulo. Não conseguia pensar numa solução melhor. Não ia deixar aquilo progredir mais.

Tirei o braço do meu colega de quarto do meu ombro e me levantei sem dizer uma palavra. Caminhei até a panela grande de água, que agora fervia violentamente. Sem hesitar, segurei uma das alças com a mão direita e joguei nela sem direção.

A água voou pela sala num arco fumegante, atingindo ele antes que conseguisse se mexer. A água fervendo espirrou no rosto, peito, braços, tudo. Encharcando as roupas. Ele gritou de um jeito que me abalou até o fundo da alma.

Uma nuvem de vapor se formou ao redor dele enquanto a pele ficava vermelha, depois mais escura, e então começou a chiar, estourar e rachar. O ar fedia a carne queimada e cabelo.

Visões do meu avô passaram pela minha cabeça. As histórias. As treze pessoas. A mão da garota. O cara estendido no chão na minha frente.

Quantas pessoas mais?

Eu soube naquele momento que ia ser até eu morrer. Eu ia ser igualzinho ao meu avô. Olhei pra baixo enquanto meu pulso vibrou mais uma vez.

MATE ELE

Não.

Eu virei e corri pro tabuleiro de corte.

Enfiei um pano de prato na boca. Peguei a faca de cozinha, com os nós dos dedos brancos. Joguei meu braço pesado e mecânico em cima do tabuleiro, batendo com um peso imenso. Segui o metal até o fim. Mais ou menos na metade do antebraço.

Antes que eu conseguisse me impedir, cravei a faca na carne macia e pálida. Ela afundou fácil, a dor menos intensa que a do relógio. O sangue começou a jorrar rápido da ferida que crescia enquanto eu serrava.

Lutei pra atravessar o osso, duro e escorregadio no meio daquela bagunça sangrenta. Apertando todo o meu peso, ouvi dois estalos molhados e doentios. Minha cabeça ficou tonta. O mundo girou.

No final, o último pedaço de carne se separou sob a lâmina e eu ouvi o barulho familiar da faca batendo no tabuleiro.

Eu me afastei da bancada e meu braço esquerdo não veio junto. A coisa meio metal meio carne ficou morta numa poça de sangue. Peguei todos os panos de prato da cozinha e apertei com força no meu coto sangrando. Tropecei no corpo carbonizado e mal respirando do meu colega de quarto enquanto corria pro telefone.

Estou escrevendo isso tudo de uma cama de hospital. Já faz uns dois dias. Estou estável agora. Acho que eles vão trazer gente de psiquiatria pra me ver em breve. Então estou preparando minha história.

Quer acreditem ou não, eu sei a verdade sobre o meu avô.

Não repitam os mesmos erros que as famílias de vocês cometeram. Não vale a pena.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Eu tive sorte de não gostar de suco de tomate, senão eu teria ficado lá pra sempre…

O hospital psiquiátrico estadual da cidade N., perto de Almaty, no Cazaquistão, é um lugar bem sinistro e deprimente. É um prédio enorme da era soviética que não vê uma reforma desde os anos 90, e que abriga, entre outras coisas, o departamento de narcologia. Aqui eles “tratam” alcoólatras e drogados. Bom, “tratam”… na real é enfiar soro na veia e dar uns comprimidos, alguns dos quais fazem praticamente o mesmo efeito que as drogas.

O lugar é úmido pra caralho, tem corrente de ar o tempo todo; por causa das árvores grandes e escuras de folha caduca, o sol quase não entra nas enfermarias. A maioria aqui são homens — 12 a 15 por ala; as mulheres são poucas — só uma ala, onde além de mim tem mais três mulheres com cara de gente em situação de rua. Mas mesmo assim dá pra se sentir bem aqui, principalmente se antes a situação era bem pior.

O hospital tem dois pátios: um é gradeado, onde ficam os doentes mentais que não conseguem se controlar. O segundo é aberto, onde as pessoas consideradas sãs e os drogados podem andar. Mas nem esse segundo pátio significa liberdade de verdade, porque todo o setor de narcologia é cercado por um muro alto de concreto armado com arame farpado em cima.

Nesses curtos três dias eu consegui arrumar um amigo — na fumódromo, no meio de cuspe no chão, bituca de cigarro até o filtro e bancos caindo aos pedaços, eu conheci ele. Ali é policial talentoso; trabalha no Departamento de Assuntos Internos, mas infelizmente cai em bebedeiras de vários dias seguidos e por isso tá aqui.

No setor de narcologia, onde a maioria das pessoas não tá aqui pra se livrar de um vício pesado, mas pra passar o inverno no quentinho, o cheiro é de desespero puro. Mas não pra mim — porque agora eu tenho o Ali. Ele é o meu sol. Ele prometeu que, assim que sair daqui, vai atrás dos meus parentes na mesma hora.

Se é que eles existem, claro.

Eu não sei se tenho família. Eu não sei porra nenhuma sobre mim mesma — só lembro das últimas duas semanas da minha vida. Bom, na verdade não é verdade que não sei nada sobre mim. Algumas coisas eu descobri sozinha. Eu sei falar, escrever, ler, manjo de navegar na internet, e até sei quais comunidades na web eu curto e quais eu detesto. E uma coisa eu sei com certeza absoluta: eu não sou drogada nem alcoólatra. Os médicos incompetentes me jogaram nesse setor porque, quando eu apareci aqui pela primeira vez, eu não lembrava de porra nenhuma. Mas o Google que vê tudo diz que eu tenho amnésia retrógrada — as habilidades e os conhecimentos ficam intactos, mas o passado some.

Pela primeira vez eu “acordei” no sótão de alguma dacha. Era um lugar entulhado, fedendo pra caralho e escuro — quase não entrava luz. Uma vez por dia uma mulher idosa subia até lá (depois eu descobri que o nome dela era Grusha). Ela trazia uma papa nojenta de lata e um copo de suco de caixinha; às vezes levava o balde que eu usava de privada. Era a ração do dia inteiro, então eu ficava feliz pra cacete com esse momento, devorava a papa rápido e tomava o suco.

Normalmente eram sucos de fruta de caixinha, mas em algum momento essa filha da puta começou a trazer suco de tomate. Eu odeio suco de tomate com todas as forças, então jogava tudo direto no balde da privada. Depois de alguns dias eu comecei a me sentir melhor; de repente caiu a ficha do horror que eu estava vivendo. Procurei maneiras de fugir, mas a porta estava trancada com cadeado. Não, a escada pro sótão não era de dentro da casa, era de fora, e pra subir até mim a Grusha usava uma escada de extensão — uma escadinha. Ela levava embora toda vez depois de trazer comida ou tirar o balde. Eu tava em desespero total — praticamente sem saída.

Ao mesmo tempo, eu comecei a descobrir aos poucos o que rolava no andar de baixo. Como a casa tava caindo aos pedaços e várias tábuas tavam podres pra caralho, dava pra ver algumas coisas. A visão era bem limitada, mas dava pra entender. Descobri que eu não era a única na dacha. Lá embaixo tinha quatro camas; uma obviamente era da Grusha. Nas outras três, tinha três cativos em cada — uma mulher bem idosa, a segunda um pouco mais nova, uns 40-45 anos, e um homem magro e idoso.

Eles dormiam quase o tempo todo, acordando só pra comer uma vez por dia. O homem mijava e cagava numa garrafa plástica vazia; as mulheres, pelo jeito, faziam tudo em cima de si mesmas. Quando acordavam, só dava tempo de comer e se virar de um lado pro outro uns minutinhos, soltando suspiros pesados. Pareciam uns coitados, sujos, cabelo oleoso grudado na cabeça, roupa que parecia não ter sido trocada há meses.

A Grusha não fazia porra nenhuma o dia inteiro — só ficava deslizando o dedo naquele celular pré-histórico 24 horas por dia e às vezes cozinhava uma merda simples pra ela. Minhas suspeitas se confirmaram: ela misturava algum remédio no suco, e nem disfarçava. Várias vezes nesse período um carro parava na frente da casa; a Grusha saía por 5-10 minutos e voltava com sacolas cheias de comida e remédio. Ela também saía umas duas vezes por dia por poucos minutos pra ir ao banheiro. A privada era daquele tipo fossa mesmo.

Depois de cinco dias, o remédio obviamente saiu do meu organismo, e aí eu decidi fugir. A Grusha e os comparsas dela não contaram que a casa tava tão podre que um cadeado não ia segurar nada — eu arrombei a porta seca com o ombro quase sem esforço. Esperei ela ir ao banheiro, e fiz talvez o pulo mais perigoso da minha vida.

Doeu pra caralho, mas não tinha tempo pra pensar; corri o mais rápido que consegui, deixando a casa abandonada pra trás. O medo era foda; parecia que a minha carcereira já tinha ligado pros comparsas e que agora eles tavam rodando de carro pela região toda atrás de mim. E o que ia acontecer quando me achassem… dá pavor só de imaginar. Quando minhas forças acabaram, eu andei…

Andei sem rumo, olhando pra onde meus olhos iam; o lugar era deserto — antigamente era uma vila de dachas, mas agora tava tudo abandonado. Em volta só floresta fechada e as montanhas altas do Trans-Ili Alatau. Perto do fim da tarde o medo só aumentou — tava escurecendo e ficando muito frio; eu tava só de agasalho de moletom, nada adequado pro clima. Tomei uma decisão — tinha que voltar pra aquela dacha… pelo menos lá eu não ia morrer de fome e de frio. Eu não ligava mais se me torturassem.

Como eu tava andando com chinelos masculinos enormes (não tinha outra coisa no sótão), meus pés tavam destruídos e eu não conseguia mais andar. Em desespero e completamente congelada, juntei uns galhos, estiquei no chão e dormi…

Acordei num lugar surpreendentemente quente e aconchegante. Um homem idoso de jaqueta camuflada velha sorriu com bondade e colocou na minha frente uma tigela de sopa cheirosa e um copo de leite. Eu ataquei a comida sem nem perguntar nada. Ele começou a se mexer pela casa. Quando terminei, ele me contou que trabalha como guarda florestal e é responsável por essa parte da floresta. De madrugada, fazendo ronda a cavalo, quase passou por cima de mim. Aí de algum jeito me colocou na sela e me trouxe pra cabana dele.

Eu não senti medo perto dele — o homem transpirava bondade. Perguntei o que ia acontecer comigo agora. Ele disse que chamou a polícia e a “Ambulância”. No mesmo dia eu já estava nesse departamento de narcologia estadual…

O mundo não é sem gente boa, e agora eu fico preocupada com o guarda florestal; e se os meus sequestradores foram lá e tentaram arrancar alguma informação dele na porrada? Aqui eu ainda fico um pouco com medo também. Mas o Ali é minha esperança e meu sol; ele me disse pra não ter medo de nada, que não vai deixar ninguém me machucar. Mas em uma semana ele sai do hospital. Por um lado é bom, porque ele vai atrás da verdade sobre mim. Por outro lado — e se eles voltarem quando ele não estiver aqui?

Eu fui contratado para destruir documentos legais antigos. Esta noite, encontrei uma fotografia do meu quarto de infância na pilha

Eu estava desempregado há exatamente oito meses e doze dias quando o e-mail chegou na minha caixa de entrada. Minha conta bancária estava no negativo, os avisos de despejo se acumulavam na bancada da cozinha e eu pulava refeições pra fazer um pacote de arroz durar a semana inteira. O desespero muda completamente o jeito como o seu cérebro processa risco. Quando você não tem mais absolutamente nada a perder, qualquer bandeira vermelha parece só uma bandeira comum tremulando no vento.

A oferta de emprego veio de um escritório de advocacia de elite, localizado num arranha-céu enorme de vidro preto no centro da cidade. Eu tinha me candidatado pra uma vaga genérica de digitação de dados num site de recrutamento terceirizado semanas antes e já tinha esquecido completamente da candidatura até eles me contatarem pra marcar uma entrevista à meia-noite. Coloquei meu único terno limpo e peguei o ônibus noturno pro centro. O prédio estava completamente deserto quando cheguei. Um segurança silencioso conferiu minha identidade e me mandou pro elevador de serviço que só descia.

A entrevista não aconteceu numa sala de reuniões elegante com mesas de mogno e cadeiras de couro. Aconteceu num subsolo de concreto sem janelas, iluminado por luzes fluorescentes cruas que zumbiam o tempo todo. O cara que me entrevistou usava um terno caro feito sob medida que parecia totalmente deslocado naquele ambiente estéril e empoeirado. Ele fez pouquíssimas perguntas sobre minha experiência profissional anterior. Quase só quis saber da minha vida pessoal. Perguntou se eu morava sozinho, se tinha algum familiar próximo por perto e o quão bem eu lidava com trabalhar em isolamento total. Respondi com sinceridade, explicando que eu era completamente independente e precisava desesperadamente de uma renda fixa.

Ele me ofereceu o emprego na hora. O salário que citou era absurdo. Mais dinheiro do que eu tinha ganhado nos últimos três anos juntos. Meu cargo seria Técnico de Descarte de Arquivos, e meu turno ia das meia-noite até as oito da manhã. Minha única responsabilidade era operar um triturador industrial do tamanho de uma sala pra destruir arquivos antigos de casos e documentos corporativos confidenciais.

Aceitei a vaga sem pensar duas vezes. Eu teria concordado em varrer lixo tóxico por aquele dinheiro.

O homem assentiu, me entregou um cartão-chave de latão pesado e me levou até um quadro de avisos grande preso na parede de concreto ao lado da máquina. Uma única folha de papel laminado estava presa no quadro de cortiça.

“Estas são as diretrizes operacionais”,  
disse o homem, com a voz completamente neutra e sem nenhuma emoção.

“Leia com atenção. Siga à risca. Eu volto às oito da manhã pra te render.”

Ele se virou e caminhou de volta pro elevador de serviço. As pesadas portas de metal se fecharam deslizando, e o elevador zumbiu enquanto subia, me deixando completamente sozinho naquele subsolo enorme sem janelas.

Fui até o quadro de avisos pra ler as diretrizes. Esperava os avisos corporativos padrão de segurança — tipo não deixar roupa solta perto das engrenagens ou usar óculos de proteção. Em vez disso, a folha laminada continha apenas três frases datilografadas.

Regra 1: Não leia o conteúdo das Pastas Vermelhas.  

Regra 2: Se o triturador emperrar e começar a vazar um líquido vermelho viscoso, desconecte da tomada e fique de frente pro canto até o zumbido parar.  

Regra 3: Se encontrar uma fotografia sua na pilha de documentos, triture imediatamente sem tirar os olhos dela nem por um segundo.  

Regra 4: Se ouvir alguém batendo nas pesadas portas de aço do elevador às três da manhã, não deixe a pessoa que está batendo entrar na sala.

Fiquei ali parado olhando pro papel por um bom tempo. As regras não faziam o menor sentido lógico. Pareciam uma pegadinha, tipo aqueles rituais de trote que os funcionários mais antigos fazem pra assustar o novato do turno da noite. Imaginei que a gerência tinha deixado o aviso ali só pra testar se eu conseguia seguir instruções sem fazer perguntas. Escritórios de advocacia de elite são famosos pela paranoia excêntrica com segurança de documentos e obediência dos funcionários. Decidi que simplesmente faria exatamente o que estava sendo pago pra fazer: enfiar papel na máquina e receber meu salário.

Virei minha atenção pro triturador. Era uma peça gigantesca de equipamento industrial que ocupava o centro inteiro da sala. Uma esteira de borracha larga subia inclinada até um funil pesado de aço onde fileiras entrelaçadas de tambores de metal afiados como navalhas esperavam pra moer qualquer coisa em confete microscópico. Ao lado da máquina havia dezenas de caixas pesadas de papelão empilhadas quase até o teto, todas lotadas até a borda com papelada.

Apertei o botão verde pesado no painel de controle. A máquina rugiu ganhando vida. O barulho era ensurdecedor — um rangido mecânico profundo que vibrava pelo chão de concreto e chacoalhava meus dentes.

Peguei a primeira caixa, arrastei até a esteira e comecei a pegar punhados de pastas cor de creme. Joguei elas na esteira de borracha em movimento e fiquei olhando subirem antes de cair no funil de metal. Os dentes de aço pegavam o papel, puxando as pastas pra baixo com um estalo violento de rasgo. A máquina devorava os documentos sem esforço, cuspindo um jato constante de poeira branca fina num saco plástico transparente enorme preso na saída de exaustão.

O trabalho era mecânico e profundamente monótono. Nas primeiras horas, minha mente vagava enquanto minhas mãos automaticamente pegavam, jogavam e alcançavam mais papel. O isolamento da sala era pesado, pressionando meus tímpanos por baixo do rugido da máquina. As luzes fluorescentes zumbiam num ritmo constante. O ar cheirava forte a poeira de papel seco, metal quente e um leve cheiro amargo de óleo de máquina.

Eu estava esvaziando a décima quarta caixa da noite quando vi a primeira anomalia.

No meio das pastas cor de creme comuns havia uma única pasta vermelha bem colorida. O cartão grosso não tinha absolutamente nenhuma marcação — sem etiquetas, códigos de barra ou qualquer identificação.

Lembrei da primeira regra na folha laminada. Peguei a pasta vermelha com firmeza, com a intenção de jogá-la direto na esteira sem abrir. Minhas mãos estavam cobertas por uma camada fina de poeira de papel, deixando minha pegada escorregadia. Quando balancei o braço em direção à esteira, a pasta escorregou dos meus dedos. Bateu na borda do funil de aço e caiu pra trás, aterrissando aberta no chão de concreto perto das minhas botas.

O impacto fez a pasta se abrir. Uma pilha grossa de folhas soltas deslizou pra fora, espalhando-se pelo chão empoeirado.

Ajoelhei pra recolher os papéis, com toda a intenção de enfiar tudo de volta na pasta sem ler. No entanto, a fonte na página de cima era bem grande e meus olhos registraram as palavras instintivamente antes que eu pudesse desviar o olhar.

O documento parecia um relatório de autópsia ou análise de cena de crime extremamente detalhado e clínico. A linguagem era fria e profissional, mas o assunto era completamente impossível. Descrevia um caso de assassinato em que a vítima tinha sido completamente esvaziada por dentro, com os órgãos internos substituídos por cinzas compactadas com força.

Abaixo do texto havia um diagrama desenhado à mão de uma criatura que desafiava toda lógica biológica conhecida. A ilustração mostrava uma forma mutável e nebulosa composta inteiramente de linhas densas e entrelaçadas. A legenda abaixo do desenho descrevia uma entidade sombria que existia exclusivamente em espaços bidimensionais, caçando ao se prender às sombras projetadas por seres humanos. O texto afirmava explicitamente um protocolo rigoroso de contenção: qualquer pessoa que observasse a sombra devia manter contato visual ininterrupto com a entidade, ou ela se desprenderia imediatamente da superfície e devoraria o corpo físico do observador.

Recolhi os papéis rápido, enfiando tudo de volta na pasta vermelha. Levantei e sacudi a poeira dos joelhos. Meu coração estava batendo um pouco mais rápido, mas minha mente racional fabricou uma explicação na hora. Escritórios de advocacia lidam com todo tipo de disputa de propriedade intelectual. Imaginei que a empresa devia representar um grande estúdio de entretenimento, um desenvolvedor de jogos ou um autor de terror envolvido em processo de direitos autorais. Os arquivos provavelmente eram documentos de construção de mundo, rascunhos de roteiros ou artes conceituais de um projeto fictício que precisava ser destruído com segurança. Na verdade, senti uma breve onda de vergonha por deixar uma história de monstro fictício me assustar no meio de um subsolo vazio.

Joguei a pasta vermelha na esteira. Ela subiu, chegou na borda do funil e caiu direto nos tambores giratórios de aço.

A máquina produziu imediatamente um guincho terrível de rangido. Os tambores pesados de metal pararam de repente com um tranco violento, mandando um tremor forte pelo chão de concreto inteiro. A esteira parou. O rugido ensurdecedor do triturador foi substituído instantaneamente por um zumbido elétrico baixo e sofrido enquanto o motor lutava contra um obstáculo enorme.

Dei um passo pra trás, encarando o funil. Um líquido vermelho escuro e grosso começou a vazar pra cima entre as lâminas paradas de aço.

O líquido era espesso e viscoso, acumulando pesado sobre as engrenagens emperradas. Não parecia fluido hidráulico nem tinta de impressora. Tinha uma cor vermelho-escura rica e fluía com uma consistência pesada que fez meu estômago revirar na hora.

A regra número dois piscou na minha cabeça. Se o triturador emperrar e começar a vazar um líquido vermelho viscoso, desconecte da tomada e fique de frente pro canto até o zumbido parar.

Olhei pro cabo de força preto pesado plugado na tomada industrial da parede. Olhei pro canto escuro de concreto atrás de mim. Depois pensei na minha conta bancária. Pensei nos avisos de despejo na bancada da cozinha. Eu tinha acabado de ser contratado pra um emprego que pagava um salário astronômico e, nas primeiras quatro horas, tinha conseguido quebrar uma peça de equipamento que provavelmente custava centenas de milhares de dólares. Se eu desconectasse a máquina e ficasse no canto como uma criança castigada, o supervisor da manhã chegaria, veria o triturador quebrado e me demitiria na hora. Eu estaria de volta na rua antes do meio-dia.

Decidi que não podia me dar ao luxo de seguir uma regra bizarra e excêntrica. Precisava desemperrar a máquina, fazer ela voltar a funcionar e limpar o líquido que vazava antes que alguém descobrisse.

Cheguei mais perto da borda do funil de metal e olhei pra dentro das lâminas. A pasta vermelha tinha sido completamente mastigada, mas embaixo do cartão vermelho triturado eu vi a verdadeira causa do bloqueio. Uma pilha grossa e densa de papel fotográfico brilhante pesado estava presa com força entre os tambores principais de moagem, impedindo que girassem.

Enfiei a mão com cuidado no funil, evitando as bordas afiadas como navalhas das lâminas paradas, e agarrei a borda da pilha grossa de fotografias. Puxei com força, balançando o papel brilhante pra frente e pra trás até ele deslizar livre dos dentes das engrenagens.

Puxei a pilha pra fora da máquina e segurei sob a luz fluorescente crua. Limpei uma mancha do líquido vermelho grosso da foto de cima com o polegar.

Olhei pra imagem e um frio paralisante profundo tomou conta do meu corpo inteiro.

A fotografia mostrava um menino parado no centro de um quarto pequeno e bagunçado. O menino segurava um dinossauro de plástico e sorria brilhante pra câmera. O quarto era completamente familiar. Os pôsteres na parede, o lençol estampado, o formato específico da moldura da janela. Era o meu quarto de infância. O menino na foto era eu, com uns sete anos.

Eu estava olhando pra uma fotografia minha que nunca tinha visto antes.

Meus olhos desceram do meu rosto sorridente de criança pro fundo da imagem. O quarto estava iluminado pelo flash da câmera, projetando uma sombra escura e nítida na parede de gesso acartonado pintada atrás do meu eu mais novo.

A sombra não pertencia a um menino de sete anos.

A sombra projetada na parede da fotografia era gigantesca e deformada. Tinha membros alongados com múltiplas articulações que se estendiam pelo teto e uma cabeça que se abria num bico irregular sem dentes. Era exatamente a forma da entidade sombria mostrada nos diagramas da pasta vermelha que eu tinha acabado de ler.

Minhas mãos começaram a tremer violentamente. Passei pra próxima fotografia da pilha.

Era uma imagem minha na formatura do ensino médio. Eu estava parado num campo de futebol americano gramado, usando capelo e beca azul. A sombra que se estendia pela grama atrás de mim era enorme, com dedos longos e sombrios enrolados nos tornozelos dos outros alunos por perto.

Passei pra próxima foto. Era uma imagem tirada só uns meses atrás, me mostrando sentado sozinho na minha cozinha apertada, com cara de exausto. A sombra deformada já não estava só na parede atrás de mim. Estava se expandindo, consumindo as bordas da fotografia, sua massa escura lentamente rastejando na direção do meu corpo físico na imagem.

Eu estava parado no subsolo frio sem janelas, segurando uma pilha de fotografias impossíveis, percebendo com horror absoluto que estava preso num paradoxo aterrorizante.

A regra número três dizia explicitamente que, se eu encontrasse uma fotografia minha, tinha que triturá-la imediatamente sem tirar os olhos da imagem.

Eu precisava enfiar as fotografias nas lâminas giratórias agora. Mas o triturador industrial estava emperrado e completamente parado. Pra desemperrar e ligar a máquina, eu tinha que seguir a regra número dois. Tinha que desconectar o cabo de força, virar as costas pra máquina e ficar de frente pro canto de concreto da sala.

Eu não podia obedecer à regra três porque tinha falhado em obedecer à regra dois.

Fiquei olhando pra foto de cima do meu quarto de infância. Enquanto observava a superfície brilhante, a tinta escura que formava a criatura sombria começou a se mexer. O movimento foi incrivelmente sutil no começo, só uma leve ondulação do pigmento escuro. Depois, a sombra bidimensional virou a cabeça deformada independentemente da imagem congelada do meu eu mais novo. O bico sem rosto e irregular se inclinou pra fora, olhando diretamente pra mim através do papel brilhante.

A entidade estava se movendo dentro do espaço plano da fotografia.

Ao mesmo tempo, o zumbido elétrico baixo e sofrido do motor emperrado do triturador começou a mudar. O zumbido mecânico ficou mais grave, adotando um som de batida pesada e rítmica que vibrava pela sola dos meus sapatos. Parecia exatamente o som de um coração enorme e acelerado ecoando da barriga de aço da máquina.

O líquido vermelho grosso acumulado no funil começou a emitir um cheiro poderoso e sufocante. Cheirava forte a cobre cru e ao cheiro metálico de ozônio. O líquido começou a borbulhar rápido, transbordando pela borda do funil e espirrando no chão de concreto. Ele se estendeu pra fora, movendo contra a gravidade, alcançando pelo concreto empoeirado como veias pulsantes que cresciam, rastejando lentamente na direção dos bicos das minhas botas de trabalho pesadas.

Notei uma mudança repentina na iluminação da sala. O único tubo fluorescente cru montado diretamente acima da minha cabeça começou a piscar violentamente.

A cada flash rápido de escuridão, a sombra física que eu projetava na parede de concreto do outro lado da sala mudava de forma. Minha silhueta humana normal ficava maior. Os braços se alongavam em membros impossíveis como patas de aranha. A cabeça se abria.

Minha sombra real estava imitando a forma monstruosa presa nas fotografias.

Lembrei do protocolo rigoroso de contenção escrito na pasta vermelha. Eu tinha que manter contato visual ininterrupto com a entidade, ou ela se desprenderia da superfície e me devoraria. A regra três repetia exatamente o mesmo comando. Triture as fotografias imediatamente sem tirar os olhos.

Eu precisava fazer o triturador voltar a funcionar. Precisava desemperrar enquanto mantinha os olhos fixos na fotografia que se mexia na minha mão esquerda.

Cheguei mais perto da máquina de aço enorme. Segurei a pilha de fotos na altura dos olhos, encarando diretamente o rosto sombrio e irregular que se mexia dentro do papel fotográfico brilhante do meu quarto de infância. Meus olhos ardiam do esforço de mantê-los bem abertos, apavorado até de piscar.

Enfiei minha mão direita às cegas no funil do triturador emperrado.

Meus dedos mergulharam no líquido vermelho acumulado. O líquido estava escaldante, queimando a pele dos meus nós dos dedos. Parecia grosso, muscular e quente. Parecia mergulhar a mão num monte de tecido vivo e pulsando.

Cerrei os dentes, ignorando a dor de queimadura, e tateei em volta dos tambores de aço afiados usando só o tato. Tinha que confiar inteiramente na visão periférica pra garantir que minha mão não escorregasse direto na borda cortante das lâminas.

Suor escorria pela minha testa, ardendo nos olhos. A batida de coração que saía do motor ficou mais alta, mais rápida, acompanhando o ritmo desesperado do meu próprio peito. As veias vermelhas de líquido que rastejavam pelo chão começaram a enrolar nas solas de borracha das minhas botas, apertando forte meus tornozelos.

Meus dedos às cegas roçaram num obstáculo sólido e denso preso bem fundo entre os dois cilindros principais de moagem. Agarrei o objeto com firmeza. Parecia liso, incrivelmente duro e calcificado. Parecia exatamente um pedaço de fêmur humano.

Enrolei os dedos em volta da massa dura, plantei as botas na lateral do funil de aço e puxei pra cima com cada grama de força física que eu tinha.

O obstáculo se mexeu, raspando alto contra as lâminas de aço, e de repente se soltou das engrenagens. Puxei a mão pra fora do funil e joguei a massa dura e calcificada por cima do ombro no chão de concreto.

O triturador industrial rugiu de volta à vida com um guincho metálico ensurdecedor. Os tambores pesados de aço giraram rápido, mastigando o resto do líquido vermelho e jogando uma névoa fina de spray vermelho quente no ar.

O retorno repentino do barulho ensurdecedor quebrou minha concentração por uma fração de segundo. Meus olhos se desviaram da fotografia na minha mão.

A luz fluorescente acima de mim estourou completamente, chovendo faíscas e vidro em pó nos meus ombros. A sala mergulhou em sombras profundas e pesadas, iluminada só pelo brilho vermelho fraco do painel de controle da máquina.

Olhei pra parede de concreto. A sombra gigantesca e deformada tinha se soltado do chão. Seu peso físico pressionava a sala inteira, comprimindo o ar nos meus pulmões e tornando extremamente difícil respirar. Uma onda de frio congelante tomou minha pele quando o bico irregular e enorme desceu do teto, mergulhando na direção do meu corpo físico.

Virei a cabeça pra baixo num estalo, forçando meus olhos de volta pra pilha de fotografias na minha mão esquerda. Travei minha visão na forma que se mexia dentro do papel brilhante, recusando piscar, forçando meus olhos a ficarem abertos mesmo enquanto lágrimas de dor e pânico escorriam pelas minhas bochechas.

Seguindo a regra três à risca, estiquei minha mão esquerda pra frente e enfiei a pilha inteira de fotografias direto nas lâminas giratórias e rugindo do triturador.

Os dentes de aço pegaram o papel brilhante na hora, puxando a pilha pra dentro do mecanismo de moagem com um estalo violento.

No momento em que as lâminas mastigaram a primeira fotografia, uma onda de náusea física forte me acertou no estômago. Uma dor aguda e cegante explodiu na nuca, como se uma agulha longa e quente estivesse sendo enfiada direto no meu cérebro. Caí de joelhos no chão de concreto, segurando a cabeça com as duas mãos, ofegando em busca de ar enquanto a máquina continuava devorando as imagens do meu passado.

A cada fotografia que passava pelas lâminas giratórias, o peso esmagador na sala diminuía um pouco. Um grito agudo e perfurante de agonia pura ecoou pelo subsolo sem janelas, parecendo metal rangendo e carne rasgando. O som não vinha da máquina. Vinha da sombra gigantesca que pressionava as paredes.

O triturador puxou a última fotografia pro funil, moendo o papel brilhante em poeira branca fina.

O grito agonizante parou abruptamente, deixando só o rugido mecânico constante da máquina industrial. A dor aguda no meu crânio diminuiu pra uma dor latejante surda. A náusea recuou, permitindo que eu respirasse fundo o ar empoeirado.

Abri os olhos devagar e olhei pra parede de concreto. Minha sombra tinha voltado ao normal — uma silhueta humana comum projetada fracamente pelo brilho vermelho do painel de controle. Olhei pras minhas botas. As veias vermelhas de líquido que rastejavam tinham secado completamente, virando um pó de toner cinza-escuro inofensivo que esfarelava quando mexi os pés. Olhei pra minha mão direita. O tecido escaldante e pulsante tinha sumido, deixando minha pele coberta só de tinta vermelha pegajosa inofensiva.

A batida pesada de coração do motor suavizou, voltando pro ronronar mecânico normal. A esteira rolava firme.

Fiquei sentado no chão frio de concreto pelo resto da noite, olhando fixo pras lâminas giratórias. Não toquei em mais nenhuma caixa. Não me mexi. Só escutei o zumbido da máquina e esperei as horas passarem.

Exatamente às oito da manhã, as pesadas portas de metal do elevador de serviço deslizaram abrindo. O supervisor de terno caro feito sob medida entrou na sala, segurando uma xícara de cerâmica de café.

Ele parou a alguns metros de mim, os olhos varrendo o chão de concreto. Notou o pó de toner cinza seco espalhado em volta das minhas botas, o vidro estilhaçado da lâmpada fluorescente e a tinta vermelha manchando minha mão direita.

Um sorriso lento e genuíno se abriu no rosto dele.

“Bom trabalho”,  
disse ele, dando um gole no café.

“Pra ser sincero, não achei que você ia sobreviver à noite. A taxa de rotatividade do turno da meia-noite é absurdamente alta.”

Levantei devagar do chão, as pernas tremendo um pouco. Fiquei olhando pra ele, a mente ainda girando com os acontecimentos da noite.

“Que lugar é esse?”,  
perguntei, com a voz rouca e trêmula.

“Que máquina é essa? Que arquivos eram aqueles?”

O supervisor caminhou até o painel de controle e apertou o botão vermelho, desligando o triturador rugidor. O silêncio repentino na sala foi chocante.

“Nós somos um escritório de advocacia”,  
disse ele calmamente, encostando na lateral do funil de aço.

“Mas não representamos clientes humanos e não praticamos direito corporativo comum. Nós defendemos a realidade básica. Nosso mundo está constantemente se sobrepondo a outras dimensões, lugares cheios de entidades que desafiam a lógica biológica e as leis físicas. Quando essas entidades escapam e causam incidentes, nós documentamos os eventos, contemos as anomalias e destruímos as provas.”

Ele deu um tapinha na carcaça grossa de aço do triturador industrial.

“A crença humana é uma âncora poderosa”,  
explicou.

“Se as pessoas lembrarem dessas criaturas, se os conceitos criarem raiz na consciência coletiva, as entidades ganham a capacidade de se manifestar permanentemente. Pra eliminar toda lembrança da mente humana, nós usamos essa máquina, e tenho certeza que você já percebeu que não é só um triturador mecânico. É uma entidade contida e projetada pra consumir e apagar âncoras conceituais. Quando ela tritura um arquivo, o conhecimento daquele evento é lentamente apagado da realidade.”

Ele olhou pra mim, o sorriso sumindo num semblante sério e profissional.

“Você é o primeiro técnico a sobreviver ao primeiro turno em mais de um ano”,  
disse ele.

“O funcionário anterior quebrou a regra número quatro. Ele ouviu alguém batendo nas pesadas portas de aço do elevador às três da manhã e deixou a pessoa que estava batendo entrar na sala. Nunca encontramos o corpo dele. Você devia ter muito orgulho de si mesmo por ter conseguido resolver o emperramento. Esteja pronto. Temos um backlog enorme de arquivos chegando hoje à noite.”

Caminhei até a mesinha no canto e peguei meu casaco. Limpei a tinta vermelha seca da mão com uma toalha de papel.

Fui em direção ao elevador de serviço e apertei o botão de chamada. Aceitei o fato de que ia voltar à meia-noite. Aceitei que precisava do dinheiro e que, pra manter esse emprego bem pago, eu ia ter que alimentar lentamente o resto da minha vida nas lâminas rugidoras da máquina.

Meu bebê acorda a cada duas horas. O monitor me mostrou o que está causando isso

Mesmo antes de ter o bebê, eu já sabia que não ia querer dormir na mesma cama que ele. Fui traumatizada bem cedo quando alguém da minha cidade natal perdeu um recém-nascido porque o marido alcoólatra rolou em cima da criança no meio da noite e sufocou o coitadinho. Foi o assunto da cidade por anos.

Eu sabia, quando alugamos nossa casa, que precisava garantir que teria espaço suficiente pra um quarto de bebê. Por sorte, encontramos o lugar perfeito, que tinha dois quartos no andar de cima praticamente colados, separados só por um corredor minúsculo. O quarto do bebê nem tinha porta, então eu sabia que, se deixasse a porta do nosso quarto aberta, sempre conseguiria ouvir o choro do bebê mesmo se caísse no sono. Bem do outro lado do corredor, mas não perto demais pra ficar desconfortável.

No começo, achei que ter um espaço separado do bebê ia me deixar mais tranquila. Nós dois tínhamos nosso cantinho na casa e, por algum motivo, isso me fazia sentir segura.

No início estava tudo bem. O bebê estava contente e, por umas três semanas, meu marido, Kobe, conseguiu ficar em casa comigo depois do parto pra me ajudar com tudo enquanto eu me recuperava. Fiquei grata pela ajuda dele, mas ele teve que voltar logo pro trabalho. Ele planeja tirar uma licença paternidade mais longa daqui uns meses, mas o emprego dele é importante e precisam dele lá pelos próximos dois meses no mínimo. Ele é engenheiro e estão reformando o aeroporto de jatos local. “É difícil colocar uma coisa dessas em espera”, foi o que ele disse quando o assunto surgiu. Não o culpo. No começo eu até pensei que ia curtir o tempo sozinha com o bebê. Cara, como eu tava errada pra caralho.

Durante a segunda semana que o Kobe voltou pro trabalho, o bebê começou a ficar bem chorão e irritado comigo. Nosso médico disse que provavelmente era cólica, mas eu não conseguia parar de pensar que tinha alguma outra coisa errada. Fiquei acordada horas pesquisando maneiras de ajudar e possíveis causas pra falta de sono do bebê. E o choro. Meu Deus, o choro. Como um relógio, a cada duas horas exatas. Ele acorda berrando. Minhas pesquisas sempre me levavam pro que o médico falou: cólica. Eu só não conseguia tirar da cabeça que não parecia certo. Pode me chamar de louca, mas acho que era intuição de mãe. Na verdade, agora eu sei que era.

Eu sei o que todo mundo vai dizer: “Essa vadia definitivamente tá com algum problema pós-parto”. Só posso te contar os fatos. Não acredita se não quiser, mas eu preciso botar isso pra fora. Se tiver a menor chance de isso chegar pra alguém que passou por algo parecido com o que vou contar, então não dou a mínima se o mundo inteiro achar que eu sou pirada pra caralho. Se você estiver aí fora, por favor.

Acordar a cada duas horas com um bebê berrando me deixou num estado de zumbi. Quando consigo dormir um pouco, não parece descanso nenhum. Já tive até episódios de paralisia do sono, onde não consigo mexer o corpo mas a mente fica alerta esperando o choro começar. Só aconteceu algumas vezes, mas o que tem rolado é muito pior.

Toda vez que consigo pegar no sono, sou acordada por uma voz gutural dizendo “acorda acorda”. Toda vez que escuto isso, acordo em pânico total. Imediatamente seguido pelo som do bebê uivando. É tipo um despertador do caralho que toca logo antes do bebê chorar. A cada. Duas. Horas. Eu fico cochilando e acordando nessas duas horas e sempre sou despertada por aquela voz. Eu sei que pode ser só minha cabeça desabando. Li todos os livros de mãe de primeira viagem. Até li as coisas que eles não querem que você saiba. Tipo como muitas vezes você precisa de pontos na vagina depois do parto, quanto sangue você perde nos dias seguintes e como isso tudo torna ir ao banheiro uma expedição nojenta. Eu sei o que esperar do pós-parto. Isso parece diferente.

Eu não me reconheço mais. As olheiras enormes que sustentam meus olhos quando me olho no espelho convenceriam qualquer um de que tô ficando doida. Aqui estou eu ainda tentando te convencer que não sou louca, mesmo sabendo que quanto mais eu tento, menos sã pareço. Enfim, já falei o que precisava.

Mas vocês têm razão. Eu poderia simplesmente culpar a falta de sono. Psicose pós-parto. Tanto faz. Se não fosse pelo que eu vi às 6h da manhã hoje.

Meu marido sugeriu instalar o monitor do bebê pra me ajudar a ficar de olho no nosso filho enquanto tento dormir no outro quarto. Achei isso idiota no começo porque os quartos são bem próximos, mas foi um presente do chá de bebê, então não consegui pensar num bom argumento contra. Achei que não fosse precisar, mas conforme comecei a sofrer e dormir cada vez menos, comecei a ver a utilidade de ter a câmera do meu lado pra evitar algumas idas e vindas pro quarto do bebê. Amamentar em cima de tudo isso deixou meu corpo extremamente fraco. Até andar já tá ficando difícil.

Às 4h da manhã hoje eu fiz algo que nunca imaginei fazer. O bebê estava gritando de novo, então eu procurei desesperada no ChatGPT como fazer meu bebê dormir. Depois de dar pra IA todo o contexto da situação, ela teve a ideia brilhante de eu colocar um alarme um minuto antes da próxima marca de duas horas. Ela disse, e eu cito: “Talvez o bebê esteja sendo incomodado por algum problema sensorial. Faróis de carro vindo de fora. Uma corrente de ar frio. Uma textura ruim do cobertor. Algumas crianças são mais sensíveis que outras.” Como eu mesma tive problemas sensoriais quando criança, pensei: por que não, porra? Vou acordar só um segundinho antes e estudar o ambiente do bebê no monitor pra ver se tem algo que pode estar acordando ele. Improvável, mas eu não tinha absolutamente nada a perder e sonhava que tudo isso acabasse por causa de algo simples como a textura de um cobertor.

Eu realmente não achava que ia descobrir nada. O alarme tocou e eu acordei com os olhos borrados. Demorei alguns segundos pra focar antes de ver **aquilo** no monitor. Uma silhueta alta e preta inclinando a cabeça pra dentro do berço do meu bebê. Parecia ter forma humana, mas muito mais alta. O rosto dela se mexia. Não virava, mas mudava.

Eu congelei. Dez segundos, talvez vinte. O que me tirou do transe foi o som vindo do monitor. Ela abaixou a cabeça bem do lado do meu bebê e sussurrou “acorda acorda”.

O monitor deixou a voz com um som mecânico e rouco pra caralho. Eu agarrei o monitor e soltei um grito sofrido. Isso deve ter alertado a figura, porque assim que fiz barulho ela agarrou as grades do berço, se levantou devagar e olhou. Não pra porta. Nem pro berço. Mas diretamente pra câmera do monitor.

Eu ouvi o bebê uivar, larguei o monitor e corri pro quarto dele. A coisa tinha sumido. Não vi mais desde então, mas tô cagando de medo que ela volte. Por uma fração de segundo, quando ela olhou na minha direção, o rosto da figura pareceu se transformar na forma de algum animal. Um cachorro? Uma hiena? Um búfalo? Juro por Deus. Era como se a forma fosse fluida. Se mexendo. Mudando. Num segundo eu achei que vi uma pessoa com rosto comprido e no outro vi um búfalo com chifres.

Eu não sei o que vi, mas agora eu sei o que está fazendo aquele barulho horrível e não vou mais dormir. Tô morrendo de medo de ouvir de novo. De ela voltar. Quero ligar pro meu marido pra pedir pra ele voltar pra casa, mas não sei se consigo contar tudo sem ele querer me internar num hospital. Demorei demais pra escrever isso. Meu filho ainda tá chorando e eu só tenho 24 minutos antes das 8h. E se não parar? Quando isso vai parar? Por favor. Como eu faço pra fazer parar?

Se eu não atualizar nas próximas 2 horas, por favor liguem pro aeroporto de jatos e perguntem pelo Kobe. Perguntem se o nome da esposa dele é Felicia .
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon